Deputados e ilustres lideranças políticas baianas, reunidos no Jockey Clube do Rio de Janeiro, em 1933, para homenagear o interventor da Bahia, nomeado por Getúlio Vargas, Arthur Neiva, o penúltimo sentado, à direita, com braços cruzados, de óculos e paletó claro. No centro, sentado, segurando um volume, uma estrela política em ascensão na Bahia: Juraci Magalhães. Na extrema esquerda, sentado, olhando para frente, com as mãos nas coxas, o homem que desatou a tormenta: o ex-juiz, agora deputado federal Arlindo Leoni, que, embora tenha passado seus últimos anos de vida no Rio de Janeiro, ninguém o procurou para esclarecer o que aconteceu em Juazeiro, em novembro de 1896. Quem pagou o preço por tanta elegância e sofisticação, às vésperas de uma ditadura, foram os soldados e os sertanejos em Canudos (copiado de https://editoradionisi.com.br/folhaespiritacairbarschutel/2021/03/20/dr-arthur-neiva/)
A crucial questão sobre
quem manda.
O general Sólon, a
contragosto, coopera com Viana. Para ele, aquilo tinha ares de ser mais uma
questão política interna, e a forma despreocupada como o governador tratava do
assunto não era do feitio a augurar bons resultados. Havia também a delicada
questão da ausência de uma regulação legal do princípio constitucional. Quem
ficaria no comando da tropa e dirigiria as operações: o governador ou a autoridade
militar federal no estado?
No dia 4 de novembro, o
general Sólon pôs 103 praças (esse número varia um pouco) do 9º B.I. à
disposição do governador, comandadas pelo Tenente Manuel da Silva Pires
Ferreira. No dia 6, eles seguiram de trem para Juazeiro. Mas havia um problema
sério pendente, apontado pelo general Tristão de Alencar Araripe (Expedições
militares contra Canudos — seu aspecto marcial, 2ª edição, Coleção General
Benício, vol. 230, Biblioteca do Exército, Rio de Janeiro, 1985, p. 11–12).
“Não ficou registrada a
missão… dada ao tenente Pires Ferreira. Proceder de acordo com o juiz de
direito constitui uma evasiva perigosa e a transferência de quase toda
responsabilidade ao simples tenente.”
Viana nunca esclareceu
essa questão. Ele, que não estava interessado naquilo, aparentemente, apenas
disse ao tenente que acertasse com o juiz sobre o que fazer.
Sequer se cuidou das
condições materiais mínimas da tropa. Viveram da ajuda dos moradores. Foi o
começo muito desleixado, mas também típico, de uma grande tragédia. Os soldados
chegaram a Juazeiro no dia 7 e lá ficaram esperando o ataque. Que não aconteceu.
O que fazer? Ficar lá
esperando ou sair ao encontro dos canudenses em seu reduto? Coube ao novato
tenente Pires Ferreira decidir, talvez até provocado por alguns chefes locais
gonçalvistas, que almejavam ver o Conselheiro expulso de sua zona de influência.
'Não vai tomar providências, tenente?' 'Está com medo?' E outras provocações
desse tipo.
Insuflado pelos outros
ou pelo próprio ego, no dia 12 de novembro, o tenente parte com seus soldados
para dobrar, à força, a maior comunidade religiosa autônoma do Brasil. No dia
19 de novembro, sua tropa chegou a Uauá, e na madrugada do dia 21, sofreu um
ataque de extraordinária intensidade, de centenas de conselheiristas — o número
de atacantes, que oscila, conforme o autor, entre 100 e três mil. O tenente, em
sua 'parte' (relatório), conta 500, e também diz estarem muito mal armados.
Cita poucos fuzis comblain ou chuchu, além de bacamartes, garruchas,
clavinotes, pistolas, facões e foices.
Repelidos os atacantes,
o tenente vistoria o entorno, recupera o corpo do soldado Teotonio Pereira
Bacelar, um dos que estavam de vigia e que, em virtude de estar “muito
estropiado” (cansado?), não conseguiu se abrigar a tempo, sendo pego e degolado
pelos conselheiristas — ele foi a primeira vítima de degola dessa guerra. O
tenente ainda diz que, em virtude de os atacantes ocuparem algumas casas, os
soldados os desalojaram, pondo fogo nelas. Outros, como Aristides Milton,
aliado de Viana, acusaram os soldados de pôr fogo na cidade toda por pura
maldade, mostrando uma grande característica desse conflito: informes oficiais
desencontrados, quando não contraditórios, decorrentes de rixas políticas. O
tenente e sua tropa se retiram.
Suas baixas foram: 1
oficial, 7 soldados e 2 civis, os guias da tropa, o equivalente a 9,7% da
tropa.
Em seu relatório, o
tenente omite a causa de sua ida a Canudos e faz várias considerações muito
pertinentes quanto às condições da tropa, mas conclui com uma afirmação
leviana: se tivesse mais 100 homens, teria ido a Canudos e resolvido tudo.
Apesar desse relatório,
nenhuma providência foi tomada para preparar melhor as tropas das futuras
expedições. Deduzo que os altos escalões estavam muito ocupados fazendo
política.
Alguns dizem que a
culpa dos soldados é evidente, pelo fato de os canudenses se aproximarem
cantando hinos religiosos, e as sentinelas. Os soldados, portanto, atacaram
gratuitamente uma simples procissão religiosa. Mas isso é uma grande tolice:
a) Na parte do tenente,
não fica claro quem começou a atirar. Sabemos somente que um tiroteio começou
ao alvorecer do dia 21.
b) Não há registro de
corpos de mulheres entre os mortos no combate de Uauá contados pelo tenente.
c) Não é comum, no
sertão, procissão só de homens. Ainda mais levando armas.
d) Isso evidencia o
comando pessoal de Antônio Conselheiro nessas ações, pois, nas antigas crônicas
das Cruzadas, eram comuns narrativas de tropas cristãs indo para o combate a
cantar salmos bíblicos e cânticos.
A diferença entre as
baixas aponta para um empate estratégico ou uma vitória de Pirro para os
canudenses.
O mal estava feito.
Houve um confronto, com mortes de ambos os lados. Uma tropa federal brasileira
foi confrontada por uma força armada dentro do território nacional. A guerra
tornava-se inevitável, a não ser que um dos lados cedesse, mas ninguém estava pensando
nisso, nem havia ninguém com prestígio suficiente para conduzir uma mediação.
Ia começar uma das guerras mais sangrentas da nossa história, e nós nem temos
ainda uma ideia clara de como tudo isso começou!
De fato, o primeiro
telegrama do juiz Leoni diz: “Notícias transmitidas por positivo confirmam
boato vinda perverso Antônio Conselheiro, reunido a bandidos, partirão Canudos
dia 2 vindouro. População receosa. Cidade sem garantias. Requisito enérgicas
providências [era assim que se escreviam os antigos telegramas, pois o
seu preço era determinado pela quantidade de palavras, e artigos e preposições
contavam como palavras]. (Marco Antônio Villa; Canudos o povo da terra, 3ª
edição, Ática, São Paulo, 1999, p. 141)”
O telegrama nada diz
sobre a causa da ida do Conselheiro e sua gente a Juazeiro, que acabou não
acontecendo. O juiz só acusa gratuitamente os canudenses de querer promover um
saque na cidade! Manuel Benício, em seu O rei dos jagunços, fala
brevemente, sem citar fonte, que tudo se deu “por causa de madeira paga e
não entregue”, enquanto outros asseveram que os canudenses apenas se
prontificaram a ir a Juazeiro pegar e transportar o madeirame a Canudos. Quem
diz a verdade?
Encontrei uma versão
mais detalhada, de Manuel Benício, no Jornal do Comércio do Rio, de 20 de
agosto de 1897.
“Achando-se ele
[Conselheiro] em Canudos… comprou de um indivíduo, comissário de polícia no
Juazeiro, um conto e tanto de madeiras especiais, lavradas [aparelhadas], para
a conclusão da sua… igreja… modelada sobre antigas construções portuguesas.
Esta soma foi entregue
antecipadamente ao comissário de polícia. Passaram-se alguns meses e a tal
autoridade, ligada com o juiz de direito da comarca de Juazeiro, nem mandava a
madeira nem restituía o dinheiro…
Isto… agitou… os
espíritos dos sequazes de Conselheiro, que mandaram dizer que, se durante
determinado prazo não recebessem o dinheiro nem as madeiras, eles mesmos iriam
buscá-las.
O delegado recorreu ao
seu amigo, o juiz de direito, informando-o que um bando de fanáticos de Antônio
Conselheiro, para [o] liquidarem [matar],
ameaçava saquear Juazeiro. O juiz telegrafou ao governador pedindo força…
O fato da entrega do
dinheiro dos conselheiristas ao comissário de polícia é aqui conhecido desde as
mais altas até as mais inferiores classes sociais, mas só é repetido à meia
boca
[em segredo]."
Ataques a cidades e
promessas não cumpridas não eram incomuns no antigo sertão, mas o fato de as
pessoas não quererem relatar ou testemunhar o fato, dar mais detalhes, reduz um
pouco a força dessa afirmação. Por que, depois, ninguém se preocupou em aprofundar
essa história? Se o relato de Benício foi o que realmente aconteceu, o juiz
Arlindo Leoni pode ser considerado o principal causador do
conflito.
O próprio fato de não
sabermos praticamente nada sobre Manuel Benício, apesar de ser um jornalista
consolidado o bastante para escrever matérias de quase página inteira no mais
conceituado jornal da época, é um mistério intrigante. Não se sabe o local e a
data do seu nascimento nem do seu falecimento e, fora o seu O rei dos
jagunços e artigos do Jornal do Comércio, ele não existe.
Ninguém se preocupou em pesquisar e entrevistar os envolvidos, como o juiz Leoni, que viveu até 1936, no Rio de Janeiro. Luís Viana, morto em 1920, também era um personagem fundamental que, parece, nunca foi entrevistado nem escreveu nada a respeito. O seu arquivo pessoal foi convenientemente despachado para a casa de um amigo e convenientemente perdido durante uma inundação, mas e a memória dele e a dos que trabalhavam com ele? Por que não se procurou essa gente? O tenente Pires Ferreira estava vivo ainda em 1912, ocupando cargo importante na polícia da Bahia. Por que não se procurou mais informações com ele? Aceitou-se a obra de Euclides como uma verdade canônica, e ninguém se preocupou em conferir ou aprofundar. Isso não faz sentido, a não ser que houvesse outra coisa!
Eduardo Simões