terça-feira, 4 de agosto de 2026

 

TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 24


Filosofia Moral.

Todos os fatos apresentados acima sobre o pensamento do século XVIII vão mostrar que a novidade da abordagem sociológica e econômica da lei natural mantida sobre uma considerável extensão daquilo que se convencionou chamar novo espírito “experimental”... é tão ilusória quanto a noção análoga de que a obra dos filósofos do direito natural do século XVII representou uma ruptura violenta com a análise escolástica. Em outras palavras, esses fatos ensinam uma lição de continuidade no desenvolvimento dos conceitos. Contudo, o sistema de pensamento do direito natural desintegrou-se ou, pelo menos, sofreu uma transformação. Sabemos que, originalmente, era um sistema de jurisprudência e que todo o material não jurídico havia sido inserido na estrutura legal em um papel acessório. Mas, no século XVIII, o aumento desse material e a adição de novos campos de pesquisa romperam essa estrutura.

De uma posição que a colocava como uma holding governante que unificava e coordenava tudo, a “jurisprudência natural” tornou-se meramente uma especialidade de uma nova unidade abrangente que não era mais primordialmente jurídica em sua essência. Essa nova unidade foi denominada Filosofia Moral — sendo a palavra filosofia tomada em seu antigo sentido de soma total das ciências, de modo que, em linhas gerais, filosofia moral significa as ciências sociais (as ciências da “mente e da sociedade”), em contraste com a Filosofia Natural, que denotava as ciências físicas mais a matemática. Era disciplina padrão nos currículos universitários e consistia, principalmente, em teologia natural, ética natural, jurisprudência natural e política (ou “polícia” [‘or police’, no original]), que incluía economia e também finanças públicas (“receita”).

Francis Hutcheson, professor de A. Smith, era professor de filosofia moral... Tanto os Sentimentos Morais quanto A Riqueza das Nações são blocos extraídos de um todo sistemático maior. Assim, a antiga ciência social universal dos doutores escolásticos e dos filósofos do direito natural sobreviveu em uma nova forma. Mas não por muito tempo. Embora o curso de filosofia moral figurasse nos currículos universitários mesmo na primeira metade do século XIX — as universidades são conservadoras —, ele estava perdendo rapidamente, na maioria dos lugares, seu antigo significado e posição no final do século XVIII. Isso se deveu à mesma causa que levou ao colapso do sistema do direito natural. O acúmulo de material nos ramos individuais da filosofia moral tendeu a colocá-los nas mãos de especialistas, cada um dos quais inevitavelmente teve que se concentrar em seu próprio ramo e negligenciar tanto os outros ramos como os princípios abrangentes. Isso se aplica com particular força à economia.

É altamente significativo que A. Smith tenha considerado impossível fazer o que Hutcheson fizera naturalmente, ou seja, produzir um sistema completo de filosofia moral ou ciência social. O tempo para isso já havia passado: a absorção do novo material — tanto fatos quanto análises — tornara-se uma tarefa em tempo integral. Enquanto essa absorção não se completasse, o pequeno corpo de conhecimento econômico-científico herdado dos escolásticos e cultivado pelos filósofos do direito natural conservava não apenas existência independente, mas também um caráter distintivo próprio. Devido ao maior refinamento intelectual dos homens que o criaram e ao seu distanciamento das questões práticas imediatas da política econômica, sua análise econômica era diferente da análise de outras pessoas. [Começa a haver uma notável diferenciação entre a nova abordagem dos problemas econômicos e sociais, da que era praticada antes].

Ao observá-la, não podemos deixar de notar uma formulação mais correta dos fundamentos e uma visão mais ampla dos problemas práticos, ambas antecipando opiniões muito posteriores. Mas, assim que essa absorção se completa, naturalmente a perdemos de vista, embora não percamos sua contribuição. Isso aconteceu, em linhas gerais, entre 1776 e 1848: o mais recente sistema de direito natural, o utilitarismo, ganhando força quando os especialistas em economia já haviam estabelecido sua reivindicação de autonomia, não foi, como seus predecessores, capaz de exercer controle efetivo sobre eles.


MAIS FATOS DA HISTÓRIA SOCIAL

[ATENÇÃO: não se assuste se, de repente, o autor der meia volta e começar a discutir questões referentes a épocas anteriores ao último parágrafo. Schumpeter é minucioso e não quer deixar nada sem um reparo. Ele volta diversas vezes ao passado para discutir as origens de temas que ele acabou de apresentar].

Já sabemos que, com o passar do século XVIII, a economia se estabilizou no que decidimos chamar de Situação Clássica [Classical Situation] e que, em consequência disso, adquiriu o status de um campo reconhecido de conhecimento estruturado. Mas as obras de seleção e coordenação daquele período, entre as quais A Riqueza das Nações foi o sucesso mais notável, não se limitaram a ampliar e aprofundar o fluxo proveniente dos estudos dos escolásticos e dos filósofos do direito natural. Elas também absorveram as águas de outra corrente, mais impetuosa, que brotava do fórum onde homens de negócios, panfletistas e, mais tarde, professores debatiam as políticas de sua época. Neste capítulo, faremos uma análise geral dos vários tipos de literatura econômica produzidos por esses debates. Essa literatura não constitui uma unidade lógica ou histórica. Os autores, diferentemente dos filósofos do direito natural, não formam um grupo homogêneo... [Mas] discutiam problemas práticos de política econômica, e esses problemas eram os problemas do Estado Nacional em ascensão.

Portanto, se quisermos compreender o espírito que animava esses autores, suas linhas de raciocínio, os dados que consideravam como certos, devemos, por um momento, fazer um desvio para a sociologia desses Estados cuja estrutura, comportamento e vicissitudes moldaram a história europeia — tanto no pensamento quanto na ação — a partir do século XV. O ponto importante a ser compreendido é que nem o surgimento nem o comportamento (“políticas”) desses Estados foram meras manifestações da evolução capitalista. Quer queiramos ou não, temos que encarar o fato de que foram produtos de uma combinação de circunstâncias que, vistas do ponto de vista do processo capitalista em si, devem ser consideradas acidentais ou inesperadas.

 

Nota de Schumpeter

Como todos os teóricos, os teóricos da história social relutam em admitir a importância de fatores causais diferentes daqueles enfatizados por suas próprias teorias, assim como a importância do acaso na evolução dos padrões reais. Contudo, os processos históricos que produziram as situações, criaram os problemas e moldaram as atitudes refletidas nessa literatura não podem ser interpretados como muitos observadores, especialmente os marxistas, gostariam de interpretá-los, ou seja, como efeitos da ascensão do capitalismo. [Como se o capitalismo tivesse surgido como um sistema planejado, talvez até já de olho na exploração do operariado, consciente, montado peça-por-peça, como um quebra-cabeças, pela ação dos empresários e o pensamento de seus intelectuais ‘orgânicos’. Algo do tipo teoria da conspiração]. Mesmo na medida em que são atribuíveis à evolução capitalista, eles se desenvolveram de uma maneira radicalmente diferente daquela prescrita pelos interesses ou pela mentalidade capitalista.

 

Fatores Incidentais da Emergência dos Estados Nacionais.

Em primeiro lugar, foi um acidente que a ascensão do capitalismo tenha atingido uma estrutura social de força incomum. O feudalismo, sem dúvida, cedeu lugar, mas as classes guerreiras que governavam o organismo feudal não. Pelo contrário, continuaram a governar durante séculos e a burguesia em ascensão teve de se submeter. Conseguiram até absorver grande parte da nova riqueza para os seus próprios fins. O resultado foi uma estrutura política que fomentava, mas também explorava, os interesses burgueses e que não era burguesa na sua natureza e espírito: era o feudalismo gerido em bases capitalistas; uma sociedade aristocrática e militar que se alimentava do capitalismo; uma estrutura anfíbia muito distante do controle burguês... Assim, os monarcas, que eram principalmente senhores da guerra, e a classe dos latifundiários aristocráticos permaneceram os eixos do sistema social até meados do século XVIII, pelo menos no continente europeu... Além disso, foi um acidente que a conquista da América do Sul tenha produzido uma torrente de metais preciosos [ninguém sabia que os havia e na quantidade em que foram encontrados, nem o período em que foram encontrados]. Presumivelmente, o crescimento da empresa capitalista poderia ter gerado situações inflacionárias de qualquer forma, mas essa torrente fez muita diferença no curso dos acontecimentos. De uma maneira óbvia demais para precisar de maiores explicações, ela acelerou o desenvolvimento capitalista, mas muito mais importantes do que a torrente de metais, são dois outros fatos que apontam na direção oposta. Por um lado, esse acesso a meios líquidos fortaleceu consideravelmente a posição dos governantes que conseguiram obtê-los. Dadas as circunstâncias da época, isso conferiu uma vantagem decisiva no planejamento de empreendimentos militares em linhas que, muitas vezes, como no caso dos Habsburgos espanhóis, estavam completamente desconectadas dos interesses burgueses em seu vasto império ou da lógica do processo capitalista. Por outro lado, a revolução dos preços que se seguiu significou desorganização social e, portanto, foi não apenas um fator propulsor, mas também um fator de distorção. Muito do que poderia ter sido uma mudança gradual, se nada além do processo básico estivesse em ação, tornou-se afinal explosivo na atmosfera febril da inflação. Deve-se atentar especialmente para o efeito sobre o mundo agrário. Quando a inflação se instalou, a maior parte dos direitos que os camponeses continentais deviam a seus senhores foi transformada em pagamento em dinheiro [produzindo mais circulação de dinheiro, acelerando ainda mais o capitalismo ou pelo menos uma mentalidade geral].

Com o poder de compra da moeda em rápida queda, os senhores feudais tentaram, em muitos países, aumentar o valor monetário dos tributos. Os camponeses resistiram. Revoluções agrárias foram a consequência, e o espírito revolucionário assim gerado foi um fator importante nas convulsões políticas e religiosas daquela época. Mas, devido à força da elite feudal, essas revoluções não aceleraram, como se poderia esperar, o desenvolvimento social na mesma proporção que o processo básico. As revoltas dos camponeses e de outros grupos que se insurgiram em solidariedade foram reprimidas com implacável vigor. Os movimentos religiosos obtiveram sucesso apenas na medida em que foram patrocinados pelas aristocracias e, nos casos mais importantes, perderam rapidamente o radicalismo social ou político que originalmente lhes fora associado. Príncipes e barões, exércitos e clérigos emergiram da provação com prestígio e poder ampliados, enquanto o prestígio e o poder político da burguesia declinaram, especialmente na Alemanha, França e Espanha. A grande exceção, no continente, foram os Países Baixos.

Um terceiro evento histórico de importância primordial — e duradoura — foi o colapso da única autoridade internacional efetiva que o mundo já viu. Como já foi apontado, o mundo medieval era uma unidade cultural e, pelo menos em princípio, professava lealdade tanto ao Império quanto à Igreja Católica. Embora houvesse visões muito divergentes sobre a verdadeira relação entre eles, juntos formavam um poder supranacional que não só era ideologicamente reconhecido, como também politicamente invencível enquanto permanecesse unido. Segundo a visão tradicional, esse poder estava fadado a declinar assim que os efeitos corrosivos do capitalismo começassem a dissolver as bases da sociedade medieval e suas crenças. Isso não é verdade. Independentemente dos efeitos desses efeitos sobre esse poder dual, eles não tiveram relação alguma com o colapso que ocorreu muito antes de essas crenças serem abaladas, simplesmente porque — o que, do ponto de vista do processo fundamental, foi novamente acidental — o fato de que, por razões que não podem ser analisadas aqui, o império foi incapaz de aceitar a supremacia dos Papas ou de conquistá-los. Uma luta prolongada que abalou o mundo cristão até seus alicerces terminou na vitória dos Papas na época de Frederico II (1194–1250). Mas, nessa luta, ambos os lados haviam exaurido tanto seus recursos políticos que é mais correto falar de uma derrota comum: os Papas perderam autoridade, o império se desintegrou. Em consequência, o internacionalismo medieval chegou ao fim e os Estados nacionais começaram a afirmar sua independência daquela autoridade supranacional que havia sido formidável apenas enquanto a Igreja Romana cooperava com a “espada temporal” da Germânia.

 

Nota de Schumpeter

É enganoso enfatizar o elemento nacional nessa mudança. Embora ele se manifeste claramente nos casos mais importantes, como os da França, Espanha e, antes de qualquer outro lugar, da Inglaterra, a verdadeira natureza do fenômeno ficará mais evidente se considerarmos que, na Alemanha e na Itália, países que foram imediatamente subordinados ao poder imperial, esses estados ou “principados” surgiram em bases não nacionais: não foi, a princípio, o sentimento nacional que uniu essas unidades, mas sim o interesse de príncipes feudais suficientemente fortes para organizar, defender e governar um território. O próprio reino de Nápoles e Sicília de Frederico II é o exemplo mais antigo, e o estado prussiano, de outro Frederico II, o mais revelador. O apoio popular que pudesse ser vinculado a interesses capitalistas e ao sentimento nacional surgiu mais tarde e foi tanto consequência de condições anteriores, quanto fator causal em desenvolvimentos subsequentes

segunda-feira, 3 de agosto de 2026


GUERRA DO PARAGUAI: O PAPEL DA BACIA PLATINA
[topônimos do mapa acima em inglês, espanhol e português] Eduardo Simões A bacia do Rio da Prata corresponde a uma área de 1,4 milhão de quilômetros quadrados, para onde confluem as águas de alguns dos principais rios do continente — Paraná, Paraguai e Uruguai — antes de desaguarem no estuário do Prata. A importância desses rios deve-se, principalmente, ao seu papel no transporte das riquezas produzidas nessa região pelo Paraguai, Argentina, Uruguai e Brasil, assim como rota de chegada das mercadorias que vinham do exterior. Para o Brasil do século XIX, a liberdade de navegação era vital, pois era a única rota de comunicação viável com as províncias do centro-oeste, em especial o Mato Grosso, que nesse período não estava unido aos portos do litoral brasileiro por outro meio de transporte. Estradas ou ferrovias. Voltados para a Europa, econômica e tecnologicamente estagnados, ficamos à mercê dos rios dessa bacia, para viabilizar nossa posse de vastas regiões no centro da América do Sul. Ao contrário do Brasil, porém, os países hispânicos da região viam no controle da navegação do rio uma importante fonte de arrecadação e de controle estratégico, seja pela cobrança de pedágios, seja pelo fechamento do rio a um país que o detentor dos direitos sobre o rio quisesse prejudicar. Para complicar a situação, após a independência, os países da região entraram numa profunda crise de identidade, à medida que as elites tentavam impor reformas liberais em sociedades predominantemente autoritárias e acostumadas ao Antigo Regime dos monarcas absolutos, agora travestidos de ditadores ou na exótica figura dos caudilhos sul-americanos. A luta caudilhesca pelo poder não conhecia medidas. Logo, esses países viviam mergulhados em crises econômicas crônicas, fruto de guerras civis e de conquistas intermináveis, tudo para ampliar o prestígio do caudilho ou do grupo que lhe dava suporte, sem falar de questões de fronteiras que se arrastavam desde o tempo dos impérios ibéricos. Era o caos. Desse caos, o Brasil se livrou mais rápido, graças à herança portuguesa deixada após a independência: uma estrutura de estado ‘moderno’ já montada, com o seu mandatário já sentado no trono, com um projeto dinástico já definido. Ganhamos no curto prazo. Ciente de sua fragilidade e sem recursos para atender, ao mesmo tempo, os custos da burocracia imperial, a fragilidade do sistema econômico — dependente dos mercados externos e da mão de obra escravizada — e construir uma infraestrutura de estradas com as áreas centrais do país, o Brasil aferrou-se ao império de manter livre a navegação na bacia do Prata, para não perder completamente contato com o centro do país. Todas as intervenções brasileiras tinham isso como meta. A última coisa que interessava ao Brasil era a criação de uma grande potência no centro do continente, dominando o curso médio e final dos rios que desaguavam no rio da Prata, e essa meta estratégica chocava-se com a do Paraguai de Solano López, que desejava uma aliança com caudilhos no Uruguai, e assim obter o controle do curso médio dos principais rios, e, de quebra, portos no Atlântico, fosse pela fusão com o Uruguai, fosse por acordos comerciais privilegiados. Entre 1825 e 1828, o Brasil guerreou com a Argentina justamente para que isso não acontecesse. Com o domínio do Uruguai, a Argentina controlaria as duas margens do estuário; logo, a substituição dela pelo Paraguai não seria aceita, ainda mais porque Brasil e Paraguai tinham divergências territoriais lá nas áreas centrais.  Havia também, na fronteira do Rio Grande com o Uruguai, constantes escaramuças devido às características da cultura gaúcha que aí se desenvolveu, muito personalista e belicista, ocasionando confrontos intermináveis entre criadores brasileiros e uruguaios. Nessa ocasião, as lideranças políticas gaúcho-brasileiras faziam muita pressão contra os políticos na corte, ameaçando elas próprias armarem suas forças e invadirem o país vizinho para deterem os ataques. Seja porque temesse outra farroupilha, seja porque fossem fracos ou cheios de prevenção contra os vizinhos — que também tinham muita prevenção, inclusive racial, contra os brasileiros — ou um pouco de tudo isso, o gabinete do Império resolveu assumir a causa dos gaúchos. Foi enviado um ultimato ao governo do Uruguai, exigindo proteção dos brasileiros no Uruguai e indenização pelos ataques na fronteira. Naquele momento, porém, o governo local estava nas mãos de um grupo hostil ao Brasil, que não só rejeitou o ultimato como queimou, em praça pública, acordos antes firmados com o Brasil. No dia 10 de agosto de 1864, o presidente Atanasio Aguirre, do Uruguai, recebe do representante brasileiro o informe de que as forças brasileiras, em virtude do fracasso das negociações, vão intervir no Uruguai;  no dia 11 de agosto o almirante Tamandaré recebe ordem para entrar em operações; em 24 de agosto os navios da esquadra brasileira fazem fogo sobre a canhoneira uruguaia Villa del Salto, que foge para a Argentina; no dia 30 de agosto o Uruguai corta relações diplomáticas com o Brasil; no dia 12 de outubro uma brigada do exército brasileiro invade o Uruguai, tomam a cidade de Melo e a entregam ao grupo uruguaio de oposição a Montivideo, voltando ao Rio Grande do Sul; em 1º de dezembro, devido a dificuldades de mobilização e recursos, o exército brasileiro conseguiu juntar força suficiente para iniciar a invasão do Uruguai.
A guerra começara.  

sábado, 1 de agosto de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA - 34

Rescaldo: a misoginia?      

Eram duros os conselhos de conduta do Conselheiro, em especial os que diziam respeito às mulheres, pois, segundo Câmara (1993), “obrigava as mulheres a cortar o cabelo e queimar objetos de luxo.” Segundo ainda Vilanova, no Memorial de Vilanova de Nertan Macedo, “ele não falava com fêmeas", embora elas ajudassem, com sua presença, a sustentar a fama das suas aglomerações, enquanto pereciam aos montes da saraivada de partos a que, por razões diversas, tinham de se submeter. Segundo uma crença antiga, era pelo parto que a mulher se redimia do pecado de Eva e aumentava seu status social, tornando-se senhora de homens: os seus filhos.

Outra notícia, dessa vez constante de uma biografia publicada no jornal O Paiz, de 4 de fevereiro de 1897, corrobora as informações acima.

"Convém ponderar que Antônio é, na realidade, um executor sincero das teorias que prega. No quarto habitado por ele, jamais penetram mulheres, e quando tem de falar a estas… fá-lo de costas e rapidamente."

No Jornal de Notícias, de Salvador, em 4 de agosto de 1897, Lelis Piedade publicou o seguinte:

"Existem poucos homens com o... Conselheiro, que não sai mais à latada para as ladainhas das 6 horas da tarde, conservando-se quase sempre dentro de um quarto, tornando-se invisível… para as mulheres, pelo menos."

Havia uma exceção: as beatas, mulheres de certa idade, em geral viúvas, que vestiam hábito e o serviam em suas necessidades domésticas, morando em um aposento ao lado do seu, em Canudos.

No jornal A Notícia, nos dias 14 e 15 de setembro de 1897, M. Figueiredo faz um levantamento sucinto do comportamento do Conselheiro, que confirma a sua misoginia. "Pouco conversa com os seus mais íntimos e, quando fala, conserva os olhos baixos, dizendo monossilabicamente, guardando sempre certa distância do interlocutor. As mulheres raras vezes logram vê-lo, sendo mais raro ainda dirigir-lhe a palavra."

As meninas deveriam ficar sob o controle severo dos pais e da comunidade, diz Robert Levine. Isso desempenhava, no antigo universo patriarcal, uma espécie de controle de qualidade, para a hora de o pai ceder a sua filha ao filho de outro patriarca, com quem acertou casamento. Isso não quer dizer que os noivos eram vistos como “objetos” permutáveis, mas antes o quanto eles temiam a instabilidade social provocada pela irrupção de novos hábitos e das novas gerações. "Garotas adolescentes acusadas de flertar eram severamente punidas" (O sertão prometido — o massacre de Canudos, trad. Monica Dantas, Edusp, São Paulo, 1995, p. 231).

Fica mais provável a história que diz que a rixa entre Conselheiro e o juiz Leoni começou quando um conselheirista deu uma surra na amante do juiz, por seu “mau” comportamento, na feira; o que pode estar ligado a um comportamento ousado, uma roupa menor ou excesso de maquiagem.

O pouco apreço pela mulher fica evidente num episódio da guerra narrado por Euclides da Cunha: os soldados invadem uma casa e encontram um homem que duas mulheres, uma adulta e outra adolescente, agarravam, procurando contê-lo — provavelmente mãe e filha. À vista dos soldados, porém, o homem se liberta das duas com brutalidade e acerta mortalmente um soldado, sendo massacrado pelos outros. Ao morrer, o ignóbil diz: "Pelo menos levei um!"

O soldado que morrera ali, diante de seus companheiros, era provavelmente amigo destes, visto que faz parte do treinamento das tropas criar fortes laços entre os soldados, e o seu matador agora está morto. Quem sobrou para eles descontarem o que ainda resta da enorme frustração pela sua morte? 

Nos últimos dias do cerco de Canudos, uma mulher capturada pelos soldados informou que, no arraial, as mães e as crianças não estavam mais recebendo comida; esta era só para aqueles que faziam fogo (atiravam). No dia 3 de outubro, quando, após negociações, se rendeu uma grande leva de canudenses, a grande maioria era de mulheres e crianças, cuja característica mais notável eram seus corpos esqueléticos, sua extrema pobreza e a sujeira de seus trajes, confirmando o relato da prisioneira. Negava-se-lhes comida, e entregavam-nas ao inimigo! Vimos, em ensaio anterior, que a rendição das mulheres era recomendada pelo próprio Conselheiro.

E os que faziam fogo continuaram a fazê-lo após a rendição das mulheres, aumentando a raiva e a frustração dos soldados — doidos para voltar, com seus amigos, para suas famílias — e que fatalmente iriam dirigi-las contra as prisioneiras, que sofreram abusos inacreditáveis, segundo os testemunhos dos sobreviventes.

Mas se o Conselheiro era implacável com os maus hábitos das mulheres, a recíproca não era verdadeira quando se tratava dos homens. Defensor do celibato eclesiástico, ele fazia vista grossa quando o padre Sabino ia presidir os sacramentos em Canudos, uma vez que este era pai de dez filhos, e da mesma forma os tinha o padre Agripino, de Itapicuru, seu amigo. (Robert Levine, O sertão prometido — o massacre de Canudos, trad. Mônica Dantas, Edusp, São Paulo, 1995).

Além da moral severa, havia a expectativa apocalíptica com que encarava as mudanças da época e o enfraquecimento dos valores tradicionais, vistos como um sintoma de 'fim dos tempos', de onde a necessidade de se submeter a sofrimentos auto infligidos de grande severidade. ‘O mundo é mau!’ Assim pregavam os missionários da Igreja, conforme instruções vindas de Roma, e, nessa linha, judeus, maçons, protestantes e republicanos eram todos ‘filhos do demônio’ (Levine, 1995, p. 280). Conselheiro nada corrigiu a essa doutrina, portanto ele era, religiosamente falando, intolerante e antissemita.

Segundo Levine, Conselheiro, embora "clemente", levava às pessoas um Deus absoluto, rígido e exigente, uma figura remota que só redimia em troca de muitas dores corporais e humilhação — à imagem de seu pai. A sua vida expressava esse lado severo, penitencial: vivia de esmola e dava o que sobrava, não tinha residência fixa e dormia no chão.

A visão de um Conselheiro manso e bondoso deve ser matizada pela época e pelo tipo de espiritualidade que ele assimilou por meio da Missão Abreviada. Conversando com algumas mulheres que haviam morado em Canudos, o jornalista baiano Lelis Piedade, do Jornal de Notícias, de 6 de setembro de 1897, no livro de Walnice Galvão, colheu o seguinte relato: "perguntei como o Conselheiro… conseguiu levar gente para si… Me responderam que o Conselheiro seduzia maridos e amantes, dizendo-lhes que, quem não os acompanhasse, os gafanhotos e uns pentes de ferro manejados por um cão preto lhes arrancariam as peles da cabeça aos pés."

Exagero à parte, isso se amolda à informação dada em outro parágrafo de que a maior iniciativa de ir morar em Canudos partia dos homens, de mentalidade mais aventureira e romântica, do que das mulheres, mais práticas e objetivas. Afinal, eram elas que cuidavam das crianças e costumavam pensar nelas antes de se atirar em uma aventura, e que o Conselheiro também recorria ao medo e à manipulação psicológica para alcançar o coração dos seus seguidores. 

No contexto do sertão e do catolicismo popular daquela época, alimentados pela teologia penitencial e apocalíptica, além de memórias da escravidão, as ameaças e os terrores eram praticamente inevitáveis. O resto é idealização ou fantasia que, por mais generosa que seja, não muda o caráter das duras relações de dominação, hierarquia e medo nas comunidades que o Conselheiro fundou, e em todas as outras.

A imagem dele, pintada pelo jornal O Rabudo, de 22 de novembro de 1874, com um camisolão azul todo sujo, com uma vasta cabeleira desgrenhada, sebosa, com uma espantosa multidão de bichos (piolhos), à qual acrescento: com fortíssimo odor de suor antigo, além do cheiro nauseabundo de outras secreções, é a que mais se aproxima da realidade, por ser assim que qualquer um fica quando se submete às condições em que ele vivia. Isso não é xingamento, é a natureza.

Para complicar, havia ainda as injunções políticas e econômicas interferindo nessa compreensão de mundo realizada em condições tão difíceis. Alguns padres aceitavam que ele pregasse, outros o proibiam. Os padres que o proibiam arranjavam uma encrenca com os comerciantes, que desejavam a sua presença, porque ela aumentava as vendas. Em Itapicuru, principal domínio de Jeremoabo, que era do Partido Conservador, o vigário, Padre Agripino da Silva Borges, senador estadual, ex-Partido Liberal, vivia convidando o Conselheiro para pregar, irritando o delegado, que era aliado do barão.

O padre Agripino era um amigo sincero, ou só o usava para espicaçar o barão?

Uma coisa tornava Canudos muito atraente aos comerciantes, e lhe rendeu apoio dessa classe, além do desejo de muitos em se mudar para lá: em Canudos, não se cobravam impostos.

Outra coisa que ajudou a criar fortes laços com a população foi o fato de ele aceitar ser padrinho de batismo de todas as crianças cujos pais o solicitavam, dando-lhes o prestígio da sua proximidade e intercessão religiosa. O batismo, nos sertões dos 1800, gerava entre pais e padrinhos uma relação recíproca de fidelidade e aliança que ia até a morte, como se ambos tivessem se tornado parentes de sangue. Nunca faltou gente para ajudar Canudos contra o Exército, apesar dos riscos.

Eduardo Simões

 

NOSSAS CRIANÇAS NOS SALVARÃO DE NÓS MESMOS?

Eduardo Simões

Minha filha e seu esposo estiveram recentemente nos EUA e voltaram impressionados, e muito bem impressionados, com uma coisa. Nas proximidades de todo restaurante ou balcão de venda de bebida, havia cartazes bem visíveis dizendo: ‘a partir daqui, criança (menor de tal idade) não pode passar’. Justo quando se dirigiam a uma agradável varanda externa de um restaurante, com sua filhinha pequena. Mudaram de programa.

Ninguém é louco de descumprir uma lei dessas... nos Estados Unidos, pois alguém certamente ligará para a polícia e o dono do bar, se não puder enxotar o infrator, não o servirá, para não se tornar cúmplice. Lá, a polícia, mesmo com suas falhas, é uma instituição respeitada e o povo ‘chama polícia’, enquanto aqui, um afamado compositor, muito querido pelo nosso Judiciário, aconselha há mais de 50 anos: ‘chame ladrão, chame ladrão, chame ladrão!’

Enquanto isso acontece nos EUA eu penso no quanto de vezes que eu já vi crianças entrando em bares e restaurantes para comprar bebida para seu pai ou algum adulto, que não quis se dar ao trabalho de não corromper seu filho. Menor bêbado? Já vi até em festa de escola ou de Igreja. Mas penso também em 2017, quando um 'artista' fez uma apresentação completamente nu, em um renomado museu, e vários pais levaram seus filhos e os incentivaram a interagir com o 'pelado'.

O deputado Kim Kataguiri protestou contra esse ato desarrazoado e deseducativo e uma violência contra a natureza das crianças; e, por causa disso, sofreu uma campanha de críticas encarniçadas por parte de alguns jornalistas e renomados artistas, falando em favor da liberdade de expressão, do enaltecimento da arte, etc. Embora fique difícil para alguém normal discernir o porquê de alguém, por autoproclamar-se artista, poder fazer coisas que outros, pela lei, não podem, ou ainda porque a nudez é proibida num espaço público e em outro, igualmente público, é autorizada. No embalo desse esculacho, o TJ-Rio autorizou que crianças, acompanhadas pelos pais, frequentassem uma exposição de pornografia em um museu da cidade. Uma professora chegou a levar sua turma de alunos.

Se perguntar não ofende, eu pergunto: quem dá um tiro de verdade em alguém dentro de um museu ou num palco de teatro, é um artista ou um criminoso? Se ele alegar que é um 'artista', isso servirá como atenuante? A gente começa a duvidar.

Se os nossos pais cuidam adequadamente de seus filhos, por que temos tantos menores cometendo crimes, e crimes dos mais graves, inclusive na recente profusão de estupros coletivos perpetrados por menores? Se não cuidam, por que o estado deixa que esses pais levem suas crianças a lugares inadequados ao seu nível de entendimento e maturidade emocional? Será que, para a justiça, as crianças não passam de objetos nas mãos de seus pais, e para compensar isso, faz os professores prestarem contas minuciosas aos alunos, e não aos seus responsáveis, como se as crianças fossem cidadãos de 'primeira classe',  e os professores meras babás diplomadas?

A contraparte também aparece: velhotes sexagenários ou mais, casados e com filhos, aparecem de repente nas primeiras páginas da imprensa e dos sites informativos, envolvidos em infames episódios de exploração sexual de adolescentes e crianças. E assim fecha-se o ciclo, a começar pela infância, de um 'espetáculo pornográfico' a outro, com o aval do nosso Judiciário, criaremos uma geração de velhos pedófilos.

Enquanto isso, a grande massa da população ainda pensante do país, cada vez menos numerosa, preocupa-se com a nossa estagnação econômica e a nossa incapacidade de sair da armadilha da renda média. Ora, para sair dessa armadilha, o único caminho conhecido é o que nós sempre nos recusamos a tomar: cuidar do ser humano, desde a infância, para o bem de seus familiares e amigos, de sua comunidade e do estado. Os americanos sempre fizeram isso e continuam fazendo, enquanto nós persistimos na senda errada que tomamos, sustentados pelas justificativas mais vazias e sem sentido, usando inclusive da proeminência da arte para corromper nossas crianças.

Querer que a criança se torne um adulto produtivo com um alto nível de eficiência profissional e social, interagindo cooperativamente com o seu meio, começa por garantir que as crianças tenham oportunidade a uma infância saudável, sem violência, sem pornografia, sem abandono e sem superproteção, mas cuidada por todos, pois antes de qualquer pessoa se tornar um produtor, ela precisa acreditar que é um ser humano, e que merece respeito e proteção compatíveis com a sua idade, o seu discernimento e a sua estrutura emocional. 



sexta-feira, 31 de julho de 2026


FEITIÇO VIROU CONTRA FEITICEIRO 

Eduardo Simões

Quando, em 1979, o inimigo incondicional, obcecado, alucinado, do Brasil, por acaso nascido em São Paulo, escreveu um dos livros mais pérfidos e cheios de mentira da nossa história: Guerra do Paraguai, um genocídio americano, os esquerdistas, muitos futuros militantes do PT, foram os que mais vibraram e tudo fizeram para espalhar as inacreditáveis mentiras que constam desse manual de ódio contra o Brasil e os brasileiros — lembro aqui que o senador petista Randolfe Rodrigues, suposto professor de história, agitou esse arremedo no púlpito do congresso quando de uma discussão sobre o aumento do preço da energia de Itaipu, em 2010 ou 11. Eu vi, eu ouvi.

O objetivo do livro, além de fomentar o ódio entre as duas nacionalidades, visava especialmente atingir o estrato militar, que naquele momento governava o país como uma ditadura, exatamente como acontecia com o Paraguai no tempo da guerra. Mas a ditadura de Solano López podia, era popular, heroica, progressista, enquanto a nossa devia ser combatida a todo custo, inclusive pela falsificação da história.

Infelizmente, o complexo de inferioridade e a ignorância dos brasileiros sobre a sua história entraram em campo, e esse lixo foi consumido como água, acreditando piamente que aquilo era sério. O autor até criou uma versão semirromanceada para a escola básica, para os brasileiros se acostumarem a ter vergonha de si mesmos e da sua história desde pequenos.  Pela primeira vez, a Guerra do Paraguai foi tratada como um genocídio dos brasileiros contra os paraguaios, por iniciativa de um ‘brasileiro’. Sob os auspícios das editoras brasileiras Brasiliense, fundada por notórios esquerdistas, entre eles o comunista Caio Prado Junior, elogiada pela Fundação Perseu Abramo do PT (https://fpabramo.org.br/o-papel-de-uma-casa-editora/) e a Ática, que lançou a versão escolar.

Deu certo! Hoje os paraguaios usam essa história e o termo ‘genocida’ contra nós, embora 'algo' tenha saído do roteiro: a primeira grande crise causada pela visão distorcida e falsa propalada por esse livro infame, mas tão engrandecido pela esquerda, foi justamente num governo de esquerda e no meio de uma disputa eleitoral. Isso não podia ser mais sintomático.

As palavras de Lula ditas no dia 30 de julho, dizendo que o Paraguai invadiu o Brasil, podem ser encaradas de duas formas:

1º — Científica e historicamente: ele está completamente certo!

2º — Politicamente: foi uma tremenda mancada, um tiro no pé. Esperemos que isso não se volte contra os brasileiros que moram lá e não cause demonstrações, lá, de xenofobia, pois, nesse assunto, eles parecem mais cegos do que nós, embora em seu próprio favor, neste ponto, o contrário de nós. Lula estava correto, mas não foi conveniente.

Para arrematar este assunto, por enquanto, deixo uma lembrança de dois esquerdistas encarnados, da década em que esse livro infeliz foi escrito, vestidos para sair e fazer sucesso.

 


Os grandes sucessos dessa dupla têm muito a ver com o universo da esquerda brasileira: Cama redonda: boa para quem vive desnorteado e não sabe por qual lado vai entrar para a história, e Marido só no documento: pois o socialismo só dá certo no papel.

 


 


MARCELO LINS E A REDE GLOBO ESTÃO EM PÂNICO.

Eduardo Simões

O programa de análise política EM PAUTA está se tornando um dos mais engraçados da TV, para não falar das excelentes aulas de péssimas maneiras que seus apresentadores dão, ignorando solenemente urgentes pedidos de palavra dos analistas de plantão. Penso que o salário deles é maior que a minha aposentadoria como professor de Ensino Fundamental.

No último programa, o jornalista Marcelo Pimentel Lins, vulgo 'professor', ficou tão desconfortável e em pânico, que até mudou sua expressão facial (foto acima) porque o Ministro de Minas e Energia atual utilizou-se, compreensivelmente, da 'força' de expressão, 'um caminhão cheio de japoneses', significando que no seu ministério todos seriam tratados iguais. Lins acusou, muito sentido e indignado, o ministro de ser 'preconceituoso', enquanto os outros presentes faziam cara de 'será que o Japão vai nos declarar guerra por isso?'

Se os japoneses são inteligentes? O são de sobra. E se o governo deles se der ao trabalho de responder a esse 'track', a resposta provavelmente será: 'estamos muito ocupados projetando poder e prosperidade no mundo inteiro. Não temos tempo para essa baboseira!' Agora, se responderem algo mais sério, com certeza Trump está envolvido.

Quanto ao ministro, custa-me crer que um homem que alcançou esse patamar de projeção pública, se expresse em termos tão inócuos e infantis. Esse é o tipo de observação que as crianças do primário, do meu tempo, normalmente sem noção, faziam, sem nenhum japonês por perto, quando queriam se divertir com algo que não desse muito trabalho mental, porque se desse ninguém jamais se divertiria. O problema que vejo é muito mais no sentido que essa expressão revela o nível intelectual dos ministros do atual governo.

Por falar em primário, que país é esse onde tudo ofende e pode dar causa a ações no judiciário, como se a sociedade estivesse funcionando muito bem, obrigado, sem pobreza, criminalidade e jornalistas sempre à beira de um ataque de nervos? Daqui a pouco, até flatos vão dar processo na justiça e cadeia, e se for no elevador, vai cair na acusação de tentativa de genocídio. 

Saudades do tempo em que todos íamos ao cinema assistir ao Professor Aloprado, com Jerry Lewis, e nenhum professor chegava no dia seguinte querendo fazer prova de surpresa. Aliás, professor é o único ser humano nesse país, atrás até dos bichos de estimação, que todo mundo pode zoar à vontade. 

Não que alguns não deem motivo.






quarta-feira, 29 de julho de 2026

 

SQUATTER: A OPERAÇÃO MAIS MALUCA DA 2ª GUERRA MUNDIAL

Eduardo Simões

David Stirling, nascido em 1915, era descendente de uma série de nobres militares escoceses por parte de pai e do rei Carlos II, por parte de mãe. Um nobre endinheirado, com uma fortuna suficiente para sustentá-lo após sua expulsão do Trinity College de Cambridge, uma das faculdades mais elitistas do Reino Unido, após 28 graves incidentes disciplinares — nunca terminou a universidade — e sustentá-lo em sua busca pessoal. Seja como artista em Paris e cowboy no sertão dos Estados Unidos, procurando descobrir sua vocação.

Quando estourou a 2ª Guerra, ele, que já tinha um curso na Guarda Escocesa, voltou para ela, até que, em meio às suas loucas aventuras e violações do regulamento, resolveu inventar uma unidade militar de operações especiais, para fazer ataques na retaguarda das tropas inimigas. Para obter autorização e recursos do alto-comando, ele, mentindo e fingindo-se mais ferido do que estava, entrou no quartel-general, e para não ser apanhado, após ser reconhecido, invadiu o gabinete do general Ritchie, para quem falou do seu projeto. Ritchie gostou e transmitiu a Sir Claude Auchinleck, o comandante geral das tropas britânicas no Norte da África. Auchinleck aprovou, mas adiantou: nada de recursos até mostrar algum retorno.

Stirling, que não era ‘comum’, juntou-se a outro... O oficial de ligação da aeronáutica, e um dos mais qualificados e condecorados agentes coletores de informação do exército britânico, Dudley Clark, de família humilde, mas aventureira, que alcançou a patente de brigadeiro, apesar de seus disfarces nada convencionais (abaixo) — mas, dizem, fora isso Clark tinha fama de andar sempre acompanhado de belas mulheres, e talvez por isso, ou nem tanto, além de não gostar de crianças, sem falar que, para um homem nascido no século XIX, seria difícil explicar esses disfarces para os filhos, ele nunca se casou. Foi coerente.



Da junção dos dois doidos, nasceu, em 1941, no Norte da África, o SAS (Special Air Service), uma unidade irregular de combate, que deveria saltar de paraquedas para fazer ações de sabotagem na retaguarda dos inimigos. Foram admitidos na unidade vários dos piores soldados de outras unidades do front — como o irlandês beberrão Paddy Maine, recém-saído da prisão por ter nocauteado o seu superior; nada especial para quem já nocauteou um cavalo com um soco, e que fará uma brilhante carreira no SAS. O treinamento era maluco; como não havia recursos para criar todo o aparato de treino, inclusive a torre de salto, os voluntários eram jogados de caminhões em alta velocidade, simulando a aterrissagem com paraquedas. Stirling mesmo os empurrava. Algumas costelas e braços tiveram que ser reparados. Falhas no equipamento de salto (o cabo estático) abreviaram a vida de dois voluntários, mas no dia seguinte os oficiais foram os primeiros a saltar para provar que o equipamento havia sido consertado.

Quando começou a operação Crusader, do exército inglês, em 1941, Stirling achou que era hora do SAS fazer a sua aparição, por meio de uma operação contra os campos de pouso alemães na retaguarda, na OPERAÇÃO SQUATTER (invasor). Na noite de 16 para 17 de novembro de 1941, a totalidade do SAS, entre 60 e 50 homens, saiu para a missão sem se importar com o tempo — sua missão era atacar aeroportos e comboios ítalo-germânicos na retaguarda. Boa parte de seu equipamento era improvisado ou roubado de outras unidades do exército inglês. Chegados ao solo, fariam a pé seu deslocamento para os alvos. Quando estavam sobrevoando a área de salto, perceberam estar em cima de uma tempestade de areia. Stirling não hesitou: saltou com todos os seus homens — algo como um grupo saltar de paraquedas no meio de uma tempestade de ventos. As chances de morrer ou se quebrar feio no salto são de quase 100%.

Dos quase 60 que saltaram, só uns 21 ou 22 sobreviveram, após andarem umas 36 horas pelo deserto do Saara, até chegar ao ponto de encontro, entre eles o próprio Stirling. Era impossível continuar a operação. Eles então voltaram e ainda posaram para uma foto onde aparecem os sobreviventes, inclusive o fotógrafo, do qual só aparece a sombra. Stirling, com seu metro e noventa e oito, se destaca. Depois dessa, melhor treinados, os SAS se tornaram uma tropa lendária, capaz das missões impossíveis de verdade, modelo de todas as outras que lhe seguiram. E, com isso, o jovem louco, que não sabia o que fazer da vida, escreveu um nome gigante na história militar, até morrer, em 1990, com um título de nobreza conquistado ao enfrentar, e ensinar outros homens a enfrentar, missões que a quase totalidade das pessoas comuns classificaria como impossíveis. 

O lema da unidade era: “Quem ousa, vence”, e o principal general inglês na guerra, Bernard Montgomery, exprimiu com exatidão quem era Stirling: “o rapaz Stirling é louco, completamente, completamente louco. No entanto, numa guerra, há lugar para os loucos.”

Vejam o que diz o texto da Wikipedia em português sobre o SAS de Stirling, onde se percebe a importância dessa iniciativa de Stirling na criação de unidades similares do mundo inteiro, redefinindo a forma de as forças de segurança e militares lidarem com situações extremas.

“É considerada a primeira “SOF - Special Operation Force” e criadora das operações tipo “Destrua e Fuja”. Dentre diversas forças especiais, a SAS é uma das mais respeitadas do mundo, pelo fato de ser uma unanimidade, assim mantendo uma influência tão grande no Ocidente como na Spetsnaz GRU da Rússia e no Oriente.

Muitos grupos de operações especiais do mundo foram inspirados no SAS Britânico, como: a Força Delta americana, Sayeret Matkal de Israel, GSG 9 [da polícia alemã], Special Air Service Regiment [da Australia], KSK [do exército alemão], GIGN [da polícia francesa], GOE [da polícia portuguesa], o GROM da Polônia, SFF-SG da Índia.”


A foto parece dizer: “já que a guerra é inevitável e não fomos nós que a fizemos, e sim os políticos, por que não vivê-la como uma aventura?” Stirling conversa com uma equipe do SAS recém-retornada de uma missão de 3 meses, no dia 18 de janeiro de 1943. Ele conversa com o tenente Edward McDonald, do destacamento L.

Grupo francês do SAS na Tunísia, em 1943, mostrando que até na guerra os franceses fazem questão de parecer mais elegantes que os ingleses. Ambos os grupos igualmente mortais.


 


O POLÍTICO QUE EXERCE A POLÍTICA COMO SE FOSSE CIÊNCIA É UM TONTO, E O CIENTISTA QUE PRATICA A CIÊNCIA COMO SE FOSSE POLÍTICA É UM IGNORANTE MAL-INTENCIONADO.

terça-feira, 28 de julho de 2026

 



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PESQUISAS GENÉTICAS NAS POPULAÇÕES AMERICANAS

[Artigo traduzido do site do Florida Museum].

O DNA antigo reconta a história dos primeiros habitantes do Caribe.

Por Natalie van Hoose • 23 de dezembro de 2020
  
A história dos habitantes originais das ilhas do Caribe ganha maior nitidez em um novo estudo publicado na revista Nature , que combina décadas de trabalho arqueológico com avanços na tecnologia genética.
Uma equipe internacional liderada por David Reich, da Escola de Medicina de Harvard, analisou os genomas de 263 indivíduos no maior estudo de DNA humano antigo nas Américas até o momento. A análise genética traça duas grandes ondas migratórias no Caribe, realizadas por dois grupos distintos, com milhares de anos de diferença, revelando um arquipélago povoado por povos altamente nômades, com parentes distantes frequentemente vivendo em ilhas diferentes.

O laboratório de Reich também desenvolveu uma nova técnica genética para estimar o tamanho da população no passado, mostrando que o número de pessoas que viviam no Caribe quando os europeus chegaram era muito menor do que se pensava anteriormente — provavelmente dezenas de milhares, em vez do milhão ou mais relatado por Colombo e seus sucessores.
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Os arqueólogos frequentemente se baseiam em vestígios da vida doméstica — cerâmica, ferramentas, ossos e conchas descartadas — para reconstruir o passado. Agora, avanços tecnológicos no estudo do DNA antigo estão lançando nova luz sobre a movimentação de animais e humanos, particularmente no Caribe, onde cada ilha pode ser um microcosmo de vida único.

Embora o calor e a umidade dos trópicos possam decompor rapidamente a matéria orgânica, o corpo humano contém um verdadeiro cofre de material genético: uma pequena parte do osso que protege o ouvido interno, excepcionalmente densa. Utilizando principalmente essa estrutura, pesquisadores extraíram e analisaram o DNA de 174 pessoas que viveram no Caribe e na Venezuela entre 400 e 3.100 anos atrás, combinando os dados com o DNA de 89 indivíduos previamente sequenciados.
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Duas ondas populacionais, separadas por milhares de anos.



Essas lâminas representam a tecnologia do início da Idade Arcaica e eram usadas para cortar, cavar, fabricar ferramentas como lanças e pontas, e preparar arbustos para construções. Foto do Museu da Flórida por William Keegan

As evidências genéticas oferecem novas perspectivas sobre o povoamento do Caribe. Os primeiros habitantes das ilhas, um grupo de usuários de ferramentas de pedra, chegaram a Cuba de barco há cerca de 6.000 anos, expandindo-se gradualmente para o leste, para outras ilhas, durante o período Arcaico da região. Sua origem permanece incerta — embora sejam mais aparentados com os povos da América Central e do Sul do que com os da América do Norte, sua genética não corresponde à de nenhum grupo indígena específico. No entanto, artefatos semelhantes encontrados em Belize e Cuba podem sugerir uma origem centro-americana, afirmou Keegan.

Há cerca de 2.500 a 3.000 anos, agricultores e ceramistas aparentados aos povos de língua arawak do nordeste da América do Sul [muito presentes no Brasil] estabeleceram uma segunda rota para o Caribe. Utilizando os braços do rio Orinoco como rodovias, eles viajaram do interior até a costa da Venezuela e seguiram para o norte, em direção ao Mar do Caribe, estabelecendo-se em Porto Rico e, eventualmente, migrando para o oeste. Sua chegada marcou o início da Era da Cerâmica na região, caracterizada pela agricultura e pela produção e uso generalizados de cerâmica.

Com o tempo, quase todos os vestígios genéticos dos povos da Era Arcaica desapareceram, com exceção de uma comunidade isolada no oeste de Cuba que persistiu até a chegada dos europeus [os cálculos apontam para o desaparecimento de até 98% dos portadores desses genes]. Casamentos entre os dois grupos eram raros, com apenas três indivíduos no estudo apresentando ancestralidade mista.
Muitos cubanos, dominicanos e porto-riquenhos da atualidade são descendentes de povos da Idade da Cerâmica, bem como de imigrantes europeus e africanos escravizados. No entanto, pesquisadores observaram apenas evidências marginais de ancestralidade da Idade Arcaica em indivíduos modernos.
“Isso é um grande mistério”, disse Keegan. “Para Cuba, é especialmente curioso que não vejamos mais ancestralidade arcaica.”

Mudanças nos estilos de cerâmica não estão relacionadas a novas migrações.


Esses vasos em forma de efígie são exemplos de cerâmica saladóide [um tipo específico de cultura ceramista, em Saladero, nas margens do rio Orinoco, na Venezuela], caracterizada por pintura branca sobre fundo vermelho e formas ornamentadas. Foto cedida por Corinne Hofman.

Durante a Era Cerâmica, a cerâmica caribenha passou por pelo menos cinco mudanças marcantes de estilo ao longo de 2.000 anos. A cerâmica vermelha ornamentada, decorada com desenhos pintados de branco, deu lugar a vasos simples, de cor bege, enquanto outros vasos eram pontuados com pequenos pontos e incisões ou apresentavam rostos de animais esculpidos que provavelmente também serviam como alças.

Alguns arqueólogos apontaram essas transições como evidência de novas migrações para as ilhas. Mas o DNA conta uma história diferente, sugerindo que todos os estilos foram desenvolvidos por descendentes das pessoas que chegaram ao Caribe há 2.500 a 3.000 anos, embora possam ter interagido e se inspirado em povos de fora.

“Essa era uma pergunta que talvez não tivéssemos pensado em fazer se não tivéssemos um especialista em arqueologia em nossa equipe”, disse a coautora principal Kendra Sirak, pesquisadora de pós-doutorado no Laboratório Reich. “Documentamos essa notável continuidade genética ao longo das mudanças no estilo da cerâmica. Falamos sobre 'vasos versus pessoas', e, até onde sabemos, são apenas vasos.”

Estudos genéticos revelam conexões familiares entre ilhas

Destacando a interconectividade da região, um estudo de cromossomos X masculinos revelou 19 pares de “primos genéticos” vivendo em ilhas diferentes — pessoas que compartilham a mesma quantidade de DNA como primos biológicos, mas que podem estar separadas por gerações. No exemplo mais impressionante, um homem foi enterrado nas Bahamas enquanto seu parente foi sepultado a cerca de 965 quilômetros de distância, na República Dominicana.
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Descobrir uma proporção tão alta de primos genéticos em uma amostra de menos de 100 homens é mais um indicador de que o tamanho total da população da região era pequeno, disse Reich, professor de genética no Instituto Blavatnik da HMS e professor de biologia evolutiva humana em Harvard.
Quando você analisa amostras de dois indivíduos modernos, raramente descobre que eles são parentes próximos”, disse ele. “Aqui, estamos encontrando parentes em todos os lugares.”
Revisão das estimativas do tamanho da população caribenha

Uma técnica desenvolvida pelo coautor do estudo, Harald Ringbauer, pós-doutorando no Laboratório Reich, usou segmentos compartilhados de DNA para estimar o tamanho da população no passado, um método que também poderia ser aplicado a futuros estudos de povos antigos. A técnica de Ringbauer mostrou que cerca de 10.000 a 50.000 pessoas viviam em duas das maiores ilhas do Caribe, Hispaniola e Porto Rico, pouco antes da chegada dos europeus [em todo o Caribe talvez fossem uns 80 mil]. Isso está muito aquém do milhão de habitantes que Colombo descreveu a seus patronos, provavelmente para impressioná-los, disse Keegan.

Mais tarde, o historiador do século XVI, Bartolomé de las Casas, afirmou que a região abrigava 3 milhões de pessoas antes de ser dizimada pela escravidão europeia e por doenças. Embora isso também fosse um exagero, o número de pessoas que morreram em decorrência da colonização continua sendo uma atrocidade, disse Reich.

Neste momento, não me importo se estou certo ou errado”, disse ele. “É simplesmente empolgante ter uma base mais sólida para reavaliar como encaramos o passado no Caribe. Um dos resultados mais significativos deste estudo é que ele demonstra a importância da cultura para a compreensão das sociedades humanas. Os genes podem ser unidades discretas e mensuráveis, mas o genoma humano é construído culturalmente.”

Daniel Fernandes , da Universidade de Viena e da Universidade de Coimbra, em Portugal, também foi co-primeiro autor do estudo. Outros co-autores seniores são Alfredo Coppa, da Universidade Sapienza de Roma, Mark Lipson, da Harvard Medical School e Harvard, e Ron Pinhasi, da Universidade de Viena.
Este trabalho foi financiado pela National Geographic Society, National Science Foundation, National Institutes of Health/National Institute of General Medical Sciences, Paul Allen Foundation, John Templeton Foundation e Howard Hughes Medical Institute.

O original em inglês
https://www.floridamuseum.ufl.edu/science/ancient-dna-retells-story-of-caribbeans-first-people/


segunda-feira, 27 de julho de 2026


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA - 33

BAHIA (O DESERTO DAS ALMAS)

 

O destino do Brasil

No inferno dos homens sem alma e das almas sem honra, quando Deus se foi e a luz se apagou na terra do sol, nós nos tornamos íntimos das trevas.

O Barão de Cotegipe, nobre e político baiano, disse certa vez: “Se a República esperar o romper do dia e sair à rua ao cair da noite, depois de tatear algum tempo nas trevas, dará com tudo isso no Vaza-Barris.” (Antônio Coelho Rodrigues, A República na América do Sul ou um pouco de história e crítica oferecido aos latino-americanos, Senado Federal, Brasília, 2016, p. 36).

Há duas versões possíveis para o nome 'Vaza-Barris', dado ao rio que nasce no sopé da serra dos Macacos, próximo a Uauá, em cujas margens nasceu Canudos. Uma diz que, como a navegação do rio é difícil e acidentada, os barris de água nos navios tendiam a se chocar e afrouxar suas tábuas, vazando o seu conteúdo. A segunda remete ao fato de que os navios dos séculos XVI e XVII tinham barris nos quais os marujos faziam suas necessidades ou aliviavam o enjoo, e que, volta e meia, precisavam ser limpos. É possível que estivessem a fazer isso na foz do rio, justo quando alguém pensou em lhe dar um nome.

 

O santo do Ceará

Todo cearense, quando não peca, é um santo, embora às vezes seja difícil discernir, neles e em todos os outros, os limites entre a santidade e a loucura. Esse estado também tem uma quantidade apreciável de gaiatos e gênios matemáticos que, em virtude da antiga precariedade das condições locais, davam a impressão de brotar por geração espontânea, aleatoriamente, como se Deus estivesse se divertindo em burlar a lógica. Escapei desse destino — não sou santo nem matemático —, mas o nosso personagem não, já que foi um pretenso santo, filho de um pretenso gênio da matemática, embora nenhum dos dois jamais desenvolveu uma verve humorística (1). Às vezes dá tudo numa pessoa só, sem nunca a gente saber onde começa e acaba o gênio, o santo, o gaiato, o doido ou somente um pobre coitado.

O nosso santo chamou-se, no batismo, Antônio Vicente Mendes Maciel, nascido em Quixeramobim, também conhecida como Vila Nova de Campo Maior, no dia 13 de março de 1830, filho de Maria Joaquina de Jesus e de Vicente Mendes Maciel, um homem com uma história que, de certa forma, prenunciava a do filho. Sua madrinha de batismo foi uma rica fazendeira, Maria Francisca de Paula, a mãe da famosa Marica Lessa (2), mostrando que seu pai tinha prestígio na sociedade local.

O pai era membro da família Maciel, um clã remediado, numeroso e aguerrido. Um Maciel não levava desaforo para casa nem morria na cama, e, nesse tempo, eles fizeram guerra a outra família, igualmente numerosa, porém mais rica, os Araújos, supostamente por causa de uma fofoca ociosa de mesa de botequim. O mesmo lugar onde o atual presidente quer resolver os problemas do país e do mundo.

Vicente Maciel era um filho natural do patriarca Miguel Carlos Maciel e, por isso, não estava obrigado a participar das guerras da família; e, de fato, ele preferiu ir morar em Quixeramobim, à sombra de um potentado da família dos Veras que, embora aliados aos Araújos, não tinham mágoas dos Maciel, e aí Vicente constituiu uma família com Maria Joaquina de Jesus, tornando-se um comerciante razoavelmente bem-sucedido.

Enquanto isso, a guerra dos Maciel contra os Araújo escalava, vitimando o pai e o tio de Vicente, Miguel Carlos e Antônio, além do seu famoso meio-irmão, Miguel Carlos Filho. Este homem morreu enganchado com Manuel Araújo, cada um com a sua faca cravada no outro, segundo uma história semilendária que corria o sertão. Quem ousaria desmenti-la?

Euclides da Cunha disse em Os Sertões: O nordestino é, antes de tudo, um forte, e isso é verdade, mas não porque o nordestino tenha em si uma força especial, uma herança genética; é que a dureza das condições de sobrevivência, no final do século XIX, era tamanha que só os fortes sobreviviam, ao contrário das comunidades tecnologicamente mais adiantadas, cuja força está justamente em propiciar condições para os mais fracos sobreviverem, prosperarem e terem descendência. No sertão antigo, o que valia era a lei natural, a lei do mais forte, que nem sempre era a dos mais ricos ou dos donos dos meios de produção.

Mas mesmo aqueles que sobreviviam pagavam um preço alto ao precário equilíbrio entre o ambiente natural e psicossocial que os rodeava, sem falar de outra característica comum em comunidades muito isoladas: a endogamia, o casamento entre parentes próximos, que tende a potencializar genes recessivos prejudiciais, gerando disfunções físicas e mentais. 

O jornalista João Brígido dos Santos, que conheceu Vicente Mendes Maciel, o pai de Conselheiro, diz isso dele:

“Um bonito homem… vigoroso, inteligente, mas retraído, taciturno, mau e perigosamente desconfiado, bem que muito cortês e obsequioso, e honrado. Tinha momentos terríveis de cólera, se tocava no álcool. Em um desses momentos, deu tantas facadas na mulher que a deixou sacramentada” (citado por Fernando Câmara, Antônio Conselheiro e o Centenário de Canudos, palestra proferida nas Associações das Federações Comunitárias de Quixeramobim, em 22 de outubro de 1993).

Vicente tinha surtos de loucura, mas não podemos dizer se foi por causa disso que Antônio, aos 4 anos, e suas duas irmãs ficaram órfãos de mãe por dois anos, até Vicente se casar de novo com uma mulher que não simpatizava com o menino. Idoso, ele ainda recordava os maus-tratos. Antônio Conselheiro foi uma criança abusada.

Vicente conseguiu amealhar um certo patrimônio, dando boas condições materiais para a família, mas, com o tempo, as suas crises de demência ficaram mais frequentes, fazendo-o tomar decisões extravagantes — segundo Benício, ele tinha mania de reformar as casas que tinha — que dilapidavam o patrimônio da família, exasperando a madrasta, que descontava em Antônio. Vicente falece em 1855.

 

Antônio era um bom rapaz, calmo, estudioso, com um fino verniz de cultura geral, gentil, introvertido e muito religioso. Havia um vazio emocional imenso — causado por um pai mentalmente instável e uma madrasta repressora — que ele preenchia com uma literatura rasa, escapista, de aventuras de cavalaria, livros devocionais e biografias de santos, repletas de milagres e acontecimentos maravilhosos. Segundo Fernando Câmara, o povo da cidade gostava dele.

Ignorando o conselho dos mais velhos, o ingênuo e bondoso Antônio casou-se com uma prima de primeiro grau, Brasilina Laurentina de Lima, de somente 15 aninhos, em 1857. Uma adolescente de pele muito branca, olhos e cabelos negros, atraentes como Capitu, cheia de sedução e maneirismos muito precoces, aprendidos na convivência com a mãe, uma Maciel de hábitos muito livres.

Um temperamento sonhador e a dificuldade de priorizar um objetivo fizeram Antônio perder várias oportunidades e quebrar a empresa do pai, tornando-se alfabetizador de crianças pobres e depois advogado leigo. Não se deu bem em nenhuma das duas profissões — uma observação do Barão de Jeremoabo patenteia que a sua cultura geral era superficial, ainda que enorme, para os padrões da cultura média, inclusive a das elites, nos sertões (3).

O resultado do empobrecimento da família foi a fragilização dos votos matrimoniais, assumidos com uma companheira tão imatura, e que se romperam de vez quando Antônio a surpreendeu, em sua casa, em adultério com um soldado da polícia. Humilhado, ele foge para a fazenda de um amigo, e ela se muda com o amante para a cidade de Sobral, deixando um filho ou dois para ele criar.

Nesse momento, ele toma a decisão que mudará tudo. Incapaz de se curar de sua vergonha, ele afunda na autopiedade: abandona o seu filho, ou filhos, deixando-o(s) com a sogra, e se muda para Santa Quitéria, onde trabalha como professor e se une a uma artesã, Joana Imaginária, com quem tem mais um filho, Joaquim Aprígio. Porém, ele também os abandona e começa a mergulhar em crises de loucura e confusão mental de cunho religioso (4).

Por volta de 1865, ele fica sabendo, na casa de uma de suas irmãs, que a ex-esposa, abandonada pelo soldado, se tornara prostituta e que vivia da caridade pública, mas também circula que, na casa dessa irmã, ele tem um surto e fere à faca o cunhado, que tentou contê-lo. No final dos anos 60 ou início dos anos 70, ele abandona de vez a companhia de parentes e amigos e se perde pela caatinga para se tornar um novo homem, fazer a sua jornada do herói, nas condições que lhe foram dadas.

Será que em algum momento ele se perguntou se, caso não tivesse abandonado tudo e ficado para criar o(s) filho(s) do jeito que desse, ele não poderia ter dado a volta nessa história? Mas, como fez isso, e ainda abandonou os filhos que teve, não terá ficado um sentimento de culpa e pensamentos de que ele não tinha mais salvação, no estilo da Missão Abreviada?

Nesse meio tempo, ele ouve falar, e talvez participe, das missões de José Antônio de Maria Ibiapina, o padre Ibiapina, um ex-juiz e ex-professor do Barão de Cotegipe, que, abandonado pela noiva, larga tudo e vira padre. Em 1866, preocupado com os mais pobres, sai em missão pelos sertões adentro.

“Sempre de batina, a pé ou a cavalo, [Ibiapina] peregrinou por Pernambuco, Rio Grande do Norte, Piauí e Paraíba, catequizando, organizando missões, construindo capelas, igrejas, açudes, cacimbas, poços, cemitérios e hospitais, chegando a fundar mais de vinte Casas de Caridade para moças órfãs, onde elas recebiam educação religiosa e moral, aprendiam a ler, escrever e trabalhos domésticos, além de terem assistência à saúde [já Conselheiro não queria conversa com mulheres]… ensinou técnicas agrícolas aos sertanejos… e defendeu os direitos dos trabalhadores rurais” [enquanto Conselheiro só queria saber das coisas espirituais]. (Padre Mestre Ibiapina, 05/08/2021, site institucional da Universidade Federal de Pernambuco).

Num longo processo de mutação interna e externa, compatível com os valores e as expectativas pessoais e do meio social onde vivia, Antônio Vicente Mendes Maciel 'transmudara-se' de um humilde rapaz, do qual todos gostavam, mas também abusavam, em um líder carismático, poderoso e autoritário. Um campeão dos valores tradicionais, contra um mundo em transformação. Assume um nome, “Peregrino”, como se não fosse deste mundo — e não o era em muitos sentidos. Para o povo, ele é Antônio Conselheiro, de cuja boca só saem bons conselhos, além de outros nomes que mostram uma certa confusão entre a realidade de um pobre coitado e a idealização de um poderoso profeta, que dele faziam os sertanejos, e que o confundia também.

Mas, por mais que alguém mude, qualquer mudança só será possível a partir de um acordo consciente com o passado, porque é impossível enterrar a própria história. Ela faz parte do que cada um é a cada momento. O inofensivo e atrapalhado comerciante, professor e advogado quixeramobinense continuavam nele, fossem ou não compatíveis com a sua nova forma de vida.

Em primeiro lugar, ele tivera uma esposa e um filho, ou filhos, e, em que pese o fato de ela o ter traído, isso não justificava, aos olhos da doutrina católica, o abandono do filho, ou filhos, o que era considerado um pecado grave desde a mais remota Idade Média. Isso o colocava em situação de impossibilidade de comunhão.

Em segundo lugar, ele constituíra uma família fora da Igreja, com a artesã Joana, e a abandonara para se dedicar à pregação. Porém, desde os séculos XII e XIII, a Igreja ensinava que o homem casado só podia deixar a esposa para ser padre com o consentimento dela, e com o compromisso de ela guardar celibato. Além disso, se o casal tivesse filho, o homem só poderia ingressar na carreira religiosa após essa criança ter se tornado um adulto independente.

Esse homem, duas vezes em pecado grave diante da Igreja, tomou ares de guardião da fé católica tradicional e fez da Missão Abreviada o seu livro de cabeceira, com o hábito de sua leitura e até cópia diária. Esse livro, absurdamente penitencial, que atiça, como poucos, os sentimentos de culpa do leitor até em relação aos seus mais despreocupados pensamentos. Como ele conseguia suportar isso sem enlouquecer?

Se é que não enlouqueceu? 

Eduardo Simões