A COMPANHIA DOS MERCADORES AVENTUREIROS NO REINADO DE ELIZABETH I - 8
Se quisermos observar os efeitos nocivos do princípio oposto, basta consultarmos os registros da Companhia dos Mercadores Aventureiros de Newcastle na primeira metade do século XVI. Um artesão não tinha permissão para importar ou exportar uma carga por conta própria. Um capitão ou comerciante estava proibido de agir como seu agente. Um capitão não podia atuar em sociedade com um comerciante. Tais restrições eram fatais para o crescimento do capital no comércio. O que constatamos ser verdade para o conjunto geral dos Mercadores Aventureiros também se aplica às companhias locais que estavam sendo formadas no início do reinado de Elizabeth.
Certamente, elas não eram órgãos de um comércio em expansão. Onde a expansão ocorria, ela se expressava na resistência ao monopólio reivindicado pelas companhias. Quando tratarmos das novas grandes companhias nacionais, descobriremos que a mesma verdade se aplica a elas. Podemos, no entanto, deixar de lado a questão da expansão e nos voltar para a outra questão: até que ponto os Mercadores Aventureiros foram o órgão ou instrumento de uma política consistente adotada pelo Governo? O estudo da ascensão das novas companhias nacionais a partir dos Mercadores Aventureiros, ou em conexão com eles, nos ajudará a encontrar resposta para essa questão...
Na segunda década do reinado de Elizabeth, de 1568 a 1578, duas novas influências começaram a desempenhar um papel predominante na história comercial, logo, não podemos prosseguir com nossa narrativa sem mencioná-las. Essas influências foram as da empresa de capital aberto e a busca por tesouros. Em grande medida, essas duas influências eram idênticas. A primeira das grandes companhias de capital aberto, que acabou se tornando a Companhia da Rússia, é uma exceção parcial à regra. Mas a Rússia nunca foi concebida para ser mais do que uma etapa nessa jornada. O título original da Companhia era “Os Mercadores Aventureiros da Inglaterra para a descoberta de terras, territórios, ilhas, domínios e senhorios desconhecidos” e seu objetivo final era a riqueza das Índias e do Catai, e as lendárias minas de Golconda. A primeira viagem de Frobisher, em 1576, partiu com esse objetivo pela rota noroeste, [circundando o litoral norte do Canadá]; suas segunda e terceira viagens foram impulsionadas por uma falsa descoberta de minério de ouro em Terra Nova; e sua última viagem desviou-se para os atrativos mais certos da Costa do Ouro e do Caribe.
As companhias africanas fizeram do pó de ouro seu primeiro objetivo e recorreram ao tráfico de escravos como uma segunda opção lucrativa. A Companhia Real de Minas foi fundada em 1564 na esperança de que ouro e prata pudessem ser descobertos no próprio solo da Inglaterra, e a decisão dos juízes em 1567, que desapropriou o Conde de Northumberland de seu direito de mineração em favor da Coroa, pode ter sido uma das causas da Revolta do Norte.
Mas as mais lucrativas dessas empresas pertencem a uma classe cujos registros completos, por razões óbvias, jamais virão à luz — as companhias de corsários, ativas após a ascensão de Elizabeth, e cujas façanhas, por mais gratificantes que fossem para os beneficiários dos dividendos, tornaram o oceano inseguro para o comércio desarmado durante longos períodos do reinado. O exemplo supremo, bem como o mais conhecido, dessa forma de roubo internacional foi a captura por Drake, em 1579, do que se supõe ter sido mais de um quarto de toda a produção das minas espanholas, uma soma superior a 600.000 libras esterlinas. Desse montante, um quarto de milhão foi para o tesouro da rainha e outro quarto para os acionistas do empreendimento, rendendo algo em torno de 4.700%.
Não vamos aqui discutir a moralidade desta forma de empreendimento, mas simplesmente os seus efeitos sobre a prosperidade do comércio. Não há dúvida de que estes foram extremamente prejudiciais... O peso tanto dos factos como dos argumentos opõe-se à suposição de que as façanhas dos corsários elisabetanos favoreceram a expansão do comércio inglês. Fatos mostram que não foi esse o caso... O corso inglês não só atuou continuamente como um obstáculo concreto ao comércio externo, como em pelo menos três ocasiões foi a principal causa da paralisação completa da maior parte deste, provocando assim três graves crises no comércio e na indústria.
Na primeira dessas ocasiões, a interrupção do comércio em 1564 entre a Inglaterra e os Países Baixos, houve outras causas contribuintes, notadamente o Ato de Navegação e a outra legislação de 1563 dirigida contra o comércio dos Países Baixos, mas a situação chegou ao auge devido à pirataria praticada no Canal da Mancha por navios ingleses. A interrupção durou um ano e a ruptura com os Países Baixos nunca foi sanada. Os Mercadores Aventureiros, expulsos de Antuérpia, tentaram estabelecer seu entreposto comercial em Emden, na Frísia [Alemanha], mas, em virtude do comércio insuficiente, foram obrigados a transportar suas mercadorias para Colônia e Frankfurt. É significativo ter sido em meio a essa crise que os Aventureiros receberam sua carta régia e obtiveram a confirmação da licença para a exportação de 30.000 tecidos brancos, o que constituía seu monopólio.
A segunda crise surgiu em dezembro de 1568, diretamente da apreensão do ouro espanhol, que havia se refugiado de corsários no porto de Plymouth, mas esse ato indefensável do governo [de Elisabeth I foi apenas a gota d’água. Um ano antes, o embaixador espanhol havia reclamado, em vão, dos ultrajes cometidos por corsários ingleses. Em janeiro de 1569, as mercadorias dos aventureiros e comerciantes dos Países Baixos, e dos mercadores ingleses na Espanha, foram apreendidas num valor de quase 200.000 libras, e houve represálias contra as mercadorias dos mercadores espanhóis na Inglaterra. Os cronistas da época se vangloriaram de que o saque inglês foi maior que o espanhol. Mas, como o Dr. Scott aponta com muita propriedade, isso, se for verdade, foi uma pequena consolação pela paralisação do comércio por vários anos com os dois melhores parceiros comerciais da Inglaterra: os Países Baixos e a Espanha, nenhum dos quais se recuperou completamente durante o reinado de Elizabeth.
Nota da IA Google
1. A apreensão dos navios do Tesouro Espanhol (Inglaterra, novembro/dezembro de 1568)
- O incidente: tempestades forçaram cinco navios espanhóis a buscarem abrigo nos portos ingleses de Plymouth e Southampton. As embarcações transportavam ouro e prata (cerca de 400.000 florins) que eram empréstimos de banqueiros italianos destinados ao pagamento do exército espanhol de Filipe II nos Países Baixos.
- A ação: A rainha Elizabeth I, aconselhada por William Cecil, autorizou a apreensão do dinheiro, tratando-o como um empréstimo transferido para a Coroa Inglesa.
- A consequência: Filipe II respondeu confiscando propriedades inglesas na Espanha e nos Países Baixos, rompendo relações diplomáticas e comerciais e escalando o conflito que culminaria na Guerra Anglo-Espanhola.
[Os ingleses também alegaram que a decisão acima foi uma resposta ao que acontecera no México naquele mesmo ano].
2. A Batalha de San Juan de Ulúa (México, setembro de 1568)
- O incidente: Uma flotilha de corsários ingleses, liderada por John Hawkins e Francis Drake, entrou no porto de San Juan de Ulúa (atual Veracruz, México) para reparos e reabastecimento após enfrentar tempestades.
- O confronto: Uma frota de socorro e de guerra espanhola, comandada por Francisco Luján e pelo vice-rei Martín Enríquez, chegou ao local. Após um breve acordo, os espanhóis atacaram os ingleses de surpresa.
- O desfecho: A maior parte da frota inglesa foi destruída ou capturada; apenas Hawkins e Drake conseguiram escapar. Este episódio gerou um profundo ressentimento nos navegadores ingleses, impulsionando décadas de represálias e corsarismo contra os navios e colônias espanholas.
Sobre a terceira crise, a de 1587, espero falar na minha próxima palestra. Passando dos fatos aos argumentos, um pouco de raciocínio será suficiente para mostrar que as influências predominantes numa época de busca por tesouros não são favoráveis à expansão do comércio comum. Em primeiro lugar, fica claro que, na paixão universal pela especulação, alimentada pela esperança de prêmios como o de Drake, muito capital seria desviado de canais de empreendimentos mais saudáveis; e grande parte desse capital foi perdida.
Mas há evidências ainda mais conclusivas. Encontramos o Conselho Privado escrevendo ao Lorde Prefeito em 1577, instruindo-o a pressionar os comerciantes londrinos relutantes a apoiarem as expedições de Frobisher (nas quais cerca de £ 20.000 foram perdidas) e a suprimir os discursos obscenos daqueles que lançavam dúvidas sobre a autenticidade do minério de ouro falso. E, de fato, os principais comerciantes das companhias comerciais também figuravam entre os principais investidores nos empreendimentos de mineração e nas viagens africanas e americanas, e também estavam interessados no corso em sociedade anônima.
Em nossa época, novas descobertas de ouro, embora quase invariavelmente consumam mais capital especulativo do que rendam, podem estimular, até mesmo superestimar, o crédito. As descobertas do século XVI, de fato, tiveram uma forte tendência a fazer isso. Mas, como tentei demonstrar em meu relato sobre o desenvolvimento do crédito internacional, a caça ao ouro dos corsários mais do que contrabalançou essa tendência. Ela desferiu um golpe fatal no próprio cerne do crédito. Tornou o sistema bancário e financeiro internacional praticamente impossível. Diante desse resultado, o governo recuou. Após a apreensão do ouro espanhol em 1568, que provocou uma crise que desestabilizou o comércio e a indústria por vários anos, Elizabeth teve, por fim, que reconhecer a quantia como um empréstimo dos banqueiros genoveses a quem pertencia. Esse efeito direto e imediato sobre o crédito, decorrente da apreensão em Plymouth em 1568 e da posterior captura de Drake, é bastante evidente...
Nota do tradutor
Schumpeter contesta, no seu livro “História da análise econômica”, essas conclusões de Unwin, afinal, naquela época havia um estado de guerra permanente entre as potências, o que justificaria as ações de corso. Quanto à afirmação de que os tesouros arrebatados aos espanhóis em nada contribuíram para o desenvolvimento comercial da Inglaterra, podemos aludir, seguindo Schumpeter, que o aumento inesperado das rendas do Tesouro Real reduziu o apetite do Estado por novos impostos, o que beneficiava a iniciativa privada inglesa de uma maneira geral.
Houve, contudo, efeitos indiretos sobre o crédito, decorrentes da preocupação do governo e da nação com o ouro, que, por serem menos óbvios, foram mais insidiosos na época e que merecem maior atenção do estudioso. Em resumo, a preocupação prática com o ouro gerou uma reação à teoria bullionista, da qual o comércio e a indústria pareciam prestes a escapar. Por mais paradoxal que pareça, é um fenômeno psicológico natural que as nações com maior acesso ao ouro e à prata também tivessem as leis menos liberais sobre metais preciosos. Enquanto milhões fluíam para seus cofres, o espanhol ressentia-se de cada ducado exportado pelo estrangeiro. Gresham nos deu um relato vívido de como foi hostilizado na Espanha, quando foi, como agente da Rainha Maria, trazer alguns metais preciosos com a aprovação de seu marido, Filipe [a rainha Maria, da Inglaterra, teve um casamento ‘torto’ com Filipe II de Espanha]. O mesmo ocorreu na Inglaterra, quando os bucaneiros começaram a trazer ouro de minas descobertas em alto mar [os navios que saqueavam], quando os aventureiros africanos trouxeram pó de ouro da costa da Guiné, quando ainda havia grandes esperanças de que as cargas de lastro [pedras comuns que eram postas na parte mais baixa da quilha dos navios para lhes dar estabilidade] de Terra Nova dos navios Frobisher contivessem uma alta porcentagem de metais preciosos [ou seja: queriam minerar o fundo dos barcos], todos os antigos mecanismos restritivos à liberdade comercial foram revividos.
Com um saque imediato de ouro e prata sempre em mente, a nação deixou de confiar nas silenciosas, porém irresistíveis, agências do comércio externo e do crédito internacional, pelas quais o fluxo de ouro e prata era mantido em um nível mais baixo. E, em sua ânsia de reter o estoque ilícito de ouro e prata, prejudicou as agências que mantinham um fornecimento regular. Agarrou-se à sombra — o ouro e prata — e ignorou a substância — o crédito.
O espírito reacionário [de cunho medieval-feudal] manifestou-se nas restrições impostas às bolsas de valores. Quando as bolsas eram favoráveis à Inglaterra, havia pouca tentação de interferir nelas, e no período anterior, quando o fluxo de ouro passava por Antuérpia, as trocas com os Países Baixos eram normalmente vantajosas. Em 1575, época em que os ganhos ilícitos do corso estavam no auge, surge uma queixa de que o ouro estava sendo exportado da Inglaterra para o Oriente, por meio dos Países Baixos. Esse escoamento do excesso de ouro, em busca de um nível mais baixo de câmbio e um mercado melhor em outro lugar, era inevitável e desejável, mas clamou-se que a Inglaterra estava sendo roubada de seu tesouro arduamente conquistado, e um plano foi proposto para impedi-lo.
Esse plano envolvia o controle e a tributação das bolsas pelo governo. Os estrangeiros que exportavam o ouro faziam-no secretamente, e acreditava-se que a única maneira de descobrir suas operações seria manter um registro de todas as operações de crédito internacional por meio da bolsa — em suma, inspecionar a conta bancária de cada comerciante. Foi proposto o pagamento de uma libra esterlina em todas as transações cambiais. Isso cobriria o custo do registro, contribuiria com uma espécie de imposto de selo para o governo e desestimularia o comércio de câmbio. O plano foi adotado pelo governo; mas os comerciantes, nativos e estrangeiros, imediatamente se levantaram dizendo que, se isso continuasse, o comércio seria intensamente prejudicado.
As operações de câmbio, diziam os comerciantes nativos, não eram um expediente ocasional e anormal, mas sim parte integrante do cotidiano do comércio. Os cambistas desempenhavam as mesmas funções que os banqueiros modernos — multiplicavam a utilidade do capital. Com a ajuda deles, um comerciante poderia girar seu capital quatro ou cinco vezes mais rápido do que sem eles. Se a mesma parcela de capital fosse girada vinte vezes por ano por meio de lançamentos nos livros do cambista, teria pago, segundo o novo esquema proposto, o montante dos impostos chegaria a cinquenta por cento do valor das operações.
O protesto dos comerciantes estrangeiros lança luz em outra direção. Não conseguiríamos, diziam eles, realizar um centésimo do nosso comércio atual se não concedêssemos crédito de vários meses aos nossos clientes ingleses, e toda a base desse crédito repousa na liberdade das operações de câmbio. Um imposto acabaria com isso imediatamente.
Não sei por quanto tempo essa política desastrosa persistiu, mas o simples fato de ter sido tentada deixa claro que, na segunda década do reinado de Elizabeth, havia fortes influências em ação, claramente contrárias à expansão do comércio. A insegurança do alto-mar aumentava os fretes, dificultava as pequenas empresas, exigia proteção governamental, justificava um sistema de licenças e, assim, levava à restrição e ao monopólio. A apreensão das frotas de metais preciosos não só causava longas paralisações no comércio, como também enfraquecia a base material do crédito internacional. A preocupação com o metal precioso e o medo de perder ganhos ilícitos, na verdade, geraram um ataque à instituição do crédito; e o crédito, então como agora, era o principal recurso do empreendedor iniciante no comércio. Tais eram as condições desfavoráveis sob as quais a terceira década do reinado de Elizabeth começou e uma nova época de formação de companhias teve início. A história da formação da Companhia de Mercadores que negociava com a Espanha e Portugal é de particular interesse.
Antes da paralisação causada pela apreensão de metais preciosos em 1568, a Espanha era um dos melhores mercados para tecidos e milho ingleses em anos bons, além de peles irlandesas e outros produtos. Os comerciantes dos portos provinciais — Ipswich, Bristol, Chester e Exeter — que foram excluídos do comércio com os Países Baixos pelos aventureiros londrinos, encontraram na Espanha um campo aberto para seus empreendimentos. Na época da paralisação, nada menos que £ 58.000 em mercadorias de comerciantes ingleses foram encontradas em portos espanhóis. Durante seis anos, esse valioso comércio ficou praticamente suspenso, e o pouco que se manteve, além do contrabando e do corso, exigia uma licença especial do governo.
Mal o comércio começara a se reerguer, após o acordo com a Espanha em 1574, as influências negativas do período de restrição se manifestaram em propostas para confinar o comércio a uma companhia especial. O plano, convém observar, foi apresentado por alguns membros dos Mercadores Aventureiros, que, durante o período de restrição, refletiram sobre os muitos inconvenientes causados pela falta de ordem no comércio com a Espanha e propuseram que este fosse controlado pelo estabelecimento de uma companhia suplementar nos mesmos moldes dos Mercadores Aventureiros. A filiação ordinária seria restrita àqueles que já atuavam no comércio antes da paralisação, incluindo os mercadores dos portos provinciais. Filiais especiais seriam formadas em Bristol, Exeter e Chester, em conexão com as companhias locais dos Mercadores Aventureiros. Aqueles que não atuavam nesse ramo do comércio antes de 1568 só poderiam ser admitidos como resgatadores, mediante o pagamento de uma alta taxa de entrada.
Mais vinte e quatro membros da Companhia dos Mercadores Aventureiros foram admitidos em condições especiais. Nenhum artesão ou varejista seria admitido. Os problemas da nova companhia surgiram logo após sua formação. Aqueles que já atuavam no ramo se recusaram a abandoná-lo. Eles foram presos pela Companhia, com base nas cartas-patentes da Coroa; mas solicitaram habeas corpus, que os juízes não se sentiram capazes de negar. O Conselho Privado, que, apenas algumas semanas antes, vinha intimidando os comerciantes de Londres, ao subscrever a aventura mineira de Frobisher em Terra Nova, escreveu e instruiu os juízes a não emitirem mandados de habeas corpus em benefício dos comerciantes livres. Em Bristol e Chester, o antigo conflito entre artesãos, varejistas e atacadistas, que havia sido resolvido com a admissão de algumas das classes excluídas, foi reavivado pelas cláusulas restritivas dos novos regulamentos da Companhia.
Os “meros comerciantes” de Chester queixaram-se ao Conselho de que os artífices e artesãos se revoltaram contra os regulamentos e receberam liberdade do prefeito para fazer o que bem entendessem. Conflitos semelhantes fervilhavam em Londres, onde foram complicados pelo fato de o governo ter começado a conferir monopólios aos vários ramos do comércio varejista. A Companhia dos Vinicultores havia, algum tempo antes, formado um truste e obtido do Governo o monopólio da venda a varejo de vinho. O monopólio parece ter controlado o comércio de vinhos franceses por conta própria e elevado os preços em Londres a tal ponto que o Conselho Privado foi obrigado a enviar um aviso por meio do Lorde Prefeito. O monopólio dos vinicultores recusou-se então a oferecer ao monopólio espanhol o que este considerava um preço razoável para os vinhos espanhóis e portugueses, e o Conselho Privado viu-se obrigado a resolver o conflito de interesses, que ele próprio criara, autorizando os comerciantes espanhóis a revenderem as suas próprias cargas.
Ao mesmo tempo, o Conselho emitiu um grave aviso à Companhia Espanhola [constituída por mercadores ingleses em 1530]. Aquele tinha sido informado de que as mercadorias por eles importadas — vinho, azeite e, sobretudo, frutas — eram vendidas a preços muito elevados. Os comerciantes prestes a partir para a Espanha deveriam ser informados de que, a menos que os preços das suas próximas cargas fossem reduzidos, o governo consideraria necessário fixar uma tabela de preços para a proteção do público.
Se os mercadores tivessem respondido a essa exigência, suas palavras seriam: “O aumento dos preços deve-se às novas condições sob as quais o comércio é conduzido. Pagamos (como decerto pagaram) uma boa quantia pelo monopólio. Nossos fretes aumentaram devido ao uso de grandes navios, que somos obrigados a empregar em benefício da marinha [para poderem ser usados como barcos de guerra em caso de necessidade], e pelo custo do comboio [da armada inglesa] que vocês nos obrigam a aceitar.” “E, além disso”, poderiam ter acrescentado um ano depois, “vocês estão contribuindo ainda mais para o aumento dos preços ao nos proibirem de trazer qualquer coisa em troca de cereais além de lingotes, sal e laranjas.”
Assim que a Companhia Espanhola foi ‘arrumada’, os mercadores londrinos iniciaram um movimento para negociar de maneira semelhante com o comércio do Báltico. Esse comércio, assim como o comércio com a Espanha, até então fora aberto a todos os ingleses e constituía um recurso tão importante para os comerciantes independentes da costa leste quanto o comércio com a Espanha o fora para os do sul e do oeste. A partir de então, seria restrito aos membros de uma nova corporação — a Companhia das Terras Orientais. O paralelo com o caso da Companhia Espanhola era muito evidente. A justificativa para a formação da companhia residia na prevalência da pirataria [que o próprio Estado inglês estimulava]. Tendo o governo dinamarquês ameaçado represálias por atos de pirataria cometidos por navios ingleses, considerou-se conveniente cobrar uma indenização, a fim de apaziguar a vítima e garantir a proteção dos comerciantes ingleses.
Os portos provinciais da costa leste deveriam participar da nova companhia, mas apenas os mercadores que negociassem com o Báltico antes de 1568 seriam admitidos. No primeiro rascunho da carta régia, propôs-se excluir todos os membros das outras companhias nacionais, mas a Companhia Espanhola e os Mercadores Aventureiros protestaram e, no final, tornou-se fácil para um grande mercador londrino pertencer às três companhias. O efeito da formação dessas duas companhias, a Companhia Espanhola em 1577 e a Companhia das Terras Orientais em 1578, foi que duas esferas adicionais de comércio foram colocadas sob a regulamentação e o controle de organizações modeladas pela Companhia dos Mercadores Aventureiros e dominadas por membros antigos ou atuais dessa companhia, e que essas importantes esferas de comércio ficaram, a partir de então, legalmente fechadas à livre iniciativa de expansão do comércio. Influências semelhantes devem ter atuado na formação, nessa época, de companhias separadas para o comércio com a França, a Barbária e com Veneza.
Podemos agora retornar à nossa primeira pergunta: havia alguma política por trás desse movimento? A resposta dependerá do uso que fizermos da palavra “política”. As companhias claramente não foram fruto de uma política no sentido de um plano deliberado, consistente e previdente. Os dois principais fatores em sua formação foram o oportunismo temerário do corso e os interesses de grupos de mercadores londrinos. Mas a política, no sentido que acabei de definir, é mais frequentemente uma ilusão da mente acadêmica do que um fato histórico. A política, como de fato se observa na história, é um conjunto de mecanismos para os quais um governo se volta sob a pressão de problemas práticos, e que gradualmente adquirem a uniformidade consciente de um modelo de ação, e começam, por fim, a ser defendidos como tal. Os monopólios de Elizabeth eram um conjunto de mecanismos desse tipo para a solução de problemas fiscais e administrativos; e as companhias comerciais foram gradualmente convertidas, pela influência semiconsciente da política, em instrumentos de monopólio, como era típico desse período.
O resultado dessa tendência é mais claramente demonstrado no caso da Companhia do Levante, formada em 1581, dois anos depois da Companhia do Oriente. O comércio com o Levante, assim como o comércio com a Espanha e o comércio com o Báltico, havia sido aberto a todos os mercadores ingleses até então. Na década de 1570, foram tomadas medidas para fechá-lo. Dos quatro capitalistas que desempenharam um papel de liderança nesse processo, um era um proeminente mercador aventureiro, um segundo era membro do conselho administrativo da Companhia do Oriente e um terceiro era um funcionário da alfândega. Uma missão especial e grandes somas foram enviadas para obter do Sultão concessões e exclusão de outros comerciantes.
A companhia admitiu apenas vinte membros, sendo organizada em regime de sociedade anônima, com Elizabeth como principal acionista. Nada menos que £40.000 do ouro capturado em 1579 foram investidos pela Rainha na Companhia do Levante. O monopólio das groselhas era a característica central do comércio, e os lucros dessa fonte estimados em £ 11.500 por ano. A participação do governo, porém, não se limitava a dividendos. Ele impôs um novo e substancial imposto sobre as groselhas, que se revelou o ponto de partida das lutas constitucionais sob o reinado de Jaime I.
Se o monopólio da Companhia do Levante era flagrante, o das outras companhias comerciais não era menos real. A Companhia Russa aumentava o preço das cordas, a Companhia Espanhola o preço das frutas e do azeite, e a Companhia Francesa o preço do vinho. Ouçam as queixas do honesto pastor Harrison em 1586. “Quando cada nação”, diz ele, “tinha permissão para importar suas próprias mercadorias, os produtos estrangeiros eram muito melhores, mais baratos e mais abundantes. [...] Não nego que a marinha do país seja em parte mantida por seu comércio, mas o preço das mercadorias também se mantém alto, agora que eles monopolizaram as vendas, sob o pretexto de promover o bem comum.” Mas, no final, o monopólio mais sério era aquele que permanecia nas mãos dos Mercadores Aventureiros: o monopólio da exportação de tecidos brancos.
Um inglês patriota, poderíamos argumentar, não se importaria de pagar um ou dois centavos a mais pelas frutas para o seu pudim de Natal se pudesse se convencer, ainda que erroneamente, de que navios de guerra estavam sendo construídos com o dinheiro arrecadado. Mas, se a exportação da principal manufatura da Inglaterra fosse permanentemente restringida, logo faltaria dinheiro tanto para os navios de guerra quanto para o pudim. E, de fato, os Mercadores Aventureiros haviam conseguido, durante esse período, estreitar os canais de exportação como nunca antes. Até então, seus antigos rivais, os mercadores hanseáticos, haviam se esforçado para manter um volume considerável, embora precário, de exportações para os panos da Inglaterra.
Em 1576, seus direitos comerciais em Londres foram limitados. Em 1580, foram totalmente suspensos. Ao mesmo tempo, os Aventureiros começaram, com a aprovação do Conselho Privado, a restringir ainda mais as ações de seus próprios membros.