quinta-feira, 3 de setembro de 2026

 


ESTÁ SEM DONO O PAÍS DE  NINGUÉM?

Agora que foi liberado o relatório-documento que liga Alexandre de Moraes, o pupilo e depois menino-prodígio do Geraldo Alckmin, que ficou maior que o seu tutor. Aprendeu até a voar. Mas quem não voa com os salários e os penduricalhos que recebe do Supremo brasileiro? Estes dão um tal calor nos bolsos que fazem evaporar a consciência, e assim, mais leve, o indivíduo voa, e nesse caso Brasília é o limite ou o fim do mundo, pois o quinto dos infernos ficou muito atrás.


É sempre bom saber a VERDADE, mas precisamos sabê-la toda, não vazada apenas nas partes que 'interessam' e em momentos chaves. O ministro André Mendonça ainda está nos devendo os relatórios ou os vazamentos de Flávio Bolsonaro, Dark Horse, Nikolas, o “Danni Lindão”, etc. Há clara seletividade no que é 'vazado', na República do Vazamento, ou eufemismo para designar TRAIÇÃO, a única virtude possível num sistema que caminha para o totalitarismo judicial.

Há o temor generalizado de que o Brasil se transforme numa república de BANDIDOS, num país falido, embora, pela imagem acima, devamos reconhecer que a nossa vocação está mais para CIRCO MAMBEMBE ou RINHA DE PINGUÇOS. Algo do gênero, como tipo pátio de escola na hora do RECREIO de adolescentes malcriados.

Então ele não sabe beber ou não bebe.

Antes que me acusem de algo, vou preventivamente afirmando: seres humanos não voam, embora alguns vivam com a 'cabeça nas nuvens'. Normalmente é o sucesso que sobe à cabeça, e, embora Alexandre de Moraes não prometa voo muito longo, nesse dia, na sua posse no Supremo (acima), ele não voou nem estava assim tão cheio de gases, embora a ausência de bajuladores por perto nos faça especular sobre essa possibilidade.


 



O PECADO IMPERDOÁVEL

Eduardo Simões

Um dos mais preocupantes alertas que Jesus Cristo deixou para os seus seguidores, e os outros, todos comparados a ovelhas, era a possibilidade de um pastor preguiçoso ou despreparado tomar conta do rebanho, expondo-o ao ataque de predadores. Estes, aproveitando-se da inépcia dos pastores, esfolarão o rebanho sem piedade.

Essa possibilidade praticamente desapareceu no regime democrático, no qual as ovelhas, agora transformadas, nominalmente, em CIDADÃOS LIVRES E CONSCIENTES, aptos, pela idade, a eleger e controlar as ações de seu próprio pastor, prevenindo-se até dos bons pastores que, porventura, se corrompam na caminhada. O melhor dos mundos, o mundo perfeito, que nem Jesus Cristo imaginou!

E se as ovelhas PERDEREM A CAPACIDADE DE DIFERENCIAR OS PASTORES DOS LOBOS?

Uma das maiores vitórias do regime autoritário-militar que vigorou por 20 anos no Brasil foi a sua capacidade de extirpar, pela raiz, a capacidade de resistência do povo brasileiro, no seu legítimo direito de garantir o atendimento dos interesses da coletividade, para além do estreito círculo familiar. Aliás, os militares, percebendo a oposição que a força das relações familiares colocava contra os seus desígnios repressivos — a luta contra os desmandos do regime veio antes de familiares condoídos da brutalidade da repressão, que de projetos ideológicos claros e divergentes dos militares — atacaram-na nas suas raízes.

Aos poucos, a coesão da antiga família brasileira, inclusive aquela que saiu às ruas na ‘Marcha da Família, com Deus pela Liberdade’, começou a ser corroída por dentro, seja por razões políticas circunstanciais, manter o poder dos militares, seja por alguma razão estratégica maior: a criação de um regime autoritário, de matiz positivista, sustentável. O projeto inicial dos militares republicanos de 1889, com algumas atualizações. 

Ao mesmo tempo em que se vivia uma forte repressão política, ocorria uma grande liberalização nos costumes: as revistas masculinas como Playboy, Hustler, sem falar das nacionais Ele e Ela, Status, etc., a princípio envoltas em plástico opaco, começaram a tornar público e, de certa forma, ‘natural’ a aproximação dos sexos baseada apenas no prazer. Ao mesmo tempo se esvaziava a antiga relação homem-mulher, voltada para o casamento, sede de afetos duradouros e irracionais, que fazia pais e mães direitistas lutarem por todos os meios para que seus filhos, esquerdistas, não fossem massacrados nas entranhas do regime. O caso do arquiconservador Nelson Rodrigues, um escritor que discorria sobre temas sexuais considerados tabu pela sociedade, é exemplar. Calou fundo vê-lo, idoso, já muito famoso, tentar se ajoelhar em um dos mais famosos programas de TV da época, para pedir compaixão dos militares pelo seu filho preso, como guerrilheiro do MR-8. Eu vi! Essa família precisava ser destruída.

Mas, enquanto o povo era convidado a liberalizar suas relações sexuais, familiares etc. naquela filosofia ‘viva e deixe viver’, na alta sociedade, o grupo mais próximo ao regime, continuava-se a resolver pelo jeito antigo, à bala, as desavenças e infidelidades entre homens e mulheres. Preservava-a a tese da legítima defesa da honra...

Paralelo a isso, outros ‘avanços’ começaram a ocorrer: produtos importados, em especial bebidas, guloseimas, eletrodomésticos, etc. começaram a aparecer em profusão; o estilo de cinema chamado pornochanchada deslanchou e virou epidemia nacional, até serem liberados produções com sexo explícito em 1980. Com a pornochanchada apareceram também películas baratas eivadas de uma filosofia rala, tipo nihilismo de botequim, que procurava convencer o espectador que o mundo era uma droga, que não valia a pena tentar melhorá-lo, e nesse aspecto podemos dizer que houve uma aliança entre a esquerda, extrema ou não, com a extrema direita a inculcar nas pessoas comuns que a família tradicional era apenas um abismo de hipocrisia e de comportamentos antinaturais, etc.

No final, eles venceram. A mensagem principal do regime era: “viva a sua vida, goze as delícias do milagre brasileiro e não se meta naquilo que não é problema seu”, e cabia até uma ameaça: “ou sofrerá as consequências”. Após tanta repressão e perseguição pelos mais variados meios, e ataques à raiz dos problemas, os militares foram quebrando a tradicional solidariedade intra e interfamiliar, que criava grandes conjuntos de clãs e oligarquias ligadas pelo parentesco e a simpatia automática que os membros desfrutavam entre si — alguns grupos familiares promoviam encontros ou congressos anuais, anunciados nas mídias — até o indivíduo ficar irremediavelmente só. Era só ele e o seu acusador ou o seu torturador, este com uma nutrida retaguarda; afinal, a solidariedade entre os membros das Forças Armadas foi não só preservada como também mais reforçada por meio de punições severas aos traidores e inúmeras vantagens adquiridas à custa do Tesouro Nacional. Neles ninguém tocava, sem uma reação do conjunto.

Mas isso não é um movimento unilateral, só dos militares para o povo ou a grande massa do povo, pois este também é culpado por ter desistido — afinal, o dito não é que os brasileiros não desistem nunca? — e ter entrado no 'esquema' dos militares para também gozar vantagens. Muita gente foi fraca e se deixou comprar.

Os valores abstratos morreram, a inteligência definhou, pela violência ou pela força de ideologias burras, impermeáveis à realidade. O que importa agora é cada um cuidar de si, muitas vezes às custas até dos parentes e familiares mais próximos. Mas, num ambiente desses e com uma disposição dessas, quem vai aprender, a distinguir o amigo do inimigo, se o seu bem-estar individual é o único critério de ação? Seria perda de tempo.

O homem-mau só pensa no seu bem-estar; ele é para si mesmo a única medida de todas as coisas, portanto não lhe interessa saber, nem ele tem ferramentas mentais para guiá-lo nessa busca, quem é bom e quem não é. Mesmo se alguém for bom para ele, ele o usará enquanto for conveniente e depois o descartará. Ele está estruturalmente incapacitado para discernir a diferença entre o bem e o mal.

Bem diferente é o homem-bom, que desde o início sabe que a sua opção pessoal sofre constante ataque daqueles que não suportam o seu modo de agir, que contesta, pelo simples fato de existir o egoísmo do homem-mau. O homem-bom precisa conhecer. Conhecer a si mesmo, para entender as suas potencialidades e evitar o que pode lhe fazer mal, mas também conhecer o mundo e os outros homens para ajudá-los, porque o fato de ser bom faz com que se preocupe com o destino dos outros, também porque ele sabe que a maldade crescente do mundo é uma ameaça ao seu estilo de vida e às suas opções morais.

Assim, não é de admirar que, mesmo após a saraivada de escândalos de um lado e de outro, e mesmo a ausência dos dois principais candidatos à presidência nessa eleição, num completo desrespeito aos eleitores, eles continuem liderando com folga a disputa presidencial, um deles com já 80 anos, falando bobagens, e o outro sem experiência administrativa, ou suposto conteúdo no cérebro. Só faltam uivar! Outros candidatos com muito menos suspeitas e vida política impecável não são sequer considerados, e não é a primeira vez que isso acontece.

E isso nos leva a outra questão grave. Certa vez, quando o “homem-Deus” pregava sua mensagem e fazia grandes sinais, os seus inimigos diziam que o bem que ele fazia, fazia-o por força do mal que estava nele e que ele corporificava na sua pessoa. Nesse momento, ele fala do PECADO IMPERDOÁVEL, fruto de uma confusão ontológica entre o bem e o mal, que leva à incapacidade de discernir o que é bom do que é mal, por excesso de convivência com o mal e desinteresse pelos outros.

Não é isso que nos acontece agora?


terça-feira, 1 de setembro de 2026

 

A REPÚBLICA PUTREFATA. SERÁ O INÍCIO DO FIM OU O FIM DO COMEÇO?

É o fim de um desvio errado ou de um projeto de República que começou errado?

Depois de Débora Rodrigues ter pego 14 anos por ter ‘pixado’ com batom uma estátua, e outros velhinhos e velhinhas terem pego igual pena por quebrar vidraças na Praça dos Três Poderes, que pena poderá ser dada a um juiz do Supremo Tribunal que se associa a um criminoso miliardário que desviava o dinheiro público de aposentadorias miseráveis dos velhos pobres desse país?


Não nos esqueçamos nunca de que foi o PSDB de Alckmin quem trouxe Alexandre de Moraes para a vida pública e lhe conferiu o poder que tem hoje.

Talvez seja o início da tempestade perfeita que há meses, talvez anos, está se formando no nosso horizonte, e parece que agora vai desabar. O país sobreviverá? Estamos muito cansados dessa pasmaceira, dessa repetição dos mesmos erros e escândalos sem fim.


segunda-feira, 31 de agosto de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 38


O passageiro da agonia

Não há documentos, entrevistas ou qualquer relato que nos esclareça o porquê do aparente frenesi do Coronel Moreira César ao chegar em terras baianas. Se é que houve, pois os observadores presentes são unânimes em constatar que, apesar da pressa aparente — ou seria a eficiência do deslocamento? —, tudo corria em ordem, disciplina e calma sob o seu comando.

Será que essa pressa foi inventada por aqueles que queriam apresentá-lo como um desvairado?

Alguns criticam o coronel César por não ter se avistado com os chefes militares das outras expedições, perdendo informações que poderiam ser “vitais”; mas vamos pensar melhor:

a) O Tenente Pires Ferreira nem conseguiu chegar perto de Canudos e, embora tenha feito algumas observações técnicas interessantes, ignoradas, ele é também autor de um espalhafato, ao dizer que com mais cem homens, teria ido a Canudos e resolvido tudo. Ele participou da expedição de Moreira César, que certamente tirou dele tudo o que interessava.

O Tenente Ferreira não é político, como Febrônio, embora Gonçalves o chame de “amigo”. Seu relato é objetivo e ele viu a precariedade das armas e do modo de combater dos canudenses, daí deduziu que seria possível uma ação contundente, mesmo com uma pequena força. E ele estava parcialmente correto, contanto que não fosse uma força de só  200 homens.

b) O Major Febrônio de Brito voltou sem ver Canudos. Ele mostrou pouca habilidade em lidar com as questões políticas e com o abastecimento da coluna. Recuou assustado, após perder somente 1,6% de sua força, dando à sua retirada a conotação de uma fuga. Depois, ele passou a confrontar furiosamente o governador. Moreira César seria louco se buscasse conversar com ele, arriscando o apoio do governador, o principal fornecedor de mantimentos.

c) Efetuemos uma comparação: Pires Ferreira perdeu dez homens e chegou a pouco mais de 100 km de Canudos. Febrônio também perdeu 10 e chegou talvez a cerca de 6 km de Canudos. Arthur Oscar e Savaget, à frente de duas brigadas independentes, chegaram a Canudos com centenas de mortos e feridos. Quantos pereceram da expedição de Moreira César antes de chegar a Canudos? Dois. Ele mostrou habilidade tática e surpreendeu os canudenses.

Há, sobre isso, mais um detalhe: os jornais O Paiz e Gazeta de Notícias, quando narraram o avanço da 3ª Expedição, projetaram o ataque para 24 de fevereiro. Ora, o ataque só aconteceu em 3 de março. Será que ele acampou a uma curta distância de Canudos e ficou lá, preparando a tropa, dando uma falsa ideia aos canudenses e aos florianistas infiltrados de que ele não atacaria, para então pegar a todos de surpresa? Como de fato ele pegou.

A chegada de Moreira César também causou apreensão entre os oposicionistas. Os gonçalvistas lembravam-se de sua atuação na deposição de Gonçalves, em 1891. Um amigo do barão, Ubaldo da Silva, que morava no Rio de Janeiro, escreveu-lhe uma carta em 15 de fevereiro de 1897, na qual diz: 

"Para dar cabo de Antônio Conselheiro… não era preciso mandar aí o coronel Moreira César, homem… sanguinário por índole [no Rio falavam dos fuzilamentos de Anhatomirim], o qual vai talar de cadáveres o solo do nosso querido sertão.

Se o César cercar os Canudos, manda matar até as crianças e mulheres. Não estou fantasiando, pois foi isso que aconteceu em Santa Catarina (Consuelo Novais Sampaio, org., Canudos: cartas para o barão, EDUSP, São Paulo, 1999, p. 142–143).

O espalhamento de boatos contra César era extenso e encarniçado, mas ele não ligava, não se justificava nem se desviava um milímetro do seu objetivo. A sua capacidade de manter o foco é impressionante, típica de quem tem muito autocontrole. Outro amigo de Jeremoabo, Francisco P. de Carvalho Aragão, escreveu-lhe, do Rio de Janeiro, uma carta muito reveladora, datada de 10 de fevereiro de 1897:

“Nomeação do cruel Moreira César para comandar a 2ª expedição [na verdade, a 3ª]… O assassino dos infelizes prisioneiros da Ilha do Governador [em nenhum lugar li sobre isso] e de Santa Catarina vai fazer uma carnificina medonha nos maltrapilhos… de Canudos (idem, p. 138).”

Porém, logo adiante, o mesmo Francisco Aragão confirma o que já dissemos antes sobre o porquê da ida de Moreira César ao Rio:

“Ele já foi mandado buscar [de Santa Catarina] com toda a pressa para conter o jacobinismo na última tentativa de deposição de Prudente (idem, idem).”

A má vontade em relação a Moreira César tem muito a ver com o que aconteceu na deposição de Gonçalves, o que deve ter feito os gonçalvistas acreditarem que ele ficaria 'cozinhando' a situação, subserviente a Viana e Vitorino. Mas, quando ele atacou resolutamente o arraial, a coisa mudou, e ele passa a ser tratado pelos gonçalvistas como heroico, inditoso, bravo e intemerato. Etc.

Francisco Aragão também faz uma crítica a Manuel Vitorino, que mostra que ele seguia a mesma estratégia de Floriano.

“A economia prometida não passa de uma burla. Os ministros estão cortando… os pequenos salários dos civis para aumentarem os vencimentos dos militares.

Estes tiveram agora o abono de 3 meses de soldo adiantados, além dos extraordinários adiantamentos feitos no tempo… do Floriano… há oficiais do exército que, vivendo cem anos e chegando aos últimos postos, não conseguirão saldar os seus débitos com o Tesouro (idem, 139).”

 Foram provavelmente os grandes proprietários gonçalvistas do sertão ou gente ligada a eles (professores, advogados, médicos e até padres); gente que lia e assinava jornais, que espalhou pelo sertão, para fazer medo aos canudenses ou para jogar o povo contra o governador, o apelido de corta-pescoço.

Após pernoitarem, uma parte no navio, outra parte no forte da Jiquitaia, as tropas foram para a estação de Calçada, no subúrbio de Salvador, onde pegaram um trem em direção a Queimadas, a estação mais próxima do teatro de operações. Calçada estava lotada. Segundo Oleone Fontes (p. 31), havia cerca de duas mil pessoas alvoroçadas, entre elas autoridades políticas e administrativas, civis e militares, da Bahia, para ver a partida. Era o dia 7 de fevereiro de 1897.

O trem passa por uma sequência de estações ferroviárias, com uma breve parada em Alagoinhas, 123 km de Salvador, às 19 horas do dia 7. A estação estava lotada.

Seguem-se Aramari, Ouriçanguinhas (Ouriçangas), Cipó, Água Fria, Lamarão, Serrinha, a 173 km de Salvador, onde a tropa chegou às 2h00 da madrugada, e os oficiais puderam fazer um “lunch”, oferecido pelo comissário de polícia. Segundo Fontes, p. 69, a partir daqui a vegetação começa a mudar acentuadamente, desaparecendo as “matas opulentas do litoral” e os “brejos”, perto dos quais estão os canaviais. É uma zona de transição antes de adentrar o sertão da caatinga.

Vieram Salgado, Santa Luzia, onde o trem chegou entre 6:00h e 6h30 e os soldados puderam esticar as pernas. Nessa cidade, brotaram lendas a respeito de inimizade e até ameaças de Moreira César contra o coronel José Martins Leitão, grande proprietário, aliado de Viana, acusado por Febrônio de Brito de ser amigo e fornecedor do Conselheiro. Segue a estação de Rio do Peixe e, afinal, Queimadas — o livro de Leone Fontes tem uma lista completa das estações ferroviárias dessa linha. Recomendo.

Queimadas foi alcançada no dia 8 de fevereiro de 1897, às 8:00h. Aqui a tropa teve que desembarcar para prosseguir a pé, porque a ferrovia seguia para Juazeiro, desviando-se de Canudos. Segundo Fontes, p. 78, aí o esperavam 180 praças da polícia baiana. Ele então passa um telegrama a Luiz Viana:

“Aqui chegamos sem novidade. O Dr. chefe de polícia [Félix Gaspar]… tem empregado todos os esforços para remover dificuldades. Desejo muito que o 20 de Infantaria de Sergipe vá estacionar em Jeremoabo ou Bom Conselho.”

Felix Gaspar, por sua vez, em relatório ao governador, acrescenta:

“Coronel Moreira César, a quem por conta do estado forneci abundantes meios de transporte e munições de boca... Logo depois da chegada dele àquela vila [Queimadas], começou-se a fazer o movimento das forças que, em breves dias, terminou com facilidade e ordem que soube imprimir ao serviço o notável militar (Oleone Fontes, O Treme-Terra).”

Segundo a imprensa, a tropa estava bem abastecida e organizada, se deslocando com calma e eficientemente célere. Bem diferente dos que denunciaram açodamento e desorganização. Nesse meio tempo, ele manda um telegrama ao Ministro da Guerra.

“Estou em Queimadas… para o mais breve possível seguir para Canudos. A força está muito animada. Sem ocorrer caso algum de indisciplina. Há muita dedicação. O estado sanitário, ótimo. Governador e mais autoridades… solícitos em me auxiliar. Só temo que o fanático Antônio Conselheiro não nos espere (idem, p. 83).”

Finalmente, a caatinga está à vista. E o próximo destino é Monte Santo. No dia 11 de fevereiro, parte de Salvador uma unidade do Exército, o 9º B.I., sob o comando do coronel Pedro Nunes Batista Ferreira Tamarindo. Nesse mesmo dia, Moreira César manda um novo telegrama ao Comando da 3ª RM.

“Em vista das notícias da fuga do Conselheiro [meu destaque], apressar as operações me parece de grande vantagem; por isso poderão vir do 16º Batalhão de Infantaria apenas 100 homens para ficarem guardando Monte Santo, que é a base de operações, e vir também o coronel Souza Meneses para comandante dessa base… Vinda de 100 homens poderá ser feita com urgência, o que não se dará com o batalhão [cujo número oscila entre 300 e 1.000 homens] (idem, p. 87).” 

De fato, haviam desembarcado recentemente em Salvador 300 homens do 16º BI.

De onde ele tirou essa história da fuga do Conselheiro? Parece que ele está jogando, tentando burlar ou se desvencilhar de alguma coisa, de alguém ou de algum compromisso que, aparentemente, quer prolongar a sua estadia na Bahia. O que será? O telegrama seguinte vai no mesmo diapasão:

“Dr. Governador. — Nada nos tem faltado. Só me preocupo apressar movimento, pois estou convencido qualquer demora será prejudicial. (Idem, p. 87).”

No último telegrama expedido em Queimadas, na tarde do dia 10, ele mostra ao governador da Bahia os seus receios e o seu objetivo ali:

“Só receio a fuga dos fanáticos… já providenciamos Tucano ouvir amigos. Desejo saber vossa opinião, caso coluna receba confirmação notícias, sendo que considero em todos os casos, nosso único objetivo prender os fanáticos de Antônio Conselheiro (Aristides Milton, A Campanha de Caudos, vol. 5, Senado Federal, Brasília, 2003, p. 71).”

Eduardo Simões 


sexta-feira, 28 de agosto de 2026

 


SÓ TEMOS CERTEZA DE DUAS COISAS NESSA VIDA: QUE VAMOS ERRAR E QUE VAMOS MORRER.

AS PESSOAS DEVEM ENCARAR OS OBSTÁCULOS QUE APARECEM COMO DESAFIOS E OPORTUNIDADES PARA NOVAS APRENDIZAGENS,  E NÃO COMO OFENSA PESSOAL.

 


ESTE PAÍS ESTÁ, CADA VEZ MAIS, UMA VERGONHA!

Eduardo Simões

O presidente ignorante deste país, que se gaba de ser ignorante e de não ter estudos, assinou recentemente a autorização para a devolução do canhão El Cristiano ao Paraguai. Tudo por um momento na TV que não seja se defendendo de escândalos do seu governo ou de familiares.

Essa não é a primeira vez; afinal, em 2012, esse mesmo ignorante já havia transferido por 112 milhões de dólares duas refinarias que acabaram de custar 130 milhões, sem falar da perda dos lucros que essas refinarias poderiam dar e das oportunidades perdidas de negócios que poderiam ser feitos com esse dinheiro. O governo da Bolívia as tomou na marra e nos enfiou pela goela. Até parece que o ignorante que nos governa trata o patrimônio público como se fosse propriedade privada, que ele dispõe como bem entende, assim como os antigos coronéis do sertão de onde ele saiu, reproduzindo o modelo da infância.

Da mesma forma, o canhão El Cristiano não pode ser visto apenas por seu valor em metal ou peça de exibição, como um fotoprint de uma aventura do passado, mas antes como um símbolo e uma testemunha. Ele é o símbolo do valor de nossa RAÇA, que, mesmo em circunstâncias tão difíceis, foi lá e venceu. É também testemunha de quanto os nossos antepassados sofreram e morreram nessa guerra, em condições miseráveis, só para fazer calar esse canhão e, posteriormente, trazê-lo para casa, como um troféu e uma garantia de que ele não mataria mais brasileiros. Esse canhão é o testemunho da coragem, da bravura e da dedicação de nossa raça, no tempo em que os brasileiros não desistiam nunca, e por isso o país estava cheio de quilombos e de heróis. Esquecidas ou ignoradas no meio de tanta corrupção e ignorância.

Devolver pura e simplesmente esse canhão, 'tomado no braço' pelos nossos heróis, sem qualquer contrapartida, é tripudiar a memória de nossos antepassados, agredidos covarde e surpreendentemente pela iniciativa do tirano paraguaio. 

E que contrapartida os paraguaios poderiam dar?

Como todos sabem, ou deveriam saber, após a declaração desastrada, mas verdadeira, do presidente atual, de que o Paraguai iniciou a guerra, o país vizinho, oficialmente, convulsionou. O presidente se manifestou, o congresso local também, acusando-nos de ter começado a guerra e de ter praticado um genocídio no meio deles, quando qualquer um que não seja um ignorante ou um mal-intencionado sabe que não foi assim.

Tudo bem, talvez eles não consigam nos devolver os ossos dos passageiros sequestrados no Marquês de Olinda. Mas podem assinar um documento reconhecendo que foram eles que deram início à guerra, pedindo desculpas por nos terem ROUBADO o navio de passageiros Marquês de Olinda, por terem sequestrado e depois assassinado brutalmente, por meio de maus-tratos, privações e fome, alguns passageiros desse navio e o cônsul do Brasil em Assunção. Pedir desculpas por ter invadido, SEM PROVOCAÇÃO ou DECLARAÇÃO DE GUERRA, o Mato Grosso e depois o Rio Grande do Sul. Que não coube ao Exército Brasileiro a responsabilidade por LEVAR CRIANÇAS AO CAMPO DE BATALHA, mas ao seu próprio governante, e que as mortes na guerra foram decorrentes da dinâmica do conflito e não de um plano pré-estabelecido do Exército Brasileiro.

De quebra, pode vir até um agradecimento pela diplomacia imperial ter impedido que a Argentina anexasse completamente o país.

Ao devolver esse canhão ou qualquer outro troféu dessa guerra em nossas mãos, sem contrapartida, é o mesmo que:

A) Corroborar a mentira de que nós começamos a guerra e cometemos um genocídio proposital no país, e talvez, em breve, tenhamos de pagar bilhões e bilhões de indenização por um crime que eles cometeram, e ainda cometem com suas crianças, ocultando-lhes a verdade — e se for num governo de esquerda, alguém duvida que esse dinheiro não será pago?

B) É chamar de genocidas e agressores bárbaros os milhares de homens e mulheres que, em meio aos maiores sacrifícios, ganharam essa guerra para nós ou para a nossa elite, da qual esse presidente ignorante agora faz parte, e que, até hoje, não mereceram reconhecimento ou qualquer coisa que expresse, no mínimo, o agradecimento que a nação tanto lhes deve, se não as indenizações aos seus descendentes por promessas feitas na ocasião e nunca pagas.

C) Ajudar a perpetuar essa guerra na cabeça dos paraguaios, que até hoje nos odeiam por algo que os seus próprios antepassados fizeram por livre e espontânea vontade. É manter sempre um inimigo junto às nossas fronteiras, perdendo a oportunidade de acertar de uma vez por todas essa questão.

No momento, parece que brasileiros e paraguaios vão continuar dedicados a fazer o que sabem fazer de melhor: estragar o seu passado. Os paraguaios canonizando seus bandidos, os brasileiros demonizando os seus heróis.


É, meu amigo, no final você perdeu essa guerra, e a perdeu várias vezes. Foi convocado à força pelas patrulhas de alistamento, ou quem sabe saiu direto de uma senzala para o front de guerra, com um treinamento precário, uniforme improvisado e inadequado para o conflito, sequer um quepe que se ajustasse à sua cabeça. Lá você sofreu frio, fome, cansaço, doenças, picaduras de animais peçonhentos e de nuvens de mosquitos, mal-estar de doenças, as dores dos ferimentos e o estresse permanente da proximidade da morte, além de comandantes ineptos. E o pior de tudo: o monte de amigos que você viu mortos, estraçalhados à sua frente, e os homens que você foi obrigado a matar, para não morrer.

Mas, mesmo assim, você e seus companheiros venceram. E, por causa de sua vitória, esse país saiu engrandecido, assimilou novos territórios, e todos os outros países da bacia platina entraram num momento de grande prosperidade. Uma prosperidade que você e os seus descendentes não puderam usufruir no Brasil, muitos dos quais faleceram em estado de semi-indigência em asilos públicos e casas de caridade, sem receber as indenizações prometidas na hora dos embarques. Quem conhece os horrores de suas memórias, gravadas como ferro em brasa na sua mente, e que lhe apareciam em sonhos e mesmo com os olhos abertos? Marcas que deveriam estar naqueles que mais se favoreciam com o tipo de sociedade que existia aqui. Mas não era assim que as coisas funcionavam.

Hoje os descendentes daqueles que desguarneceram irresponsavelmente as nossas fronteiras do sul, estimulando o Paraguai a nos atacar, que fizeram promessas vazias, nunca cumpridas, de prêmios e recompensas aos que foram, em geral pretos ou pobres, querem devolver, sem mais, os troféus que vocês trouxeram, enquanto os antepassados dessa elite ficavam confortavelmente nas casas grandes, casarões e palacetes, a promover escândalos, como agora, e a pisar nos mais elevados valores civilizacionais, pelos quais vocês davam suas vidas.

O Brasil todo deveria se levantar em um único brado e gritar um MUITO OBRIGADO! Mas, sinceramente, a única coisa honesta para dizermos, se um dia nos encontrássemos com um homem desses, seria: SINTO MUITO! 

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

 


O PAÍS DO CAMINHA NÃO CAMINHA

Eduardo Simões

Uma frase no nosso documento fundador, a carta do escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral, Pero Vaz de Caminha, chama a atenção ao augurar um futuro próspero do Brasil: “em se plantando, tudo dá”, embora ela não esteja exatamente assim no documento oficial — “Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem.” Um ‘paraíso’.

O espírito e o significado do que é dito são os mesmos e apontam para a ideia de um ambiente farto de riquezas naturais, que o futuro mostrou ser correta. Como é um documento escrito a partir de uma cultura mais aristocrática do que burguesa, em que pese o objetivo comercial da frota, parece ter um viés particularmente extrativista, e nenhuma referência é feita ao trabalho. Aliás, ele poderia até ter acrescentado após essa expressão: “e nem precisa trabalhar muito!”

Ninguém vai ao paraíso com intenção de trabalhar, antes o contrário, e os colonos portugueses acreditaram tanto nisso que tudo fizeram para conseguir pessoas que trabalhassem para eles, na forma de trabalho compulsório dos indígenas e colonos mais pobres, apesar do nome da colônia, absolutamente contrário a essa mentalidade: Terra de Santa Cruz, convenientemente modificado para Brasil.

À medida que a acumulação de capital oriunda das trocas comerciais sobre o pau-brasil e o desenvolvimento dos primeiros engenhos de açúcar começaram a encher os cofres dos seus donos e do estado português, aqueles mais bem-sucedidos começaram a importar mão de obra compulsória africana, criando novas perspectivas de comércio e um ramo altamente rentável: o tráfico de gente.

Cria-se aqui uma elite ociosa — desenvolvida a partir do complexo da rede, uma invenção indígena, com muitos senhores, segundo Gilberto Freyre, fazendo nelas até as suas necessidades mais básicas (ver Casa-grande e senzala). Ociosa, sim, mas política e culturalmente muito influente, a apontar para o resto da nação que uma das principais condições para ser elite no país seria não precisar trabalhar, justo no momento em que o mundo moderno, baseado no trabalho livre e eficiente, começava a se erguer.

Não é de admirar que, em 1822, quando nos tornamos independentes, fôssemos quase tão ricos como os Estados Unidos e, como eles, candidatos a ter um grande peso futuro no concerto das nações. Mas, em 1900, enquanto eles estavam entre as maiores potências do mundo, nós patinhávamos na estagnação, entre os países periféricos, como éramos em 1822 — Jorge Caldeira apresenta um interessante capítulo sobre isso no seu livro História da riqueza do Brasil.

Podemos imaginar o quanto isso gerava de dissonância cognitiva no conjunto dessa mesma elite que promovia (outra fonte de dissonância) a religião católica como a oficial, e ouviu certamente, por uns trezentos anos, recomendações como: “ganharás o teu pão com o suor do teu rosto” e “amai-vos uns aos outros”, enquanto reforçava a ociosidade e a escravidão.

Hoje, quando ouvimos o noticiário nas mídias sociais, percebemos duas coisas: a nossa sociedade, especialmente a nossa elite, não mudou nada a esse respeito, e continua plenamente válida a assertiva antiga que dizia que a ociosidade nunca vem sozinha. Ela está sempre acompanhada pela sua irmã gêmea: a corrupção.

A situação dessa elite colonial ou imperial não deixa de nos dar um certo paralelo com a situação do filho do atual presidente, comprometido até o pescoço no mais escandaloso caso de tráfico de influência, em que, graças à sua condição de ‘filho do presidente’, aparentemente garantiu uma fortuna, para si e para os amigos, facilitando contatos entre estes e o pai poderoso — na Inglaterra os príncipes herdarão a coroa dos pais, quando estes morrerem; aqui, os filhos de presidentes herdam a chave do cofre do Tesouro, sem nem ter que esperar a morte dos genitores. O importante é não trabalhar.

Isso se manifesta também na oposição, quando o principal líder, igualmente envolvido em muita coisa confusa, fez um nome famoso o bastante para eleger a cargos políticos seus quatro filhos, o que lhe garante altos salários, a proximidade dos cofres públicos e nenhuma cobrança por eficiência. Isso não deixa de suscitar uma dúvida legítima: se o atual presidente, com um único filho, faz esse estrago, quanto estrago causará o opositor, com quatro?

As grandes fortunas, aqui, são geradas e asseguradas a servidores públicos, que parasitam o sangue da nação, enquanto acumulam a fama de estar entre os mais caros do mundo e entre os que mais reclamam de seus salários, enquanto asseguram ganhos extras e férias maiores que os outros. Já imaginaram o gênio do Vorcaro e de outros grandes ladrões dos inúmeros escândalos da nossa história trabalhando em coisas úteis e honestas? Em que patamar de progresso não estaríamos?

Há um político conhecido que vendeu chinelos artesanais em feiras públicas para financiar sua faculdade de direito, mas, depois que entrou para a política e fez toda sorte de acordo para ficar sempre com os vencedores, sua vida mudou. Apesar de inúmeras acusações públicas de corrupção, ele não só se elege regularmente, como o seu filho, assim como se tornou um dos homens mais ricos do seu estado, sem criar empregos ou inventar qualquer coisa útil à sociedade. Só mamando nos cofres públicos a cada oito anos e, decerto, traficando influência.

Essa mentalidade nos fez parar no tempo e no espaço, e os seus efeitos já se fazem sentir tão escandalosos quanto a pletora de escândalos que todos os dias jorra dos noticiários. Foi-se o tempo de compararmo-nos com as grandes potências, pois até nossos pobres vizinhos, muito, muito mais carentes de recursos naturais, começam a nos ultrapassar.

Vejam esse caso. Em 1960, o PIB per capita/ano do Chile era de 469 dólares, corrigidos no valor de hoje, enquanto o do Brasil era de 2.603. Em 2026, os indicadores registravam 37.336 para o Chile e 24.428 para o Brasil, em paridade do poder de compra, ambos estimados.

Talvez uma grande sorte nossa seja não ter o Chile colado na nossa fronteira.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

 

TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 26

Outras Obras Representativas

No século XVI, esse tipo de economia floresceu em todos os países continentais. Como obras representativas, escolheremos duas obras de Jean Bodin e de Giovanni Botero. Ambas as obras são principalmente tratados sobre “ciência política” — escritas no espírito da Política de Aristóteles — e, como tal, são importantes degraus entre Maquiavel e Montesquieu. Sua economia é, como a de Carafa, a economia da política e da administração públicas... A análise econômica no Sexto Livro da República de Bodin, no entanto, dificilmente está acima das ideias que circulavam em sua época e, de fato, não vai muito além da de Carafa, embora seus princípios de tributação marquem um progresso adicional em direção ao Quinto Livro da Riqueza das Nações.

Botero, que em outros aspectos pode ser classificado como um seguidor de Bodin, deu uma contribuição muito mais importante para a análise econômica... O tratado de Botero, especialmente se considerado em conjunto com suas outras obras, demonstra uma notável atenção aos fatos. Ele era um analista competente. Mas a maior parte de seu trabalho dedicou-se à coleta, coordenação e interpretação de fatos passados​​e contemporâneos econômicos, sociais e políticos. Nisso, ele não foi exceção. Vimos que os doutores escolásticos do século XVI eram ávidos caçadores de fatos e que raciocinavam muito mais a partir da observação e muito menos de premissas abstratas. Isso, contudo, era ainda mais verdadeiro no caso da literatura ora em discussão, cuja maior parte, bem como seu principal valor, pode ser considerada como consistindo em investigações “factuais”: então, como sempre, ao longo da história da economia, a busca por fatos era a principal preocupação da esmagadora maioria dos economistas.

[As obras representativas são: Os seis livros da República, de Bodin, e Sobre razão de estado e Sobre a causa da grandeza das cidades, de Botero]

Espanha e Inglaterra.

O altíssimo nível da economia espanhola do século XVI devia-se principalmente às contribuições escolásticas. Mas podemos observar o que acredito ter sido um dos primeiros “quase-sistemas”, a obra de Ortiz, principalmente um programa bem fundamentado para o desenvolvimento industrial, de um tipo que se tornaria tão prolífico no século XVII, na Espanha e na Inglaterra. Da Alemanha, há pouco a registrar... À primeira vista, pode-se ter a impressão de que na Inglaterra do século XVI havia pouco que correspondesse ao tipo de trabalho analisado até agora. Mas não é bem assim. Havia trabalhos correspondentes, apenas que assumiam outras formas devido à diferente estrutura política do povo a quem se dirigiam.

A discussão dos problemas econômicos da época, incentivada e também disciplinada pelo ritual das investigações parlamentares e governamentais, melhorou muito ao longo daquele século e, ocasionalmente, alcançou relevância “científica”. A partir de evidências apresentadas perante comissões reais — como a Comissão Real sobre Câmbio, de 1564 —, discursos, petições, panfletos sobre cercamentos, guildas, companhias, o sistema de bens de primeira utilização, monopólios, tributação, moeda, alfândega, assistência aos pobres, salários, regulamentação da indústria e assim por diante, poderia ser compilado um manual de análise e política econômica que se compararia favoravelmente com os esforços similares feitos no continente.

 

Nota de Schumpeter

[Após citar José Larraz López e seu livro ‘La Época del Mercantilismo en Castile, 1500–1700’] e a resenha deste discurso na Economic History Review, 1944, por J. Márquez. O Sr. Larraz fala de uma escola espanhola — a ‘escola de Salamanca’ — de economistas do século XVI. Há, de fato, alguma justificativa para isso. Mas o núcleo dessa escola era composto por escolásticos tardios, muitos dos quais os mais eminentes eram espanhóis; e não havia nada especificamente espanhol em seu ensino; o restante dos economistas espanhóis do século XVI, embora a maioria deles também fosse de clérigos, não formavam uma escola [Logo Schumpeter não desposa a ideia de uma ‘Escola de Salamanca’ na economia, contra a opinião da economista Marjorie Hutchinson, que defende a sua existência e escreveu um livro-texto sobre ela: The School of Salamanca: Reading in the Spanish Monetary Theory 1544–1602].

 

Diversas publicações podiam ser consideradas panoramas gerais da economia da época. Limitar-nos-emos ao mais conhecido desses tratados.

O Discurso sobre o Bem Comum  [‘Discourse of the Common Weal’, de autoria desconhecida] contém três diálogos que abordam uma ampla variedade de tópicos. O autor lamenta “que os jovens estudantes sejam sempre precipitados demais ao proferir seus julgamentos” e a “discrepância em matéria de religião”; recomenda uma melhor formação em todos os aspectos, chegando a considerar a superioridade no “aprendizado” como uma das razões para a vitória de Júlio César sobre Pompeu; condena os cercamentos na medida em que transformam terras aráveis ​​em pastagens; critica o surgimento das corporações empresariais e suas práticas monopolistas; Desaprova a moeda desvalorizada e a inflação que prejudica as pessoas cujos rendimentos não reagem prontamente, como os trabalhadores, os proprietários de terras e até mesmo Sua Alteza o Rei; recomenda o fomento de novas indústrias, bem como a acumulação de um fundo monetário para emergências (‘sodeyne eventes’) — sendo o dinheiro, por assim dizer, um ‘armazém de qualquer mercadoria’ e um nervus bellorum [o nervo da guerra]; não favorece a exportação de matérias-primas, especialmente de lã; desaprova esses ‘estrangeiros’ [exportadores e importadores ingleses] que não vendem nada além de artigos frívolos que lhes custam pouco, embora os ingleses paguem caro por eles e compram em troca bons e honestos produtos ingleses, se é que compram alguma coisa e não levam o dinheiro em espécie diretamente, como têm preferido fazer ultimamente; acreditam que as mercadorias estrangeiras devem ser taxadas para os produtores nacionais poderem competir; querem que o dinheiro da nação permaneça no país e que se recupere o que já saiu. E por aí vai.

 

Nota de Schumpeter

À Srta. Elizabeth Lamond devemos uma excelente edição crítica sob o título A Discourse of the Common Weal of this Realm of England (1893), que, além do texto, apresenta os resultados de pesquisas cuidadosas sobre a natureza e a origem da obra. Mas, para nós, é mais importante notar que a edição impressa em 1581... difere de uma anterior (1565), sendo a diferença mais importante a adição de uma passagem sobre as causas da alta dos preços em geral: enquanto a edição de 1565 fala apenas da deterioração da moeda, a posterior menciona também o aumento da oferta de metais preciosos. Quem fez essa adição, portanto, pode ter direito a uma parte do crédito que essa “descoberta” merece, embora a prioridade de Bodin, não apenas quanto à publicação, mas também quanto à própria descoberta. O Estatuto Elisabetano dos Aprendizes, de 1562/3 (5 Eliz. c. 4), introduziu, no entanto, o que chamaríamos de salários indexados: ou seja, os salários seriam ajustados anualmente de acordo com as mudanças no custo de vida.

 

A partir dessas indicações, o leitor poderá traçar um panorama da visão econômica do nosso autor. É claro que se tratava de economia popular — pré-analítica, em grande parte puro bom senso. O “doutor” dos diálogos era evidentemente um homem extremamente razoável e jamais disse nada que parecesse absurdo para o leigo inteligente ou o político de hoje. Em um aspecto, porém, ele era especialmente razoável para a sua época. Desconfiava menos da regulamentação do que os liberais do século XIX, mas mais do que nós mesmos. Não gostava de coerção. Desejava trabalhar com o lucro, e não contra ele, pois o considerava essencial. Além disso, por vezes, enxergava além da superfície das coisas. Por exemplo, percebeu corretamente que a invasão das terras aráveis ​​por pastagens de ovelhas tinha muito a ver com a política que visava manter o trigo barato por meio da fixação de preços e da proibição de exportações, frustrando dessa maneira o seu objetivo ao alterar a rentabilidade relativa da produção de trigo e lã em favor desta última. Este raciocínio (cujos análogos são frequentemente encontrados nos escritos dos Administradores Consultores = os burocratas) vai além do óbvio. Em suas implicações, aproxima-se do status de trabalho analítico.

Nota do tradutor

Esqueça a baboseira marxista, pois o que deu início aos cercamentos na Inglaterra não foi a ambição dos capitalistas, e sim a intervenção do Estado, no caso, a rainha Elizabeth I, na economia. Essa monarca, querendo garantir pão barato, proibiu a exportação de trigos e cereais, principalmente nas décadas de 1590, provocando uma queda nos preços, tornando essa cultura economicamente pouco viável ou inviável. Encurralados os donos de terra em melhor situação, uma pequena minoria resolveu investir em ovelhas, cujos custos de produção eram mais baixos e não havia restrições para a comercialização da lã. Foi uma reação de sobrevivência para alguns produtores. 

 

OS SISTEMAS, 1600–1776

Representantes dos Estágios Iniciais

Os desenvolvimentos mais ricos dos séculos XVII e XVIII são muito mais difíceis de transmitir. Tendo em mente nosso plano, nesta seção, provisoriamente desconsideraremos tudo o mais e prosseguiremos com nosso levantamento da literatura “sistemática” desses dois séculos até chegarmos à região de A Riqueza das Nações. Os estágios iniciais desse tipo de trabalho serão representados por Montchrétien para a França... e por Fernández Navarrete para a Espanha.

Antoyne Montchrétien, Sieur de Watteville (c. 1575–1621), Traicté de l’oeconomie politique (1615), parece ter sido o primeiro a publicar um livro com o título de Economia Política. Este foi, no entanto, seu único mérito...

Pedro Fernández Navarrete, Discursos (primeira edição de 1621; edição posterior sob o título Conservación de monarquías, 1626). Este autor, um oficial da Inquisição, demonstra uma notável liberdade em relação à tendência de sua época (e da nossa) de supervalorizar o fator monetário, e um julgamento não menos sólido ao sustentar que um processo normal de industrialização teria contribuído muito para remediar os males que afligiam a Espanha (o valor agregado às matérias-primas pelo trabalho humano seria muito mais importante do que o ouro e a prata) desde que se removessem os obstáculos. Sinto-me bastante confiante de que estou certo ao preferir a obra de Fernández Navarrete à do igualmente conhecido Moncada (Discursos, 1619, republicado somente em 1746 sob o título Restauración política de España) no que diz respeito à capacidade analítica. Quatro outros nomes bastam para caracterizar o que pode ser considerado um estágio mais avançado: Martinez de la Mata, que desenvolveu um programa de política industrial nos moldes de Fernández Navarrete; Seckendorff, que escreveu o primeiro tratado notável sobre a administração pública e a política dos principados alemães; o grande nome de Sully, que negligenciamos, como é inevitável; e Du Refuge (Philippe de Béthune), que foi muito além de Bodin ou Montchrétien.

...

Veit Ludwig von Seckendorff (1626–92), ele próprio um distinto administrador, publicou em 1656 o Teutscher Fürstenstaat, a obra clássica do gênero. Por trás do programa descritivo e pedagógico, há uma visão social e uma política definidas. O objetivo final é uma população numerosa e bem empregada, a proteção e a liberdade interna da indústria e do comércio — o que, por si só, eliminará as obsoletas corporações de ofício —, a educação elementar obrigatória e um sistema tributário baseado no imposto sobre o consumo — que, ao incidir levemente sobre as rendas mais altas, aumentará o emprego — são os principais meios previstos. Veremos em breve que este era, e continuou sendo, o programa típico — e, por implicação, a análise típica dos "cameralistas" alemães e italianos ao longo de suas carreiras, até as primeiras décadas do século XIX. O homem que primeiro formulou esse conceito de forma definitiva e correta, antecipando, em alguns pontos, os desenvolvimentos que ocorreriam mais de um século depois, não era um mero pensador. Pelo contrário, ele se destaca, como homem e como intelecto, acima de muitos escritores que figuram com muito mais proeminência nestas páginas. Mas análises explícitas, ou seja, esforços conscientes para estabelecer relações de causalidade ou interdependência, são difíceis de encontrar em sua obra. E o que existe delas não é muito profundo.

Maximilien de Béthune (1560–1641), nomeado Duque de Sully por Henrique IV, ministro das finanças deste último, foi um homem muito maior e especialmente mais forte do que o mais famoso de seus sucessores, Colbert. Ele reformou o sistema fiscal da França com grande sucesso e enxergou muito além do alcance do que de fato realizou. Além disso, ele tinha conhecimento de como fazer da política fiscal um elemento e ferramenta da política econômica geral. Suas Économies royales (publicadas pela primeira vez em 1638; uma seleção, que é tudo o que conheço, foi republicada na Petite bibliothèque économique de Guillaumin) são essencialmente memórias de sua administração e constituem, em sua forma, uma leitura agradável e muito instrutiva. Mas não faz sentido chamá-lo de precursor dos fisiocratas, com base em sua preocupação com o bem-estar da população agrária e em sua afirmação de que a agricultura e o pastoreio eram os dois mamelles [no bom sentido!] da França. Nada pode ser mais óbvio do que o fato de que esse homem era totalmente desprovido de qualquer teoria.

A obra de Eustache Du Refuge*, Le Conseiller d’estat ou recueil général de la politique moderne (1645)... representa mais um passo em direção ao Quinto Livro de A. Smith. A economia de Du Refuge é notável em vários aspectos. Em particular, ele foi o primeiro autor de que tenho conhecimento a distinguir e, ao mesmo tempo, coordenar os efeitos da "parsimonie" [parcimônia] (cap. 44), que conserva a riqueza, e da "espargne" (acumulação, cap. 49), que interfere no comércio. Neste e em outros pontos, ele fez um esforço louvável de análise...

Em alguns países, especialmente na Alemanha, [a parcimônia = poupança] foi a principal fonte doméstica de ensino de economia, mesmo nas primeiras décadas do século XIX. Grande parte dessa literatura, no entanto, era tão lamentavelmente pouco original e tão obviamente escrita em resposta à demanda, e não a um impulso criativo, que não haveria sentido em acompanhar sua história em detalhes.

 


A VELHICE É COMUNISTA?   

Eduardo Simões

Conversando com um amigo, infelizmente aficionado por um maluco sem projeto, ouvi-o dizer as piores coisas da Europa. Inclusive, como é comum entre os apoiadores desse maluco, defendeu o fim da União Europeia, sob pretexto de que ela estaria se tornando ‘comunista’, enquanto elogiava Trump — nada disso faz sentido, uma vez que quem levanta publicamente a bandeira da União Soviética é Putin, da Rússia, tanto na Ucrânia como nos desfiles em Moscou, e conta tanto com a simpatia do maluco como com a de Trump, 'extrema direita', mas é ferozmente combatido pela União Europeia, comunista.

Mas o detalhe que escapa a esse homem, e aos fiéis seguidores do maluco, é que, em virtude da paz, do avanço tecnológico e de políticas humanitárias, a população europeia, e a de todos os países do mundo onde o capitalismo com paz, estabilidade jurídico-política e progresso econômico vingou, experimentou um período de prosperidade e distribuição natural de riquezas, com o consequente avanço na expectativa de vida.

Mas, se o avanço da medicina garantiu o prolongamento da vida, ela não conseguiu ainda prolongar a juventude ou o auge físico dos seres humanos que continuam vivos, embora envelhecendo do mesmo modo como acontecia com os povos caçadores-coletores, um milhão de anos atrás.

Que fazer então para sobreviver, sem o vigor da juventude para produzir mais e até para cuidar de si mesmo? Para completar, as exigências da vida moderna, as expectativas culturais do pós-guerra, o feminismo, etc., vieram no sentido de reduzir o tamanho das famílias, diminuindo ou extinguindo para muitos o tradicional esteio de cuidados com os idosos: a sua grande parentela. O ser humano moderno é um solitário e, se ainda não é, quando se tornar idoso o será.

Então, quem cuidará dele quando se tornar, naturalmente, ou em virtude de alguma doença, incapaz de se cuidar sozinho? Quantos terão recursos suficientes para contratar cuidadores profissionais? Considerando que as pessoas comuns, fora do Brasil, não querem ver seus velhos morrendo à míngua, com corpos idosos estirados nas calçadas, e outros só descobertos quando o cheiro vindo do apartamento se torna insuportável, a melhor saída ainda é a intervenção estatal, com a sua abundância de recursos e mão de obra especializada, em setores que podem fazer a diferença no prolongamento digno da vida dessas pessoas. Mas como fazer intervenção em uma área tão significativa da sociedade sem mexer em outras, como a educação, a saúde e os serviços de suporte urbano, deixando correr tudo pela iniciativa privada, como querem os mais fanáticos e defensores do maluco?

Vejamos alguns dados: nos EUA, o paraíso dos ultraliberais, de 7 a 13 mil indigentes são recolhidos mortos nas ruas todo ano (só em Nova York são 500 — no condado de San Diego, Califórnia, um caso grave de desrespeito: se a família não aparecer, o cadáver é incinerado e as cinzas jogadas no mar; a prefeitura transforma a pessoa em comida de peixe); no Reino Unido foram recolhidos 169 cadáveres nas ruas; na França, antes da crise da imigração, eram 340 os sem-teto mortos por ano, hoje beira os 750; na Itália esse número chega a pouco mais de 400; etc. No Brasil, calcula-se que sejam uns 6 mil. Portanto, aqui, como nos EUA, há um coliseu em cada esquina, onde vários tipos de pessoas, inclusive velhos desassistidos, lutam contra a natureza e sistemas sociais falidos e sempre perdem.

O caso mais extremo são os kodokushi, no Japão, nome que se dá aos velhos que morrem solitários em seus apartamentos, só notados quando o cheiro dos corpos transborda para ruas e corredores dos prédios. No último ano foram 76.900 pessoas! Das quais 70% eram idosos. Quantos não terão se suicidado por desespero ou pura solidão? O mais grave é que, apesar de a população japonesa encolher todo ano a olhos vistos, esses casos só vêm aumentando.

Assim, podemos, sem qualquer contorção lógica, deduzir que essa predileção por partidos que tragam uma mensagem que se aproxime mais daquela que é tradicional à esquerda é justificada pelas necessidades do novo perfil etário da Europa, que continuará nessa mesma batida, independentemente de existir União Europeia ou não.

Esses votos, portanto, têm motivos completamente opostos àqueles que um tradicional defensor do maluco normalmente imagina, e só de tabela podem estar turbinando partidos pretensamente esquerdistas ou esquerdistas de fato, que aproveitam para ‘surfar na onda’. Isso tudo por falta de alternativa 'à direita'.

Fora isso, tem a opção escolhida por alguns, nem todos, povos caçadores-coletores, como os achés ou guaiaquis, no Paraguai, que, quando um indivíduo idoso não conseguia acompanhar o deslocamento do grupo, este seguia em frente e o abandonava. Os inuits e os hopis na América do Norte abandonavam seus velhos até a morte. Entre os kaulong, na Nova Guiné, a viúva do morto era assassinada por seus parentes. Da mesma forma que os civilizados indianos faziam, antes da chegada dos ingleses. Estamos longe disso aqui no Brasil? (https://super.abril.com.br/historia/a-caca-ao-conhecimento-perdido/)

Talvez esse suposto esquerdismo da população europeia não passe de falta de alternativa, diante de um liberalismo que se cristalizou em velhas fórmulas resistentes à realidade, o paleoliberalismo, e também porque há muito tempo eles não veem graça nenhuma em lutas de gladiadores.

 


segunda-feira, 24 de agosto de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 37

A força de uma mentira

O navio, que trazia Moreira Cesar, aportou em Salvador às 14h, no dia 6 de fevereiro de 1897. A bordo estavam, como já dissemos, além do 7º B.I., comandado pelo Major Rafael Augusto da Cunha Mattos, uma seção de cavalaria e uma companhia de artilharia, da qual fazia parte o segundo sargento Marcos Evangelista da Costa Villela Júnior. Villela Junior foi um dos raros combatentes que escreveram um livro a respeito - Canudos: memórias de um combatente (Marco Zero, São Paulo, 1988), no frescor de seus 21 anos. Na página 15, ele diz:

Em fevereiro de 1897, no Rio de Janeiro, eu… era sargento do 2º regimento de artilharia de campanha, pertencente à 4ª bateria, quando esta foi designada para seguir com a coluna Moreira César… seríamos transportados para o vapor Maranhão, do Lloyd Brasileiro, que nos levaria à Bahia.

O sargento Villela não sabia ainda que estava destinado a altos voos, pois seria pioneiro da aviação militar no Brasil e o primeiro general aviador do Exército — seu bisneto, o jornalista Carlos Fioravanti, escreveu uma singela e esclarecedora matéria sobre a sua importância na aviação na revista Pesquisa Fapesp, onde nos diz que Villela escreveu o seu livro aos 76 anos, em 1951. Por que será que ele esperou tanto? Na página final, 121, Villela nos tranquilizará:

Apesar de passados 54 anos, nada esqueci.”

Mas vejam o que ele diz na página 15, sobre Moreira César.

“Desconfiava do comandante do navio, achando que ele queria pregar-lhe uma peça: prendeu-o em seu gabinete, com sentinela à vista.”

Villela Junior não esqueceu esse episódio, mesmo porque ele nunca viu isso! Esse fato só aconteceu uma vez, na viagem de Florianópolis ao Rio, a bordo do vapor Itaipú, quando transportava somente o 7º B.I., e não no percurso do Rio para Salvador, no vapor Maranhão, cujo comandante recebeu um bilhete de agradecimento dos oficiais do 7º BI. O primeiro a assinar foi Moreira César — ver Oleone Fontes. Então, por que Villela afirma que o viu?

a) O mais provável é que foi uma falha da memória, ou contaminação pela forte presença, inclusive nos meios militares, das “maluquices” do Coronel César, inventadas em Os Sertões.

b) Ele pode ter utilizado o episódio para tornar o seu texto mais atraente, como outros também o fizeram (Barreto, Benício). Afinal, ninguém, até aquele momento, se interessara em fazer uma pesquisa histórica sobre o que acontecera em Canudos. Então, vamos fantasiar! É para isso que Canudos serve!

Famoso por seus delírios, Manuel Benício, em seu livro O rei dos jagunços, diz que Moreira César, afobado para desembarcar suas tropas em Salvador, teria obrigado, por meio de pranchadas — golpes dados com o lado da espada — alguns curiosos, que estavam ali assistindo, a auxiliarem no desembarque da bagagem.

Segundo Oleone Fontes, em seu livro O Treme-terra — Moreira César, a república e Canudos, p. 28, a chegada de Moreira César a Salvador foi apoteótica. Uma comissão de autoridades civis e militares o recebeu no trapiche, e de lá foram para o arsenal da Marinha, no qual se encontrou com mais personalidades civis e militares e, de lá, partiu para um encontro com o governador.

No Palácio da Vitória, teve uma longa conferência com Viana, na presença de Rodrigo Brandão, secretário do Tesouro, e Sátiro Dias, secretário do Interior. O que foi dito nessa conferência, com certeza, é de importância crucial e parece que ninguém se preocupou em recuperar isso, nem os que a testemunharam revelaram qualquer coisa. Por que tanto segredo?

Por fim, ainda segundo Fontes, ele se retirou às 20h00 para conferenciar com o coronel Saturnino Ribeiro, do 3º DM, e depois voltou para o barco.

Para que espancar pessoas para esvaziar o navio, se no final ele volta para o mesmo barco? Como ele faria isso diante de inúmeros jornalistas e autoridades baianas que acompanharam a sua chegada, sem causar indignação pública e editoriais furiosos nos aguerridos jornais soteropolitanos? Como é que ninguém notou isso no momento, e só tempos depois?

O auge do delírio alucinógeno é a invenção de uma mulher de preto, viúva de um fuzilado em Anhatomirim, que, no trapiche, em alta voz, agourou a morte do coronel nas mãos dos jagunços. Só as pessoas que não estavam presentes a viram.

Por fim, menciono um trecho do “Treme-terra”, do baiano Oleone Fontes:

“Nenhum jornal baiano, e eram muitos na época, mencionou qualquer ato violento partido de Moreira César, ou de quem quer que fosse da sua brigada, contra o povo quando da chegada (p. 35).”

A relação entre   Moreira César e Luiz Viana precisa agora ser esclarecida. O ponto de partida é a enorme resistência que Luiz Viana opôs à nomeação de César, sendo-lhe praticamente imposta por Manuel Vitorino. Eis o que diz Luiz Viana Filho, em um pequeno folheto (À margem de Os Sertões; Livraria Progresso, Salvador, 1960, p. 26–27). É verdade que estamos em 1960, a reputação de Moreira César está destruída e ninguém quer mais proximidade com ele, mas vimos também que Viana preferia não mexer com Canudos.

“Manuel Vitorino nomeou Moreira César. Por sinal, contra a opinião de Luiz Viana.”

            Um telegrama de um amigo, datado de 4 de fevereiro, citado por Viana Filho, diz o seguinte (trechos):

“A situação agrava-se… Manuel Vitorino não ouviu Viana sobre a nomeação do M. César, oficiais e batalhões para a expedição dos Canudos. Ontem, a deputação federal, o governador e Severino pediram ao governo a nomeação de outro general para comandar a força expedicionária. Tiveram resposta negativa… A soldadesca diz que vai impor ao M. César a deposição do Viana.”

Vê-se que houve uma forte resistência, da parte do governo da Bahia, a Moreira César, e recíproca insistência da parte de Manuel Vitorino, dando a entender que havia, da parte do vice-presidente, um interesse incomum em afastá-lo do Rio.

No folhetim de Luiz Viana, o pai, escrito em 1897, para explicar os acontecimentos, o episódio é narrado diferente (Mensagem do governador da Bahia ao Sr. Presidente da República, Typographia do “Correio de Notícias”, Bahia, 1897, p. 10):

“Deliberou então esse governo [o federal] a vinda de uma brigada sob o comando do coronel Moreira César… Respondi imediatamente, declarando que o governo do estado se prontificava para dispor todos os elementos que pudessem aproveitar à nova expedição.”   

Viana Filho, porém, avança com algumas histórias esquisitas sobre Moreira César, cuja origem já diz tudo.

“Moreira César, por exemplo, ao vir comandar a terceira expedição, não tinha dúvidas sobre as origens monárquicas de Canudos, e tal concepção serviu para revitalizar a flama florianista em declínio. (Idem, p. 6).”

Essa afirmação é estapafúrdia, pois não há nenhuma declaração de Moreira César nos jornais ou nos telegramas que enviou ao Ministério da Guerra, que aponte nessa direção. Como a tese da origem monarquista de Canudos já era repudiada em 1960, Viana Filho a utiliza para desviar a atenção sobre seu pai e a jogar nas costas de Manuel Vitorino e Moreira César. Fazer história para alguns é defender o seu lado da fantasia.

A afirmação que Viana Filho faz de que Moreira César era alguém tentando revitalizar a “flama florianista” é desprovida de realidade e reforça o que foi dito antes sobre transferência de responsabilidades. Ele é um bom filho!

“O próprio Moreira César, aliás, viajara convicto de que o episódio sertanejo era apenas uma parcela da grande conspiração restauradora.”

Essa fantasia foi criada por Manuel Vitorino e publicada nos jornais, pouco depois da morte do coronel. Claro! O filho fiel de Viana repete-a agora, em aparente aliança com Manuel Vitorino, dizendo.

“Quando o governo [de Vitorino]… punha à sua disposição toda a força de que ele houvesse mister, o distinto patriota recusava, declarando que requisitaria qualquer reforço… de patriotas [voluntários], porque entendia não desfalcar as guarnições da capital e das cidades principais… Porque estava convencido de que esse movimento (Canudos) era auxiliado em obediência ao plano de distribuir forças para melhor facilitar a execução dos intuitos e planos monarquistas [uma armadilha para atrair tropas para os sertões]… Naturalmente, o temor de Moreira César… refletia o que era corrente entre os exaltados. E estes, morto o chefe… 'entenderam ser magnífico o ensejo — diz Aristides Milton [o homem em cuja casa foram afogados os arquivos de Luiz Viana] — para fazer o governador da Bahia e seus amigos passarem como responsáveis pelos acontecimentos'.”

As principais questões são as seguintes:

a) Essa desconfiança de Moreira César, de que Canudos era monarquista, Viana Filho ouviu do pai, leu-a em documentos que sobreviveram à destruição dos arquivos, foi aprendida em leituras posteriores, ou ele somente reproduz a desinformação criada por Vitorino?

b) A declaração de Vitorino de que Moreira César teria dito a ele que requisitaria Batalhões Patrióticos se precisasse, não tem o menor cabimento. Se os batalhões se justificaram num momento crítico do governo Floriano, isso não acontece em Canudos. Não há nenhum registro de Moreira César interessado em tais batalhões.

c) Se Moreira César fosse um florianista exaltado, ele jamais se oporia ao projeto ditatorial de Floriano ou de Vitorino. Tampouco teria merecido os elogios de Prudente de Morais — que extinguiu os batalhões patrióticos — nem os de José do Patrocínio, antiflorianista convicto. Vemos também que, depois que saiu tudo errado e a guerra virou um massacre, começou entre os principais envolvidos o jogo da ‘batata quente’, com cada um jogando a responsabilidade nos outros.

Uma questão intrigante é que Canudos foi um evento do mais alto significado do governo de Luís Viana. Era, portanto, de se esperar que ele escrevesse sobre o assunto, esclarecesse lacunas, revelasse os bastidores, livrasse o seu lado. Mas nada saiu de sua pena, exceto quando lhe tocavam os calos, e aí ele sacava o que todos já sabiam. 

Houve um episódio providencial para alguém. A destruição dos arquivos de Luís Viana na cheia do rio Paraguaçu, em Cachoeira, na casa de Aristides Milton. Isso lhe deu o pretexto para privar-nos do seu testemunho fundamental sobre as causas e a dinâmica do conflito. A única produção de sua pena sobre o assunto foi um pequeno folheto de 10 páginas, desmentido parcialmente pelo filho.

Na biografia mais densa de Luiz Viana Filho (A vida de Luiz Viana Filho, por João Justiniano da Fonseca, Senado Federal, V. 58, Brasília, 2005, p. 20–21), em que se espera alguma luz extra a respeito, a decepção é total. O autor, Justiniano da Fonseca, não gasta nem uma página no assunto e simplifica: "A história está contada e recontada."

É estranho que alguém, tão próximo de um acontecimento tão importante, não tenha nada a dizer sobre o que aconteceu.

Eduardo Simões