sábado, 20 de junho de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER
A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA - 26

A nau dos insensatos (I)

Embora Canudos seja um dos temas mais recorrentes na História do Brasil, é notável o quanto os autores, inclusive consagrados, erram na apresentação de fatos elementares sobre o assunto. O que isso significa? Talvez indiferença pela pesquisa, talvez uma credulidade ingênua, reflexo da síndrome de Os Sertões, que fez muitos acreditarem que ali estava tudo que se precisava saber sobre o tema. É estranho!

Seja como for, os dados que aparecem são confusos, quando não errados, e as conclusões, por vezes, não fazem o menor sentido. Helio Silva, que em seu livro Os civis no poder, p. 52–53 (edição online), escreveu assim:

“Prudente de Morais sofrera todo o impacto da Guerra de Canudos…

Um de seus últimos atos fora o de mandar chamar ao Rio de Janeiro o Cel. Moreira César, encarregando-o da nova expedição a Canudos… coube a Manuel Vitorino ultimar as providências iniciadas.”

E mesmo Marco Antônio Villa, muito bem fundamentado, não se sai melhor nesse trecho de Canudos o povo da terra, 3ª edição, São Paulo, 1999, p. 57.

“Moreira Cesar… no trajeto do Rio de Janeiro a Salvador, começou a agir de forma descontrolada. No terceiro dia da viagem, passou a desconfiar do comandante… e que haveria um plano para atrasar a chegada… Resolveu prender o capitão… Só o libertando quando se aproximaram da capital baiana.”

Infelizmente, há reparos a serem feitos nessas duas afirmações.

Prudente não tem nada a ver com a expedição de Moreira Cesar a Canudos, pois havia uma missão mais importante para ele no Rio, para a qual Prudente o chamara: preservar a legalidade — a situação era, e manteve-se, tão preocupante nesse período, que, embora a polícia do Rio fosse uma das mais bem treinadas e armadas do país, não mandou tropa a Canudos. Ficou no Rio para proteger o presidente, talvez do próprio Exército!  

A linha do tempo mostra que a ida de Moreira Cesar ao Rio de Janeiro nada tem a ver com Canudos.

Dia 28 de outubro de 1896 — chega, ao governador Luís Viana, BA, o primeiro telegrama do juiz Arlindo Leoni, de Juazeiro, solicitando ajuda contra os conselheiristas.

Dia 1º de novembro — Moreira César parte de Florianópolis para o Rio de Janeiro.

Dia 3 de novembro — Moreira César chega ao Rio.

Dia 4 de novembro — chega um segundo telegrama do juiz de Juazeiro, insistindo no envio de tropa.

Dia 6 de novembro — uma força de 113 militares, comandada pelo tenente Manuel Pires Ferreira, autorizada pelo ministro da guerra Dionísio Cerqueira, certamente do conhecimento de Prudente de Moraes, parte de Salvador para proteger Juazeiro.

Dia 10 de novembro — Prudente de Moraes passa o cargo para Manuel Vitorino e se retira de licença.

Dia 21 de novembro — a força sob o comando do tenente Pires Ferreira, que marchou contra Canudos, é atacada em Uauá. Começa a guerra.

Portanto, quem nomeou César para atacar Canudos na 3ª Expedição, por razões políticas, foi exclusivamente Manuel Vitorino, um dos principais responsáveis por essa tragédia.

A confiança de Prudente de Morais em Moreira César era antiga. Numa carta de 22 de dezembro de 1889 a Benjamin Constant, então ministro da guerra de Deodoro, Prudente lhe solicita a cessão de Moreira César para comandar o Corpo Policial de São Paulo, porque ele:

Reúne todas as condições… é inteligente, criterioso, tem curso, é paulista e dedicado à causa da república. (Epaminondas Ferraz, Defesa Nacional, Nº 639, p. 51).  

Como nessa época ele estava no Mato Grosso e não podia assumir logo, Prudente escolheu outro.

O que explica a ida de Moreira César ao Rio era a necessidade de Prudente de Morais se submeter a uma cirurgia com risco de morte altíssimo, seguida de uma longa e delicada convalescença, que o obrigaria a transmitir o cargo ao vice Manuel Vitorino e aos seus florianistas radicais.

Prudente e aliados sabiam que a simples presença de Moreira Cesar na capital dissuadiria os aventureiros contra qualquer tentativa de tomada do poder. Mas foi na viagem de Moreira César de Santa Catarina para o Rio que houve um incidente estranho no navio que o transportava: o vapor Itaipú, da Companhia Nacional de Navegação Costeira, da família Lage, que Euclides da Cunha narra de uma forma execrável.

Em pleno mar, com surpresa dos próprios companheiros, prende o comandante. Assaltara-o — sem que para tal houvesse o mínimo pretexto — a suspeita de uma traição, um desvio na rota, adrede disposto para o prender e aos soldados. O ato seria absolutamente inexplicável se não o caracterizássemos como aspecto particular da desorganização psíquica que o vitimava. Não lhe diminuiu, contudo, o prestígio [Isso não é estranho?] (Os Sertões, Fundação Darcy Ribeiro, Rio de Janeiro, 2013, p. 297).

Os destaques são todos meus.

Entretanto, há uma narrativa sólida, circunstanciada, que desmente essa invenção euclidiana, feita por um jornalista de O Paiz, que, na primeira página da edição do dia 4 de novembro de 1896, no artigo DESEMBARQUE DO 7º, relata, a partir de Florianópolis:

Essas alegrias [a festa que os florianopolitanos fizeram no seu embarque, e que o jornalista chama de “delírio”]… começaram a ser toldadas por um fato excepcional… quando em pleno oceano.

A hora marcada para a partida foi demorada, a pretexto de que o navio precisava carregar mais algumas reses [proteína fresca], não obstante estar provido de todas as munições de boca [alimentação].

O coronel Moreira Cesar insistiu para que o Itaipú levantasse ferro, e essa insistência só produziu efeito quando ele a revestiu do tom solene de uma ordem imperativa”.

Resumindo: o navio atrasa a sua saída porque o capitão está enchendo o porão de comida extra, só iniciando a viagem após uma ordem severa do coronel! Continua o jornalista:

“O pretexto para uma demora injustificada à saída do navio o aconselhou talvez a ficar… atento à navegação da costa, ao demais muito sua conhecida.

Desconfiado da rota… o coronel Moreira Cesar consultou a própria carta geográfica do navio, consultou o rumo que lhe aparecia indicado, e viu então [pelos instrumentos] que o navio ia a caminho do leste, mais e mais se amarando [indo para o alto-mar].”

O navio seguia na direção do continente africano — isso explica a preocupação do comandante em encher os porões de comida, mostrando que a sua ação era premeditada!

"[O coronel] observou calmamente o fato ao comandante [meu destaque], e este, por entre evasivas, acabou por confessar que o coronel Moreira Cesar tinha razão, e que ia pôr o paquete a caminho.

Efetivamente mudou de rumo, mas dessa vez andando para o sul [o Rio de Janeiro ficava ao norte], como se o navio tivesse que arribar ao próprio porto de saída.

Desde então, o coronel considerou o caso digno de enérgica providência e prendeu o comandante do Itaipu, com sentinelas à vista [um soldado o vigiaria no seu camarote, com a porta sempre aberta].

O Itaipú navegou então à conta da pilotagem de bordo, sob a máxima vigilância dos oficiais do 7º e das suas praças [meu destaque]."

Assim chegou ao seu destino. Algumas perguntas:

a) Ele tinha ou não motivos para intervir no navio?

b) O jornalista diz que oficiais e soldados se revezavam na vigilância da ponte de comando, onde estavam os instrumentos de navegação, o piloto e demais operadores do navio. Como Euclides diz que os oficiais ficaram surpresos com a intervenção de Moreira César?

c) Ele mostrou-se capaz de ler as cartas náuticas, conferir a rota pelos instrumentos e levar o navio até o seu destino. Isso é exemplo de alguém ignorante e descontrolado, em desorganização psíquica, como Euclides sugere, ou antes de uma pessoa de inteligência aguçada e abrangente?

Aparentemente, foi ele quem levou o navio até o Rio de Janeiro e, provavelmente, com a cidade à vista, deve ter devolvido o comando para o capitão.

O navio chegou às 7 h da manhã do dia 3 de novembro, em meio a uma neblina, entre as fortalezas de Santa Cruz e São João, onde irromperam estrepitosas as primeiras saudações ao 7º batalhão de infantaria, sob o comando do bravo coronel Moreira Cesar, segundo O Paiz.

Antes mesmo de o navio atracar, subiram a bordo para cumprimentá-lo:

O coronel Bento Thomaz Gonçalves, comandante do 22º BI [lembram-se do Apulco?], alferes Bentes representando o ministro da guerra, tenente Lins… major Polycarpo, Comissão do Clube Militar, vários outros cavalheiros, oficiais de muitos corpos da guarnição [da polícia do Rio de Janeiro] e um representante de O Paiz.

No Arsenal de Guerra [que tinha um trapiche] havia uma multidão compacta, aguardando o desembarque do batalhão, que foi recebido com estrepitosos vivas…

Bandas de música do 22º e do 24º de infantaria e as duas da brigada policial tocavam o hino nacional, quando, por entre abraços disputados, o bravo comandante e seus oficiais puseram o pé em terra.

Entre as pessoas presentes em terra estavam:

O general Paulo Argolo [meu destaque] e o seu ajudante de ordem; alferes Duarte Bentes, representando o ministro da guerra; comandantes do 1º, do 22º, do 24º, e toda oficialidade [desses batalhões]; comandante do 26º, Francisco Felix; coronel Travassos; coronel Jardim, comandante dos bombeiros; tenente-coronel Ilha Moreira; João Clapp [esse comerciante, foi um benemérito presidente da Confederação Abolicionista e investiu dinheiro de sua empresa para criar centros para educar os ex-escravos, reforçando o testemunho de Patrocínio de que Moreira Cesar apoiou a luta pelo abolicionismo]; Senador Esteves Junior [Santa Catarina]; deputado Emilio Blum [federal, por Santa Catarina]; Luiz Arthur, representando o ‘general’ Glicério [um político civil]; comissão do Clube Militar [e muitos outros].

Compareceu também uma estudantada ruidosa da Escola Militar, mostrando a dimensão do seu prestígio…

Caro leitor: tem a mínima condição de alguém que carregava o peso de ter massacrado tanta gente da mais alta sociedade catarinense, e até um heroico marechal do Exército, por simples capricho, ser recebido dessa maneira? Por que as principais autoridades militares e importantes políticos iriam comparecer ou mandar representantes para recepcionar o assassino grosseiro e compulsivo de Euclides da Cunha?

Mas as comemorações não terminaram por aí:

“Depois de receber os cumprimentos dos generais Argolo e Cantuária [João Tomás de Cantuária, um heroico participante da Retirada da Laguna]."

O batalhão desfilou por diversas ruas próximas ao Arsenal:

“Trazendo à frente as bandas do 1º e 24º batalhões, o 7º percorreu as ruas… recebendo palmas e aclamações entusiásticas… essas manifestações calorosas subiram de ponto quando o batalhão passou em frente à Escola Politécnica, cujos alunos os receberam com palmas e vivas frenéticos.

As janelas do quartel-general estavam repletas de militares e civis, que acenavam com lenços, saudando os valentes soldados.

Deu-se-lhe pequeno repouso, depois do qual ele desfilou de novo para o morro de Santo Antônio [onde ficava a sua sede]… Marchou seguido das bandas do 22º e as da Brigada Policial e com uma imensa cauda de povo [marchando atrás]

Acompanharam o 7º a cavalo os comandantes do 22º e do 1º de cavalaria e a pé os do 24º e do 1º de infantaria.

Às 4 horas da tarde, um grande grupo de patriotas, à frente do qual ia o major Dias Jacaré, precedido da banda de música do 23º, foi ao quartel do 7º saudá-lo e ao seu comandante”.

Tem mais!

É grato noticiar que o comandante em chefe da esquadrilha argentina, quando de passagem por Florianópolis, assistiu a um longo exercício deste corpo [o 7º B.I.], após o qual manifestou verdadeira admiração, porque (palavras textuais) viu em cada soldado um modelo de disciplina e um atirador dos mais completos.

Como um homem “desequilibrado”, dominado por um “demônio crudelíssimo”, conseguiria tal feito? Como é que uma tropa dessas, uma unidade de elite do Exército Nacional, promoverá, poucos meses depois, uma das páginas mais infames da história do Exército Brasileiro, até ser extinta em 1908? Será que nos esconderam algo?

E o incidente no Itaipu? A solução encontrada pela autoridade competente foi, no mínimo, 'estranha'. Eis o que diz o jornal Cidade do Rio, de José do Patrocínio, na edição de 6 de novembro de 1896, no artigo ITAIPÚ, na primeira página:

“Sobre o caso do vapor Itaipú, consta que o governo mandou abrir um inquérito…

Deve ser um caso bem difícil de chegar à evidência, atendendo-se ao fato de que duas ordens de testemunhas poderão depor.

A prova que foi colhida de um lado, contra o comandante do navio, ficará imediatamente destruída apenas tenham deposto as testemunhas da guarnição do navio.

O inquérito, nesta hipótese, apurará, em vez de um, dois únicos responsáveis: o sr. coronel Moreira Cesar e o comandante do Itaipú.

É edificante!”

A armação do circo é clara: o comandante será responsabilizado por imperícia e o coronel por motim. Fica a palavra de um contra a do outro, e não dará em nada para nenhum dos dois. A sentença, é claro, saiu depois que Prudente licenciou-se, com o vice já no poder.

Esse episódio deixa patente a estratégia dos florianistas contra César: tratá-lo como a um tolo e, se ele reagir, apontá-lo como mentalmente desequilibrado, embora nesse momento ainda esperassem cooptá-lo para a causa. No caso do Itaipu, ou ele ficava vagando pelo Oceano Atlântico, até chegar ao Rio muito tempo depois, desmoralizado, ou ele tomaria a direção do barco, para conduzir a viagem ao seu desfecho, e então seria tratado como um louco, um descontrolado, como faz Euclides da Cunha.

Mas haveria outra festa ainda maior, para o coronel, e desta até os florianistas participariam.

Eduardo Simões


quinta-feira, 18 de junho de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER
A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA - 25

Um rio de sangue flui de Floriano Vieira Peixoto (1839–1895).

Floriano, parece, teve uma grande meta na vida: não deixar que ninguém soubesse o que ele pensava. Se é que havia algo dentro dele, além de uma sede instintiva de poder associada a um exacerbado instinto de sobrevivência, que o guiou, implacavelmente, aos mais altos postos do poder. A sua frase preferida, dita ao final de uma reunião conspiratória singular, era: “confiar desconfiando” (veja Hélio Silva, 1889, p. 109–110). Ela se tornou o lema entre os seus simpatizantes.

O seu discurso político era genérico, recheado de colocações ambíguas, aleatórias, pseudopatriotas, repletas de lugares comuns, conclamações e denúncias de conspirações secretas, que ninguém, fora ele, conseguia ver. Um estado de delírio permanente, que justificava as mais ferozes medidas, algumas feitas ao arrepio da lei, à qual Floriano, com a mais compenetrada e teatral seriedade, dizia estar defendendo. É antigo o sucesso dessa estratégia em nosso país, mesmo após tantos anos!

Alcançou o mais alto cargo de confiança no Exército Imperial e daí saiu, quase diretamente, para ser a principal liderança do movimento republicano, um 'herói por acaso' ou 'homem providencial', que impediu um banho de sangue no dia 15. Algo meritório, por meio de uma traição nada meritória, sobre uma possibilidade altamente improvável: resistência armada ao golpe. Mas todos acreditaram.

Seus movimentos na direção do poder eram marcados por manobras diversionistas, enganos, emboscadas e traições. Começava um movimento para um lado, para acabá-lo no extremo oposto. Nem se preocupava em criar desculpas pelas mudanças, como se sempre tivesse defendido a última opção, ou que mostrasse um mínimo de respeito à inteligência alheia. Ele usava as pessoas e sabia explorar como poucos as fraquezas humanas, em especial o medo e a busca por prestígio. Os que o conheceram bem, ou se fanatizaram ou se horrorizaram.

Era implacável em seus movimentos e decisões, e, se o seu corpo não era de ferro, o seu coração certamente o era. Quem o enfrentasse seria esmagado, de preferência por um de seus adeptos, porque ele, da mesma forma que não caía pela língua, costumava não deixar suas digitais nos crimes que se cometiam e que, no final, o beneficiavam. Mas também é verdade que premiava regiamente, com recursos públicos, seus mais próximos serviçais.

Seu projeto de poder era estritamente pessoal, familiar, espelhado no caudilhismo sul-americano e na sua desconfiança contra todos. Agia ao sabor da ocasião, no sentido de se preservar ou ampliar o seu poder. Se podia consegui-lo cumprindo a lei, cumpria-a, mas se não… não hesitava. E, apesar de nunca ter sido republicano, tornou-se a maior liderança republicana da ocasião, sem nenhum projeto para o país. Mas isso, entre nós, é uma virtude extraplanetária.

 A repressão aos que se lhe opunham foi feita em nome do combate à restauração monárquica, que nunca existiu como um coletivo, levou-o a comprar uma frota de sucatas, após haver perdido a marinha oficial para a oposição. Isso agravou a crise econômica, que ele despistou com o controle dos aluguéis, do preço de alimentos, ao sabor do momento, mas que lhe angariou a simpatia incondicional de um povo sedento de circo, ainda que falto de pão, como se tudo não passasse de um teatro de sombras.

Sua necessidade de vingança era imensa, alimentada por uma memória de paquiderme. Não esquecia nem perdoava quem lhe interpunha o passo, e tinha o cuidado de passar isso aos seus adeptos, embora, ao contrário destes, nunca perdesse o controle de suas emoções. Só expressava o que queria. A sua memória era a memória do seu movimento. E sua ação manifestava-se por momentos de paz e confiança, seguido do golpe súbito, inesperado, após movimentos de cerco meticulosamente executados, de modo a colocar a vítima numa posição em que não pudesse reagir. Sempre havia uma estratégia repleta de manobras diversionistas, nas quais Pinheiro Machado era mestre.

O pior legado de Floriano, por conseguinte, foi a criação de grupos apaixonados de civis e militares, que se infiltraram no Estado para apoiar o seu projeto ditatorial ou agir em seu nome, à revelia da lei. A ação mais bem-sucedida desses grupos foi angariar apoio e recursos para o massacre de Canudos, para o qual partiram com muita gana, e do qual se afastaram, como de vestes pestilentas, depois que perceberam a forte repulsa da nação ao que aconteceu. E aí passaram a acusar Prudente de Morais pelo ocorrido e a defender os canudenses. A sua maior cartada foi a tentativa de assassinato do presidente, e a última, da primeira geração de florianistas, a Revolta da Vacina, de 1904, quando mostraram até onde eram capazes de ir com o seu oportunismo. Apareceram em episódios recentes, sob nova roupagem, mas os mesmos métodos.

Não se envergonhavam em comemorar acintosamente o fim de seus adversários, como aconteceu na morte do almirante Saldanha da Gama. Luzes, gritos, algazarras, festas regadas a cachaças ou champanhes importados, além de peças improvisadas em teatros baratos, foram noticiadas nas ruas e mansões chiques do Rio de Janeiro. Os castilhistas ocultaram o corpo do almirante Saldanha para impedir seu sepultamento. Que apodrecessem ao relento! Como aconteceu em Canudos.

 Os florianistas ainda exultavam com a morte de Saldanha da Gama quando, 5 dias depois, em 29 de junho de 1895, emudeceram acachapados. Na localidade de Divisa, fronteira sul do estado do Rio de Janeiro, a morte tirou-lhes o ídolo.

 Esse fato natural, porém, criou neles um ressentimento profundo contra todos aqueles que, de alguma forma, haviam contrariado o marechal, como Prudente de Morais e Moreira César, que se opuseram à continuidade do seu poder pessoal.

            O renomado jornalista Luís Edmundo, que viveu nessa época, testemunhou o seguinte, no dia 6 de julho, quando foi realizado o sepultamento:

“Nem pelos dias reservados às cerimônias religiosas da Paixão de Cristo o Rio de Janeiro apresentava uma aparência assim, tão cheia de desconsolo e tristeza. Toda uma multidão silenciosa e abatida, desde cedo, havia saído para a rua. Não havia nas lojas dos floristas uma só rosa… para vender [apesar da vinda de carregamentos colossais da Serra Fluminense]… Muito antes da hora marcada para o começo das exéquias, o povo já havia obstruído completamente os logradouros mais próximos ao templo de onde deveria sair o ataúde… em direção ao cemitério… Um terço dos moradores da cidade, ou talvez mais, assistiu à solene passagem desse cortejo que levou horas e horas a desfilar. (…). Vi homens de joelhos pelas ruas, senhoras que choravam. (…). Jamais uma romaria cívica, até hoje, logrou, que eu saiba, uma imponência igual. (…). Para se ter uma pequena ideia… basta lembrar que, no momento em que chegava à porta do Campo Santo [cemitério São João Batista], o ataúde que conduziu o corpo… a larga fila dos que o acompanhavam… ainda era vista pelo Largo da Glória, entrando pela Rua do Catete [cerca de 8,4 km]” (citado pelo almirante de esquadra Fonseca Hermes, Os militares e a política durante a república Prudente José de Morais e Barros, parte XXXII, RMB, 2ºT, 2000, p. 32–33).

Como era um evento florianista, os discursos proferidos à beira do seu túmulo são violentos e sobejamente acusatórios — entre eles o do escritor Raul Pompeia (12) — terminando com vivas a Floriano e morras a Prudente. Com os ânimos insuflados, os jacobinos, em seguida, se envolvem em furiosos combates com a cavalaria da polícia. No dia da morte de Floriano, um grupo de pessoas, encabeçado por deputados florianistas, vai ao Chefe de Polícia impor que os teatros em funcionamento fechem as portas, em luto, no que são atendidos. Nessa mesma noite, um grupo deles atacou cadetes da Marinha que comemoravam num restaurante, havendo tiros, pedradas e gente ferida. Dez dias depois, florianistas inconformados porque o jornal de Patrocínio não hasteava a bandeira a meio mastro, atacaram a tiros a sua sede, sendo recebidos à bala. Patrocínio teve que fugir do Rio. 

Só a dor deles merecia respeito, e respeito extremo. A dos outros podia ser selvagemente pisoteada.  

Com Floriano, os brasileiros experimentaram o regime que mais se aproximou do totalitarismo, e parece que gostaram, pelo menos os que sobreviveram.

E ele foi floriano até o final, ao dizer que queria ser sepultado ali mesmo, na pequena cidade de Divisa, mas a família e os amigos não o permitiriam, e lhe ergueram um belo mausoléu no cemitério mais tradicional do Rio.

Os florianistas chegaram a organizar um culto cívico em torno da sua sepultura, numa espécie de 'canonização civil', reunindo-se em torno dela a cada aniversário de morte, imitando o estilo das procissões católicas. Mas, já em 1903, esse 'culto' atraía as críticas de um florianista raiz, Arthur Azevedo, pelas situações ridículas que criava. Disse ele no jornal O Paiz:

De hoje há 2 anos que vi, na esquina da rua Dona Luiza, no Catete, uma idosa ajoelhar-se e, batendo nos peitos, rezar quando passou o andor de Floriano coberto com um pálio muitas outras se têm dado durante o trajeto da romaria.

Segundo O Paiz de 1º de julho de 1895, Floriano escrevia cartas, para um militar chamado Mena Barreto, que naquele momento reprimia a Revolução Federalista, até começar a passar mal. Por volta das 15:00 h de 28 de junho, se recolheu. O mal-estar, porém, agravou-se. Pressentindo a morte, chamou a família para junto de si. Ao beijar a pequena Maria Josina, de 4 anos, diz sua última frase audível: Que infelicidade! (13)

A sua doença era uma espécie de inflamação no fígado devido ao acúmulo de gordura, que o levou a óbito por “esclerose hepática hipertrófica”. Às 20:00 h, seu corpo 'fechou-se sobre si', reproduzindo a sua psicologia. Ele não conseguia mais urinar ou excretar, e logo depois entrou em coma, apresentando episódios de vômitos e dejeções sanguíneas, até que, às 17:00 h do dia seguinte, faleceu.

Essa morte teve analogia com a sanguinolência que foi a sua passagem pelo governo. Ele não hesitou em utilizar o poder que tinha, até criminosamente, contra seus opositores, cujos corpos foram ocultos e/ou abandonados ao tempo, para que se perdesse sua memória, prática continuada por seus discípulos, animados pelo espírito violento e conspiratório do seu alucinante testamento político.

Um rio de sangue, que ele tanto fez derramar fora de si, inundou-o, incontrolável, a partir de dentro, e o matou.

O seu sócio nessa empreitada, o governador Júlio de Castilho, com sua proverbial incapacidade de negociar com quem pensava diferente, ao final de seus dias viu crescer, na laringe, um tumor maligno, que a princípio se imaginou ser uma faringite.

Castilhos falecerá em casa, em 24 de outubro de 1903, durante uma tentativa de traqueostomia para corrigir um suposto edema de glote, aparentemente por causa de uma reação alérgica ao clorofórmio utilizado para a anestesia. O destino foi generoso com ele, pois, embora tenha perecido de um mal na garganta, não experimentou os cruéis estertores de centenas de gaúchos e outros brasileiros, degolados em sua luta pelo poder (14). 

Eduardo Simões.


MARILIZ ERROU POR UM TRIZ.

Eduardo Simões

No programa Em Pauta da Globo News, quando se discutiu sobre o novo patamar de riqueza de Elon Musk,  a jornalista Mariliz Jorge trouxe à baila o velho cacoete nacional de “ele podia pensar nos mais pobres”, como se aqui a gente pensasse algo além de multiplicá-los, até por pensar demais neles. No dia em que a pobreza acabar aqui, a grande maioria vai se sentir como se tivesse perdido o sentido da vida ou como se fossem os piores canalhas do mundo.

Desconfio que o sentimento de culpa por ser bem-sucedido não é praticado nem estimulado na sociedade americana.

Ela citou até as obras de caridade de Melinda Gates, ex-Bill Gates, graças à fortuna que lhe coube na separação. Não sei se ela sabe, mas desde o início do século XIX, milionários americanos, inclusive aqueles que a esquerda ressentida chamou de 'barões ladrões', fazem grandes obras de filantropia e, assim como Melinda, não conseguiram acabar com a pobreza nos Estados Unidos.

A ideia de que basta uma quantidade de dinheiro 'X', entregue nas mãos de um esperto, que não gastou uma gota de suor para conquistá-lo, ou aos organismos da ONU, o que dá no mesmo, para resolver a pobreza do mundo é uma grande baboseira ou uma tentativa tosca de golpe. Se isso funcionasse, de fato, a maioria esmagadora dos países do mundo já teria resolvido esse problema, porque ninguém, muito menos o estado, ganha com a pobreza endêmica. Ela apenas serve para manter viva doutrinas falidas como o marxismo e líderes populistas ultrapassados no poder, algo evidente demais para precisar ser citado.

Essa ideia parte do absurdo de que a pobreza tem uma causa única, e que todos os pobres que receberam ajuda farão, infalivelmente, um bom uso dela, quando qualquer um que não tenha passado a vida dormindo nos últimos 6 mil anos de civilização sabe que não é assim. O problema da extinção completa da pobreza, em função das características irrepetíveis de cada indivíduo, é insolúvel, e um ótimo pretexto para criar bodes expiatórios, dos quais a história está lotada, e ajudar alguns a dar vazão ao seu sentimento de inferioridade e problemas ligados ao complexo de Édipo.

Essas campanhas são tão descaradamente maliciosas que o único dinheiro que serve para resolver esse problema é o dos milionários, que trabalharam duro e o adquiriram em trocas livres de bens e serviços no mercado, enquanto o do Estado, o qual é tomado à força de todo cidadão, não serve.

Há um tempo surgiu na ONU a bobagem de que 2% da fortuna de Elon Musk — dois bilhões de dólares — era suficiente para acabar com a pobreza do mundo. Por que então não sugerir 0,5% do orçamento dos EUA, que é bem maior, ou 1% dos orçamentos de França, Alemanha, Japão, China, etc., os quais são muito maiores e mais fáceis de transformar em dinheiro vivo?

O pessoal da ONU não faz isso porque sabe que a resposta será não, pois em quase todos os países existe gente de responsabilidade e um mínimo de conhecimento das coisas, que sabe que isso é só mais um pretexto para rasgar dinheiro ou desviá-lo aos companheiros de plantão. É por isso que Elon Musk pediu para a ONU mostrar o seu projeto para acabar com a pobreza, e depois ficou com ele para si, para o seu próprio instituto de filantropia, o Instituto Musk. Se alguém vai pagar a conta, não é justo que fique com o crédito? Para um metido a sabido, um sabido e meio.

O exemplo de Cuba é clássico quanto a isso. Enquanto foi um país capitalista, que disputava com os outros países, sem privilégios, investimentos e mercados para seus produtos e serviços, Cuba foi o terceiro ou quarto país mais próspero das Américas. Depois que se tornou socialista e recebeu bilhões e bilhões de dólares de investimentos, ajuda e subvenções estrangeiras, disputa hoje, com o Haiti, a taça de país mais pobre das Américas. Cuba é o bantustão de estimação da esquerda.

Em Cuba, o socialismo utilizou sua velha tática de distribuir casas precárias às pessoas, para estas passarem fome dentro delas, ajudando a propagar o mito de um sistema que deu certo, mas a falta de manutenção está fazendo as casas desabarem sobre seus moradores.

O jeito, em Cuba, é ir para as ruas, e, no jornalismo brasileiro, alguns começarem a descobrir como funciona essa coisa chamada “realidade”. 

quarta-feira, 17 de junho de 2026



        AFINAL, O QUE HÁ NA CABEÇA DE JORGE PONTUAL?

Eduardo Simões

Após comentar em rápidas pinceladas o sucesso do lançamento das ações da SpaceX na bolsa e o sucesso trilionário de Elon Musk, o jornalista J. Pontual sentenciou na Globo News: “Não é justo!” E quando se diz isso na TV, não se está apenas emitindo uma opinião pessoal, mas tentando condicionar ou dirigir a opinião de milhões de outras pessoas sobre esse assunto. Não direi que essa opinião é injusta ou não, mas será que faz algum sentido?

Na natureza, os grandes felinos, quando vão caçar, escolhem preferencialmente as presas mais jovens — as crianças, entre os humanos — mais velhas — os idosos — e as que estão feridas ou doentes. Isso é 'justo'? Desconsiderando que no Brasil mulheres, crianças e velhos, fisicamente mais frágeis, são cada vez mais vítimas preferenciais de criminosos, analisemos uma solução para a primeira ‘injustiça’.

O estado, por exemplo, podia intervir, gastando milhões dos contribuintes, para arrancar as garras das patas dos maiores predadores felinos para dar mais chance às pobres presas. Seria mais justo, mas também, num prazo não muito grande, a espécie escolhida desapareceria, causando um tal impacto ecológico, que os prejuízos seriam muito maiores que os causados com a ‘injustiça’ habitual. 

Na sociedade humana, consideremos a ‘injustiça’ provocada por uma concentração colossal de talentos em pessoas como Caetano Veloso, Chico Buarque, Jorge Amado, Oscar Niemeyer, Cândido Portinari, Maria Bethânia, Gal Costa, Elba Ramalho, Pelé, Garrincha, Neymar, etc. Enquanto isso, milhões de cantores, compositores, escritores, arquitetos, pintores, futebolistas e atletas com menos talento, comem o pão que a miséria amassou, e talvez até abandonem o seu sonho. Tudo por causa da concentração de sucesso e contratos nas mãos desses gênios.

E se o estado, para tornar a sociedade ‘mais justa’, resolvesse ordenar limites para os ganhos e o sucesso daqueles dotados dessa genialidade, para dar mais espaço àqueles que não nasceram bem dotados? Tenho certeza de que os esquerdistas, e Pontual, jamais apoiariam uma medida dessas; antes, são os primeiros a propor mais ajuda pública para os já grandes e ricos ídolos, desde que manifestem simpatia pelo seu movimento. Principalmente nas eleições.

De fato, se o estado cometesse esse crime, talvez a nossa sociedade ficasse mais ‘justa’, mas também ficaria muito mais pobre e muito mais ignorante e ressentida. O prejuízo da correção seria muito maior que a injustiça da livre escolha dos consumidores de arte, literatura, esportes, etc.

Mas por que, o que vale para um lado não vale para o outro? Os esquerdistas sempre perseguiram os empresários bem-sucedidos que enriqueceram, como os seus ídolos, à custa de muito trabalho. Por que o talento natural de Elon Musk para mobilizar recursos e farejar grandes oportunidades precisa ser punido ou controlado, se os anteriores não o foram e a nossa sociedade só ganhou com isso?

As pessoas que, por livre e espontânea vontade, investiram milhões de dólares nas empresas de Elon Musk não o fizeram por causa de seus olhos, sua cor, sua preferência musical ou o time que ele torce — alguém sabe qual é? Tampouco por causa de suas amizades ‘quentes’, como é no Brasil de Vorcaro e JBS. Essas pessoas investiram nas possibilidades de negócios e ganhos financeiros a partir das iniciativas de Elon Musk, em seu absurdo, no momento, projeto de ir a Marte. E ele já deu mostras do que é capaz.

Ao longo de sua existência, uns 26–27 anos, as empresas de Elon Musk já registraram, ou tentam registrar, entre 4.500 e 7.000 novos inventos, enquanto a NASA, com quase 70 anos, só registrou ou requereu 4.800. Das patentes da NASA, migalhas que saíam dos laboratórios onde eles buscam solução para as viagens espaciais, 2.400 tornaram-se produtos comerciais, gerando fortunas para novos e velhos empresários e empregos para milhares de americanos. É atrás dessas ‘migalhas’ que vão os investidores das empresas de Elon Musk, e causam a sua fortuna — na época da corrida espacial, anos 60 – 80, no Brasil, muitos condenavam os americanos gastando milhões para ir à lua, enquanto milhões passavam fome no mundo, e todos diziam como Pontual: ‘não é justo’.

Enquanto nós, que mal gastávamos com o nosso humilde programa espacial, pensando nos mais pobres, víamos a nossa pobreza aumentar e ficar mais grave, eles reduziam a sua pobreza e disparavam à frente como superpotência, distanciando-se de nós.

Resta-nos torcer, orar, o que for, para que, um dia, muitos nossos veteranos e jovens jornalistas parem de usar o conceito de 'justiça' como desculpa para o fracasso ou a acomodação, aprendam como é que o mundo funciona, afinal eles vivem disso! 

terça-feira, 16 de junho de 2026

 


 TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 17


O conceito de lei natural.

Devemos agora abordar um tema cuja consideração já adiamos duas vezes. Ele é repleto de dificuldades e uma fonte inesgotável de mal-entendidos que não podem ser totalmente esclarecidos no espaço disponível. Um apelo à paciência e colaboração do leitor, contudo, justifica-se, pois a primeira descoberta de toda ciência é a descoberta de si mesma; a consciência da presença de um conjunto de fenômenos inter-relacionados que dão origem a “problemas” é, evidentemente, o pré-requisito de todo esforço analítico. E, no caso das ciências sociais, essa consciência se moldou no conceito de lei natural. Tentaremos desvendar seus vários significados e captar suas sutis mudanças e associações.

O Conceito Ético-Legal.

Os próprios doutores escolásticos remontavam seu conceito de lei natural a Aristóteles e aos juristas romanos, embora, como veremos adiante, tenham feito dele algo totalmente diferente. Aristóteles, ao falar de justiça, distinguiu o ‘naturalmente justo’ do ‘institucionalmente justo’, embora o termo “Natural”, na Ética a Nicômaco, deva ser entendido num sentido muito restrito, pois nesse contexto, se referia apenas a formas de comportamento impostas por necessidades vitais muito gerais que o homem compartilha com outros animais. Mas, em outros trabalhos, ele utilizou o termo “natural” em um sentido muito mais amplo, na verdade, em todos os sentidos que ele adquiriu posteriormente, sem distingui-los nem defini-los claramente. E o “natural”, em seus sentidos mais amplos, também foi associado por ele ao “justo”, estabelecendo assim um exemplo para as gerações futuras — até mesmo os economistas “clássicos” ingleses às vezes confundiam o natural com o justo —, embora ele não fosse totalmente consistente a esse respeito: por vezes, ele aprovava o que não chamava de natural; mas nunca desaprovava nada a que atribuía esse rótulo.

Os romanos, pouco dados à filosofia, simplesmente aceitaram a definição aristotélica: Caio (Instit. I, 2) disse ingenuamente que a lei natural “é o que a natureza ensinou a todos os animais” (quod natura omnia animalia docuit). Ulpiano disse o mesmo. Eles simplesmente aceitaram essa Lei Natural como uma fonte de normas jurídicas tão boa quanto qualquer uma das fontes do direito positivo, estatutário ou de outra natureza. Mas há dois pontos importantes a serem observados. Primeiro, desenvolveu-se entre os romanos uma tendência de atribuir o termo jus naturale ao que era oficialmente chamado de jus gentium. A razão era que este último, incorporando regras de equidade, parecia de alguma forma mais “natural” do que o direito civil formalista. O leitor deve observar que esse sentido de direito natural, o sentido que acabou prevalecendo (enquanto, como vimos, o termo jus gentium adquiriu no século XVII o significado de Direito das Nações), não é idêntico ao sentido definido por Aristóteles em Ética V, 7, embora tenha mais a ver com os outros sentidos em que Aristóteles de fato utilizou a palavra Natural.

 

Nota IA do google

O jus gentium (ou direito das gentes) era o conjunto de normas e costumes do Direito Romano aplicado a todas as pessoas livres, independentemente de serem cidadãs de Roma ou estrangeiras (os chamados peregrinos). Baseava-se na razão natural e era bem mais flexível que o jus civile. [Buscava-se, nesse ramo do direito, achar o que era comum a todos os seres humanos, para, a partir daí, aplicar normas que parecessem justas, equitativas, para todos].

Objetivo

O principal objetivo do jus gentium era solucionar conflitos comerciais e civis que envolviam estrangeiros e cidadãos romanos no vasto território do império. Como a expansão de Roma aumentou drasticamente o intercâmbio de pessoas e riquezas, o antigo direito civil romano, que era rígido e exclusivo, tornou-se impraticável.

Funções práticas principais:

  • Regulação do Comércio: Facilitar negócios, contratos (como compra e venda, aluguel e depósitos) e o escambo entre diferentes povos.
  • Segurança Jurídica: Garantir direitos básicos de propriedade e convivência para qualquer pessoa livre nos domínios de Roma.
  • Flexibilidade: Permitir que os magistrados romanos (os pretores) julgassem casos com base na equidade e no bom senso, em vez de ficarem presos a formalidades excessivas.

Pela sua abrangência, o jus gentium é considerado um dos precursores do atual Direito Internacional.

 

Em segundo lugar, os juristas romanos também associaram significados diferentes às palavras Natureza e Natural, dos quais um é importante para nós: a rei natura ou a natureza do caso. Por exemplo, quando nos deparamos com uma questão jurídica decorrente de um contrato, devemos primeiro descobrir qual era a “natureza do negócio” que as partes contratantes pretendiam realizar. À primeira vista, essa natureza do caso parece não ter nada a ver com o direito natural em nenhum sentido...

Em primeiro lugar, a lei natural ou o “naturalmente justo” (lex naturalis, justum naturale) pode ser o conjunto de regras que a natureza impõe a todos os animais e também pode ser, no sentido da definição de Aristóteles, imutável em princípio. Mas, como essas regras funcionam de maneira diferente em diferentes condições de tempo e lugar e com diferentes pessoas, e como é possível acrescentar ou subtrair delas, mesmo essa lei natural tornou-se historicamente variável na prática.

Em segundo lugar, havia outro significado de lei natural que São Tomás explica apenas por exemplos, mas que, na verdade, equipara a lei natural ao conjunto de regras que se conformam (habet quandam commensurationem) à necessidade ou conveniência social, cuja relatividade histórica São Tomás nunca se cansou de enfatizar. A lei natural, nesse sentido, é quase, embora não completamente, identificada com o jus gentium no sentido oficial romano. Em terceiro lugar, sustenta-se que o direito positivo humano consiste necessariamente em deduções a partir dessa lei natural ou em ajustes de suas regras a condições particulares. Uma lei que viole qualquer regra dessa lei natural não constitui lei válida.

O leitor perceberá as implicações políticas dessa doutrina. Resumindo, saltamos de São Tomás para Molina [uns 200 anos]. Molina identificou claramente a lei natural, por um lado, com os ditames da reta razão (ratio recta) e, por outro, com o que é socialmente conveniente ou necessário (expediens et necessarium). Essas proposições, em si mesmas, nada mais são do que o tomismo formulado de maneira mais incisiva. Mas ele deu um passo além (Tratado I, disp. 4): após repetir a definição aristotélica, acrescentou, aparentemente a fim de explicar seu significado: “isto é”, o naturalmente justo é aquilo que nos obriga em virtude da natureza do caso (cuius obligatio oritur ex natura rei). Mas isso não é de forma alguma o que Aristóteles queria dizer. Molina não interpreta o seu significado, mas acrescenta um novo: ele uniu definitivamente a lei natural ao nosso diagnóstico racional, com referência ao Bem Comum dos casos — sejam contratos individuais ou instituições sociais — que observamos na pesquisa ou na prática. A visão de Molina sobre a “natureza da lei natural” é mencionada apenas como um exemplo do que era a opinião geral dos doutores em sua época e até mesmo em épocas anteriores. O conceito de De Soto do Comando da Razão (rationis ordinatio) equivale à mesma coisa.

Uma maneira de expressar esse resultado é dizer que todos os elementos especulativos, metafísicos ou não empíricos evaporaram do conceito de lei natural de Molina, e que nada restou senão a razão aplicada a fatos particulares, embora, até então, aplicada de um ponto de vista normativo. Infelizmente, porém, o assunto é mais complexo do que isso. A doutrina dos escolásticos também contém as fontes de duas correntes de pensamento exatamente opostas à sobriedade e à objetividade. Estas devem ser mencionadas porque contribuíram substancialmente para a confusão prevalecente sobre a lei natural.

Primeiro, há a associação entre a lei natural e as condições primitivas [erro em que Marx incide na sua comunidade primitiva]. Vimos que Aristóteles, os escolásticos e A. Smith frequentemente utilizavam um método pseudo-histórico de exposição: gostavam de começar, ao explicar um fenômeno social como a propriedade ou o dinheiro, por um imaginário “estado inicial” da sociedade. Não fizeram, até onde posso ver, qualquer uso indevido dessa construção. Mas se o Natural era o Justo e, se o Natural se revela particularmente bem nas condições primitivas, como implica esse método de exposição, então as condições primitivas tornam-se as únicas naturais [fora delas rompe-se a natureza e o progresso civilizacional, que é próprio da natureza humana, torna-se irracional, justo no único ser provido de racionalidade]. Desse ponto de vista parte uma linha ininterrupta que leva diretamente à glorificação, por Rousseau, do estado natural, no sentido de humanidade primitiva — uma associação totalmente subjetiva, que não contribuiu em nada para a consolidação do conceito [e trouxe bastante confusão, como se pode ver em Engels quando fala da origem da propriedade privada, citando a bobagem de Rousseau]. Os próprios escolásticos, obviamente, não demonstraram nenhuma tendência a glorificar as condições primitivas.

Em segundo lugar, existe uma relação entre a lei natural escolástica e os Direitos do Homem (droits de l’homme) e construções semelhantes do século XVIII, incluindo o direito natural do trabalhador ao resultado de seu trabalho. A existência dessa relação é inegável. Pois a lei natural dos doutores era considerada uma fonte de normas jurídicas válidas sobre direitos e deveres, e tudo o que os formuladores dos direitos do homem pretendiam fazer era recorrer a essa fonte para o Mandamento da Razão ou rationis ordinatio com relação aos direitos políticos do homem civilizado. Além disso, alguns itens da lista desses direitos são claramente reconhecidos por autores escolásticos. Contudo, o caráter especulativo desses e de outros direitos concebidos semelhantemente é um lugar-comum. É precisamente esse tipo de coisa, mais do que qualquer outra, que explica a aversão que muitos dos melhores economistas sentem pelo conceito de lei natural, e que o tornou sinônimo de metafísica a-histórica e anticientífica…

O Conceito Analítico.

Até agora, investigamos o desenvolvimento do conceito de lei natural em seu papel na esfera ética e jurídica ou, o que equivale ao mesmo, da lei natural considerada fonte de imperativos morais e juridicamente válidos. Dito isso, é fácil encontrar a ponte para o conceito de lei natural em seu papel analítico. De fato, precisamos apenas generalizar nossas descobertas no caso específico da teoria do juro. Para isso, perguntemos: por que Aristóteles teria chamado certas formas de comportamento de “naturalmente justas” no sentido estrito de sua definição? Evidentemente, porque essas formas de comportamento eram condições necessárias para a sobrevivência da vida animal em geral (como ele pensava). Uma resposta semelhante se aplica ao “naturalmente justo” no sentido mais amplo que abrange as necessidades da vida social nas circunstâncias históricas concretas de qualquer sociedade humana. Portanto, para descobrir o que é naturalmente justo em um caso particular, é necessário primeiro analisar essas circunstâncias. As generalizações que podemos obter dessa forma podem ser chamadas de lei natural no sentido analítico: a lei natural normativa pressupõe uma lei natural explicativa.

Por exemplo, A. Smith tinha uma teoria dos salários que consiste em afirmações de fatos e generalizações derivadas delas. Mas ele também disse (Riqueza, Livro I, cap. 8) que “o produto do trabalho constitui a recompensa natural ou o salário do trabalho”. Visto que, por produto do trabalho, ele se referia ao produto total, e visto que, por sua própria demonstração, os salários normalmente não equivalem a isso, temos aqui claramente uma proposição de lei natural no sentido filosófico ou de juízo de valor. Mas quando estamos interessados ​​apenas na análise científica, não temos dificuldade em descartar essa frase [não é de admirar que ele tenha pinçado esse texto, visto o pouco apreço que Schumpeter tinha por Smith].

Um economista moderno pode tanto analisar o fenômeno da discriminação de preços quanto emitir um juízo de valor sobre ele. Se ele o faz, chamando-o de injusto, está adotando uma regra de direito natural que não difere, neste caso, daquela dos escolásticos. Se ele aprova a Lei Robinson-Patman, que proíbe a discriminação, faz o que os escolásticos teriam feito em sua época, dizendo que essa lei é válida porque está em conformidade com um imperativo do direito natural. Podemos, de fato, chamar isso, ou qualquer juízo de valor de qualquer tipo, de não científico ou extracientífico. Mas não há razão para jogar fora o bebê analítico com a água do banho filosófico. E é precisamente isso que fazem aqueles que descartam a economia dos doutores escolásticos ou de seus sucessores laicos simplesmente apontando para suas associações com um sistema de imperativos morais e legais — de leis naturais no sentido analítico por causa de sua associação com um sistema de leis naturais no sentido normativo.

 

Nota wikipedia em inglês

A Lei Robinson-Patman (RPA) [ou Robinson-Patman Act] de 1936 (ou Lei Antidiscriminação de Preços) é uma lei federal dos Estados Unidos que proíbe práticas anticoncorrenciais por parte dos produtores, especificamente a discriminação de preços.

Copatrocinada pelo senador Joseph T. Robinson e pelo representante Wright Patman, a lei foi criada para proteger pequenos comércios varejistas da concorrência de grandes redes, fixando um preço mínimo para produtos de varejo. Especificamente, a lei impede que fornecedores, atacadistas ou fabricantes forneçam mercadorias a “clientes preferenciais” a um preço reduzido. Ela também impede que fornecedores sejam coagidos a impor restrições sobre a quem podem ou não vender mercadorias.  Isso significa que é ilegal para um fornecedor vender um carregamento de mercadorias com um grande desconto para uma grande empresa, como o Walmart ou a Amazon , e depois cobrar um preço substancialmente maior por um carregamento de mercadorias idênticas para uma pequena empresa, como um supermercado local.

A lei surgiu de práticas comerciais em que as cadeias de lojas compravam mercadorias a preços mais baixos do que outros varejistas. Essa emenda à Lei Antitruste Clayton impediu a discriminação de preços desleal pela primeira vez, exigindo que um vendedor oferecesse as mesmas condições de preço aos clientes em um determinado nível de comércio. A RPA previa sanções penais, mas continha uma isenção específica para “associações cooperativas”. A aplicação das disposições da RPA começou a declinar a partir da década de 1980.

Foi argumentado que a aplicação frouxa do RPA desde a década de 1980 tem sido uma causa significativa na criação de desertos alimentares rurais e urbanos nos Estados Unidos.

Deserto alimentar nos EUA: são geralmente definidos como regiões que não têm acesso a supermercados e a alimentos saudáveis ​​e acessíveis, particularmente em comunidades de baixo rendimento. De acordo com o relatório mais recente do USDA [Departamento de Agricultura dos Estados Unidos] sobre o acesso aos alimentos, em 2017, aproximadamente 39,5 milhões de pessoas — 12,9% da população dos EUA — viviam em zonas de baixo rendimento e com pouco acesso aos alimentos.

Em áreas urbanas, níveis mais elevados de pobreza são associados a menor acesso a supermercados. O acesso a alimentos tem demonstrado afetar desproporcionalmente as comunidades negras: vários estudos observaram que bairros com maiores proporções de residentes negros tendem a ter menos supermercados e maior acesso ao comércio a retalho, afetando desproporcionalmente os níveis de segurança alimentar na comunidade.

O surgimento de grandes redes de supermercados em áreas suburbanas abastadas ao redor dos centros urbanos levou ao declínio de pequenos mercados independentes nas áreas urbanas. Isso resultou em regiões onde opções de alimentos acessíveis são restritas a indivíduos com condições de pagar por transporte público ou que possuam veículo próprio.

Outra explicação para o surgimento de desertos alimentares nos Estados Unidos é o aumento da segregação econômica entre 1970 e 1988, que acompanhou a migração de famílias ricas de bairros centrais para áreas suburbanas. Isso resultou na queda da renda familiar mediana nas áreas centrais, o que levou ao fechamento de muitos supermercados nas grandes cidades.

 

A principal objeção levantada pela escola histórica contra a jurisprudência e a economia do direito natural não era, contudo, esta, mas sim outra, embora relacionada: supunha-se que o direito natural estivesse completamente dissociado da realidade histórica. Vimos que essa objeção é infundada no que diz respeito aos doutores escolásticos, que sempre enfatizaram a relatividade histórica dos fenômenos sociais. Ela se mostra mais fundamentada no caso de alguns de seus sucessores. Mas deve-se observar que, bem ou mal fundamentada, essa objeção diz respeito apenas ao uso do conceito e não ao conceito em si. Além disso, qualquer teoria pode ser inadequada ou errônea. Em particular, pode reivindicar para suas proposições uma generalidade excessiva. As visões teóricas associadas aos direitos do homem, por exemplo, certamente o faziam. Mas uma teoria científica inadequada — ou mesmo errônea — ainda é uma teoria científica. Por outro lado, devemos compreender que as afirmações absolutas feitas no século XVIII em defesa de certos programas legislativos, sem a devida consideração das condições de tempo e lugar, fomentaram todo tipo de mal-entendidos sobre a verdadeira natureza da análise do direito natural [toda uniformização ou generalização tem um quê de preguiça mental às quais o pesquisador precisa estar atento].

Afirmei que as ciências sociais se descobriram no conceito de lei natural. Isso ficará particularmente claro se o visualizarmos na forma da definição de Molina — destilada da “natureza do caso”, a rei natura. Nesse sentido, o ideal da lei natural incorpora a descoberta de que os dados de uma situação social determinam — unicamente no caso mais favorável — uma certa sequência de eventos, um processo ou estado logicamente coerente, ou o fariam se lhes fosse permitido seguir seu curso natural, sem maiores perturbações [ou ceteris paribus]... A razão pela qual podemos atribuir essa ideia, ainda que rudimentarmente, aos doutores escolásticos reside em seu conceito de justiça. Esse conceito (aristotélico) de justiça foi explicado por São Tomás, relacionando a palavra “justiça” a ajustamento e a palavra “justo” a ajustado. Justo é aquilo que é ajustado, ou se conforma, a quê? A única resposta que podemos dar, se considerarmos a pista oferecida pelo conceito de rei natura de Molina, é: ao padrão social envolvido, visto a partir de um Bem Comum utilitarista ou da conveniência social. Daí as equações entre justo e natural, natural e normal. Daí também a facilidade com que eles passaram da doutrina normativa ao teorema analítico e vice-versa, e com a qual podemos passar, por exemplo, de seu preço justo ao preço do equilíbrio competitivo (de curto ou longo prazo). Daí, finalmente, a relação que não é de identidade entre justificação e explicação.

Nota de Schumpeter

Essa relação entre natural no sentido de normal e natural no sentido de justo explica por que o termo Natural sobreviveu por tanto tempo — quase até Marshall — no primeiro sentido, e também por que alguns autores, que tinham certas ideias filosóficas sobre “liberdade natural”, continuaram a vinculá-lo ao justo. Mas isso não é tudo. A ressalva sobre a ausência de perturbação indica um significado um tanto diferente, mas relacionado, de expressões como preços naturais, salários naturais e assim por diante: nessas expressões, 'natural' simplesmente significa que se presume a ausência de perturbações que não estejam incluídas nos dados, ou que pretendemos investigar um processo ou estado como ele seria se deixado à própria sorte. Além disso, é claro que é absurdo procurar filosofias de direito natural onde quer que a palavra 'natural' apareça: “naturalmente”, em particular, significa simplesmente o mesmo que “obviamente”. Não nos comprometemos com nenhuma filosofia quando afirmamos que um homem se sente “naturalmente” ofendido após ser chamado de tolo. Parece pertinente acrescentar que o termo “normal” não deve ser entendido no sentido estatístico, mas sim no sentido em que falamos de visão normal: um fisiologista, a partir de sua compreensão da “rei natura”, neste caso da estrutura do olho humano, pode chegar a um conceito de normalidade que pode estar muito distante de qualquer medida estatística da visão real observável em qualquer população [noutras palavras, conceitos como “natural”, “normal”, “justo”, tão abundantemente utilizados em nosso meio, adquiriram ao longo da histórias significados ambíguos, e por vezes díspares, tal que só serviram para complicar o debate, quando utilizados sem as ressalvas necessárias ou o esclarecimento prévio do significado com que o autor os utiliza]

Alguns historiadores da economia acreditaram que o elemento normativo adquiriu significado adicional devido à sua natureza teológica (observe, aliás, o significado de “natureza” nesta frase). Isso foi considerado relevante até mesmo para uma avaliação do sistema fisiocrata. Isso, no entanto, é outro erro. Pois a ordem escolástica das coisas, física e social, é inteiramente autônoma na teologia escolástica, cuja única influência — além dos imperativos éticos — diz respeito aos problemas dos milagres e da criação. Exceto pelos milagres e pela criação, essa ordem deve ser compreendida inteiramente à luz da razão humana. Sem dúvida, ao analisá-la, a razão está analisando parte das obras de Deus. Mas, como o plano de Deus inclui, em qualquer caso, alguma quantidade de “mal”, nem mesmo a avaliação é seriamente restringida pela associação com a teologia, e a análise permanece totalmente livre [alguns pesquisadores obcecados pelo behaviorismo dominante superdimensionam aquilo que eles chamam de contaminação ideológica, sem falar da preguiça mental além do medo patológico de se contaminarem, e condenam em bloco determinadas teorias, em virtude de sua ‘má procedência’, deixando de ver suas decisivas contribuições, e acabam disputando apenas com fantasmas e criações de sua cabeça, num processo análogo a uma esquizofrenia]. 



 


UMA DIFERENÇA NADA SUTIL, PARA QUEM PENSA.

O empreendedor típico não se pergunta se cada esforço que faz lhe promete um ‘excedente de prazer’ suficiente. Ele se preocupa pouco com os frutos hedonistas de suas ações. Cria sem trégua, pois não consegue fazer mais nada; não vive para desfrutar voluptuosamente do que adquiriu. Se esse desejo surge, é paralisação para ele, não é uma pausa em seu curso anterior; é um prenúncio da morte física. Por essa razão — além da outra razão de que, na evolução como a entendemos, a ‘demanda’ não é um fator independente da ‘oferta’ — a conduta do nosso tipo não pode ser incorporada, no mesmo sentido que a conduta do ‘explorador puro e simples’, ao esquema de um estado de equilíbrio, ou de uma tendência a ele.”
Teoria do Desenvolvimento Econômico, 1911.