terça-feira, 5 de maio de 2026

 


 O CORONEL MOREIRA CÉSAR E 

CANUDOS DEVEM MORRER

A PROFECIA DO BARÃO DE COTEGIPE — 4


O maior dos crimes jamais cometido.

Em Os Sertões, Cunha se esmera, em cada parágrafo ou frase, para incinerar tudo que possa ser ou parecer digno e nobre na reputação de Moreira César. Quanto à sua nomeação ao governo de Santa Catarina, ele afirma: “Em 1893, já coronel, porque galgara velozmente três postos em dois anos [mostrando que era muito competente], ao declarar-se a Revolta da Armada, o Marechal Floriano Peixoto destacou-o, armado de poderes discricionários, para Santa Catarina… Em ponto algum do nosso território pesou tão firme e tão estrangulador o guante dos estados de sítio”.

“Os fuzilamentos que ali se fizeram, com triste aparato de imperdoável maldade… Abalaram tanto a opinião nacional que, ao terminar a revolta, o governo civil, recém-inaugurado, pediu contas de tais sucessos ao principal responsável. A resposta, pelo telégrafo, foi pronta. Um “não”, simples, seco, atrevido, cortante, um dardo batendo em cheio à curiosidade imprudente dos poderes constituídos, sem o atavio, sem o rodeio, sem a ressalva da explicação mais breve” (1).

Quando Moreira César chegou a Desterro, estava à frente de uma tropa de cerca de 500 homens, divididos entre soldados federais, policiais e membros das milícias semiprivadas florianistas, que se apresentavam como 'batalhões patrióticos'. Aí encontrou as prisões lotadas de prisioneiros, que já deviam ter sofrido nas mãos dos garotos radicalizados do almirante Jerônimo. Será que ele foi tentado a se livrar logo dos prisioneiros?

O censo de 1890 dizia que Desterro possuía 30.687 habitantes, embora seja provável que, em 1894, esse número estivesse diminuído, em virtude da guerra. Os desterrenses levavam uma vida pacata e isolada, em que todos se conheciam e sabiam o que acontecia. Não era, portanto, um local propício a ações clandestinas espetaculares, como massacrar quase toda a elite social e política do estado e da cidade, sem que ninguém o soubesse.

As acusações de numerosos crimes graves, como desaparecimentos, fuzilamentos e outras formas de execução em massa na escuridão da noite, temperadas com atos de uma crueldade brutal, deixam-me atônito: como tudo ficou clandestino aos que moravam na cidade? Por que ninguém escreveu nada naquele momento sobre isso? Como tantos detalhes ficaram conhecidos por gente que nem morava na cidade?

As vítimas desses crimes eram de todas as classes sociais; das mais humildes até um barão do Império, de civis até a mais alta patente do Exército, como o marechal Lobo d’Eça. O local da maioria esmagadora desses crimes seria a improvável fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim, um nome que causa arrepios em quem não conhece a história e é desnecessariamente impressionável.

A primeira vez que vi uma menção a fuzilamentos em Anhatomirim foi em um jornal do Espírito Santo. O Comércio do Espírito Santo, de 19 de dezembro de 1894. O texto estava um pouco apagado, mas traz uma notícia em destaque na primeira página. Essa matéria foi copiada de um jornal federalista chamado Canabarro, editado na cidade uruguaia de Rivera. O título da matéria era “FUZILADOS”. Com o tempo, essa informação foi se tornando uma verdade aceita na nossa história. 

A matéria descreve a circunstância dos fuzilamentos de vários personagens conhecidos, com uma riqueza de detalhes impressionante… Para quem não estava lá (pisc!). Essa matéria foi também copiada pelo jornal maranhense Pacotilha, em janeiro de 1895, e provavelmente por outros. 

E, assim, lentamente, essa fantasia vai ganhando ares de verdade, com a garantia de seus inventores, e se espalha pelo país, ajudada pelo torpor geral, pelas altas taxas de analfabetismo e pelo fascínio do escandaloso (2). 

A lenda dos massacres foi inventada tão às pressas que não existem dois “especialistas” apontando para um mesmo número de fuzilados. Cada um anexa o número que mais lhe agrada. Segundo Oleone Fontes, num artigo da revista Canudos, de Salvador, nº 2, vol. 2, de 1997, o federalista apaixonado Duarte Paranhos Schutell, que, com um olhar penetrante, viu tudo do seu canto, listou 34 nomes; Lucas Alexandre Boiteux apostou no reverso e listou 43. A ordem dos fatores não altera a pesquisa. Oswaldo Rodrigues Cabral preferiu 185, sem citar fonte. Ele somente pensou grande. Os desconhecidos da Wikipédia em português orbitaram 298 vítimas, no verbete “Fuzilados em Anhatomirim (1894)”. Não se pode dizer que eles não se esforçam para continuar desconhecidos.

Se tomarmos como cem o número de vítimas, e supusermos que cada uma conhecia pelo menos cem pessoas, entre familiares, amigos e desafetos, nós teríamos um total de dez mil pessoas dando pela falta deles. Considerando a população de Desterro nessa época, como explicar que nenhum dos jornais da cidade, como o governista República e o federalista O Estado, faz qualquer menção a Anhatomirim ou liga o nome do coronel Moreira César a qualquer ato de violência política nesse período?

Anhatomirim só aparece na coluna social! Por duas vezes, o jornal República relatou que o governador Moreira César, foi à fortaleza. De visita!

Em 1896, quando Moreira César não era mais governador, ele mandou prender o editor do jornal O Estado, um certo tenente Machado, da ativa — talvez o mesmo que traiu Floriano. A detenção foi ocasionada pelo fato de Machado haver assinado um contundente editorial direcionado a Floriano Peixoto, em 3 de julho de 1896, no marco de um ano do seu falecimento. No entanto, essa detenção foi estritamente disciplinar e durou somente um dia, impulsionada pela convicção fechada de Moreira César de que os militares da ativa não deveriam se envolver na política partidária. Não é por isso que lutamos hoje?

Ora, até os federalistas entenderam a sua atitude, tanto que O Estado, na edição de 7 de julho, na matéria FLORIANO PEIXOTO, na primeira página, diz: “Em todo o caso, a prisão do tenente Machado só foi motivada por quebra de disciplina; nenhuma importância tem, como se tem pretendido propalar.”

Quanto à forma como César respondeu ao Governo Federal, Euclides da Cunha ou mente ou ignora, pois a resposta do coronel foi escrita em ofício, na forma padrão, sendo publicada na Gazeta de Notícias, um dos jornais mais importantes do Rio, em 11 de maio de 1895, p. 2:

“Cidadão General de Brigada Manuel Eufrásio dos Santos Dias [em nome do Ministro da Guerra], muito digno Comandante do 5º Distrito Militar [de Curitiba].”

“Em resposta ao ofício reservado do comando interino desse Distrito, de 17 de janeiro último, relativamente à portaria reservada do Ministério da Guerra, de 18 de dezembro de 1894, que diz: “Informai com urgência a este Ministério se no distrito de vossa circunscrição houve fuzilamentos de militares de mar e terra determinados por autoridades da República,” cumpre-me dizer, em resposta, que não.”

Esse texto apareceu também no Diário do Congresso de 27 de junho de 1896, segundo o general Epaminondas Ferraz, Excertos da história de um batalhão de infantaria, sustentáculo da República, revista Defesa Nacional, nº 639, p. 64; e integralmente no Jornal do Comércio, que reproduziremos mais adiante.

Como Euclides o ignorava?

Eduardo Simões - como estou publicando o texto em pedaços, e é grande, não colocarei as notas para não ficar confuso. Complementem a pesquisa na Internet.



                        O CORONEL MOREIRA CÉSAR E 

CANUDOS DEVEM MORRER

A PROFECIA DO BARÃO DE COTEGIPE - 3


Um profissional dedicado

 O maior problema do Coronel Antônio Moreira César começou no dia 19 de abril de 1894, no auge de uma carreira ascendente, publicamente reconhecida, quando foi designado Governador Militar Provisório de Santa Catarina pelo Presidente Floriano Peixoto, num contexto particularmente confuso.

A sua nomeação é singular, pois até aquele momento não havia notícia de grande proximidade entre César e o Marechal Floriano, embora ele já tivesse chamado a atenção dos altos escalões, em virtude da sua dedicação, de sua cultura geral e competência profissional. Ela revela antes de tudo a ausência de quadros militares para suprir a administração pública estatal, a improvisação em nome da manutenção do poder e a importância das relações pessoais sobre a competência profissional, apesar do discurso, afinal o primeiro indicado por Floriano ao governo do estado era um tenente — o coronel entrou como que “na raspa do tacho”.

O tenente, como vimos, passou para o lado dos revoltosos e, com estes, tenta criar um país independente: os Estados Unidos Provisórios do Brasil, com a capital em Nossa Senhora do Desterro, a fim de criar dificuldades internacionais ao governo Floriano. Os revoltosos, entretanto, se dividiram numa luta estéril pela direção do movimento, favorecendo a reação do governo, por meio de sua marinha improvisada.

A frota legalista do almirante Jerônimo Francisco Gonçalves, após torpedear o encouraçado revoltoso Aquidabã, agiu rápido e desembarcou na ilha de Santa Catarina um pequeno contingente de alunos da Escola Militar do Rio de Janeiro. Jovens fogosos e florianistas radicais, eles tomaram as fortalezas ao norte da ilha de Santa Catarina e desabalaram para o sul, até se assenhorarem de toda a ilha no dia 19 de abril de 1894. No dia 21 de abril, o coronel Antônio Moreira César desembarca em Desterro, e no dia seguinte assume o governo.

Alguma coisa, entretanto, aconteceu entre 21 de abril e 28 de setembro de 1894, enquanto ele governava o estado, que manchou gravemente a sua reputação, construída em “uma carreira militar correta como poucas”, segundo Euclides da Cunha, que, após sua morte, o denunciará como um dos personagens mais sanguinários e cruéis de nossa história. A ponto de a cidade de Niterói retirar o seu nome de uma de suas ruas.

Mas o que será que aconteceu?

Eduardo Simões


 



O CORONEL MOREIRA CÉSAR E 

CANUDOS DEVEM MORRER

A PROFECIA DO BARÃO DE COTEGIPE - 2

SANTA CATARINA

 

O contexto

Em 15 de novembro de 1889, o Brasil sofreu um inesperado e inevitável golpe militar, chefiado pelo marechal Deodoro da Fonseca, que mudou o nosso sistema de governo, após anos de estremecimentos entre políticos e militares do Império, deslumbrados com a vitória na Guerra do Paraguai — que chamo Grande Guerra Platina (1864–1870). Após o fim do Império, uma série de mudanças tanto sociais como econômicas, além de outros acontecimentos impactantes, se seguiram, sem que nenhum dos grupos no poder soubesse exatamente o que fazer: os monarquistas, sobre como permanecer no poder; militares e republicanos, sobre a República que queriam. Os movimentos eram aleatórios, conduzidos por minorias, que se impunham, enquanto o povo assistia a tudo, bestificado.

O grupo social e econômico mais influente no Império, o dos grandes proprietários rurais escravocratas, estava cansado da estagnação imperial, mas tentando acomodar seus interesses econômicos de classe, e por isso, em geral, não discutia sobre a República nem votava nos republicanos. Cada um esperava para ver quem tomava a iniciativa e, com isso, tudo ficou para ser decidido na última hora, ou mesmo depois dela.

A participação do exército no golpe da República expôs a intensa mobilização política entre os militares, anteriormente desconhecida entre nós, embora a experiência latino-americana, em geral, inspirasse preocupações.

Em 1890, durante o Governo Provisório, o ministro da Fazenda, Rui Barbosa, dá prosseguimento à política de crédito fácil — iniciada pelo Visconde de Ouro Preto —, redirecionando-a para o setor industrial, mas que, em virtude da interferência política, da inexistência de uma economia de mercado e da especulação financeira, acaba no desastre do Encilhamento — a moeda se desvalorizou (aumento de preços), empresas fecharam (desemprego) e a economia se desorganizou (estagnação).

Em 24 de fevereiro de 1891, é promulgada a primeira Constituição republicana. Uma adaptação da que vigorava nos Estados Unidos.

Embora prestigiado na tropa, Deodoro sofre, ao longo do Governo Provisório, cerrada oposição do forte grupo republicano paulista, chefiado por Prudente de Morais, e de uma ala do exército, aglutinada ao redor do Marechal Floriano Peixoto, que cresce a cada dia.

Nas eleições de 25 de fevereiro de 1891, Deodoro é eleito presidente e Floriano Peixoto, vice. No parlamento, os paulistas mantêm a sua oposição às iniciativas autoritárias e personalistas de Deodoro, que quer dirigir o país como um quartel. Ignorando a Constituição, ele nomeia os governadores dos estados.

No dia 3 de novembro de 1891, inconformado com a oposição ao seu governo, Deodoro dissolve o Congresso Nacional e estabelece uma ditadura de fato. A reação vem em 23, quando o almirante Custódio de Melo levanta a Marinha e ameaça bombardear o Rio de Janeiro. É a Primeira Revolta da Armada. Deodoro renuncia e dá posse a Floriano.

Floriano, também ignorando a Constituição, depõe os governadores nomeados por Deodoro e impõe os seus, quase todos jovens militares de carreira. O Exército começa a aparelhar as instituições administrativas da República.

No dia 6 de setembro de 1893, a oficialidade da Marinha, liderada por Custódio de Melo, que tinha ambições presidenciais, exige eleições presidenciais; Floriano nega, e tem início a Segunda Revolta da Armada.

No Rio Grande do Sul, há uma divergência entre o governo positivista-ditatorial de Júlio de Castilhos e o grupo liderado pelo ex-deputado liberal Gaspar Silveira Martins, chamado “federalista”, porque defendia a descentralização política e uma democracia do tipo liberal-parlamentarista.

Em 2 de fevereiro de 1893, tem início a Revolta Federalista no Rio Grande do Sul. As forças federalistas do poderoso pecuarista Gumercindo Saraiva, vindas do Uruguai, invadem o estado, descontentes com a política centralizadora do governo de Júlio de Castilhos. A ele se juntam outros chefes federalistas, dando início a uma guerra civil. Castilhos recebe apoio explícito, e decisivo, de Floriano Peixoto.

No início de março de 1892, Floriano nomeou um homem de confiança, o tenente Manoel Joaquim Machado, interventor em Santa Catarina. Contaminado pela revolta no estado vizinho, Santa Catarina revolta-se. O tenente Machado adere à facção federalista, que se apropria da máquina administrativa estatal. Os federalistas gaúchos atravessam Santa Catarina e invadem o Paraná. Agora, sua meta é ampliar o movimento, atravessar São Paulo e pressionar pela renúncia de Floriano.

Entre janeiro e fevereiro de 1894, acontece o “cerco da Lapa”, cidadezinha paranaense defendida por tropas federais. Apesar de sua queda, a tenacidade dos defensores esgotou os federalistas e salvou São Paulo da invasão. Tropas paulistas, numerosas e bem equipadas, invadem o Paraná e empurram os federalistas de volta para o Rio Grande do Sul.

Enquanto o interior de Santa Catarina estava dominado pelos federalistas gaúchos, que não se acertavam com os revolucionários catarinenses, a esquadra comprada por Floriano derrota os navios rebelados e ocupa os fortes da ilha de Santa Catarina, onde estava a capital Desterro. Vários revolucionários do estado de Santa Catarina se juntam aos marinheiros revoltosos e se evadem para a Argentina e Uruguai. Alguns, entretanto, ficam sendo presos pelas forças federais.

Floriano, sem um aliado confiável para nomear, nomeia o coronel paulista Antônio Moreira César como governador interino de Santa Catarina, com a tarefa de reorganizar o estado e reprimir os partidários do federalismo ainda atuantes. Ele chega em 21 de abril de 1894 e assume no dia seguinte.

A partir da ação de seus adversários e, principalmente, da obra de Euclides da Cunha, inicia-se uma lenda que tenta associar o Coronel Moreira César a um evento que nunca ocorreu: o Massacre de Anhatomirim, em 1894.

Eduardo Simões

 

O CORONEL MOREIRA CÉSAR E 

CANUDOS DEVEM MORRER

A PROFECIA DO BARÃO DE COTEGIPE

Meus Agradecimentos;

A meu pai e minha mãe, Maria Leda, pelo dom da vida e do amor aos livros.

Ao meu grande mentor Antônio Simões, pelo estímulo à qualidade de minhas leituras e ao correto significado do conceito de honra.

Minhas filhas Silvia e Madu, minhas grandes motivações, por seu incentivo e grande amor, assim como à sua mãe. Que Deus se apiede de todos nós.

À minha netinha Maria Antônia e a meu genro, Marcos Migueis, assim como a seus familiares, meus grandes amigos, pela vontade de Deus.

A um dos militares mais corretos e dignos do Exército Brasileiro, o coronel Antônio Moreira César e o seu 7º Batalhão de Infantaria, sob o seu comando, a tropa mais valente, confiável e galante do Exército Brasileiro. Nunca mais haverá uma tropa como o 7º B.I. de 1897.


Soldados do 7º B.I. durante a 4ª Expedição, num instantâneo de Flavio Barros. Imagine se eles posariam assim tão relaxadamente se Moreira César ainda fosse o seu comandante e a melhor unidade do exército nacional! São o retrato da improvisação e do descaso reinantes nessa expedição e no resto do país.  Como unidade independente o 7º B.I. foi extinto em 1908.

 

INTRODUÇÃO

Canudos é o horror, o máximo horror, o nosso horror. Um horror que nos provoca, ao mesmo tempo, repulsa e atração, embora na maioria das vezes ele atraia mais do que repele, como uma vertigem à beira de um abismo, enquanto forcejamos, em meio à névoa, em ver as fantasmagorias que daí brotam, preferindo a lenda que choca aos fatos que mostram a natureza mais política e humana desse conflito, e que poderiam nos curar dessa superficialidade.

Normalmente, o fenômeno de Canudos e tudo que o cerca são analisados sob a perspectiva da ideologia vigente e do modelo histórico que ela alega pressupor, sem considerar a realidade, a partir de uma perspectiva moralista e anacrônica, conforme, não raro, os interesses pessoais de quem o discute. O tema, portanto, está sujeito a deformações e interpretações que não resistem ao confronto com a realidade documental, ou com o que restou dela, perdida em páginas de velhos jornais, livros e revistas que poucos leram, ou mesmo da lógica mais elementar. 

Talvez já seja hora de sabermos, para além da fantasia literária e da história de afogadilho, o que aconteceu por lá, e alhures, mesmo correndo o risco de nos surpreender e sermos obrigados a refazer antigos conceitos e crenças petrificadas que, de tempos em tempos, nos levam a repetir os mesmos erros — embora sair de uma rota errada, mas familiar, para outra, recém-aberta, também envolva riscos.

Viver é correr riscos e assumir responsabilidades pelas consequências dos riscos que corremos. Os homens e mulheres que construíram nossa história, conscientemente ou não, arriscaram-se para obter vantagens para si ou para o que julgavam ser o interesse nacional ou de sua comunidade. Há sempre uma dose de subjetividade nas ações humanas, logo de ideologia, ainda mais quando é para mover outros numa determinada direção, lá onde a ignorância, a ilusão e a boa-fé se fundem para construir aquilo que chamamos de condicionamento histórico.

A questão seria, portanto, evitarmos os extremos, seja por desilusão com a objetividade, mergulhando na ideologia, ultrapassando o limite saudável da fantasia ou da mitologia, seja por desprezo pela subjetividade, insistindo na ilusão do fato puro. Entre um extremo e outro há uma zona luminosa onde um rico debate pode ocorrer e, por meio dele, aprimoraremos as nossas ferramentas de análises, com novas abordagens, e até novos documentos, trazendo à luz novos fatos, sepultando ou fortalecendo novas ou antigas teorias. A ciência é um cemitério de ideias.

Levantando o véu da literatura e dos interesses, historicamente condicionados de grupos específicos de ‘salvadores da pátria’, percebemos que Canudos foi um desses momentos especiais, que ajudou a forjar aquilo que seríamos, pela revelação do que éramos, ou fomos historicamente levados a ser, por nossa própria escolha. Nós, muitas vezes, não agimos sabendo, mas agimos querendo. Então, apesar de todos os condicionamentos, é sempre o indivíduo que escolhe o seu destino, como nos ensinaram o Almirante Luís Filipe Saldanha da Gama, o Coronel Antônio Moreira César, e outros, que ora entulham ora alargam o nosso caminho para o futuro, correndo os riscos que o seu tempo e o seu lugar na sociedade impunham que corressem ou evitassem.

Viver é correr riscos, mas só vivem verdadeiramente aqueles que têm a coragem de assumir os resultados, bons e maus, dos riscos que escolheram.

Eduardo Simões


 


SENHOR DINAMITE

Nascido em uma família de imigrantes judeus. Groucho Marx, nome artístico de Julius Henry Marx, foi, com seus irmãos Harpo, Chico e Zeppo, o rei da comédia ácida dos anos 1920 a 1950. É um humor arrasador com muitas pegadinhas, comentários às vezes cruéis e brilhantes improvisações. Certa vez, em Londres, quando se apresentavam num teatro, a plateia, acostumada às piadas bem comportadas e muito sutis dos ingleses, indignou-se com certas falas dos irmãos e começou a atirar moedas no palco. Groucho parou, pegou uma das moedas, fez cara de contrariado e disse ao público: “Senhores, nós viemos da América para entretê-los, será que poderiam jogar moedas maiores?” Ganhou a plateia e novas apresentações no país.
Apresentou um programa de entrevistas na TV, um talk show, que ficou famoso na época. Certa vez, numa entrevista, uma atriz perguntou-lhe: “Senhor Marx, o senhor já dormiu com um urso ou um francês?” ao que ele respondeu: “Não, que eu me lembre.” 
Uma de suas tiradas típicas é essa: “Não tenho uma fotografia. Eu lhe daria as minhas pegadas, mas elas estão lá em cima, dentro das minhas meias.”

E FOI LONGE!

Na luta para se livrar das garras da cruel ditadura comunista, uma região da Ásia Central, a Abcásia, criou esse selo memorável: FORA MARX E LENIN! VIVA MARX E LENNON. 

domingo, 3 de maio de 2026

 


CIÊNCIA E IDEOLOGIA - 3 

Schumpeter, 1948

A visão original do pesquisador, por outro lado, não está sujeita a esse controle [a análise será feita no resultado final da pesquisa]. Ali, os elementos que passarão pelos testes de análise são, por definição, indistinguíveis daqueles que não passarão ou — como também podemos dizer, já que admitimos que as ideologias podem conter até 100% de verdade comprovável — a visão original é ideológica por natureza e pode conter qualquer quantidade de ilusões atribuíveis à posição social do indivíduo, à maneira como ele quer se ver, ou ver sua classe ou grupo, e os oponentes de sua própria classe ou grupo. Isso deve ser estendido até mesmo às peculiaridades de sua perspectiva que estão relacionadas a seus gostos e condições pessoais e não têm conotação de grupo.

Pode ser útil reformular nosso problema antes de discutirmos exemplos. Uma vez que a fonte da ideologia é nossa visão pré e extracientífica do processo econômico e do que é causal ou teleologicamente importante nele, e uma vez que normalmente essa visão é submetida a tratamento científico, sendo verificada ou destruída pela análise e, em ambos os casos, deveria desaparecer enquanto ideologia, até que ponto, então, ela não desaparece como deveria? Até que ponto ela se mantém diante da acumulação de evidências contrárias? E até que ponto ela vicia nosso próprio procedimento analítico, de modo que, no final, ainda ficamos com conhecimento prejudicado por ela?

Desde o início, fica claro que existe um vasto campo da economia no qual o risco de viciação ideológica é tão pequeno quanto na física. Uma série temporal de investimento bruto na indústria manufatureira pode ser boa ou ruim, mas, normalmente, qualquer um pode descobrir se é uma ou outra dessas coisas… Questões como essas podem não ser as mais fascinantes ou mais urgentes, mas constituem a maior parte do que é especificamente científico em nosso trabalho. E o são, pela lógica, embora nem sempre sejam neutras em relação à ideologia.

Além disso, o seu âmbito se amplia à medida que nossa compreensão do trabalho analítico melhora. Houve um tempo em que os economistas pensavam que ganhavam ou perdiam pontos se lutassem pela teoria da quantidade de trabalho [mais fácil de ser quantificada, matematizada] e se opusessem à teoria da utilidade marginal do valor. Pode-se demonstrar que, no que diz respeito a questões ideologicamente relevantes, isso faz pouca diferença… Ouso dizer que ainda há quem encontre algo incongruente com sua visão — de Walras — da análise da produtividade marginal. Contudo, pode-se demonstrar que o aparato puramente formal desta última é compatível com qualquer visão da realidade econômica que alguém tenha ou já teve.

Busquemos agora elementos ideológicos em três das estruturas mais influentes do pensamento econômico: as obras de Adam Smith, de Marx e de Keynes. No caso de Adam Smith, o interessante não é a ausência, mas sim a inofensividade de qualquer viés ideológico. Não me refiro à sua sabedoria prática, limitada ao seu tempo e país, sobre laissez-faire, livre comércio, colônias e afins, pois as preferências e recomendações políticas de um indivíduo estão completamente fora do campo das minhas observações, ou melhor, só entram nesse campo na medida em que a análise factual e teórica apresentada em seu apoio o faz. Refiro-me exclusivamente à sua própria obra analítica — apenas aos seus indicativos, não aos seus imperativos [O que ele sugere como possível ou adequado, mas não o que ele sugere como norma ou lei].

Isso acertado, a primeira questão que surge é que tipo de ideologia devemos atribuir a ele. Partindo do princípio marxista, analisaremos sua posição social, de Adam Smith, ou seja, suas afiliações de classe pessoais e ancestrais, além da conotação de classe das influências que podem ter contribuído para formar a sua visão de mundo. Ele era um homo academicus que se tornou funcionário público. Seu círculo social era mais ou menos semelhante: sua família, nem pobre nem rica, mantinha um certo nível de educação e pertencia a um grupo conhecido na Escócia de sua época. Acima de tudo, não pertencia à classe empresarial. Sua visão geral sobre as questões sociais e econômicas reproduzia esses dados com perfeição.

Ele observava o processo econômico de seu tempo com um olhar frio e crítico e instintivamente buscava explicações mecânicas em vez de pessoais — como a divisão do trabalho. Sua atitude em relação aos latifundiários e às classes capitalistas era a de um observador externo, e ele deixou bem claro que considerava o latifundiário (o latifundiário “preguiçoso” que colhe onde não plantou) como desnecessário, e o capitalista (que contrata “pessoas trabalhadoras” e lhes fornece sustento, matéria-prima e ferramentas) como um mal necessário. Essa última necessidade estava enraizada na virtude da parcimônia, cujo elogio evidentemente emanava do fundo de sua alma escocesa [os escoceses têm fama, entre os anglófonos, de serem sovinas]. Sua simpatia se voltava inteiramente para o trabalhador que “veste a todos e anda em farrapos”. Some-se a isso o desgosto que ele sentia… pela ineficiência da burocracia inglesa e pela corrupção dos políticos, e temos praticamente toda a sua visão ideológica.

Embora eu não possa me deter em demonstrar o quanto isso explica o quadro que ele traçou, devo enfatizar que o outro componente dessa visão, a filosofia da lei natural que ele absorveu em seus anos de formação, produto de homens com condicionamento semelhante, influenciou o pano de fundo ideológico a partir do qual ele escreveu de maneira similar — liberdade natural de ação, o direito natural do trabalhador a todo o produto da indústria, racionalismo individualista e assim por diante, tudo isso lhe foi ensinado antes que suas faculdades críticas estivessem desenvolvidas, mas dificilmente havia necessidade de ensiná-lo essas coisas, pois elas lhe eram “naturais”, inerentes ao seu ambiente. Mas — e este é o ponto realmente interessante — toda essa ideologia, por mais fortemente arraigada que fosse, na verdade não prejudicou muito suas realizações científicas… Recebemos dele ensinamentos factuais e analíticos sólidos que, sem dúvida, permanecem atuais, mas não são passíveis de objeção quanto a viés ideológico — há alguns floreios semifilosóficos de natureza ideológica, mas podem ser removidos sem prejuízo de seu argumento científico.

A análise que sustenta suas conclusões qualificadas sobre o livre-comércio não se baseia… na proposição de que, por natureza, o homem é livre para comprar ou vender onde bem entender. A afirmação de que a produção (total) é a remuneração natural do trabalho aparece, mas não se faz uso analítico dela — em todos os momentos, a ideologia se perde em frases e, no restante, recua diante da pesquisa científica. Em parte, pelo menos, esse foi o mérito do homem: ele era, acima de tudo, responsável; e seu senso comum sóbrio e talvez um tanto seco lhe conferia respeito pelos fatos e pela lógica. Em parte, foi sorte: pouco importa se sua análise tiver que ser abandonada como a psicologia que pretendia ser, contanto que, ao mesmo tempo, deva ser mantida como um esquema lógico do comportamento econômico — em uma análise mais aprofundada, o homo economicus… revela-se um homem de palha bastante inofensivo [Como o seu similar no filme O mágico de Oz].

Marx foi o economista que descobriu a ideologia para nós e que compreendeu sua natureza… E isso representou um feito de primeira grandeza. Mas, por mais estranho que pareça, ele era completamente cego aos seus perigos, pelo menos no que lhe dizia respeito. Somente as outras pessoas, os economistas burgueses e os socialistas utópicos, foram vítimas da ideologia [Ele não concebia a si próprio como produto de uma ideologia; por alguma razão, era imune ao “mal” que contaminava todos os outros homens, e ele nunca explicou a causa ou o mecanismo de sua “imunidade”]. Ao mesmo tempo, o caráter ideológico de suas premissas e o viés ideológico de sua argumentação são evidentes em todos os lugares. Até mesmo alguns de seus seguidores (Mehring, por exemplo) reconheceram isso. E não é difícil descrever sua ideologia. Ele era um radical burguês que havia rompido com o radicalismo burguês. Foi formado pela filosofia alemã e não se considerava um economista profissional até o final da década de 1840. Mas, a essa altura, ou seja, antes de iniciar seu trabalho analítico sério, sua visão do processo capitalista já estava consolidada e seu trabalho científico visava implementá-la, não corrigi-la [o que o torna uma vítima particularmente afetada pela ideologia]. Mas não era nada original dele… e pode ser rastreado até diversos escritores do século XVIII, como Linguet. A história concebida como a luta entre classes definidas como privilegiados e desfavorecidos, com a exploração de umas pelas outras, a riqueza crescente entre os privilegiados e a miséria e degradação crescentes entre os desfavorecidos, caminhando com inexorável necessidade para uma explosão espetacular, essa era a visão então concebida com energia apaixonada e a ser elaborada, como se trabalha uma matéria-prima, por meio das ferramentas científicas de seu tempo. Essa visão implica uma série de afirmações que não resistirão ao teste dos controles analíticos.

De fato, à medida que seu trabalho analítico amadurecia, Marx não apenas elaborou muitas análises científicas neutras em relação a essa visão, mas também algumas que não se harmonizavam com ela — por exemplo, ele superou as teorias de crise baseadas no subconsumo e na superprodução, que inicialmente parecia ter aceitado e cujos vestígios permaneceram em seus escritos. Outros resultados de sua análise foram introduzidos por meio do artifício de manter a afirmação ideológica original como uma lei “absoluta” (isto é, abstrata), ao mesmo tempo em que admitia a existência de forças contrárias que explicavam os fenômenos divergentes na vida real. Algumas partes da visão, por fim, refugiaram-se em uma fraseologia injuriosa que não afeta os elementos científicos de um argumento.

Por exemplo, certa ou errada, sua teoria da exploração da mais-valia era uma análise teórica genuína. Mas todas as frases elogiosas sobre exploração poderiam ter sido igualmente aplicadas a outras teorias, incluindo a de Böhm-Bawerk: imagine Böhm-Bawerk na pele de Marx, o que poderia ter sido mais fácil para ele do que derramar os frascos de sua ira sobre a prática infernal de roubar o trabalho por meio da dedução de um desconto temporal de sua produção? Contudo, alguns elementos de sua visão original, que eram insustentáveis — como a crescente miséria das massas, que as incitaria à revolução final — eram, ao mesmo tempo, indispensáveis ​​para ele. Estavam intimamente ligados ao significado mais profundo de sua mensagem, enraizados demais no próprio sentido de sua vida, para serem descartados [eram raízes ideológicas]. Além disso, eram eles que atraíam seus seguidores e despertavam sua fervorosa lealdade. Eram eles que explicavam o efeito organizador — o efeito criador do partido — daquilo que, sem eles, teria sido insosso e sem vida [mas, decerto, científico]. Assim, testemunhamos neste caso a vitória da ideologia sobre a análise: todas as consequências de uma visão que se transforma em credo social e, com isso, torna a análise estéril.

A visão de Keynes — a fonte de tudo o que foi e é definitivamente identificado como Keynesianismo — apareceu pela primeira vez em alguns parágrafos ponderados na introdução de As Consequências da Paz (1920). Esses parágrafos criaram o estagnacionismo moderno — sentimentos estagnacionistas já haviam sido expressos, em intervalos, por muitos economistas antes, desde Britannia Languens (1680) — e indicam suas características essenciais: as características de uma sociedade capitalista madura e arteriosclerótica que tenta poupar mais do que suas oportunidades de investimento, decrescentes, conseguem absorver. Essa visão nunca mais desapareceu — temos outro vislumbre dela no tratado sobre Reforma Monetária e em outros lugares, mas, como outros problemas absorveram a atenção de Keynes durante a década de 1920, ela não foi implementada analiticamente até muito mais tarde. D. H. Robertson, em sua Política bancária e o nível de preços apresentou alguns trabalhos que equivaliam a uma implementação parcial da ideia de poupança abortiva. Mas, para Keynes, essa ideia permaneceu um tema secundário, mesmo no Tratado sobre a Moeda. Talvez tenha sido o choque provocado pela crise mundial que definitivamente rompeu os laços que o impediam de se expressar plenamente. Certamente, foi o choque provocado pela crise mundial que criou o público receptivo a uma mensagem desse tipo.

Mais uma vez, foi a ideologia — a visão do capitalismo em decadência que enxergava a causa da decadência em uma dentre a grande variedade de características da sociedade contemporânea — que convenceu e prevaleceu, e não a implementação analítica do livro de 1936 que, por si só e sem a proteção encontrada na ampla aceitação da ideologia, teria sofrido muito mais com as críticas que lhe foram dirigidas quase imediatamente. Ainda assim, o aparato conceitual era obra não apenas de uma mente brilhante, mas também de uma mente madura…

Ao longo da década de 1920, Keynes foi e se considerava um marshalliano e, embora mais tarde tenha renunciado dramaticamente à sua lealdade, jamais se desviou da linha marshalliana, além do necessário para defender seu ponto de vista. Ele continuou sendo o que havia se tornado em 1914, um mestre da arte teórica, e assim conseguiu revestir sua visão com uma armadura que impediu a muitos de seus seguidores de enxergar o elemento ideológico. É claro que isso agora acelera a absorção da contribuição de Keynes pela corrente atual de trabalho analítico. Não há princípios realmente novos a serem assimilados.

A ideologia do equilíbrio de subemprego e da não-gastança — um termo mais adequado do que poupança — é facilmente vista como incorporada em algumas premissas restritivas que enfatizam certos fatos (reais ou supostos). Com essas premissas, cada um pode lidar com elas como achar melhor e, quanto ao resto, pode seguir seu próprio caminho. Isso reduz as controvérsias keynesianas ao nível da ciência técnica. Sem apoio institucional, o “credo” se dissipou juntamente com a situação que o tornara convincente. Até mesmo os McCullochs mais firmes de hoje estão sujeitos a se desviarem para uma dessas posições, sobre as quais é difícil dizer se envolvem renúncia, reinterpretação ou incompreensão da mensagem original.

John McCulloch foi o principal representante do pensamento ricardiano na Inglaterra — Schumpeter abominava Ricardo. E já que se falou em mais-valia, vejam esse problema que ele nos deixou: Suponha que um barril de vinho novo, que custou £ 50, seja colocado em uma adega e que, ao final de doze meses, valha £ 55. A questão é: os £ 5 de valor adicional, atribuídos ao vinho, devem ser considerados uma compensação pelo tempo em que o capital de £ 50 esteve imobilizado, ou devem ser considerados o valor do trabalho adicional efetivamente empregado na produção do vinho? (traduzido da Wikipedia em inglês — John Ramsay McCulloch)

Böhm-Bawerk, que foi professor de Schumpeter, disse dele:  nenhum membro da escola inglesa foi tão infeliz em sua abordagem do assunto ou prestou um desserviço tão grande à teoria dos juros quanto McCulloch (idem).

Tomemos, por exemplo, a teoria da poupança, que aparece num contexto mais amplo no sistema keynesiano, mas que também poderia, factual e teoricamente, ser tratada isoladamente. Desde a época de Turgot e Smith… até a época de Keynes, todas as principais proposições sobre sua natureza e efeitos foram, por lenta acumulação, reunidas de modo que, à luz da maior quantidade de dados que dispomos hoje, deveria haver pouco espaço para divergências de opinião. Seria fácil elaborar uma análise resumida que a grande maioria dos economistas profissionais aceitaria como um consenso. Mas existem, e sempre existiu, discursos elogiosos ou mordazes sobre o assunto que, auxiliados por artifícios terminológicos, como a confusão entre poupança e não-gasto, conseguiram produzir um antagonismo simulado entre os autores que escrevem sobre o tema.

Diferenças doutrinárias muito enfatizadas, para as quais não há base factual ou analítica, sempre indicam, embora por si só não provem, a presença de viés ideológico de um lado ou de ambos… Outro exemplo de ideologia setorial desse tipo é a atitude de muitos, senão da maioria dos economistas, em relação a tudo que esteja de alguma forma ligado ao monopólio (oligopólio) e à fixação cooperativa de preços (conluio). Essa atitude não mudou desde Aristóteles e Molina, embora tenha adquirido um significado parcialmente novo sob as condições da indústria moderna. Agora, como naquela época, a maioria dos economistas concordaria com o ditado de Molina: monopolium est injustum et rei publicae injuriosum. Mas não é esse juízo de valor relevante para o meu argumento — pode-se detestar as grandes empresas modernas exatamente como se pode detestar muitas outras características da civilização moderna — mas sim a análise que o precede e a influência ideológica que essa análise exerce.

Qualquer pessoa que tenha lido os Princípios de Marshall, e ainda mais qualquer pessoa que tenha lido também sua obra Indústria e Comércio, deve saber que, entre os inúmeros padrões abrangidos por esses termos, muitos beneficiam a eficiência econômica e os interesses dos consumidores. Análises mais modernas permitem demonstrar com ainda mais clareza que nenhuma afirmação abrangente ou incondicional pode ser verdadeira para todos; e que os meros fatos relativos ao tamanho da empresa, à venda exclusiva por um único fornecedor, à discriminação e à formação cooperativa de preços são, por si só, insuficientes para afirmar que o desempenho resultante é inferior ao que se poderia esperar em um cenário de concorrência perfeita, nas condições alcançáveis ​​sob essa mesma concorrência em outras palavras, a análise econômica não oferece nenhum fundamento para a “indiscriminada quebra de monopólios” e que tal fundamento deve ser buscado nas circunstâncias particulares de cada caso individual.

No entanto, muitos economistas apoiam essa “indiscriminada quebra de monopólios”, e o ponto interessante é que os entusiastas do sistema de livre iniciativa são particularmente proeminentes entre eles [como uma forma de concessão aos marxistas, para quem os únicos monopólios tolerados são o do partido (o partido deles) e o do Estado (controlado por eles)]. A ideologia desses economistas [liberais envergonhados] é a de que a economia capitalista cumpriria suas funções sociais admiravelmente bem se não fosse o monstro do monopólio ou oligopólio, que lança uma sombra sobre um cenário que, de outra forma, seria brilhante. Nenhum argumento é válido quanto ao desempenho das grandes empresas, quanto à inevitabilidade de seu surgimento, quanto aos custos sociais envolvidos na destruição das estruturas existentes, quanto à futilidade do ideal sagrado da concorrência perfeita — tampouco suscita outra resposta que não seja a mais óbvia e sincera indignação [pois, cientificamente falando, não há nada que possa ser dito].

Mesmo ampliados dessa forma, nossos exemplos, embora ilustrem bem o que é ideologia, são bastante inadequados para nos dar uma ideia da extensão de sua influência. Essa influência se manifesta com mais força na história econômica, que exibe com tanta clareza os traços de premissas ideológicas… — o tema do papel a ser atribuído ao desenvolvimento econômico pela iniciativa de governos… em geral, os historiadores econômicos têm sistematicamente superestimado ou subestimado a importância dessa iniciativa de uma maneira que aponta inequivocamente para convicções pré-científicas. Até mesmo a inferência estatística perde a objetividade que, em uma boa lógica, deveria caracterizá-la sempre que questões ideologicamente relevantes estão em jogo.

E algumas das áreas sociológicas, psicológicas, antropológicas e biológicas que banham nossas costas estão tão contaminadas por vieses ideológicos que, ao observar o estado das coisas em partes desses campos, o economista pode, por vezes, encontrar algum consolo. Se tivéssemos tempo, poderíamos observar o mesmo fenômeno em todos os lugares: a cristalização das ideologias, sua transformação em credos que, por ora, são impermeáveis ​​a qualquer argumento; a descoberta de defensores cujas próprias almas se entregam à luta por elas.

Há pouco consolo em postular, como já foi feito algumas vezes, a existência de mentes desapegadas que sejam imunes ao viés ideológico e, por hipótese, capazes de superá-lo. Essas mentes podem de fato existir e, na verdade, é fácil perceber que certos grupos sociais estão mais distantes do que outros das esferas da vida social em que as ideologias adquirem vigor adicional em conflitos econômicos ou políticos [no meio universitário, por exemplo]. Mas, embora possam estar relativamente livres das ideologias dos profissionais da área, desenvolvem ideologias próprias, não menos distorcidas.

Há maior conforto na observação de que nenhuma ideologia econômica dura para sempre e que, com uma probabilidade que se aproxima da certeza, eventualmente superaremos cada uma delas. Isso decorre não apenas do fato de que os padrões sociais mudam e, portanto, toda ideologia econômica está fadada a desaparecer, mas também da relação que a ideologia mantém com aquele ato cognitivo pré-científico que chamamos de cosmovisão.

Como esse ato induz à busca e análise de fatos, e como estas tendem a destruir tudo o que não resiste aos seus testes, nenhuma ideologia econômica poderia sobreviver indefinidamente, mesmo em um mundo social estático. Com o passar do tempo e o aperfeiçoamento desses testes, eles realizam seu trabalho com mais rapidez e eficácia [embora, devamos notar que, em alguns grupos, determinadas ideologias, nascidas como hipóteses ou especulação filosófica, se cristalizam de tal maneira que, no seu limite, viram uma religião, completamente impermeável aos fatos e ao desenvolvimento científico, inclusive se colocando como científicas e promotoras da ciência. Não devemos subestimar a capacidade de autoengano de um ser humano].

Mas isso ainda nos leva ao resultado de que alguma ideologia sempre estará presente e, portanto, estou convencido de que assim será. Mas isso não é uma desgraça. É pertinente lembrar outro aspecto da relação entre ideologia e visão. Esse ato cognitivo pré-científico, o qual é a fonte de nossas ideologias, é também o pré-requisito para nosso trabalho científico. Nenhuma nova abordagem em qualquer ciência é possível sem ele. Através dele, adquirimos novo material para nossos empreendimentos científicos e algo para formular, defender e atacar. Nosso acervo de fatos e ferramentas cresce e se renova nesse processo. E assim, embora prossigamos lentamente por causa de nossas ideologias, talvez não prosseguíssemos de forma alguma sem elas.


Nota

Esclarecendo

A conduta inadequada consiste em “distorcer fatos ou a lógica para favorecer um ideal ou um interesse”, independentemente de o autor declarar sua preferência pela causa que defende ou não. Independentemente disso, pode ser uma boa prática exigir que todos declarem explicitamente suas “premissas axiológicas” ou o interesse pelo qual pretendem argumentar, sempre que não forem óbvias. Mas este é um requisito adicional que não deve ser confundido com o nosso.

(FIM)

domingo, 26 de abril de 2026

 


A RECEITA DE EMAGRECIMENTO DE TALLULAH BANKHEAD.

Tallulah Bankhead foi uma importante diva do cinema dos anos 30 e 40, uma atriz acima da média, com uma personalidade superexagerada, que adorava quebrar regras e alimentar o estereótipo da menina malvada, com um humor afiado e certeiro. Mas, no final, caiu vítima de si mesma, por não perceber que o mundo desconexo do seu humor era o retrato fiel da realidade, para a qual não se preparou. Não suportou o personagem que criou para si mesma e morreu decadente, não sem antes nos deixar pérolas cheias de sabedoria e humor. Certa vez, ela disse:
"Só me alimento quando estou com o estômago cheio". 
Assim, a pessoa não sente vontade de comer muito e engordar.
Antes que algum censor dê um chilique, faça de conta que o que ele tem na mão direita é só um lápis bem apontado.
"A única coisa que lamento do meu passado é a sua duração. Se eu tivesse que viver tudo de novo, cometeria os mesmos erros, só que mais cedo."
É uma forma de dizer uma coisa certíssima: "todos nós nascemos condenados a morrer e a errar". É uma grande bobagem, uma insensatez, culpar-se por erros do passado, como se tudo estivesse sob o seu controle. Contente-se apenas em não cometê-los de novo e conter a memória deles. 
Disney se baseou nela para o personagem Cruela dos 101 dálmatas.

 

CIÊNCIA E IDEOLOGIA - 2 

Schumpeter, 1948

Mas existem em nossas mentes prevenções sobre o processo econômico que são muito mais perigosas para o crescimento cumulativo do nosso conhecimento e para o caráter científico dos nossos esforços analíticos, porque parecem estar além do nosso controle, num sentido em que os juízos de valor e as alegações especiais não estão. Embora em grande parte aliadas a estes, essas prevenções merecem ser separadas e discutidas independentemente, e serão tratadas pelo nome de Ideologias.

A palavra ideologia era corrente na França no final do século XVIII e na primeira década do século XIX e significava praticamente a mesma coisa que a filosofia moral escocesa da mesma época e de épocas anteriores, ou que a nossa própria ciência social, na mais ampla aceitação do termo... Napoleão conferiu-lhe um significado pejorativo... Mais tarde, passou a ser usada, conforme frequente hoje, para denotar sistemas de ideias, ou seja, de uma forma em que se perde a distinção entre nossos juízos de valores e as ideologias. Não temos nada a ver com esses ou quaisquer outros significados, exceto aquele que pode ser mais facilmente introduzido por referência ao "materialismo histórico" de Marx e Engels. De acordo com essa doutrina, a história é determinada pela evolução autônoma da estrutura de produção: a organização social e política, as religiões, a moral, as artes e as ciências são meras "superestruturas ideológicas", geradas pelo processo econômico.

Não precisamos nem podemos entrar nos méritos e deméritos dessa concepção em si, da qual apenas uma característica é relevante para o nosso propósito — e a sua escolha, nesse contexto, obedece a um critério prático: facilita o debate. Essa característica é aquela que, por meio de várias transformações, se desenvolveu na sociologia da ciência do tipo associado aos nomes de Max Scheler e Karl Mannheim. Até meados do século XIX, aproximadamente, a evolução da "ciência" era vista como um processo puramente intelectual — como uma sequência de explorações do universo empiricamente dado ou, como também podemos dizer, como um processo de filiação de descobertas ou ideias analíticas que prosseguia, embora sem dúvida influenciando a história social e sendo influenciada por ela de muitas maneiras, segundo uma lei própria.

Mannheim foi o primeiro a transformar essa relação de interdependência entre a "ciência" e outros ramos da história social em uma relação de dependência da primeira em relação aos dados objetivos da estrutura social e, em particular, à posição social dos cientistas, que determina sua visão da realidade e, portanto, o que eles veem dela e como a veem.

Esse tipo de relativismo — que, obviamente, não deve ser confundido com qualquer outro tipo de relativismo —, se levado rigorosamente às suas consequências lógicas, representa uma nova filosofia da ciência e uma nova definição de verdade científica. Mesmo na matemática e na lógica, e ainda mais na física, a escolha dos problemas e das abordagens a eles por parte do cientista, e consequentemente o padrão do pensamento científico de uma época, torna-se socialmente condicionada – que é precisamente o que queremos dizer quando falamos de ideologia científica em vez da percepção cada vez mais perfeita das verdades científicas objetivas [ou seja, levanta a questão dos condicionamentos sociais de nossas conclusões, o que não impossibilita, por isso, o esforço na busca de resultados mais precisos, tão importantes quanto a sua aceitação geral]...

Poucos negarão, contudo, que nos casos da lógica, da matemática e da física a influência do viés ideológico não se estende além da escolha dos problemas e das abordagens, ou seja, que a interpretação sociológica não questiona, pelo menos nos últimos dois ou três séculos, a "verdade objetiva" das descobertas. Essa "verdade objetiva" pode ser, e está sendo, questionada por outros motivos, mas não que uma determinada proposição é verdadeira ou falsa em função da posição social dos homens que a formularam. Em certa medida, essa situação favorável pode ser explicada pelo fato de que a lógica, a matemática, a física e outras áreas lidam com experiências que, em grande parte, não sofrem influência da posição social do observador e são praticamente invariáveis ​​à mudança histórica: para um capitalista e um proletário, uma pedra caindo parece a mesma coisa.

As ciências sociais não compartilham dessa vantagem. É possível, ou assim parece, contestar suas conclusões não apenas por todos os motivos pelos quais as proposições de todas as ciências podem ser contestadas, mas também pelo adicional de que elas não podem transmitir mais do que as afiliações de classe de um autor e que, sem referência a tais afiliações de classe, não há espaço para as categorias de verdadeiro ou falso, portanto, para a própria concepção de "avanço científico". Doravante, adotamos que o termo Ideologia ou Viés Ideológico se aplica apenas a esse estado real ou suposto das coisas, e nosso problema é determinar até que ponto o viés ideológico é ou foi um fator no desenvolvimento daquilo que se poderia chamar de “economia científica”.

Ao reconhecer o elemento ideológico, é possível ir a extremos muito diferentes. Há alguns autores que, de fato, negaram a existência, em economia, de algo como uma acumulação de fatos "corretamente" observados e proposições "verdadeiras". Mas igualmente pequena é a minoria que negaria completamente a influência do viés ideológico. A maioria dos economistas situa-se entre esses extremos: estão dispostos a admitir sua presença, embora, como Marx, o encontrem apenas nos outros e nunca em si mesmos; mas não admitem que seja uma maldição inescapável e que vicie a economia em sua essência.

É precisamente essa posição intermediária que levanta o nosso problema. Pois as ideologias não são simplesmente mentiras; são afirmações verdadeiras sobre o que um homem pensa que vê. Assim como o cavaleiro medieval se via como desejava se ver, e assim como o burocrata moderno faz o mesmo, e assim como ambos falharam e falham em perceber tudo o que possa ser alegado contra a sua autoimagem como defensores dos fracos e inocentes e promotores do bem comum, também todo outro grupo social desenvolve uma ideologia protetora que, no mínimo, é sincera. Por hipótese, não temos consciência de nossas racionalizações — como, então, é possível reconhecê-las e nos proteger delas?

Mas permitam-me repetir antes de prosseguir: estou falando da ciência, enquanto técnica que produz os resultados que, juntamente com juízos de valor ou preferências, geram recomendações, sejam estas individuais ou sistemas delas — como os sistemas do mercantilismo, do liberalismo e assim por diante. Não falo desses juízos de valor e dessas recomendações em si.

Concordo plenamente com aqueles que sustentam que juízos sobre valores últimossobre o Bem Comum, por exemploestão além do alcance do cientista, exceto como objetos de estudo histórico, uma vez que são ideológicos por natureza e que o conceito de progresso científico só pode ser aplicado a eles na medida em que os meios para os implementar sejam aperfeiçoados. Compartilho da convicção de que não faz sentido dizer que o mundo das ideias do liberalismo burguês é "superior", em qualquer sentido relevante, ao mundo das ideias da Idade Média, ou o mundo das ideias do socialismo ao do liberalismo burguês. Na verdade, acredito que não há outra razão, além da preferência pessoal, para afirmar que nossas políticas são mais bem fundamentadas e sábias do que as dos Tudores, dos Stuarts ou de Carlos Magno [tanto umas, as nossas, como outras, as dos antigos, são absolutamente adequadas ao tempo em que foram formuladas; se tentássemos aplicar as regras do liberalismo econômico atual nas condições objetivas da Idade Média, o resultado seria um grande desastre]

Primeiro, a percepção de um conjunto de fenômenos relacionados é um ato pré-científico. Ela precisa ser realizada para que nossas mentes tenham algo sobre o que trabalhar cientificamente — para indicar um objeto de pesquisa —, mas não é científica em si mesma. Embora pré-científica, não é pré-analítica. Não consiste simplesmente em perceber fatos por meio de um ou mais sentidos. Esses fatos precisam ser reconhecidos como tendo algum significado ou relevância que justifique nosso interesse neles, e precisam ser reconhecidos como relacionados — para podermos separá-los de outros —, o que envolve algum trabalho analítico por parte de nossa imaginação ou senso comum. Essa mistura de percepções e análise pré-científica será chamada de Visão ou Intuição do pesquisador. Na prática, é claro, raramente partimos do zero, de modo que o ato pré-científico da visão não é inteiramente nosso. Partimos do trabalho de nossos predecessores ou contemporâneos, ou então das ideias que circulam no imaginário popular. Nesse caso, nossa visão também conterá pelo menos alguns dos resultados de análises científicas anteriores. Portanto, esse composto nos é fornecido e já existia antes mesmo de iniciarmos nosso trabalho científico.

Segundo, se identifiquei com a "construção de modelos" a análise científica que opera sobre o material oferecido pela visão, devo acrescentar de imediato que pretendo atribuir ao termo "modelo" um significado muito amplo. O modelo econômico explícito de nossos dias e seus análogos em outras ciências são, naturalmente, produto de estágios avançados do esforço científico. Essencialmente, porém, eles não fazem nada que não esteja presente nas formas mais primitivas de esforço analítico, que, portanto, também podem ser consideradas como tendo produzido, com cada pesquisador individual, modelos primitivos, fragmentários e ineficientes. Esse trabalho consiste em selecionar certos fatos em detrimento de outros, em defini-los com precisão, rotulando-os; mas também em acumular mais fatos não apenas para complementar, mas também, em parte, para substituir aqueles originalmente selecionados, em formular e aprimorar as relações percebidas — em suma, em pesquisas "factuais" e "teóricas" que se desenrolam em uma cadeia interminável de trocas, em que os fatos sugerem novos instrumentos analíticos (teorias) e estes, por sua vez, nos conduzem ao reconhecimento de novos fatos. Isso é verdade tanto para um relato histórico quanto para a racionalização da equação de Schrödinger, embora, em qualquer caso específico, a tarefa de apuração de fatos ou a tarefa de afinar a análise possa predominar num momento, encobrindo a outra. Professores podem tentar esclarecer isso para seus alunos falando sobre indução e dedução, chegando até mesmo a contrapor uma à outra, criando, assim, problemas espúrios. O essencial, seja qual for a nossa interpretação, é a "troca incessante" entre o conceito claro e a conclusão coerente, por um lado, e o novo fato e o tratamento de sua variabilidade, por outro.

Agora, assim que realizarmos o milagre de saber o que não podemos saber, ou seja, a existência do viés ideológico em nós mesmos e nos outros, podemos rastreá-lo até uma fonte simples [Schumpeter adorava fazer ironias com jogos de palavras]. Essa fonte [da ideologia] reside na visão inicial dos fenômenos que propomos submeter ao tratamento científico, mas o seu tratamento, em si, está sob controle objetivo, no sentido de que é sempre possível estabelecer se uma dada afirmação, em referência a um dado estado de conhecimento, é comprovável, refutável ou nenhuma das duas. É claro que isso não exclui o erro honesto ou a falsificação desonesta. Não exclui delírios de diversos tipos. Mas permite a exclusão daquele tipo específico de delírio que chamamos de ideologia [no sentido de um juízo de valor independente dos fatos], porque o teste envolvido é indiferente a qualquer ideologia [ou deveria sê-lo]. 

(Continua).


quarta-feira, 22 de abril de 2026

 


OLHAR PENETRANTE
Certa noite, no camarim do teatro, Miss Pope, discorrendo com todo o entusiasmo de sua juventude sobre o gênio de David Garrick - velho ator inglês - e seus belos traços, exclamou: — "Que olhar ele tinha! Parecia que podia atravessar uma tábua de madeira." Disse Ralph Wewitzer - outro afamado ator inglês - "E você não se sentia incomodada?"

segunda-feira, 20 de abril de 2026

 

POR QUE ALGUNS BRITÂNICOS NÃO GOSTAM DE DONALD TRUMP?

Nate White, um escritor inglês

Algumas coisas me vêm à mente. Trump carece de certas qualidades que os britânicos tradicionalmente prezam. Por exemplo, ele não tem classe, charme, frieza, credibilidade, compaixão, sagacidade, calor humano, sabedoria, sutileza, sensibilidade, autoconsciência, humildade, honra ou elegância — todas qualidades, curiosamente, com as quais seu antecessor, o Sr. Obama, foi generosamente agraciado.

Portanto, para nós, o forte contraste expõe as limitações de Trump constrangedoramente. Além disso, gostamos de rir. E, embora Trump costume ser ridículo, ele nunca disse nada irônico, espirituoso ou sequer remotamente engraçado — nunca, jamais. Não digo isso retoricamente, quero dizer literalmente: nunca, jamais. E esse fato é particularmente perturbador para a sensibilidade britânica — para nós, a falta de humor é quase desumana. Mas em Trump, isso é um fato. Ele sequer parece entender o que é uma piada — para ele, piada é um comentário grosseiro, um insulto ignorante, um ato casual de crueldade.

Trump é um troll. E, como todos os trolls, ele nunca é engraçado e nunca ri; ele apenas se vangloria ou zomba. Assustadoramente, ele não só fala insultos grosseiros e sem graça, como realmente pensa dessa forma. Sua mente é um algoritmo simples, como o de um robô, repleto de preconceitos mesquinhos e maldade impulsiva. Nunca há nenhuma camada subjacente de ironia, complexidade, nuance ou profundidade. É tudo superficial. Alguns americanos podem ver isso como algo refrescantemente franco, direto. Bem, nós não. Vemos isso como a ausência de um mundo interior, de alma.

Na Grã-Bretanha, tradicionalmente nos aliamos a Davi, não a Golias. Todos os nossos heróis são azarões corajosos: Robin Hood, Dick Whittington, Oliver Twist [o próprio Churchill estava completamente desacreditado no Partido Conservador às vésperas da 2ª Guerra]. Trump não é corajoso nem um azarão. Ele é exatamente o oposto disso. Ele nem sequer é um riquinho mimado ou um magnata ganancioso. É mais como uma enorme e gordurosa lesma branca. Um Jabba the Hutt [o vilão de Guerra nas Estrelas] do privilégio.

E pior, ele é aquilo que os britânicos consideram imperdoável: um valentão. Exceto quando está entre valentões; aí, de repente, ele se transforma numa adolescente deslumbrada [como aconteceu com Vladimir Putin]. Há regras não ditas para essas coisas — as regras de Queensberry [lorde inglês que criou as regras do boxe] da decência básica — e ele quebra todas elas. Ele ataca quem está em posição inferior — algo que um cavalheiro jamais faria — e cada golpe que ele desfere visa as partes baixas. Ele gosta particularmente de chutar os vulneráveis ​​ou indefesos — e os chuta quando já estão no chão.

Portanto, o fato de uma minoria significativa — talvez um terço — dos americanos observar o que ele faz, ouvir o que ele diz, e depois pensar “Ele parece ser do meu tipo” é motivo de certa confusão e não pouca angústia para os britânicos, uma vez que os americanos, em geral, são considerados mais gentis do que nós, e na maioria das vezes o são.

Não é preciso ser um especialista em detalhes para notar algumas falhas nesse homem. Este último ponto é o que mais confunde e consterna os britânicos, e outras pessoas também; seus defeitos são praticamente impossíveis de ignorar. Afinal, é impossível ler um único tweet dele, ou ouvi-lo falar uma ou duas frases, sem se deparar com um abismo. Ele transforma a falta de tato em arte; é um Picasso da mesquinhez; um Shakespeare de merda. Seus defeitos são fractais: até mesmo suas falhas têm falhas, e assim por diante, ao infinito [como os fractais].

Deus sabe que sempre houve pessoas estúpidas no mundo, e muitas pessoas desagradáveis ​​também. Mas raramente a estupidez foi tão desagradável, ou a maldade tão estúpida. Ele faz Nixon parecer confiável e George W. Bush inteligente. Aliás, se Frankenstein decidisse criar um monstro feito inteiramente só de defeitos humanos, ele criaria um Trump. E um Dr. Frankenstein arrependido arrancaria tufos enormes de cabelo e gritaria em agonia: “Meu Deus… o que… eu… criei?”

Se ser um idiota fosse um programa de TV, Trump seria a série completa.