14 de maio de 2026
Élodie Messezant
[do site liberal francês contrepoints.org]
De 17 de abril de 2026 a 14 de
março de 2027, a Casa da História Europeia apresenta a exposição
temporária Pós-colonial, que explora “os efeitos
duradouros que a colonização e seu fim tiveram na Europa nos últimos 70
anos”. A mostra reúne mais de 195 objetos e documentos históricos sobre o
colonialismo, do século XII aos dias atuais, relatos pessoais e obras de arte.
Para Constanze Itzel, diretora do museu, o objetivo é demonstrar a
importância do legado colonial europeu, mas também “corrigir os
desequilíbrios existentes nas narrativas sobre o passado do continente”.
A intenção é perfeitamente
legítima: a história colonial, que suscita tanto debate, merece ser estudada. Mas,
numa análise mais atenta, a exposição vai além da análise histórica: oferece
uma interpretação altamente tendenciosa do passado europeu e dissemina inúmeras
imprecisões, por exemplo, no que diz respeito às supostas ligações entre
capitalismo e colonialismo. Incorre também numa simplificação excessiva
quanto à exploração dos recursos naturais pelos regimes coloniais. Mais grave
ainda, sugere claramente que o racismo estrutural ainda existe
na Europa. Este viés ideológico levanta sérias questões, tendo em conta o
financiamento europeu do museu.
Capitalismo e colonialismo
Pode-se ler, por exemplo, que “capitalismo e colonialismo andam de mãos dadas”, uma afirmação ilustrada pelo fato de
que os impérios holandês e britânico se desenvolveram por meio de
empresas privadas, “autorizadas a travar guerras em busca de lucro”.
A ideia de que capitalismo e colonialismo estão ligados é, na
verdade, uma tese clássica da tradição marxista, notavelmente retomada por
Lenin em “Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo” (1917). No entanto, ela se baseia em uma confusão entre capitalismo liberal
e capitalismo de compadrio [que acontecia, por exemplo, no mercantilismo]:
o primeiro se baseia no livre comércio, o segundo no intervencionismo estatal.
Contudo, o imperialismo está intrinsecamente ligado a uma vontade política de
controlar o comércio. Já em 1776, o economista Adam Smith se opôs ao
colonialismo por razões morais (violação do princípio da não agressão),
mas também por razões econômicas, visto que o mercantilismo é antiliberal por
natureza (monopólio da metrópole, somente as companhias privilegiadas eram
autorizadas a comercializar, etc.).
Quanto à “busca pelo
lucro”, o impacto econômico do colonialismo foi estudado por
historiadores como Paul Bairoch e Jacques Marseille, e a realidade é muito mais
complexa do que aparenta. Em *O Terceiro Mundo em Impasse* (1971),
por exemplo, Paul Bairoch conclui que não houve “benefício
macroeconômico real para os diversos países que possuíam um império
colonial”. Para Jacques Marseille, é difícil elaborar uma avaliação
econômica abrangente da colonização. Em * Império Colonial e
Capitalismo Francês: História de um Divórcio * (1984), ele se
concentra na Argélia e distingue dois períodos. No primeiro período
(1880–1930), o mercado colonial contribuiu para os “setores que então
impulsionavam o crescimento”, mas no segundo período (1930–1960), garantiu
a sobrevivência artificial “desses setores agora em declínio” em
detrimento do “surgimento de novos setores”. Jacques Marseille
acredita que a rentabilidade não é fácil de determinar, uma vez que as
exportações podem, num caso, representar um “custo adicional” e,
noutro, “cobrir custos fixos”.
Exploração de recursos
naturais
Outra ideia errada é a de que os
regimes coloniais se enriqueceram “saqueando os recursos
humanos e naturais de suas colônias”, como petróleo, urânio e cobre.
Isso é verdade no caso do cobre: sua
exploração em territórios como
Katanga, sob a colonização belga (através da Union Minière du Haut Katanga ),
gerou lucros significativos para empresas e investidores europeus. Essas
receitas contribuíram para a riqueza de grupos privados e, indiretamente, para
as potências coloniais.
Em relação ao petróleo, é preciso
fazer uma distinção importante. Em áreas como o Irã e o Iraque, as potências
europeias (notadamente por meio da Companhia Anglo-Persa de Petróleo )
se beneficiaram de concessões extremamente favoráveis desde o início do século XX, o que contribuiu para seu poderio energético e industrial. No entanto, tratava-se de um controle
indireto (concessões) e não de
exploração colonial clássica (soberania e administração
territorial), e os estados produtores gradualmente retomaram o controle entre
as décadas de 1950 e 1970 [aproveitando-se
da estrutura herdada e da tecnologia gerada nos países europeus]. Quanto ao urânio, a afirmação não se sustenta: a exploração, por
exemplo, no Níger, começou por
volta da década de 1970 com empresas como a Areva,
portanto, após a independência. Assim, é difícil apresentar esse recurso
como um fator determinante do enriquecimento dos impérios coloniais, uma vez
que estes já haviam desaparecido.
Diversos historiadores econômicos
apontaram que a industrialização europeia dependia inicialmente de recursos
domésticos, como o carvão. No início do século XX, o comércio europeu de
carvão representava 80% das exportações globais (com o Reino
Unido na liderança). Em *Mitos e Paradoxos da História Econômica *
(1994), Paul Bairoch observou que, às vésperas da Primeira Guerra Mundial,
os países desenvolvidos eram 95% autossuficientes em matérias-primas.
Racismo estrutural na Europa?
Por fim, a exposição dá um passo
além ao afirmar que as instituições europeias de hoje tratam os cidadãos de
forma diferente com base em sua origem ou aparência física. Ela evoca um
racismo estrutural presente na educação, no emprego, na habitação, na saúde e
até mesmo na polícia, herdado diretamente do passado colonial. Por exemplo,
afirma que o racismo está presente em todas as fases da vida social,
“desde a mais tenra idade”, com “segregação” na educação,
uma “disparidade salarial por motivos de raça” e desigualdades
estruturais na saúde, na habitação, no policiamento e na política. O
colonialismo e a escravidão assumiram outras formas: “Nem o colonialismo
nem a escravidão simplesmente deixaram de existir. Pelo contrário, deram origem
ao trabalho por contrato, ao neocolonialismo e a inúmeras desigualdades
persistentes.”
Que a discriminação existe na
Europa, como em outros lugares, é difícil negar. Mas falar em “racismo
estrutural” exige demonstrar que as desigualdades observadas resultam
principalmente do próprio funcionamento das instituições, independentemente de
outras variáveis. Comecemos pelo direito: os Estados europeus
contemporâneos baseiam-se em princípios de igualdade perante a lei, consagrados
tanto ao nível nacional como europeu. Esses princípios são acompanhados por
mecanismos eficazes de reparação. Portanto, não existem obstáculos legais, nem distinções,
entre cidadãos com base em critérios racistas. Na realidade, as desigualdades
que possam existir entre indivíduos na educação, no emprego ou nas condições de
vida são em grande parte explicadas por fatores socioeconômicos (nível de
escolaridade, capital cultural, dinâmica territorial, etc.). A tese
da discriminação sistêmica, portanto, não deriva de uma abordagem
científica, mas sim ativista. Além disso, é aceita no âmbito do movimento
pós-moderno, que se caracteriza pela rejeição da ideia de verdade e
objetividade: para os seus defensores, qualquer disparidade é considerada uma
prova em si mesma, independentemente de qualquer relação causal [o que é
uma loucura!].
Uma exposição financiada pelo
contribuinte europeu.
Para além dos debates históricos
que suscita, esta exposição levanta uma questão mais ampla: a utilização de
fundos públicos europeus para promover uma visão particular da história e da
identidade do continente. A questão não se centra, claramente, no estudo do
colonialismo, nem no reconhecimento da história colonial da Europa — o que é
essencial —, mas sim na oferta de uma interpretação unidimensional do presente.
O Parlamento Europeu, que financia a Casa da História Europeia com 9
milhões de euros anualmente, participa, assim, na guerra cultural contra a
Europa, à custa de todos os contribuintes.