História e Textos
O DNA DA HISTÓRIA
Roma Bizâncio
quarta-feira, 22 de abril de 2026
segunda-feira, 20 de abril de 2026
POR QUE ALGUNS BRITÂNICOS NÃO GOSTAM DE DONALD TRUMP?
Nate White, um escritor inglês
Algumas coisas me vêm à mente. Trump carece de certas qualidades que os britânicos tradicionalmente prezam. Por exemplo, ele não tem classe, charme, frieza, credibilidade, compaixão, sagacidade, calor humano, sabedoria, sutileza, sensibilidade, autoconsciência, humildade, honra ou elegância — todas qualidades, curiosamente, com as quais seu antecessor, o Sr. Obama, foi generosamente agraciado.
Portanto, para nós, o forte contraste expõe as limitações de Trump constrangedoramente. Além disso, gostamos de rir. E, embora Trump costume ser ridículo, ele nunca disse nada irônico, espirituoso ou sequer remotamente engraçado — nunca, jamais. Não digo isso retoricamente, quero dizer literalmente: nunca, jamais. E esse fato é particularmente perturbador para a sensibilidade britânica — para nós, a falta de humor é quase desumana. Mas em Trump, isso é um fato. Ele sequer parece entender o que é uma piada — para ele, piada é um comentário grosseiro, um insulto ignorante, um ato casual de crueldade.
Trump é um troll. E, como todos os trolls, ele nunca é engraçado e nunca ri; ele apenas se vangloria ou zomba. Assustadoramente, ele não só fala insultos grosseiros e sem graça, como realmente pensa dessa forma. Sua mente é um algoritmo simples, como o de um robô, repleto de preconceitos mesquinhos e maldade impulsiva. Nunca há nenhuma camada subjacente de ironia, complexidade, nuance ou profundidade. É tudo superficial. Alguns americanos podem ver isso como algo refrescantemente franco, direto. Bem, nós não. Vemos isso como a ausência de um mundo interior, de alma.
Na Grã-Bretanha, tradicionalmente nos aliamos a Davi, não a Golias. Todos os nossos heróis são azarões corajosos: Robin Hood, Dick Whittington, Oliver Twist [o próprio Churchill estava completamente desacreditado no Partido Conservador às vésperas da 2ª Guerra]. Trump não é corajoso nem um azarão. Ele é exatamente o oposto disso. Ele nem sequer é um riquinho mimado ou um magnata ganancioso. É mais como uma enorme e gordurosa lesma branca. Um Jabba the Hutt [o vilão de Guerra nas Estrelas] do privilégio.
E pior, ele é aquilo que os britânicos consideram imperdoável: um valentão. Exceto quando está entre valentões; aí, de repente, ele se transforma numa adolescente deslumbrada [como aconteceu com Vladimir Putin]. Há regras não ditas para essas coisas — as regras de Queensberry [lorde inglês que criou as regras do boxe] da decência básica — e ele quebra todas elas. Ele ataca quem está em posição inferior — algo que um cavalheiro jamais faria — e cada golpe que ele desfere visa as partes baixas. Ele gosta particularmente de chutar os vulneráveis ou indefesos — e os chuta quando já estão no chão.
Portanto, o fato de uma minoria significativa — talvez um terço — dos americanos observar o que ele faz, ouvir o que ele diz, e depois pensar “Ele parece ser do meu tipo” é motivo de certa confusão e não pouca angústia para os britânicos, uma vez que os americanos, em geral, são considerados mais gentis do que nós, e na maioria das vezes o são.
Não é preciso ser um especialista em detalhes para notar algumas falhas nesse homem. Este último ponto é o que mais confunde e consterna os britânicos, e outras pessoas também; seus defeitos são praticamente impossíveis de ignorar. Afinal, é impossível ler um único tweet dele, ou ouvi-lo falar uma ou duas frases, sem se deparar com um abismo. Ele transforma a falta de tato em arte; é um Picasso da mesquinhez; um Shakespeare de merda. Seus defeitos são fractais: até mesmo suas falhas têm falhas, e assim por diante, ao infinito [como os fractais].
Deus sabe que sempre houve pessoas estúpidas no mundo, e muitas pessoas desagradáveis também. Mas raramente a estupidez foi tão desagradável, ou a maldade tão estúpida. Ele faz Nixon parecer confiável e George W. Bush inteligente. Aliás, se Frankenstein decidisse criar um monstro feito inteiramente só de defeitos humanos, ele criaria um Trump. E um Dr. Frankenstein arrependido arrancaria tufos enormes de cabelo e gritaria em agonia: “Meu Deus… o que… eu… criei?”
Se ser um idiota fosse um programa de TV, Trump seria a série completa.
domingo, 19 de abril de 2026
Há
cem anos, os economistas estavam muito mais satisfeitos com seu desempenho do
que estão hoje. Mas afirmo que, se essa complacência pode ser justificada, e digo que há
muito mais motivos para complacência hoje do que havia naquela época, ou mesmo
há um quarto de século... E se isso é verdade para o nosso domínio dos fatos,
deve ser verdade também para todos os campos aplicados que, para seu avanço,
dependem principalmente da apuração de fatos. Devo insistir, um pouco contido, na afirmação
de que nossa capacidade de análise cresceu em paralelo com nosso acervo de
fatos. Um novo conjunto de métodos estatísticos emergiu, em certa medida por
nossos próprios esforços, que certamente terá tanta importância para nós quanto
para todas as ciências, como a biologia ou a psicologia experimental, cujos
fenômenos são expressos em termos de distribuições de frequência.
Em
resposta a esse desenvolvimento e em consonância com ele, mas de forma independente, nosso próprio conjunto de ferramentas analíticas foi
enormemente enriquecido: a teoria econômica, no sentido instrumental do termo —
que não significa o ensino dos fins últimos das políticas públicas nem
hipóteses explicativas, mas simplesmente a soma total de nossos métodos de
lidar com os fatos — cresceu tanto quanto Marshall e Pareto previram. Se isso
não é mais amplamente reconhecido e se é de bom tom entre economistas — principalmente
em público — emitir julgamentos depreciativos sobre o estado de nossa ciência,
isso se deve a uma série de causas que, embora conhecidas, costumam se repetir: um terreno onde estruturas antigas estão sendo demolidas e novas
erguidas não é algo esteticamente agradável; além disso, de forma bastante
desencorajadora, as novas estruturas estão sendo desacreditadas por tentativas
prematuras de aplicação utilitarista; finalmente, a área de construção se
expande tanto que impossibilita ao trabalhador individual
compreender tudo o que acontece além do seu pequeno setor.
Seria,
de fato, difícil apresentar de forma sistemática, como Smith, Mills e
Marshall conseguiram fazer com maior ou menor sucesso, um tratado abrangente
que demonstrasse alguma unidade e obtivesse aprovação quase universal. Assim,
embora os trabalhadores de cada setor não estejam de todo insatisfeitos com o
seu próprio desempenho, é bastante provável que desaprovem a maneira como os outros setores executam suas tarefas, ou mesmo que neguem que essas
outras tarefas mereçam qualquer atenção... Muitos tipos de mente são
necessários para construir a estrutura do conhecimento humano, tipos que nunca
se entendem completamente. A ciência é técnica e, quanto mais se desenvolve,
mais completamente escapa à compreensão não só do público em geral, mas também...
do próprio pesquisador.
Isso
ocorre mais ou menos em todos os lugares, embora uma maior uniformidade na
formação e uma maior disciplina no trabalho possam, na física, reduzir o
tumulto a algo semelhante à ordem. Como todos sabem, porém, existe entre nós
outra fonte de confusão e outra barreira ao progresso: a maioria de nós, não
contente com sua tarefa científica, cede ao chamado do dever público e ao
desejo de servir ao país e à sua época, trazendo consigo para o trabalho seus
valores individuais, suas crenças e sua visão política — toda a sua
personalidade moral, até suas ambições espirituais.
Não
pretendo discutir sobre juízos de valor ou sobre a defesa de
interesses de grupo. Pelo contrário, é essencial para o meu propósito enfatizar
que, em si, a prática científica não exige que nos despojemos de nossos juízos
de valor ou que renunciemos à vocação de defensor de algum interesse
específico. Investigar fatos ou desenvolver ferramentas para fazê-lo é uma
coisa; avaliá-los de um ponto de vista moral ou cultural é, logicamente, outra
coisa, e as duas não precisam entrar em conflito. Da mesma forma, o defensor de
um determinado interesse pode, ainda assim, realizar um trabalho analítico
honesto, e a motivação de provar um ponto em defesa do interesse ao qual deve
lealdade não prova, por si só, nada a favor ou contra esse trabalho analítico:
em outras palavras, defender uma causa não implica mentir ou distorcer fatos ou inferências para servirem a um
ideal ou interesse. Mas tal conduta má não é necessariamente inerente ao
argumento de um pesquisador a partir de suas "premissas axiológicas"
ou à defesa delas em si. Abundam exemplos em que economistas estabeleceram proposições
cujas implicações não lhes causavam qualquer simpatia. Para citar um único
exemplo: estabelecer a consistência lógica das condições (equações) que
descrevem uma economia socialista parecerá à maioria das pessoas equivalente a
ganhar um ponto para o socialismo; mas isso foi estabelecido por Enrico Barone,
um homem que... não simpatizava com os ideais socialistas.
(continua)
TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 8
O
Processo Científico: Visão e Regras de Procedimento.
Estamos
agora prontos para dar o segundo passo em nossa investigação sobre os perigos
do viés ideológico, ou seja, para perguntar até que ponto ele ameaça a validade
dos resultados naquele campo mais restrito que descrevemos como Análise
Econômica. Alguns leitores podem até pensar que não há um segundo passo a ser
dado: uma vez que já renunciamos, como condicionados ideologicamente, a todos
os sistemas de economia política, e uma vez que, além disso, reconhecemos como
ideologias os conjuntos de opiniões sobre assuntos econômicos menos
completamente sistematizados que, em qualquer tempo e lugar, “flutuam na mente
do público”, parece que, de fato, admitimos tudo o que havia para admitir. E
aqueles leitores, em particular, cujo principal interesse reside na história
das ideias que moldam as pessoas... associadas a políticas ou a concepções
sobre o que deve ser considerado justo ou desejável na gestão de assuntos
econômicos, e cujo interesse no desenvolvimento da análise econômica técnica é
apenas secundário, provavelmente admitirão que nosso conjunto de ferramentas
pode estar tão distante da influência de ideologias quanto as técnicas de
qualquer outra ciência. Infelizmente, não podemos presumir isso. Analisemos,
portanto, o próprio processo científico para identificar onde elementos
ideológicos podem se infiltrar e quais são os nossos meios de reconhecê-los e,
talvez, eliminá-los.
Na
prática, todos nós iniciamos nossas pesquisas a partir do trabalho de nossos
antecessores, ou seja, raramente começamos do zero. Mas suponhamos que
começássemos do zero... para sermos capazes de formular quaisquer problemas,
primeiro precisaríamos visualizar um conjunto distinto de fenômenos coerentes...
Em outras palavras, o esforço analítico é necessariamente precedido por um ato
cognitivo pré-analítico que fornece a matéria-prima para o esforço analítico.
Neste livro, esse ato cognitivo pré-analítico será chamado de Visão. É
interessante notar que esse tipo de visão não só deve preceder historicamente o
surgimento do esforço analítico em qualquer campo, como também pode reaparecer
na história de toda ciência estabelecida sempre que alguém nos ensina a ver as
coisas sob uma perspectiva cuja origem não se encontra nos fatos, métodos e
resultados do estado preexistente da ciência.
Ilustremos
isso com um exemplo de nossa época. Críticos e admiradores da contribuição
científica do falecido Lord Keynes concordarão que sua Teoria Geral do Emprego,
do Juro e da Moeda (1936) foi o grande sucesso da década de 1930 e dominou o trabalho analítico por, no mínimo, uma década após sua publicação. A Teoria
Geral apresentou um aparato analítico que o autor resumiu no Capítulo 18. Se
seguirmos sua exposição passo a passo (ver especialmente pp. 249–54),
observamos que esse aparato foi concebido para dar expressão conveniente a
certos fatos do “mundo em que vivemos” — embora, como o próprio Keynes
enfatizou, esses fatos sejam atribuídos às suas tabelas fundamentais (propensão
a consumir, atitude em relação à liquidez e eficiência marginal do capital)
como características especiais e não como propriedades “logicamente
necessárias”.
Esse
padrão analítico será discutido posteriormente, onde também será demonstrado
que as características especiais em questão são características do capitalismo
inglês em declínio, vistas do ponto de vista de um intelectual inglês. Não há
dúvidas de que foram estabelecidas por pesquisas factuais anteriores. Elas são
“plausivelmente atribuídas ao nosso mundo [inglês], com base em nosso
conhecimento geral da natureza humana contemporânea” (p. 250). Este não é o
lugar para discutir os méritos ou deméritos dessa concepção. O que importa aqui
e agora é que se trata de uma concepção ou visão, em nosso sentido, e que
antecedeu todos os esforços analíticos de Keynes. O processo se destaca, neste
caso, com uma clareza insuperável porque podemos ler uma formulação da visão,
ainda analiticamente desarmada, em algumas páginas brilhantes de As
Consequências Econômicas da Paz (1919), de Keynes. No que diz respeito a essa
linha de atuação... todo o período entre 1919 e 1936 foi gasto em tentativas,
primeiro malsucedidas, depois cada vez mais bem-sucedidas, de implementar a
visão particular do processo econômico de nossa época que estava fixada na
mente de Keynes, no máximo, em 1919 [ou seja, essa visão não pode deixar de
apresentar condicionamentos sociais, logo algum nível de ideologia]...
O
esforço analítico começa quando concebemos nossa visão do conjunto de fenômenos
que despertou nosso interesse, independentemente de esse conjunto estar em solo
virgem ou em terras já cultivadas. A primeira tarefa é verbalizar ou conceituar
essa visão de forma que seus elementos ocupem seus lugares, com nomes que
facilitem o reconhecimento e a manipulação, em um esquema ou representação mais
ou menos ordenada. Mas ao fazer isso, nós nos impomos, quase automaticamente,
duas tarefas: por um lado, reunimos mais fatos além daqueles já percebidos e
aprendemos a desconfiar de outros que figuravam na visão original; por outro
lado, o próprio trabalho de construir o esquema ou a imagem adicionará novas
relações e conceitos ao conjunto original e, em geral, também eliminará outros.
O
trabalho factual e o trabalho “teórico”, em uma relação interminável de troca e
contribuição, naturalmente testando-se mutuamente e propondo novas tarefas um
para o outro, eventualmente produzirão modelos científicos, os produtos
conjuntos provisórios de sua interação com os elementos sobreviventes da visão
original, aos quais serão aplicados padrões cada vez mais rigorosos de
consistência e adequação... Agora, deve ficar perfeitamente claro que há uma
ampla porta de entrada para a ideologia nesse processo. Na verdade, ela entra
logo no início, no ato cognitivo pré-analítico do qual temos falado. O trabalho
analítico começa com o material fornecido por nossa visão das coisas, e essa
visão é ideológica quase por definição.
Ela
incorpora a imagem das coisas como as vemos, e sempre que houver qualquer
motivo possível para desejar vê-las sob uma determinada perspectiva em vez de
outra, a maneira como as vemos dificilmente pode ser distinguida da maneira
como desejamos vê-las. Quanto mais honesta e ingênua for nossa visão, mais
perigosa ela será para o eventual surgimento de algo que possa ser considerado
de validade geral. A inferência para as ciências sociais é óbvia, e nem mesmo é
verdade que aquele que odeia um sistema social formará uma visão objetivamente
mais correta dele do que aquele que o ama. Pois o amor distorce, de fato, mas o
ódio distorce ainda mais. Nosso único consolo reside no fato de que há um
grande número de fenômenos que não afetam nossas emoções de uma forma ou de
outra e que, portanto, parecem muito semelhantes para inúmeros indivíduos.
Mas
também observamos que as regras de procedimento que aplicamos em nosso trabalho
analítico são quase tão isentas de influência ideológica quanto a visão está
sujeita a ela. Lealdade apaixonada e ódio apaixonado podem, de fato, interferir
nessas regras. Em si mesmas, essas regras, muitas das quais, aliás, nos são
impostas pela prática científica em campos pouco ou nada afetados pela
ideologia, são bastante eficazes em expor o mau uso. E, o que é igualmente
importante, elas tendem a eliminar o erro condicionado ideologicamente das
visões a partir das quais partimos. Essa é a sua virtude particular, e elas o
fazem automática e independentemente dos desejos do pesquisador. Os novos
fatos que ele é obrigado a acumular se impõem ao seu esquema mental. Os novos
conceitos e relações, que alguém mais formulará se ele não o fizer, devem
verificar suas ideologias ou então destruí-las. E se esse processo for
permitido se desenvolver completamente, certamente não nos protegerá do
surgimento de novas ideologias, mas, no fim, eliminará o erro das existentes.
É
verdade que, em economia, e ainda mais em outras ciências sociais, essa esfera
do estritamente comprovável é limitada, pois sempre existem áreas periféricas
que são questões de experiência e impressão pessoal, das quais é praticamente
impossível erradicar completamente a ideologia, ou mesmo a desonestidade
consciente. O consolo que podemos obter com nosso argumento, portanto, nunca é
completo [o máximo que se pode fazer é controlar a ideologia].
[traduzido de History of Economic Analysis]
Infelizmente
Schumpeter não concluiu esse ponto antes de morrer, e boa parte da
reconstituição provável desse trecho está comprometida e incompleta. Pegamos
apenas as partes que ajudem a perceber melhor o que ele defendeu a respeito.
domingo, 12 de abril de 2026
TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 7
Diferença
entre História da Análise Econômica, História dos Sistemas de Economia Política
e História do Pensamento Econômico
....
Por
sistema de economia política, entendo uma exposição de um conjunto abrangente
de políticas econômicas que seu autor defende com base em certos princípios
unificadores (normativos), como os princípios do liberalismo econômico, do
socialismo e assim por diante. Tais sistemas se enquadram em nosso escopo na
medida em que contenham trabalho genuinamente analítico. Por exemplo, A Riqueza
das Nações, de A. Smith, foi, de fato, em sua intenção, um sistema de economia
política no sentido definido acima e, como tal, não nos interessa. Nos
interessa ainda mais pelo fato de que os princípios e receitas políticas de A.
Smith — sua defesa cautelosa do livre comércio e outros — são apenas a capa de
uma grande conquista analítica [feita antes de Smith].
Em
outras palavras, não estamos tão interessados no
que ele argumentou, mas em como ele argumentou e quais ferramentas de análise utilizou para fazê-lo. Seus princípios e receitas políticas (incluindo a ideologia — revelando juízos de valor) eram, sem dúvida, o que mais importava para ele e
para seus leitores e, além disso, o que explica principalmente o sucesso de sua
obra junto ao público e sua posição de destaque na história do pensamento
humano. Mas estou disposto a descartá-los como meras formulações da ideologia
de sua época e país, sem validade para qualquer outra.
O
mesmo se aplica ao que definimos como Pensamento Econômico, ou seja, a soma
total de todas as opiniões e desejos relativos a assuntos econômicos,
especialmente no que diz respeito às políticas públicas que os influenciam, e
que, em qualquer tempo e lugar, circulam na mente pública.
Ora,
a mente pública nunca é algo indiferenciado ou homogêneo, mas sim o resultado
da divisão da comunidade correspondente em grupos e classes de naturezas
diversas. Em outras palavras, a mente pública reflete, de forma mais ou menos
traiçoeira... a estrutura de classes da sociedade correspondente e as
mentalidades ou atitudes de grupo que nela se formam. Como essas mentalidades
de grupo têm diferentes oportunidades de se afirmar e, principalmente, de
deixar suas marcas na literatura que chega ao conhecimento das gerações
posteriores, surgem questões de interpretação que são sempre difíceis de
resolver.
...
Uma coisa é lidar com políticos, outra com os lojistas, agricultores e
operários que são “representados” por esses políticos. E isso pode ser
formulado em sistemas de economia política por escritores que pertencem, ou se
vinculam, a setores específicos. Por outro lado, pode tangenciar, ou se
sobrepor a, trabalhos analíticos, como frequentemente ocorre em tratados
escritos por membros da burguesia comercial ou industrial. Na medida em que
isso acontece, será nossa tarefa, naturalmente, selecionar, da melhor maneira
possível, as interpretações analíticas dentre as verbalizações comuns dos humores
da época que não estejam relacionadas ao esforço para aprimorar nosso aparato
conceitual e, portanto, não nos interessam.
É
claro que jamais negligenciaremos o ambiente geral do pensamento econômico no
qual, em diferentes épocas, os analistas desenvolveram seu trabalho. Mas esses
ambientes e suas transformações históricas nunca são nosso principal objeto de
interesse. Eles surgem como influências favoráveis ou
inibidoras sobre o trabalho analítico,
que permanecerá o protagonista
ao longo de nossa análise.
Ao tentarmos desvincular o trabalho analítico
de seu contexto popular, mesmo que este exerça incessantemente sua influência, faremos uma descoberta que é
conveniente ressaltar de imediato.
O
desenvolvimento do trabalho analítico, por mais perturbado que tenha sido pelos
interesses e atitudes do mercado, apresenta uma característica totalmente
ausente do desenvolvimento histórico do pensamento econômico em nosso sentido,
bem como da sucessão histórica dos sistemas de economia política. Essa
característica pode ser melhor ilustrada por um exemplo: desde os primórdios
até os dias de hoje, os economistas analíticos têm se interessado, em maior ou
menor grau, pela análise do fenômeno que chamamos de preço competitivo. Quando
o estudante moderno se depara com o fenômeno em um nível avançado de seus
estudos, por exemplo, nos livros de Hicks ou Samuelson, ele é apresentado a uma
série de conceitos e problemas que podem lhe parecer difíceis a princípio, e
certamente seriam completamente incompreensíveis para um autor como John Stuart
Mill. Mas o estudante também descobrirá em breve que um novo aparato apresenta
e resolve problemas para os quais os autores mais antigos teriam dificilmente encontrado respostas, mesmo que os conhecessem. Isso define, de maneira sensata
e, em todo caso, perfeitamente inequívoca, em que sentido houve "progresso
científico" entre Mill e Samuelson.
Ora, nossa capacidade de falar em progresso nesse caso se deve, obviamente, ao fato de existir um padrão amplamente aceito, restrito a um grupo de profissionais, que nos permite organizar diferentes teorias de preço competitivo em uma série em que cada membro pode ser considerado superior ao anterior [o nível (de complexidade ou precisão) da análise mais aceita em uma época tende a ser superado pelo nível da análise mais aceita que lhe segue]. Observamos ainda que essa sequência está associada ao passar do tempo, no sentido de que a teoria posterior dos preços competitivos quase sempre ocupa posição superior na escala de perfeição analítica: quando isso não ocorre, é possível atribuir esse fato a influências extra-analíticas perturbadoras. Mas, embora seja possível falar em progresso analítico e impossível negar os fatos que essa palavra denota, nada corresponde a isso no campo do pensamento econômico ou mesmo em qualquer conjunto histórico de sistemas de economia política.
Por exemplo, não faria
sentido falar de uma superioridade das ideias de Carlos Magno sobre política
econômica, reveladas por suas ações legislativas e administrativas, sobre as
ideias econômicas, digamos, do Rei Hamurabi; ou dos princípios gerais de
política revelados pelas proclamações dos reis Stuart sobre as de Carlos Magno;
ou das declarações de política que precedem às vezes as leis do Congresso sobre
essas proclamações Stuart. É claro que podemos simpatizar com alguns dos
interesses favorecidos em um desses casos em vez dos interesses favorecidos em
outros e, nesse sentido, organizar esses documentos também em uma escala de
preferência. Mas o lugar de qualquer corrente de pensamento econômico em tal
conjunto variaria de acordo com os nossos julgamentos de valores, e quanto ao
resto, ficaremos com nossa preferência emocional ou estética pelos diversos
esquemas de vida que encontram expressão nesses documentos. Situação semelhante a como se nos perguntassem se o melhor pintor seria Gauguin ou Ticiano. A única
resposta sensata para tal pergunta é que ela não tem sentido. E o mesmo se
aplica, naturalmente, a todos os sistemas de economia política, se excluirmos
deles as excelências ou deficiências técnicas.
Podemos,
de fato, preferir o mundo do socialismo ditatorial moderno ao mundo de Adam
Smith, ou vice-versa, mas qualquer preferência desse tipo se enquadra na mesma
categoria de avaliação subjetiva... Em outras palavras, não há significado
objetivo para o termo progresso em questões econômicas ou de qualquer outra
política, porque não existe um padrão válido para comparações. Seria supérfluo
acrescentar que esse argumento parece esclarecer satisfatoriamente as
diferenças entre os historiadores da economia sobre esse ponto. Alguns deles
pensam em análise técnica e em um domínio crescente dos fatos; estes estão
absolutamente certos ao falar do progresso científico em nossa área. Outros
falam das mudanças de humor, elas próprias produto das mudanças nas condições
sociais, que produzem mudanças de opinião sobre políticas e desejos; estes
estão absolutamente certos ao negar que exista algo como progresso em nossa
área. Qualquer um dos grupos pode errar ao ignorar que existe um aspecto do
pensamento humano sobre assuntos econômicos além daquele que estão considerando
exclusivamente [talvez ele esteja se referindo aqui à questão da afetividade, das
preferências, que é incomensurável e que subjaz a toda atividade mental].
[traduzido de History of Economic Analysis]
segunda-feira, 6 de abril de 2026
TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 6
A HISTÓRIA DA ECONOMIA É UMA HISTÓRIA DE
IDEOLOGIAS?
A natureza histórica ou
‘evolutiva’ do processo econômico limita inquestionavelmente o alcance dos
conceitos e das relações gerais entre eles (‘leis econômicas’) que os
economistas podem formular. De fato, não faz sentido negar, a priori, como já
foi feito algumas vezes, que tais conceitos ou relações não podem sequer ser
formulados. Em particular, não é necessário que os conceitos que usamos no
estudo de grupos sociais sejam familiares aos próprios membros desses grupos:
se é fato que o conceito de renda não era familiar às pessoas da Idade Média
antes do século XIV não é motivo para não usá-lo em uma análise de sua
economia. Mas é verdade também que as “leis econômicas” são muito menos
estáveis do que as “leis” de qualquer ciência física, que elas funcionam de
maneira diferente em diferentes condições institucionais e que a negligência
desse fato foi responsável por muitas aberrações. Também é verdade que, quando
tentamos interpretar atitudes humanas, especialmente atitudes de pessoas muito
distantes de nós no tempo ou na cultura, arriscamos compreendê-las
mal, não apenas se substituirmos grosseiramente nossas próprias atitudes pelas
delas, mas também se fizermos o possível para penetrar no funcionamento de suas
mentes. Tudo isso se agrava consideravelmente pelo fato de o próprio observador
ser produto de um determinado ambiente social — e de sua posição específica
nesse ambiente — que o condiciona a enxergar certas coisas em detrimento de
outras, e a vê-las sob uma determinada perspectiva. E não é só isso: fatores
ambientais podem até mesmo dotar o observador de um desejo subconsciente de ver
as coisas sob uma certa ótica. Isso nos leva ao problema do viés ideológico na
análise econômica.
A psicologia e a
psicoterapia modernas nos familiarizaram com um hábito mental que chamamos de
racionalização. Esse hábito consiste em nos confortar e impressionar os outros,
criando uma imagem de nós mesmos, de nossas motivações, de nossos amigos, de nossos
inimigos, de nossa vocação, de nossa igreja, de nosso país, que pode ter mais a
ver com o que gostaríamos que fossem do que com o que realmente são. O
concorrente que é mais bem-sucedido do que nós, provavelmente deve seu sucesso
a artimanhas que desprezamos. É bem provável que o líder de um partido que não
é o nosso seja um charlatão... E assim por diante. A importância desse hábito
para a saúde e a felicidade da mente normal é óbvia, assim como a importância
de um diagnóstico correto de suas manifestações verbais.
O conceito de ideologia
marxista
Meio século antes de que a
importância desse fenômeno fosse plenamente reconhecida e utilizada
profissionalmente [já havia o uso pejorativo feito por Napoleão I], Marx e
Engels o descobriram e usaram essa descoberta em suas críticas à economia
“burguesa” de sua época. Marx percebeu que as ideias ou sistemas de ideias dos
homens não são, como a historiografia ainda tende a assumir acriticamente, os
principais motores do processo histórico, mas formam uma “superestrutura” sobre
fatores mais fundamentais...
Marx percebeu ainda que as
ideias ou sistemas de ideias que prevalecem em qualquer momento e em qualquer
grupo social, na medida em que contêm proposições sobre fatos e inferências a
partir de fatos, serão provavelmente viciados exatamente pelas mesmas razões
que também viciam as teorias de um homem sobre seu próprio comportamento
individual. Ou seja, as ideias das pessoas tendem a glorificar os interesses e
as ações das classes que estão em posição de se afirmar e, portanto, tendem a
desenhar ou insinuar imagens delas que podem estar seriamente em desacordo com
a verdade [que, por alguma razão misteriosa, só Marx e Engels conseguiam ver no
seu tempo].
Assim, os cavaleiros
medievais se imaginavam como protetores dos fracos e defensores da fé cristã,
enquanto seu comportamento real, além de outros fatores que produziram e
mantiveram a estrutura social de seu mundo, certamente parecerá muito
diferente para um observador de outra época e mesmo de outra classe no seu
tempo. Marx chamou esses sistemas de ideias de ideologias. E sua tese era que
grande parte da economia de sua época nada mais era do que a expressão da ideologia
da burguesia industrial e comercial.
O valor dessa grande
contribuição para nossa compreensão dos processos históricos e do significado
das ciências sociais é prejudicado, mas não destruído, por três falhas, que
convém observar de imediato.
Primeiro, embora Marx
estivesse tão atento ao caráter ideológico de sistemas de ideias com os quais
não simpatizava, ele era completamente cego aos elementos ideológicos presentes
nos seus próprios — A meu ver, este é o ponto essencial das racionalizações:
elas fornecem uma espécie de autodefesa para nossos organismos psíquicos e
tornam suportáveis muitas vidas que não vingariam sem elas. Mas o princípio
de interpretação envolvido em seu conceito de ideologia é perfeitamente geral
[e pode ser estudado cientificamente]. Obviamente, não podemos dizer que em
todo lugar há ideologia e que somente nós nos apoiamos na rocha da verdade
absoluta [como fazem os marxistas e aqueles que querem censurar politicamente
as redes sociais]. As ideologias trabalhistas não são melhores nem piores do
que quaisquer outras.
Em segundo lugar, a análise
marxista dos sistemas ideológicos de pensamento os reduz a emulsões de
interesses de classe, que por sua vez são definidos em termos exclusivamente
econômicos. Segundo Marx, as ideologias da sociedade capitalista são, para dizer
de forma grosseira, glorificações dos interesses daquilo que ele denominou
classe capitalista, cujos interesses giram em torno da busca por lucros
pecuniários. Ideologias que não glorificam o comportamento do homem capitalista
nos negócios, mas algo mais, por exemplo, o caráter e o comportamento nacional,
devem, portanto, ser sempre redutíveis, ainda que indiretamente, aos interesses
econômicos da classe dominante. Isso, porém, não está implícito no cerne do conceito
de ideologia, mas constitui uma teoria adicional e muito duvidosa. O próprio
princípio implica apenas duas coisas: que as ideologias são superestruturas
erguidas sobre, e produzidas pelas realidades da estrutura social objetiva
abaixo delas; e que elas tendem a refletir essas realidades de maneira
caracteristicamente tendenciosa. Se essas realidades podem ser completamente
descritas em termos puramente econômicos, é outra questão. Sem entrar nesse
mérito aqui, registramos apenas o fato de que atribuiremos um significado muito
mais amplo ao conceito de Influência Ideológica. A posição social é, sem
dúvida, um fator poderoso na formação de nossas mentes. Mas isso não significa
que nossas mentes sejam moldadas exclusivamente pelos elementos econômicos
inerentes à nossa posição de classe ou que, mesmo que isso ocorra, sejam
moldadas exclusivamente por um interesse de classe ou grupo bem definido [Nem
todos os burgueses, proletários, ou membros de uma classe que o valha, pensam da
mesma maneira; isso é um reducionismo atroz!].
Em terceiro lugar, Marx, e
especialmente a maioria de seus seguidores, presumiram com muita facilidade que
declarações que demonstram influência ideológica são, por si só, condenáveis
[menos a sua, que é a verdade absoluta]. Mas é fundamental enfatizar que, assim
como as racionalizações individuais, as ideologias não são mentiras... não são
necessariamente errôneas. É grande a tentação de aproveitar a oportunidade para
descartar de uma só vez todo um conjunto de proposições de que não gostamos,
simplesmente chamando-o de ideologia. Esse artifício é, sem dúvida, muito
eficaz, tão eficaz quanto os ataques às motivações pessoais de um oponente.
Mas, logicamente, é inadmissível.
Como já foi apontado, a
explicação, por mais correta que seja, das razões pelas quais um homem diz o
que diz, nada nos informa sobre se é verdade ou mentira. Da mesma forma,
declarações que procedem de uma base ideológica são passíveis de suspeita, mas
ainda podem ser perfeitamente válidas. Tanto Galileu quanto seus oponentes
podem ter sido influenciados por ideologias. Isso não nos impede de dizer que
ele estava "certo". Mas que justificativa lógica temos para afirmar
isso? Existe alguma maneira de localizar, reconhecer e, possivelmente, eliminar
os elementos ideologicamente viciados na análise econômica? E o que restará
após essa eliminação? Entende-se que nossas respostas, embora ilustradas por
exemplos, serão, por ora, provisórias, e que a validade, ou não, dos princípios
que estou prestes a formular só poderá ser avaliada por sua aplicação neste
livro na sua totalidade. Mas, antes de iniciarmos essa tarefa, precisamos esclarecer
uma questão preliminar.
Infelizmente, temos que
bloquear uma saída de emergência pela qual alguns dos mais fervorosos
defensores da doutrina de que... toda a ciência, é viciada por ilusões
ideológicas, tentaram escapar da conclusão aparentemente inevitável sobre a
possibilidade da "verdade científica". O professor K. Mannheim
ensinava que, embora a ilusão ideológica seja o destino comum da humanidade,
existem, no entanto, "inteligências independentes", flutuando
livremente no espaço, que gozam do privilégio de estarem isentas desse destino.
De forma um pouco mais realista, todos são vítimas da ilusão ideológica, exceto
o intelectual radical moderno que se ergue, de fato, sobre a rocha da verdade,
o juiz imparcial de todas as coisas humanas. Ora, se há algo que se possa
considerar óbvio neste campo, é o fato de que esse intelectual nada mais é do
que um amontoado de preconceitos que, na maioria dos casos, são sustentados com
toda a força de uma convicção sincera. Mas, além disso, não podemos seguir
Mannheim pela escada de incêndio, pois aceitamos plenamente a doutrina da
onipresença do viés ideológico e, portanto, não conseguimos enxergar na crença
de alguns grupos nada além de uma parte particularmente perversa de seu próprio
sistema de ilusões. Agora, voltemos à nossa tarefa.
Primeiro, o viés ideológico,
conforme definido acima por nossa versão modificada da definição marxista,
obviamente não é o único perigo que ameaça a análise econômica. Em particular,
há outros dois que devem ser mencionados especificamente porque são facilmente
confundidos com o viés ideológico. Um deles é a possível manipulação de fatos
ou de regras processuais por advogados peticionários [profissional
especializado em escrever petições, nem sempre muito fieis aos fatos, antes de
o advogado entrar em ação]. Tudo o que tínhamos a dizer sobre isso já foi dito:
aqui, apenas desejo alertar o leitor de que uma argumentação justificadora não
é o mesmo que análise ideologicamente viciada.
Outro perigo decorre do
hábito inveterado dos economistas de emitir juízos de valor sobre os processos
que observam. Os juízos de valor de um economista muitas vezes revelam sua
ideologia, mas não a definem: é possível emitir juízos de valor com base em fatos
irrefutavelmente estabelecidos e nas relações entre eles, e é possível
abster-se de emitir qualquer juízo de valor com base em fatos vistos sob uma
ótica ideologicamente distorcida. Não discutiremos o problema dos juízos de
valor aqui...
Notas
Adequação
conceitual
Sociólogos
como Max Weber, que defendem o método interpretativo dos estados ou mudanças
sociais — isto é, que acreditam que nossa principal ou única tarefa é tentar
entender o que as coisas significavam para as pessoas em cada momento — podem
facilmente chegar à conclusão de que o uso de quaisquer conceitos desconhecidos
para as pessoas em estudo implica o erro de presumir que suas mentes
funcionavam exatamente como as nossas. Ora, esse erro pode estar presente, mas
não necessariamente: usar um conceito que tem significado para nós, mas não
para as pessoas que observamos, é uma coisa; postular que o conceito também
tinha significado para estas últimas é outra bem diferente. Não precisamos recorrer
a tribos primitivas para ilustrar isso: se, em termos de nossos próprios
conceitos, formularmos as condições para maximizar os lucros, não precisamos
presumir que o próprio empresário utilize esses conceitos; nossa
"teoria" é perfeitamente válida mesmo que saibamos que ele não a
utiliza [o que invalida esses conceitos, numa abordagem pretensamente
científica, é a sua conotação moral, que transcende a natureza do conceito em
si, exceto aqueles que pressupõem um julgamento moral prévio, como os de
“exploração”, “exploradores”, “oprimidos”, mais apropriados a pregadores
religiosos].
Racionalização
O
termo “racionalização”, no sentido explicado a seguir, deve ser
cuidadosamente distinguido de outros significados da mesma palavra, especialmente
destes dois: (1) Às vezes, falamos de racionalização quando nos referimos a uma
ação que visa aprimorar algo, por exemplo, uma empresa industrial, para estar em conformidade com os padrões aprovados por consultores especializados.
(2) Em trabalhos de pesquisa, às vezes falamos de racionalização quando nos
referimos à tentativa de vincular um conjunto de descobertas empíricas a algum
princípio teórico que as explique. Assim, dizemos que racionalizamos o
comportamento empresarial observado pelo princípio da maximização do lucro.
Esses significados não têm relação alguma com o significado em discussão [um
mecanismo de defesa freudiano].
Burocracia
e ideologia
Alguns
grupos, como as burocracias, são mais propensos a essa ideologia [marxista],
que, entre outras coisas, envolve a negação claramente ideológica de qualquer
interesse [ideológico] em seu grupo ou, pelo menos, de sua influência [da
ideologia] sobre as políticas que eles próprios criam ou ajudam a moldar. Isso
pode ser usado como um primeiro exemplo da influência das ideologias sobre a
análise [negando-a, esses burocratas a confirmam]. Pois essa ideologia das
burocracias é um fator importante no hábito pouco científico dos economistas de
usar uma teoria claramente ideológica do Estado, que eleva este último a uma
agência sobre-humana para o bem público e negligencia os fatos sobre as
realidades da administração pública que a ciência política moderna proporciona.
[Traduzido de History of Economic Analysis]
domingo, 29 de março de 2026
TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 5
Economia e filosofia
Agora, voltamo-nos para o
tema das relações entre economia e filosofia... [Para saber] até que ponto a
análise econômica sofreu influências da filosofia.
Devido aos muitos
significados atribuídos à palavra filosofia, é preciso ter cuidado para evitar
confusões. Há, em primeiro lugar, um significado para o qual nossa pergunta é
muito fácil de responder, ou melhor, para o qual não há problema algum: o
“filósofo” grego, que evoluiu para o retórico e o sofista, era simplesmente o
homem de atividades intelectuais. Tomada nesse sentido, que foi transmitido à
Idade Média e sobreviveu até o século XVIII, a filosofia significava a soma
total de todo o conhecimento científico. Era simplesmente a ciência universal,
da qual a metafísica fazia parte tanto quanto a física, e a física tanto quanto
a matemática ou qualquer “filosofia” sobre a natureza da sociedade e da pólis
[O filósofo era alguém que sabia de tudo = polímata].
Esse uso estava fadado a se
manter enquanto o acervo, tanto de ferramentas analíticas quanto de fatos,
permanecesse pequeno o suficiente para ser abarcado por um único cérebro. Em
linhas gerais, foi assim até, aproximadamente, meados do século XVIII, quando a
época dos polímatas chegou definitivamente ao fim. Como vimos, São Tomás de
Aquino aderiu a esse uso da palavra filosofia, com a exceção da doutrina
sagrada, que era uma ciência à parte. Todas as outras eram “disciplinas
filosóficas”. É interessante notar que São Tomás não tentou atribuir à primeira
qualquer outra prerrogativa além da dignidade supramundana, nem lhe conferiu
qualquer autoridade sobre a segunda [manteve a autonomia das duas realidades ou
universos possíveis].
Ao analisarmos esses
sistemas abrangentes da ciência, não podemos ignorar uma descoberta da maior
importância para o problema em questão. Nem Aristóteles, nem nenhum dos
polímatas posteriores, conseguiu unificar, ou sequer tentou unificar, os vários
ramos de seu ensinamento e, em particular, afirmar em cada um deles suas visões
sobre as “causas últimas”, o “significado último” das coisas e afins. As
teorias físicas de Aristóteles, por exemplo, são inteiramente independentes de
suas visões sobre esses “fundamentos” e poderiam, no que diz respeito a estes,
muito bem ter sido diferentes do que foram. E isso é tão verdadeiro para sua
sociologia política (por exemplo, suas investigações sobre as constituições das
cidades-estados gregas) quanto para sua física. Da mesma forma, as visões de
Leibniz sobre o comércio exterior não têm absolutamente nada a ver com sua
visão fundamental do mundo físico e moral, e ele poderia, no que diz respeito a
estes, muito bem ter sido um defensor do livre comércio.
Portanto, é mais apropriado
falarmos de um conjunto de ciências do que de uma ciência universal. Essa
estrutura se desfez à medida que as exigências da divisão do trabalho se
impuseram... Há outro sentido para a palavra filosofia, no qual não se
questiona sua influência sobre a economia. Isso ocorre se a filosofia for
concebida como uma ciência, como qualquer outra, que formula certas perguntas,
utiliza certos materiais e produz certos resultados. Exemplos dos problemas que
surgem, se definirmos filosofia nesse sentido, seriam: o que se entende por
matéria, força, verdade, percepção sensorial e assim por diante. Essa concepção
de filosofia, que agrada a muitos que não são filósofos, torna a filosofia
completamente neutra em relação a qualquer proposição específica em qualquer
outra ciência. Ela se aproxima de tornar a filosofia sinônimo de epistemologia,
a teoria geral do conhecimento [como o fez Immanuel Kant].
Mas surge um problema muito
importante se definirmos filosofia como todos os sistemas de crenças teológicos
e não teológicos ("sistemas especulativos") referentes a verdades
últimas (realidades, causas), fins últimos (ou valores) e normas últimas. A
ética e a estética inserem-se nesses sistemas, não como ciências de certos
conjuntos de fenômenos (padrões de comportamento), que eles procuram descrever
(explicar), mas como códigos normativos que acarretam sanções extraempíricas.
Pode-se perguntar se a economia também não entra em jogo, no sentido de que a
‘filosofia’ de um escritor determina, ou é um dos fatores que determinam, sua
economia [como afirmam os marxistas].
Para preparar o terreno para
nossa resposta, mencionarei primeiro alguns casos ilustrativos da história de
outras ciências. Para qualquer pesquisador cuja filosofia inclua a crença
cristã, a pesquisa é uma pesquisa sobre as obras de Deus... Assim, Newton
expressou crenças cristãs em uma obra puramente científica... Leonhard Euler
(1707-1783) defendeu seu "método para encontrar curvas que possuem certas
propriedades extremas" com base no argumento de que o mundo é obra do
Criador perfeito e, portanto, deve ser passível de descrição em termos de
proposições de máximo e mínimo. James P. Joule (1818-1889), codescobridor do
princípio fundamental da termodinâmica moderna, o princípio do equivalente
mecânico do calor, argumentou que, na ausência da equivalência entre calor e
movimento, algo (energia) poderia se perder no universo físico, o que seria
contrário à dignidade de Deus.
Os dois últimos exemplos
poderiam até ser interpretados como prova da influência direta das crenças de
Euler e Joule sobre seu trabalho analítico. No entanto, ninguém duvida... (a)
que o trabalho científico dos autores mencionados não foi desviado de seu curso
por suas convicções teológicas; (b) que é compatível com quaisquer
posições filosóficas; e (c) que não faria sentido tentar explicar seus
métodos ou resultados por meio de suas posições filosóficas. Eles simplesmente
coordenaram seus métodos e resultados com sua fé cristã, assim como coordenavam
tudo o mais que faziam. Revestiram seu trabalho científico com uma roupagem
teológica. Mas, no que diz respeito ao conteúdo desta obra, essas vestes eram
removíveis [sem prejuízo para os conteúdos].
Sustento que a roupagem da
filosofia também é removível no caso da economia: a análise econômica nunca foi
moldada pelas opiniões filosóficas que os economistas porventura tivessem,
embora tenha sido frequentemente viciada por suas posições políticas. Mas essa
tese, tal como está... precisa ser esclarecida cuidadosamente, e o melhor
método para isso é declarar explicitamente o que isso não envolve.
Primeiro, não envolve
"cientificismo". Ou seja, não estou argumentando que, pelo fato de a
roupagem filosófica ou teológica ser removível das proposições pertencentes às
ciências físicas, ela também deva ser removível das proposições pertencentes às
ciências sociais. Nossos exemplos foram apresentados meramente para ilustrar o
que quero dizer ao afirmar que os credos teológicos ou filosóficos de um
pesquisador científico não precisam exercer qualquer influência definitiva
sobre seu trabalho analítico, mas não para fundamentar minha tese. No que diz
respeito a esses exemplos, permanece em aberto se isso também se aplica às
ciências da ação humana.
Segundo, minha tese não
implica, obviamente, que a própria ação humana e os processos psíquicos a ela
associados — motivos ou métodos de raciocínio, sejam políticos, econômicos ou
de qualquer outra natureza — não sejam influenciados ou correlacionados com
convicções filosóficas, religiosas ou éticas. Acontece que faz parte da própria
psicologia social sustentar que essa correlação está longe de ser perfeita — um
barão ladrão [milionários americanos do século XIX e XX] pode professar
sinceramente um credo de mansidão e altruísmo [vários deles foram personagens
proeminentes em suas igrejas] —, mas isso é uma questão completamente
diferente. Estamos agora preocupados com as proposições das ciências do
comportamento humano sobre esse comportamento humano e não questionamos que
elementos religiosos ou filosóficos devam, de fato, entrar em qualquer
explicação desse comportamento sempre que visem à completude ou ao realismo. E
isso também se aplica à “política” do economista científico e a qualquer
conselho ou recomendação que ele possa oferecer com o objetivo de influenciar
“políticas”. Tudo o que nossa tese implica é que isso, ainda que exista, não se
aplica às suas ferramentas e “teoremas” analíticos.
Terceiro, minha tese não
envolve o recurso a considerações gerais sobre a autonomia lógica da proposição
ou teorema econômico em relação à filosofia. Isso ainda seria compatível com a
influência desta última infiltrando-se nos procedimentos do trabalho analítico
de maneira logicamente ilegítima. De fato, seria plausível que proposições como
a de que as cidades frequentemente se desenvolveram a partir de pontos de
encontro de mercadores não carregassem qualquer conotação filosófica
particular; ou que proposições como a de que os testes de significância
ordinários são inúteis no caso de correlação entre séries temporais fossem
válidas tanto para o deísta quanto para o ateu; ou ainda que proposições como a
de que o aumento na taxa de remuneração de um fator de produção pode diminuir
sua oferta fossem compatíveis com qualquer filosofia e não impostas por
nenhuma. Mas não estou pedindo aos meus leitores que confiem em argumentos
desse tipo... No momento, não estou tentando estabelecer minha tese. Estou
apenas anunciando-a e explicando seu significado. A prova será apresentada adiante,
quando será demonstrado que mesmo economistas que possuíam visões filosóficas
muito definidas, como Locke, Hume, Quesnay e, sobretudo, Marx, na verdade não
foram influenciados por elas ao realizarem seus trabalhos de análise.
Notas
A fronteira das ciências
Ampliando o que já foi dito
sobre este ponto, quero salientar que todas as ciências históricas e ramos da
ciência que a especialização... produziu são, em certa medida, relevantes para
nós, mesmo quando não tratam de fatos especificamente econômicos. Por exemplo,
a civilização greco-romana é objeto de pesquisa de três grupos de estudiosos
claramente distintos: historiadores, filólogos e juristas. Todos os três lidam
com muitas coisas que não nos dizem respeito. Mas mesmo quando o fazem,
contribuem para o panorama cultural desse mundo que, em sua totalidade, não nos
é indiferente; e mesmo quando descrevem a história militar ou a história das
artes, utilizam as mesmas técnicas que empregam para descrever eventos e
instituições econômicas ou sociais, de modo que não há uma fronteira rígida na
qual se possa dizer que nosso interesse termine definitivamente.
Economia e ciência jurídica
A ciência ou ciências (em
nosso sentido) cujos objetos consistem no “direito” estatutário ou
consuetudinário, na prática jurídica e nas técnicas jurídicas são relevantes
para uma história da análise econômica, em primeiro lugar, porque, em
grande medida, os economistas foram juristas (ou, como preferimos dizer,
juristas) que aplicaram os hábitos da mente jurídica à análise dos fenômenos
econômicos. Por exemplo, os sistemas sociológico e econômico dos doutores
escolásticos do século XVI (a literatura de jure et justitia) não podem ser
compreendidos se não percebermos que eram, primordialmente, tratados sobre o
direito político e econômico da Igreja Católica e que sua técnica derivava, em
primeiro lugar, do antigo direito romano, adaptado às condições da época. Em
segundo lugar, o arcabouço jurídico do processo econômico e a influência
que um exerce sobre o outro são de considerável importância para a análise
econômica. Em terceiro lugar, as raízes históricas do conceito de
“direito econômico” encontram-se no conceito puramente jurídico de “direito
natural”. Em quarto lugar, certos economistas do século XIX afirmavam
ter se inspirado, para uma visão histórica do processo econômico, em uma escola
de jurisprudência que se autodenominava "escola histórica", cuja
origem e posição devem ser compreendidas de forma mais completa do que os
economistas costumam fazer, se quisermos distinguir os elementos de verdade e
erro nessa visão. Aproveito a oportunidade para acrescentar que a análise
sociológica do direito como fenômeno social é uma coisa; que o estudo das
técnicas da prática jurídica — o tipo de coisa que se ensina nas faculdades de
direito americanas — é outra bem diferente; e que a jurisprudência histórica é
outra coisa ainda: portanto, devemos distinguir pelo menos três
"ciências" diferentes do direito, que diferem em material,
ferramentas e objetivos, e são cultivadas (embora haja sobreposições) por
diferentes grupos de pesquisadores, e o mesmo ocorre nos campos da religião, da
ética e da estética. Nessas circunstâncias, a confusão torna-se quase
desculpável, e grandes batalhas sobre princípios e "métodos" têm sido
travadas em questões (por exemplo, nas ciências da arte) que se esclarecem
automaticamente assim que se percebe que os participantes visam objetivos
diferentes.
O conceito de sistema
Fique o leitor advertido que
o termo Sistema — que, na verdade, não possui um significado mais definido do
que seu protótipo grego — é usado neste livro em uma variedade de sentidos
diferentes que não devem ser confundidos, por exemplo: um conjunto de princípios
de ação política mais ou menos coordenados (por exemplo, sistema liberal,
sistema de livre comércio); um corpo organizado de doutrina (por exemplo, o
sistema escolástico, o sistema de Marshall); um conjunto de quantidades entre
as quais se presume a existência de certas relações (por exemplo, sistema de
preços); um conjunto de equações que expressam tais relações (por exemplo, o
sistema walrasiano).
O conceito de materialismo
Isso também se aplica ao
materialismo em seu sentido técnico-filosófico, ou seja, à doutrina que não
mudou desde os tempos de Leucipo e Demócrito até hoje, e sustenta que a
‘matéria’ é a realidade última e existe independentemente da experiência. Aproveito
a oportunidade oferecida pela necessidade de um exemplo ilustrativo do texto
acima para deixar claro ao leitor que a palavra ‘materialismo’ significa muitas
coisas que nada têm a ver com o significado técnico que acabei de definir. A
filosofia ‘idealista’, que se baseia na proposição (igualmente desprovida de
significado para mim pessoalmente) de que, em última análise, a realidade (ou o
‘mundo’) é ‘espírito’, teria servido igualmente bem a ambos os propósitos:
teria fornecido um exemplo de filosofia no sentido em que levanta um problema
de influência sobre a economia; e teria servido como outro exemplo de uma
palavra com muitos significados, comumente confundidos.
[traduzido de History of Economic Analysis]
ECONOMIA E SOCIOLOGIA
... Ao escrever história
econômica, há afirmações que não deveriam ser acrescentadas a menos que
devidamente fundamentadas por argumentos próprios da teoria econômica: um
exemplo disso é a afirmação que vincula o grande desenvolvimento econômico da
Inglaterra, da década de 1840 até o final do século XIX, à revogação das Leis
do Milho e de praticamente todos os outros tipos de protecionismo. Os esquemas
da teoria econômica derivam da história econômica dos arcabouços institucionais
nos quais devem funcionar, sendo que somente ela pode nos dizer que tipo de
sociedade existia, ou existe, à qual os esquemas teóricos devem se aplicar.
Contudo, não é apenas a
história econômica que presta esse serviço à teoria econômica. É fácil perceber
que, ao introduzirmos a instituição da propriedade privada, do livre contrato
ou de uma maior ou menor regulamentação governamental, estamos introduzindo
fatos sociais que não são simplesmente história econômica, mas sim uma espécie
de história econômica generalizada, tipificada ou estilizada. E isso se aplica
ainda mais às formas gerais de comportamento humano que assumimos, seja em
geral ou para certas situações sociais. Todo livro didático de economia que não
se limite ao ensino de técnicas no sentido mais restrito do termo, deve ter uma
introdução institucional que pertence à sociologia, e não à história econômica
propriamente dita.
Inspirando-nos na prática
alemã, consideraremos útil, portanto, introduzir um quarto campo fundamental
para complementar os outros três, embora o trabalho positivo neste campo também
nos leve além da mera análise econômica: o campo que chamaremos de Sociologia
Econômica (Wirtschaftssoziologie). Para usar uma expressão feliz: a análise
econômica lida com as questões de como as pessoas se comportam em qualquer
momento e quais os efeitos econômicos que produzem ao se comportarem dessa
maneira; a sociologia econômica lida com a questão de como elas chegaram a se
comportar da maneira como se comportam.
Se definirmos comportamento
humano de forma suficientemente ampla para incluir não apenas ações, motivos e
propensões, mas também as instituições sociais relevantes para o comportamento
econômico, como governo, herança de propriedade, contratos e assim por diante,
essa definição nos diz tudo o que precisamos...
Sociologia e Economia
Após o dito no
capítulo anterior sobre a importância fundamental da história — e de todas as
ciências e ramos da ciência que este termo abrange... é evidente que não
podemos nos dar ao luxo... de negligenciar os desenvolvimentos da sociologia.
Usaremos este termo no sentido estrito em que denota uma única ciência, embora
longe de ser homogênea, a saber, a análise geral de fenômenos sociais como
sociedade, grupo, classe, relações de grupo, liderança e similares. E usaremos
o termo neste sentido ao longo de todo o texto para desenvolvimentos que
antecedem em séculos a introdução da palavra. Em um sentido mais amplo, a totalidade
de muitas áreas de ciências sociais sobrepostas e
descoordenadas — termo que preferimos e que inclui, entre outras coisas, nossa
própria economia, jurisprudência, hierologia, “ciência política”, ecologia e
ética e estética descritivas (no sentido da sociologia dos padrões de
comportamento moral e da arte)...
A proximidade de algumas
dessas relações foi reconhecida pela criação do "campo fundamental"
da Sociologia Econômica, no qual nem economistas nem sociólogos conseguem ir
muito longe sem se depararem com conflitos. Mas isso não significa que a cooperação
entre os dois grupos tenha sido particularmente estreita ou fértil; ou que
qualquer um deles teria se dado melhor se tivesse havido mais cooperação.
Quanto ao primeiro ponto, trata-se do fato de que, desde o século XVIII, ambos
os grupos têm se distanciado progressivamente, até que hoje o economista e o
sociólogo mais tradicionais pouco sabem e se importam com o trabalho um do
outro, preferindo usar, respectivamente, uma sociologia e uma economia
primitivas a aceitar os resultados profissionais um do outro — uma situação que
não foi e não é melhorada pela vituperação mútua.
Já no segundo ponto, não
é de forma alguma certo que uma cooperação mais estreita, tão frequentemente
clamada por leigos que esperam grandes resultados da "fertilização
cruzada" com uma certeza inquestionável em relação à competência profissional,
teria sido uma bênção sem ressalvas. Pois certamente não teria trazido ganhos
líquidos, porque haveria alguma perda daquela eficiência que resulta da
especialização estrita. Isso vale até mesmo para a divisão da economia e da
sociologia (em sentido amplo) em departamentos que se desenvolveram no que são,
para todos os efeitos e propósitos, ciências semi-independentes. É
precisamente por isso que preferimos falar de ciências sociais em vez de
sociologia em sentido amplo. Como observou certa vez um eminente economista, a
fertilização cruzada pode facilmente resultar em esterilização cruzada. Isso
não afeta o que foi dito sobre a necessidade de acompanhar, ao menos de forma
fragmentária, os desenvolvimentos de todos os "campos vizinhos" neste
livro...
Lógica e psicologia
Estamos particularmente
interessados em lógica e psicologia. A primeira merece nossa atenção porque
os economistas deram uma contribuição considerável a ela, mas especialmente por
sua propensão a dogmatizar e a discutir sobre "método": os economistas
que apreciam esse passatempo tendem a ser influenciados pelos escritos dos
lógicos de sua época, que, portanto, embora mais aparentemente do que
realmente, exercem alguma influência, legítima ou não, sobre nosso trabalho. No
que diz respeito à psicologia, há a visão que surgiu primeiro no século XVIII
e, portanto, tem sido defendida intermitentemente, de que a economia, como
outras ciências sociais, lida com o comportamento humano.
A psicologia é realmente a
base a partir da qual qualquer ciência social deve partir e em termos da qual
toda explicação fundamental deve se basear. Essa visão, que foi defendida com a
mesma veemência com que foi atacada, denominaremos Psicologismo. Na verdade,
porém, os economistas nunca permitiram que suas análises fossem influenciadas
pelos psicólogos profissionais de sua época, mas sempre formularam para si
mesmos as suposições sobre processos psíquicos que consideraram convenientes.
Por um lado, notaremos esse fato ocasionalmente com surpresa, pois existem
problemas na análise econômica que poderiam ser atacados com vantagem por
métodos elaborados por psicólogos. Por outro lado, devemos evitar uma ilusão
muito comum. Se usarmos uma suposição cujo conteúdo parece pertencer a um campo
específico, isso não significa necessariamente que estamos invadindo esse
campo. Por exemplo, a chamada lei dos rendimentos decrescentes da terra
refere-se ao que poderia ser chamado de fato físico. Mas, como já foi apontado,
isso não significa que, ao formular essa suposição, estamos entrando no campo
da física. Da mesma forma, quando afirmo a suposição de que, à medida que como
pedaços sucessivos de pão, meu desejo por mais pedaços diminui, pode-se dizer
que estou afirmando um fato psíquico. Mas, ao fazer isso, não estou tomando
emprestado nada da psicologia profissional, seja bom ou ruim; estou
simplesmente formulando o que acredito ser um fato da experiência comum. Se nos
colocarmos nessa posição, descobriremos que há muito menos psicologia nas
proposições econômicas do que se poderia pensar à primeira vista.
Falar de leis psicológicas,
como a lei keynesiana da propensão a consumir, é um abuso flagrante, porque
essa prática sugere a justificativa de nossas suposições, que, na verdade, não
existem. No entanto, é necessário ocasionalmente observar os desenvolvimentos
no campo da psicologia profissional, e essa necessidade surge, embora com menos
frequência, também em relação a várias outras ciências. Por ora, limitemo-nos a
mencionar a biologia como exemplo. Existe, ou existiu, algo como o darwinismo
social e econômico. Se quisermos avaliar esse fenômeno, é importante
certificarmo-nos do que Charles Darwin realmente disse e dos métodos e
materiais que o levaram a dizê-lo.
[traduzido de History of Economic Analysis]
domingo, 22 de março de 2026
Ferramentas
da análise econômica
HISTÓRIA
Desses campos fundamentais,
a história econômica — que abrange e inclui os fatos contemporâneos — é de
longe o mais importante. Gostaria de afirmar desde já que, se ao iniciar meus
estudos em economia, me dissessem que eu poderia estudar apenas um dos três,
mas que teria a opção de escolher, eu escolheria a história econômica. E isso
por três motivos.
Primeiro, o objeto de estudo
da economia é essencialmente um processo único no tempo histórico. Ninguém pode
esperar compreender os fenômenos econômicos de qualquer época, incluindo a
atual, se não possui um domínio adequado dos fatos históricos e uma dose
adequada de senso histórico ou do que pode ser descrito como experiência
histórica [por exemplo, perceber que ações do passado não podem ser julgadas de
acordo com valores do presente].
Em segundo lugar, o relato
histórico não pode ser puramente econômico, antes deve inevitavelmente refletir
também fatos “institucionais” que não têm a ver diretamente com economia:
portanto, oferece o melhor método para entender como os fatos econômicos e não
econômicos se relacionam entre si e como as várias ciências sociais devem se
relacionar também.
Em terceiro lugar, acredito
que a maioria dos erros fundamentais atualmente cometidos na análise econômica
se deve à falta de experiência histórica, mais frequentemente do que a qualquer
outra deficiência do aparato do economista. A história deve, naturalmente, ser
entendida como incluindo campos que adquiriram nomes diferentes como
consequência da especialização, como relatos pré-históricos e etnologia
(antropologia).
Duas consequências
preocupantes do argumento acima devem ser observadas imediatamente. Primeiro,
visto que a história é uma fonte importante — embora não a única — do material
do economista e, além disso, visto que o próprio economista é um produto de seu
tempo e de todo o tempo que o precede, a análise econômica e seus resultados
são certamente afetados pela relatividade histórica, e a única questão é em que
medida. Nenhuma resposta válida para essa questão pode ser obtida filosofando
sobre o assunto, mas será uma de nossas principais preocupações elaborá-la por
meio de investigação detalhada... Segundo, temos que encarar o fato de que,
sendo a história econômica parte da economia, as técnicas do historiador são
passageiras no grande ônibus que chamamos de análise econômica... Portanto,
mesmo os economistas que não são historiadores econômicos e que apenas leem os
relatos históricos escritos por outros devem entender como esses relatos foram
elaborados, caso contrário, não serão capazes de avaliar o seu significado
real...
ESTATÍSTICA
......
TEORIA
O terceiro campo fundamental
é a ‘teoria’. Este termo carrega muitos significados, mas apenas dois deles são
relevantes para o nosso uso neste livro. O primeiro, e menos importante, torna
as teorias sinônimo de hipóteses explicativas. Tais hipóteses são,
naturalmente, ingredientes essenciais da historiografia e da estatística. Por
exemplo, mesmo o historiador mais rigorosamente factual, seja ele da área
econômica ou de outra, dificilmente conseguirá evitar formular uma hipótese ou
teoria explicativa, ou várias hipóteses ou teorias explicativas, sobre as
origens das cidades. O estatístico, por exemplo, precisa formular uma hipótese
ou teoria sobre a distribuição conjunta das variáveis estocásticas que
compõem seu problema. Tudo o que precisa ser dito a respeito disso é que é um
erro — bastante difundido — acreditar que a única ou principal tarefa do
teórico econômico consiste em formular tais hipóteses (alguns diriam: do nada).
A teoria econômica faz algo
completamente diferente. Ela não pode, de fato, assim como a física teórica,
prescindir de esquemas ou modelos simplificadores que visam retratar certos
aspectos da realidade e tomar algumas coisas como certas para estabelecer
outras de acordo com determinadas regras de procedimento. No que diz respeito
ao nosso argumento atual, as coisas (proposições) que tomamos como certas podem
ser chamadas indiscriminadamente de hipóteses, axiomas, postulados,
pressupostos ou mesmo princípios, e as coisas (proposições) que pensamos ter
estabelecido por meio de procedimentos admissíveis são chamadas de teoremas.
É claro que uma proposição
pode figurar em um argumento como um postulado e em outro como um teorema. Ora,
hipóteses desse tipo também são sugeridas por fatos — levando-se em conta as
observações feitas —, mas, em termos de lógica estrita, são criações arbitrárias
do analista. Elas diferem das hipóteses do primeiro tipo porque não incorporam
resultados finais de pesquisa que supostamente sejam interessantes por si só,
mas são meros instrumentos ou ferramentas formulados com o propósito de
estabelecer resultados interessantes.
Além disso, formular
hipóteses não é tudo o que o teórico econômico faz, assim como formular
hipóteses estatísticas não é tudo o que o teórico estatístico, ou qualquer
outro teórico, faz. Igualmente importante é a elaboração dos demais
instrumentos pelos quais os resultados podem ser extraídos das hipóteses —
todos os conceitos (como “taxa marginal de substituição”, “produtividade
marginal”, “multiplicador”, “acelerador”), as relações entre os conceitos e os
métodos para lidar com essas relações, não têm nada de hipotético. E é a soma
total desses instrumentos — incluindo as suposições estrategicamente úteis —
que constitui a teoria econômica. Na expressão insuperavelmente feliz da Sra.
Robinson, a teoria econômica é uma caixa de ferramentas.
A lógica dessa concepção da
teoria econômica é simples e a mesma que em todos os outros ramos da ciência. A
experiência nos ensina que os fenômenos de uma determinada classe — econômicos,
biológicos, mecânicos, elétricos e outros — são, de fato, ocorrências
individuais, cada uma das quais, à medida que ocorre, revela as suas
peculiaridades. Mas a experiência também nos ensina que essas ocorrências
individuais têm certas propriedades ou aspectos em comum e que uma enorme
economia de esforço mental pode ser alcançada se lidarmos com essas
propriedades ou aspectos, e com os problemas que eles suscitam, de uma vez por
todas.
Para alguns propósitos, é de
fato necessário analisar cada caso individual de precificação em um mercado
específico, cada caso de formação de renda, cada ciclo de negócios individual,
cada transação internacional e assim por diante. Mas mesmo quando isso é
necessário, descobrimos que estamos usando, em cada caso, conceitos que ocorrem
na análise de todos eles. Em seguida, descobrimos que todos os casos, ou pelo
menos grandes conjuntos de casos individuais, exibem características
semelhantes que, e cujas implicações, podem ser tratadas para todos eles em
conjunto por meio de esquemas gerais de precificação, formação de renda,
ciclos, transações internacionais e assim por diante. E, finalmente,
descobrimos que esses esquemas não são independentes uns dos outros, mas sim
relacionados, de modo que há vantagem em ascender a um nível ainda mais elevado
de “abstração generalizante”, sobre o qual construímos um instrumento, motor ou
organon composto de análise econômica — embora não o único, como vimos — que
funciona formalmente da mesma maneira, independentemente do problema econômico
ao qual nos voltemos.
A obra de Richard Cantillon
é a primeira em que a consciência dessa última verdade é claramente
discernível, embora os economistas tenham levado mais de um século para
perceber todas as suas possibilidades — Léon Walras foi, de fato, o primeiro a
fazê-lo.
... [Agora] será útil
inserir aqui algumas observações adicionais na esperança de que elas contribuam
para diminuir as possíveis barreiras entre mim e meus leitores.
Primeiramente, portanto, é
necessário acrescentar uma ressalva ao argumento precedente sobre a natureza e
as funções da teoria econômica. Esse argumento foi formulado em termos que são
aplicáveis, pelo menos substancialmente, a todas as ciências que possuem algum
aparato de análise universal. Mas há limites para esse paralelismo... A
economia não possui os benefícios que a física obtém com experimentos de
laboratório... mas, em vez disso, desfruta de uma fonte de informação negada à
física, a saber, o vasto conhecimento humano sobre os significados das ações
econômicas.
Essa fonte de informação
também é fonte de controvérsias que nos incomodarão repetidamente ao longo de
nossa jornada... quando falamos, por exemplo, de motivos que supostamente
impulsionam indivíduos ou grupos, nossa fonte de informação pode ser
grosseiramente identificada com o conhecimento de processos psíquicos,
conscientes ou inconscientes [como a hipótese do egoísmo movendo a economia]; que
seria absurdo não o utilizar, embora, como sempre enfatizei, isso não significa
invadir o campo da psicologia profissional... Há, no entanto, outra maneira de
interpretar nosso conhecimento de significados que é mais próxima da lógica.
Se eu afirmar, por exemplo,
que — sob certas condições — os ganhos instantâneos de uma empresa serão
maximizados na produção em que o custo marginal se iguala à receita marginal
(esta última igualando-se ao preço no caso de concorrência perfeita), pode-se
dizer que estou formulando a lógica da situação e um resultado que é
verdadeiro, assim como uma regra da lógica geral, independentemente de alguém
agir ou não em conformidade com ela. Isso significa que existe uma classe de
teoremas econômicos que são ideais ou normas lógicas (não, obviamente, éticas
ou políticas). E, evidentemente, diferem de outra classe de teoremas econômicos
que se baseiam diretamente em observações, por exemplo, em observações sobre
até que ponto as expectativas de oportunidades de emprego afetam os gastos dos
trabalhadores com bens de consumo ou como as variações salariais afetam a taxa
de casamento. Sem dúvida, seria possível assimilar ambos os tipos de teoria,
interpretando as normas lógicas também como generalizações "purificadoras"
de dados observacionais, inclusive de observações armazenadas
subconscientemente pela experiência comum. No geral, porém, parece melhor não
fazê-lo [tomar cuidado com as projeções pessoais e com o excesso de
generalizações ou conexões entre as partes observadas].
Em segundo lugar, a
explicação anterior pode ter contribuído para me exonerar da suspeita de estar
contaminado pelo cientificismo. Este termo foi introduzido pelo Professor von
Hayek para denotar a cópia acrítica dos métodos da física matemática, na crença
igualmente acrítica de que esses métodos têm aplicação universal e constituem o
exemplo inigualável a ser seguido por toda a atividade científica. Esta
história, em sua totalidade, responderá à questão se realmente houve tal cópia
acrítica de métodos que só têm significado dentro dos padrões particulares das
ciências que os desenvolveram... Quanto à questão de princípio, não pode haver
a menor dúvida de que Hayek está certo — e o mesmo se aplica a todos os que o
precederam no século XIX ao proferirem protestos semelhantes aos seus — ao
afirmar que a apropriação, por economistas, de qualquer método com base
unicamente no fato de ter sido bem-sucedido em outro lugar é inadmissível...
Infelizmente, essa não é a questão principal.
Precisamos perguntar o que
constitui "empréstimo" antes de podermos questionar o que constitui
empréstimo ilegítimo. E aqui devemos ter cuidado com uma ilusão de ótica
semelhante àquela que torna os marxistas tão relutantes em usar termos como preço,
custo, dinheiro, valor dos serviços da terra ou mesmo juros ao falar de uma
futura ordem socialista: esses termos denotam conceitos de lógica econômica
geral e parecem aos marxistas estar contaminados com um significado capitalista
apenas porque também são usados na sociedade capitalista. De forma
semelhante, os conceitos e procedimentos da matemática “superior” foram de fato
desenvolvidos inicialmente em conexão com os problemas da física, mas isso não
significa que haja algo especificamente “fisicalista” nesse tipo de linguagem.
Mas isso também se aplica a
alguns “conceitos gerais da física, como potencial de equilíbrio ou oscilador,
ou estática e dinâmica, que surgem espontaneamente na análise econômica, assim
como os sistemas de equações: o que tomamos emprestado quando usamos, por
exemplo, o conceito de ‘oscilador’ é uma palavra e nada mais”. Duas
circunstâncias, no entanto, combinam-se para reforçar essa ilusão de ótica. Por
um lado, físicos e matemáticos, ao se depararem com esses conceitos gerais que
nos ocorreram apenas mais tarde, não apenas os batizaram, mas também
desenvolveram sua lógica. Enquanto essa lógica não introduzir nada de
“fisicalista” [na análise econômica], seria um desperdício não utilizá-la. Por
outro lado, os alunos às vezes entendem uma analogia física mais facilmente do
que a economia do caso a ser apresentado. Portanto, tais analogias são
frequentemente usadas no ensino.
Portanto, parece que as coisas
de que somos acusados de tomar emprestado são meramente reflexos do fato de
que todos nós, físicos ou economistas, temos apenas um tipo de cérebro para
trabalhar e que esse cérebro age de maneiras que são, em certa medida,
semelhantes, independentemente da tarefa a ser executada... Isso não envolve
quaisquer erros mecanicistas, deterministas ou outros erros relacionados ao
sufixo “-ista”, nem qualquer negligência da verdade a “explicar” significa algo
diferente nas ciências naturais e nas ciências sociais [todas, sem exceção,
negligenciam algum aspecto da realidade], nem, finalmente, qualquer negação das
implicações do caráter histórico de nossa área de estudo.
Terceiro, se a teoria
econômica é algo tão simples e inofensivo quanto descrevi, o leitor pode se
perguntar de onde vem a hostilidade que a acompanha desde que se destacou [o
historiador e filósofo escocês Thomas Carlyle, sec. XIX, a chamou de “ciência
sombria”]... até os dias de hoje. Vou
simplesmente listar os principais pontos para uma resposta que nossa história
comprovará amplamente:
1- Em todos os momentos,
inclusive no presente, considerando as necessidades de cada período (e não o
estado da teoria, evitando julgar o estado da teoria em um dado momento
pelos padrões de uma época posterior), o desempenho da teoria econômica tem
ficado abaixo das expectativas razoáveis e sujeito a críticas válidas.
2 - Embora o desempenho da
teoria econômica nunca tenha atingido o nível esperado, ou seja, nunca tenha
sido o que poderia ter sido, ele também estava além da compreensão da maioria
dos interessados, que não conseguiam entendê-lo e se ressentiam de qualquer tentativa
de refinamento analítico.
3 - Vamos distinguir cuidadosamente os dois elementos que contribuem para esse ressentimento. Por um lado, sempre houve muitos economistas que lamentavam a perda de toda aquela massa de fatos que, de fato, se perde em qualquer processo que envolva abstração... o que é frequentemente bastante justificado. Por outro lado, porém, existem mentes pouco teóricas que são incapazes de ver qualquer utilidade em algo que não se relacione diretamente com problemas práticos... que carecem da cultura científica necessária para apreciar o refinamento analítico... Isso explica o fato de que as críticas à teoria econômica partiram tanto de pessoas que estavam acima quanto de pessoas que estavam abaixo do nível da teoria econômica de sua época.
4 - A hostilidade que emanava
dessas fontes era frequentemente reforçada pela hostilidade às alianças
políticas que a maioria dos teóricos persistia em formar. O exemplo clássico
disso é a aliança da teoria econômica com o liberalismo político do século XIX.
Como veremos, essa aliança teve o efeito de transformar, por um tempo, a
derrota do liberalismo político em uma derrota da teoria econômica. E, naquela
época, muitas pessoas detestavam a teoria econômica porque a consideravam
apenas um artifício para reforçar um programa político do qual discordavam.
Essa visão era ainda mais fácil de aceitar porque os próprios teóricos
econômicos compartilhavam desse erro e faziam todo o possível para utilizar seu
aparato analítico a serviço de sua crença política liberal. Nesse e em muitos
casos análogos, dos quais a teoria econômica moderna é outro exemplo
deplorável, os economistas cederam à sua forte propensão a se envolverem na
política, a venderem receitas políticas, a se apresentarem como filósofos da
vida econômica e, ao fazê-lo, negligenciaram o dever de explicitar os juízos de
valor que introduziam em seu raciocínio [O autor trata aqui da intensa
politização do debate econômico no período que antecedeu a Guerra Fria].
Nota
A precariedade ou
relatividade do nosso conhecimento
Este é um dos vários
significados da palavra relatividade. Aqui, queremos dizer com ela nada
mais do que (a) que não podemos usar mais material do que temos e que, em
consequência, alguns ou todos os nossos resultados podem não se sustentar à luz
de experiências futuras (um fato que deve, obviamente, ser devidamente
considerado na interpretação dos economistas do passado); e (b) que os
interesses dos economistas nos problemas de sua época, bem como suas atitudes
em relação a esses problemas, condicionam suas visões gerais sobre os fenômenos
econômicos.