A nau dos insensatos
(II)
Enquanto no Rio corriam
essas conspirações em torno do Poder Federal, em outro estado-chave, a Bahia, a
intervenção de uma força inesperada vai sacudir o tênue equilíbrio que mantinha
unidas as antigas oligarquias imperiais, agora travestidas de republicanas,
após as habituais manobras de sobrevivência política a qualquer custo.
Com a Proclamação da
República, após uma fase confusa, é eleito o primeiro governador da Bahia, José
Gonçalves da Silva, do antigo Partido Conservador. Ele, porém, teve a infeliz
ideia de apoiar o golpe de Deodoro, em 3 de novembro de 1891. Na virada política
que alçou Floriano, ele foi obrigado a entregar o cargo em 24 de novembro,
graças a um golpe acertado por florianistas baianos em contato direto com o
marechal, entre eles um tal César Zama. Golpe por golpe, Gonçalves vai para
casa.
Após a queda de
Gonçalves, seguiu-se a presidência interina do general Tude Soares Neiva e do
almirante Joaquim Leal Ferreira Junior, após os quais assumiu, regularmente, o
Sr. Joaquim Manuel Rodrigues Lima, para o período de 1892–1896. Rodrigues Lima
era do mesmo grupo de Luiz Viana, e durante o seu governo, houve a cisão
definitiva dos republicanos baianos.
De um lado, no partido,
estava a ala deodorista, liderada por José Gonçalves, e, do outro, a ala
florianista, capitaneada por Luiz Viana, Rodrigues Lima, Sátiro Dias, Severino
Vieira, César Zama, etc. Com a consequência previsível: Floriano, e depois Prudente,
recusaram-se aos deodoristas, seja por exclusivismo ditatorial, seja por
coerência política, respectivamente, enfraquecendo o grupo de Gonçalves.
Desse último grupo
fazia parte um famoso político do Império, do Partido Conservador, Cícero
Dantas Martins, o Barão de Jeremoabo, que, percebendo a inevitabilidade da
República, foi se acomodando. Jeremoabo era um homem inteligente e culto,
diferente, em alguns aspectos, da imagem tradicional dos coronéis do sertão
semiárido, como homens bravios e ignorantes. Foi até o fim um defensor da
escravidão, que ele resumia a uma mera questão de propriedade. Ele também sabia
ser truculento, pois no semiárido daquele tempo, isso era inevitável. Até o
Conselheiro percebeu isso.
A ala de Viana, agindo
com método e maquiavelismo, se apropriou dos principais postos do PRF (Partido
Republicano Federalista, que não tem nada a ver com os federalistas gaúchos) e,
após descartar a permanência do grupo de Gonçalves e Jeremoabo, vai conectar-se
a movimentos políticos no Rio de Janeiro. Os vianistas mudam o nome do partido
para Republicano Federal, em 15 de abril de 1894, numa extensão do partido de
mesmo nome fundado sob a batuta de Prudente de Morais e Francisco Glicério.
Manuel Vitorino presidia esse partido na Bahia.
Gonçalves, Jeremoabo e
os seus, isolados e sem alternativa, fundam o Partido Republicano
Constitucional, em 19 de agosto de 1894, com um jornal próprio: O Republicano.
Embora os arranjos
políticos tivessem um padrão acomodatício, de modo que as divergências pessoais
não extrapolassem para uma luta aberta, elas aconteciam no ambiente
juridicamente frouxo e indefinido da Primeira República, mas principalmente
pela artificialidade do projeto republicano brasileiro, cópia de modelos
estranhos à nossa realidade. Isso era agravado por momentos legalmente
estabelecidos para a troca ou renovação de poder: as eleições. O principal
elemento de sistemas democráticos consagrados, no nosso, era o calcanhar de
Aquiles.
Em uma delas, a disputa
quase descambou para um grande conflito entre gonçalvistas e vianistas, em
virtude do sistema fraudulento e das 'degolas eleitorais', dessa vez utilizada
contra a eleição do Barão de Jeremoabo ao Senado Estadual.
Em uma de suas cartas,
transcrita por Álvaro Pinto Dantas de Carvalho Junior, em O Barão de Jeremoabo
e a política do seu tempo — trajetória de um líder conservador na Bahia,
Secretaria da Cultura e Turismo, Salvador, 2006, p. 248, José Gonçalves conta como
evitou uma ação de Viana para constranger eleitores e candidatos eleitos pelos
gonçalvistas em Vila Nova, para mudar o resultado das eleições. Tudo começou
quando Gonçalves recebeu um telegrama alertando-o de que um alferes da polícia
saíra de Salvador com 20 praças para Vila Nova, a fim de mudar o resultado das
eleições. Gonçalves parte para lá, para preparar os moradores para a guerra.
À frente de uma
multidão armada, ele vai à estação ferroviária para recepcionar os vianistas.
Quando estes chegaram, com os 20 soldados da polícia de Queimadas, encontraram
a estação lotada de oposicionistas armados.
"Passaram a noite
[de segunda-feira] em sobressalto. Na terça-feira, dia para a bernarda
[para o golpe]… não botaram a cabeça fora. Na quarta, na passagem do trem de
carga… meteram-se neles… e foram corridos. Com a fuga das pestes, voltou à
cidade a calma (Dantas, p. 248)."
Porém, chegou uma
intimação de Salvador, ordenando que ele se retirasse da cidade, pois viria
agora uma tropa de 100 homens para tomar conta da localidade. Gonçalves acirra
os preparativos, manda escavar trincheiras e avisa que nem um certo presidente:
“Se vier, vai ter”. O governo não arriscou.
Antônio Conselheiro e
os seus tiveram ótimos professores.
O estado da Bahia era
uma gigantesca bomba-relógio, só acumulando energia de detonação, para ser
liberada a qualquer momento.
As eleições no Brasil,
desde a Independência, sempre tiveram a marca da violência e da fraude. E, no
caso da Bahia, a fraude foi tal que, em 1894, se reuniram dois congressos
estaduais, um da situação vianista e outro da oposição gonçalvista, cada um num
lugar diferente. Jeremoabo era o presidente do congresso da oposição. Quando o
governador vianista Rodrigues Lima precisou entrar de licença, Jeremoabo
pleiteou assumir o cargo, mas isso lhe foi negado pelo congresso situacionista.
Jeremoabo, pensando como um coronel, apela para Prudente, esperando dele a
postura de um coronel, dizendo: “Façam isso e aquilo!”
Prudente, entretanto,
evitou a armadilha e preferiu seguir a lei, pesando que Viana se afastara do
florianismo, respondeu a Gonçalves que a questão, conforme a lei, deveria ser
resolvida pelo Legislativo estadual, que decidiu a favor do grupo de Viana.
Magoado com a posição de Prudente. O grupo de Gonçalves, mostrando o mais
rasteiro personalismo oportunista, anos depois se volta para o florianismo.
Numa das cartas de Gonçalves a Jeremoabo, ele, que foi deposto por Floriano, e
que a este se opôs ferozmente, chega a dizer que o que faltava à nação era “um
homem como Floriano”.
Mais tarde, quando
Severino Vieira se indispôs com Luiz Viana, o mesmo Gonçalves, que se dispusera
a enfrentá-lo à bala na estação de Vila Nova, passou, todo pressuroso, para o
lado dele.
As oligarquias baianas
eram bem estruturadas e possuíam uma história longa e cheia de tradições
pessoais e familiares. No semiárido, elas viviam em um ambiente rústico,
difícil, mas perfeitamente viável, para quem se dispusesse a fazer acordos e
ficar do lado do mais forte. A luta pelo poder político e pelas nesgas de
terras férteis, agricultáveis ou propícias ao pasto tornava a convivência
dessas famílias tumultuosa, abrindo-se para uma sequência infindável de lutas
pela terra e, principalmente, pelas fontes de água. A rapidez com que se deu a
transição do Império para a República só fez confundir e acirrar ainda mais o
quadro. O sertão de Canudos é dominado pelos gonçalvistas.
Foi justamente nessa
região que, por volta de 1874, apareceu um homem, vindo do Ceará, que fazia
pregações religiosas impressionantes, atraindo uma legião de seguidores,
fazendo obras de caridade, construindo e reformando igrejas e cemitérios. Sua
pregação era apocalíptica, recheada de conselhos moralistas severos, no estilo
do catolicismo popular. Ele se autodenominava “Peregrino”, mas no meio do povo
era conhecido como Antônio Conselheiro.
Essa época coincidiu
com a criação de uma estrutura de impostos municipais, que tentava adaptar a
economia sertaneja, isolada e pouco produtiva, baseada no consumo local de
artigos de primeira necessidade, com perfil agropecuário-artesanal, a uma
aberta aos mercados maiores e mais distantes no Brasil e no mundo. Isso
causaria uma maior presença da burocracia estatal para recolher e gastar os
impostos advindos dessas atividades, e, já que não havia uma cultura
empreendedora de mercado, como uma opção ao baixo rendimento da economia, que
os impostos vinham viabilizar, por meio de investimentos públicos. Daí começa a
se ampliar a incompatibilidade entre a primitiva sociedade natural pregada pelo
Conselheiro e a versão coronelística da proposta econômica modernizadora das
elites do Centro-Sul do país.
Em sua crise pessoal, o
Conselheiro, que se adaptou de forma precária aos ritmos e tradições da
sociedade imperial, se posicionou decididamente contra a República. Isso pode
ser atribuído à cobrança regular de impostos e ao processo de semicapitalismo
que se alastrava pelo sertão, rompendo as estruturas socioeconômicas
tradicionais de sociedades de transição, herdadas dos períodos colonial,
presentes na região.
Quanto ao caso das
tabuletas de imposto quebradas pelo Conselheiro, eu prefiro seguir a descrição
constante no artigo “A importância dos acervos judiciais para a pesquisa em
história, um percurso”, escrito pela Dr.ᵃ
Prof.ª Mônica Duarte Dantas e pelo Dr. E Me. Felipe Nicoletti Ribeiro, na
revista eletrônica LexCult, v. 4, n. 2, p. 47–50.
Tudo começou quando um
grupo invadiu o galpão onde se realizava a feira, na Vila do Soure, em 10 de
abril de 1893, instigado pelo comerciante José Honorato de Souza Neto, do grupo
vianista. Soure, na comarca de Itapicuru, era área sob a influência de Jeremoabo.
Esse grupo se põe a destruir as tabuletas dos impostos. Depois disso, houve
ajuntamentos análogos nos dias 17 e 24 daquele mês, em uma ação orquestrada e
cada vez mais violenta.
Baseado nas
investigações, o Promotor denunciou 33 pessoas pela sedição, embora, mais
tarde, o Juiz tenha reduzido esse número a 14, excluindo Antônio Vicente Mendes
Maciel, o Conselheiro, e a causa disso é:
"Ele estava
ausente por ocasião dos primeiros protestos [segundo
testemunhos] — chegando à vila, com seus seguidores, quando o movimento
já estava em curso —, como agiu de maneira a impedir que as autoridades, entre
elas o próprio Juiz de Direito, fossem atacadas pelos “sediciosos”. Quando
chegaram as forças repressivas, contudo, ele e seus seguidores se juntaram aos
sediciosos em fuga. Daí em diante, o grupo passaria por várias outras vilas da
região, inflamando os protestos contra os novos impostos (p. 50)."
Ou seja, segundo essa
versão, os conselheiristas foram pegos no meio de um fogo cruzado e empurrados
para a confusão, que eles não armaram. Receando represálias — Conselheiro fora
preso no Império — fugiram com os envolvidos, para em seguida sofrer um ataque
precipitado de uma força policial em Masseté, que foi escorraçada até o
ridículo. Aparentemente contaminados pelo incidente, começaram a atacar
tabuletas em outras localidades, como no arraial do Bom Jesus e na vila do
Amparo. Se é que as últimas denúncias não foram inventadas por gente
interessada em manter o Peregrino sob pressão.
Levado a um tribunal
sob a presidência do próprio Luís Viana, o comerciante responsável pelo
conflito foi absolvido; já os conselheiristas, temerosos, internaram-se nos
sertões de Canudos, ainda na primeira metade de 1893.
Posteriormente, um
grupo de 80 soldados do Exército foi enviado no encalço dos devotos, mas, de
repente, sem explicação, o governador Rodrigues Lima muda de ideia e chama a
tropa de volta, sem explicações.
Penso que a causa disso
foi que o Conselheiro iria se embrenhar no coração da área sob o domínio do
Barão de Jeremoabo. Rodrigues e Viana viram nisso um grande potencial de
problemas que aquele “esquisito” poderia criar ao seu desafeto político, e por
isso deixaram-no em paz. Canudos/Belo Monte crescia à sombra da insanidade
política e moral vigente.
Essa visão também é
compartilhada pelo Almirante-de-Esquadra Mario Jorge de Fonseca Hermes.
"O governador
Rodrigues Lima obteve autorização do Marechal Floriano Peixoto para enviar 80
militares do Exército em perseguição ao beato. Contudo, ele determinou o
retorno da tropa para Serrinha. Cumprira orientação de Luís Viana, que,
realmente, mandava no governo, e que entendera ser Antônio Conselheiro… útil
aos seus desígnios políticos… naquela região encontravam-se as fazendas do
Barão de Jeremoabo e de seus correligionários… formavam a 3ª Região Eleitoral…
Luiz Viana imaginava que Conselheiro e seus homens criassem dificuldades aos
fazendeiros locais, minando o prestígio de Jeremoabo" (Os
militares e a política na República — Canudos: tentativa de uma análise
conclusiva, Revista Marítima Brasileira, Serviço de Documentação Geral da
Marinha, vol. 121, Nº 1/3, jan–mar, 2002, p. 123).
Ao final, não temos
certeza das supostas causas econômicas do início de Canudos. Pesando as
informações mais seguras, podemos afirmar com boa dose de certeza que elas não
foram motivação da ação dos conselheiristas em Soure, e o que aconteceu nas
outras cidades pode muito bem ser fruto de pressão política local sob a redação
de jornais pouco independentes ou somente boatos.
Canudos tornou-se um
centro de atração de indivíduos e famílias ao redor, inclusive de outros
estados. O Conselheiro logo teve à sua disposição uma força política e militar
considerável, menos pelo poder de choque do que pela motivação, o que não
impossibilitava uma convivência acordada com os coronéis locais, no esquema da
tradicional troca de favores e votos. O problema era que o Conselheiro não
queria fazer acordo, e nesse sentido ele se tornava um desafio direto à
autoridade de Jeremoabo, nos seus redutos políticos, e, no melhor dos casos, um
mau exemplo. Por enquanto, ele era pequeno demais para ser percebido, mas os
políticos situacionistas logo descobririam que estavam brincando com fogo.
A situação ficou mais
angustiante para Jeremoabo, à medida que a população do arraial assoma milhares
de pessoas — talvez em torno de 7 mil —, pois todos ainda se lembravam dos
efeitos devastadores da seca de 1877–79, chamada Grande Seca, e a de 1888–1889,
a Seca dos Três Oitos. Todos sabiam que, no ano em que houvesse uma seca mais
intensa, milhares de pessoas sairiam dali famintas e desesperadas, a saquear as
fazendas próximas para sobreviver. Esse temor aparece claramente em Canudos:
Cartas para o barão, de Consuelo Novais Sampaio. Para o grupo de Viana,
Canudos isso era um presente inesperado.
Em fins de outubro de
1896, porém, foi expedido pelo juiz de direito de Juazeiro, Arlindo Leoni, um
telegrama alarmista ao governador Luiz Viana, informando que homens armados de
Canudos estavam ameaçando invadir e saquear a cidade, e solicitava proteção.
Viana diz que não moveria a polícia por boatos. Por que mexer no que estava
dando certo?
Nesse momento, Viana
também estava ocupado, atacando, com a sua polícia, os domínios de outros
coronéis no centro-sul da Bahia. Mas Leoni insistiu e, no dia 4 de novembro,
ele mandou outro telegrama, ainda mais alarmista. Contra a vontade e para
'tirar o juiz da cola', mas sem tropa, Viana apelou para o comandante do 3º
Distrito Militar de Salvador, o general Frederico Sólon de Sampaio Ribeiro, pai
de Saninha, a esposa de Euclides da Cunha.
O pedido do governador
chegou ao Governo Federal, cujo ministro da guerra interino, o general Dionísio
Cerqueira, considerando o artigo 6º da Constituição, que ainda não fora
regulamentado por lei, ordenou a Sólon que cedesse ao governador as tropas que
ele precisasse para manter a ordem pública. Naquele momento, a questão
resumia-se a defender a cidade de Juazeiro.
Se nós fizéssemos uma
analogia, diríamos que o episódio de Canudos começou como uma pequena ferida, à
qual ninguém deu importância, porque a cabeça da sociedade, a elite
político-econômica, estava muito atarefada planejando golpes e descumprindo as
leis que ela mesma criara. Em meio à luta furiosa pelo poder, a sociedade, nas
suas porções mais pobres, embora nem sempre, distantes e abandonadas, foi
sistematicamente ignorada, enquanto nelas se desenvolvia uma perigosa
inflamação, do ponto de vista da cabeça, ou das elites dirigentes.
De repente, a
inflamação cresceu, virou tumor, causando febre e incômodos, mas, ao invés de
recorrerem a uma cura duradoura, as elites, com a cabeça só na disputa do
poder, começaram a usar o tumor para criar problemas umas às outras. Nesse
momento, uma terceira força, um médico maluco (Manuel Vitorino), pensando em
ganhar vantagens com a crise, interviu desastradamente, transformando um
problema local numa perigosa crise nacional. A sua intervenção apenas agravou o
quadro.
Por fim, quando a coisa
ameaçou tornar-se uma gangrena, foi inevitável partir para uma solução
cirúrgica. O responsável por contratar o cirurgião (Argolo) convida um (Arthur
Oscar) pior que o médico maluco que fez um estrago imensurável na sala de
cirurgia, contaminando e ferindo, com a sua imperícia, médicos e auxiliares
presentes que, aos poucos, contaminaram toda a sociedade, fazendo as pessoas
verem em Canudos coisas que nunca estiveram lá.
Uma nação imprevidente,
que só age depois que o mal, evitável, torna o tratamento mais duro inevitável.
Eduardo Simões