quarta-feira, 22 de julho de 2026

 


O BRASIL DE JOELHOS

Eduardo Simões. 

Num debate recente no programa Em Pauta, da Globo News, Demétrio Magnoli, um dos poucos ali que sabe o que está dizendo, porque o diz com independência, não esperando aprovação do governo ou das redes, afirmou algo muito evidente: “Trump não quer negociar!” O que ele quer é a submissão, exceto, por certo, de Israel, o único aliado dos Estados Unidos trumpista, preferencial ou não.

De fato, o governo brasileiro e de outros países já negociaram e fizeram concessões, no nosso caso as razões técnicas estão sobejamente a nosso favor, afinal nós temos déficit comercial com os EUA, mas de nada adiantou e agora estamos de novo sob tarifas. Não há nenhum indício de busca de um acordo, mas somente de nossa rendição.

Também não sabemos se reagir vai nos dar vantagem, ninguém o sabe, nem a China, mas podemos, pelo menos, cair atirando ou vender caro a vitória, nem que seja para convencer Trump de que esse é um mau caminho, o que não deveria ser muito difícil a um governo que nos últimos meses não perdeu a oportunidade de cutucá-lo com provocações, sugerindo que ele é ora mentiroso ora pirata. Nesse sentido, Marco Rubio tem razão quando diz que Lula não negociou de boa-fé. Só sabemos que, no momento, estamos em desvantagem.

No início, antes das primeiras tarifas, Lula chegou a dizer num encontro com militantes ou numa inauguração, não tem diferença, que “se vier vai ter”, além de inúmeras outras afirmações desafiadoras. Como ele agora se coloca tão rápido de joelhos, após ameaçar retaliação? Por que não aproveita esse momento em que os EUA estão encalacrados no Oriente Médio, enfrentando uma brava resistência do Canadá, e um pouco da China, enquanto a produtividade interna cai e os preços aumentam em virtude da política tarifária, isso tudo às vésperas de uma eleição crucial?

O edifício trumpiano oscila e dá mostras de amplas rachaduras. A melhor hora, até o momento, de confrontá-lo é esta, mas infelizmente é preciso dar razão a Valdo Cruz e Marina Franceschini, que discordaram de Magnoli, repetindo literalmente os argumentos do governo. 

Sim, o governo brasileiro está certo, mas não pelas razões de Marina e Valdo, que ecoaram as do governo: os empresários não querem! Trump pode tarifar outros setores! Os setores tarifados atualmente são poucos e têm pouco peso nas exportações! Ou seja, são mais pobres, os de renda mais baixa. Um belo exemplo de coerência política aplicada às relações internacionais e ao discurso de 'eles', os ricos, contra 'nós', os pobres.

A reação a Trump deve fazer parte de uma política de estado, prevista ou resenhada no programa de governo, ou essa história de Brasil soberano é apenas efeito sonoro? E se está no programa e as condições pedem, o governo tem que aplicar, ou deve reconhecer que o Brasil é governado não por um projeto de estado, mas pelos interesses de uma classe, justo a mais rica. Apesar do 'T' da legenda. Trump, no momento, está tarifando apenas os setores que não lhe interessam. Teria ele coragem de tarifar setores que podem afetar a economia dos EUA e agravar os juros e a inflação lá? Não reagir é fazer o jogo do Trump.

Entretanto, não temos alternativa. Para nossa desgraça, isso acontece num ano eleitoral e todas as bravatas ditas até agora não passaram de jogo de cena eleitoral, assim como é verdade que o país não está só polarizado, mas profundamente dividido. Qualquer indício de pujança econômica é pura manipulação estatística ou cabala numérica, tão ridículo quanto o sapo que inchou, inchou, para ficar do tamanho de um boi e a única coisa que conseguiu foi estourar.

O nosso parco crescimento nesses últimos anos foi obtido a custas de anabolizantes fiscais, e o resultado já se faz sentir: juros nas alturas, inflação pressionada, empresas do varejo, mesmo as gigantes, pedindo concordata ou recuperação, enquanto o sistema financeiro dá graves sinais de corrupção sistêmica. O governo sabe que as finanças e a economia nacionais, graças às suas intervenções, se sustentam apenas por um fio. Qualquer empurrão e tudo vem abaixo, ainda mais se o empurrão for dado por alguém do porte dos EUA.

Que dizer da capacidade de união e mobilização de um governo que faz todo tipo de contorção com as palavras, a lógica, os fatos e a história para gerar factoides políticos ou parecer que disse algo inteligente para os seus adeptos. Para conseguir esse efeito, o jovial Lula apelou para a catastrófica e já pré-histórica tática do nós contra eles, os ricos contra os pobres, levando a uma intensidade nunca vista, não tanto à polarização, mas à divisão do país.

E assim, após ter quebrado a economia  e dividido psicologicamente a nação, como podemos de fato encarar um jogo onde vamos precisar de todos os recursos, de toda a unidade e uma resiliência que nós nunca tivemos, porque nunca tivemos um condutor que nos inspirasse ao mesmo tempo confiança e sabedoria, que, ao final, não foi apenas mais um que se locupletou com a nossa tradicional ignorância política.

Chegou a hora de ajoelhar-se, até colocar-se na condição de servo, para não dizer coisa pior, e o primeiro que o fez foi justo quem se elegeu dizendo que nos libertaria definitivamente de tudo isso.

 

 

TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 23

Sociologia Histórica.

Os escritores do século XVIII foram frequentemente culpados de falta de “senso histórico”, uma deficiência que, em alguns deles, deixou-os cegos aos valores das civilizações antigas… Se encontramos, em alguns casos, o mais tolo desprezo pela arte grega — Voltaire sendo colocado acima de Homero, por exemplo — encontramos também as origens de seu culto moderno. Se por vezes encontramos uma estupenda ausência de interesse pela história, encontramos também uma rica safra de trabalhos históricos sérios, que criaram as fundações para o seu desenvolvimento no século XIX.

Não podemos fazer mais do que listar cinco pontos essenciais: um bom começo foi dado com a coleta sistemática de materiais; novos métodos de interpretação e crítica de documentos foram elaborados; a história econômica e cultural começou a desviar parte da atenção anteriormente quase monopolizada pela história política e militar; o relato (dentro do possível) imparcial que apresenta evidências documentais começou a prevalecer sobre epopeias ou sermões (Hume, William Robertson, Gibbon) [até os marxistas trazerem de volta  a história ideológica de caráter moralizante como nos sermões]; e o despertar do interesse do público é atestado pelo sucesso de histórias populares universais e nacionais.

A História da Inglaterra de Hume (8 vols., 1763) não era desse tipo [história moralizante]. Embora irremediavelmente desatualizada hoje em dia, ela sempre será um marco da historiografia — pois mostra que ele não era escravo de seu utilitarismo. Ainda mais notável, do nosso ponto de vista, é o surgimento da Sociologia Histórica — por vezes chamada de Filosofia da História — isto é, de teorias sociológicas que, por um lado, utilizavam material histórico para chegar a generalizações e, por outro, visavam explicar estados e processos históricos específicos. A maior parte desse tipo de trabalho era diletante e de natureza repugnante para historiadores sérios. Parte dele era, além disso, anti-histórica no sentido já definido: os fatos históricos eram frequentemente distorcidos para se adequarem às ideias preconcebidas da razão. Não obstante, houve também trabalhos consideráveis ​​e até mesmo inovadores. A título de exemplo, posso mencionar Condorcet, Montesquieu e um dos maiores pensadores de todos os tempos no campo das ciências sociais: Vico.

 

Nota de Schumpeter

Até hoje, os historiadores não cessaram de pregar, de proferir elogios e críticas, e de expor seus orgulhos e ódios pessoais, sociais e nacionais. O que quero transmitir é que houve um progresso substancial na apresentação dos fatos em um espírito mais científico e no afastamento do épico. Ver Robert Flint, História da Filosofia da História (1893).

Vico era professor em Nápoles, professando ensinar “tudo o que é cognoscível” (tutto lo scibile). O fato de, entre outras coisas, ser advogado e sempre enfatizar os aspectos jurídicos (a história do direito era para ele a história da mente humana) é importante porque revela sua relação com os filósofos do direito natural. A única obra de Vico que precisa ser mencionada especificamente é Principii di una scienza nuova… (1725) [Princípios de uma nova ciência]... Sua Nova Ciência (scienza nuova) é melhor descrita pela frase “uma ciência evolutiva da mente e da sociedade”. Mas isso não deve ser interpretado como significando que a evolução da mente humana molda a evolução da sociedade humana; nem, embora isso estivesse mais próximo da verdade, que a evolução histórica das sociedades molda a evolução da mente humana; mas sim que mente e sociedade são dois aspectos do mesmo processo evolutivo. A razão, no sentido das operações racionais ou lógicas da mente humana, não é um fator causal nesse processo que Vico concebeu em um espírito completamente anti-intelectual. Tampouco a razão, no sentido de objetivos ou significados percebidos pela razão do observador, tem qualquer relação com isso: a teoria dos processos recorrentes (corsi e ricorsi) de Vico nega enfaticamente qualquer tendência a, e de fato a existência de, tais objetivos. Merece destaque especial a ênfase na influência dos ambientes geográficos, que pode ter origem em Tucídides e pode ter inspirado pesquisas antropogeográficas posteriores, como a de Vidal de la Blache. Nesse esquema, filosofia e sociologia haviam se tornado uma só — pensamento e ação formavam uma unidade — e essa unidade era essencialmente a histórica em sua natureza. E, afinal, embora as correntes comuns das águas do século XVIII não chegassem aos seus joelhos, Vico também era fruto do século XVIII.

 

O Esboço de Condorcet apresenta uma teoria definida da evolução histórica ou “progresso”: seu objetivo é a igualdade e sua força motriz é o conhecimento sempre crescente que a mente humana, indefinidamente perfectível, continua adquirindo. Isso, é claro, é uma sociologia muito pobre. Mas a obra é o exemplo notável de uma visão intransigentemente “intelectualista” do processo histórico. Em nítido contraste, o Espírito das Leis de Montesquieu, apesar da execução inadequada — especialmente inadequada quanto ao uso crítico do material — é sociologia séria. A principal virtude desta última obra, tanto em termos de método quanto de execução, é que ela concebeu os estados históricos das sociedades e suas mudanças à luz de uma série de fatores objetivos, que fornecem explicações realistas e, nesse sentido, teorias analíticas, mas não uma fórmula geral simples, e de forma alguma racionalista. Isso representou, de fato, uma nova abordagem e, metodologicamente, significou uma ruptura significativa com as ideias de lei natural: era sociologia baseada na observação real de padrões temporais e locais individuais, não meramente em propriedades gerais da natureza humana. Para os nossos propósitos, esta foi a conquista essencial de Montesquieu, prenunciada nesta abordagem do caso específico da Roma antiga. O seu sucesso, na época e posteriormente, deveu-se, naturalmente, ao apelo das suas teorias “constitucionais” — contrapeso dos poderes e outras semelhantes —, que não nos interessam.

Os Enciclopedistas.

Já tivemos a oportunidade de observar o aumento da demanda por dicionários ou enciclopédias durante o século XVII. Essa demanda, que aumentou ainda mais no século XVIII, foi atendida por empreendimentos cada vez mais ambiciosos (a Enciclopédia de Chambers, o Léxico Universal de Zedler e outros). Todos esses foram superados pela grande Enciclopédia Francesa (a partir de 1751), que, entre outras coisas, superou as demais obras pela quantidade e qualidade de seus artigos sobre temas econômicos... A Enciclopédia é a própria encarnação do espírito do século XVIII.

Nesse sentido, a obra em si é uma parte importante do contexto cultural... Como todas as enciclopédias de tal abrangência, esta continha artigos que diferiam amplamente não só em qualidade, mas também em ponto de vista. Os artigos de economia mencionados, por exemplo, foram escritos por autores tão distintos entre si quanto Quesnay e Forbonnais, enquanto a maior parte dos artigos — com especial atenção à física e à tecnologia — não deixava espaço para divergências de ponto de vista no sentido filosófico ou político. Contudo, a forte personalidade do editor-chefe, Diderot, conseguiu conferir alguma uniformidade ao que foi chamado de Torre de Babel por críticos hostis...

Além disso, não havia um programa definido. Em particular, não havia um programa revolucionário: esses intelectuais, sem dúvida, criticavam o regime de Luís XV e, ocasionalmente, apontavam suas peculiaridades; no geral, porém, estavam confortáveis ​​demais para ansiar por uma revolta violenta.

Alguns deles viram déspotas de sua época que se reformaram — e foram bem remunerados [o próprio Voltaire na corte de Frederico da Prússia]. Aqueles que viveram para testemunhar a revolução não ficaram muito satisfeitos com ela. Assim, embora permaneça verdade que a grande aventura francesa possa ser tomada como um símbolo de uma importante corrente de pensamento, sua importância para nós não é tão considerável quanto parecia aos seus inimigos contemporâneos, que garantiram seu sucesso combatendo-a. [No mais, ela destronou um rei para empossar um imperador e, em nome da liberdade, deu, nos próximos 80 anos, um grande alento a aventuras militares na França].

Há, contudo, um ponto que deve ser enfatizado: a relação entre o pensamento dos enciclopedistas e o dos filósofos do direito natural do século XVII. O ensinamento destes últimos foi muito bem recebido pelos primeiros. Os enciclopedistas nem sempre deram o devido crédito aos filósofos, mas não demonstraram hostilidade ao sistema do direito natural e, de fato, desenvolveram suas ideias. Isso não é surpreendente. Não derivava o direito natural, pela razão, da natureza humana e, portanto, a própria personificação de seu programa? E os Direitos Naturais dos filósofos eram, naturalmente, de seu agrado. A barreira religiosa [eles eram anticatólicos e até anticristãos] ocultava-lhes a verdadeira origem dessas ideias: não poderiam ter citado a afirmação de São Tomás de Aquino de que o direito natural era rationis regula [exatamente o que eles diziam, só que em outra língua]. Mas tal barreira não existia no caso dos filósofos, mesmo os que não eram católicos. Assim, os enciclopedistas, dentro e fora dos volumes da enciclopédia,  continuaram a usar o esquema analítico dos filósofos [ escolásticos, sem o saber!] e até mesmo seus argumentos mais duvidosos. A ordem natural de Quesnay seria reconhecível como um desdobramento da raiz da lei natural, mesmo que Quesnay nunca tivesse escrito seu artigo sobre o direito natural. O Abade Morellet, um fervoroso defensor do livre comércio, contentava-se em argumentar que, como o homem é naturalmente livre e isso implica que ele pode comprar e vender onde quiser, a proteção é condenada por violar a lei natural — um comentário muito interessante para a era da razão.

Os Escritores Semi-Socialistas.

Afirma-se que, na totalidade, os enciclopedistas não eram politicamente revolucionários. Tampouco eram socialistas. O igualitarismo da época — tanto normativo quanto analítico — sugeria as críticas às desigualdades, especialmente às grandes desigualdades de riqueza que encontramos em Helvétius e muitos outros autores. E as óbvias fragilidades das filosofias do direito natural sobre o direito natural à propriedade, expostas tanto na linha de Locke quanto na forma específica adotada pelos fisiocratas, suscitavam críticas que por vezes variavam de ataques a argumentos particulares em defesa da propriedade a ataques à própria propriedade. Mas, embora o historiador das ideias socialistas seja sem dúvida capaz de compilar uma longa lista de publicações socialistas, comunistas ou quase-comunistas que exerceram influência sobre o socialismo do século XIX, o historiador da análise econômica tem pouco a registrar de interesse: ele só pode concordar com a opinião de Karl Marx sobre essa literatura [eram devaneios utópicos].

Deve-se observar, contudo, que os escritores socialistas ou semissocialistas, ao argumentarem contra conclusões extraídas de premissas do direito natural por meio de métodos do direito natural, quase invariavelmente utilizavam essas mesmas premissas e métodos. Assim, exatamente como os defensores da razão combateram a escolástica, embora permanecessem seus discípulos no que diz respeito aos métodos e resultados da análise, os escritores socialistas ou semi-socialistas do século XVIII permaneceram filósofos do direito natural em seu modo de pensar: os conceitos de lei natural e de direitos naturais eram perfeitamente capazes de servir a objetivos práticos opostos, e poucos, ou nenhum, escritor cogitaram atacar o método que incorporavam.

J.J. Rousseau (1712–78), apesar de glorificar o estado natural da sociedade e a igualdade, dificilmente pode ser chamado de socialista. Mas também não pode ser chamado de economista. Seu artigo sobre economia política na Enciclopédia praticamente não contém economia. Seu ensaio sobre a origem da desigualdade (1755) não é um esforço sério para explicar o fenômeno. Em particular, apesar de algumas semelhanças superficiais na formulação, ele não era um fisiocrata nem um precursor dos fisiocratas. As ideias que ele concebia sobre assuntos econômicos, no entanto, exerceram considerável influência sobre o público. J.P. Brissot de Warville (1754–93) [foi] um político girondino executado em 1793...  A sua obra relevante para o nosso tema, as Recherches philosophiques sur le droit de propriété et sur le vol… (1780), é pura especulação sobre o direito natural, do tipo que fez com que críticos posteriores da sociologia e da economia do direito natural ignorassem suas importantes contribuições. A inexistência do direito à propriedade privada é o tema central. Brissot parece desconhecer praticamente todos os argumentos realistas e realmente prejudiciais que poderiam ser forjados contra essa ideia. A doutrina de que a propriedade é roubo, popularizada no século XIX por Proudhon, é o ponto central do livro. O Código da Natureza de Morelly (1755) é um programa de comunismo de Estado pleno de considerável mérito: apresenta, em detalhes minuciosos, soluções para os problemas práticos da estrutura e gestão de uma sociedade comunista, muitos dos quais aparecem, na maioria das vezes sem reconhecimento, na literatura socialista do século XIX e que refletem, em sua maioria, um senso sóbrio de “viabilidade”. A doutrina de que todos os desvios do comportamento normal que são considerados imorais são causados ​​pelas condições de vida na sociedade capitalista foi, até onde sei, enunciada pela primeira vez neste livro. Não podemos deixar de salientar que este livro também é pura filosofia da lei natural: comunismo estritamente controlado pelo estado é a forma idealmente prevista pela lei natural discernível pela razão.

Gabriel Bonnot de Mably (1709–85), embora não tenha sido comunista desde o início e, no fim, tenha se resignado a programas práticos que não iam além de reformas bastante banais, deve ser classificado como um comunista convicto. Sua única obra que pode ser mencionada aqui é Doutes proposés aux philosophes économistes sur l’ordre naturel et essentiel des sociétés politiques (1768). Esta obra contém um ataque elaborado não apenas à teoria fisiocrática da propriedade privada, mas também à própria propriedade privada, considerada um mal quase absoluto. Mas, embora seja uma análise unilateral e, em outros aspectos, falha, o argumento de Mably ainda é uma análise de fatos e não meramente uma discussão sobre “direitos”. A teoria de que a propriedade da terra é a causa última de todas as desigualdades de riqueza — repetidamente defendida no século XIX e por F. Oppenheimer no século XX — pode estar errada, mas ainda é uma proposição ou teoria analítica.

As ideias francesas do Iluminismo navegaram com facilidade pelo Canal da Mancha, ainda mais por terem importantes raízes inglesas — especialmente empiristas e associacionistas. Bem acima da onda comum de entusiasmo, destacou-se o livro que representa essa literatura para nós: Enquiry Concerning Political Justice (1793), de William Godwin. É apenas semissocialista, e mesmo assim, somente em virtude de seu dogma de que a propriedade sobre o produto do trabalho alheio é “injusta”. Talvez estejam certos aqueles que, com base na extrema aversão de Godwin à violência e à coerção de qualquer tipo, o classificam como anarquista. Em todo caso, a visão da natureza humana, segundo a qual a mente do homem é um vazio — mas indefinidamente perfectível — a ser preenchido pela experiência condicionada pelas instituições sociais, dificilmente, antes ou depois, serviu ao igualitarismo absoluto de forma tão intransigente. Godwin foi, de fato, instigado a produzir um trabalho analítico pelo ataque de Malthus. Mas sua obra em si é essencialmente não analítica e, portanto, está além do alcance da crítica científica. Ela expõe um credo impermeável a argumentos e que, atualmente, conta com mais adeptos do que jamais teve.


terça-feira, 21 de julho de 2026


 

A COMPANHIA DOS MERCADORES AVENTUREIROS NO REINADO DE ELIZABETH I - 2

Os documentos não comprovam que os Mercadores Aventureiros sejam de origem anterior aos Mercadores de Lã. Eles nos remetem a um período anterior ao surgimento dessas organizações como tais e parecem indicar que elas tinham uma origem comum. A carta régia concedida pelo Duque de Brabante em 1296 se estende não apenas a todos os mercadores do reino da Inglaterra, mas também a todos os outros mercadores, de qualquer terra que sejam, e confere privilégios de residência e autogoverno semelhantes aos desfrutados por outras comunidades de mercadores, como os alemães do Steelyard [entreposto comercial da Liga Hanseática de Londres] na Inglaterra.

Os mercadores ingleses em Antuérpia, que se beneficiaram desses privilégios, negociavam em grande parte com o que estava sendo considerado o principal produto de exportação da Inglaterra — lã, peles, chumbo e estanho; mas também exportavam outros produtos nativos, como tecidos, e importavam para a Inglaterra a maioria das mercadorias que ainda eram importadas através de Brabante pelos Mercadores Aventureiros no século XVI. Eles não exerciam suas atividades comerciais sob as rígidas restrições que constituíram mais tarde a essência da organização dos entrepostos. No entanto, parece muito provável que, em certo sentido, constituíssem um centro de comércio de monopólio. A carta régia do Duque de Brabante aos mercadores ingleses em Antuérpia parece ter sido consequência direta da transferência do monopólio da lã, da Holanda para Brabante, por Eduardo I [nas 'altas esferas' tudo, ou quase tudo, funcionava na base de troca de favores].

No final do século XIII, dois tipos distintos e alternativos de entrepostos comerciais nacionais haviam surgido: um para produtos básicos nacionais e outro para produtos básicos estrangeiros. Às vezes, o primeiro tipo era autorizado pelo Rei, como mecanismo para a exportação de lã, peles e estanho, e às vezes o segundo. No caso dos produtos básicos nacionais, dez ou mais cidades inglesas importantes foram selecionadas (outras no País de Gales e na Irlanda) como os mercados para os quais todos os mercadores estrangeiros que vinham comprar lã deviam se dirigir, e nos quais toda a lã destinada à exportação era exportada, não sem antes ser oferecida aos consumidores nativos.

O principal objetivo dessa restrição ao livre comércio de lã era facilitar a arrecadação do imposto de exportação; porém, o efeito seria o de conferir aos comerciantes ingleses das poucas cidades maiores assim selecionadas uma vantagem sobre os das numerosas pequenas cidades mercantis inglesas que negociavam lã [alguma coisa parecida com os ‘campeões nacionais’]. O mercado estrangeiro, quando estabelecido, era ainda mais restritivo em seu funcionamento. Uma única cidade continental era escolhida, próxima aos grandes centros têxteis dos Países Baixos, Antuérpia, Dordrecht, Bruges ou St. Omer, e todos os exportadores eram obrigados a transportar a lã para venda nesse mercado, uma vez que os objetivos buscados com o estabelecimento do mercado estrangeiro não eram apenas fiscais, mas também políticos e diplomáticos.

A organização do mercado estrangeiro, nesse caso, não era apenas um meio de arrecadar impostos; sua fixação conferia um importante favor aos aliados continentais do Rei, e também era usada como meio de transmitir subsídios a eles… A luta entre esses dois tipos diferentes de produtos básicos [internos e externos], ou entre o sistema de produtos básicos em geral e a demanda por livre comércio de lã, prosseguiu continuamente ao longo do século XIV e constitui a característica central da história fiscal do período. Tudo o que podemos fazer aqui é observar certos aspectos dessa luta, que servem para lançar luz sobre o desenvolvimento subsequente e intimamente análogo dos Mercadores Aventureiros.

Para começar pelo mais simples deles. A demanda pela abolição dos monopólios, ou seja, pelo livre comércio de lã — o acesso irrestrito e direto de compradores nacionais e estrangeiros ao produtor — foi, sem dúvida, apoiada por uma grande parcela, provavelmente pela maioria, dos produtores de lã representados no Parlamento. Sua visão de que se beneficiariam com uma demanda irrestrita coincide com a dos economistas modernos e, além disso, é extremamente provável que a política de livre comércio (no sentido do século XIV, que não excluía uma taxa de exportação considerável) fosse a política mais propícia aos interesses permanentes da receita. Em todo caso, encontramos essa política adotada durante períodos de finanças relativamente estáveis ​​— os curtos períodos de paz comparativa, de 1328 a 1332 e de 1334 a 1337, nos intervalos das guerras escocesas e francesas.

Além da abertura total do comércio com a abolição de todos os monopólios, naquilo que favoreciam à Câmara dos Comuns (isto é, pelos produtores de lã) e a manutenção de entrepostos no reino, eles preferiam um conjunto de entrepostos nacionais a um único entreposto no estrangeiro, sob o argumento de que isso proporcionava melhores chances de uma demanda efetiva e dificultava que um pequeno grupo de comerciantes monopolizasse o comércio de exportação. Pelo mesmo motivo, encontramos a política de um conjunto de monopólios nacionais apoiados por aqueles comerciantes que não faziam parte desse grupo [o mais privilegiado que administrava esses monopólios antigos]. Essa política também era favorecida pelo crescente interesse dos fabricantes de tecidos; e os entrepostos nacionais foram mantidos, com exclusão de um entreposto continental, durante cerca de vinte anos do reinado de Eduardo III. 

Se, portanto, a maioria tanto dos produtores de lã quanto dos comerciantes preferia um comércio aberto, ou, na falta deste, a manutenção dos produtos básicos nacionais comercializados em entrepostos nacionais [ou seja, dentro da Inglaterra], como explicar o fato de que, durante cerca de vinte e cinco anos do reinado de Eduardo III, o comércio [de exportação e importação] de lã permaneceu no continente, por três anos em Antuérpia, por doze em Bruges e por dez em Calais?

Havia dois motivos para isso, um diplomático e outro fiscal. O rei usou seu controle sobre o fornecimento de lã inglesa como meio de obter e manter a aliança das grandes cidades têxteis da Flandres contra a França. E, ao mesmo tempo, usou-o como meio de arrecadar rapidamente para fins de guerra somas muito maiores do que o Parlamento aprovaria ou do que as fontes ordinárias de receita permitiriam. As primeiras operações do rei como supremo comerciante de lã foram realizadas, de fato, com o consentimento do Parlamento, concedido logo após o início da guerra [dos Cem Anos], operações que levaram ao restabelecimento do comércio de lã continental, que havia sido abolido com a ascensão de Eduardo. Mas o posterior controle, por parte dos agentes do Rei, da exportação de lã através do entreposto comercial em Bruges não só violou a constituição e ultrajou todos os princípios de boas finanças, como também infligiu um grave prejuízo tanto aos produtores como aos comerciantes. Limitou o mercado em benefício dos aliados do Rei. Isso limitou o preço pago ao produtor no interesse do próprio Rei; e, finalmente, limitou os canais de comércio no interesse dos agentes do Rei. 

Em 1343, a maioria dos mercadores peticionou ao Rei, por meio do Parlamento, que o monopólio fosse trazido de volta ao reino e, se isso fosse impossível, que todos os portos fossem abertos a estrangeiros e mercadores privados. Não há dúvida, portanto, de que o famoso Estatuto de 1353, pelo qual o monopólio continental foi abolido e os monopólios dentro do reino foram restabelecidos, foi apoiado não apenas pela grande maioria dos criadores de ovelhas, mas também por muitos mercadores, e isso apesar de o estatuto proibir os mercadores nativos de exportar lã, o que foi colocado inteiramente nas mãos de estrangeiros.

Não se deu a devida importância ao fato de que a maioria dos comerciantes de lã ingleses era composta por pequenos capitalistas, cuja principal ocupação era coletar a lã e transportá-la para o mercado. Em tempos de paz, alguns deles se aventuravam com uma pequena carga através do Canal da Mancha. Mas, geralmente, era mais vantajoso vender para exportadores estrangeiros em seu próprio país. No final do século XIII, os estrangeiros eram responsáveis ​​por dois terços da exportação de lã. Os comerciantes estrangeiros, fossem alemães, italianos ou flamengos, possuíam maior capital, melhores navios, melhores métodos de seguro e podiam desfrutar, em tempos de guerra, de alguns dos benefícios do comércio neutro.

Permitir que comprassem sua lã na Inglaterra, portanto, não só proporcionava aos produtores o melhor mercado possível, como também oferecia à maioria dos comerciantes de lã ingleses a atividade mais segura e lucrativa: levar a lã aos mercados nacionais. Os mercados continentais só ofereciam vantagens aos grandes comerciantes que conseguiam formar um consórcio capitalista e negociar com o Rei. E foi, sem dúvida, para facilitar tais acordos, bem como para servir a propósitos diplomáticos, que os primeiros entrepostos comerciais foram estabelecidos em Dordrecht, Antuérpia e Bruges. Agora estamos em melhor posição para apreciar a importância do estabelecimento definitivo do entreposto comercial em Calais, que se tornou possessão inglesa em 1347…

Em 1390, o Parlamento obteve a restauração dos monopólios nacionais por meio da concessão de um subsídio e, nessa ocasião, como em 1353, parece ter sido parte da demanda popular que os mercadores nativos não participassem do comércio de exportação. Em 1392, no entanto, o monopólio foi novamente transferido para Calais e, do final do século XIV, exceto por breves intervalos, permaneceu lá até a perda de Calais em 1557 [na verdade, em janeiro de 1558, pelo duque de Guise].

Foi em conexão com esse estabelecimento do monopólio em Calais que a Companhia dos Mercadores de Lã adquiriu uma existência corporativa definida, distinta do corpo geral de mercadores ingleses que negociavam no exterior. As corporações de mercadores ingleses residentes em Antuérpia ou Bruges, sem dúvida, estiveram de alguma forma ligadas ao funcionamento das antigas empresas estrangeiras de comércio exterior nessas cidades, mas também exerciam muitas outras atividades comerciais e, quando a principal empresa de comércio exterior foi transferida para Calais, elas permaneceram unidas em Bruges. É delas que a Companhia dos Mercadores Aventureiros reivindicava descendência.

A Companhia dos Mercadores de Calais, segundo essa visão, era um ramo da antiga Companhia de Bruges, um grupo de mercadores especializados na exportação de produtos básicos, como lã, couro e estanho, que assumiram certas responsabilidades fiscais, tornaram-se um órgão da administração aduaneira e, em troca, garantiram o monopólio desse ramo do comércio. Mas como explicar a fixação relativamente permanente da principal empresa de comércio exterior em Calais, representando, como certamente representou, a transferência dos principais ramos do comércio de exportação para as mãos de um sindicato de monopolistas? Por que o Parlamento, que, em defesa dos interesses dos criadores e comerciantes de lã, resistiu tão veementemente a esse monopólio ao longo do século XIV, o aceitou durante todo o século XV como base para sua própria regulamentação do comércio exterior?

Posso apenas oferecer razões provisórias. Em primeiro lugar, os antigos entrepostos comerciais estrangeiros em Antuérpia ou Bruges estavam associados a uma tributação arbitrária e inconstitucional. O entreposto de Calais apenas arrecadava os impostos autorizados pelo Parlamento. Em segundo lugar, os antigos mercadores de produtos básicos para o mercado externo estavam associados à apropriação forçada de toda a oferta de lã para venda aos fabricantes de tecidos estrangeiros, ao passo que a demanda pelos entrepostos voltados ao mercado interno era sustentada pelo crescente interesse dos fabricantes têxteis na Inglaterra. A instituição do entreposto de Calais não prejudicou o abastecimento interno. Pelo contrário, acreditava-se que, ao restringir o número de exportadores, ela atendia aos interesses do consumidor doméstico [reduzia o volume de exportações e os preços internos].

Havia, porém, uma terceira razão. Os antigos postos de abastecimento estrangeiros serviam a vários propósitos, mas talvez o mais importante fosse sua utilização como instrumento de finanças internacionais. Através deles, o Rei podia transmitir imensos subsídios aos seus aliados continentais. O Rei não tinha dinheiro para enviar; mas, ao exportar lã para esse fim, ele estava, na mesma medida, empobrecendo o país. Para usar a terminologia econômica da época, ele estava impedindo a entrada de dinheiro. Esse era o pior mal dos postos de abastecimento estrangeiros.

Ora, o entreposto de Calais, conforme finalmente aprovado e regulamentado pelo Parlamento, tinha a intenção de produzir exatamente o efeito oposto. Ele foi concebido para proteger a nação da exportação de sua lã sem um retorno correspondente em dinheiro. Em certo período, os agentes de abastecimento foram obrigados a depositar grande parte do valor da lã em dinheiro na Torre de Londres antes de deixarem o país. Mais tarde, precauções semelhantes foram tomadas em Calais para impedi-los de investir os rendimentos em mercadorias. Assim, o entreposto tornou-se o principal instrumento do que se chama de política bullionista. Essa política de entrepostos no estrangeiro, tal como incorporada pelo Parlamento, não era feita a partir de princípios abstratos, mas em parte num esforço para evitar os abusos práticos que surgiram no comércio monopolista com o estrangeiro anteriormente, quando este era controlado pela Coroa.

segunda-feira, 20 de julho de 2026


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA - 32

Notas de Rio de Janeiro

1 - Antônio Coelho Rodrigues, A república na América do Sul — ou um pouco de história e crítica oferecido aos latino-americanos, vol. 231, Senado, Brasília, 2016.

2 - Anais do Senado do Império do Brasil 1888 — livro 1, transcrição, Secretaria Especial de Editoração e Publicações — Subsecretaria de Anais do Senado, 6ª sessão em 12 de maio de 1888.

3 - Os Sertões, Fundação Darcy Ribeiro, Rio de Janeiro, 2013, p. 295.

4 - Revista Defesa Nacional, nº 639, set/out, 1971.

5 - Walnice Galvão, No calor da hora — a Guerra de Canudos nos jornais (4ª Expedição), 4ª edição, Cepe, Recife, 2019, Kindle, p. 267).

6 - É bom que se saiba que a eleição do próprio Congresso Constituinte ficou longe de ser democrática ou minimamente respeitável, para os padrões republicanos. Diz Hélio Silva, em O poder civil, com a colaboração de Maria Ribas Cecília Carneiro, LePM editores, p. 9.

7 - Conforme Edgar Carone e outros, as reuniões conspiratórias na casa de Floriano eram conhecidas, e inclusive a professora das filhas dele — a esposa do coronel Joaquim Mursa — era utilizada como ‘correio’ entre os conspiradores. Certa vez, indagado pelo Barão de Lucena, o ministro de Deodoro sobre sua simpatia com os oposicionistas, Floriano dirá que ‘não era verdade’, ele somente ‘recebia os parlamentares [da oposição] a fim de aconselhá-los à moderação e à tolerância’.

Não é uma gracinha! Quem tem um amigo como Floriano não precisa de inimigo, pois já os tem em demasia. Outro livro de Hélio Silva, em parceria com Maria Cecília Ribas Carneiro, sobre o assunto é Nasce a República 1888–1894 – História da República Brasileira, Editora Três, Rio de Janeiro, 1975.

8 - Visconde do Ouro Preto, Advento da ditadura militar no Brasil, vol. 243, Senado Federal, Brasília, 2017, p. 46.

9 — Helio Silva — Maria Cecília Ribas Carneiro, 1889, a república não esperou o amanhecer, LP&M, Porto Alegre, 2005.

10 — Para quem não sabe, quando as tropas de Deodoro da Fonseca cercaram o quartel-general onde estavam refugiados os ministros do Império, em 15 de novembro de 1889, o Visconde de Ouro Preto solicitou que Floriano agisse, e ele disse que não poderia porque os revoltosos tinham canhões. Então, Ouro Preto lembrou que, na Guerra do Paraguai, ele havia atacado canhões sem nenhum problema, e ele respondeu algo assim: “No Paraguai, os canhões eram inimigos; aqui, somos todos brasileiros” — essa frase enchia os antigos brasileiros de estremecimentos patrióticos. Porém, quando chegou a hora de defender a sua permanência no poder, ele não hesitou em chamar estrangeiros, inclusive inimigos recentes, para massacrar brasileiros — os dois irmãos que assassinaram e profanaram o cadáver do almirante Saldanha eram uruguaios. 

11 — Segundo o Almirante de Esquadra Fonseca Hermes, no artigo “Os militares e a política durante a República”, publicado na Revista Marítima Brasileira, no 2ºT, do ano 2000, o partido de Prudente mostrou-se muito dividido a respeito da paz no Rio Grande do Sul. “Campos Sales, Manoel Vitorino, Leopoldo Bulhões e muitos outros são unânimes em aceitar o protocolo do acordo… Francisco Glicério e Quintino Bocaiúva achavam que a paz era um acinte à política do Marechal Floriano Peixoto e defendiam a rendição incondicional dos rebeldes. Esta posição… é a mesma… de Pinheiro Machado, representante oficial do castilhismo (p. 30). O acordo final deixou ainda lacunas, que só seriam resolvidas na Revolução Gaúcha de 1923, pela força das armas.”

12 — O sepultamento de Floriano no cemitério de São João Batista se deu no dia 6 de julho de 1895, depois que o seu mausoléu ficou pronto, e contou com ampla participação de populares e políticos, inclusive de Prudente de Morais. Quando Morais se retirou, os intratáveis jacobinos tomaram conta do lugar e começaram uma sequência de discursos extremamente agressivos, tanto no seu elogio ao morto, como hostis ao Presidente da República e outros supostos inimigos do marechal. Entre eles se destacou, pela intensidade e destempero, o escritor Raul Pompeia, um funcionário público, que por conta disso perdeu um rendoso emprego na Biblioteca Nacional e começou a sofrer isolamento dos intelectuais favoráveis a Prudente e dos oportunistas. Em 3 de outubro de 1895, Pompeia tenta se justificar com um artigo na página 4 do jornal O Paiz, chamado Clamor maligno, onde acusa seus acusadores. A resposta veio pelo poeta e jornalista Luís Murat, na primeira página do jornal O Comércio de São Paulo, no artigo chamado Um louco no cemitério, que reprova fortemente o discurso. Murat, porém, não fica só nisso e comenta, destratando, um quase duelo entre Pompeia e Olavo Bilac, em 1892, quando Pompeia foi vaiado, chamando-o, por meio de um terceiro, “o maior covarde que eu já vi”, além de referência explícita a uma suposta preferência homossexual de Pompeia, já nascida no lançamento de O Ateneu, em 1888. Pompeia escreve uma resposta a Murat, mas os jornais recusam-se a publicá-la, e o bullying sobre Pompeia, vindo de todas as partes, só aumentou. Na noite de Natal, de 24 para 25 de dezembro de 1895, Pompeia, inesperadamente, se mata com um tiro no peito, diante de sua mãe e irmã, aos 35 anos. As duas eram estritamente dependentes da renda que ele trazia com seu trabalho. Num evento que mostra como poucos a essência da sociedade nacional. 

13 — Segundo O Paiz, Floriano, nesse momento, respondia às cartas que vários admiradores lhe mandaram, entre eles um tal general Mena Barreto, que suponho ser o Tenente-Coronel Antônio Adolfo da Fontoura Mena Barreto, em ação na Revolta Federalista, que ainda transcorria. Ele então incumbe seu médico, Dr. Pedro Nolasco, de terminar essa carta, devendo tecer os maiores elogios ao valente oficial pela defesa brilhante da República no Rio Grande do Sul. Segundo o Almirante Fonseca Hermes, o bilhete, que depois ficou conhecido como o Testamento Político de Floriano, foi achado na hora de preparar o cadáver, num dos bolsos do Marechal, talvez para ninguém dissesse que ele estava ansioso para ver o país pegar fogo. Nem desse texto, feito na hora extrema, ele, o homem que não sabia de nada, assumiu a autoria! O testamento é uma síntese do seu pensamento tortuoso, estreito e obsessivo contra a ordem civil e o estado de direito, e um lembrete de sua ‘mania’ estratégica, de ver conspirações monarquistas em toda parte, urgindo um implacável esmagamento. O “inválido da Pátria” estava velho demais para se expor às primeiras linhas do front, mas não para não insuflar jovens cadetes a odiar e massacrar por ele e em favor dele. Mesmo longe do poder, ele continuava envenenando o ambiente, jogando uns contra os outros, como num governo paralelo, crente, ou querendo crer, que só ele podia salvar o Brasil, das quimeras que a sua mente fantasiava.

14 — O interesse de Castilho na guerra também era econômico, pois, enquanto durasse, o governo federal mandaria dinheiro para a manutenção das tropas, para os fornecedores de suprimentos, em geral grandes proprietários (carne, artesanato de couro, indústria têxtil, propinas, etc.), e estes, por sua vez, o apoiariam nas demandas estaduais, contra a oposição, em destrutivas e disfuncionais operações de guerra, atrasando a estabilidade do país e do estado. O estudioso gaúcho Gunther Axt diz em um artigo: “Em junho de 1895, a força legalista na guerra civil montava a quase 24 mil combatentes, sendo apenas 8.300 das tropas de linha. Os demais eram provisórios, muitos dos quais haviam transformado o engajamento em um… negócio, pois recebiam soldo, armamento, fardamento e ainda tinham relativa permissão para perseguir desafetos e praticar saques e confiscos. A desmobilização [em virtude das tratativas de paz]… suscitava resistências” (Gunther Axt, Ordem e terror limite: a cidadela do Cati na fronteira do Brasil com o Uruguai entre 1896 e 1909, Cadernos do Lepaarq, número 35, janeiro–junho 2021, p. 60).

Castilhos… não pretendia aceitar a anistia dada pelo governo federal aos revoltosos de 1893 e pretendia aplicar uma lição ao governo uruguaio, que, durante a contenda, tolerou mobilização [dos federalistas] em seu território. João Francisco… coadjuvou secretamente com o caudilho blanco Aparício Saraiva nas revoluções do Partido Nacionalista, estaladas entre 1897 e 1904 [dentro do Uruguai], contrabandeando armas e munições (idem, Tiroteio e mortes no clube Pinheiro Machado (Santana do Livramento 1910) — entre cisão partidária local e crise internacional, História (São Paulo), vol. 41, 2022, p. 3).

 


sexta-feira, 17 de julho de 2026

 


A EXECUÇÃO DE LADY JANE (12 DE FEVEREIRO DE 1554)

A roda do destino girou, e não foi favorável a Lady Jane Grey, a talentosa e culta prima de segundo grau do rei Eduardo VI, da Inglaterra. Doentio, o jovem filho do bizarro Henrique VIII, não sobreviveu muito tempo à morte de seu pai (em 24 de janeiro de 1547), falecendo após um longo e penoso sofrimento, em 6 de julho de 1553. Como Eduardo tinha uma grande proximidade intelectual (ela era muito culta) e religiosa (ambos eram protestantes) com a prima, ele, por meio de um documento (Devise for Succession), legou a ela a coroa, para impedir que sua irmã mais velha Maria I, que era católica, assumisse o trono. Meio contra a vontade, mas estimulada pelos pais, o marido e os sogros, Lady Jane aceitou, sendo coroada em 10 de julho de 1553, para consternação da população, que viu nisso uma usurpação. Maria reage e depõe e prende Lady Jane em 19 de julho — o mais curto reinado dos tempos modernos. Lady Jane e o marido são condenados por alta traição, mas Maria pretendia poupá-los, pois, apesar de tudo, o casal era benquisto. Porém, o sogro de Lady Jane se envolve num levante contra a rainha e esta decide que aquilo era a gota d’água e manda executar Lady Jane Grey e o marido em 12 de fevereiro de 1554. Onze dias depois será a vez do sogro.

A cena retratada nesse quadro do pintor francês Paul Laroche, do início do século XIX, é quase exata. Duas damas de companhia, inclusive a ama-de-leite da condenada, a acompanharam na execução, feita no pátio externo da Torre de Londres. Seus nomes se perderam, mas sabe-se que choravam muito. No quadro, uma aparece desmaiada e a outra volta-se para a parede para não ver a execução. Emocionada e tensa, Lady Jane, com os olhos vendados, treme e não consegue encontrar o cepo de madeira onde porá a cabeça, como de fato aconteceu, sendo nesse momento ajudada por John Bridges, 1º Barão de Chandos, o diretor da Torre de Londres na ocasião, enquanto o carrasco, de nome desconhecido, observa ao lado do seu instrumento. A palha ao redor do cepo de execução é para absorver o sangue da decapitação. Ela está trajando as roupas de baixo da época, como aconteceu na ocasião.



DA IMPORTÂNCIA DE LER O PROFESSOR UNWIN E DE NÃO CRER, ACRITICAMENTE, EM TUDO O QUE LHE DISSEREM.

Eduardo Simões

Eu estava traduzindo para meus leitores o longo artigo do professor Unwin, Companhia dos Mercadores Aventureiros no reinado de Elisabeth I, quando me deparei com uma afirmação que me atordoou, em vista do que já tinha assimilado nas fantasias de Karl Marx. Que teria muito mais méritos se não recorresse tanto a elas.

Para tirar minhas dúvidas e não ter que recorrer a um dos mais tediosos livros já escritos, O Capital, resolvi pesquisar na inteligência artificial sobre esse assunto, primeiro naquela em língua portuguesa e depois na de língua inglesa, para que não ficassem dúvidas. As duas confirmaram a minha suspeita, mas devo dizer que a resposta da Wikipedia em inglês pareceu-me bem mais militante que a Wikipedia em português.

A pergunta foi: “Para Karl Marx, a pirataria ajudou à prosperidade do capitalismo?

A resposta em português foi mais circunstanciada: “para Karl Marx, a pirataria não gerou riqueza de forma pacífica, mas ajudou o capitalismo a nascer. Ela funcionou como uma violência inicial. A pirataria enriqueceu alguns grupos por meio do roubo e do saque. Essa riqueza financiou as primeiras grandes indústrias e bancos. — Como funciona: O capitalismo precisa de muito dinheiro concentrado na mão de poucos e de pessoas pobres que precisem trabalhar por um salário. — O papel da pirataria: O saque de navios e de colônias enriqueceu a Europa rapidamente. Esse dinheiro roubado virou o capital inicial para criar fábricas e comércios” …

A resposta em inglês, traduzida, foi mais direta:

Sim, Karl Marx argumentou que a pirataria desempenhou um papel fundamental no surgimento do capitalismo. Ele explicou isso no Volume 1 de seu livro, O Capital — Marx chamou esse estágio inicial de formação de riqueza de acumulação primitiva. Ele rejeitou a ideia de que os primeiros capitalistas enriqueceram por meio de trabalho árduo e poupança. Em vez disso, afirmou que a riqueza inicial provinha de roubo, escravidão e violência.

Marx destacou estes fatos fundamentais: Riquezas Roubadas: Ele escreveu que os tesouros capturados fora da Europa por meio de saques e assassinatos foram trazidos para o continente — Transformando o saque em capital: Piratas, conquistadores e comerciantes transformavam esse ouro e prata roubados em “capital” — dinheiro usado para investir em negócios e contratar trabalhadores — Evidências históricas: Marx afirmou que a história da riqueza dos primeiros comerciantes foi construída diretamente sobre atos como a pirataria no Mediterrâneo.

Pense nisso como um jogo de tabuleiro. Se um jogador começa com todo o dinheiro e as propriedades porque os roubou dos outros jogadores, sua vantagem no jogo é injusta. Marx acreditava que o capitalismo obtinha seu “dinheiro inicial” desse roubo global. Ele concluiu, de forma memorável [meu destaque, os outros da IA Google], que o capital vem impregnado de sangue e sujeira da cabeça aos pés, por todos os poros.”

Depois disso, quem disser que a IA Google é politicamente neutra, não sabe o que está dizendo.

Bem, como eu dizia, estava traduzindo o artigo do professor Unwin, quando cheguei  ao seguinte trecho:

Em nossa época, novas descobertas de ouro, embora quase invariavelmente consumam mais capital especulativo do que rendem, podem estimular, até mesmo superestimar, o crédito. As descobertas do século XVI, de fato, tiveram uma forte tendência a fazer isso. Mas, como tentei demonstrar em meu relato sobre o desenvolvimento do crédito internacional, a caça ao ouro dos corsários mais do que contrabalançou essa tendência. Ela desferiu um golpe fatal no próprio cerne do crédito. Tornou o sistema bancário e financeiro internacional praticamente impossível [meu destaque]. Diante desse resultado, o governo recuou. Após a apreensão do ouro espanhol em 1568 [nesse ano, um navio espanhol se refugiou no porto inglês de Plymouth, fugindo de um corsário, e a rainha Elizabeth mandou seus soldados apreenderem a carga do navio espanhol], que provocou uma crise que desestabilizou o comércio e a indústria por vários anos, Elizabeth teve, por fim, que reconhecer a quantia como um empréstimo dos banqueiros genoveses a quem pertencia [eles eram os donos legítimos da carga roubada, pois esta deveria pagar os empréstimos que o rei da Espanha contraiu com esses banqueiros para as despesas da colonização]. Esse efeito direto e imediato sobre o crédito, decorrente da apreensão em Plymouth em 1568 e da posterior captura de Drake [de vários navios espanhóis com ouro e outras cargas valiosas], é bastante evidente. Era como se — para usar um paralelo moderno — os alemães saqueassem o Banco da Inglaterra.

Houve, contudo, efeitos indiretos sobre o crédito, decorrentes da preocupação do governo e da nação com o ouro, que, por serem menos óbvios, foram mais insidiosos na época e que merecem maior atenção do estudioso. Em resumo, a preocupação prática com o ouro gerou uma reação à teoria bullionista, da qual o comércio e a indústria pareciam prestes a escapar. Por mais paradoxal que pareça, é um fenômeno psicológico natural que as nações com maior acesso ao ouro e à prata também tivessem as leis menos liberais sobre metais preciosos. Enquanto milhões fluíam para seus cofres, o espanhol ressentia-se de cada ducado enviado para o estrangeiro [meu destaque]. Gresham [conselheiro de Maria I e Elisabeth I] nos deu um relato vívido de como foi hostilizado na Espanha, quando foi, como agente da Rainha Maria, trazer alguns metais preciosos, com a aprovação de seu marido, Filipe [a rainha Maria, da Inglaterra, teve um breve casamento ‘torto’ com Filipe II de Espanha]. O mesmo ocorreu na Inglaterra, quando os bucaneiros começaram a trazer ouro de minas descobertas em alto-mar [os navios que saqueavam], ou quando os aventureiros trouxeram pó de ouro da costa da Guiné, ou ainda nas grandes esperanças de muitos de que as cargas de lastro [pedras comuns que eram postas na parte mais baixa da quilha dos navios para lhe dar estabilidade] de Terra Nova [no Canadá] dos navios Frobisher contivessem uma alta porcentagem de metais preciosos [a turma queria minerar o fundo dos barcos]. Todos os antigos mecanismos pelos quais o fluxo de ouro e prata havia sido restringido foram revividos [gerando uma queda na sua circulação e consequentemente queda do comércio mundial].

Com um saque imediato de ouro e prata sempre em mente, a nação deixou de confiar nas silenciosas, porém irresistíveis, agências do comércio externo e do crédito internacional, pelas quais o fluxo de ouro e prata era mantido em um nível mais baixo. E, em sua ânsia de reter o estoque ilícito de ouro e prata, prejudicou as agências que mantinham um fornecimento regular. Agarrou-se à sombra — o ouro e prata — e deixou cair a substância — o crédito [meu destaque].” (Studies in Economic History The collected papers of George Unwin, org. R. H. Tawney, Frank Cass & Co Ltd, London, 1927, p. 178–179)

Como a análise de Marx sobre o capitalismo é pueril!

Todas essas iniciativas, a autorização dos ataques e das cartas de corso, assim como a sua realização, foram tomadas por reis e rainhas e por seus lugares-tenentes, nobres e burocratas residuais das antigas cortes medievais, interessados em metais de uso exclusivo deles próprios, inacessíveis aos burgueses endinheirados, que lucravam muito mais com o comércio e as taxas de câmbio, que foram profundamente prejudicados pela ação desses rebotalhos da ordem médio-feudal.

Vejam como era asfixiante o controle do estrato medieval sobre os outros estratos da sociedade inglesa no século XVI, quando, segundo o douto Marx, a burguesia estava acumulando riquezas pela pirataria, o roubo de metais preciosos em outros continentes e vendendo escravos.

Diz a IA Google.

“Na Inglaterra do século XVI, as leis suntuárias (conhecidas como Estatutos do Vestuário [Statutes of Apparel]) foram criadas para proteger as rígidas hierarquias de classe. Como os ricos comerciantes e plebeus acumularam riquezas sem precedentes, essas leis os impediam de utilizar tecidos luxuosos como seda, veludo e peles. Isso, legalmente, impedia que a crescente classe média se vestisse de forma mais refinada do que sua condição social, ofuscando a nobreza tradicional.

Eis como essas leis impactaram especificamente a burguesia do século XVI:

  • Regras rígidas de vestuário: A coroa estabelecia exatamente o que as diferentes classes sociais podiam usar, com base em sua renda ou posição social. Por exemplo, a esposa de um rico comerciante era legalmente proibida de usar sedas importadas, bordados em ouro ou certos tipos de pele, mesmo que pudesse comprá-los facilmente.
  • Proteção de Classe para a Nobreza: A antiga nobreza latifundiária frequentemente possuía menos recursos financeiros do que os prósperos mercadores. As leis impediam que os “novos ricos” se vestissem como lordes. Isso protegia o poder visual e o status social da nobreza.
  • Controle econômico: Monarcas como Henrique VIII e Elizabeth I usaram as leis para manter o dinheiro dentro da Inglaterra. Ao limitar a capacidade da burguesia de comprar tecidos de luxo importados, o governo tentava evitar a saída de metais preciosos e apoiar o comércio local [cujos interesses, às vezes, conflitavam com os da alta burguesia, muitas vezes obscuros para ambas as classes sociais, como o professor Unwin vai colocar muito bem no seu artigo; vemos aqui também uma mentalidade mercantilista de saqueio, tipicamente medieval].
  • Estigmatização social: usar roupas que pertenciam a uma classe social mais alta era ilegal. Plebeus ricos que infringissem essas regras arriscavam enfrentar multas pesadas, prisão ou humilhação pública.
  • Rebelião Emergente ['Emerging Rebellion'?]: À medida que a burguesia enriquecia, ignorava cada vez mais essas regras. As leis tornaram-se mais difíceis de serem aplicadas. Isso desencadeou uma grande mudança na forma como a sociedade encarava o status. O status passou a ser definido pela riqueza bruta, e não apenas pelo direito de nascimento [Por que a IA trata como “rebelião” o que não passa de uma mudança de mentalidade? Seria a ânsia de referir-se à luta de classes?].

Em última análise, essas leis evidenciaram a luta entre a elite latifundiária tradicional e a crescente classe média rica, antes de serem finalmente abolidas em 1604.” (


É óbvio que essa realidade de guerras por qualquer pretexto, roubos, pirataria, comércio forçado etc. ocorre dentro de uma ordem ainda predominantemente médio-feudal contra a qual a burguesia precisou lutar ainda por muito tempo até descobrir uma opção melhor e se desvencilhar dela.

Longe de uma abordagem tipo teoria da conspiração, onde perigosas classes opressoras classes emergem da história com um plano acabado de uma nova ordem,  elaborado quase por geração espontânea, ou por sentimentos ruim e imperfeições morais, que por alguma razão inexplicável, mágica, só mancham os membros de uma determinada classe social, como se ela fosse a serpente do paraíso, justificando o banditismo rasteiro de todas as outras classes, devemos entender a formação da grupamento burguês e a ordem decorrente de suas iniciativas como resultantes de um longo percurso cheio de nuances, ora avançando, ora retrocedendo, às vezes por suas proprias iniciativas, à sombra de poderosos estados que se formaram do que sobrou da ordem médio-feudal, sendo ainda por eles dirigidos. Esses estados, controlados pela aristocracia medieval, dominavam e usavam a burguesia comercial, assim como as outras classes, em função de seus interesses econômicos, políticos e sociais, determinados pelo nível de compreensão geral que se tinha do conjunto das interações sociais ocorridas no espaço da Europa Ocidental, que influenciariam intelectualmente servos, burgueses, nobres e reis, ainda por muito tempo.

A ordem burguesa, ainda em construção nos dias de hoje, é fruto de interações, conscientes ou não, determinadas por limitações intelectuais do meio historicamente dado, progredindo na direção de algo que ninguém sabe ainda como é, nem jamais saberá, salvo os dotados do dom da profecia, e dos falsos profetas de sempre, que, às vezes, fazem mais sucesso do que deveriam, rumo a um mundo melhorado, e até ideal, e que, por isso mesmo, nunca será alcançado.

Creio, enfim, que a leitura judiciosa do texto do professor Unwin, A Companhia dos Mercadores Aventureiros no Reinado de Elisabeth I, será um dos excelentes antídotos aos enganos que pululam por aí sob o disfarce de ‘grande descoberta’ e até de ‘descoberta final’.

Em breve sairão novos trechos do artigo do professor Unwin.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

 


HOMENAGEEMOS OS NOVOS REIS DO FUTEBOL (Título que foi nosso, e que eles conquistaram com galhardia e bravura, e que nós o entregamos com vergonha e covardia).

Eduardo Simões

E agora, brasileiros? O que vamos fazer com os nossos craques milionários, ativistas? Não que não mereçam ganhar muito dinheiro, só não precisam mostrar que é só isso que importa. Não que eles sejam proibidos de assumir grandes causas, mas quando se ensaia partir para o confronto físico contra toda uma torcida, por causa de xingamentos, isso deixa de ser ativismo para se tornar descontrole emocional, e até falta de confiança em si mesmo.

Nem me digam que o nosso futebol está doente, porque não está, ou pelo menos não é ele a causa principal, mas é a nossa alma e a nossa inteligência, porque nós não nos acreditamos mais como nação, e os argentinos, que têm um amor fulgurante pelo seu país e pela sua cultura nacional, utilizaram disso justamente como alavanca e apoio para tirar de nós, atualmente soltos e perdidos no espaço, e ao mesmo tempo presenteando o mundo com uma arte inigualável, o título de PAÍS DO FUTEBOL, de PÁTRIA DE CHUTEIRAS.

Vejo isso em dois momentos-sínteses:

1º Momento: O choro de Lautaro Martinez após a vitória sobre a Inglaterra, em 15 de julho. Após a partida, ele dá uma declaração que diz tudo:

É muito forte isso. Na primeira vez que joguei por um par de chuteiras, sempre sonhei com a seleção. Desde os tempos de Racing, das vezes que sonhei… Isso vale mais do que qualquer gol e qualquer final. Tenho amigos, filhos e pessoas que estão me apoiando. Vou aproveitar tudo isso. Quero aproveitar também. Minha filha que me trouxe uma mudança. Sou um homem diferente. Sonhei que iria fazer um gol. Foi maravilhoso.”


2º Momento: uma declaração feita pelo jogador Roberto Carlos em 21 de junho de 2001, após ter se recusado a participar de um jogo pela seleção.

Vi outras seleções na Europa passarem pelo mesmo problema que a Seleção Brasileira está passando [recusa de jogadores em abrir mão de partidas bem pagas pelos patrocinadores do seu time, para jogar na seleção de seu país, sem esses ganhos]. O problema é que no Brasil existe sempre uma cobrança muito forte. E esta história de amor à camisa é conversa furada. Tenho que ter amor à minha família. A minha função é entrar em campo e jogar futebol, que é o que a Seleção precisa fazer para voltar a ser a número um do mundo.”

Para o argentino de hoje, jogar na seleção é tudo, é um sonho dourado de uma vida, desde a infância, algo transcendente, que ele não consegue falar sem se emocionar, como alguém que lembra de um pai, uma mãe ou uma pessoa muito amada. Fazer o gol decisivo numa partida decisiva é algo que não tem explicação, é divino, e a família tem uma participação fundamental nisso, em especial a sua filhinha, que certamente vai ficar cheia de orgulho do pai, que melhora por causa disso. O nome disso é gratidão!

Para o brasileiro Roberto Carlos, a seleção brasileira é uma seleção como qualquer outra, perante a qual não mais se nutre, como no passado, sentimentos e deferências especiais. Ora, a seleção é uma vitrine formidável para qualquer jogador, em início de carreira, sonhar com salários milionários e uma vida de estrela. E Roberto Carlos quer ganhá-los, sem ser cobrado, como se fosse uma divindade! Não é uma ‘gracinha’? Roberto Carlos, ao contrário de Fernandez, usa a família para justificar o desinteresse e até o descaso pela camisa da seleção. O jogador de futebol é um funcionário como outro qualquer, desempenhando uma função na seleção como outro qualquer, principalmente quando a seleção já o tiver deixado financeiramente bem e famoso. E, segundo ele, é isso que vai fazer a seleção ser vencedora novamente!

Pois é, os jogadores de hoje que ganham uma fortuna toda vez que entram em campo, esnobam a seleção a pretexto de precisar cuidar da família, enquanto deixam uma memória lamentável e arrastam na lama o bom nome da seleção, que ninguém mais respeita. Até o Marrocos partiu para cima, e por pouco não se deu muito bem. Roberto Carlos não tem do que se queixar, saiu do futebol muito mais rico do que entrou, a torcida está quite com ele e, se for sábia, ansiosa por esquecê-lo.

No tempo em que éramos os reis do futebol, nossos craques não amealhavam tantos recursos, mas nos deixavam orgulhosos de sermos brasileiros. Hoje só colhemos vergonha: 7×1 e seis copas seguidas sem vencer: somos Hexas. Hexas perdedores.

Mas não nos iludamos, nem vamos ficar cultivando bodes expiatórios. Todos são culpados, até a torcida, que tem adquirido cada vez mais gosto em  brigar com a torcida adversária do que ver seu time vencer. Não serão as sangrentas brigas de torcedores o principal motor de ida aos estádios de uma parte relevante das torcidas? Somos um povo doente. Adoecidos pelos seus próprios pensamentos, preconceitos e uma colossal ignorância turbinada por uma ingratidão visceral.

Enquanto os argentinos enaltecem a sua história e os seus antepassados, gente lutadora e honrada, e por isso nós também somos lutadores e honrados, os brasileiros afundam na misantropia e na autopiedade. Seus antepassados são invasores de terras indígenas, escravocratas e genocidas, como se isso não fosse comum em TODOS, TODOS, TODOS, os outros povos, na época histórica em que tais fatos se deram. Os brasileiros adoram amaldiçoar os seus antepassados, mas quem amaldiçoa os seus antepassados é por eles amaldiçoado, com uma diferença fundamental: a nossa maldição se refere a um passado que não pode ser mudado, sequer ocultado, sem que reapareça de forma piorada adiante, mas a maldição dos antepassados atinge de frente o nosso presente e o nosso futuro, e o futebol é só um dos retratos disso.

Nós nos odiamos tanto que votamos cinco vezes nos candidatos de um partido que diz que a essência da história é a luta de classes, enquanto o seu atual presidente não cessa de lembrar a necessidade de os pobres odiarem os ricos, porque estes só querem se aproveitar dos mais pobres, estando ele garantido que não será mais pobre, como foi no passado. E assim, os pobres devem odiar ricos, pretos aos brancos, mulheres aos homens, da mesma forma como os corintianos odeiam os palmeirenses, os flamenguistas aos vascaínos, etc. Bye, bye, Brasil!


No final das contas, é isso que importa? É por isso que sonham os nossos craques, graças ao nosso suado dinheiro, tempo, e agora ferimentos, gastos nas arenas de futebol? Eu pensava que o motor era a preocupação com a família, mas vejo ser o direito e a honra de frequentar camarotes especiais, cercados de sheiks, investidores e patrocinadores milionários, longe da família e do passado. Só para assistir a mais uma derrota da seleção brasileira e a vitória de uma filosofia de vida infame.


quarta-feira, 15 de julho de 2026


A VERDADE DAS DEGOLAS EM CANUDOS E AS MENTIRAS DE CÉSAR ZAMA

Eduardo Simões

Não se pode dizer que César Zama, a nova estrela da ‘verdade oculta’ de Canudos nos meios acadêmicos, não foi bem-sucedido em sua trama para manter essa verdade mais oculta ainda aos brasileiros, se é que alguém ainda se importa com o que aconteceu lá, em meio a tantos escândalos do presente e falta de perspectiva no futuro — quem sabe o conhecimento melhor do passado nos prodigalize esperanças? — pois, assistindo a um vídeo sobre Canudos, para saber as novidades nas pesquisas, deparei-me com um mestre ou doutor, em história — esses títulos ainda importam? — fazendo questão de afirmar a superioridade de César Zama como fonte privilegiada para o conhecimento de Canudos. Logo Zama, que nunca pisou lá nem escreveu nada minimamente circunstanciado, além do ridículo Libelo republicano, cheio de distorções, mentiras e irracionalidades.

Segundo Zama, um florianista fervoroso, a ordem para a degola dos prisioneiros partiu do marechal Carlos Machado Bittencourt, mandado por Prudente de Morais, para acabar com a desorganização do abastecimento das tropas em Canudos — toda ela organizada, segundo o general Dantas Barreto, pela teimosia do general Oscar em entregar essa responsabilidade ao coronel de engenharia Campelo França, contra a recomendação de gente abalizada, dando na desordem que deu, sem que o general tomasse qualquer providência!

Zama, e só ele, inventou uma história de que, indagado por Arthur Oscar, tão florianista quanto Zama, sobre o que fazer com os prisioneiros, o marechal Bittencourt teria dito que em Queimadas, onde estava o centro do abastecimento da força, não havia lugar para os prisioneiros, e que isso era uma ‘senha’ para o massacre, sem falar de outras baboseiras que Zama inventou, ótimas para emocionar mentes fracas e gente alucinada com teorias da conspiração, como a expressão utilizada no QG de Bittencourt “é tempo de João Francisco”, um estancieiro gaúcho com fama de sanguinário, um castilhista autônomo demais para permanecer castilhista muito tempo, a quem Rui Barbosa chamou de ‘Fera do Cati’. Ajudou na mentira o fato de Bittencourt ser gaúcho.

O curioso é que o próprio general Oscar, e o seu irmão e biógrafo, general Carlos Eugênio, não citam nenhum contato de Oscar com Bittencourt, nem se dão ao menor trabalho de explicar o que aconteceu, mesmo quando já havia notórias suspeitas de que ele estivesse de alguma forma envolvido, afinal, o morticínio aconteceu na área sob o seu comando. Oscar, inclusive, falecerá dizendo que em Canudos havia uma poderosa conspiração internacional em curso para remonarquizar o Brasil.

Ao jogar a responsabilidade sobre Bittencourt, Zama a atinge por tabela a Prudente de Morais, que foi quem mandou Bittencourt a Canudos, para dar um mínimo de ordem na esculhambação do abastecimento, que estava alongando a campanha, aumentando as mortes e estourando o Tesouro nacional, combalido pela incompetência e os desmandos de Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto.

Graças à história da carochinha de Zama, é praticamente consenso na academia e em todos os meios cultos, uma unanimidade nacional, bem a propósito de Nelson Rodrigues, que os responsáveis pela degola em Canudos são Carlos Bittencourt e Prudente de Morais, o que praticamente justifica, e até heroifica, a tentativa de assassinato de Prudente de Morais, por um florianista encarniçado, ignorante e manipulado por grandes personalidades da República, todas de viés florianista. Esse atentado monstruoso é vergonhosamente omitido no libelo de Zama. Para não expor os colegas?

Entretanto, existiam também pessoas sérias e honestas envolvidas no brutal massacre de Canudos que, graças aos céus, deixaram algo escrito e isso foi milagrosamente preservado em arquivos — considerada a nossa compunção em destruir arquivos e museus — que agora tenho o prazer de mostrar a vocês, nesse pequeno blog, que só quer estabelecer os limites corretos de cada acontecimento para podermos aquilatar melhor as responsabilidades de cada um nesse lamentável episódio.

Não dá para desfazer o que foi feito, mas dá para utilizar dos seus fundamentos, desde que honestamente levantados, para impedir que isso volte a acontecer em situações análogas.

Em primeiro lugar, vou apresentar trechos do livro do estudante de medicina baiano Alvim Martins Horcades, Descrição de uma viagem a Canudos, escrito em 1899, disponível, por enquanto, na Internet.


P 109 — Aqui Horcades comenta sobre a promessa, que, segundo Beatinho, lhe foi feita pelos três generais em comando: Arthur Oscar, Carlos Eugênio e João da Silva Barbosa, e que Beatinho, depois da conversa com os generais, transmitiu a Horcades. Onde Bittencourt entra nisso?



P 110


morte, à semelhança da que se faz do estudante para o exame.

P 113 — Tudo indica que esse corresponsável seria um dos generais citados ou no mínimo um oficial de alta patente. Horcades se precata, pois sabe que o terreno é perigoso. Ele chega a citar ameaças que um estudante de medicina teria sofrido, da parte de um soldado, por reclamar contra aquilo. Havia uma omertá em curso?


P 114
P 115


P 116 (Fim do livro de Horcades)


O documento acima é uma página do livro organizado pelo tenente-coronel reformado Orvácio Deolindo da Cunha Marrecas, que era tenente em 1897, chamado Histórico da Polícia Militar do Pará, do seu início (1820) até 31 de dezembro de 1939, editado em 1940, pelas Oficinas Gráficas do Instituto Lauro Sodré (florianista encarniçado, acusado de envolvimento na trama para matar Prudente, em 1897, e derrubar Rodrigues Alves por meio de um golpe, durante a Revolta da Vacina, em 1904), em Belém.

Lendo Marrecas, vemos que o relato do policial paraense e do acadêmico baiano batem extraordinariamente nos detalhes, já que o policial, por razões tão compreensíveis quanto lamentáveis, foi muito lacônico no seu relato. Um complementa o outro.

Em primeiríssimo lugar: AMBOS SÃO TESTEMUNHAS OCULARES. ESTAVAM LÁ. VIRAM.

Tanto um quanto o outro: dizem que a ordem partiu dali mesmo e nada tem a ver com Queimadas ou Bittencourt — HORCADES cita em outro parágrafo 3 generais — os únicos presentes eram aqueles que citei acima. Estranhamente, vários outros deram baixa para não ficar ali. MARRECAS fala de “um dos ajudantes de ordens do comando em chefe das forças em operação”, que remete aos três generais citados ou ao principal deles, Arthur Oscar, pois em Queimadas, onde estava Bittencourt, não transcorriam operações.

Ambos falam EXPLICITAMENTE que havia uma 'chamada'. Os nomes desses homens eram conhecidos, estavam em listas sob a guarda dos oficiais. Que fim levaram essas listas? Como pode um general como Tristão de Alencar Araripe, que escreveu sobre Canudos, dizer que se desconhece seu número, seu nome e seu paradeiro?

Marrecas fala de uma ordem estranha: “fazer trincheiras”, que ele até supôs ser “uma gíria local”, para designar degola, o que não existe nem a rastro que um dia tenha existido tal expressão nesse sentido. Pode ser um artifício para livrar a pele de alguém, caso houvesse uma investigação a respeito. Ele se justificaria dizendo: "Não sei o que aconteceu, eu mandei cavar trincheiras, estão aqui as ordens por escrito". Ninguém, é claro, foi punido por esse desvio de 'entendimento'.

Ambos falam em degola como modo de execução.

Ambos falam na carbonização dos corpos após a execução e na cena horripilante dos corpos queimando ao relento.

Ou se prova que o policial paraense, chegado já nos estertores da refrega, e o jovem acadêmico baiano eram velhos conhecidos, ou tinham motivos para se mancomunarem a fim de destruir a boa imagem do general Arthur Oscar e do alto comando da tropa em operação, ou, na ausência de provas e testemunhos bem consistentes, coerentes de fontes diversas, e não fofocas e mentiras de cunho político-partidário, somos obrigados a assumir peremptoriamente que a ordem para o massacre em Canudos surgiu inteiramente no comando direto das tropas que ultimavam o cerco ao arraial, em especial o seu comandante máximo: o general Arthur Oscar.

 


P 124 — Mais uma vez vemos a ‘mão’ de Arthur Oscar, o “general em chefe”. Por que essa meticulosidade em destruir as igrejas até os alicerces? Para que eles serviriam no caso de uma futura revolta internacional monarquista numa das regiões mais pobres do Brasil (fazendo força para não rir)? Por que essa preocupação em apagar o rastro daquilo tudo? Só consigo encontrar uma resposta lógica: dificultar qualquer tentativa futura de saber o que realmente aconteceu ali.

Favilla Nunes, que viu os destroços das igrejas, admirou-se de sua pequenez, de seu acanhamento. Ele chega a dizer que, se a Igreja Nova era uma fortaleza, como diziam, ele não saberia como qualificar a igreja da Candelária no Rio de Janeiro, mas até isso ficou difícil de aquilatar depois que as duas foram dinamitadas até os alicerces, algo completamente inexplicável, pois em Canudos não havia muralhas, trincheiras complexas, túneis, etc. — todos os relatos falam em buracos e covas feitas improvisadamente pelos seus pobres defensores. Há uma foto que mostra bem o acanhamento da Igreja Velha, de Santo Antônio, mas a única que temos da Nova não nos permite avaliar o seu tamanho. O ângulo da foto — de baixo para cima — fa-la parecer maior do que é.

Ironicamente, as mentiras verdadeiras e as falsas verdades propaladas pelos militares após a queda de Canudos, para justificar ou ocultar um crime tão aberrante, só serviram para enaltecê-la e aumentar indevidamente a sua fama, assim como a de seu infeliz fundador. Um homem que, apesar de seus erros, não merecia, assim como os seus, um final tão cruel, e que também está longe de ser um herói, um protótipo dos novos tempos, quando é justo o contrário.

Resgatar a verdade dos acontecimentos e a dimensão correta de Canudos é a melhor maneira de superar tanto a irracionalidade com que aquela comunidade foi destruída e posteriormente demonizada, assim como também é, agora, irracionalmente apresentada como um modelo.