segunda-feira, 6 de abril de 2026

TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 6

A HISTÓRIA DA ECONOMIA É UMA HISTÓRIA DE IDEOLOGIAS?

A natureza histórica ou ‘evolutiva’ do processo econômico limita inquestionavelmente o alcance dos conceitos e das relações gerais entre eles (‘leis econômicas’) que os economistas podem formular. De fato, não faz sentido negar, a priori, como já foi feito algumas vezes, que tais conceitos ou relações não podem sequer ser formulados. Em particular, não é necessário que os conceitos que usamos no estudo de grupos sociais sejam familiares aos próprios membros desses grupos: se é fato que o conceito de renda não era familiar às pessoas da Idade Média antes do século XIV não é motivo para não usá-lo em uma análise de sua economia. Mas é verdade também que as “leis econômicas” são muito menos estáveis ​​do que as “leis” de qualquer ciência física, que elas funcionam de maneira diferente em diferentes condições institucionais e que a negligência desse fato foi responsável por muitas aberrações. Também é verdade que, quando tentamos interpretar atitudes humanas, especialmente atitudes de pessoas muito distantes de nós no tempo ou na cultura, arriscamos compreendê-las mal, não apenas se substituirmos grosseiramente nossas próprias atitudes pelas delas, mas também se fizermos o possível para penetrar no funcionamento de suas mentes. Tudo isso se agrava consideravelmente pelo fato de o próprio observador ser produto de um determinado ambiente social — e de sua posição específica nesse ambiente — que o condiciona a enxergar certas coisas em detrimento de outras, e a vê-las sob uma determinada perspectiva. E não é só isso: fatores ambientais podem até mesmo dotar o observador de um desejo subconsciente de ver as coisas sob uma certa ótica. Isso nos leva ao problema do viés ideológico na análise econômica.

A psicologia e a psicoterapia modernas nos familiarizaram com um hábito mental que chamamos de racionalização. Esse hábito consiste em nos confortar e impressionar os outros, criando uma imagem de nós mesmos, de nossas motivações, de nossos amigos, de nossos inimigos, de nossa vocação, de nossa igreja, de nosso país, que pode ter mais a ver com o que gostaríamos que fossem do que com o que realmente são. O concorrente que é mais bem-sucedido do que nós, provavelmente deve seu sucesso a artimanhas que desprezamos. É bem provável que o líder de um partido que não é o nosso seja um charlatão... E assim por diante. A importância desse hábito para a saúde e a felicidade da mente normal é óbvia, assim como a importância de um diagnóstico correto de suas manifestações verbais.

O conceito de ideologia marxista

Meio século antes de que a importância desse fenômeno fosse plenamente reconhecida e utilizada profissionalmente [já havia o uso pejorativo feito por Napoleão I], Marx e Engels o descobriram e usaram essa descoberta em suas críticas à economia “burguesa” de sua época. Marx percebeu que as ideias ou sistemas de ideias dos homens não são, como a historiografia ainda tende a assumir acriticamente, os principais motores do processo histórico, mas formam uma “superestrutura” sobre fatores mais fundamentais...

Marx percebeu ainda que as ideias ou sistemas de ideias que prevalecem em qualquer momento e em qualquer grupo social, na medida em que contêm proposições sobre fatos e inferências a partir de fatos, serão provavelmente viciados exatamente pelas mesmas razões que também viciam as teorias de um homem sobre seu próprio comportamento individual. Ou seja, as ideias das pessoas tendem a glorificar os interesses e as ações das classes que estão em posição de se afirmar e, portanto, tendem a desenhar ou insinuar imagens delas que podem estar seriamente em desacordo com a verdade [que, por alguma razão misteriosa, só Marx e Engels conseguiam ver no seu tempo].

Assim, os cavaleiros medievais se imaginavam como protetores dos fracos e defensores da fé cristã, enquanto seu comportamento real, além de outros fatores que produziram e mantiveram a estrutura social de seu mundo, certamente parecerá muito diferente para um observador de outra época e mesmo de outra classe no seu tempo. Marx chamou esses sistemas de ideias de ideologias. E sua tese era que grande parte da economia de sua época nada mais era do que a expressão da ideologia da burguesia industrial e comercial.

O valor dessa grande contribuição para nossa compreensão dos processos históricos e do significado das ciências sociais é prejudicado, mas não destruído, por três falhas, que convém observar de imediato.

Primeiro, embora Marx estivesse tão atento ao caráter ideológico de sistemas de ideias com os quais não simpatizava, ele era completamente cego aos elementos ideológicos presentes nos seus próprios — A meu ver, este é o ponto essencial das racionalizações: elas fornecem uma espécie de autodefesa para nossos organismos psíquicos e tornam suportáveis ​​muitas vidas que não vingariam sem elas. Mas o princípio de interpretação envolvido em seu conceito de ideologia é perfeitamente geral [e pode ser estudado cientificamente]. Obviamente, não podemos dizer que em todo lugar há ideologia e que somente nós nos apoiamos na rocha da verdade absoluta [como fazem os marxistas e aqueles que querem censurar politicamente as redes sociais]. As ideologias trabalhistas não são melhores nem piores do que quaisquer outras.

Em segundo lugar, a análise marxista dos sistemas ideológicos de pensamento os reduz a emulsões de interesses de classe, que por sua vez são definidos em termos exclusivamente econômicos. Segundo Marx, as ideologias da sociedade capitalista são, para dizer de forma grosseira, glorificações dos interesses daquilo que ele denominou classe capitalista, cujos interesses giram em torno da busca por lucros pecuniários. Ideologias que não glorificam o comportamento do homem capitalista nos negócios, mas algo mais, por exemplo, o caráter e o comportamento nacional, devem, portanto, ser sempre redutíveis, ainda que indiretamente, aos interesses econômicos da classe dominante. Isso, porém, não está implícito no cerne do conceito de ideologia, mas constitui uma teoria adicional e muito duvidosa. O próprio princípio implica apenas duas coisas: que as ideologias são superestruturas erguidas sobre, e produzidas pelas realidades da estrutura social objetiva abaixo delas; e que elas tendem a refletir essas realidades de maneira caracteristicamente tendenciosa. Se essas realidades podem ser completamente descritas em termos puramente econômicos, é outra questão. Sem entrar nesse mérito aqui, registramos apenas o fato de que atribuiremos um significado muito mais amplo ao conceito de Influência Ideológica. A posição social é, sem dúvida, um fator poderoso na formação de nossas mentes. Mas isso não significa que nossas mentes sejam moldadas exclusivamente pelos elementos econômicos inerentes à nossa posição de classe ou que, mesmo que isso ocorra, sejam moldadas exclusivamente por um interesse de classe ou grupo bem definido [Nem todos os burgueses, proletários, ou membros de uma classe que o valha, pensam da mesma maneira; isso é um reducionismo atroz!].

Em terceiro lugar, Marx, e especialmente a maioria de seus seguidores, presumiram com muita facilidade que declarações que demonstram influência ideológica são, por si só, condenáveis [menos a sua, que é a verdade absoluta]. Mas é fundamental enfatizar que, assim como as racionalizações individuais, as ideologias não são mentiras... não são necessariamente errôneas. É grande a tentação de aproveitar a oportunidade para descartar de uma só vez todo um conjunto de proposições de que não gostamos, simplesmente chamando-o de ideologia. Esse artifício é, sem dúvida, muito eficaz, tão eficaz quanto os ataques às motivações pessoais de um oponente. Mas, logicamente, é inadmissível.

Como já foi apontado, a explicação, por mais correta que seja, das razões pelas quais um homem diz o que diz, nada nos informa sobre se é verdade ou mentira. Da mesma forma, declarações que procedem de uma base ideológica são passíveis de suspeita, mas ainda podem ser perfeitamente válidas. Tanto Galileu quanto seus oponentes podem ter sido influenciados por ideologias. Isso não nos impede de dizer que ele estava "certo". Mas que justificativa lógica temos para afirmar isso? Existe alguma maneira de localizar, reconhecer e, possivelmente, eliminar os elementos ideologicamente viciados na análise econômica? E o que restará após essa eliminação? Entende-se que nossas respostas, embora ilustradas por exemplos, serão, por ora, provisórias, e que a validade, ou não, dos princípios que estou prestes a formular só poderá ser avaliada por sua aplicação neste livro na sua totalidade. Mas, antes de iniciarmos essa tarefa, precisamos esclarecer uma questão preliminar.

Infelizmente, temos que bloquear uma saída de emergência pela qual alguns dos mais fervorosos defensores da doutrina de que... toda a ciência, é viciada por ilusões ideológicas, tentaram escapar da conclusão aparentemente inevitável sobre a possibilidade da "verdade científica". O professor K. Mannheim ensinava que, embora a ilusão ideológica seja o destino comum da humanidade, existem, no entanto, "inteligências independentes", flutuando livremente no espaço, que gozam do privilégio de estarem isentas desse destino. De forma um pouco mais realista, todos são vítimas da ilusão ideológica, exceto o intelectual radical moderno que se ergue, de fato, sobre a rocha da verdade, o juiz imparcial de todas as coisas humanas. Ora, se há algo que se possa considerar óbvio neste campo, é o fato de que esse intelectual nada mais é do que um amontoado de preconceitos que, na maioria dos casos, são sustentados com toda a força de uma convicção sincera. Mas, além disso, não podemos seguir Mannheim pela escada de incêndio, pois aceitamos plenamente a doutrina da onipresença do viés ideológico e, portanto, não conseguimos enxergar na crença de alguns grupos nada além de uma parte particularmente perversa de seu próprio sistema de ilusões. Agora, voltemos à nossa tarefa.

Primeiro, o viés ideológico, conforme definido acima por nossa versão modificada da definição marxista, obviamente não é o único perigo que ameaça a análise econômica. Em particular, há outros dois que devem ser mencionados especificamente porque são facilmente confundidos com o viés ideológico. Um deles é a possível manipulação de fatos ou de regras processuais por advogados peticionários [profissional especializado em escrever petições, nem sempre muito fieis aos fatos, antes de o advogado entrar em ação]. Tudo o que tínhamos a dizer sobre isso já foi dito: aqui, apenas desejo alertar o leitor de que uma argumentação justificadora não é o mesmo que análise ideologicamente viciada.

Outro perigo decorre do hábito inveterado dos economistas de emitir juízos de valor sobre os processos que observam. Os juízos de valor de um economista muitas vezes revelam sua ideologia, mas não a definem: é possível emitir juízos de valor com base em fatos irrefutavelmente estabelecidos e nas relações entre eles, e é possível abster-se de emitir qualquer juízo de valor com base em fatos vistos sob uma ótica ideologicamente distorcida. Não discutiremos o problema dos juízos de valor aqui...

 

 

Notas

Adequação conceitual

Sociólogos como Max Weber, que defendem o método interpretativo dos estados ou mudanças sociais — isto é, que acreditam que nossa principal ou única tarefa é tentar entender o que as coisas significavam para as pessoas em cada momento — podem facilmente chegar à conclusão de que o uso de quaisquer conceitos desconhecidos para as pessoas em estudo implica o erro de presumir que suas mentes funcionavam exatamente como as nossas. Ora, esse erro pode estar presente, mas não necessariamente: usar um conceito que tem significado para nós, mas não para as pessoas que observamos, é uma coisa; postular que o conceito também tinha significado para estas últimas é outra bem diferente. Não precisamos recorrer a tribos primitivas para ilustrar isso: se, em termos de nossos próprios conceitos, formularmos as condições para maximizar os lucros, não precisamos presumir que o próprio empresário utilize esses conceitos; nossa "teoria" é perfeitamente válida mesmo que saibamos que ele não a utiliza [o que invalida esses conceitos, numa abordagem pretensamente científica, é a sua conotação moral, que transcende a natureza do conceito em si, exceto aqueles que pressupõem um julgamento moral prévio, como os de “exploração”, “exploradores”, “oprimidos”, mais apropriados a pregadores religiosos].

Racionalização

O termo “racionalização”, no sentido explicado a seguir, deve ser cuidadosamente distinguido de outros significados da mesma palavra, especialmente destes dois: (1) Às vezes, falamos de racionalização quando nos referimos a uma ação que visa aprimorar algo, por exemplo, uma empresa industrial, para estar em conformidade com os padrões aprovados por consultores especializados. (2) Em trabalhos de pesquisa, às vezes falamos de racionalização quando nos referimos à tentativa de vincular um conjunto de descobertas empíricas a algum princípio teórico que as explique. Assim, dizemos que racionalizamos o comportamento empresarial observado pelo princípio da maximização do lucro. Esses significados não têm relação alguma com o significado em discussão [um mecanismo de defesa freudiano].

Burocracia e ideologia

Alguns grupos, como as burocracias, são mais propensos a essa ideologia [marxista], que, entre outras coisas, envolve a negação claramente ideológica de qualquer interesse [ideológico] em seu grupo ou, pelo menos, de sua influência [da ideologia] sobre as políticas que eles próprios criam ou ajudam a moldar. Isso pode ser usado como um primeiro exemplo da influência das ideologias sobre a análise [negando-a, esses burocratas a confirmam]. Pois essa ideologia das burocracias é um fator importante no hábito pouco científico dos economistas de usar uma teoria claramente ideológica do Estado, que eleva este último a uma agência sobre-humana para o bem público e negligencia os fatos sobre as realidades da administração pública que a ciência política moderna proporciona.

[Traduzido de History of Economic Analysis]

domingo, 29 de março de 2026

 



TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 5

Economia e filosofia

Agora, voltamo-nos para o tema das relações entre economia e filosofia... [Para saber] até que ponto a análise econômica sofreu influências da filosofia.

Devido aos muitos significados atribuídos à palavra filosofia, é preciso ter cuidado para evitar confusões. Há, em primeiro lugar, um significado para o qual nossa pergunta é muito fácil de responder, ou melhor, para o qual não há problema algum: o “filósofo” grego, que evoluiu para o retórico e o sofista, era simplesmente o homem de atividades intelectuais. Tomada nesse sentido, que foi transmitido à Idade Média e sobreviveu até o século XVIII, a filosofia significava a soma total de todo o conhecimento científico. Era simplesmente a ciência universal, da qual a metafísica fazia parte tanto quanto a física, e a física tanto quanto a matemática ou qualquer “filosofia” sobre a natureza da sociedade e da pólis [O filósofo era alguém que sabia de tudo = polímata].

Esse uso estava fadado a se manter enquanto o acervo, tanto de ferramentas analíticas quanto de fatos, permanecesse pequeno o suficiente para ser abarcado por um único cérebro. Em linhas gerais, foi assim até, aproximadamente, meados do século XVIII, quando a época dos polímatas chegou definitivamente ao fim. Como vimos, São Tomás de Aquino aderiu a esse uso da palavra filosofia, com a exceção da doutrina sagrada, que era uma ciência à parte. Todas as outras eram “disciplinas filosóficas”. É interessante notar que São Tomás não tentou atribuir à primeira qualquer outra prerrogativa além da dignidade supramundana, nem lhe conferiu qualquer autoridade sobre a segunda [manteve a autonomia das duas realidades ou universos possíveis].

Ao analisarmos esses sistemas abrangentes da ciência, não podemos ignorar uma descoberta da maior importância para o problema em questão. Nem Aristóteles, nem nenhum dos polímatas posteriores, conseguiu unificar, ou sequer tentou unificar, os vários ramos de seu ensinamento e, em particular, afirmar em cada um deles suas visões sobre as “causas últimas”, o “significado último” das coisas e afins. As teorias físicas de Aristóteles, por exemplo, são inteiramente independentes de suas visões sobre esses “fundamentos” e poderiam, no que diz respeito a estes, muito bem ter sido diferentes do que foram. E isso é tão verdadeiro para sua sociologia política (por exemplo, suas investigações sobre as constituições das cidades-estados gregas) quanto para sua física. Da mesma forma, as visões de Leibniz sobre o comércio exterior não têm absolutamente nada a ver com sua visão fundamental do mundo físico e moral, e ele poderia, no que diz respeito a estes, muito bem ter sido um defensor do livre comércio.

Portanto, é mais apropriado falarmos de um conjunto de ciências do que de uma ciência universal. Essa estrutura se desfez à medida que as exigências da divisão do trabalho se impuseram... Há outro sentido para a palavra filosofia, no qual não se questiona sua influência sobre a economia. Isso ocorre se a filosofia for concebida como uma ciência, como qualquer outra, que formula certas perguntas, utiliza certos materiais e produz certos resultados. Exemplos dos problemas que surgem, se definirmos filosofia nesse sentido, seriam: o que se entende por matéria, força, verdade, percepção sensorial e assim por diante. Essa concepção de filosofia, que agrada a muitos que não são filósofos, torna a filosofia completamente neutra em relação a qualquer proposição específica em qualquer outra ciência. Ela se aproxima de tornar a filosofia sinônimo de epistemologia, a teoria geral do conhecimento [como o fez Immanuel Kant].

Mas surge um problema muito importante se definirmos filosofia como todos os sistemas de crenças teológicos e não teológicos ("sistemas especulativos") referentes a verdades últimas (realidades, causas), fins últimos (ou valores) e normas últimas. A ética e a estética inserem-se nesses sistemas, não como ciências de certos conjuntos de fenômenos (padrões de comportamento), que eles procuram descrever (explicar), mas como códigos normativos que acarretam sanções extraempíricas. Pode-se perguntar se a economia também não entra em jogo, no sentido de que a ‘filosofia’ de um escritor determina, ou é um dos fatores que determinam, sua economia [como afirmam os marxistas].

Para preparar o terreno para nossa resposta, mencionarei primeiro alguns casos ilustrativos da história de outras ciências. Para qualquer pesquisador cuja filosofia inclua a crença cristã, a pesquisa é uma pesquisa sobre as obras de Deus... Assim, Newton expressou crenças cristãs em uma obra puramente científica... Leonhard Euler (1707-1783) defendeu seu "método para encontrar curvas que possuem certas propriedades extremas" com base no argumento de que o mundo é obra do Criador perfeito e, portanto, deve ser passível de descrição em termos de proposições de máximo e mínimo. James P. Joule (1818-1889), codescobridor do princípio fundamental da termodinâmica moderna, o princípio do equivalente mecânico do calor, argumentou que, na ausência da equivalência entre calor e movimento, algo (energia) poderia se perder no universo físico, o que seria contrário à dignidade de Deus.

Os dois últimos exemplos poderiam até ser interpretados como prova da influência direta das crenças de Euler e Joule sobre seu trabalho analítico. No entanto, ninguém duvida... (a) que o trabalho científico dos autores mencionados não foi desviado de seu curso por suas convicções teológicas; (b) que é compatível com quaisquer posições filosóficas; e (c) que não faria sentido tentar explicar seus métodos ou resultados por meio de suas posições filosóficas. Eles simplesmente coordenaram seus métodos e resultados com sua fé cristã, assim como coordenavam tudo o mais que faziam. Revestiram seu trabalho científico com uma roupagem teológica. Mas, no que diz respeito ao conteúdo desta obra, essas vestes eram removíveis [sem prejuízo para os conteúdos].

Sustento que a roupagem da filosofia também é removível no caso da economia: a análise econômica nunca foi moldada pelas opiniões filosóficas que os economistas porventura tivessem, embora tenha sido frequentemente viciada por suas posições políticas. Mas essa tese, tal como está... precisa ser esclarecida cuidadosamente, e o melhor método para isso é declarar explicitamente o que isso não envolve.

Primeiro, não envolve "cientificismo". Ou seja, não estou argumentando que, pelo fato de a roupagem filosófica ou teológica ser removível das proposições pertencentes às ciências físicas, ela também deva ser removível das proposições pertencentes às ciências sociais. Nossos exemplos foram apresentados meramente para ilustrar o que quero dizer ao afirmar que os credos teológicos ou filosóficos de um pesquisador científico não precisam exercer qualquer influência definitiva sobre seu trabalho analítico, mas não para fundamentar minha tese. No que diz respeito a esses exemplos, permanece em aberto se isso também se aplica às ciências da ação humana.

Segundo, minha tese não implica, obviamente, que a própria ação humana e os processos psíquicos a ela associados — motivos ou métodos de raciocínio, sejam políticos, econômicos ou de qualquer outra natureza — não sejam influenciados ou correlacionados com convicções filosóficas, religiosas ou éticas. Acontece que faz parte da própria psicologia social sustentar que essa correlação está longe de ser perfeita — um barão ladrão [milionários americanos do século XIX e XX] pode professar sinceramente um credo de mansidão e altruísmo [vários deles foram personagens proeminentes em suas igrejas] —, mas isso é uma questão completamente diferente. Estamos agora preocupados com as proposições das ciências do comportamento humano sobre esse comportamento humano e não questionamos que elementos religiosos ou filosóficos devam, de fato, entrar em qualquer explicação desse comportamento sempre que visem à completude ou ao realismo. E isso também se aplica à “política” do economista científico e a qualquer conselho ou recomendação que ele possa oferecer com o objetivo de influenciar “políticas”. Tudo o que nossa tese implica é que isso, ainda que exista, não se aplica às suas ferramentas e “teoremas” analíticos.

Terceiro, minha tese não envolve o recurso a considerações gerais sobre a autonomia lógica da proposição ou teorema econômico em relação à filosofia. Isso ainda seria compatível com a influência desta última infiltrando-se nos procedimentos do trabalho analítico de maneira logicamente ilegítima. De fato, seria plausível que proposições como a de que as cidades frequentemente se desenvolveram a partir de pontos de encontro de mercadores não carregassem qualquer conotação filosófica particular; ou que proposições como a de que os testes de significância ordinários são inúteis no caso de correlação entre séries temporais fossem válidas tanto para o deísta quanto para o ateu; ou ainda que proposições como a de que o aumento na taxa de remuneração de um fator de produção pode diminuir sua oferta fossem compatíveis com qualquer filosofia e não impostas por nenhuma. Mas não estou pedindo aos meus leitores que confiem em argumentos desse tipo... No momento, não estou tentando estabelecer minha tese. Estou apenas anunciando-a e explicando seu significado. A prova será apresentada adiante, quando será demonstrado que mesmo economistas que possuíam visões filosóficas muito definidas, como Locke, Hume, Quesnay e, sobretudo, Marx, na verdade não foram influenciados por elas ao realizarem seus trabalhos de análise.

 

Notas

A fronteira das ciências

Ampliando o que já foi dito sobre este ponto, quero salientar que todas as ciências históricas e ramos da ciência que a especialização... produziu são, em certa medida, relevantes para nós, mesmo quando não tratam de fatos especificamente econômicos. Por exemplo, a civilização greco-romana é objeto de pesquisa de três grupos de estudiosos claramente distintos: historiadores, filólogos e juristas. Todos os três lidam com muitas coisas que não nos dizem respeito. Mas mesmo quando o fazem, contribuem para o panorama cultural desse mundo que, em sua totalidade, não nos é indiferente; e mesmo quando descrevem a história militar ou a história das artes, utilizam as mesmas técnicas que empregam para descrever eventos e instituições econômicas ou sociais, de modo que não há uma fronteira rígida na qual se possa dizer que nosso interesse termine definitivamente.

Economia e ciência jurídica

A ciência ou ciências (em nosso sentido) cujos objetos consistem no “direito” estatutário ou consuetudinário, na prática jurídica e nas técnicas jurídicas são relevantes para uma história da análise econômica, em primeiro lugar, porque, em grande medida, os economistas foram juristas (ou, como preferimos dizer, juristas) que aplicaram os hábitos da mente jurídica à análise dos fenômenos econômicos. Por exemplo, os sistemas sociológico e econômico dos doutores escolásticos do século XVI (a literatura de jure et justitia) não podem ser compreendidos se não percebermos que eram, primordialmente, tratados sobre o direito político e econômico da Igreja Católica e que sua técnica derivava, em primeiro lugar, do antigo direito romano, adaptado às condições da época. Em segundo lugar, o arcabouço jurídico do processo econômico e a influência que um exerce sobre o outro são de considerável importância para a análise econômica. Em terceiro lugar, as raízes históricas do conceito de “direito econômico” encontram-se no conceito puramente jurídico de “direito natural”. Em quarto lugar, certos economistas do século XIX afirmavam ter se inspirado, para uma visão histórica do processo econômico, em uma escola de jurisprudência que se autodenominava "escola histórica", cuja origem e posição devem ser compreendidas de forma mais completa do que os economistas costumam fazer, se quisermos distinguir os elementos de verdade e erro nessa visão. Aproveito a oportunidade para acrescentar que a análise sociológica do direito como fenômeno social é uma coisa; que o estudo das técnicas da prática jurídica — o tipo de coisa que se ensina nas faculdades de direito americanas — é outra bem diferente; e que a jurisprudência histórica é outra coisa ainda: portanto, devemos distinguir pelo menos três "ciências" diferentes do direito, que diferem em material, ferramentas e objetivos, e são cultivadas (embora haja sobreposições) por diferentes grupos de pesquisadores, e o mesmo ocorre nos campos da religião, da ética e da estética. Nessas circunstâncias, a confusão torna-se quase desculpável, e grandes batalhas sobre princípios e "métodos" têm sido travadas em questões (por exemplo, nas ciências da arte) que se esclarecem automaticamente assim que se percebe que os participantes visam objetivos diferentes.

O conceito de sistema

Fique o leitor advertido que o termo Sistema — que, na verdade, não possui um significado mais definido do que seu protótipo grego — é usado neste livro em uma variedade de sentidos diferentes que não devem ser confundidos, por exemplo: um conjunto de princípios de ação política mais ou menos coordenados (por exemplo, sistema liberal, sistema de livre comércio); um corpo organizado de doutrina (por exemplo, o sistema escolástico, o sistema de Marshall); um conjunto de quantidades entre as quais se presume a existência de certas relações (por exemplo, sistema de preços); um conjunto de equações que expressam tais relações (por exemplo, o sistema walrasiano).

O conceito de materialismo

Isso também se aplica ao materialismo em seu sentido técnico-filosófico, ou seja, à doutrina que não mudou desde os tempos de Leucipo e Demócrito até hoje, e sustenta que a ‘matéria’ é a realidade última e existe independentemente da experiência. Aproveito a oportunidade oferecida pela necessidade de um exemplo ilustrativo do texto acima para deixar claro ao leitor que a palavra ‘materialismo’ significa muitas coisas que nada têm a ver com o significado técnico que acabei de definir. A filosofia ‘idealista’, que se baseia na proposição (igualmente desprovida de significado para mim pessoalmente) de que, em última análise, a realidade (ou o ‘mundo’) é ‘espírito’, teria servido igualmente bem a ambos os propósitos: teria fornecido um exemplo de filosofia no sentido em que levanta um problema de influência sobre a economia; e teria servido como outro exemplo de uma palavra com muitos significados, comumente confundidos.

[traduzido de History of Economic Analysis]


 


TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 4

ECONOMIA E SOCIOLOGIA

... Ao escrever história econômica, há afirmações que não deveriam ser acrescentadas a menos que devidamente fundamentadas por argumentos próprios da teoria econômica: um exemplo disso é a afirmação que vincula o grande desenvolvimento econômico da Inglaterra, da década de 1840 até o final do século XIX, à revogação das Leis do Milho e de praticamente todos os outros tipos de protecionismo. Os esquemas da teoria econômica derivam da história econômica dos arcabouços institucionais nos quais devem funcionar, sendo que somente ela pode nos dizer que tipo de sociedade existia, ou existe, à qual os esquemas teóricos devem se aplicar.

Contudo, não é apenas a história econômica que presta esse serviço à teoria econômica. É fácil perceber que, ao introduzirmos a instituição da propriedade privada, do livre contrato ou de uma maior ou menor regulamentação governamental, estamos introduzindo fatos sociais que não são simplesmente história econômica, mas sim uma espécie de história econômica generalizada, tipificada ou estilizada. E isso se aplica ainda mais às formas gerais de comportamento humano que assumimos, seja em geral ou para certas situações sociais. Todo livro didático de economia que não se limite ao ensino de técnicas no sentido mais restrito do termo, deve ter uma introdução institucional que pertence à sociologia, e não à história econômica propriamente dita.

Inspirando-nos na prática alemã, consideraremos útil, portanto, introduzir um quarto campo fundamental para complementar os outros três, embora o trabalho positivo neste campo também nos leve além da mera análise econômica: o campo que chamaremos de Sociologia Econômica (Wirtschaftssoziologie). Para usar uma expressão feliz: a análise econômica lida com as questões de como as pessoas se comportam em qualquer momento e quais os efeitos econômicos que produzem ao se comportarem dessa maneira; a sociologia econômica lida com a questão de como elas chegaram a se comportar da maneira como se comportam.

Se definirmos comportamento humano de forma suficientemente ampla para incluir não apenas ações, motivos e propensões, mas também as instituições sociais relevantes para o comportamento econômico, como governo, herança de propriedade, contratos e assim por diante, essa definição nos diz tudo o que precisamos...

Sociologia e Economia

Após o dito no capítulo anterior sobre a importância fundamental da história — e de todas as ciências e ramos da ciência que este termo abrange... é evidente que não podemos nos dar ao luxo... de negligenciar os desenvolvimentos da sociologia. Usaremos este termo no sentido estrito em que denota uma única ciência, embora longe de ser homogênea, a saber, a análise geral de fenômenos sociais como sociedade, grupo, classe, relações de grupo, liderança e similares. E usaremos o termo neste sentido ao longo de todo o texto para desenvolvimentos que antecedem em séculos a introdução da palavra. Em um sentido mais amplo, a totalidade de muitas áreas de ciências sociais sobrepostas e descoordenadas — termo que preferimos e que inclui, entre outras coisas, nossa própria economia, jurisprudência, hierologia, “ciência política”, ecologia e ética e estética descritivas (no sentido da sociologia dos padrões de comportamento moral e da arte)...

A proximidade de algumas dessas relações foi reconhecida pela criação do "campo fundamental" da Sociologia Econômica, no qual nem economistas nem sociólogos conseguem ir muito longe sem se depararem com conflitos. Mas isso não significa que a cooperação entre os dois grupos tenha sido particularmente estreita ou fértil; ou que qualquer um deles teria se dado melhor se tivesse havido mais cooperação. Quanto ao primeiro ponto, trata-se do fato de que, desde o século XVIII, ambos os grupos têm se distanciado progressivamente, até que hoje o economista e o sociólogo mais tradicionais pouco sabem e se importam com o trabalho um do outro, preferindo usar, respectivamente, uma sociologia e uma economia primitivas a aceitar os resultados profissionais um do outro — uma situação que não foi e não é melhorada pela vituperação mútua.

Já no segundo ponto, não é de forma alguma certo que uma cooperação mais estreita, tão frequentemente clamada por leigos que esperam grandes resultados da "fertilização cruzada" com uma certeza inquestionável em relação à competência profissional, teria sido uma bênção sem ressalvas. Pois certamente não teria trazido ganhos líquidos, porque haveria alguma perda daquela eficiência que resulta da especialização estrita. Isso vale até mesmo para a divisão da economia e da sociologia (em sentido amplo) em departamentos que se desenvolveram no que são, para todos os efeitos e propósitos, ciências semi-independentes. É precisamente por isso que preferimos falar de ciências sociais em vez de sociologia em sentido amplo. Como observou certa vez um eminente economista, a fertilização cruzada pode facilmente resultar em esterilização cruzada. Isso não afeta o que foi dito sobre a necessidade de acompanhar, ao menos de forma fragmentária, os desenvolvimentos de todos os "campos vizinhos" neste livro...

Lógica e psicologia

Estamos particularmente interessados ​​em lógica e psicologia. A primeira merece nossa atenção porque os economistas deram uma contribuição considerável a ela, mas especialmente por sua propensão a dogmatizar e a discutir sobre "método": os economistas que apreciam esse passatempo tendem a ser influenciados pelos escritos dos lógicos de sua época, que, portanto, embora mais aparentemente do que realmente, exercem alguma influência, legítima ou não, sobre nosso trabalho. No que diz respeito à psicologia, há a visão que surgiu primeiro no século XVIII e, portanto, tem sido defendida intermitentemente, de que a economia, como outras ciências sociais, lida com o comportamento humano.

A psicologia é realmente a base a partir da qual qualquer ciência social deve partir e em termos da qual toda explicação fundamental deve se basear. Essa visão, que foi defendida com a mesma veemência com que foi atacada, denominaremos Psicologismo. Na verdade, porém, os economistas nunca permitiram que suas análises fossem influenciadas pelos psicólogos profissionais de sua época, mas sempre formularam para si mesmos as suposições sobre processos psíquicos que consideraram convenientes. Por um lado, notaremos esse fato ocasionalmente com surpresa, pois existem problemas na análise econômica que poderiam ser atacados com vantagem por métodos elaborados por psicólogos. Por outro lado, devemos evitar uma ilusão muito comum. Se usarmos uma suposição cujo conteúdo parece pertencer a um campo específico, isso não significa necessariamente que estamos invadindo esse campo. Por exemplo, a chamada lei dos rendimentos decrescentes da terra refere-se ao que poderia ser chamado de fato físico. Mas, como já foi apontado, isso não significa que, ao formular essa suposição, estamos entrando no campo da física. Da mesma forma, quando afirmo a suposição de que, à medida que como pedaços sucessivos de pão, meu desejo por mais pedaços diminui, pode-se dizer que estou afirmando um fato psíquico. Mas, ao fazer isso, não estou tomando emprestado nada da psicologia profissional, seja bom ou ruim; estou simplesmente formulando o que acredito ser um fato da experiência comum. Se nos colocarmos nessa posição, descobriremos que há muito menos psicologia nas proposições econômicas do que se poderia pensar à primeira vista.

Falar de leis psicológicas, como a lei keynesiana da propensão a consumir, é um abuso flagrante, porque essa prática sugere a justificativa de nossas suposições, que, na verdade, não existem. No entanto, é necessário ocasionalmente observar os desenvolvimentos no campo da psicologia profissional, e essa necessidade surge, embora com menos frequência, também em relação a várias outras ciências. Por ora, limitemo-nos a mencionar a biologia como exemplo. Existe, ou existiu, algo como o darwinismo social e econômico. Se quisermos avaliar esse fenômeno, é importante certificarmo-nos do que Charles Darwin realmente disse e dos métodos e materiais que o levaram a dizê-lo.

[traduzido de History of Economic Analysis]

domingo, 22 de março de 2026

 


HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 3

Ferramentas da análise econômica

HISTÓRIA

Desses campos fundamentais, a história econômica — que abrange e inclui os fatos contemporâneos — é de longe o mais importante. Gostaria de afirmar desde já que, se ao iniciar meus estudos em economia, me dissessem que eu poderia estudar apenas um dos três, mas que teria a opção de escolher, eu escolheria a história econômica. E isso por três motivos.

Primeiro, o objeto de estudo da economia é essencialmente um processo único no tempo histórico. Ninguém pode esperar compreender os fenômenos econômicos de qualquer época, incluindo a atual, se não possui um domínio adequado dos fatos históricos e uma dose adequada de senso histórico ou do que pode ser descrito como experiência histórica [por exemplo, perceber que ações do passado não podem ser julgadas de acordo com valores do presente].

Em segundo lugar, o relato histórico não pode ser puramente econômico, antes deve inevitavelmente refletir também fatos “institucionais” que não têm a ver diretamente com economia: portanto, oferece o melhor método para entender como os fatos econômicos e não econômicos se relacionam entre si e como as várias ciências sociais devem se relacionar também.

Em terceiro lugar, acredito que a maioria dos erros fundamentais atualmente cometidos na análise econômica se deve à falta de experiência histórica, mais frequentemente do que a qualquer outra deficiência do aparato do economista. A história deve, naturalmente, ser entendida como incluindo campos que adquiriram nomes diferentes como consequência da especialização, como relatos pré-históricos e etnologia (antropologia).

Duas consequências preocupantes do argumento acima devem ser observadas imediatamente. Primeiro, visto que a história é uma fonte importante — embora não a única — do material do economista e, além disso, visto que o próprio economista é um produto de seu tempo e de todo o tempo que o precede, a análise econômica e seus resultados são certamente afetados pela relatividade histórica, e a única questão é em que medida. Nenhuma resposta válida para essa questão pode ser obtida filosofando sobre o assunto, mas será uma de nossas principais preocupações elaborá-la por meio de investigação detalhada... Segundo, temos que encarar o fato de que, sendo a história econômica parte da economia, as técnicas do historiador são passageiras no grande ônibus que chamamos de análise econômica... Portanto, mesmo os economistas que não são historiadores econômicos e que apenas leem os relatos históricos escritos por outros devem entender como esses relatos foram elaborados, caso contrário, não serão capazes de avaliar o seu significado real...

ESTATÍSTICA

......

TEORIA

O terceiro campo fundamental é a ‘teoria’. Este termo carrega muitos significados, mas apenas dois deles são relevantes para o nosso uso neste livro. O primeiro, e menos importante, torna as teorias sinônimo de hipóteses explicativas. Tais hipóteses são, naturalmente, ingredientes essenciais da historiografia e da estatística. Por exemplo, mesmo o historiador mais rigorosamente factual, seja ele da área econômica ou de outra, dificilmente conseguirá evitar formular uma hipótese ou teoria explicativa, ou várias hipóteses ou teorias explicativas, sobre as origens das cidades. O estatístico, por exemplo, precisa formular uma hipótese ou teoria sobre a distribuição conjunta das variáveis ​​estocásticas que compõem seu problema. Tudo o que precisa ser dito a respeito disso é que é um erro — bastante difundido — acreditar que a única ou principal tarefa do teórico econômico consiste em formular tais hipóteses (alguns diriam: do nada).

A teoria econômica faz algo completamente diferente. Ela não pode, de fato, assim como a física teórica, prescindir de esquemas ou modelos simplificadores que visam retratar certos aspectos da realidade e tomar algumas coisas como certas para estabelecer outras de acordo com determinadas regras de procedimento. No que diz respeito ao nosso argumento atual, as coisas (proposições) que tomamos como certas podem ser chamadas indiscriminadamente de hipóteses, axiomas, postulados, pressupostos ou mesmo princípios, e as coisas (proposições) que pensamos ter estabelecido por meio de procedimentos admissíveis são chamadas de teoremas.

É claro que uma proposição pode figurar em um argumento como um postulado e em outro como um teorema. Ora, hipóteses desse tipo também são sugeridas por fatos — levando-se em conta as observações feitas —, mas, em termos de lógica estrita, são criações arbitrárias do analista. Elas diferem das hipóteses do primeiro tipo porque não incorporam resultados finais de pesquisa que supostamente sejam interessantes por si só, mas são meros instrumentos ou ferramentas formulados com o propósito de estabelecer resultados interessantes.

Além disso, formular hipóteses não é tudo o que o teórico econômico faz, assim como formular hipóteses estatísticas não é tudo o que o teórico estatístico, ou qualquer outro teórico, faz. Igualmente importante é a elaboração dos demais instrumentos pelos quais os resultados podem ser extraídos das hipóteses — todos os conceitos (como “taxa marginal de substituição”, “produtividade marginal”, “multiplicador”, “acelerador”), as relações entre os conceitos e os métodos para lidar com essas relações, não têm nada de hipotético. E é a soma total desses instrumentos — incluindo as suposições estrategicamente úteis — que constitui a teoria econômica. Na expressão insuperavelmente feliz da Sra. Robinson, a teoria econômica é uma caixa de ferramentas.

A lógica dessa concepção da teoria econômica é simples e a mesma que em todos os outros ramos da ciência. A experiência nos ensina que os fenômenos de uma determinada classe — econômicos, biológicos, mecânicos, elétricos e outros — são, de fato, ocorrências individuais, cada uma das quais, à medida que ocorre, revela as suas peculiaridades. Mas a experiência também nos ensina que essas ocorrências individuais têm certas propriedades ou aspectos em comum e que uma enorme economia de esforço mental pode ser alcançada se lidarmos com essas propriedades ou aspectos, e com os problemas que eles suscitam, de uma vez por todas.

Para alguns propósitos, é de fato necessário analisar cada caso individual de precificação em um mercado específico, cada caso de formação de renda, cada ciclo de negócios individual, cada transação internacional e assim por diante. Mas mesmo quando isso é necessário, descobrimos que estamos usando, em cada caso, conceitos que ocorrem na análise de todos eles. Em seguida, descobrimos que todos os casos, ou pelo menos grandes conjuntos de casos individuais, exibem características semelhantes que, e cujas implicações, podem ser tratadas para todos eles em conjunto por meio de esquemas gerais de precificação, formação de renda, ciclos, transações internacionais e assim por diante. E, finalmente, descobrimos que esses esquemas não são independentes uns dos outros, mas sim relacionados, de modo que há vantagem em ascender a um nível ainda mais elevado de “abstração generalizante”, sobre o qual construímos um instrumento, motor ou organon composto de análise econômica — embora não o único, como vimos — que funciona formalmente da mesma maneira, independentemente do problema econômico ao qual nos voltemos.

A obra de Richard Cantillon é a primeira em que a consciência dessa última verdade é claramente discernível, embora os economistas tenham levado mais de um século para perceber todas as suas possibilidades — Léon Walras foi, de fato, o primeiro a fazê-lo.

... [Agora] será útil inserir aqui algumas observações adicionais na esperança de que elas contribuam para diminuir as possíveis barreiras entre mim e meus leitores.

Primeiramente, portanto, é necessário acrescentar uma ressalva ao argumento precedente sobre a natureza e as funções da teoria econômica. Esse argumento foi formulado em termos que são aplicáveis, pelo menos substancialmente, a todas as ciências que possuem algum aparato de análise universal. Mas há limites para esse paralelismo... A economia não possui os benefícios que a física obtém com experimentos de laboratório... mas, em vez disso, desfruta de uma fonte de informação negada à física, a saber, o vasto conhecimento humano sobre os significados das ações econômicas.

Essa fonte de informação também é fonte de controvérsias que nos incomodarão repetidamente ao longo de nossa jornada... quando falamos, por exemplo, de motivos que supostamente impulsionam indivíduos ou grupos, nossa fonte de informação pode ser grosseiramente identificada com o conhecimento de processos psíquicos, conscientes ou inconscientes [como a hipótese do egoísmo movendo a economia]; que seria absurdo não o utilizar, embora, como sempre enfatizei, isso não significa invadir o campo da psicologia profissional... Há, no entanto, outra maneira de interpretar nosso conhecimento de significados que é mais próxima da lógica.

Se eu afirmar, por exemplo, que — sob certas condições — os ganhos instantâneos de uma empresa serão maximizados na produção em que o custo marginal se iguala à receita marginal (esta última igualando-se ao preço no caso de concorrência perfeita), pode-se dizer que estou formulando a lógica da situação e um resultado que é verdadeiro, assim como uma regra da lógica geral, independentemente de alguém agir ou não em conformidade com ela. Isso significa que existe uma classe de teoremas econômicos que são ideais ou normas lógicas (não, obviamente, éticas ou políticas). E, evidentemente, diferem de outra classe de teoremas econômicos que se baseiam diretamente em observações, por exemplo, em observações sobre até que ponto as expectativas de oportunidades de emprego afetam os gastos dos trabalhadores com bens de consumo ou como as variações salariais afetam a taxa de casamento. Sem dúvida, seria possível assimilar ambos os tipos de teoria, interpretando as normas lógicas também como generalizações "purificadoras" de dados observacionais, inclusive de observações armazenadas subconscientemente pela experiência comum. No geral, porém, parece melhor não fazê-lo [tomar cuidado com as projeções pessoais e com o excesso de generalizações ou conexões entre as partes observadas].

Em segundo lugar, a explicação anterior pode ter contribuído para me exonerar da suspeita de estar contaminado pelo cientificismo. Este termo foi introduzido pelo Professor von Hayek para denotar a cópia acrítica dos métodos da física matemática, na crença igualmente acrítica de que esses métodos têm aplicação universal e constituem o exemplo inigualável a ser seguido por toda a atividade científica. Esta história, em sua totalidade, responderá à questão se realmente houve tal cópia acrítica de métodos que só têm significado dentro dos padrões particulares das ciências que os desenvolveram... Quanto à questão de princípio, não pode haver a menor dúvida de que Hayek está certo — e o mesmo se aplica a todos os que o precederam no século XIX ao proferirem protestos semelhantes aos seus — ao afirmar que a apropriação, por economistas, de qualquer método com base unicamente no fato de ter sido bem-sucedido em outro lugar é inadmissível... Infelizmente, essa não é a questão principal.

Precisamos perguntar o que constitui "empréstimo" antes de podermos questionar o que constitui empréstimo ilegítimo. E aqui devemos ter cuidado com uma ilusão de ótica semelhante àquela que torna os marxistas tão relutantes em usar termos como preço, custo, dinheiro, valor dos serviços da terra ou mesmo juros ao falar de uma futura ordem socialista: esses termos denotam conceitos de lógica econômica geral e parecem aos marxistas estar contaminados com um significado capitalista apenas porque também são usados ​​na sociedade capitalista. De forma semelhante, os conceitos e procedimentos da matemática “superior” foram de fato desenvolvidos inicialmente em conexão com os problemas da física, mas isso não significa que haja algo especificamente “fisicalista” nesse tipo de linguagem.

Mas isso também se aplica a alguns “conceitos gerais da física, como potencial de equilíbrio ou oscilador, ou estática e dinâmica, que surgem espontaneamente na análise econômica, assim como os sistemas de equações: o que tomamos emprestado quando usamos, por exemplo, o conceito de ‘oscilador’ é uma palavra e nada mais”. Duas circunstâncias, no entanto, combinam-se para reforçar essa ilusão de ótica. Por um lado, físicos e matemáticos, ao se depararem com esses conceitos gerais que nos ocorreram apenas mais tarde, não apenas os batizaram, mas também desenvolveram sua lógica. Enquanto essa lógica não introduzir nada de “fisicalista” [na análise econômica], seria um desperdício não utilizá-la. Por outro lado, os alunos às vezes entendem uma analogia física mais facilmente do que a economia do caso a ser apresentado. Portanto, tais analogias são frequentemente usadas no ensino.

Portanto, parece que as coisas de que somos acusados ​​de tomar emprestado são meramente reflexos do fato de que todos nós, físicos ou economistas, temos apenas um tipo de cérebro para trabalhar e que esse cérebro age de maneiras que são, em certa medida, semelhantes, independentemente da tarefa a ser executada... Isso não envolve quaisquer erros mecanicistas, deterministas ou outros erros relacionados ao sufixo “-ista”, nem qualquer negligência da verdade a “explicar” significa algo diferente nas ciências naturais e nas ciências sociais [todas, sem exceção, negligenciam algum aspecto da realidade], nem, finalmente, qualquer negação das implicações do caráter histórico de nossa área de estudo.

Terceiro, se a teoria econômica é algo tão simples e inofensivo quanto descrevi, o leitor pode se perguntar de onde vem a hostilidade que a acompanha desde que se destacou [o historiador e filósofo escocês Thomas Carlyle, sec. XIX, a chamou de “ciência sombria”]...  até os dias de hoje. Vou simplesmente listar os principais pontos para uma resposta que nossa história comprovará amplamente:

1- Em todos os momentos, inclusive no presente, considerando as necessidades de cada período (e não o estado da teoria, evitando julgar o estado da teoria em um dado momento pelos padrões de uma época posterior), o desempenho da teoria econômica tem ficado abaixo das expectativas razoáveis ​​e sujeito a críticas válidas.

2 - Embora o desempenho da teoria econômica nunca tenha atingido o nível esperado, ou seja, nunca tenha sido o que poderia ter sido, ele também estava além da compreensão da maioria dos interessados, que não conseguiam entendê-lo e se ressentiam de qualquer tentativa de refinamento analítico.

3 - Vamos distinguir cuidadosamente os dois elementos que contribuem para esse ressentimento. Por um lado, sempre houve muitos economistas que lamentavam a perda de toda aquela massa de fatos que, de fato, se perde em qualquer processo que envolva abstração... o que é frequentemente bastante justificado. Por outro lado, porém, existem mentes pouco teóricas que são incapazes de ver qualquer utilidade em algo que não se relacione diretamente com problemas práticos... que carecem da cultura científica necessária para apreciar o refinamento analítico... Isso explica o fato de que as críticas à teoria econômica partiram tanto de pessoas que estavam acima quanto de pessoas que estavam abaixo do nível da teoria econômica de sua época.

4 - A hostilidade que emanava dessas fontes era frequentemente reforçada pela hostilidade às alianças políticas que a maioria dos teóricos persistia em formar. O exemplo clássico disso é a aliança da teoria econômica com o liberalismo político do século XIX. Como veremos, essa aliança teve o efeito de transformar, por um tempo, a derrota do liberalismo político em uma derrota da teoria econômica. E, naquela época, muitas pessoas detestavam a teoria econômica porque a consideravam apenas um artifício para reforçar um programa político do qual discordavam. Essa visão era ainda mais fácil de aceitar porque os próprios teóricos econômicos compartilhavam desse erro e faziam todo o possível para utilizar seu aparato analítico a serviço de sua crença política liberal. Nesse e em muitos casos análogos, dos quais a teoria econômica moderna é outro exemplo deplorável, os economistas cederam à sua forte propensão a se envolverem na política, a venderem receitas políticas, a se apresentarem como filósofos da vida econômica e, ao fazê-lo, negligenciaram o dever de explicitar os juízos de valor que introduziam em seu raciocínio [O autor trata aqui da intensa politização do debate econômico no período que antecedeu a Guerra Fria].

Nota

A precariedade ou relatividade do nosso conhecimento

Este é um dos vários significados da palavra relatividade. Aqui, queremos dizer com ela nada mais do que (a) que não podemos usar mais material do que temos e que, em consequência, alguns ou todos os nossos resultados podem não se sustentar à luz de experiências futuras (um fato que deve, obviamente, ser devidamente considerado na interpretação dos economistas do passado); e (b) que os interesses dos economistas nos problemas de sua época, bem como suas atitudes em relação a esses problemas, condicionam suas visões gerais sobre os fenômenos econômicos.

[Traduzido de History of Economic Analysis de J A Schumpeter]

 


TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 2

A economia é uma ciência?

A resposta à pergunta que inicia esta seção depende, naturalmente, do que entendemos por "ciência". Assim, tanto na linguagem cotidiana quanto no jargão acadêmico — particularmente em países francófonos e anglófonos — o termo é frequentemente usado para designar a física matemática. Evidentemente, isso exclui todas as ciências sociais e também a economia. Tampouco a economia na sua totalidade é uma ciência se considerarmos só o uso de métodos semelhantes aos da física matemática como a característica definidora (definiens) da ciência. Nesse caso, apenas uma pequena parte da economia é "científica". Novamente, se definirmos ciência segundo o lema "Ciência é Medição", então a economia é científica em algumas de suas partes e não em outras. Não deve haver qualquer preocupação com relação a "posição" ou "dignidade" nesse sentido: chamar um campo de ciência não deve ser um elogio nem o contrário [muito menos um critério universal absoluto como o faz certas correntes marxistas, que não têm a menor ideia do que seja a CIÊNCIA, ou conhecimento científico].

Para os nossos propósitos, sugere-se uma definição bastante ampla, a saber: ciência é qualquer tipo de conhecimento que tenha sido objeto de esforços conscientes para aprimorá-lo. Tais esforços produzem hábitos mentais — métodos ou “técnicas” — e um domínio dos fatos descobertos por essas técnicas, que estão além do alcance dos hábitos mentais e do conhecimento factual da vida cotidiana. Portanto, podemos também adotar a definição praticamente equivalente: ciência é qualquer campo do conhecimento que tenha desenvolvido técnicas especializadas de busca de fatos e de interpretação ou inferência (análise).

Finalmente, se desejarmos enfatizar os aspectos sociológicos, podemos formular ainda outra definição, que também é praticamente equivalente às outras duas: ciência é qualquer campo do conhecimento no qual existam pessoas, os chamados pesquisadores, cientistas ou acadêmicos, que se dedicam à tarefa de aprimorar o conjunto existente de fatos e métodos e que, nesse processo, adquirem um domínio de ambos que as diferencia do “leigo” e, eventualmente, também do mero “praticante”. Muitas outras definições seriam igualmente válidas. Aqui estão duas definições que acrescento sem maiores explicações: (1) ciência é senso comum refinado; (2) ciência é conhecimento aplicado. Como a economia utiliza técnicas que não são comuns ao público em geral, e como existem economistas para cultivá-las, a economia é obviamente uma ciência dentro do nosso significado do termo. Parece lógico concluir que escrever a história dessas técnicas é uma tarefa perfeitamente simples, sobre a qual não deveria haver dúvidas ou receios. Infelizmente... Vários obstáculos terão que ser removidos antes que possamos ter certeza do nosso terreno — o mais sério deles carrega o rótulo de Ideologia...

Agora, apresentarei alguns comentários sobre nossa definição de ciência. Primeiramente, devemos abordar o que o leitor presumivelmente considera uma objeção fatal. Sendo a ciência um conhecimento moldado por ferramentas, ou seja, definida pelo critério do uso de técnicas especiais, parece que deveríamos incluir, por exemplo, a magia praticada por uma tribo primitiva se ela utiliza técnicas que não são geralmente acessíveis, além de desenvolvidas e transmitidas dentro de um círculo de magos profissionais. E, claro, deveríamos incluí-la por princípio. Isso porque a magia, e práticas que, no aspecto relevante, não diferem fundamentalmente da magia, às vezes se aproximam do que o homem moderno reconhece como procedimento científico por passos imperceptíveis: a astrologia era companheira da astronomia até o início do século XVII. Há, no entanto, outra razão ainda mais convincente. A exclusão de qualquer tipo de conhecimento moldado por ferramentas equivaleria a declarar nossos próprios padrões como absolutamente válidos para todos os tempos e lugares. Mas isso não podemos fazer.

Na prática, de fato, não temos escolha a não ser interpretar e avaliar cada fragmento do conhecimento técnico, passado e presente, à luz de nossos padrões, já que não temos outros. Eles são os resultados de um desenvolvimento de mais de seis séculos, durante os quais o domínio dos procedimentos ou técnicas cientificamente admissíveis foi cada vez mais restringido, no sentido de que cada vez mais procedimentos ou técnicas foram descartados como inadmissíveis. Referimo-nos a esse domínio criticamente restrito apenas quando falamos de ciência ‘moderna’, ‘empírica’ ou ‘positiva’. Suas regras de procedimento diferem em diferentes áreas da ciência e, como já vimos acima, nunca estão isentas de dúvida. De forma geral, no entanto, elas podem ser descritas por duas características salientes: reduzem os fatos que somos convidados a aceitar com base em fundamentos científicos à categoria mais restrita de ‘fatos verificáveis ​​por observação ou experimento’; e reduzem o leque de métodos admissíveis à “inferência lógica a partir de fatos verificáveis”. Doravante, adotaremos esse ponto de vista da ciência empírica, pelo menos na medida em que seus princípios sejam reconhecidos na economia.

Mas, ao fazê-lo, devemos ter em mente o seguinte: embora interpretemos doutrinas a partir desse ponto de vista, não reivindicamos nenhuma validade “absoluta” para elas; e embora, raciocinando a partir desse ponto de vista, possamos descrever quaisquer proposições ou métodos como inválidos — sempre, é claro, levando em consideração as condições históricas em que foram formulados —, não as excluímos de forma definitiva do âmbito do pensamento científico no nosso sentido original (mais amplo) da palavra ou, para dizer de outra forma, negar-lhes o caráter científico — que deve ser avaliado, se for o caso, de acordo com os padrões ‘profissionais’ de cada época e lugar. [Como alguns fazem hoje, declarando tal ou tal abordagem como pseudociência].

Em segundo lugar, nossa definição original (“conhecimento adquirido por meio de ferramentas”) indica a razão pela qual, em geral, é impossível datar — mesmo por décadas — as origens, quanto mais a “fundação”, de uma ciência, distinguindo-a das origens de um método específico ou da fundação de uma “escola”. Assim como as ciências crescem por meio de um lento acréscimo, quando esses acréscimos surgem, eles também emergem por lentos acréscimos, diferenciando-se gradualmente, sob a influência de condições ambientais e pessoais favoráveis ​​e inibidoras, sob o seu pano de fundo de senso comum e, às vezes, também, dos acréscimos em outras ciências.

A pesquisa sobre o passado, esclarecendo essas condições, pode reduzir, e de fato reduz, o intervalo de tempo dentro do qual é, em cada caso, igualmente justificável afirmar ou negar a existência de um corpo específico de conhecimento científico. Mas nenhuma quantidade de pesquisa pode eliminar completamente uma zona de dúvida ampliada pela equação pessoal do historiador. No que diz respeito à economia, apenas preconceitos ou ignorância podem explicar afirmações como a de que A. Smith, F. Quesnay, Sir William Petty ou qualquer outro "fundou" essa ciência, ou que o historiador deveria começar seu relato com um deles. Mas é preciso admitir que a economia constitui um caso particularmente difícil, porque o conhecimento de senso comum, nesse campo, vai muito além do conhecimento científico que conseguimos alcançar, em comparação com quase qualquer outro campo.

O conhecimento leigo de que colheitas abundantes estão associadas a preços baixos de alimentos ou que a divisão do trabalho aumenta a eficiência do processo produtivo é obviamente pré-científico, e é absurdo apontar tais afirmações em escritos antigos como se incorporassem descobertas. O aparato primitivo da teoria da oferta e da demanda é científico. Mas a conquista científica é tão modesta, e o senso comum e o conhecimento científico são logicamente tão próximos nesse caso, que qualquer afirmação sobre o ponto preciso em que um se transformou no outro deve, necessariamente, permanecer arbitrária.

Em terceiro lugar, nossa definição nada implica sobre os motivos que impulsionam os homens a se esforçarem para aprimorar o conhecimento existente em qualquer área. Retornaremos a esse assunto em outro contexto. Por ora, observamos apenas que o caráter científico de uma determinada análise é independente do motivo pelo qual ela é realizada. Por exemplo, a pesquisa bacteriológica é pesquisa científica e não faz diferença para seus procedimentos se o pesquisador a realiza com um propósito médico ou qualquer outro. Da mesma forma, se um economista investiga as práticas de especulação por métodos que atendem aos padrões científicos de sua época e contexto, os resultados farão parte do acervo científico do conhecimento econômico, independentemente de ele desejar usá-los para recomendar legislação regulatória, para defender a especulação contra tal legislação ou simplesmente para satisfazer sua curiosidade intelectual. A menos que ele permita que seu propósito distorça seus fatos ou seu raciocínio, não há razão para nos recusarmos a aceitar seus resultados ou negarmos seu caráter científico sob a alegação de que desaprovamos seu propósito. Isso implica que quaisquer argumentos de caráter científico produzidos por "defensores especiais" — sejam eles pagos ou não por produzi-los — são para nós tão bons ou ruins quanto os de "filósofos imparciais", se é que esta última espécie de fato existe. Lembre-se: ocasionalmente, pode ser interessante perguntar por que um homem diz o que diz; mas, seja qual for a resposta, ela não nos diz nada sobre se o que ele diz é verdadeiro ou falso. Não damos crédito ao artifício barato da guerra política [ideológica]... de argumentar sobre uma proposição atacando ou exaltando os motivos do homem que a patrocina ou o interesse a favor ou contra o qual a proposição parece falar [isso é dar um caráter moral à análise econômica e determinar que só é verdadeira a análise moralmente correta, de acordo com os valores de quem a julga (= ultrapersonalização da análise científica) o que é um absurdo lógico e a essência da anticiência, posto que a natureza é amoral) algo muito comum entre os pensadores marxistas].

Notas

A ausência de absolutos no conhecimento científico

A melhor maneira de nos convencermos disso é observar que nossas regras de procedimento são, e presumivelmente sempre serão, sujeitas a controvérsias e em constante mudança. Considere, por exemplo, o seguinte caso. Ninguém provou que todo número par pode ser expresso como a soma de dois números primos, embora nenhum número par que não possa ser expresso dessa forma tenha sido descoberto até agora. Suponha agora que essa proposição leve, algum dia, a uma contradição com outra proposição que concordamos em aceitar. Disso se seguiria que existe um número par que não é a soma de dois primos? Matemáticos "clássicos" responderiam que sim, matemáticos "intuicionistas" (como Kronecker e Brouwer) responderiam que não; ou seja, os primeiros admitem e os últimos se recusam a admitir a validade do que se chama de provas indiretas de teoremas de existência, amplamente utilizadas em diversas áreas, inclusive na economia pura. Evidentemente, a mera possibilidade de tal divergência de opiniões sobre o que constitui uma prova válida basta para demonstrar, entre outras coisas, que nossas próprias regras não podem ser aceitas como a palavra final sobre o procedimento científico.

A origem do pensamento científico ocidental

Esta estimativa refere-se apenas à Civilização Ocidental e, além disso, leva em conta os desenvolvimentos gregos somente na medida em que entraram no pensamento científico da Europa Ocidental a partir do século XIII, como uma herança, mas não os desenvolvimentos em si. Como ponto de referência, escolhemos a Suma Teológica de São Tomás de Aquino, que exclui a revelação das philosophicae disciplinae, isto é, de todas as ciências, exceto a teologia sobrenatural (sacra doctrina; a teologia natural é uma das philosophicae disciplinae). Este foi o primeiro e mais importante passo na crítica metodológica dado na Europa após o colapso do mundo greco-romano. Será mostrado adiante como a exclusão da revelação de todas as ciências, exceto as sacra doctrina, foi combinada por São Tomás com a exclusão, nessas ciências, do apelo à autoridade como um método científico admissível.

[Podemos, neste ponto, colocar uma interessante definição de conhecimento científico originado das discussões sobre o pensamento do epistemólogo suíço Jean Piaget, feitas pelo professor Lauro O. Lima: o conhecimento científico é um conhecimento construído historicamente, pactuado ou negociado a partir de certas premissas, que nunca são uma construção pessoal, e mesmo a pessoa que atinge altos rangos na comunidade acadêmica só os atinge a partir de uma composição ou acordo com essa comunidade].

[O prof. Lauro O. Lima tinha uma interessante definição de ciências: “Um cemitério de ideias”].

A importância da linguagem especializada

Permitam-me acrescentar de imediato que, dentro de tais grupos de pesquisadores, certamente se desenvolverá uma linguagem especializada que se tornará cada vez mais incompreensível para o público leigo. Esse artifício para economizar esforço poderia até ser usado como critério para reconhecer a presença de uma ciência, não fosse o fato de que, muitas vezes, ele é adotado somente muito tempo após uma ciência, em nosso sentido, ter atingido um tamanho respeitável, sob a pressão do intolerável inconveniente de usar conceitos da vida cotidiana que servem apenas de forma inadequada aos propósitos da análise. Os economistas, em particular, para grande prejuízo da sua área, têm atribuído uma importância excessiva a serem compreendidos pelo público em geral, enquanto esse público, ainda hoje, demonstra um ressentimento igualmente irracional em relação a qualquer tentativa de adotar um comportamento mais racional [logo, para ficar no nível do público é preciso mesclar o discurso científico de uma boa dose de irracionalidade, que seria, em sentido amplo e guardadas as devidas proporções, o oposto do que a ciência procura].

(Traduzido de History of Economic Analysis, de Joseph Alois Schumpeter)


segunda-feira, 16 de março de 2026

TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 1

Por que é importante estudar história do pensamento econômico?

"Em primeiro lugar, professores ou alunos que tentam agir com base na teoria de que o tratado mais recente é tudo o que precisam logo descobrirão que estão complicando as coisas desnecessariamente. A menos que esse tratado recente apresente um mínimo de aspectos históricos, nenhuma quantidade de correção, originalidade, rigor ou elegância impedirá que uma sensação de falta de direção e significado se faça presente. Isso ocorre porque, seja qual for a área, os problemas e métodos em uso em um dado momento incorporam as conquistas e carregam as marcas de trabalhos realizados no passado sob condições completamente diferentes.

O significado e a validade tanto dos problemas quanto dos métodos não podem ser plenamente compreendidos sem o conhecimento dos problemas e métodos anteriores dos quais eles [o significado e a validade] são a resposta (provisória). A análise científica não é simplesmente um processo logicamente consistente que começa com algumas noções primitivas e depois adiciona novas informações de forma linear. Não é simplesmente a descoberta progressiva de uma realidade objetiva — como, por exemplo, a descoberta na bacia do Congo. Trata-se, antes, de uma luta incessante com as criações de nossas próprias mentes e das mentes de nossos predecessores, e esse "progresso", quando ocorre, se dá de forma entrecruzada, não por lógica, mas pelo impacto de novas ideias, observações ou necessidades, e também conforme ditam as inclinações e temperamentos de novos homens [teoria da mudança de paradigma de Khun, aparecida depois de Schumpeter].

Portanto, qualquer tratado que tente apresentar "o estado atual da ciência" na verdade apresenta métodos, problemas e resultados que são historicamente condicionados e só fazem sentido em referência ao contexto histórico em que surgiram. Para dizer a mesma coisa de outra forma: o estado de qualquer ciência em um dado momento implica sua história passada e não pode ser satisfatoriamente transmitido sem tornar essa história implícita explícita. Permitam-me acrescentar desde já que esse aspecto pedagógico será levado em consideração ao longo de todo o livro e que guiará a escolha do material para discussão, por vezes em detrimento de outros igualmente importantes.

Em segundo lugar, nossas mentes são capazes de extrair novas inspirações do estudo da história da ciência. Algumas o fazem mais do que outras, mas provavelmente poucos são os que não extraem dela qualquer benefício. A mente de um homem deve ser de fato lenta se, ao se distanciar do trabalho de seu tempo e contemplar as vastas cadeias de montanhas do pensamento passado, ele não experimentar uma expansão de seus próprios horizontes...

Mas, além da inspiração, cada um de nós pode colher lições da história de sua ciência que são úteis, ainda que às vezes desencorajadoras. Aprendemos sobre a futilidade e a fertilidade das controvérsias; sobre desvios, esforços desperdiçados e becos sem saída; sobre períodos de crescimento interrompido, sobre nossa dependência do acaso, sobre como não fazer as coisas, sobre as margens de manobra a serem compensadas. Aprendemos a entender por que estamos onde estamos e também por que não estamos mais longe. E aprendemos o que funciona, como e por quê — uma questão à qual daremos atenção ao longo deste livro.

Em terceiro lugar, a maior afirmação que se pode fazer sobre a história de qualquer ciência, ou da ciência em geral, é que ela nos ensina muito sobre os caminhos da mente humana. Certamente, o material que apresenta diz respeito apenas a um tipo específico de atividade intelectual. Mas, dentro desse campo, suas evidências são quase idealmente completas. Ela demonstra a lógica no concreto, a lógica em ação, a lógica aliada à visão e ao propósito. Qualquer campo da ação humana demonstra a mente humana em funcionamento, mas em nenhum outro campo chegamos tão próximo dos métodos reais de trabalho, porque em nenhum outro campo as pessoas se dão tanto ao trabalho de relatar seus processos mentais. Diferentes homens se comportaram de maneiras diferentes a esse respeito. Alguns, como Huygens, foram francos e diretos; outros, como Newton, foram reservados. Mas mesmo os cientistas mais reservados são obrigados a revelar seus processos mentais, porque o desempenho científico — ao contrário do político — é autorrevelador por natureza. É principalmente por essa razão que se reconheceu muitas vezes — de Whewell e J.S. Mill a Wundt e Dewey — que a ciência geral da ciência (a Wissenschaftslehre alemã) não é apenas lógica aplicada, mas também um laboratório para a própria lógica pura. Ou seja, os hábitos ou regras de procedimento científicos não devem ser julgados meramente por padrões lógicos que existem independentemente deles; eles contribuem para esses padrões lógicos e reagem a eles...

Em quarto lugar, é razoável supor que os argumentos precedentes, pelo menos os apresentados nos dois primeiros tópicos, se aplicam com ainda mais força ao caso específico da economia. Analisaremos em breve as implicações do fato óbvio de que o objeto de estudo da economia é, em si, um processo histórico único... de modo que, em grande medida, a economia de diferentes épocas lida com conjuntos distintos de fatos e problemas. Só esse fato já seria suficiente para aumentar o interesse pela história da doutrina econômica. Mas vamos descartá-lo por enquanto para evitar repetições e enfatizar outro fato.

Veremos que à economia científica não falta continuidade histórica. Na verdade, nosso principal objetivo é descrever o que pode ser chamado de processo de Filiação de Ideias Científicas — o processo pelo qual os esforços humanos para compreender os fenômenos econômicos produzem, aprimoram e destroem estruturas analíticas em uma sequência incessante. E uma das principais teses a serem estabelecidas neste livro é que, fundamentalmente, esse processo não difere dos processos análogos em outros campos do conhecimento. Mas, por razões que também pretendemos esclarecer, essa filiação de ideias encontrou mais inibições em nossa área do que em quase todas as outras.

Poucas pessoas... estão dispostas a nos parabenizar por nossas conquistas intelectuais. Além disso, nosso desempenho é, e sempre foi, não apenas modesto, mas também desorganizado. Métodos de apuração e análise de fatos que são e eram considerados inadequados ou equivocados por princípio por alguns de nós prevalecem e prevaleceram amplamente sobre outros. Embora seja possível — como tentarei demonstrar — falar em nome de cada época da opinião profissional estabelecida sobre temas científicos, e embora essa opinião muitas vezes tenha resistido ao teste de resistência contra fortes divergências políticas, não podemos falar com a mesma segurança que os físicos ou os matemáticos...

E o remédio óbvio para as deficiências das obras de síntese é o estudo da história doutrinária: muito mais do que na física, por exemplo, é verdade que na economia os problemas, métodos e resultados modernos não podem ser plenamente compreendidos sem algum conhecimento de como os economistas chegaram ao seu raciocínio. Além disso, muito mais do que na física, resultados se perderam ao longo do caminho ou permaneceram em suspenso por séculos... Sugestões estimulantes e lições úteis, ainda que desconcertantes, têm muito mais probabilidade de chegar ao economista que estuda a história de sua ciência do que ao físico que, em geral, pode contar com o fato de que quase nada de valioso se perdeu do trabalho de seus antecessores. Por que, então, não começar de uma vez outra história de conquista intelectual?”