PILULAS DA SUMA TEOLÓGICA DE AQUINO (pelos dominicanos espanhóis)
A Ciência Sagrada é uma ciência prática?
Nota dos dominicanos espanhóis
O que essas palavras significam para São
Tomás? Aquilo que é ordenado a fazer algo, aquilo direcionado para a
ação, é chamado de prático; aquilo ordenado para o conhecimento, aquilo direcionado para o conhecer, é chamado de especulativo. A inteligência
humana, como tal, conhece por conhecer: este é o seu próprio fim, a sua obra
específica. Mas ela também pode conhecer para direcionar algo além da sua
própria operação: isto é, ela pode produzir (finis non est cognitio sed opus:
In Sent. 3 d.35 q.1 a.3 sol.2). Mas mesmo neste segundo caso, trata-se de
conhecimento intelectual; duas faculdades não seriam necessárias, mas sim uma
com duas funções. A ciência prática lida especulativamente com coisas práticas.
A inteligência, que é inerentemente especulativa, “torna-se” prática
por extensão. Os princípios com os quais se opera em cada caso são diferentes. Assim,
os princípios especulativos são resolutivos (analíticos), porque a verdade
daquilo que se conclui é resolvida nesses princípios; os princípios práticos
são composicionais (sintéticos) porque consideram a verdade conhecida na medida
em que ela é “acionável”, ou seja, tendem a sintetizar o que é
conhecido com a existência. Isso explica por que o prático vê as coisas em
termos de sua existência singular (contingente), enquanto o especulativo vê
tudo na medida em que é universal (necessário).
Toda ciência prática lida com o que pode ser feito pelo
homem. Assim, a Moral lida com os atos humanos; a Arquitetura, com os
edifícios. A doutrina sagrada, por outro lado, tem como objeto principal Deus,
cuja maior obra é o homem. Portanto, não é uma ciência prática, mas sobretudo
especulativa.
Solução: Deve-se dizer que a doutrina sagrada, sendo una,
abrange tudo o que pertence às ciências filosóficas da perspectiva formal sob a
qual a considera, isto é, na medida em que pode ser conhecida pela luz divina.
Portanto, embora algumas ciências filosóficas sejam especulativas e outras
práticas, a doutrina sagrada as abrange a todas, da mesma forma que Deus
conhece a si mesmo e suas ações com o mesmo conhecimento. Além disso, estamos
lidando com uma ciência mais especulativa do que prática porque se ocupa
principalmente do divino, e não do humano. Pois, quando se ocupa da humanidade,
fá-lo na medida em que o homem, por meio de suas ações, é direcionado para o
conhecimento perfeito de Deus, visto que a felicidade eterna consiste nesse
conhecimento.
Nota dos dominicanos espanhóis
Tomás de Aquino retoma a divisão de
Aristóteles, segundo a qual os hábitos práticos do homem santo são a prudência
e a arte, e os especulativos são a ciência, a sabedoria e o hábito dos
princípios [disposição natural e inata da mente humana para
discernir as verdades mais evidentes e universais sem necessidade de
demonstração, como o princípio da não contradição].
A função prática, dissemos, é o próprio intelecto ordenando-se para um fim que
não é sua própria operação; portanto, será sempre algo secundário a ele, e que
pressupõe a função especulativa primária. Aqui, São Tomás rompe com toda a
tradição ao atribuir à teologia a função especulativa como sua função primária.
Até ele, todos os teólogos agostinianos concordavam em rejeitar um fim
puramente especulativo para o conhecimento teológico, convergindo para uma
teologia afetiva. A natureza de uma ciência deve ser determinada em termos de
seu fim, e o fim último desta doutrina é a contemplação da primeira verdade na
pátria celestial. Assim, trata-se, de fato, primordialmente de pensamento
especulativo, como já havia expressado São Tomás. Isso é o que seus
predecessores e contemporâneos rejeitaram, para quem o pensamento deveria ser
um meio para a ação. Segundo ele, ao contrário, a ação não é o fim pretendido
por esta ciência, mas antes a contemplação. Esta é a posição mais coerente com
a escolha feita, na qual a inteligibilidade da criação tem primazia.
A doutrina sagrada é superior às outras ciências.
Solução. É preciso dizer: como esta ciência é
especulativa em alguns aspectos e prática em outros, ela é superior a todas as
outras ciências, tanto especulativas quanto práticas. Entre as ciências
especulativas, diz-se que uma é superior a outra segundo a certeza que contém,
ou segundo a dignidade do assunto que aborda. Em ambos os aspectos, a doutrina
sagrada é superior às outras ciências especulativas. Quanto à certeza das
ciências especulativas, fundada na razão natural, que pode errar, ela contrasta
com a certeza fundada na luz da ciência divina, que não pode falhar. Quanto à
dignidade do assunto, é porque a doutrina sagrada lida principalmente com algo
que, por sua sublimidade, transcende a razão humana. As outras ciências
consideram apenas o que está sujeito à razão.
Dentre as ciências práticas, a mais valiosa é aquela que
se orienta para um fim superior, assim como a ciência civil se orienta para o
militar, visto que o bem do exército tem como fim o bem do povo. O fim da
doutrina sagrada, como ciência prática, é a felicidade eterna, que é o fim para
o qual todos os objetivos das ciências práticas se orientam. É evidente, sob
todas as perspectivas, que a doutrina sagrada é superior às demais ciências.
Resposta às objeções: Nada impede que aquilo que é certo por
sua natureza nos pareça menos certo, devido à fragilidade do nosso
entendimento, pois o nosso entendimento. Portanto, a dúvida que surge em alguns
a respeito dos artigos de fé não se origina na incerteza do seu conteúdo, mas
na fragilidade do entendimento humano. No entanto, o pouco que se pode saber
sobre as coisas sublimes é preferível ao muito e à certeza que podemos saber
sobre as coisas inferiores [materiais].
Nota dominicanos espanhóis
Esta resposta pressupõe, embora não
explicitamente, o papel da razão na tarefa teológica. Ela atua como causa
primária, mas subordinada à fé. É precisamente a maneira como a inteligência
humana participa dessas outras ciências “inferiores” à teologia que
as torna mais certas: não em si mesmas, como esclarece São Tomás de Aquino, mas
devido às limitações do nosso entendimento [daí a necessidade da fé prévia].
O segundo ponto a ser destacado é o
seguinte: esta ciência pode recorrer a disciplinas filosóficas, não por
necessidade, mas para melhor explicar seu objeto de estudo. Pois ela não deriva
seus princípios de outras ciências, mas diretamente de Deus por meio da
revelação. E mesmo quando recorre a outras ciências, não o faz por serem
superiores, mas sim por serem subordinadas e subservientes, assim como a
arquitetura tem fornecedores, ou a ciência civil tem fornecedores militares. A
ciência sagrada o faz não por deficiência ou incapacidade, mas devido à
fragilidade de nossa compreensão. A partir daquilo que conhece pela razão
natural (da qual outras ciências procedem), ela é conduzida, como que guiada
pela mão, àquilo que transcende a razão humana e que é o objeto da ciência
sagrada.
A doutrina sagrada é uma
sabedoria.
Nota dos dominicanos espanhóis
Esta era a afirmação tradicional a
respeito da doutrina sagrada, da qual ninguém discordava. Desde Santo
Agostinho, ao afirmar o caráter da sabedoria e negar o da ciência para a
teologia, a questão, ao longo da escolástica, não ofereceu dúvidas. A sabedoria
é o supremo dos hábitos intelectuais ou cognitivos. A sabedoria é o mais elevado dos hábitos intelectuais ou
cognitivos. Ou seja, a ciência em seu grau mais elevado; aquilo que se
manifesta por meio de suas causas ou princípios mais elevados. Ciência suprema
em todos os sentidos, ela julga os princípios de todas as ciências: ela os
ordena, explica e defende. Por outro lado, “sabedoria” evocava um
conhecimento “delicioso”, que se harmonizava admiravelmente com a
doutrina sagrada. Mas o que tradicionalmente se apresentava como um dilema (ou
é ciência ou é sabedoria) é resolvido por São Tomás de Aquino ao observar que a
sabedoria não se opõe à ciência, mas antes lhe acrescenta algo. É conhecimento
por meio de causas (ciência) e por meio da causa suprema (sabedoria). Para São
Tomás, na realidade, precisamente por ser ciência subordinada à ciência de
Deus, a teologia é una, especulativa e prática, superior a todas as outras
ciências e à sabedoria. E isso se aplica ainda mais à metafísica, visto que
esta alcança Deus indiretamente (quantum ad illud quod est per creaturas
cognoscibile = no que se refere àquilo que é cognoscível
através das criaturas), enquanto a teologia o alcança
diretamente (quantum ad id quod no tum est sibi de seipso = no que se refere àquilo que lhe é
desconhecido). A revelação é, na realidade, uma
derivação da luz pela qual Deus se conhece, como já vimos anteriormente.
Esta doutrina é, dentre toda a
sabedoria humana, a sabedoria em mais alto grau, não apenas em um sentido
específico, mas de forma única e completa. O papel do sábio é guiar e julgar; e
seu julgamento é feito tendo como ponto de referência a causa suprema de tudo o
que é inferior. Assim, em todos os tipos de coisas, aquele que mantém em mente
a causa suprema de cada coisa concreta é chamado de sábio. Por exemplo, o
trabalhador que prepara os projetos de um edifício é chamado de sábio e
arquiteto em relação aos trabalhadores que esculpem a madeira ou poliam a
pedra. Nesse sentido, 1 Coríntios 3:10 diz: “Como sábio mestre de obras,
ele lançou os alicerces.” E na vida humana, o sábio é chamado de prudente
por guiar a ação humana ao seu fim próprio. Por isso, Provérbios 10:23 diz:
“A sabedoria do homem é a prudência.” Assim, aquele que tem como
ponto de referência a causa suprema de todo o universo, que é Deus, será
chamado de sábio em mais alto grau. Portanto, a sabedoria é definida como o
conhecimento do divino, como afirma Agostinho no Livro XII de *De Trinitate*,
p. 11. O aspecto mais genuíno da doutrina sagrada é referir-se a Deus como a
causa suprema, e não apenas pelo que se pode conhecer d'Ele através da criação…
mas também por aquilo que somente Ele pode saber de Si mesmo e que Ele comunica
aos outros por meio da revelação. Disso se segue que a doutrina sagrada é
sabedoria em grau máximo.
Resposta às objeções:
A doutrina sagrada não extrai seus
princípios de nenhuma outra ciência humana, mas da ciência divina, que, como
sabedoria em grau máximo, governa todo o nosso entendimento.
Os princípios das outras ciências são
ou autoevidentes e não necessitam de demonstração; ou são evidentes em alguma
outra ciência sendo demonstrados por um processo mental natural. O conhecimento
próprio que se possui na ciência sagrada é dado pela revelação, não pela razão
natural. Portanto, não lhe cabe provar os princípios de outras ciências, mas
apenas julgá-los. Assim, condena como falso tudo o que, em outras ciências, é
incompatível com a sua verdade.
Ao sábio corresponde julgar. Visto que
existem duas maneiras de julgar, a sabedoria também deve ser compreendida de
duas maneiras. Uma delas é se o juiz possui uma inclinação particular para
algo. Por exemplo, a pessoa virtuosa julgará corretamente tudo o que se
relaciona à virtude, visto que tem inclinação para ela. Daí o que se diz no
Livro X da Ética, 12: “A pessoa virtuosa é a regra e a medida das ações
humanas.” Outra maneira de julgar é pelo conhecimento. Assim, por exemplo,
um especialista em moral pode julgar os atos de uma virtude específica mesmo
que não a possua. Agora, quando se trata de julgar assuntos divinos, a primeira
maneira indicada é aquela que corresponde à sabedoria que está entre os dons do
Espírito Santo, seguindo o que se diz em 1 Coríntios 2:15: “O homem
espiritual discerne todas as coisas”, etc... A segunda forma de julgamento
pertence à doutrina sagrada, na medida em que é adquirida por meio do estudo;
embora adote os princípios que emanam da revelação.
Nota dos dominicanos espanhóis
Quanto às funções próprias da
sabedoria, São Tomás fez as observações necessárias no presente caso. A
teologia não demonstra os princípios de outras ciências, mas condena como falso
tudo o que é incompatível com a verdade teológica. Convém, entretanto, ter em
conta que a inteligência do teólogo em seu trabalho é intrínseca e
constantemente iluminada e medida pela fé, inclusive quando ele extrapola o
âmbito natural da teologia e se estende a áreas fora de sua competência. Nesta
resposta, São Tomás estabelece a distinção relevante para resolver a objeção
levantada: como a teologia envolve diversos níveis de inteligibilidade e
diversos modos de acesso às suas conclusões, é legítimo propor a distinção. Mas
isso não implica separação. A frase conclusiva deste adverte sobre a
necessidade de uma recomposição contínua da unidade teológica, retornando
constantemente aos seus princípios (In Boet. de Trin. q.6 a.1). Nada se
encontra em São Tomás que autorize a fundamentação nele da ruptura dos devotos
do século XV, que dissociaram a teologia espiritual da teologia especulativa. O
trabalho teológico não é um projeto meramente humano, nem tem nada a ver com
uma tarefa filosófica “aplicada” a dados aceitos como postulados.
“O teólogo não é um filósofo que trabalha sobre uma crença, mas um
crente” (Congar). As conclusões teológicas estão sempre intimamente
ligadas aos seus princípios, que, como sabemos, são artigos de fé.