TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 1
Por que é importante estudar história do pensamento econômico?
"Em primeiro lugar,
professores ou alunos que tentam agir com base na teoria de que o tratado mais
recente é tudo o que precisam logo descobrirão que estão complicando as coisas
desnecessariamente. A menos que esse tratado recente apresente um mínimo de aspectos
históricos, nenhuma quantidade de correção, originalidade, rigor ou elegância
impedirá que uma sensação de falta de direção e significado se faça presente.
Isso ocorre porque, seja qual for a área, os problemas e métodos em uso em um
dado momento incorporam as conquistas e carregam as marcas de trabalhos
realizados no passado sob condições completamente diferentes.
O significado e a validade
tanto dos problemas quanto dos métodos não podem ser plenamente compreendidos
sem o conhecimento dos problemas e métodos anteriores dos quais eles [o
significado e a validade] são a resposta (provisória). A análise científica não
é simplesmente um processo logicamente consistente que começa com algumas
noções primitivas e depois adiciona novas informações de forma linear. Não é
simplesmente a descoberta progressiva de uma realidade objetiva — como, por
exemplo, a descoberta na bacia do Congo. Trata-se, antes, de uma luta
incessante com as criações de nossas próprias mentes e das mentes de nossos
predecessores, e esse "progresso", quando ocorre, se dá de forma
entrecruzada, não por lógica, mas pelo impacto de novas ideias, observações ou
necessidades, e também conforme ditam as inclinações e temperamentos de novos
homens [teoria da mudança de paradigma de Khun, aparecida depois de
Schumpeter].
Portanto, qualquer tratado
que tente apresentar "o estado atual da ciência" na verdade apresenta
métodos, problemas e resultados que são historicamente condicionados e só fazem
sentido em referência ao contexto histórico em que surgiram. Para dizer a mesma
coisa de outra forma: o estado de qualquer ciência em um dado momento implica
sua história passada e não pode ser satisfatoriamente transmitido sem tornar
essa história implícita explícita. Permitam-me acrescentar desde já que esse aspecto
pedagógico será levado em consideração ao longo de todo o livro e que guiará a
escolha do material para discussão, por vezes em detrimento de outros igualmente
importantes.
Em
segundo lugar, nossas mentes são capazes de extrair novas inspirações do estudo
da história da ciência. Algumas o fazem mais do que outras, mas provavelmente
poucos são os que não extraem dela qualquer benefício. A mente de um homem deve
ser de fato lenta se, ao se distanciar do trabalho de seu tempo e contemplar as
vastas cadeias de montanhas do pensamento passado, ele não experimentar uma
expansão de seus próprios horizontes...
Mas,
além da inspiração, cada um de nós pode colher lições da história de sua
ciência que são úteis, ainda que às vezes desencorajadoras. Aprendemos sobre a
futilidade e a fertilidade das controvérsias; sobre desvios, esforços
desperdiçados e becos sem saída; sobre períodos de crescimento interrompido,
sobre nossa dependência do acaso, sobre como não fazer as coisas, sobre as
margens de manobra a serem compensadas. Aprendemos a entender por que estamos
onde estamos e também por que não estamos mais longe. E aprendemos o que
funciona, como e por quê — uma questão à qual daremos atenção ao longo deste
livro.
Em
terceiro lugar, a maior afirmação que se pode fazer sobre a história de
qualquer ciência, ou da ciência em geral, é que ela nos ensina muito sobre os
caminhos da mente humana. Certamente, o material que apresenta diz respeito
apenas a um tipo específico de atividade intelectual. Mas, dentro desse campo,
suas evidências são quase idealmente completas. Ela demonstra a lógica no
concreto, a lógica em ação, a lógica aliada à visão e ao propósito. Qualquer
campo da ação humana demonstra a mente humana em funcionamento, mas em nenhum
outro campo chegamos tão próximo dos métodos reais de trabalho, porque em nenhum
outro campo as pessoas se dão tanto ao trabalho de relatar seus processos
mentais. Diferentes homens se comportaram de maneiras diferentes a esse respeito.
Alguns, como Huygens, foram francos e diretos; outros, como Newton, foram
reservados. Mas mesmo os cientistas mais reservados são obrigados a revelar
seus processos mentais, porque o desempenho científico — ao contrário do
político — é autorrevelador por natureza. É principalmente por essa razão que
se reconheceu muitas vezes — de Whewell e J.S. Mill a Wundt e Dewey — que a
ciência geral da ciência (a Wissenschaftslehre alemã) não é apenas lógica
aplicada, mas também um laboratório para a própria lógica pura. Ou seja, os
hábitos ou regras de procedimento científicos não devem ser julgados meramente
por padrões lógicos que existem independentemente deles; eles contribuem para
esses padrões lógicos e reagem a eles...
Em
quarto lugar, é razoável supor que os argumentos precedentes, pelo menos os
apresentados nos dois primeiros tópicos, se aplicam com ainda mais força ao
caso específico da economia. Analisaremos em breve as implicações do fato óbvio
de que o objeto de estudo da economia é, em si, um processo histórico único... de
modo que, em grande medida, a economia de diferentes épocas lida com conjuntos
distintos de fatos e problemas. Só esse fato já seria suficiente para aumentar
o interesse pela história da doutrina econômica. Mas vamos descartá-lo por
enquanto para evitar repetições e enfatizar outro fato.
Veremos
que à economia científica não falta continuidade histórica. Na verdade, nosso
principal objetivo é descrever o que pode ser chamado de processo de Filiação
de Ideias Científicas — o processo pelo qual os esforços humanos para
compreender os fenômenos econômicos produzem, aprimoram e destroem estruturas
analíticas em uma sequência incessante. E uma das principais teses a serem
estabelecidas neste livro é que, fundamentalmente, esse processo não difere dos
processos análogos em outros campos do conhecimento. Mas, por razões que também
pretendemos esclarecer, essa filiação de ideias encontrou mais inibições em
nossa área do que em quase todas as outras.
Poucas
pessoas... estão dispostas a nos parabenizar por nossas conquistas
intelectuais. Além disso, nosso desempenho é, e sempre foi, não apenas modesto,
mas também desorganizado. Métodos de apuração e análise de fatos que são e eram
considerados inadequados ou equivocados por princípio por alguns de nós
prevalecem e prevaleceram amplamente sobre outros. Embora seja possível — como
tentarei demonstrar — falar em nome de cada época da opinião profissional
estabelecida sobre temas científicos, e embora essa opinião muitas vezes tenha
resistido ao teste de resistência contra fortes divergências políticas, não
podemos falar com a mesma segurança que os físicos ou os matemáticos...
E
o remédio óbvio para as deficiências das obras de síntese é o estudo da
história doutrinária: muito mais do que na física, por exemplo, é verdade que
na economia os problemas, métodos e resultados modernos não podem ser
plenamente compreendidos sem algum conhecimento de como os economistas chegaram
ao seu raciocínio. Além disso, muito mais do que na física, resultados se
perderam ao longo do caminho ou permaneceram em suspenso por séculos...
Sugestões estimulantes e lições úteis, ainda que desconcertantes, têm muito
mais probabilidade de chegar ao economista que estuda a história de sua ciência
do que ao físico que, em geral, pode contar com o fato de que quase nada de
valioso se perdeu do trabalho de seus antecessores. Por que, então, não começar
de uma vez outra história de conquista intelectual?”