Do
séc. XVI ao séc. XVII (2)
Há
mais dois aspectos dessa teoria do valor de troca que merecem ser observados.
Por um lado, os escolásticos tardios identificaram seu preço justo não,
como Aristóteles e também Duns Scotus parecem ter feito, com o preço
competitivo normal, mas com qualquer preço competitivo (communis
estimatio fori ou pretium currens). Sempre que tal preço existisse, era “justo”
pagá-lo e aceitá-lo, independentemente das consequências para as partes
envolvidas na transação: se os comerciantes, pagando e aceitando os preços de
mercado, obtivessem lucros, tudo bem, e se sofressem perdas, isso era sua má
sorte ou então uma penalidade por incompetência, desde que o ganho ou a perda
resultasse do funcionamento irrestrito do mecanismo de mercado, mas não se
resultasse, por exemplo, da fixação de preços por autoridades públicas ou
empresas monopolistas.
A
desaprovação de Molina à fixação de preços, ainda que qualificada, e sua
aprovação dos ganhos decorrentes de preços competitivos elevados em tempos de
escassez são, sem dúvida, derivados de juízos éticos. Mas revelam uma percepção
das funções orgânicas dos ganhos comerciais e das flutuações de preços que os
geram, um fato que representa um avanço considerável na análise. Isso deve ser
considerado, pois, em regra, não costumamos buscar nos escolásticos
a origem das teorias associadas ao liberalismo laissez-faire do século XIX. Por
outro lado, os escolásticos tardios analisaram a própria atividade econômica —
a indústria de Santo Antonino — e, particularmente, a atividade comercial e
especulativa, de um ponto de vista diametralmente oposto ao de Aristóteles.
O
Homem Econômico dos tempos posteriores [Inglaterra séc. XVIII] surgiu da
concepção de “razão econômica prudente” — uma expressão
tomista que adquiriu uma conotação totalmente não tomista pela interpretação de
De Lugo, segundo a qual essa prudência implica a intenção de obter lucro por
todos os meios legítimos, o que não significava aprovação moral da busca
desenfreada pelo lucro. Nesse sentido, é seguro presumir que os sentimentos
de De Lugo, ou de qualquer outro doutor escolástico, não diferiam dos de
Aristóteles... Mas isso representou uma análise aprimorada dos fatos comerciais
que foi, naturalmente, em parte induzida pela observação dos fenômenos do
capitalismo em ascensão.
Esse
caráter realista da obra dos escolásticos tardios deve ser particularmente
enfatizado. Eles não se limitavam a especular. Eles realizaram toda a pesquisa
factual possível em uma época sem serviços estatísticos. Suas generalizações
invariavelmente surgiram de discussões sobre padrões factuais e foram
abundantemente ilustradas por exemplos práticos. Lessius descreveu o
funcionamento da bolsa de valores de Antuérpia (bursa). Molina saiu de seu
escritório para entrevistar empresários sobre seus métodos. Algumas de suas
investigações sobre as condições econômicas de sua época e país, como seu
estudo sobre o comércio de lã espanhol, equivalem a pequenas monografias. No
que diz respeito ao dinheiro, basta registrar os quatro pontos seguintes. Primeiro,
raciocinando segundo a linha aristotélica, os doutores escolásticos
apresentaram, praticamente sem exceção, uma teoria estritamente metalista do
dinheiro que, em seus fundamentos, não diferia da de A. Smith; encontramos
a mesma dedução genética ou pseudo-histórica da necessidade de evitar os
inconvenientes da troca direta, a mesma concepção do dinheiro como a mercadoria
mais vendável, e assim por diante. Em segundo lugar, eles não eram
apenas metalistas teóricos, mas também práticos, desaprovando, com diferentes
graus de severidade, a degradação e qualquer ganho que dela adviesse para os
príncipes [que nessa época usavam de retirar uma parte do metal precioso da
moeda e guardar para si, sem diminuir o valor da moeda]. O estudante moderno de
teoria monetária, que talvez simpatize com esses príncipes e se sinta inclinado
a considerá-los dignos predecessores dos governos [intervencionistas] de sua
época, deve observar que os doutores abordaram apenas superficialmente os
efeitos econômicos da desvalorização. Eles perceberam o efeito sobre os
preços e sentiram que credores e detentores de moeda estavam sendo lesados, mas
isso foi praticamente tudo. Mesmo nessas questões, sua análise não foi além
do óbvio, e a ideia de que a desvalorização — e outros métodos para aumentar a
quantidade de unidades monetárias em circulação — poderia estimular o comércio
e o emprego era completamente estranha a eles; essa ideia surgiu pela primeira
vez com os homens de negócios que escreveram sobre política monetária no século
XVII. Como essa ideia foi quase totalmente ignorada pelos “clássicos”
ingleses do século XIX, temos aqui mais uma daquelas curiosas afinidades doutrinárias
que existem entre John Stuart Mill (1806–1873) e o Padre Molina. Terceiro, nós observamos,
para futuras referências, que alguns dos doutores escolásticos, principalmente
Mercado, esboçaram com alguma clareza aquilo que seria chamada teoria
quantitativa da moeda, pelo menos no sentido em que Bodin, décadas depois, a
concebia. E, em quarto lugar, eles abordaram diversos problemas
relacionados à cunhagem de moedas, ao câmbio, aos movimentos internacionais de
ouro e prata, ao bimetalismo e ao crédito de uma maneira que mereceria mais
atenção e que se compara favoravelmente, em alguns pontos, com trabalhos
muito posteriores.
Oresme, op. cit. cap. XV: Quod lucrum quod provenit Principi ex
mutatione monetae sit injustum [1Que o lucro obtido pelo príncipe pela mudança
(adulteração) da moeda é injusto]... Este adágio e outros semelhantes ressoam
de um grande coro de vozes que se ergueram em protesto contra as práticas
governamentais ilícitas durante aqueles séculos de desordens monetárias quase
incessantes. Mas alguns escritores que se juntaram a esse coro não eram
metalistas teóricos. Para citar um exemplo, François Grimaudet (Des Monnoyes,
1576), embora insista que o valor nominal de uma moeda não deve ultrapassar o
valor do material, exceto ‘para gerar um pequeno lucro’, afirma explicitamente
que a ‘essência do dinheiro’ está nesse valor nominal e não na matéria [é uma
imposição do estado]. Em geral, creio que valor impositus deva ser traduzido
como valor nominal, valor intrinsecus como valor material e valor extrinsecus
como poder de compra (que, no entanto, também é chamado de potestas).
Quantitas também significa valor nominal, e não quantidade. A desvalorização é
denotada por mutatio, corruptela ou augmentum. O último termo corresponde ao
uso inglês dos séculos XVI e XVII (e até mesmo posteriores), quando
“aumentar” o valor da moeda significava depreciação ou
desvalorização... Há algumas diferenças, em parte explicadas pelo fato de terem
em mente situações diferentes, em suas soluções para o problema do pagamento de
dívidas contraídas em uma moeda que posteriormente se desvalorizou. Este é o
problema que realmente interessou ao público e é responsável pelo fluxo
interminável de publicações desse tipo. Mas as respostas são ajustes práticos e
não nos interessam.
Ao
contrário da opinião de alguns, os doutores escolásticos não elaboraram
nenhuma teoria sobre o aspecto físico da produção (‘capital real’), embora
eventualmente — desde Santo Antonino — tenham delineado uma teoria sobre o
papel do capital monetário na produção e no comércio. Tampouco possuíam uma
teoria integrada da distribuição, ou seja, não aplicaram seu incipiente aparato
de oferta e demanda ao processo de formação de renda como um todo. Além disso,
a renda da terra e os salários do trabalho ainda não haviam se tornado
problemas analíticos para eles. No caso do aluguel, isso talvez se devesse ao
fato de que, para os agricultores que cultivavam a própria terra, o elemento
aluguel não demonstrava facilmente seu caráter distintivo, e que os aluguéis
pagos aos proprietários, na época dos teólogos, estavam tão misturados com
outras obrigações de natureza diversa que o aluguel econômico, que além disso
era tradicionalmente fixo, não se manifestava de forma muito clara nem mesmo
nesse caso. No caso dos salários, também, eles não fizeram a pergunta teórica;
presumivelmente, achavam que ninguém precisava que lhe dissessem para que
serviam os salários. Eles ofereceram, de fato, considerações morais e
recomendações sobre políticas públicas. Contudo, mesmo as recomendações de
Santo Antonino, notáveis pela ampla simpatia
social que as inspirou, não
se baseiam em fundamentos analíticos
do tipo que nos interessa. O mesmo se aplica à considerável literatura
que se desenvolveu no século
XVI sobre o auxílio
aos pobres, o desemprego, a mendicância e outros temas semelhantes, para a
qual os doutores contribuíram abundantemente.
Muito
mais importantes foram suas contribuições para as teorias dos dois tipos de
renda que consideravam problemas analíticos: os lucros empresariais e os juros.
A teoria do risco-esforço para o lucro empresarial deve-se, sem dúvida, a eles.
Em particular, pode-se mencionar que de Lugo — seguindo uma sugestão de São
Tomás — descreveu os lucros empresariais como “uma espécie de salário” por um
serviço social. Não menos certo é que eles lançaram a teoria dos juros. Até
agora, nosso esboço da economia escolástica foi feito sem muita atenção à sua
filosofia metodológica, que será discutida na próxima seção, e também sem muita
atenção aos processos lógicos envolvidos na separação do elemento analítico no
raciocínio dos doutores das considerações normativas nas quais estava inserido.
Para exibir esses processos e mostrar precisamente como eles chegaram a
formular a pergunta que foram os primeiros a formular — ou seja, a questão de
por que os juros são de fato pagos — seremos, no caso dos juros, mais
cuidadosos ao realizar essa separação.
Assim,
o motivo normativo [orientar moralmente o indivíduo cristão nas atividades
econômicas], tantas vezes inimigo do trabalho analítico paciente, neste caso,
tanto estabeleceu a tarefa quanto forneceu o método para os analistas
escolásticos. Uma vez estabelecida, a tarefa era estritamente científica e
logicamente independente da teologia moral cujos propósitos deveriam ser
atendidos. E o método também era estritamente científico; em particular, era
eminentemente realista, visto não envolver nada além da observação dos
fatos e sua interpretação: era um método de elaboração de princípios gerais a
partir de “casos”, de certa forma semelhante ao método da jurisprudência
inglesa. A teologia moral entrava em cena somente após a conclusão do trabalho
analítico em cada caso, para integrar o resultado às suas regras. [Ou
seja, os doutores escolásticos não só ajudaram a desenvolver enormemente a
análise econômica herdada de Aristóteles, como o fizeram aplicando aquilo que
seria conhecido no futuro de método científico, se é que isso hoje, no mundo
das narrativas, das ideologias, importa alguma coisa].
Nota
Schumpeter
Para os
nossos propósitos, a história da legislação sobre juros, seja ela proveniente
de autoridade temporal ou espiritual, não é de grande importância... Não
obstante, alguns fatos sobre a política da Igreja Católica podem ser bem-vindos
neste ponto. Nos tempos do Império Romano, a Igreja Católica lidou com os juros
com muita cautela, apesar das opiniões de Aristóteles e São Lucas. O Concílio
de Niceia (325) não foi além de uma proibição dirigida ao clero, embora tenha
havido uma desaprovação mais geral. O passo decisivo, que também incluiu a
declaração de que a legislação secular em contrário era inválida (São Tomás não
pensava assim), só foi dado em 1311. A proibição foi então reafirmada muitas
vezes e ainda está em vigor. Mas sua importância prática diminuiu... Alguma
atenção a isso foi eventualmente dada na encíclica Vix pervenit, de 1745. Em
1838, uma circular instruiu os confessores a não perturbarem os penitentes que
aceitassem juros às taxas vigentes.
[Os críticos, em
especial os anacrônicos, acentuam as contradições da Igreja nesse assunto e o
seu recuo paulatino das posições inicialmente tomadas, não completamente sem
razão, pois se]... Por um lado, preceitos morais [como os revelados na Bíblia],
por mais imutáveis que sejam, produzirão resultados diferentes
se aplicados a diferentes circunstâncias; e a evolução capitalista criou
circunstâncias nas quais os casos
que se enquadravam na proibição
da usura perderam importância
rapidamente. Por outro lado, tal evolução será inevitavelmente acompanhada por subterfúgios de partes
interessadas, que tentarão
se valer de todas as possibilidades oferecidas por um sistema de regras e exceções que se torna cada
vez mais complexo. Talvez o mais famoso desses subterfúgios tenha sido o abuso
do elemento da mora [atraso ou cumprimento imperfeito de uma norma contratual],
que será mencionado adiante, mas havia muitos outros.
Esse paralelismo impressiona certamente o observador superficial, especialmente se ele não for
muito versado em literatura escolástica ou teoria econômica. Além disso,
estamos falando da doutrina escolástica em seu nível mais elevado. É claro que
não se nega que os clérigos comuns, como qualquer burocracia, cometiam muitos
erros e fomentavam o recurso a subterfúgios, tanto pela interpretação
restritiva e pouco inteligente das regras quanto pela conivência
bem-intencionada ou não com as evasões. A usura, portanto, era pecaminosa.
Mas o que é usura? Por um lado, ela não envolve necessariamente a exploração
dos necessitados: esse elemento é moralmente relevante em outros aspectos, mas
não era um componente do conceito escolástico de usura. Por outro lado, a
usura nem sempre está presente quando se estipula mais do que o reembolso da
quantia emprestada: uma simples exegese do ensinamento de São Tomás
bastava para justificar a compensação pelo risco ou trabalho do credor —
particularmente evidente na compra de títulos abaixo do valor nominal — ou a compensação
nos casos em que o credor era privado de seu dinheiro contra a sua vontade,
como em casos de empréstimos forçados, ou da falta de pagamento do devedor no
prazo estipulado (more debitoris). O ensinamento tomista chegou a sugerir a
proposição de Molina de que, como o credor de qualquer mercadoria tem, em
qualquer caso, o direito de receber de volta o seu valor total no momento do
empréstimo, mais unidades poderiam ter que ser reembolsadas do que as que foram
dadas, embora, até onde sei, isso não tenha sido aplicado a empréstimos
monetários.
De todos esses casos
emergiu o princípio de que um encargo deveria ser considerado normal ou
inquestionável sempre que o credor incorresse em qualquer perda (damnum
emergens). Alguns escolásticos argumentavam que o credor, ao emprestar
temporariamente seu dinheiro, sempre e inevitavelmente sofre tal perda. Mas a
maioria se recusava a aceitar esse ponto de vista. Tampouco admitiam que o
ganho que o credor deixa de obter ao emprestar (lucrum cessans) seja,
por si só, uma justificativa para a cobrança de juros. Admitiam, contudo,
que o ganho perdido se transforma em perda real quando a oportunidade de tal
ganho faz parte do ambiente normal de uma pessoa. Isso significava duas coisas.
Primeiro, os próprios comerciantes que detêm dinheiro para fins comerciais,
ao avaliarem esse dinheiro em função dos ganhos esperados, eram considerados
justificados em cobrar juros tanto em empréstimos diretos quanto em casos de
pagamento a prazo de mercadorias. Segundo, se a oportunidade de ganho
contingente à posse de dinheiro é bastante geral ou, em outras palavras, se
existe um mercado monetário, então todos, mesmo que não sejam comerciantes,
podem aceitar os juros determinados pelo mecanismo de mercado...
Mas isso não passa de
um caso especial do princípio de que todos podem, por justiça, pagar e solicitar o
preço corrente por tudo, e não foi inventado ad hoc [de uma hora para outra,
especificamente para esse fim]: se não é evidente no século XIII e é bastante
evidente no século XVI, isso se deve simplesmente ao fato de que os mercados
monetários eram incomuns no primeiro século e se tornaram bastante comuns no
segundo [noutras palavras, a proibição de juros no século XIII não causava
tantos danos como no século XVI]. Observe que, sempre que oportunidades
alternativas de ganho estiverem normalmente disponíveis a todos, o argumento do
ganho perdido coincidirá com o argumento da “privação”: abrir mão do ganho é,
neste caso, o que constitui a privação.
Observe ainda que, em
todos os casos mencionados, a justificação se baseia em circunstâncias que, por
mais frequentes ou mesmo gerais que prevaleçam em um determinado ambiente, são
logicamente acidentais ao contrato de empréstimo puro (mútuo), que em si nunca
foi considerado justificativa para juros. E observe, finalmente, que a
justificação nunca foi, ou quase nunca, baseada nas vantagens que o mutuário
[quem recebe o empréstimo] poderia obter com o empréstimo; baseava-se
exclusivamente nas desvantagens que o empréstimo trazia ao mutuante
[emprestador]. Deixando de lado agora a roupagem normativa da análise de
interesses escolástica e as doutrinas morais que motivaram suas pesquisas,
podemos reformular da seguinte maneira as teorias causais que suas pesquisas
desenterraram, entendendo que o quadro não pode ser considerado totalmente
satisfatório porque os doutores escolásticos não concordavam muito mais sobre a
teoria dos juros do que nós.
I. Os juros, embora
interpretados segundo o modelo mais geral de empréstimos de bens de consumo,
são essencialmente um fenômeno monetário. Não havia mérito analítico nisso. Os
doutores escolásticos simplesmente aceitaram um fato superficial, exatamente
como Aristóteles. Por vezes, relacionavam os juros sobre o dinheiro aos
retornos de bens geradores de renda, terras, direitos de mineração e similares
que podem ser comprados com dinheiro. Mas esse ponto — embora utilizado em
algumas teorias de juros dos séculos XVII e XVIII — não tinha valor analítico,
porque o preço dos bens geradores de renda e, portanto, o retorno líquido
deles, já pressupõe a existência de juros.
II. Os juros são um elemento do preço do dinheiro.
Chamá-los de preço pelo uso do dinheiro não explica nada... Em si, é uma
expressão vazia. Tampouco a analogia dos juros com prêmios explica algo. Pois
esses prêmios e descontos intertemporais são explicados pelos riscos e custos das
transferências, enquanto o juro puro, diferentemente da compensação por riscos
e custos, é um prêmio intertemporal que a analogia não ajuda a explicar. O
apelo acrítico ao mero decurso do tempo em si é inútil — são facilmente concebíveis
circunstâncias em que ele não produziria um desvio do juro zero. Embora apenas
negativas, essas proposições têm grande valor analítico. Elas esclarecem o
ponto de partida e comprovam que os doutores escolásticos — nesse aspecto, muito
superiores a nove décimos dos analistas de juros do século XIX — perceberam o
verdadeiro problema lógico envolvido. De fato, essas proposições o definem. É
por isso que se deve atribuir a eles o lançamento da teoria do juro.
III. Portanto, o desvio da taxa de juros de zero é
um problema cuja solução só pode ser encontrada pela análise das circunstâncias
particulares que explicam o surgimento de uma taxa de juros positiva. Tal
análise revela que o fator fundamental que eleva a taxa de juros acima de zero
é a prevalência do lucro empresarial — todos os outros fatos que podem produzir
os mesmos resultados não são necessariamente inerentes ao processo capitalista.
Essa proposição constitui a principal contribuição positiva da análise
escolástica da taxa de juros. Já esboçada anteriormente, foi claramente
enunciada pela primeira vez por Santo Antonino, que explicou que, embora a
moeda em circulação possa ser estéril, o capital monetário não o é, pois o seu
domínio é uma condição para se iniciar um negócio. Molina e seus
contemporâneos, embora insistissem corretamente que o dinheiro não era
produtivo “em si mesmo” e não constituía um fator de produção, adotaram uma
visão semelhante: cunharam a importante expressão de que o dinheiro era a
Ferramenta do Comerciante. Além disso, compreenderam perfeitamente o
mecanismo pelo qual esse prêmio, se a atividade empresarial capitalista for
suficientemente ativa e suficientemente importante, tenderá a se tornar um
fenômeno normal e onipresente. E suas ideias sobre lucrum cessans e damnum
emergens complementam sua análise no que diz respeito ao lado da oferta do
mercado monetário. Não foram além disso. Sua teoria dos lucros empresariais, em
particular, não foi suficientemente desenvolvida para lhes permitir colher
todos os benefícios da percepção que os levou a rastrear os juros até o
lucro como sua origem. Além disso, sendo os pioneiros nesse campo, buscaram
suas generalizações às cegas, em vez de as formularem explicitamente. Nesse
prolongado processo de busca, erraram frequentemente e utilizaram muitos
argumentos inadequados e até mesmo falhos. Mas se os tratarmos como tratamos outros
grupos de estudiosos da psicologia analítica, os méritos prevalecem amplamente
sobre as deficiências, especialmente se lhes dermos o devido crédito por muito
do que seus sucessores e até mesmo oponentes aprenderam com sua análise.
Nota de Schumpeter
Um ataque frontal à
“esterilidade do dinheiro” de Aristóteles. É interessante notar que o argumento de São Tomás ofereceu uma
pista para isso. Após ensinar que não havia razão para o dinheiro ter, em geral, um ágio, ele prosseguiu dizendo que havia usos
secundários do dinheiro nos quais algo poderia ser cobrado por ele. Esse seria
o caso, por exemplo, se alguém emprestasse dinheiro com o propósito de permitir
que o devedor o depositasse como penhor ou garantia (loco pignoris). São
Tomás certamente não pretendia incluir empréstimos comerciais nesses “usos
secundários” do dinheiro. Mas isso foi feito na obra Digressio
resolutoria… (1623) de Jacobus Ferrarius, onde o autor chegou ao ponto de
incluir todos os empréstimos feitos para quaisquer fins legítimos. [todo
o arrazoado scumpeteriano sobre o tema dos juros na Idade Média nos possibilita
dizer que qualquer afirmação de que a Igreja medieval era contrária aos juros
de maneira absoluta, por uma questão estritamente moral, é errada, pois a sua
posição tendeu a mudar ao longo do tempo, sem falar da liberdade que ela deu
aos teólogos de discutir livremente sobre isso, o que demonstra que essa
questão não era analisada do ponto de vista estrita e absolutamente moral;
aliás uma afirmação de Santo Tomás reproduzida por Schumpeter, em outra nota,
mostra a grandeza da flexibilidade mental deste homem, o protótipo da igreja
medieval]. São
Tomás chegou mesmo a afirmar que, na condição de imperfeição humana, muitas
coisas úteis seriam impedidas (multae utilitates impedirentur) se todos os
pecados fossem estritamente proibidos pela lei humana. [A ‘Idade das Travas’ iluminou a mente humana
muito mais intensamente que o ‘Século das Luzes’].
Mas, se assim for, o que acontece com a grande
batalha sobre juros entre escritores escolásticos e antiescolásticos que
supostamente ocorreu nos séculos XVI e XVII? No que diz respeito à história da
análise econômica, a única resposta é que não houve batalha. Nenhum progresso
analítico foi feito e nenhuma nova ideia analítica sobre juros foi proposta por
um longo tempo... No que diz respeito à questão moral, os teólogos protestantes
e os juristas laicos divergiam entre si sobre o tema dos juros, mas também se
contentavam em repetir argumentos forjados pelos escolásticos,
independentemente da posição que defendessem. Mas, além disso, havia uma
questão legislativa ou administrativa, e é esta que explica a controvérsia em
questão. Como vimos, os escolásticos sustentavam que os juros deviam ser
justificados por razões não inerentes ao contrato de empréstimo (mútuo) em si.
Mas isso equivalia a dizer que cada caso, ou pelo menos cada tipo de caso,
estava em julgamento e não deveria ser aprovado sem investigação.
Embora nem sempre se opusessem à legislação secular
que permitia os juros, é fácil imaginar o inconveniente que esse princípio deve
ter causado depois que os juros se tornaram um fenômeno normal. Surgiu
naturalmente a questão, que acabou sendo respondida afirmativamente pelos Papas
Pio VIII e Gregório XVI, se, em tais circunstâncias, um conjunto de regras
excessivamente complexo, por mais correto que fosse logicamente, não deveria
ser substituído pela admissão da ampla presunção de que a aceitação de uma taxa
de juros de mercado era perfeitamente aceitável. Na verdade, era tudo o que um
número crescente de escritores leigos e até mesmo religiosos exigia. Mas
eles não o formularam dessa maneira, em parte porque não conseguiam compreender
a lógica refinada dos escolásticos e, portanto, a consideravam mera sofística,
e em parte porque, sendo a maioria deles inimigos da Igreja Católica ou dos
doutores escolásticos por razões políticas e religiosas, não conseguiam
argumentar a questão da política econômica sem escárnio ou injúrias decorrentes
da disputa exógena. Isso criou a impressão de que havia uma batalha entre
princípios teóricos antigos e novos que, por distorcer a imagem de uma fase da
história da análise econômica, pareceu-me conveniente dissipar.