quarta-feira, 12 de agosto de 2026

 


GUERRA DO PARAGUAI — OS HISTORIGUAIOS ATACAM O BRASIL, NOVAMENTE, COM A SUA ARMA PREFERIDA: A FRAUDE.

Eduardo Simões

Chamo de historiguaios aqueles brasileiros que, por um desacerto da natureza ou desparafusamento mental, travam uma guerra de morte, diuturna, contra o seu país, sempre que o assunto é Guerra do Paraguai. Esse tipo de gente começou a aparecer, e quase imediatamente ganhar notoriedade, com o lançamento, em 1979, do livro Guerra do Paraguai, um genocídio americano, de um dos mais encarniçados inimigos de nossa pátria, o paulista Júlio José Chiavenato. 

O seu livro é pouco mais que um monte de mentiras, distorções e desinformação, mas, no seio de um povo ignorante de sua história, ‘vendeu como água’ e o fez famoso da noite para o dia, apesar de o autor não ter nem qualificação acadêmica. O seu livro ganhou autoridade de 'revelação divina’, mudando quase instantaneamente a abordagem majoritária desse tema — como nenhum outro historiador sério o conseguiu —, tornando verdade irrefutável uma antiga máxima de sabedoria: ‘Deus começa por tirar o juízo daqueles que querem se perder’.

Nem todo esquerdista é historiguaio, mas todo historiguaio fanático, daqueles que não perde uma oportunidade para dar uma estocada, é esquerdista. Existem também os incautos, os tolos, tanto de direita como de esquerda, que se deixam levar. Agora, leitor, peço-lhe a atenção para a foto abaixo, que, segundo, historiguaios histéricos seria de crianças paraguaias supostamente massacradas pelo exército brasileiro na batalha de Acosta Ñu. Campo Grande, na nomenclatura brasileira — quando damos rosto às ‘vítimas’, fica mais fácil incutir ódio ao ‘agressor’ ou, como nesse caso, ‘o que terminou vivo’ ou ‘o que venceu’. Os historiguaqios odeiam o Brasil apenas porque ele venceu a guerra, que ele não provocou.


Segundo uma enxurrada de sites de historiguaios e ignorantes, a foto acima seria de crianças paraguaias mortas por tropas brasileiras em combate, num verdadeiro crime de guerra, afinal quem ‘animal’ teria coragem de atirar em crianças tão pequenas, inocentes e desprotegidas? Mas a questão prévia é:

Guerra é coisa de adultos. O que essas crianças estão fazendo, armadas,  num campo de batalha?

Quem convocou, armou e enviou essas crianças para resolver um assunto só de adultos, causando-lhes morte ou outro dano, foram os brasileiros, ou foi o psicopata necrófilo, corruptor de crianças, que governava o Paraguai?

Imagine que você é um soldado brasileiro, armado, guardando uma posição sob ordem superior, e uma criança dessas avança contra você, com a baioneta apontada para a sua barriga. O que você faria? Ficaria especulando se a arma era de verdade, se, por acaso, o fuzil era de chocolate e a lâmina de açúcar de confeiteiro? E aí diria a si mesmo: “Vou deixar ele me furar, mas, se for de verdade, eu vou ficar muito zangado.” 

Então a gente começa a observar detalhes que não batem.

1º — O tipo de baioneta: observe que ela é bem diferente daquela que aparece na reprodução do quadro que abre esse post, detalhe de uma obra do pintor Pedro Américo, A batalha do Avaí, e que é a imagem exata da baioneta mais usada na Guerra do Paraguai: a baioneta de alvado ou de cubo, também chamada de baioneta de soquete ou de encaixe (abaixo). Posteriormente, na Europa, no final dos anos 1860, a baioneta-espada ou baioneta sabre, semelhante às que aparecem na foto, começou a se popularizar com os novos fuzis Chassepot e Lee-Enfield. Mais tarde chegariam à América do Sul. Logo, as baionetas não batem. 


2º — O rosto dos soldados: vemos no quadro de Américo que os soldados têm barba ou um grande bigode ou os dois, além de cabelos compridos — os paraguaios que aparecem nos quadros têm os cabelos ainda maiores, enquanto na foto os soldados aparecem com o rosto liso, bigode pequeno, e cabelos bem aparados. Os avanços e descobertas da medicina, em especial nos quesitos de higiene e medidas sanitárias públicas, a partir do final dos anos 1870, tornaram as longas barbas e cabeleiras, comuns aos soldados do século XIX, coisas do passado.

3º — Os sapatos e botas: uma coisa singular, em todos os quadros, fotos e imagens de soldados paraguaios, é que a maioria deles está descalça. Na foto original, em que esses meninos aparecem inteiros, todos estão de sapatos ou botas, até os meninos.

4º — O uniforme da infantaria: o paraguaio é um casaco vermelho com calças brancas e às vezes até algo como uma saia, semelhante ao kilt escocês com franjas na extremidade, e aí o uniforme é feito por variações de azul, muito mais próximo ao usado no exército imperial. O uniforme do exército paraguaio tem platina ou patilha de ombro (uma lingueta de tecido abotoada) para evitar que as alças da patrona ou da baioneta escorreguem. Os uniformes da foto não têm isso.

5º — O quepe: usado pelos meninos e os soldados nada têm a ver com os quepes usados pelos paraguaios na Guerra do Paraguai, que se caracterizam pelo uso da faixa tricolor na cúpula sobre a cabeça (a copa ou coroa).

6º — As roupas e os chapéus dos indivíduos que não estão fardados são muito modernos para 1870.

7º — A nitidez da foto é incompatível com o padrão das fotos da época da guerra, as pequenas sombras nos rostos quase não aparecem nas fotos mais antigas.

Veja, abaixo, uma ilustração sobre a Guerra do Paraguai feita num livro inglês sobre esse assunto:

 


Observe esses detalhes da ilustração, ausentes da fotografia, no momento em que os paraguaios atacam um quadrado uruguaio. Os soldados não só estão descalços, como têm as calças rasgadas. Era um exército muito pobre, com grandes problemas de abastecimento. Têm a vantagem de conhecer bem o terreno que nenhum dos aliados conhecia, sem falar na surpresa de todos com o ataque paraguaio. A ideia de que o Paraguai era um país próspero e igualitário é uma mentira deslavada. Não passava de um povo pobre, fanatizado por uma ditadura totalitária nefanda, que preferiu levá-los quase ao extermínio a sair por conta própria do poder, mostrando o caráter absurdo e necrófilo da nossa esquerda historiguaia.

Mas não tem problema, pois afinal eu descobri a foto original, batida em 1902 e publicada na página 53 da edição de 19 de julho de 1902 da revista semanal parisiense L’Illustration, que você pode ver abaixo.




O texto de chamada diz “LA GUERRE CIVILE EM COLOMBIE – les soldats-enfants de l’armée governamentale [A guerra civil na Colombia – os soldados-crianças do exército do governo]. Na verdade, é uma foto de uma guerra civil colombiana, chamada de ‘Guerra dos Mil Dias’ ou ‘dos Três Anos’. O texto abaixo da foto, muito apagado, cita apenas generalidades, mas diz que essas crianças têm em torno de 12 anos, sendo que um dele mal completou 11 — provavelmente o corneteiro — e que seu comandante é o general Pompilio Gutierez. Esses não são meninos-tambores ou mascotes, que só participavam das bandas regimentais e dos desfiles festivos, mas combatentes de fato. ISSO É UM CRIME!!!! A foto está levemente retocada embaixo.

Está explicado a coloração azul dada aos uniformes, de acordo com o padrão usado pelo exército colombiano nessa época.


Eis uma prova mais recente que a foto se refere a eventos na Colômbia.


Um povo doente! Um post do Comando de las Fuerzas Armadas do Paraguai, de 16 de agosto de 2024 comete a aberração de evocar o sacrifício de crianças, digo mais uma vez, NUM ASSUNTO EXCLUSIVO DE ADULTOS, para comemorar o dia das crianças no Paraguai, sem nem perceber que isso é um testemunho arrasador contra o caráter de sua própria população. Quem convocaria crianças de até SETE anos para um sacrifício desses, só para garantir a sua perpetuação no poder, uma vez que já lhe fora dito, por Mitre, na conferência de Yataytí-Corá, de que se López renunciasse a guerra cessaria? Hitler convocou as crianças e Solano López também — Napoleão, o grande vilão da esquerda, preferiu renunciar a destruir o seu país e mais ainda o seu povo.  Que povo transforma um homem que faz isso no seu supremo herói nacional?


Eis o resultado do apaziguamento e estratégia de paz a qualquer custo. Eles capturaram um navio de passageiros, numa típica ação de pirataria, sequestraram um governador de província e seus companheiros, os torturaram, os submeteram às piores privações, os mataram e se desfizeram de seus cadáveres, e agora nos apontam com os únicos culpados, enquanto eles são apenas vítimas. Nas escolas eles ensinam as suas futuras gerações a nos odiar até a morte.  

E AINDA QUEREM INDENIZAÇÃO!!!!!!

 


GUERRA DO PARAGUAI: A RESPONSABILIDADE DO BRASIL — II

 Eduardo Simões.

Para a confusão de Doradioto, Paranhos e Calógeras, um outro Calógeras, muito mais douto e conhecedor do Brasil, escreveu também a respeito da Guerra do Paraguai, chegando a conclusões muito diferentes: o grande político, escritor e economista brasileiro João Pandiá Calógeras, neto de João Batista, em seu livro Formação histórica do Brasil (edições Senado Federal); sem falar dos fatos históricos.

João Pandiá começa criticando a restrição brasileira à navegação uruguaia na lagoa Mirim e no rio Jaguarão, mas reconhece que a atuação dos uruguaios na fronteira do Rio Grande justificava essa restrição, pois desde o fim da intervenção contra Oribe e Rosas:

As incessantes incursões uruguaias, a prear gados e rebanhos e tropilhas, exercendo sua ação devastadora por centenas de léguas quadradas, e roubando centenas de mil cabeças, 800.000 ao que se computava na época, aos estancieiros dos municípios da fronteira” (p. 227).

Mesmo se considerarmos que 800 mil é um crasso exagero, não se pode negar que foram muitas, e que isso era inaceitável.

Numerosos brasileiros eram possuidores de terras no Uruguai… O sentimento hostil, não público a princípio, manifestava-se em pirraças e pequenos vexames; mais tarde, foram ataques mais graves, assassínios, roubos de gado, ao longo de toda a fronteira. Passado mais tempo, fizeram-se incursões dentro da Província, cada vez mais audaciosas e prejudiciais, à medida que o ódio crescia contra o Brasil no país lindeiro

Tais processos de vexatória hostilidade puseram a província toda em pé de guerra; sua única propriedade, o gado, estava ameaçada; suas vidas, postas em perigo; suas fazendas, invadidas e destroçadas. Não se tratava de prejuízos sem importância… atos de banditismo se exerciam por mais de seiscentas léguas quadradas de pastagens, ricas em campos finos.

Queixas afluíam ao Rio, e o gabinete reclamava diplomaticamente em Montevidéu perante suas autoridades…

Cônscio disto [da anarquia interna do Uruguai], o Brasil não podia e não queria insistir demasiado em seus esforços de exigir reparações pelos males e prejuízos sofridos por seus nacionais, e adiava tal prestação de contas para dias mais calmos.

Assim se foi protelando, até a subida de Berro à presidência. Mas eram assim doze anos de abandono e de paralisação na defesa dos interesses rio-grandenses, e estes sofriam e gritavam, até que, cansados de se verem a sós, começaram a procurar justiça por suas próprias mãos” (p. 231–232).

Nesses doze anos, dez anos foram de governo do Partido Conservador de Paranhos, e dois de uma aliança de Conservadores e Liberais ‘moderados’ (ou envergonhados?)

O Brasil foi leniente, eu diria superleniente, irresponsável, idiota e infame contra seus próprios interesses e a sua  honra — como ele queria que os outros a respeitassem? O presidente uruguaio Atanásio Aguirre, que nos odiava compulsivamente, quando recebeu uma nota do Rio, reclamando de ataques diários de bandidos uruguaios às propriedades brasileiras, disse, debochando,  como o Brasil reclamar de ataques diários, se ao longo de doze anos o nosso país só reclamara 63 vezes contra tais abusos!!!!!! (Doradioto, p. 53).

QUE PAÍS NO MUNDO ESPERARIA, INERME, MAIS DE 60 AGRESSÕES CONTRA A SUA SOBERANIA ANTES DE TOMAR UMA PROVIDÊNCIA?

Ainda por volta de 1862, na Câmara, Paranhos, segundo Doradioto, asseverou ‘que o Paraguai não poderia provocar uma guerra contra o Brasil, devido à desigualdade de recursos entre os dois países’ e acrescentou:

Quando se trata de uma nação fraca, não queiramos só resolver as questões à valentona, porque pode haver também uma nação forte que nos queira aplicar a pena de talião” (p. 380).

Ou seja: antes de agir na defesa de seu direito legítimo, o Brasil deve pedir autorização a alguma outra nação mais poderosa e só agir com a sua permissão, para evitar um castigo posteriormente. Existe uma expressão mais COVARDE de soberania nacional do que essa? 

O curioso é que a livre navegação da bacia platina era considerada absolutamente estratégica para a manutenção de vastas regiões produtoras do Centro-Oeste do Brasil, e os países com que dividíamos essa bacia viviam em um torvelinho de agitação, golpes e anarquia constante. Ou seja: tudo apontava para a região platina como o grande problema externo do Brasil.

O que um país normal faria num caso desses? Estacionaria forças poderosas perto dessa região — no mínimo uns dez mil infantes bem armados e treinados em operações fluviais; deixaria bem claro aos vizinhos que essa força entraria em ação em casos claramente estipulados, e que agiria sempre que tais casos acontecessem, criando um padrão de conduta; junto a essa infantaria haveria uma nutrida força fluvial com embarcações adaptadas para operar em rios. Em caso de um grande conflito, essa força daria conta de segurar os inimigos até o resto do exército se mobilizar.

E o que o Brasil, ou melhor, os gabinetes conservadores da turma de Paranhos fizeram? Reduziram e dispersaram o exército e construíram uma poderosa e absurda marinha oceânica, para projetar poder onde não tínhamos condições de projetar. Fora da América do Sul. Os navios mais poderosos de nossa esquadra mal podiam manobrar nas margens estreitas, para esse tipo de navio, dos rios da bacia platina. Isso bagunçou e atrasou as operações durante o conflito, assim como a criação improvisada de um exército a partir de quase nada.

O Brasil nada fez, em 12 anos, para deixar bem claro aos seus vizinhos o quanto a navegação livre daqueles rios era importante e até onde ele estava disposto a ir para garantir isso. Ao contrário, preferiu ficar de quatro levando chute dos aventureiros uruguaios e argentinos e, no final, quando sentiu o chute dos paraguaios, levantou-se cheio de fúria ‘NUM BRINCO MAIS’, e aí pode ter exagerado. Mas foi ele quem transmitiu livremente essa autoimagem degradante aos seus parceiros da região, o que fez os uruguaios nos tratarem como covardes, e os paraguaios nos representarem como macacos, enquanto massacravam sem dó os brasileiros que lhes caíam nas mãos.

E se o Brasil tivesse, desde o início, dado provas concretas de sua disposição de luta ao invés de empurrar os problemas  para debaixo do tapete, será que teríamos chegado a essa guerra a que a política de apaziguamento dos conservadores nos arrastou e aos nossos vizinhos, com tanta morte e  desgraça?

O futuro deu razão a Paranhos? Houve 50 anos de atraso, como previu Cotegipe — até 1920? Vamos aos fatos:

Quantas guerras entre nações houve na área após a Guerra do Paraguai nesse período? Nenhuma.

Quantas guerras civis intermináveis e com ajuda de países estrangeiros houve na região, como a luta entre blancos e colorados do século XIX? Nenhuma, apenas revoltas domésticas e breves.

Quantos governos foram derrubados no Uruguai nesse período? Nenhum.

Quantos governos foram derrubados na Argentina nesse período? Nenhum.

O Paraguai, o causador de tudo, acostumado precocemente a um regime totalitário, entrou numa fase de caos e anarquia, e mergulhou de novo numa longa ditadura, antes de aproveitar, como os outros, as vantagens de um regime democrático-liberal.

Com o fim da brigalhada, os povos platinos puderam se dedicar ao que é próprio de povos civilizados e tirar o máximo partido da liberdade de navegação daqueles rios, atraindo o olhar de inúmeros investidores e empreendedores externos e internos, que agora podiam, num clima de estabilidade, tirar partido da posição estratégica da região.

De 1880 a 1930, a Argentina se torna um dos países mais ricos do mundo e o segundo das Américas.

Entre 1900 e 1950, o Uruguai experimentou um surto de progresso e bem-estar que lhe valeu o apelido de 'Suíça das Américas'.

O Paraguai, após abrir mão definitivamente das ditaduras e apostar na democracia capitalista liberal, experimenta agora um processo de forte crescimento econômico, que um dia, acreditamos, o fará abandonar essa crença absurda de que o país deve alguma coisa a Solano López além do seu pior momento — para grande tristeza dos 'historiguaios' brasileiros e desmoralização daqueles que, em que pese acertos noutras áreas, acreditaram que o apaziguamento a qualquer custo seria bom para as relações entre esses países.

Por causa da política de apaziguamento dos conservadores, apoiado por historiadores como Doradioto, sofremos por anos agressões e provocações inaceitáveis, com grandes perdas financeiras e destruição de bens particulares e desgaste na imagem do Império. Fomos forçados a entrar numa guerra gigantesca, que provocou desgraças intermináveis, forçados por um dos mais vis e desmoralizantes atos de pirataria, só para receber até hoje acusações de genocídio e o ódio gratuito de muitos paraguaios, incapazes de assumir a sua parte nesse conflito.

Relações de respeito mútuo e equilíbrio são obrigatórias para todos nas relações internacionais, sem nunca abrir mão da verdade histórica. Tomara que ninguém nunca mais esqueça isso.

JAMAIS DEVEMOS ACEITAR UMA PAZ E UMA CONVIVÊNCIA BASEADA EM MENTIRAS COM OS NOSSOS VIZINHOS, SEJA ELA CONTRA NÓS OU A NOSSO FAVOR.

FIM 


terça-feira, 11 de agosto de 2026

 


GUERRA DO PARAGUAI: A RESPONSABILIDADE DO BRASIL — I

 Eduardo Simões.

Um homem, absolutamente coerente, disse certa vez: “amai-vos uns aos outros” e “se alguém te bater num lado da face, oferece outro”. Mas, em outro contexto, esse mesmo homem fez um chicote improvisado e saiu batendo nos mercadores que corrompiam às portas do templo, ao mesmo tempo que chamou para si um cobrador de impostos que, na época, era muito pior que os vendilhões do Templo.

A lição desse episódio é clara: “nossas ações, sempre alimentadas pelas melhores intenções, devem variar de acordo com o contexto”. Quando falta o contexto, e uma mesma ação se repete invariavelmente, então só há duas alternativas para qualificar o sujeito desse comportamento: “ou é tolo, ou está muito mal-intencionado”. Como podem, pois, tantos ilustres e titulados historiadores brasileiros pregar um mesmo comportamento para situações tão diferentes? Refiro-me à sua reação quanto aos episódios que levaram à Guerra do Paraguai.

Pensando nesse assunto, faço logo uma ligação com a famigerada política de ‘apaziguamento’ que assomou os ministérios ingleses a partir de 1930, sob pressão tanto dos socialistas do PT inglês, como dos liberais decadentes, que queriam ganhar espaço com as bandeiras dos socialistas, que nesse momento ascendiam. Ao longo dessa década, os ingleses assistiram inermes ao crescimento acelerado do armamentismo e do militarismo expansionista nazista, vendo-os ultrapassar a Inglaterra no seu poderio aéreo, de veículos de guerra e até doutrina militar.

Winston Churchill combateu fortemente essa postura, prevendo que ela traria as piores consequências, sendo por isso escorraçado da grande política inglesa. Mas ele aguentou firme. Quando o representante do Reino Unido, Neville Chamberlain, voltou de Munique, onde entregara a Hitler uma grande porção do território da Tchecoslováquia, pretendendo acalmá-lo, no desembarque ele agitou os papéis do acordo no ar e gritou para o público: ‘A PAZ PARA OS NOSSOS TEMPOS!’ Churchill, o único inimigo incondicional de Hitler, replicou-lhe serena e decididamente: ‘Entre a guerra e a desonra, eles (Chamberlain e os apaziguadores no governo) preferiram a desonra, mas terão a guerra.’

Foi no ano seguinte; com o Reino Unido em grande aperto, por não ter tomado as devidas providências quando ainda era tempo, apesar dos avisos de Churchill. Muito mais sofrimentos, perdas materiais e de vidas humanas aconteceram por causa da imprevidência e da má-fé dos apaziguadores, principalmente das esquerdas e dos comunistas, que passaram inclusive a elogiar Hitler após o Pacto Germano-Soviético de agosto de 1939. 

Francisco Doradioto, para o seu massudo e bem documentado livro sobre a Guerra do Paraguai, escolheu, não por acaso, uma frase do barão de Cotegipe, do Partido Conservador que, junto com José Maria Paranhos, Visconde do Rio Branco, e José Antonio Saraiva, um moderado do Partido Liberal, faziam parte da grande muralha apaziguadora do Império nos conflitos do Prata. A frase de Cotegipe escolhida foi “Maldita guerra, atrasa-nos meio século”. Afinal, Doradioto também faz parte dos apaziguadores, e sobre estes, Churchill disse: “um apaziguador é alguém que alimenta um crocodilo [= um ditador perigoso] na esperança de, quando acabar a comida, o animal tenha se tornado vegetariano.”

Para começo de conversa, Doradioto começa cometendo um erro crasso.

O fuzilamento de Leandro Gómez foi uma réplica colorada de Quinteros [onde os blancos massacraram alguns colorados], mas, em Montevidéu, o Império foi responsabilizado pelos fuzilamentos [de Gómez e alguns outros]. Como consequência, o presidente Aguirre ordenou a queima em praça pública dos tratados de 12 de outubro de 1851” (p. 76).

Essa informação está errada! O general Gómez foi fuzilado em 2 de janeiro de 1865 e a queima dos tratados se deu em 18 de dezembro de 1864, como se vê no decreto de Aguirre. Esse texto, encontrável no endereço abaixo, não cita Leandro Gómez.  (https://anaforas.fic.edu.uy/jspui/bitstream/123456789/39713/1/68_laquemadelostratados.pdf )

Nele, ficamos sabendo também que a bandeira do Brasil foi pisoteada e achincalhada logo depois da queima dos tratados, quando Aguirre já tinha se retirado. Se ele estava a par ou teve participação nisso, é algo em aberto.

 

“Montevideo, diciembre 14 de 1854. Deseando el Poder Ejecutivo que se dé cumplimiento de la manera más solemne y pública, a lo dispuesto en el Decreto de 13 del corriente, declarando cancelados y nulos todos los tratados celebrados antes de ahora entre la República y el Imperio del Brasil; reunido en consejo de Ministros ha acordado y decreta: Art 1 — Precédase a !a extinción per medio del fuego de los referidos tratados. Art 2 — Desígnase para este acto al día 18 del corriente, debiendo tener lugar en la plaza de la Independencia. Art 3 — Los Ministros Secretarios de Estado en los Departamentos de gobierno y guerra quedan encargados de la ejecución del presente Decreto, que se comunicará y publicará, convocándose al pueblo para presenciar el acto... [seguem assinaturas]

El decreto de 13 de diciembre — de que se hace caudal — fundamentado en catorce considerandos de excepcional acritud decía en su parte dispositiva: Art 1 — Declárense rotos, nulos y cancelados los tratados de 12 de octubre de 1851 y sus modificaciones de 15 de marzo de 1852 arrancados violentamente a la República por el Imperio del Brasil. Art 2 — La República Oriental del Uruguay reivindica por este acto todos sus derechos sobre los límites territoriales que siempre le correspondieron. Art 3 o — Las aguas de la República sobre l a Laguna Merim, con sus afluentes, quedan sujetas en cuanto pertenecen a la República, a lo dispuesto por la ley de 25 de Junio de 1854, quedando en consecuencia abiertas a los buques y comercio de todas las naciones. Ait 4 — La República desconoce por este acto las obligaciones pecuniarias que a mérito de los Tratados anulados tenga con el Imperio del Brasil. Art 5 — La República so reserva lodos sus derechos para reclamar y obtener dei gobierno Imperial plena indemnización de los perjuicios causados por lac fuerzas Imperiales de mar y tierra y por las hordas de bandidos encabezados por el asesino Venancio Flores, tanto por salteamiento de dineros públicos, como por da" ños inferidos a los habitantes del Estado cualquiera sea su nacionalidad. Art° 6 — Del presente decreto se dará cuenta con un mensaje especial al Poder Legislativo, inmediatamente se abran sui sesiones. Art 7 — Publíquese por bando en todos los Departamentos de la República, comuniqúese a quienes corresponda y expídanse las órdenes convenientes insertándose en ei libro respectivo. El primer magistrado firmante y los secretarios que lo acompañan son los mismos que suscriben el decreto anterior.

O escrivão anexou, à papelada principal, o bilhete abaixo

“Montº [Montevideo], diciembre 17 de 1864. Al Sor. Escribano de Gobierno y Hacienda. Adjuntos se remiten a V. los tratados celebrados anteriormente entre la República y el Imperio del Brasil, que deben ser extinguidos por el fuego en el día de mañana, a las 12 del día en la plaza de la Independencia; a cuyo acto asistirá V. Dios guard. a V. ms. añs. (Firmado) Silvestre Sienra.”

O texto que descreve o ato da queima, ocorrido de fato no dia seguinte, 18, traz uma informação interessante:

......

A su tiempo fueron llegando los niños de las escuelas públicas [ou seja, desde crianças eles eram educados para odiar o Brasil, quando, em nossas escolas, houve algo assim?], que entonces se llamaban escuelas de la Junta y los piquetes militares para formar el cuadro. A medio día justo, bajo los rayos de un sol tan espantoso que la gente no sabía donde guarecerse dio comienzo el magno acto, Aguirre y sus ministros tomaron asiento en sendas butacas. Gran cantidad de altos funcionarios, legisladores, militares y políticos rodeaban al Poder Ejecutivo. Notóse, en cambio, la ausencia de todos los miembros del Tribunal, lo que significaba la ausencia de uno de los altos poderes del Estado.”

Noutras palavras, ao contrário do que Doradioto diz, nada de extremo acontecera que justificasse tanto ódio ao Brasil.

Doradioto continua reproduzindo a versão do apaziguador Paranhos:

O próprio Paranhos afirmou ter sido sua demissão causada pelos ‘justos ressentimentos da população brasileira’ [que andava muito inflamada pelos acontecimentos no Prata] e pela apreciação errônea de seus atos pelo governo imperial, em virtude da distância. Para seu amigo Caxias, foi mais sincero: ‘Venceram S.M. e o seu Almirante [Tamandaré], mas a vitória da razão há de ser minha.’ A posteridade reconheceu, sem dúvida, essa vitória” (p. 77–78).

Admirados com a expressão ‘seu Almirante’, que mostra uma faceta ressentida e mesquinha de Paranhos, vemos também a sua incapacidade de aprender com os próprios erros. Doradioto, entretanto, chama outro testemunho em seu favor, o do intelectual greco-brasileiro João Batista Pandiá Calógeras, que trabalhava no Ministério dos Negócios Estrangeiros —  certamente muito próximo a Saraiva e Paranhos —, que coloca sobre os ombros do Brasil e dos brasileiros a maior responsabilidade sobre a violência no Uruguai, e que Doradioto chama de “reveladora crítica”.

Fomos exigir a satisfação de reclamações que havíamos abandonado há doze anos, enquanto o Estado Oriental tinha outras tantas coisas contra nós, uma verdadeira provocação… o governo da República do Uruguai… continua estando a braços com uma revolta que não consegue dominar, que é sustentada sobretudo pelos brasileiros que abraçaram a causa de Flores” (p. 65).

Vemos que a sereia do apaziguamento e dos historiguaios tem um canto assaz sedutor, capaz de fazer balançar até um pesquisador mais sério como Francisco Doradioto. Resta-nos conferir, para além desse canto tão insistente e enganador, com base em fatos e não em impressões ou ataques pessoais mesquinhos, se estamos diante de uma sinfonia, de uma simples folia, ou de uma cacofonia.


segunda-feira, 10 de agosto de 2026



GUERRA DO PARAGUAI: OS PARAGUAIOS QUEREM O SEU CANHÃO DE VOLTA

Eduardo Simões

Os paraguaios, agora, fazendo-se de vítimas, se manifestam cheios de razão, quase exigindo que o Brasil lhes devolva o famoso canhão El Cristiano, que se encontra em um museu do Rio e fazia parte da bateria London, na fortaleza de Humaitá, forjado com os sinos de várias igrejas de Assunção — mostrando a balela da prosperidade do Paraguai sob López.

Eles esquecem-se, convenientemente, do vil, que foi um infame, vil e criminoso ato de pirataria, DELES, que deu início a essa guerra: a captura do navio de passageiros Marquês de Olinda, em 12 de novembro de 1864, em ASSUNCIÓN, retendo sete oficiais militares brasileiros a bordo, entre os quais o coronel Frederico Carneiro de Campos, recém-nomeado governador do Mato Grosso, e, mais tarde, o cônsul do Brasil em Assunción, Amaro José dos Santos Barbosa, que quis ficar para acudir os brasileiros aprisionados.

O canhão em si não é nada e não vai mais ser utilizado. Mas agora ele é um símbolo a nos lembrar que milhares de nossos antepassados morreram ao redor da fortaleza que ele guarnecia, para preservar a integridade do território e da honra nacional, assim como libertar os passageiros do Marquês de Olinda que sofriam tortura e padeciam fome e péssimas condições sanitárias no paraíso lopista. Só dois sobreviveram.

O nosso cônsul. Um civil inofensivo. Foi espancado impunemente nas ruas de Assunción, assim como um funcionário da embaixada, Juan Barbosa, que ao dar queixa na polícia foi qualificado como ‘castigado’ e não como vítima (Doradioto, Maldita guerra, 2ª edição, p. 69). O final desses prisioneiros foi tétrico:

Na batalha de Curupaiti, Amaro Barbosa e outros prisioneiros foram colocados em lugar de alcance das balas dos canhões da esquadra brasileira… [que f... !] No final, Santos Barbosa acabou não resistindo à exaustão física e morreu prisioneiro em Humaitá, em fevereiro de 1868, agonizando sobre um pedaço de couro, exposto ao relento [como se fosse um animal selvagem!] (idem p. 69).”

Como devolver El Cristiano depois de tudo isso? Mas parece que podemos chegar a um acordo. Eles devolvem os ossos desses homens, que sofreram uma brutalidade desumana pelo simples fato de serem brasileiros, pois sequer foram usados como moeda de troca, a fim de que lhes construamos um monumento gigantesco, digno do seu sacrifício, e, conferida a autenticidade dos ossos, devolveríamos o canhão.

Uma lata velha de uma ditadura fracassada pelos ossos de vários mártires da pátria brasileira. Creio ser justo.

  


 O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA - 35


Na ilustração acima, o Papa Pio IX, com o seu secretário, assiste à impressionante chuva de meteoros ocorrida em 27 de novembro de 1872, de uma varanda do Vaticano, dois anos após a fatídica queda de Roma para a República Italiana. O fenômeno foi consequência da entrada da Terra, em seu movimento orbital, nos fragmentos do cometa 3D/Biela, colapsado entre 1842 e 1843, quando milhares de asteroides riscavam o céu. Muitos viram nisso um aviso do fim do mundo como castigo pelos sofrimentos impostos ao Papa.

Uma igreja em transe

No dia 17 de junho de 1794, 16 freiras carmelitas descalças do mosteiro de Compiègne, no interior da França, foram condenadas à morte por não quererem renunciar à sua vida religiosa, tornando-se rés dos crimes de 'fanatismo' e conspiração contra a República.

Sobre esse evento, contam-se duas histórias, que os católicos reputam como edificantes:

a) Quando as freiras chegaram numa charrete à mais famosa prisão de Paris, a Conciergerie, uma das freiras, octogenária, manca e com as mãos amarradas, foi chutada para fora, arrebentando-se na calçada, ferindo a cabeça. Ela se levanta, o agradece: "obrigado por não me matar, assim vou poder morrer por Cristo depois."

b) As freiras chegam ao cadafalso cantando um hino do século IX, Veni Creator Spiritus, e, à medida que iam para a guilhotina, ajoelhavam-se diante da superiora, pediam a sua bênção e licença para morrer, sempre cantando. Por fim, foi a vez da madre superiora, ante o silêncio da multidão presente.

Em seu combate contra o 'fanatismo', as autoridades revolucionárias francesas frequentemente se comportaram como fanáticas: a) Em alguns crimes, como o das freiras, se negava advogado aos réus; b) não davam nenhum prazo para recurso — as freiras foram condenadas pela manhã e decapitadas à tarde; c) não guardavam registro do que foi dito no julgamento, mas somente as peças acusatórias e a sentença, o que dificultava as tentativas de revisão dos casos; d) a rapidez com que os promotores aceitavam as acusações mais levianas transformou os tribunais em fábricas de sentenças de morte.

Calcula-se que em toda a França foram proferidas em torno de 40 mil sentenças de morte, no curto espaço de cerca de 10 anos, algumas muito desumanas. Em Nantes, onde a autoridade revolucionária optou pela técnica do afogamento em massa no rio Loire. O comissário Fouché, de Lyon, um homem de origem humilde, mas que sabia cuidar de seus interesses (morreu muito rico), preferia juntar os prisioneiros numa aglomeração e disparar contra eles a metralha de um canhão.

Mas podemos ver também fanatismo na postura das freiras, afinal, elas estavam renunciando a um instinto básico por uma abstração religiosa, na esperança de uma vida nova, em um lugar impossível de ser descrito. Um estado que trata supostos fanáticos da maneira acima pode ser classificado como esclarecido? Em alguns afogamentos em Nantes, pessoas foram presas em porões de navios que seriam afundados. Numa dessas ocasiões, havia um velho cego de 78 anos, doze meninas, quinze crianças: dez com idade entre 6 e 10 anos e cinco bebês em fase de amamentação (5).

A impressão é que o termo fanático se refere a alguém que luta até a morte por aquilo em que acredita. Mas não é dessa mesma argila com que se moldam os heróis nacionais? Esse termo, 'fanático', jamais deveria aparecer como categoria de análise em um estudo de história científica, exceto em citações de documentos antigos.

Os habitantes de Canudos não eram fanáticos, mas pessoas que tinham uma estima enorme pelo seu modo de vida e queriam preservá-lo o mais intacto possível, à revelia das determinações do governo e da Constituição do Brasil. E, embora houvesse coisas nesse modo de vida que, mesmo naquela época, seriam condenáveis, como a intolerância religiosa, o personalismo autoritário, etc., isso não os torna réus de pena de morte em lugar nenhum.

A atuação dos revolucionários franceses foi traumática para a Igreja Católica, que frequentara até ali os palácios reais do país. Calcula-se que cerca de 3 mil padres, bispos e religiosos foram executados nesse período. Mas, como a Igreja recebeu o apoio de quase todos os países da Europa, inclusive os protestantes, a dor do impacto arrefeceu logo, diferente da perda de Roma, em 1870.



Nesse ano, em 20 de setembro, o exército do reino do Piemonte, que encabeçava a luta pela unificação da Itália, irrompeu pela Porta Pia e, após um breve combate, assenhorou-se da cidade, para transformá-la na capital do Reino da Itália, tomando-a da Igreja Católica, dando início à Questão Romana. Dessa vez, nem os estados católicos apoiaram a Igreja.


O jovem major Giacomo Pagliari (48 anos) da tropa de elite dos 'bersaglieri', conhecidos pelos penachos no chapéu, cai mortalmente ferido no momento em que as tropas italianas irrompem pelas muralhas de Roma. Pio IX, desastradamente, recomendou às suas tropas uma defesa apenas simbólica àquela agressão, que causou 49 mortes entre os italianos e 19 entre seus soldados, e que gerou um profundo ressentimento nos italianos contra o Papa e a Igreja que ele personificava. 

O Papa, na ocasião, era Pio IX, uma personalidade complexa e contraditória, que assumiu a função, em 1846, como um campeão do liberalismo e da modernização da Igreja. Ele era um homem de boa vontade que queria dialogar com o seu tempo, mas, até por questões de saúde não estava bem preparado. Não suportava a grande pressão típica do jogo diplomático, às vezes reagia com um movimento excessivo na direção oposta. Ele se desequilibrava quando se sentia encurralado.

Na Questão Romana, ele se fechou em copas. Toda vez que os representantes do rei Vitor-Emanuel II vinham negociar o status de Roma e as condições para o Papa continuar exercendo o seu ministério na capital da Itália, ele dizia: "não estou autorizado a tratar desse assunto." Como os italianos e os romanos não abriam mão da cidade, Pio IX foi deixado de lado.

Isolado, Pio IX declarou-se prisioneiro do estado italiano e nunca mais participou de qualquer cerimônia pública como chefe de estado, sequer da bênção ao povo na janela de seu palácio, que ficou trancada no seu pontificado, no de Leão XIII, Pio X, Bento XV, Pio XI, até a concordata de 1929.

Em uma área, porém, Pio IX deixou uma marca poderosa: no zelo pela formação moral e intelectual dos padres, aumentando as exigências sobre o comportamento destes e a correta exposição da doutrina, para melhor enfrentar um mundo em fuga acelerada dos antigos valores cristãos. Noutras palavras: em termos de moralidade e penitência, o espírito de Pio IX se aproximava do de Conselheiro, mas, no que diz respeito à fidelidade filosófico-teológica do discurso, eles se distanciavam.

A situação, no final dos anos 1800, para os católicos na Europa, era preocupante, devido ao avanço de doutrinas secularistas e anticlericais, e o esbulho, pela violência, de bens do patrimônio da Igreja, sem que ninguém se importasse. O velhinho Pio IX, amofinado, vagando na escuridão das salas do Vaticano, levava muitos às lágrimas. "Esse mundo está perdido” era o discurso reinante entre padres e fiéis.

Para evitar a contaminação, em um mundo tão hostil, uma mensagem pesadamente emocional, moralista e penitencial começou a ser propagada ao redor do mundo e chegou ao Brasil, embora a nossa realidade, a esse respeito, não fosse tão grave. Havia um grande desânimo em relação ao futuro entre os católicos.

 

Essa situação repercutiu em Portugal, onde um clero muito  apegado à sua aliança com os reis absolutistas começou a sofrer os efeitos do esvaziamento da monarquia. Enquanto isso, o ideário liberal avançava no país sob a influência dos ingleses e entusiastas da Revolução Francesa. Essas ideias floresceram muito nos 13 anos em que a família real ficou no Brasil. Até a família real sofreu influência.

Uma marca do liberalismo ibérico é o acentuado anticlericalismo, a ideia de que o atraso econômico, político e social de Portugal e Espanha deriva tanto de reis autoritários e incapazes como do suporte que lhes vinha da Igreja Católica. Talvez ela, mais do que os reis, fosse responsável por aquele atraso, como a principal fonte de justificação ideológica do regime junto ao povo. A sua influência precisava ser combatida prioritariamente. 

Após as guerras contra os invasores franceses, houve uma guerra civil: a Guerra Civil Portuguesa, que se arrastou de 1828 a 1834, envolvendo os seguidores do príncipe arquiconservador, D. Miguel, contra o rei Pedro IV (o nosso Pedro I, rei por 22 dias) e sua filha Maria II, ao lado dos liberais, que venceram a guerra e, no espírito do Marquês de Pombal, criaram uma legislação fortemente anticlerical (6).

O esvaziamento do catolicismo em Portugal afetou as populações rurais pelo declínio rápido do número de padres. Isso levou um deles, piedoso, mas intelectualmente simplório, Manuel José Gonçalves do Couto, a escrever um livro para auxiliar seus colegas em suas missões, que eram a forma como a Igreja Católica compensava a falta de padres em regiões remotas. Esse livro, chamado Missão Abreviada, lançado em 1859, se tornará o maior sucesso editorial do país do século XIX. Coerente com sua proposta, o padre Couto abriu mão dos direitos autorais e morreu pobre.

Nesse livro, embora esteja presente a Misericórdia Divina e a certeza de que Deus é um ser bondoso, a imagem dele como um juiz severíssimo, a pedir conta até dos pensamentos, sejam eles maus ou somente ociosos, se destaca. A ênfase dada à descrição das consequências do pecado e o estado final dos pecadores impressionava; e era tão severa e obsessiva que punha em perigo aqueles de personalidade mais impressionável — há relatos de gente enlouquecendo ou entrando em profunda crise após sua leitura (7).

Essa espiritualidade do terror, com viés apocalíptico, combinava com a sensação de encurralamento que a Igreja Católica sentia na Europa Ocidental, e acabou aqui no Brasil. As elites locais acompanhavam esse fenômeno com pouco interesse, já o povo nada sabia, mas o tumulto gerado por aqui acabou sendo assimilado no imaginário popular como um perigo difuso, que ameaçava a todos. Essa impressão ficou mais forte com as mudanças de fim de século, inclusive de coisas que,  no entendimento geral, foram determinadas por Deus, como a monarquia, que pecadores escandalosos estavam destruindo.

Os sertanejos mais esclarecidos percebiam o perigo desse livro; um deles, o major Eufrásio Feitosa, na década de 1960, disse:

Conheço muito a Missão Abreviada. Eu tinha até um parente que costumava dizer que esse livro fechava completamente ‘as portas da salvação’ (citado por Nertan Macedo, Memorial de Vilanova, p. 17).

Honório Vilanova havia notado o apego do Conselheiro pelo livro.

"O livro do Peregrino era a Missão Abreviada… Os frades pregadores daquele tempo conduziam sempre esse livro, que, de tão cru nas palavras, fechava sem piedade as portas do céu… O Peregrino amava esse livro e varava o dia e a noite lendo ou copiando as meditações ou os exemplos dos santos. Quando a mão do Peregrino estava cansada, escrevia por ele Leão de Natuba (idem, p. 49)."

Por que essa predileção por um livro que atiça tanto o sentimento de culpa? Como ele se sentia ao lê-lo, considerando que não havia perdoado a ex-esposa, que abandonara os filhos e a amante, se envolvendo tanto com um livro que exigia pureza e virtude num grau absoluto? Em nenhum momento ele procurou acordo com a República ou com o Exército que destruía a sua comunidade. Será que ele via nessa implacabilidade uma compensação para seus erros? No final, tornou-se um juiz, um senhor implacável, um supercoronel, como tantos outros no sertão.  

Honório Vilanova, mais sensível, confessa que fugia das pregações do Conselheiro, talvez com medo de sentir-se muito questionado, enquanto seu irmão, Antônio, mais pragmático, sempre o acompanhou nas terríveis pregações. Na hora ‘H’, porém, agiu de acordo com os seus interesses pessoais e fugiu de Canudos, enquanto podia.

Há um episódio que mostra o quanto Canudos estava longe de uma sociedade democrática, igualitária e justa.

Quando o Conselheiro chegou a Canudos, várias famílias moravam no lugar, como a do comerciante Antônio da Mota Coelho. A família Mota também tinha algumas fazendas, mas a atividade em que mais se destacava era o comércio de couro de caprinos, a criação mais viável naquele solo pobre. Ora, a chegada de mais gente fez esse comércio prosperar, e em pouco tempo os Motas, os Macambira e outros passaram a constituir uma espécie de “burguesia” em Canudos.

Segundo alguns, os irmãos Vilanova, que eram cearenses e conhecidos de Antônio Maciel, foram atraídos para Canudos, talvez até por convite do próprio Conselheiro. Os irmãos Vilanova, porém, queriam trabalhar no ramo de comércio mais próspero, dominado pelos Mota.

Antônio Vilanova aproximou-se do chefe da Santa Companhia, João Abade, e, aproveitando-se do combate em Uauá, em novembro de 1896, prendeu e denunciou os homens da família Mota de conluio com os militares, e os levou ao Conselheiro para um arremedo de julgamento — nunca foi apresentado qualquer fato concreto ou testemunho independente que sustentasse a acusação.

Segundo Calasans (Quase biografias de jagunços — o séquito de Antônio Conselheiro, Universidade Federal da Bahia — Centro de Estudos Baianos, 1986, p. 55–67), os Mota, que eram compadres do Conselheiro, negaram a acusação e imploraram a sua ajuda, e ele estaria propenso a dá-la, quando Vilanova e João Abade, percebendo a sua hesitação, apressaram a execução dos prisioneiros, provavelmente por degola — segundo Frederico Pernambucano de Mello (A guerra total de Canudos, 3ª edição revista e ampliada, Escrituras, Recife, 2014, Cap. 2, nota nº 2), um parente de Antônio da Mota testemunhou, a um jornal no Recife, que nesse momento morreram cinco membros da sua família, e, posteriormente, mais dois que realizavam negócios nos arredores. As crianças e as mulheres dos mortos foram acolhidas pelos Macambira, enquanto a loja dos Mota era saqueada pela multidão embrutecida e transferida de mão-beijada para os Vilanova.

A morte dos Mota teve duas consequências: deu aos Vilanova o monopólio do comércio de couro local, mas também acirrou a vingança de um pernambucano brigador: o comerciante Jesuíno Lima, amigo dos Motas, que se unirá às tropas e participará das três expedições seguintes. Ele será um dos que reconhecerão o cadáver do Conselheiro e passará para a história com o nome de “Capitão Jagunço”, dado por Euclides da Cunha, que, estranhamente, não faz referência ao massacre dos Mota. 


Um jornal chileno de 1877 zomba da exacerbação crenças de fim do mundo havida nesse período e a associa à ignorância e à Igreja Católica, na figura de frade.


É um mundo novo que começa. Ele está cheio de avanços tecnológicos, mas também de hábitos novos, estranhos e até contrários ao que era até então considerado virtude. Verdadeiras armadilhas. É necessário caminhar nele, crescer nele, mas como fazê-lo sem se contaminar com as suas 'sujeiras', com a sua 'lama'? Como agir nele sem excessos, inclusive saudosistas, mas com prudência e sabedoria, e passar essa disposição para os outros? 

Eduardo Simões


sexta-feira, 7 de agosto de 2026

 

GUERRA DO PARAGUAI: DE QUEM É A CULPA?

[Na foto, o terceiro em pé da esquerda para a direita é o cabo 'Chico Diabo', o homem que lanceou e matou Solano López. O terceiro sentado, no mesmo sentido, é o fazendeiro gaúcho Joca Tavares, que ganhará renome na Revolução Federalista de 1893–95].

Eduardo Simões

Não existe pergunta mais inadequada para ser feita a um historiador, digo a um historiador científico, não um escritor de galantes fantasias, nem tampouco um motivo para iniciar uma pesquisa científica na área, do que esse.

Um historiador não é um hagiógrafo, não busca a ‘verdade’, mesmo porque a única verdade que ele pode encontrar é a sua própria, e nenhuma outra, mas antes levantar os fatos que aconteceram e hipotetizar relações entre eles, de tal sorte que o significado daquilo que os antecedeu e os sucedeu fique mais claro, para as pessoas poderem, por meio de uma nova compreensão da história, aprimorar suas decisões e o seu comportamento na sociedade, além de aprimorar as futuras abordagens dessa ciência.

Mas o que fazer quando lidamos com gente imatura, despreparada ou condicionada a procurar na história, e em outras manifestações das ciências sociais, fórmulas prontas, ditos morais, condenações explícitas ou absolvição prévia, como aqueles ‘historiadores’ que classificam os grupos sociais como ‘oprimidos’ e ‘opressores’, negando, com esses conceitos, a própria história. O que sobra é mitologia, na qual a ciência entra como uma etiqueta ou um engano.

Entre os elementos que precisamos considerar, o mais precioso é o contexto geral da época, e considerar os objetivos gerais conflitantes, no qual podemos discernir:

a) O Brasil, a única monarquia e o único país estável e democrático da região, que precisava preservar a liberdade de navegação na bacia do Prata, por razões políticas e econômicas, enquanto outras questões menores, pois ele...

a.1. tem um contencioso territorial com o Paraguai, por causa de áreas adjacentes à fronteira paraguaia, já ocupadas por populações brasileiras.

a.2. teme a instabilidade na Argentina e o aparecimento de caudilhos nesse país que sonham, como Rosas, em anexar o Uruguai. O Brasil precisa negociar com dois centros políticos no país, com políticas diferentes em relação à região: um em Buenos Aires e outro na cidade de Paraná, onde o caudilho Urquiza manda. Tem também um contencioso fronteiriço com esse país.

a.3. teme a instabilidade e as guerras civis no Uruguai que tendem a atrair estancieiros gaúchos ou expandir tropelias para dentro do território nacional.

a.4. busca, de uma maneira geral, ajudar o Paraguai para que se torne um tampão contra possíveis pretensões argentinas, mas também teme que este adquira um peso importante no delicado equilíbrio geopolítico regional.            

b) A Argentina tem um ‘espinho atravessado’ no fato de o Paraguai se recusar a submeter-se e tornar-se mais uma província do país, revivendo o antigo Vice-Reino do Prata, dando-lhe mais musculatura para enfrentar a influência do Brasil na região, inclusive com o poder de fechar e abrir a navegação na bacia do Prata de acordo com seus interesses. O Paraguai, no passado recente,  derrotou uma força argentina que vinha anexá-lo; portanto, o contencioso entre ambos é mais grave que o contencioso do Paraguai com o Brasil.

b.1. tem problemas internos gravíssimos, duas províncias, Entre-Rios e Corrientes, têm pretensões autonomistas e se recusam a obedecer ao governo de Buenos Aires. Essas províncias são governadas por Urquiza, mais favorável ao pleito brasileiro de livre navegação na bacia.

b.2. nesse período, as duas províncias entram em guerra civil com o governo de Buenos Aires e são vencidas. O país se une sobre Mitre, mas intranquiliza o Império devido à política intervencionista daquele.

b.3. teme a influência brasileira na região; por isso, defende, mas sem convicção, a autonomia do Uruguai. Nesse período, Mitre apoia e incentiva o grupo de oposição armada uruguaio, liderado por Venâncio Flores, contra o governo central eleito de Bernardo Berro, dando início a uma guerra civil no Uruguai, aparentemente por não tolerar o aumento da influência paraguaia no país.

b.4. o país quer, com muito cuidado, evitar que o Brasil fique poderoso demais na região, em especial no estuário do rio da Prata, que considera sua área de influência incontestável.

c) O Uruguai foi uma criação da diplomacia inglesa para evitar a perpetuação da instabilidade e da guerra numa zona comercialmente muito importante para suas empresas. Ele deve ser um estado tampão entre as pretensões hegemônicas-territoriais do Brasil e da Argentina.

c.1. o país vive às turras com o Brasil devido aos incidentes de fronteiras derivados do belicismo personalista dos gaúchos de um lado e de outro da fronteira.

c.2. Tentando evitar sua anexação pela Argentina, o Brasil invade o Uruguai para defender o governo legal do país contra o caudilho Uribe e o grupo de Buenos Aires. Apesar da vitória da legalidade, ficaram mágoas pela intervenção e pelo tratado de aliança de 12 de outubro de 1851. Em 1860, sobe ao poder Bernardo Berro, com uma plataforma radical antibrasileira.

c.3. para enfrentar o Brasil, Berro e seu sucessor colocam-se sob a proteção do guarda-chuva paraguaio, alimentando o ditador paraguaio com toda sorte de notícia falsa contra o Brasil. A colocação do Paraguai, a chamado do Uruguai, no centro das questões platinas deixa o Império de sobreaviso.

c.4. escorado pelo Paraguai, o governo do Uruguai escala contra o Brasil, ignorando apelos de negociação, queimando os tratados de 1851, promovendo o arrasto da bandeira do Brasil pelas ruas de Montevidéu.

d) O Paraguai, que até ali se mantivera isolado do mundo, governado por uma ditadura totalitária, sentindo a necessidade de quebrar o isolamento, para promover o seu progresso, resolve tornar-se um agente de primeiro plano na região platina — fala-se de um plano de incorporação, ou uma aliança muito bem amarrada, com as províncias argentinas e o Uruguai garantindo ao país portos no Atlântico.

d.1. a sua maior preocupação é com a Argentina, por isso ele procura, num primeiro momento, uma aliança com as duas províncias de Urquiza, que a princípio concordam. As tentativas do Paraguai em desestabilizar a Argentina preocupavam o Brasil. Essa aliança, porém, se desfará na batalha de Pavón, quando Mitre derrota Urquiza e unifica o país sob seu comando, basicamente hostil a López.

d.2. contra o Brasil, López prevê, no seu avanço para o Uruguai, o controle da bacia platina e o seu fechamento e o asfixiamento da região central do Brasil,  até conseguir um acordo favorável sobre as fronteiras com o Mato Grosso (do Sul).

d.3. a aproximação com o Uruguai chegou às raias do ridículo. Lopez, que não tinha corpo diplomático, fez dos representantes comerciais do Uruguai no seu país, seus informantes sobre o que se passava do lado de lá da fronteira. Eles saturaram os ouvidos do ditador com as mais absurdas fantasias; tanto que ele ficou muito surpreso com a chegada em Assunção do navio de passageiros Marquês de Olinda, em 12 de novembro de 1864, e mais ainda por ele não ter as armas que o seu informante uruguaio lhe dissera.

Como vemos, o quadro, na sua imagem visível, beirava o caos, e se a isso acrescentarmos a instabilidade psicológica-emocional dos agentes envolvidos, as suas fragilidades pessoais, preconceitos e expectativas futuras, com certeza temos o caos e, com o caos, quem pode agir adequadamente para prevenir um desastre? Só se pode precatar-se contra seus efeitos terríveis que virão mais cedo ou mais tarde e que, neste caso, foram quase 5 anos de matanças onerosas e inúteis.

Esse quadro, portanto, não se explica só pelas iniciativas de um e de outro isoladamente, mas de todos os principais atores envolvidos: nesse caso, governantes e diplomatas, e até comerciantes avulsos, no caso paraguaio. Qualquer um, apesar de seus parcos recursos individuais, poderia iniciar a deflagração do evento, que começa justamente no Uruguai. Esse contexto explosivo também não se explicava somente pelos acontecimentos do presente, mas pelo conjunto das experiências passadas por cada uma dessas nações e das medidas que, ao longo do tempo, seus governantes tomaram a respeito de como deveria ser compartilhado o controle da bacia do rio da Prata, que as levaram a um impasse no qual a guerra era, de longe, a saída mais próxima.

Essa guerra, portanto, foi o resultado natural, espontâneo, das vicissitudes vividas por cada um dos beligerantes ao longo de sua história. Medidas prévias poderiam tê-la evitado. Mas quais?

     


TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 25

Por que os Estados Nacionais Eram Agressivos.

Fica claro que foi a persistência do domínio aristocrático, o acesso à riqueza idealmente disponível e o colapso do poder supranacional da Idade Média — e não algo derivado do próprio processo capitalista — que explicam não apenas o surgimento, mas também a fisionomia política do Estado moderno. Em particular, esses fatos explicam por que o Estado moderno foi “nacional” desde o princípio e refratário a qualquer consideração supranacional; por que insistiu, e mesmo compelido, a reivindicar a soberania absoluta; por que fomentou igrejas nacionais mesmo em países católicos; e, sobretudo, por que foi tão agressivo. Os novos poderes soberanos eram belicosos em virtude de suas estruturas sociais. Surgiram fortuitamente. Nenhum deles possuía tudo o que desejava; cada um tinha o que outros desejavam. E logo se viram cercados por novos mundos que os convidavam à conquista competitiva. [Ou seja, o processo colonial europeu do século XVI teve as características de sociedades aristocráticas, mais que burguesas]. Devido a essa situação e à estrutura social da época, a agressão — ou, o que é o mesmo, a “defesa” — tornou-se o eixo central da política [como nos conflitos medievais, gerados por uma aristocracia guerreira].

Nesse mundo em ebulição, a paz era apenas um armistício, a guerra o remédio normal para o desequilíbrio político, o estrangeiro ipso facto o inimigo — como o fora nos tempos primitivos. Tudo isso contribuiu para a formação de governos fortes e cronicamente atormentados por ambições políticas que ultrapassavam seus recursos econômicos, eram impelidos a tentativas de se fortalecerem ainda mais, desenvolvendo os recursos de seus territórios e utilizando-os a seu serviço. Isso, por sua vez, explica, entre outras coisas, por que a tributação assumiu uma importância muito maior [a estratégia padrão do mercantilismo].

Esses fatos, embora fundamentalmente os mesmos em toda a Europa Ocidental e Central, produziram resultados um tanto diferentes de acordo com as circunstâncias de cada nação. Desconsiderando os países menores, constatamos que a principal diferença residia entre a Inglaterra e o continente europeu. Na Alemanha, as tendências econômicas e políticas foram interrompidas pelo curso dos eventos centrados na Guerra dos Trinta Anos (1618–1648), que criou uma situação completamente nova e mudou para sempre o padrão político e cultural da Alemanha. Em solo devastado e em uma população que, em alguns lugares, havia sido reduzida a menos de 10%, os príncipes, seus soldados e suas burocracias eram, na maior parte do território nacional, praticamente tudo o que restava das forças políticas do passado. Na Itália, a situação diferia da alemã apenas em grau. A França e a Espanha não tiveram que passar por experiências como essas, mas os conflitos religiosos e os intermináveis ​​esforços de guerra produziram um empobrecimento semelhante na Espanha e condições políticas e administrativas similares às da França. Na maioria desses países com exceção da Suíça e da Hungria o príncipe [e não o burguês] passou a personificar o Estado e a nação a partir do século XVI. Ele conseguiu submeter todas as classes à sua autoridade a nobreza e o clero, a burguesia e o campesinato, embora as duas primeiras sob o entendimento de que deveriam continuar a ocupar uma posição de privilégio social e econômico. A riqueza e o poder deste Estado eram o objetivo incontestável de sua política [a busca por riquezas, para além do mérito e dos esforços para produzi-la, nada tem a ver com uma fantasiosa característica burguesa: ela é universal e atemporal].

A maximização da receita pública — para consumo da corte e do exércitoera o objetivo da política econômica, enquanto a conquista territorial era o objetivo da política externa. Não é preciso demonstrar como a preocupação com o bem-estar das classes que sustentavam esse sistema social se inseria nessa política: esse bem-estar não era visto simplesmente como um meio para um fim; era um fim em si mesmo para muitos grandes monarcas ou administradores, exatamente como o bem-estar de seus operários era e é um fim em si mesmo para muitos grandes industriais; mas precisava se adequar ao padrão político e ao sistema social vigentes. Tudo isso — precisamente onde a preocupação com o bem-estar de fabricantes, agricultores e trabalhadores era mais real — significava a gestão de tudo, o que, por sua vez, significou a ascensão da burocracia moderna, um fato não menos importante do que a ascensão da classe empresarial. A economia resultante era uma economia planificada e planejada, com o objetivo de fornecer recursos para a guerra. [Vimos isso na União Soviética, onde os membros do Comitê Central do PCUS (a corte) geriam o país, com o apoio de uma aristocracia composta pelos membros do Partido, donos dos principais cargos públicos e administrativos, criaram a maior máquina de guerra do mundo e dessa maneira todos os países 'socialistas', cuja maior herança são sofisticados aparatos de repressão interna e de guerra, controlando com rédea curta estados satélites (o antigos vassalos, na Idade Média)].

 

Nota de Schumpeter

Devemos nos limitar a um breve comentário sobre Colbert, que foi e ainda é considerado o representante típico daquela entidade imaginária, o “sistema mercantilista” — tanto que o colbertismo é frequentemente utilizado, especialmente em italiano, como sinônimo de mercantilismo. Jean-Baptiste Colbert (1619–1683), de origem burguesa, ascendeu ao cargo de ministro das finanças (abrangendo também os assuntos da indústria, do comércio e da agricultura) no primeiro período do reinado de Luís XIV. Ele foi um administrador honesto, capaz e enérgico, que sabia como arrecadar dinheiro, intimidar credores, aprimorar métodos administrativos e contábeis, estimular a indústria, construir palácios e portos, desenvolver a marinha e assim por diante, embora tenha sido notoriamente azarado na execução de seus planos mais ambiciosos, como o empreendimento colonial, cuja história demonstra que os desperdícios do planejamento público podem facilmente superar qualquer coisa que, em termos de desperdício, possa ser atribuída à iniciativa privada. Não há razão para exaltar suas realizações ou vê-lo como o grande defensor de algum princípio fundamental.

 

Na Inglaterra, observamos as mesmas tendências. Mas lá elas eram mais fracas e a resistência a elas mais forte, porque o país foi poupado das experiências que, em outros lugares, quebraram a espinha dorsal tanto das aristocracias quanto das burguesias... Podemos adotar a teoria, talvez inadequada, de que foi a ausência de invasões estrangeiras reais e a raridade de ameaças sérias de invasão que reduziram a necessidade de um aparato militar — uma marinha, é claro, tem muito menos peso político — para garantir o poder e o prestígio da Coroa e de todas as agências administrativas dependentes da Coroa [enquanto distorcia a sua função]. O sintoma mais óbvio da diferença que isso fez, a sobrevivência, apenas na Inglaterra, da antiga constituição semifeudal, não é importante em si para nós. Mas é muito mais importante o fato de que, ao longo de todo o período, o Estado inglês não conseguiu se apropriar da vida nacional como fizeram os outros Estados e que, em particular, o setor econômico da vida nacional, incluindo a empreitada colonial, permaneceu relativamente autônomo. O planejamento, se não inexistente, era mais limitado em escopo, preocupando-se principalmente com as relações da economia inglesa com a Irlanda e as colônias e com o comércio exterior; este menos rigorosamente fiscalizado do que na maioria dos países continentais.

Influência de Circunstâncias Especiais na Literatura Contemporânea.

Infelizmente, a literatura a ser analisada, na grande parte dela, é condicionada por situações específicas em países específicos que os escritores consideravam como certas, e por questões específicas que surgiram dessas situações... Uma longa lista de erros de interpretação e avaliação cometidos, especialmente por críticos “liberais” do século XIX dessa literatura, mas também por outros posteriores, poderia ser compilada para ilustrar essa verdade...

I. Toda a economia daquela época — com a possível exceção do ramo holandês — foi escrita em e para países pobres. Isso se aplica sem exceção se “pobre” for equiparado a “subdesenvolvido”. Todos os países europeus estavam no início de suas carreiras industriais e até mesmo agrícolas, e todos tinham consciência disso. Para nós, a expansão econômica está primariamente ligada a novas necessidades e métodos; aquela época, no entanto, tinha à sua frente possibilidades praticamente inesgotáveis, com necessidades e tecnologias existentes além do que se podia esperar do progresso tecnológico e das conquistas. Mas nossa proposição se aplica, em um sentido diferente e com força adicional, aos grandes países continentais que, na segunda metade do século XVII, também se depararam com um imenso problema de reconstrução. Eles eram pobres até mesmo em comparação com o que haviam sido no século XVI. Deve ficar claro que, em tais condições, políticas e raciocínios feitos na época tinham um significado que parecia absurdo para observadores que os analisavam sob a perspectiva do século XIX.

II. Em todos os países — inclusive na Inglaterra —, o setor agrário era predominante. Seus problemas econômicos eram primordialmente agrários, e a maior parte de sua população era composta por camponeses, agricultores e trabalhadores rurais. Nos séculos XVI, XVII e XVIII, esse mundo agrário passou por transformações que o revolucionaram: os historiadores econômicos falam, com razão, de uma revolução agrária, ou melhor, de várias revoluções agrárias. Essa expressão indica dois tipos distintos, embora relacionados, de mudança que se reforçaram mutuamente e que teriam desmantelado a estrutura da sociedade medieval, ainda que nada tivesse ocorrido no setor industrial. Por um lado, houve uma longa série de mudanças nas tecnologias de todos os ramos da produção agrária — esse processo ganhou impulso no século XVIII, mas teve início no começo do século XVI. Por outro lado, em sintonia com as revoluções tecnológicas, houve um processo de mudança organizacional que transformou os feudos medievais em fábricas de grãos, lã e carne, destruindo as antigas relações entre senhores feudais e camponeses ou agricultores. Basta mencionar a principal forma inglesa desse tipo de mudança: os cercamentos. Governos e, consequentemente, escritores adotaram duas atitudes caracteristicamente diferentes em relação a essa mudança. No continente europeu, e especialmente na Alemanha, os governos fizeram um esforço determinado e em grande parte bem-sucedido para salvar os camponeses e transformá-los, eventualmente, em uma classe de pequenos proprietários de terras. Na Inglaterra, a propriedade rural, com seus pequenos agricultores, foi extinta e, apesar da melancolia que pairava sobre as aldeias desertas, a grande propriedade rural prevaleceu, não como uma unidade produtiva, mas como uma unidade administrativa que deixava a produção a cargo do trabalhador capitalista, o fazendeiro [o dono da terra com uma mentalidade de trabalho e prosperidade nitidamente capitalistas].

III. Mas não é de todo surpreendente que a manufatura e o comércio internacional, por mais insignificantes que fossem, atraíssem mais atenção literária do que a agricultura. Elas eram crianças, estavam nascendo, e era delas dependia o futuro da família [havia uma motivação psicológica derivada do senso comum]. Além disso, tinham mais motivação e oportunidade para escrever sobre si e em seu próprio nome do que os latifundiários e agricultores. Para a economia, isso simplesmente significava que havia mais economistas “industriais e comerciais” do que “agrícolas”. A empresa em larga escala — grande em relação aos padrões ambientais — emergiu, em grande medida, no século XIV na Itália, no século XV na Alemanha e no século XVI (sob o reinado de Elizabeth I) na Inglaterra, primeiro na esfera financeira e comercial e depois na esfera da produção. Mas, substancialmente, a indústria manufatureira que os economistas observavam e sobre a qual refletiam era, quase sempre, a indústria manufatureira do artesão (ainda organizado em guildas de ofício), do "mestre" da indústria doméstica e do proprietário-gerente de fábricas, que eram poucas e, em sua maioria, bastante pequenas. Na Europa Ocidental, especialmente na Inglaterra, isso mudou (significativamente, mas não fundamentalmente) com a Revolução Industrial das últimas décadas do século XVIII, mas as consequências totais só se revelaram nas primeiras décadas do século XIX. Muitos autores, ocasionalmente até mesmo A. Smith, classificam o fabricante ao lado do operário. Nenhum autor, mesmo Adam Smith, tinha uma ideia muito clara do que realmente significavam os processos que levaram ao que os historiadores denominaram Revolução Industrial. A. Smith considerava, com algumas exceções,  a forma corporativa da indústria uma anomalia. Para ele e seus contemporâneos, grandes negócios ainda significavam grandes negócios comerciais e financeiros — particularmente, empreendimentos coloniais. E eles os encaravam de maneira muito semelhante à forma como os economistas modernos encaram qualquer tipo de negócio em larga escala, ou seja, com sentimentos de desconfiança ressentida.

IV. Essa evolução industrial e comercial foi caracterizada, quase até o final do período em questão, por políticas e práticas comerciais "monopolistas" que foram um dos principais temas da literatura econômica daquele período e que têm sido alvo de ampla condenação por economistas e historiadores econômicos de A. Smith até hoje. Por política pública e prática comercial privada “monopolistas”, entendemos medidas e formas de comportamento destinadas a garantir uma “saída” lucrativa para os produtos ou serviços de um indivíduo ou grupo, por meio de: (1) exclusão do estrangeiro dos mercados nacionais e internacionais — o que, enquanto os territórios nacionais não se tornaram unidades econômicas, muitas vezes excluía produtores e comerciantes da cidade ou distrito vizinho; (2) exclusão, dentro do possível, de todos os congêneres que não o indivíduo ou grupo favorecido — por exemplo, excluindo os varejistas dos negócios do comerciante; (3) restrição da produção do próprio indivíduo ou grupo favorecido e regulação de sua distribuição entre os mercados [uma forma embrionária do estatismo econômico moderno].

Vamos nos deter por um momento para analisar, à luz das considerações precedentes, as razões para a prevalência dessa política e prática. Primeiramente, poderíamos esperar que, se o capitalismo pleno tivesse surgido repentinamente no mundo e se lhe tivesse sido permitido desenvolver-se sem ser distorcido pelos fatores mencionados, tanto o comportamento empresarial quanto a política pública teriam sido, desde o início, o que de fato se tornaram, por um período, no século XIX. Ou seja, poderíamos esperar que, neste caso, em países tão pobres em bens e tão ricos em possibilidades, tivesse havido uma onda contínua de empreendimentos competitivos. Essa expectativa, contudo, seria apenas parcialmente justificada. A pobreza é uma cliente difícil, e os riscos normais de se fazer negócios aumentam consideravelmente em um ambiente onde a riqueza que alimenta a demanda não só precisa ser atraída, mas também criada. Nos negócios, como em qualquer outro setor, a estratégia de desenvolvimento muitas vezes exige táticas defensivas como complemento, embora a maioria dos economistas de todas as épocas se recuse obstinadamente a reconhecer. Mas, em condições nas quais o progresso a longo prazo era inevitavelmente lento, cada etapa precisava ser protegida com especial cuidado para se obter os meios e o tempo necessários para avançar além dela. É bastante natural que o historiador observador fique muito mais impressionado com as práticas e políticas de restrição protecionista, que dominam o cenário em todos os momentos, do que com o panorama do processo ao longo do tempo. Mas é verdade, no entanto, que mesmo um governo idealmente racional, motivado unicamente pelo fomento do desenvolvimento industrial, teria que conceder privilégios de monopólio em muitos casos nos quais a iniciativa privada seria impossível sem eles [por exemplo, as grandes navegações], e que, em outros, teria que permitir práticas monopolistas por parte dos empresários envolvidos. Isso se aplica, naturalmente, com ainda mais força aos países devastados pela guerra, como a Alemanha, onde apenas a perspectiva de lucros extraordinários poderia estimular o empreendedorismo em uma população imersa na miséria e no desespero. [Essa era a situação após a Guerra dos Trinta Anos e a Segunda Guerra Mundial].

Em segundo lugar, porém, o capitalismo não surgiu num mundo vazio: cresceu gradualmente a partir de um padrão preexistente dominado, no aspecto em questão, pelo espírito, pelas instituições e pela prática das corporações de ofício. Novos métodos de produção e novas formas de empreendimento encontram resistência em qualquer ambiente; mas, nesses séculos, existia um mecanismo legal de resistência que funcionava automaticamente.

Por um lado, a legislação e a administração em todos os países, sob pressão das corporações de ofício e em benefício próprio, submeteram a nova iniciativa “livre” a várias regulamentações que restringiam a produção. Por outro lado, embora essas regulamentações não tivessem raízes no sistema capitalista e o distorcessem, os comerciantes, mestres e outros afetados por elas naturalmente tiraram o melhor proveito da situação e se organizaram de maneira semelhante [às organizações medievais]. Havia várias razões — além dos ganhos esperados com a regulamentação restritiva — pelas quais isso lhes era fácil: os comerciantes e mestres eram eles próprios produtos de um mundo onde a organização e a ação corporativa eram reconhecidas e não tinham objeções em aceitar códigos “éticos” e religiosos, que exigiam comportamentos padronizados, incluindo reuniões de oração.

Eles não tinham prestígio nem peso político enquanto agissem individualmente, ao passo que cada Companhia Venerável era uma força política. No caso mais importante do comércio ultramarino, a necessidade de prover proteção física e resistência a agressões — existiam sociedades anônimas formadas exclusivamente para a pirataria — era um motivo que inevitavelmente uniria os comerciantes e incentivaria a ação corporativa também em outros aspectos. A Companhia Privilegiada, não uma empresa comercial em si, mas sim a estrutura organizacional para o comércio de seus membros, era, em parte em oposição e em parte em aliança com o sistema de entrepostos medieval (jus emporii), para aproveitar ao máximo as oportunidades oferecidas pelo protecionismo da época. Terceiro, os governos dos estados nacionais tinham seus próprios motivos para criar ou favorecer organizações ou cargos mais ou menos “monopolistas”. Um desses motivos já foi mencionado: o da reconstrução [Alemanha, por exemplo]. Outro era a perspectiva de ganho pessoal para os governantes — a Rainha Elizabeth participava pessoalmente dos lucros (e perdas) de empreendimentos “monopolistas”, inclusive com os lucros de roubos descarados. O mesmo grande monarca oferece exemplos notáveis ​​do método de favorecer seus favoritos, concedendo-lhes cartas patentes de monopólio.

Além disso, as organizações "monopolistas" eram como esponjas, muito melhor de espremer do que um grande número de empreendedores independentes. E, finalmente, com governos fortes, essas organizações são mais fáceis de explorar, mas também de controlar: seus próprios órgãos administrativos são inúmeras ferramentas prontas para serem usadas pelos governos. Esse aspecto se tornará ainda mais importante se nos lembrarmos da natureza da política daqueles governos para os quais as medidas relativas ao comércio eram apenas um dos instrumentos de uma política de poder agressiva: forçar o comércio em uma direção e interrompê-lo completamente em outra era, em alguns casos, quase tão eficaz quanto uma campanha militar; além disso, companhias coloniais de diferentes nações podiam guerrear entre si enquanto os respectivos governos nacionais estivessem oficialmente em paz.