domingo, 26 de julho de 2026

 



OS PROFETAS DO SOCIALISMO

O artigo ‘Socialism’ da The Concise Encyclopedia of Economics, editada por David Handerson em 1993, logo após a queda da União Soviética, traz uma elucidativa abordagem feita por um artigo de Robert Heilbronner, um economista americano, que por um bom tempo militou nas fileiras do socialismo, e que, naquele momento, como toda pessoa inteligente, dava o braço para ser torcido pelos fatos, enquanto explicava com muito didatismo a natureza desses mesmos fatos. Quem quiser ver o texto em inglês, o endereço é (https://www.econlib.org/library/Enc/Socialism.html).

Segue a sua tradução.

“O socialismo — definido como uma economia planificada centralmente, na qual o governo controla todos os meios de produção — foi o fracasso trágico do século XX. Nascido do compromisso de remediar os defeitos econômicos e morais do CAPITALISMO, ele superou em muito o capitalismo tanto em disfuncionalidade econômica quanto em crueldade moral. Contudo, a ideia e o ideal do socialismo persistem. Se o socialismo, de alguma forma, retornará eventualmente como uma grande força organizadora nos assuntos humanos é incerto, mas ninguém pode avaliar com precisão suas perspectivas sem considerar a dramática história de sua ascensão e queda.

O Nascimento do Planejamento Socialista. Costuma-se pensar que a ideia de socialismo deriva da obra de KARL MARX. Na verdade, Marx escreveu apenas algumas páginas sobre o socialismo, seja como um projeto moral ou prático para a sociedade. O verdadeiro arquiteto de uma ordem socialista foi Lenin, que primeiro enfrentou as dificuldades práticas de organizar um sistema econômico sem os incentivos da busca pelo lucro ou as restrições autogeradoras da COMPETIÇÃO.

Lenin partiu da antiga ilusão de que a organização econômica se tornaria menos complexa uma vez descartado o lucro e o mecanismo de mercado — “tão evidente”, escreveu ele, quanto “as operações extraordinariamente simples de observar, registrar e emitir recibos, ao alcance de qualquer pessoa que saiba ler e escrever e conheça as quatro regras básicas da aritmética”. Na verdade, a vida econômica conduzida sob essas quatro regras básicas tornou-se tão desorganizada que, quatro anos após a revolução de 1917, a produção soviética havia caído para 14% do seu nível pré-revolucionário.

Em 1921, Lenin foi forçado a instituir a Nova Política Econômica (NEP), um retorno parcial aos incentivos de mercado do capitalismo. Essa breve mistura de socialismo e capitalismo chegou ao fim em 1927, após Stalin instituir o processo de coletivização forçada que visava mobilizar os recursos russos para o seu salto rumo ao poder industrial. O sistema que se desenvolveu sob Stalin e seus sucessores assumiu a forma de uma pirâmide de comando. Em seu ápice estava o Gosplan, a mais alta agência estatal de planejamento, que estabelecia diretrizes gerais para a economia, como a meta de crescimento e a alocação de esforços entre a produção militar e civil, entre a indústria pesada e a leve, e entre as diversas regiões. O Gosplan transmitia as diretrizes gerais aos sucessivos ministérios de planejamento industrial e regional, cujos consultores técnicos desdobravam o plano nacional em diretrizes específicas para fábricas, polos industriais, fazendas coletivas e assim por diante.

Esses milhares de subplanos individuais eram finalmente analisados ​​pelos gerentes de fábrica e engenheiros que, eventualmente, teriam que implementá-los. Em seguida, o plano de produção subia novamente a pirâmide, juntamente com as sugestões, emendas e solicitações daqueles que o haviam analisado. Por fim, um plano completo era alcançado por meio de negociação, votado pelo Soviete Supremo e transformado em lei. Assim, o plano final assemelhava-se a um imenso livro de encomendas, especificando os componentes, as vigas de aço, a produção de grãos, os tratores, o algodão, o papelão e o carvão que, em sua totalidade, constituíam a produção nacional. Em teoria, uma carteira de encomendas desse tipo deveria permitir aos planejadores reconstituir uma economia funcional a cada ano — desde que, é claro, as porcas se encaixassem nos parafusos; as vigas tivessem as dimensões corretas; a produção de grãos fosse armazenada adequadamente; os tratores estivessem em condições de uso; e o algodão, o papelão e o carvão fossem dos tipos necessários para seus múltiplos usos. Mas havia um abismo vasto e crescente entre a teoria e a prática.

Surgem problemas. A lacuna não apareceu imediatamente. Em retrospectiva, vemos que a tarefa enfrentada por Lenin e Stalin nos primeiros anos não era tanto econômica, mas sim quase militar: mobilizar o campesinato para formar uma força de trabalho capaz de construir estradas e ferrovias, barragens e redes elétricas, complexos siderúrgicos e fábricas de tratores. Essa era uma tarefa formidável, mas muito menos formidável do que aquela que o socialismo enfrentaria cinquenta anos depois, quando a tarefa não era tanto criar empreendimentos enormes, mas sim empreendimentos relativamente autossuficientes, e integrar todos os resultados em um conjunto coerente.

Ao longo da década de 1960, a economia soviética continuou a apresentar um forte crescimento geral — aproximadamente o dobro do dos Estados Unidos [se mal pergunto, não é isso o que acontece com a China agora, em condição mais opaca ainda?] —, mas os observadores começaram a notar sinais de problemas iminentes. Um deles era a dificuldade de especificar os resultados em termos que maximizassem o bem-estar de todos na economia, e não apenas os bônus ganhos por gerentes de fábrica individuais por “superarem” suas metas estabelecidas. O problema era que o plano especificava os resultados em termos físicos. Uma das consequências foi que os gerentes passaram a maximizar a produção em metros ou toneladas, e não a qualidade. Uma famosa charge na revista satírica Krokodil mostrava um gerente de fábrica exibindo orgulhosamente sua produção recorde: um único prego gigantesco suspenso por um guindaste.

À medida que o fluxo econômico se tornava cada vez mais congestionado e obstruído, a produção passou a ser realizada em “explosões” no final de cada trimestre ou ano, quando todos os recursos eram utilizados para atingir metas preestabelecidas. O mesmo sistema rígido logo gerou expedidores, ou tolkachi, para organizar os envios aos gerentes sobrecarregados que precisavam de insumos não planejados — e, portanto, inacessíveis — para alcançar seus objetivos de produção. Pior ainda, sem o direito de comprar seus próprios suprimentos ou de contratar ou demitir seus próprios trabalhadores, as fábricas criaram oficinas de fabricação, depois centros de distribuição e, finalmente, suas próprias MORADIAS para os trabalhadores, a fim de manter o controle sobre seus pequenos territórios.

Não é surpreendente que esse sistema cada vez mais complexo tenha começado a gerar sérias disfunções por trás das estatísticas gerais de crescimento. Durante a década de 1960, a União Soviética tornou-se o primeiro país industrializado da história a sofrer uma queda prolongada na expectativa de vida média em tempos de paz, sintoma de sua desastrosa má alocação de recursos. Instalações de pesquisa militar podiam obter tudo o que precisavam, mas hospitais eram considerados de baixa prioridade [o general-presidente Medici, da ditadura brasileira, disse certa vez referindo-se ao Brasil: “o país está bem, mas o povo vai mal”; os extremos se complementam].

Na década de 1970, os números indicavam claramente uma desaceleração da produção geral. Na década de 1980, a União Soviética reconheceu oficialmente o fim iminente do crescimento que, na realidade, era um declínio não oficial. Em 1987, a primeira lei oficial incorporando a perestroika — reestruturação — entrou em vigor. O presidente Mikhail Gorbachev anunciou sua intenção de reformular a economia de cima a baixo, introduzindo o mercado, restabelecendo a propriedade privada e abrindo o sistema para o livre intercâmbio econômico com o Ocidente. Setenta anos de ascensão socialista haviam chegado ao fim.

Planejamento Socialista aos Olhos do Ocidente: A compreensão das dificuldades do planejamento central demorou a surgir. Em meados da década de 1930, enquanto o processo de industrialização russo estava disparando, poucos se manifestavam sobre seus problemas. Entre esses poucos estavam Ludwig von Mises, um economista de livre mercado eloquente e extremamente argumentativo, e Friedrich Hayek, de temperamento muito mais contemplativo, que receberia mais tarde o Prêmio Nobel por seu trabalho em teoria monetária. Juntos, Mises e Hayek lançaram um ataque à viabilidade do socialismo que, na época, parecia pouco convincente em sua argumentação sobre os problemas funcionais de uma economia planificada. Mises, em particular, argumentava que um sistema socialista era impossível porque não havia como os planejadores obterem a informação (ver INFORMAÇÃO E PREÇOS) — “produza isto, não aquilo” — necessária para uma economia coerente. Essa informação, enfatizava Hayek, emergia espontaneamente em um sistema de mercado a partir da subida e descida dos preços. Um sistema de planejamento estava fadado ao fracasso precisamente por lhe faltar tal mecanismo de sinalização [outra opção à desorganização do socialismo é a loucura de tentar mascarar o preço por meio de subsídios diretos, como faz o nosso infeliz governo com o preço dos combustíveis, e outros, só para ganhar a eleição].

O argumento de Mises-Hayek encontrou seu contra-argumento mais formidável em dois artigos brilhantes de Oskar Lange, um jovem economista que se tornaria o primeiro embaixador da Polônia nos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial. Lange propôs-se a demonstrar que os planejadores, na verdade, teriam exatamente as mesmas informações que guiariam uma economia de mercado. Essas informações seriam reveladas à medida que os estoques de mercadorias aumentassem e diminuíssem, sinalizando que a OFERTA era maior que a DEMANDA ou que a demanda era maior que a oferta. Assim, enquanto os planejadores observavam os níveis de estoque, eles também aprendiam quais dos preços administrados (isto é, ditados pelo Estado) estavam muito altos e quais muito baixos. Restava, portanto, apenas ajustar os preços para que a oferta e a demanda se equilibrassem, exatamente como no mercado.

A resposta de Lange era tão simples e clara que muitos acreditaram que o argumento de Mises-Hayek havia sido demolido. Na verdade, agora sabemos que o argumento deles era muito profético. Ironicamente, porém, Mises e Hayek estavam certos por uma razão que não previram com a mesma clareza que o próprio Lange. “O verdadeiro perigo do socialismo”, escreveu Lange, em itálico, “é o da burocratização da vida econômica.” Mas ele diluiu a força da observação ao acrescentar, sem itálico: “Infelizmente, não vemos como o mesmo perigo, ou mesmo um perigo maior, possa ser evitado sob o capitalismo monopolista” (Lange e Taylor 1938, pp. 109–110) [embora, no capitalismo, apenas a empresa vá à falência e não todo o país, se um dia o capitalismo monopolista se tornar uma realidade, e não a fantasia, como é hoje].

Os efeitos da “burocratização da vida econômica” são dramaticamente relatados em O Ponto de Virada, um ataque mordaz às realidades do planejamento econômico socialista feito por dois economistas soviéticos, Nikolai Smelev e Vladimir Popov, que apresenta exemplos do processo de planejamento em funcionamento. Em 1982, para estimular a produção de luvas a partir de peles de toupeira, o governo soviético aumentou o preço que estava disposto a pagar por peles de toupeira de vinte para cinquenta copeques [subunidade da moeda russa] por pele. Smelev e Popov observaram: as compras estatais aumentaram e agora todos os centros de distribuição estão cheios dessas peles. A indústria não consegue utilizá-las todas e, muitas vezes, elas apodrecem nos armazéns antes de serem processadas. O Ministério da Indústria Leve já solicitou duas vezes ao Goskomtsen [Comitê Estatal de Preços] a redução dos preços, mas “a questão ainda não foi decidida”. Isso não é surpreendente. Seus membros estão ocupados demais para decidir. Não têm tempo: além de definir os preços dessas peles, precisam acompanhar outros 24 milhões de preços. E como podem saber quanto reduzir o preço hoje para não terem que aumentá-lo amanhã? Essa história diz muito sobre o problema de um sistema de planejamento centralizado.

O elemento crucial que falta não é tanto a “informação”, como argumentaram Mises e Hayek, mas sim a motivação para agir com base na informação. Afinal, os estoques de peles de toupeira indicaram aos planejadores que sua produção estava, a princípio, muito baixa e, depois, muito alta. O que faltava era a disposição — ou melhor, a necessidade — de responder aos sinais da variação dos estoques. Uma empresa capitalista responde às mudanças de preços porque a omissão dessa resposta acarretaria prejuízos. Um ministério socialista ignora as mudanças nos estoques porque os burocratas aprendem que fazer algo tem mais probabilidade de lhes causar problemas do que não fazer nada, a menos que a inação resulte em um desastre absoluto [como em Tchernobyl].

No final da década de 1980, um desastre econômico absoluto chegou à União Soviética e seus antigos satélites orientais, e esses países ainda estão tentando construir alguma forma de estrutura econômica que não apresente mais a inércia e a indiferença mortais que se tornaram as marcas registradas do socialismo. É cedo demais para prever se esses esforços serão bem-sucedidos. O principal obstáculo para uma verdadeira perestroika é a impossibilidade de criar um sistema de mercado funcional sem uma base sólida de propriedade privada, ainda mais quando a criação de tal base encontra uma ferrenha oposição na antiga burocracia estatal e a hostilidade das pessoas comuns, há muito são treinadas para desconfiar da busca pela riqueza.

Diante de tais incertezas, todas as previsões são temerárias, exceto uma: nenhuma transição rápida ou fácil do socialismo para alguma forma de não socialismo é possível. Transformações de tal magnitude são convulsões históricas, não meras mudanças de política. Sua conclusão deve ser medida em décadas ou gerações, não em anos.”


quinta-feira, 23 de julho de 2026


 ODISSEIA DE NOLAN: ENTRE A TESTOSTERONA DOMESTICADA E A VIOLÊNCIA GRATUITA

Eduardo Simões

(tem spoiler)

As pessoas normalmente não perguntam, talvez porque temam a resposta, por que o homem frequentemente age com tanta intensidade e ‘perde’ a cabeça, causando muitos momentos constrangedores e até tragédias? Entretanto, se observassem bem, sem negar a importância dos fatores hormonais, afinal sobram pesquisas evidenciando os efeitos estressantes de doses extras de testosterona no comportamento masculino e feminino, veriam que esses momentos estão bastante ligados a pessoas a quem foram sonegadas as chances de uma boa educação, um entorno ‘sadio’ além de pai e mãe modelares.

Que fique bem claro: o ideal de comportamento socialmente aceito, capaz de conter os arroubos hormonais em limites socialmente aceitáveis, deve conectar-se com o entorno da criança e do adolescente. Não se pode esperar um comportamento pacífico, racional, num meio social agressivo, estressado, ou numa família onde os cônjuges e parentes adultos próximos não sabem se conter, porque são psicológica e socialmente imaturos. Há uma complementaridade necessária entre a atuação dos hormônios e a educação da criança.

Antes que se busque apressadamente condenar os impulsos naturais desse hormônio, é bom considerar que o amor exacerbado pela aventura, pelo desafio e até a confrontação violenta, estão de mãos dadas com a paixão por alguém, com as 'loucuras' que os homens fizeram ou fazem para ficar próximos de quem amam, etc., pois tudo isso também tem a ver com testosterona. Os antigos sabiam disso, e já haviam colocado no seu panteão deusas que assumiam ao mesmo tempo a função de protetoras do amor e da fertilidade e a da guerra, tais foram: Inana, na Suméria, Astarté, na Fenícia, Freya entre os nórdicos, a Vênus dos romanos, etc. Os gregos engendraram uma solução genial: casaram Afrodite com Marte.

Era uma mistura de amor à família e à aventura que fazia os homens deixarem a segurança da fogueira de sua caverna para se aventurar em campo aberto, enfrentando gatos maiores do que os leões atuais com caninos de 30 cm. Só muito doido, muito apaixonado ou sob o efeito de alguma ‘droga’. E essa droga era a testosterona! Um coadjuvante poderoso na construção das civilizações nos quatro cantos do planeta, inclusive no fato de milhares de homens se enfiarem em frágeis embarcações para enfrentarem outros a 580 km dali, sem conhecerem bem os seus recursos militares.

Onde não há testosterona, decerto não há muita inteligência, a começar pela construção de um cavalo empinado, para enganar os troianos, colocado num local onde a maré alta o alcançava, quase afogando os seus moradores. Não perceberam aonde ia a linha de maré mesmo após terem morado por dez anos naquelas praias! Os cearenses diziam, fazendo graça: “é tão inteligente que é burro”. Mas sem isso se perderia uma oportunidade para suspense, inclusive quando, graças à única posição possível do cavalo, ‘deitado no chão’, os troianos começam a espetá-lo com espada, sem se lembrarem de arrombar a portinha na barriga que naquela posição ficava bem visível. Que dizer do amontoado desgraçado em que dezenas de homens ficariam, uns sobre os outros, no traseiro do cavalo, ou no seu reto! Tudo pelo suspense.

Outra patacoada é que, pela dimensão do cavalo e a postura do bicho, seria impossível passar pelas portas da muralha; e o bicho passou sem um arranhão e portas intactas!? E não podia ser diferente, pois se perderia o suspense gerado pela lenta abertura do travessão da porta pelos gregos, enquanto os troianos, alertados, vinham combatê-los em massa. Tudo pelo suspense.

Dentro da cidade, outra bizarrice muito politicamente correta. O povo se revolta fortemente contra o cavalo e quer que os governantes o rejeitem, afinal, o povo sempre tem razão, mesmo se considerarmos que em 1200 a.C. a ideia de povo era a mesma que a de ‘filhos’, e os filhos obedecem prontamente aos pais. De repente, estamos em pleno século XXI depois de Cristo, onde foi comprovada a sabedoria do povo em episódios como a Revolução Francesa, a Revolução Russa, a Revolução Cubana, o Khmer Vermelho, todas bem-sucedidas e prósperas.

Os gregos, como no original, saíram da barriga do cavalo, mas naquele cavalo havia um lugar por onde eles sairiam mais rápido e com menos sacrifício, só pela força da gravidade, embora com bem menos dignidade. Mas já que ninguém viu a portinha da barriga, eles até poderiam ter saído pelos olhos que não tiraria nem acrescentaria nada do filme.

No filme, a personagem de Hathaway comenta seu temor em relação aos ‘povos do mar’, algo formidável, pois esse termo, utilizado nesse contexto, só foi criado em 1855, pelo egiptólogo francês Emanuel Rougé. Que dizer da consciência de Ulisses de estar vivendo na ‘Idade do Bronze’, um conceito criado apenas em 1836, por Christian Tomsen? Isso é o que dá em utilizar erudição como penduricalhos em uma história malfeita.

Os lestrigões, assim como os ciclopes, eram primitivos, gigantescos e canibais, representavam forças antigas e instintivas que só sabiam se impor pela força. No filme, os lestrigões aparecem vestidos em armaduras renascentistas! Estavam milhares de anos à frente dos gregos. Tudo pelo suspense, pelo efeito visual e a violência gratuita.

Circe, no original, é uma mulher sedutora e perigosa. A ‘femme fatale’ dos franceses, um risco real aos navegantes incautos. Ela pode transformar o seu caminhãozinho de alguns numa Ferrari, para destruí-lo no momento seguinte, num momento de fúria, justificada ou não. Mas isso seria evocar antigas imagens de mulheres, mulheres reais, mas não politicamente corretas, e desviaria muito do objetivo central do filme: mostrar, por meio de toda aquela ‘jornada do herói’, a domesticação final de Ulisses, e assim Circe aparece como uma megera incapaz de suscitar sentimento que não seja piedade, aversão e medo. Ela é fatal; mas está na cara, e quem se mete com ela está solicitando um castigo, pois a mulher de verdade jamais mente ou seduz.

Ulisses, no original, é um personagem intenso, com a mente aguçada — da mesma forma que Aquiles na Ilíada — que, apesar de ter feito de tudo para não ir à guerra, depois que foi, adaptou-se bem e se tornou um dos combatentes mais insignes. O clima de perigo, guerra, companheirismo, novidades em terras estranhas aflorou de sua aventurosa evolução pessoal. Após a guerra em Tróia, ele, aparentemente, estava dividido entre voltar para a rotina do lar ou aproveitar a oportunidade para conhecer novas gentes e lugares, como se 10 anos de estresse e violência tivessem reacendido nele o desejo juvenil de experimentar o mundo. Até que ponto todos os obstáculos que aparecem para ele são reais, ainda que mitológicos, ou apenas representações mentais de sua dificuldade em tomar o caminho de casa, para a rotina? Talvez não o quisesse, pelo menos num primeiro momento.

Mas suponhamos, com o filme, que ele, traumatizado pela violência da guerra e os constantes perigos do mar, acabasse por perder a memória ou tomado de um tal medo das águas que resolvesse se estabelecer no primeiro lugar aprazível, com a companhia agradável que encontrasse. Já vimos que com a Circe de Nolan, ao contrário da original, ele não encontraria nem uma coisa nem outra, embora no original ele tenha um filho com ela, já com Calipso a coisa foi diferente. E como foi!

Segundo o original, ela o acolhe após um naufrágio e fica apaixonada por ele. Encantada com a sua inteligência e as suas histórias, cobre-o de agrados, esperando que ele fique como seu companheiro. Ulisses, que nada podia fazer, já que Netuno lhe impedia a partida, ficou e tornou-se pai de dois filhos de Calipso, mas sempre ansiando o retorno a Ítaca, enquanto ela tenta por todos os meios demovê-lo desses pensamentos. 

Em vão. Eu, sinceramente, nunca vi um casal mais burocrático, mais absurdo e sem sentido que o Ulisses e Calipso de Nolan. São absolutamente frios, comedidos. Ela, bela e com uma saia curta, andava pelas areias de uma praia paradisíaca e ele, que não sabia se um dia voltaria para casa, preocupado apenas em juntar madeira velha. Pareciam um casal de herdeiros de um casamento de conveniência ou membros de um reality show, só esperando aquilo acabar para irem para suas casas e seus respectivos cônjuges. Para que essa cena?

A impressão que passa é que o autor ficou muito temeroso de ser acusado e cancelado, por estimular os homens a pularem a cerca, traindo suas esposas, e por isso fez essa relação a mais asséptica possível. Nunca passaram de bons amigos — quiçá vitorianos. As belíssimas e mortais sereias, ao invés de aparecerem em toda a sua exuberância, justo para capturar os incautos, parecem extensões móveis dos aglomerados de rochas sombrias onde repousam, e Ulisses, ao ouvi-las, parece estar sentindo uma dor fora do comum. Se o canto da sereia produz tanto mal-estar, por que os homens querem se aproximar delas? Esse episódio também mostrou, de uma maneira insólita, o quanto Ulisses se arriscava por uma boa aventura ou um novo conhecimento. Às vezes, ele é ele mesmo.

Por fim, a mensagem final. Ulisses, sentado numa escadaria, fingindo-se veterano — é curioso que ninguém se lembre da voz dele — diz a Penélope que ficara chocado com a brutalidade da guerra de Troia e que essas histórias de invasões de ‘povos do mar’ tinham muito a ver com as incursões dos próprios gregos contra os outros povos, e de uma certa forma eles também eram responsáveis por essas instabilidades e notícias ruins, como, hoje em dia, os únicos culpados pelo que acontece no mundo são os homens brancos. Mesmo considerando que os gregos de Nolan não são tão brancos assim: perguntem a Helena de Menelau.

Afinal, aparece uma justificativa nova e verossímil para essas aventuras e para o fato de Ulisses ter ficado tanto tempo sem voltar para casa: Ulisses era um neurótico de guerra! E mais, ele entendeu definitivamente a  esterilidade da guerra, desse meio de fazer política e daí por diante seria, além de um negociador astuto, que ele já era, um convicto pacifista. Um mundo novo se abre… Ledo engano!

Na cena seguinte, ele tranca todos os pretendentes de Penélope no salão de festa e jantar do seu castelo e começa a massacrá-los, mesmo após ter dito que se contentaria em matar um só deles! Alguém bebeu ou comeu alguma coisa estragada nesse filme! Mas enquanto esse absurdo acontecia no salão de festa e jantar, um homem sozinho a enfrentar dezenas de outros — o número de pretendentes oscila em torno de 50 —, no andar de cima outro absurdo acontecia. Um mero servo doméstico do vilão enfrenta, de igual para igual, o filho de Ulisses. Um especialista em serviços caseiros encara com naturalidade e até perigo um jovem da nobreza militar treinado pelos melhores espadachins da época.

Depois disso, cheguei a temer que, de uma hora para outra, Ulisses começasse a dar golpes com a borda da mão, a fazer furos na parede com socos e dar pulos desmesurados, fazendo piruetas como naqueles filmes de kung fu classe B... menos. Para não falar daqueles gritinhos à la Bruce Lee: Iááááá! Iiiiiiiii! Grááá! Au! Au! Nada mais me espantaria, nem o fato de o homem que fez um pungente discurso pacifista contra a destruição de uma cidade, por causa do rapto de uma mulher, ser o mesmo que fez um horroroso banho de sangue no principal aposento público de seu castelo, por causa da insolência de uns poucos, e quiçá um só. Afinal, eles saquearam a sua despensa e os seus rebanhos, e desejaram casar com a sua mulher. Menelau não estava mais justificado?

Enfim, nada nesse filme faz sentido ou é percebido nesse filme, exceto o desejo do diretor em anunciar ao mundo o quanto é submisso à visão de uma parcela pequena e pouco culta de certos movimentos identitários. Nolan criou um herói masculino patético, desfibrado, contraditório, que dá as mais vis demonstrações de fraqueza, por não saber como estar numa posição de força. Matt Damon fica pequenino diante de Anne Hathaway em todos os sentidos. O Ulisses de Nolan abusa da violência gratuita para mostrar que ainda é relevante na história.

Para mim, a única coisa realmente criativa nesse filme foi  a coluna de vértebras colocada no penacho de Agamemnon, uma vez que nunca deveria estar ali nem foi criação de Christopher Nolan.


COLONIALISMO: AS IMPRECISÕES DA CASA DA HISTÓRIA EUROPEIA.

14 de maio de 2026

Élodie Messezant

[do site liberal francês contrepoints.org]

De 17 de abril de 2026 a 14 de março de 2027, a Casa da História Europeia apresenta a exposição temporária Pós-colonial, que explora “os efeitos duradouros que a colonização e seu fim tiveram na Europa nos últimos 70 anos”. A mostra reúne mais de 195 objetos e documentos históricos sobre o colonialismo, do século XII aos dias atuais, relatos pessoais e obras de arte. Para Constanze Itzel, diretora do museu, o objetivo é demonstrar a importância do legado colonial europeu, mas também “corrigir os desequilíbrios existentes nas narrativas sobre o passado do continente”.

A intenção é perfeitamente legítima: a história colonial, que suscita tanto debate, merece ser estudada. Mas, numa análise mais atenta, a exposição vai além da análise histórica: oferece uma interpretação altamente tendenciosa do passado europeu e dissemina inúmeras imprecisões, por exemplo, no que diz respeito às supostas ligações entre capitalismo e colonialismo. Incorre também numa simplificação excessiva quanto à exploração dos recursos naturais pelos regimes coloniais. Mais grave ainda, sugere claramente que o racismo estrutural ainda existe na Europa. Este viés ideológico levanta sérias questões, tendo em conta o financiamento europeu do museu.

Capitalismo e colonialismo

Pode-se ler, por exemplo, que “capitalismo e colonialismo andam de mãos dadas”, uma afirmação ilustrada pelo fato de que os impérios holandês e britânico se desenvolveram por meio de empresas privadas, “autorizadas a travar guerras em busca de lucro”. A ideia de que capitalismo e colonialismo estão ligados é, na verdade, uma tese clássica da tradição marxista, notavelmente retomada por Lenin em “Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo” (1917). No entanto, ela se baseia em uma confusão entre capitalismo liberal e capitalismo de compadrio [que acontecia, por exemplo, no mercantilismo]: o primeiro se baseia no livre comércio, o segundo no intervencionismo estatal. Contudo, o imperialismo está intrinsecamente ligado a uma vontade política de controlar o comércio. Já em 1776, o economista Adam Smith se opôs ao colonialismo por razões morais (violação do princípio da não agressão), mas também por razões econômicas, visto que o mercantilismo é antiliberal por natureza (monopólio da metrópole, somente as companhias privilegiadas eram autorizadas a comercializar, etc.).

Quanto à “busca pelo lucro”, o impacto econômico do colonialismo foi estudado por historiadores como Paul Bairoch e Jacques Marseille, e a realidade é muito mais complexa do que aparenta. Em *O Terceiro Mundo em Impasse* (1971), por exemplo, Paul Bairoch conclui que não houve “benefício macroeconômico real para os diversos países que possuíam um império colonial”. Para Jacques Marseille, é difícil elaborar uma avaliação econômica abrangente da colonização. Em * Império Colonial e Capitalismo Francês: História de um Divórcio * (1984), ele se concentra na Argélia e distingue dois períodos. No primeiro período (1880–1930), o mercado colonial contribuiu para os “setores que então impulsionavam o crescimento”, mas no segundo período (1930–1960), garantiu a sobrevivência artificial “desses setores agora em declínio” em detrimento do “surgimento de novos setores”. Jacques Marseille acredita que a rentabilidade não é fácil de determinar, uma vez que as exportações podem, num caso, representar um “custo adicional” e, noutro, “cobrir custos fixos”.

Exploração de recursos naturais

Outra ideia errada é a de que os regimes coloniais se enriqueceram “saqueando os recursos humanos e naturais de suas colônias”, como petróleo, urânio e cobre. Isso é verdade no caso do cobre: ​​sua exploração em territórios como Katanga, sob a colonização belga (através da Union Minière du Haut Katanga ), gerou lucros significativos para empresas e investidores europeus. Essas receitas contribuíram para a riqueza de grupos privados e, indiretamente, para as potências coloniais.

Em relação ao petróleo, é preciso fazer uma distinção importante. Em áreas como o Irã e o Iraque, as potências europeias (notadamente por meio da Companhia Anglo-Persa de Petróleo ) se beneficiaram de concessões extremamente favoráveis ​​desde o início do século XX, o que contribuiu para seu poderio energético e industrial. No entanto, tratava-se de um controle indireto (concessões) e não de exploração colonial clássica (soberania e administração territorial), e os estados produtores gradualmente retomaram o controle entre as décadas de 1950 e 1970 [aproveitando-se da estrutura herdada e da tecnologia gerada nos países europeus]. Quanto ao urânio, a afirmação não se sustenta: a exploração, por exemplo, no Níger, começou por volta da década de 1970 com empresas como a Areva, portanto, após a independência. Assim, é difícil apresentar esse recurso como um fator determinante do enriquecimento dos impérios coloniais, uma vez que estes já haviam desaparecido.

Diversos historiadores econômicos apontaram que a industrialização europeia dependia inicialmente de recursos domésticos, como o carvão. No início do século XX, o comércio europeu de carvão representava 80% das exportações globais (com o Reino Unido na liderança). Em *Mitos e Paradoxos da História Econômica * (1994), Paul Bairoch observou que, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, os países desenvolvidos eram 95% autossuficientes em matérias-primas.

Racismo estrutural na Europa?

Por fim, a exposição dá um passo além ao afirmar que as instituições europeias de hoje tratam os cidadãos de forma diferente com base em sua origem ou aparência física. Ela evoca um racismo estrutural presente na educação, no emprego, na habitação, na saúde e até mesmo na polícia, herdado diretamente do passado colonial. Por exemplo, afirma que o racismo está presente em todas as fases da vida social, “desde a mais tenra idade”, com “segregação” na educação, uma “disparidade salarial por motivos de raça” e desigualdades estruturais na saúde, na habitação, no policiamento e na política. O colonialismo e a escravidão assumiram outras formas: “Nem o colonialismo nem a escravidão simplesmente deixaram de existir. Pelo contrário, deram origem ao trabalho por contrato, ao neocolonialismo e a inúmeras desigualdades persistentes.”

Que a discriminação existe na Europa, como em outros lugares, é difícil negar. Mas falar em “racismo estrutural” exige demonstrar que as desigualdades observadas resultam principalmente do próprio funcionamento das instituições, independentemente de outras variáveis. Comecemos pelo direito: os Estados europeus contemporâneos baseiam-se em princípios de igualdade perante a lei, consagrados tanto ao nível nacional como europeu. Esses princípios são acompanhados por mecanismos eficazes de reparação. Portanto, não existem obstáculos legais, nem distinções, entre cidadãos com base em critérios racistas. Na realidade, as desigualdades que possam existir entre indivíduos na educação, no emprego ou nas condições de vida são em grande parte explicadas por fatores socioeconômicos (nível de escolaridade, capital cultural, dinâmica territorial, etc.). A tese da discriminação sistêmica, portanto, não deriva de uma abordagem científica, mas sim ativista. Além disso, é aceita no âmbito do movimento pós-moderno, que se caracteriza pela rejeição da ideia de verdade e objetividade: para os seus defensores, qualquer disparidade é considerada uma prova em si mesma, independentemente de qualquer relação causal [o que é uma loucura!].

Uma exposição financiada pelo contribuinte europeu.

Para além dos debates históricos que suscita, esta exposição levanta uma questão mais ampla: a utilização de fundos públicos europeus para promover uma visão particular da história e da identidade do continente. A questão não se centra, claramente, no estudo do colonialismo, nem no reconhecimento da história colonial da Europa — o que é essencial —, mas sim na oferta de uma interpretação unidimensional do presente. O Parlamento Europeu, que financia a Casa da História Europeia com 9 milhões de euros anualmente, participa, assim, na guerra cultural contra a Europa, à custa de todos os contribuintes.


quarta-feira, 22 de julho de 2026

 


O BRASIL DE JOELHOS

Eduardo Simões. 

Num debate recente no programa Em Pauta, da Globo News, Demétrio Magnoli, um dos poucos ali que sabe o que está dizendo, porque o diz com independência, não esperando aprovação do governo ou das redes, afirmou algo muito evidente: “Trump não quer negociar!” O que ele quer é a submissão, exceto, por certo, de Israel, o único aliado dos Estados Unidos trumpista, preferencial ou não.

De fato, o governo brasileiro e de outros países já negociaram e fizeram concessões, no nosso caso as razões técnicas estão sobejamente a nosso favor, afinal nós temos déficit comercial com os EUA, mas de nada adiantou e agora estamos de novo sob tarifas. Não há nenhum indício de busca de um acordo, mas somente de nossa rendição.

Também não sabemos se reagir vai nos dar vantagem, ninguém o sabe, nem a China, mas podemos, pelo menos, cair atirando ou vender caro a vitória, nem que seja para convencer Trump de que esse é um mau caminho, o que não deveria ser muito difícil a um governo que nos últimos meses não perdeu a oportunidade de cutucá-lo com provocações, sugerindo que ele é ora mentiroso ora pirata. Nesse sentido, Marco Rubio tem razão quando diz que Lula não negociou de boa-fé. Só sabemos que, no momento, estamos em desvantagem.

No início, antes das primeiras tarifas, Lula chegou a dizer num encontro com militantes ou numa inauguração, não tem diferença, que “se vier vai ter”, além de inúmeras outras afirmações desafiadoras. Como ele agora se coloca tão rápido de joelhos, após ameaçar retaliação? Por que não aproveita esse momento em que os EUA estão encalacrados no Oriente Médio, enfrentando uma brava resistência do Canadá, e um pouco da China, enquanto a produtividade interna cai e os preços aumentam em virtude da política tarifária, isso tudo às vésperas de uma eleição crucial?

O edifício trumpiano oscila e dá mostras de amplas rachaduras. A melhor hora, até o momento, de confrontá-lo é esta, mas infelizmente é preciso dar razão a Valdo Cruz e Marina Franceschini, que discordaram de Magnoli, repetindo literalmente os argumentos do governo. 

Sim, o governo brasileiro está certo, mas não pelas razões de Marina e Valdo, que ecoaram as do governo: os empresários não querem! Trump pode tarifar outros setores! Os setores tarifados atualmente são poucos e têm pouco peso nas exportações! Ou seja, são mais pobres, os de renda mais baixa. Um belo exemplo de coerência política aplicada às relações internacionais e ao discurso de 'eles', os ricos, contra 'nós', os pobres.

A reação a Trump deve fazer parte de uma política de estado, prevista ou resenhada no programa de governo, ou essa história de Brasil soberano é apenas efeito sonoro? E se está no programa e as condições pedem, o governo tem que aplicar, ou deve reconhecer que o Brasil é governado não por um projeto de estado, mas pelos interesses de uma classe, justo a mais rica. Apesar do 'T' da legenda. Trump, no momento, está tarifando apenas os setores que não lhe interessam. Teria ele coragem de tarifar setores que podem afetar a economia dos EUA e agravar os juros e a inflação lá? Não reagir é fazer o jogo do Trump.

Entretanto, não temos alternativa. Para nossa desgraça, isso acontece num ano eleitoral e todas as bravatas ditas até agora não passaram de jogo de cena eleitoral, assim como é verdade que o país não está só polarizado, mas profundamente dividido. Qualquer indício de pujança econômica é pura manipulação estatística ou cabala numérica, tão ridículo quanto o sapo que inchou, inchou, para ficar do tamanho de um boi e a única coisa que conseguiu foi estourar.

O nosso parco crescimento nesses últimos anos foi obtido a custas de anabolizantes fiscais, e o resultado já se faz sentir: juros nas alturas, inflação pressionada, empresas do varejo, mesmo as gigantes, pedindo concordata ou recuperação, enquanto o sistema financeiro dá graves sinais de corrupção sistêmica. O governo sabe que as finanças e a economia nacionais, graças às suas intervenções, se sustentam apenas por um fio. Qualquer empurrão e tudo vem abaixo, ainda mais se o empurrão for dado por alguém do porte dos EUA.

Que dizer da capacidade de união e mobilização de um governo que faz todo tipo de contorção com as palavras, a lógica, os fatos e a história para gerar factoides políticos ou parecer que disse algo inteligente para os seus adeptos. Para conseguir esse efeito, o jovial Lula apelou para a catastrófica e já pré-histórica tática do nós contra eles, os ricos contra os pobres, levando a uma intensidade nunca vista, não tanto à polarização, mas à divisão do país.

E assim, após ter quebrado a economia  e dividido psicologicamente a nação, como podemos de fato encarar um jogo onde vamos precisar de todos os recursos, de toda a unidade e uma resiliência que nós nunca tivemos, porque nunca tivemos um condutor que nos inspirasse ao mesmo tempo confiança e sabedoria, que, ao final, não foi apenas mais um que se locupletou com a nossa tradicional ignorância política.

Chegou a hora de ajoelhar-se, até colocar-se na condição de servo, para não dizer coisa pior, e o primeiro que o fez foi justo quem se elegeu dizendo que nos libertaria definitivamente de tudo isso.

 

 

TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 23

Sociologia Histórica.

Os escritores do século XVIII foram frequentemente culpados de falta de “senso histórico”, uma deficiência que, em alguns deles, deixou-os cegos aos valores das civilizações antigas… Se encontramos, em alguns casos, o mais tolo desprezo pela arte grega — Voltaire sendo colocado acima de Homero, por exemplo — encontramos também as origens de seu culto moderno. Se por vezes encontramos uma estupenda ausência de interesse pela história, encontramos também uma rica safra de trabalhos históricos sérios, que criaram as fundações para o seu desenvolvimento no século XIX.

Não podemos fazer mais do que listar cinco pontos essenciais: um bom começo foi dado com a coleta sistemática de materiais; novos métodos de interpretação e crítica de documentos foram elaborados; a história econômica e cultural começou a desviar parte da atenção anteriormente quase monopolizada pela história política e militar; o relato (dentro do possível) imparcial que apresenta evidências documentais começou a prevalecer sobre epopeias ou sermões (Hume, William Robertson, Gibbon) [até os marxistas trazerem de volta  a história ideológica de caráter moralizante como nos sermões]; e o despertar do interesse do público é atestado pelo sucesso de histórias populares universais e nacionais.

A História da Inglaterra de Hume (8 vols., 1763) não era desse tipo [história moralizante]. Embora irremediavelmente desatualizada hoje em dia, ela sempre será um marco da historiografia — pois mostra que ele não era escravo de seu utilitarismo. Ainda mais notável, do nosso ponto de vista, é o surgimento da Sociologia Histórica — por vezes chamada de Filosofia da História — isto é, de teorias sociológicas que, por um lado, utilizavam material histórico para chegar a generalizações e, por outro, visavam explicar estados e processos históricos específicos. A maior parte desse tipo de trabalho era diletante e de natureza repugnante para historiadores sérios. Parte dele era, além disso, anti-histórica no sentido já definido: os fatos históricos eram frequentemente distorcidos para se adequarem às ideias preconcebidas da razão. Não obstante, houve também trabalhos consideráveis ​​e até mesmo inovadores. A título de exemplo, posso mencionar Condorcet, Montesquieu e um dos maiores pensadores de todos os tempos no campo das ciências sociais: Vico.

 

Nota de Schumpeter

Até hoje, os historiadores não cessaram de pregar, de proferir elogios e críticas, e de expor seus orgulhos e ódios pessoais, sociais e nacionais. O que quero transmitir é que houve um progresso substancial na apresentação dos fatos em um espírito mais científico e no afastamento do épico. Ver Robert Flint, História da Filosofia da História (1893).

Vico era professor em Nápoles, professando ensinar “tudo o que é cognoscível” (tutto lo scibile). O fato de, entre outras coisas, ser advogado e sempre enfatizar os aspectos jurídicos (a história do direito era para ele a história da mente humana) é importante porque revela sua relação com os filósofos do direito natural. A única obra de Vico que precisa ser mencionada especificamente é Principii di una scienza nuova… (1725) [Princípios de uma nova ciência]... Sua Nova Ciência (scienza nuova) é melhor descrita pela frase “uma ciência evolutiva da mente e da sociedade”. Mas isso não deve ser interpretado como significando que a evolução da mente humana molda a evolução da sociedade humana; nem, embora isso estivesse mais próximo da verdade, que a evolução histórica das sociedades molda a evolução da mente humana; mas sim que mente e sociedade são dois aspectos do mesmo processo evolutivo. A razão, no sentido das operações racionais ou lógicas da mente humana, não é um fator causal nesse processo que Vico concebeu em um espírito completamente anti-intelectual. Tampouco a razão, no sentido de objetivos ou significados percebidos pela razão do observador, tem qualquer relação com isso: a teoria dos processos recorrentes (corsi e ricorsi) de Vico nega enfaticamente qualquer tendência a, e de fato a existência de, tais objetivos. Merece destaque especial a ênfase na influência dos ambientes geográficos, que pode ter origem em Tucídides e pode ter inspirado pesquisas antropogeográficas posteriores, como a de Vidal de la Blache. Nesse esquema, filosofia e sociologia haviam se tornado uma só — pensamento e ação formavam uma unidade — e essa unidade era essencialmente a histórica em sua natureza. E, afinal, embora as correntes comuns das águas do século XVIII não chegassem aos seus joelhos, Vico também era fruto do século XVIII.

 

O Esboço de Condorcet apresenta uma teoria definida da evolução histórica ou “progresso”: seu objetivo é a igualdade e sua força motriz é o conhecimento sempre crescente que a mente humana, indefinidamente perfectível, continua adquirindo. Isso, é claro, é uma sociologia muito pobre. Mas a obra é o exemplo notável de uma visão intransigentemente “intelectualista” do processo histórico. Em nítido contraste, o Espírito das Leis de Montesquieu, apesar da execução inadequada — especialmente inadequada quanto ao uso crítico do material — é sociologia séria. A principal virtude desta última obra, tanto em termos de método quanto de execução, é que ela concebeu os estados históricos das sociedades e suas mudanças à luz de uma série de fatores objetivos, que fornecem explicações realistas e, nesse sentido, teorias analíticas, mas não uma fórmula geral simples, e de forma alguma racionalista. Isso representou, de fato, uma nova abordagem e, metodologicamente, significou uma ruptura significativa com as ideias de lei natural: era sociologia baseada na observação real de padrões temporais e locais individuais, não meramente em propriedades gerais da natureza humana. Para os nossos propósitos, esta foi a conquista essencial de Montesquieu, prenunciada nesta abordagem do caso específico da Roma antiga. O seu sucesso, na época e posteriormente, deveu-se, naturalmente, ao apelo das suas teorias “constitucionais” — contrapeso dos poderes e outras semelhantes —, que não nos interessam.

Os Enciclopedistas.

Já tivemos a oportunidade de observar o aumento da demanda por dicionários ou enciclopédias durante o século XVII. Essa demanda, que aumentou ainda mais no século XVIII, foi atendida por empreendimentos cada vez mais ambiciosos (a Enciclopédia de Chambers, o Léxico Universal de Zedler e outros). Todos esses foram superados pela grande Enciclopédia Francesa (a partir de 1751), que, entre outras coisas, superou as demais obras pela quantidade e qualidade de seus artigos sobre temas econômicos... A Enciclopédia é a própria encarnação do espírito do século XVIII.

Nesse sentido, a obra em si é uma parte importante do contexto cultural... Como todas as enciclopédias de tal abrangência, esta continha artigos que diferiam amplamente não só em qualidade, mas também em ponto de vista. Os artigos de economia mencionados, por exemplo, foram escritos por autores tão distintos entre si quanto Quesnay e Forbonnais, enquanto a maior parte dos artigos — com especial atenção à física e à tecnologia — não deixava espaço para divergências de ponto de vista no sentido filosófico ou político. Contudo, a forte personalidade do editor-chefe, Diderot, conseguiu conferir alguma uniformidade ao que foi chamado de Torre de Babel por críticos hostis...

Além disso, não havia um programa definido. Em particular, não havia um programa revolucionário: esses intelectuais, sem dúvida, criticavam o regime de Luís XV e, ocasionalmente, apontavam suas peculiaridades; no geral, porém, estavam confortáveis ​​demais para ansiar por uma revolta violenta.

Alguns deles viram déspotas de sua época que se reformaram — e foram bem remunerados [o próprio Voltaire na corte de Frederico da Prússia]. Aqueles que viveram para testemunhar a revolução não ficaram muito satisfeitos com ela. Assim, embora permaneça verdade que a grande aventura francesa possa ser tomada como um símbolo de uma importante corrente de pensamento, sua importância para nós não é tão considerável quanto parecia aos seus inimigos contemporâneos, que garantiram seu sucesso combatendo-a. [No mais, ela destronou um rei para empossar um imperador e, em nome da liberdade, deu, nos próximos 80 anos, um grande alento a aventuras militares na França].

Há, contudo, um ponto que deve ser enfatizado: a relação entre o pensamento dos enciclopedistas e o dos filósofos do direito natural do século XVII. O ensinamento destes últimos foi muito bem recebido pelos primeiros. Os enciclopedistas nem sempre deram o devido crédito aos filósofos, mas não demonstraram hostilidade ao sistema do direito natural e, de fato, desenvolveram suas ideias. Isso não é surpreendente. Não derivava o direito natural, pela razão, da natureza humana e, portanto, a própria personificação de seu programa? E os Direitos Naturais dos filósofos eram, naturalmente, de seu agrado. A barreira religiosa [eles eram anticatólicos e até anticristãos] ocultava-lhes a verdadeira origem dessas ideias: não poderiam ter citado a afirmação de São Tomás de Aquino de que o direito natural era rationis regula [exatamente o que eles diziam, só que em outra língua]. Mas tal barreira não existia no caso dos filósofos, mesmo os que não eram católicos. Assim, os enciclopedistas, dentro e fora dos volumes da enciclopédia,  continuaram a usar o esquema analítico dos filósofos [ escolásticos, sem o saber!] e até mesmo seus argumentos mais duvidosos. A ordem natural de Quesnay seria reconhecível como um desdobramento da raiz da lei natural, mesmo que Quesnay nunca tivesse escrito seu artigo sobre o direito natural. O Abade Morellet, um fervoroso defensor do livre comércio, contentava-se em argumentar que, como o homem é naturalmente livre e isso implica que ele pode comprar e vender onde quiser, a proteção é condenada por violar a lei natural — um comentário muito interessante para a era da razão.

Os Escritores Semi-Socialistas.

Afirma-se que, na totalidade, os enciclopedistas não eram politicamente revolucionários. Tampouco eram socialistas. O igualitarismo da época — tanto normativo quanto analítico — sugeria as críticas às desigualdades, especialmente às grandes desigualdades de riqueza que encontramos em Helvétius e muitos outros autores. E as óbvias fragilidades das filosofias do direito natural sobre o direito natural à propriedade, expostas tanto na linha de Locke quanto na forma específica adotada pelos fisiocratas, suscitavam críticas que por vezes variavam de ataques a argumentos particulares em defesa da propriedade a ataques à própria propriedade. Mas, embora o historiador das ideias socialistas seja sem dúvida capaz de compilar uma longa lista de publicações socialistas, comunistas ou quase-comunistas que exerceram influência sobre o socialismo do século XIX, o historiador da análise econômica tem pouco a registrar de interesse: ele só pode concordar com a opinião de Karl Marx sobre essa literatura [eram devaneios utópicos].

Deve-se observar, contudo, que os escritores socialistas ou semissocialistas, ao argumentarem contra conclusões extraídas de premissas do direito natural por meio de métodos do direito natural, quase invariavelmente utilizavam essas mesmas premissas e métodos. Assim, exatamente como os defensores da razão combateram a escolástica, embora permanecessem seus discípulos no que diz respeito aos métodos e resultados da análise, os escritores socialistas ou semi-socialistas do século XVIII permaneceram filósofos do direito natural em seu modo de pensar: os conceitos de lei natural e de direitos naturais eram perfeitamente capazes de servir a objetivos práticos opostos, e poucos, ou nenhum, escritor cogitaram atacar o método que incorporavam.

J.J. Rousseau (1712–78), apesar de glorificar o estado natural da sociedade e a igualdade, dificilmente pode ser chamado de socialista. Mas também não pode ser chamado de economista. Seu artigo sobre economia política na Enciclopédia praticamente não contém economia. Seu ensaio sobre a origem da desigualdade (1755) não é um esforço sério para explicar o fenômeno. Em particular, apesar de algumas semelhanças superficiais na formulação, ele não era um fisiocrata nem um precursor dos fisiocratas. As ideias que ele concebia sobre assuntos econômicos, no entanto, exerceram considerável influência sobre o público. J.P. Brissot de Warville (1754–93) [foi] um político girondino executado em 1793...  A sua obra relevante para o nosso tema, as Recherches philosophiques sur le droit de propriété et sur le vol… (1780), é pura especulação sobre o direito natural, do tipo que fez com que críticos posteriores da sociologia e da economia do direito natural ignorassem suas importantes contribuições. A inexistência do direito à propriedade privada é o tema central. Brissot parece desconhecer praticamente todos os argumentos realistas e realmente prejudiciais que poderiam ser forjados contra essa ideia. A doutrina de que a propriedade é roubo, popularizada no século XIX por Proudhon, é o ponto central do livro. O Código da Natureza de Morelly (1755) é um programa de comunismo de Estado pleno de considerável mérito: apresenta, em detalhes minuciosos, soluções para os problemas práticos da estrutura e gestão de uma sociedade comunista, muitos dos quais aparecem, na maioria das vezes sem reconhecimento, na literatura socialista do século XIX e que refletem, em sua maioria, um senso sóbrio de “viabilidade”. A doutrina de que todos os desvios do comportamento normal que são considerados imorais são causados ​​pelas condições de vida na sociedade capitalista foi, até onde sei, enunciada pela primeira vez neste livro. Não podemos deixar de salientar que este livro também é pura filosofia da lei natural: comunismo estritamente controlado pelo estado é a forma idealmente prevista pela lei natural discernível pela razão.

Gabriel Bonnot de Mably (1709–85), embora não tenha sido comunista desde o início e, no fim, tenha se resignado a programas práticos que não iam além de reformas bastante banais, deve ser classificado como um comunista convicto. Sua única obra que pode ser mencionada aqui é Doutes proposés aux philosophes économistes sur l’ordre naturel et essentiel des sociétés politiques (1768). Esta obra contém um ataque elaborado não apenas à teoria fisiocrática da propriedade privada, mas também à própria propriedade privada, considerada um mal quase absoluto. Mas, embora seja uma análise unilateral e, em outros aspectos, falha, o argumento de Mably ainda é uma análise de fatos e não meramente uma discussão sobre “direitos”. A teoria de que a propriedade da terra é a causa última de todas as desigualdades de riqueza — repetidamente defendida no século XIX e por F. Oppenheimer no século XX — pode estar errada, mas ainda é uma proposição ou teoria analítica.

As ideias francesas do Iluminismo navegaram com facilidade pelo Canal da Mancha, ainda mais por terem importantes raízes inglesas — especialmente empiristas e associacionistas. Bem acima da onda comum de entusiasmo, destacou-se o livro que representa essa literatura para nós: Enquiry Concerning Political Justice (1793), de William Godwin. É apenas semissocialista, e mesmo assim, somente em virtude de seu dogma de que a propriedade sobre o produto do trabalho alheio é “injusta”. Talvez estejam certos aqueles que, com base na extrema aversão de Godwin à violência e à coerção de qualquer tipo, o classificam como anarquista. Em todo caso, a visão da natureza humana, segundo a qual a mente do homem é um vazio — mas indefinidamente perfectível — a ser preenchido pela experiência condicionada pelas instituições sociais, dificilmente, antes ou depois, serviu ao igualitarismo absoluto de forma tão intransigente. Godwin foi, de fato, instigado a produzir um trabalho analítico pelo ataque de Malthus. Mas sua obra em si é essencialmente não analítica e, portanto, está além do alcance da crítica científica. Ela expõe um credo impermeável a argumentos e que, atualmente, conta com mais adeptos do que jamais teve.


terça-feira, 21 de julho de 2026


 

A COMPANHIA DOS MERCADORES AVENTUREIROS NO REINADO DE ELIZABETH I - 2

Os documentos não comprovam que os Mercadores Aventureiros sejam de origem anterior aos Mercadores de Lã. Eles nos remetem a um período anterior ao surgimento dessas organizações como tais e parecem indicar que elas tinham uma origem comum. A carta régia concedida pelo Duque de Brabante em 1296 se estende não apenas a todos os mercadores do reino da Inglaterra, mas também a todos os outros mercadores, de qualquer terra que sejam, e confere privilégios de residência e autogoverno semelhantes aos desfrutados por outras comunidades de mercadores, como os alemães do Steelyard [entreposto comercial da Liga Hanseática de Londres] na Inglaterra.

Os mercadores ingleses em Antuérpia, que se beneficiaram desses privilégios, negociavam em grande parte com o que estava sendo considerado o principal produto de exportação da Inglaterra — lã, peles, chumbo e estanho; mas também exportavam outros produtos nativos, como tecidos, e importavam para a Inglaterra a maioria das mercadorias que ainda eram importadas através de Brabante pelos Mercadores Aventureiros no século XVI. Eles não exerciam suas atividades comerciais sob as rígidas restrições que constituíram mais tarde a essência da organização dos entrepostos. No entanto, parece muito provável que, em certo sentido, constituíssem um centro de comércio de monopólio. A carta régia do Duque de Brabante aos mercadores ingleses em Antuérpia parece ter sido consequência direta da transferência do monopólio da lã, da Holanda para Brabante, por Eduardo I [nas 'altas esferas' tudo, ou quase tudo, funcionava na base de troca de favores].

No final do século XIII, dois tipos distintos e alternativos de entrepostos comerciais nacionais haviam surgido: um para produtos básicos nacionais e outro para produtos básicos estrangeiros. Às vezes, o primeiro tipo era autorizado pelo Rei, como mecanismo para a exportação de lã, peles e estanho, e às vezes o segundo. No caso dos produtos básicos nacionais, dez ou mais cidades inglesas importantes foram selecionadas (outras no País de Gales e na Irlanda) como os mercados para os quais todos os mercadores estrangeiros que vinham comprar lã deviam se dirigir, e nos quais toda a lã destinada à exportação era exportada, não sem antes ser oferecida aos consumidores nativos.

O principal objetivo dessa restrição ao livre comércio de lã era facilitar a arrecadação do imposto de exportação; porém, o efeito seria o de conferir aos comerciantes ingleses das poucas cidades maiores assim selecionadas uma vantagem sobre os das numerosas pequenas cidades mercantis inglesas que negociavam lã [alguma coisa parecida com os ‘campeões nacionais’]. O mercado estrangeiro, quando estabelecido, era ainda mais restritivo em seu funcionamento. Uma única cidade continental era escolhida, próxima aos grandes centros têxteis dos Países Baixos, Antuérpia, Dordrecht, Bruges ou St. Omer, e todos os exportadores eram obrigados a transportar a lã para venda nesse mercado, uma vez que os objetivos buscados com o estabelecimento do mercado estrangeiro não eram apenas fiscais, mas também políticos e diplomáticos.

A organização do mercado estrangeiro, nesse caso, não era apenas um meio de arrecadar impostos; sua fixação conferia um importante favor aos aliados continentais do Rei, e também era usada como meio de transmitir subsídios a eles… A luta entre esses dois tipos diferentes de produtos básicos [internos e externos], ou entre o sistema de produtos básicos em geral e a demanda por livre comércio de lã, prosseguiu continuamente ao longo do século XIV e constitui a característica central da história fiscal do período. Tudo o que podemos fazer aqui é observar certos aspectos dessa luta, que servem para lançar luz sobre o desenvolvimento subsequente e intimamente análogo dos Mercadores Aventureiros.

Para começar pelo mais simples deles. A demanda pela abolição dos monopólios, ou seja, pelo livre comércio de lã — o acesso irrestrito e direto de compradores nacionais e estrangeiros ao produtor — foi, sem dúvida, apoiada por uma grande parcela, provavelmente pela maioria, dos produtores de lã representados no Parlamento. Sua visão de que se beneficiariam com uma demanda irrestrita coincide com a dos economistas modernos e, além disso, é extremamente provável que a política de livre comércio (no sentido do século XIV, que não excluía uma taxa de exportação considerável) fosse a política mais propícia aos interesses permanentes da receita. Em todo caso, encontramos essa política adotada durante períodos de finanças relativamente estáveis ​​— os curtos períodos de paz comparativa, de 1328 a 1332 e de 1334 a 1337, nos intervalos das guerras escocesas e francesas.

Além da abertura total do comércio com a abolição de todos os monopólios, naquilo que favoreciam à Câmara dos Comuns (isto é, pelos produtores de lã) e a manutenção de entrepostos no reino, eles preferiam um conjunto de entrepostos nacionais a um único entreposto no estrangeiro, sob o argumento de que isso proporcionava melhores chances de uma demanda efetiva e dificultava que um pequeno grupo de comerciantes monopolizasse o comércio de exportação. Pelo mesmo motivo, encontramos a política de um conjunto de monopólios nacionais apoiados por aqueles comerciantes que não faziam parte desse grupo [o mais privilegiado que administrava esses monopólios antigos]. Essa política também era favorecida pelo crescente interesse dos fabricantes de tecidos; e os entrepostos nacionais foram mantidos, com exclusão de um entreposto continental, durante cerca de vinte anos do reinado de Eduardo III. 

Se, portanto, a maioria tanto dos produtores de lã quanto dos comerciantes preferia um comércio aberto, ou, na falta deste, a manutenção dos produtos básicos nacionais comercializados em entrepostos nacionais [ou seja, dentro da Inglaterra], como explicar o fato de que, durante cerca de vinte e cinco anos do reinado de Eduardo III, o comércio [de exportação e importação] de lã permaneceu no continente, por três anos em Antuérpia, por doze em Bruges e por dez em Calais?

Havia dois motivos para isso, um diplomático e outro fiscal. O rei usou seu controle sobre o fornecimento de lã inglesa como meio de obter e manter a aliança das grandes cidades têxteis da Flandres contra a França. E, ao mesmo tempo, usou-o como meio de arrecadar rapidamente para fins de guerra somas muito maiores do que o Parlamento aprovaria ou do que as fontes ordinárias de receita permitiriam. As primeiras operações do rei como supremo comerciante de lã foram realizadas, de fato, com o consentimento do Parlamento, concedido logo após o início da guerra [dos Cem Anos], operações que levaram ao restabelecimento do comércio de lã continental, que havia sido abolido com a ascensão de Eduardo. Mas o posterior controle, por parte dos agentes do Rei, da exportação de lã através do entreposto comercial em Bruges não só violou a constituição e ultrajou todos os princípios de boas finanças, como também infligiu um grave prejuízo tanto aos produtores como aos comerciantes. Limitou o mercado em benefício dos aliados do Rei. Isso limitou o preço pago ao produtor no interesse do próprio Rei; e, finalmente, limitou os canais de comércio no interesse dos agentes do Rei. 

Em 1343, a maioria dos mercadores peticionou ao Rei, por meio do Parlamento, que o monopólio fosse trazido de volta ao reino e, se isso fosse impossível, que todos os portos fossem abertos a estrangeiros e mercadores privados. Não há dúvida, portanto, de que o famoso Estatuto de 1353, pelo qual o monopólio continental foi abolido e os monopólios dentro do reino foram restabelecidos, foi apoiado não apenas pela grande maioria dos criadores de ovelhas, mas também por muitos mercadores, e isso apesar de o estatuto proibir os mercadores nativos de exportar lã, o que foi colocado inteiramente nas mãos de estrangeiros.

Não se deu a devida importância ao fato de que a maioria dos comerciantes de lã ingleses era composta por pequenos capitalistas, cuja principal ocupação era coletar a lã e transportá-la para o mercado. Em tempos de paz, alguns deles se aventuravam com uma pequena carga através do Canal da Mancha. Mas, geralmente, era mais vantajoso vender para exportadores estrangeiros em seu próprio país. No final do século XIII, os estrangeiros eram responsáveis ​​por dois terços da exportação de lã. Os comerciantes estrangeiros, fossem alemães, italianos ou flamengos, possuíam maior capital, melhores navios, melhores métodos de seguro e podiam desfrutar, em tempos de guerra, de alguns dos benefícios do comércio neutro.

Permitir que comprassem sua lã na Inglaterra, portanto, não só proporcionava aos produtores o melhor mercado possível, como também oferecia à maioria dos comerciantes de lã ingleses a atividade mais segura e lucrativa: levar a lã aos mercados nacionais. Os mercados continentais só ofereciam vantagens aos grandes comerciantes que conseguiam formar um consórcio capitalista e negociar com o Rei. E foi, sem dúvida, para facilitar tais acordos, bem como para servir a propósitos diplomáticos, que os primeiros entrepostos comerciais foram estabelecidos em Dordrecht, Antuérpia e Bruges. Agora estamos em melhor posição para apreciar a importância do estabelecimento definitivo do entreposto comercial em Calais, que se tornou possessão inglesa em 1347…

Em 1390, o Parlamento obteve a restauração dos monopólios nacionais por meio da concessão de um subsídio e, nessa ocasião, como em 1353, parece ter sido parte da demanda popular que os mercadores nativos não participassem do comércio de exportação. Em 1392, no entanto, o monopólio foi novamente transferido para Calais e, do final do século XIV, exceto por breves intervalos, permaneceu lá até a perda de Calais em 1557 [na verdade, em janeiro de 1558, pelo duque de Guise].

Foi em conexão com esse estabelecimento do monopólio em Calais que a Companhia dos Mercadores de Lã adquiriu uma existência corporativa definida, distinta do corpo geral de mercadores ingleses que negociavam no exterior. As corporações de mercadores ingleses residentes em Antuérpia ou Bruges, sem dúvida, estiveram de alguma forma ligadas ao funcionamento das antigas empresas estrangeiras de comércio exterior nessas cidades, mas também exerciam muitas outras atividades comerciais e, quando a principal empresa de comércio exterior foi transferida para Calais, elas permaneceram unidas em Bruges. É delas que a Companhia dos Mercadores Aventureiros reivindicava descendência.

A Companhia dos Mercadores de Calais, segundo essa visão, era um ramo da antiga Companhia de Bruges, um grupo de mercadores especializados na exportação de produtos básicos, como lã, couro e estanho, que assumiram certas responsabilidades fiscais, tornaram-se um órgão da administração aduaneira e, em troca, garantiram o monopólio desse ramo do comércio. Mas como explicar a fixação relativamente permanente da principal empresa de comércio exterior em Calais, representando, como certamente representou, a transferência dos principais ramos do comércio de exportação para as mãos de um sindicato de monopolistas? Por que o Parlamento, que, em defesa dos interesses dos criadores e comerciantes de lã, resistiu tão veementemente a esse monopólio ao longo do século XIV, o aceitou durante todo o século XV como base para sua própria regulamentação do comércio exterior?

Posso apenas oferecer razões provisórias. Em primeiro lugar, os antigos entrepostos comerciais estrangeiros em Antuérpia ou Bruges estavam associados a uma tributação arbitrária e inconstitucional. O entreposto de Calais apenas arrecadava os impostos autorizados pelo Parlamento. Em segundo lugar, os antigos mercadores de produtos básicos para o mercado externo estavam associados à apropriação forçada de toda a oferta de lã para venda aos fabricantes de tecidos estrangeiros, ao passo que a demanda pelos entrepostos voltados ao mercado interno era sustentada pelo crescente interesse dos fabricantes têxteis na Inglaterra. A instituição do entreposto de Calais não prejudicou o abastecimento interno. Pelo contrário, acreditava-se que, ao restringir o número de exportadores, ela atendia aos interesses do consumidor doméstico [reduzia o volume de exportações e os preços internos].

Havia, porém, uma terceira razão. Os antigos postos de abastecimento estrangeiros serviam a vários propósitos, mas talvez o mais importante fosse sua utilização como instrumento de finanças internacionais. Através deles, o Rei podia transmitir imensos subsídios aos seus aliados continentais. O Rei não tinha dinheiro para enviar; mas, ao exportar lã para esse fim, ele estava, na mesma medida, empobrecendo o país. Para usar a terminologia econômica da época, ele estava impedindo a entrada de dinheiro. Esse era o pior mal dos postos de abastecimento estrangeiros.

Ora, o entreposto de Calais, conforme finalmente aprovado e regulamentado pelo Parlamento, tinha a intenção de produzir exatamente o efeito oposto. Ele foi concebido para proteger a nação da exportação de sua lã sem um retorno correspondente em dinheiro. Em certo período, os agentes de abastecimento foram obrigados a depositar grande parte do valor da lã em dinheiro na Torre de Londres antes de deixarem o país. Mais tarde, precauções semelhantes foram tomadas em Calais para impedi-los de investir os rendimentos em mercadorias. Assim, o entreposto tornou-se o principal instrumento do que se chama de política bullionista. Essa política de entrepostos no estrangeiro, tal como incorporada pelo Parlamento, não era feita a partir de princípios abstratos, mas em parte num esforço para evitar os abusos práticos que surgiram no comércio monopolista com o estrangeiro anteriormente, quando este era controlado pela Coroa.