terça-feira, 23 de junho de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER
A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA - 27

A nau dos insensatos (II)

Enquanto no Rio corriam essas conspirações em torno do Poder Federal, em outro estado-chave, a Bahia, a intervenção de uma força inesperada vai sacudir o tênue equilíbrio que mantinha unidas as antigas oligarquias imperiais, agora travestidas de republicanas, após as habituais manobras de sobrevivência política a qualquer custo.

Com a Proclamação da República, após uma fase confusa, é eleito o primeiro governador da Bahia, José Gonçalves da Silva, do antigo Partido Conservador. Ele, porém, teve a infeliz ideia de apoiar o golpe de Deodoro, em 3 de novembro de 1891. Na virada política que alçou Floriano, ele foi obrigado a entregar o cargo em 24 de novembro, graças a um golpe acertado por florianistas baianos em contato direto com o marechal, entre eles um tal César Zama. Golpe por golpe, Gonçalves vai para casa.

Após a queda de Gonçalves, seguiu-se a presidência interina do general Tude Soares Neiva e do almirante Joaquim Leal Ferreira Junior, após os quais assumiu, regularmente, o Sr. Joaquim Manuel Rodrigues Lima, para o período de 1892–1896. Rodrigues Lima era do mesmo grupo de Luiz Viana, e durante o seu governo, houve a cisão definitiva dos republicanos baianos.

De um lado, no partido, estava a ala deodorista, liderada por José Gonçalves, e, do outro, a ala florianista, capitaneada por Luiz Viana, Rodrigues Lima, Sátiro Dias, Severino Vieira, César Zama, etc. Com a consequência previsível: Floriano, e depois Prudente, recusaram-se aos deodoristas, seja por exclusivismo ditatorial, seja por coerência política, respectivamente, enfraquecendo o grupo de Gonçalves.

Desse último grupo fazia parte um famoso político do Império, do Partido Conservador, Cícero Dantas Martins, o Barão de Jeremoabo, que, percebendo a inevitabilidade da República, foi se acomodando. Jeremoabo era um homem inteligente e culto, diferente, em alguns aspectos, da imagem tradicional dos coronéis do sertão semiárido, como homens bravios e ignorantes. Foi até o fim um defensor da escravidão, que ele resumia a uma mera questão de propriedade. Ele também sabia ser truculento, pois no semiárido daquele tempo, isso era inevitável. Até o Conselheiro percebeu isso.

A ala de Viana, agindo com método e maquiavelismo, se apropriou dos principais postos do PRF (Partido Republicano Federalista, que não tem nada a ver com os federalistas gaúchos) e, após descartar a permanência do grupo de Gonçalves e Jeremoabo, vai conectar-se a movimentos políticos no Rio de Janeiro. Os vianistas mudam o nome do partido para Republicano Federal, em 15 de abril de 1894, numa extensão do partido de mesmo nome fundado sob a batuta de Prudente de Morais e Francisco Glicério. Manuel Vitorino presidia esse partido na Bahia.

Gonçalves, Jeremoabo e os seus, isolados e sem alternativa, fundam o Partido Republicano Constitucional, em 19 de agosto de 1894, com um jornal próprio: O Republicano.

Embora os arranjos políticos tivessem um padrão acomodatício, de modo que as divergências pessoais não extrapolassem para uma luta aberta, elas aconteciam no ambiente juridicamente frouxo e indefinido da Primeira República, mas principalmente pela artificialidade do projeto republicano brasileiro, cópia de modelos estranhos à nossa realidade. Isso era agravado por momentos legalmente estabelecidos para a troca ou renovação de poder: as eleições. O principal elemento de sistemas democráticos consagrados, no nosso, era o calcanhar de Aquiles.

Em uma delas, a disputa quase descambou para um grande conflito entre gonçalvistas e vianistas, em virtude do sistema fraudulento e das 'degolas eleitorais', dessa vez utilizada contra a eleição do Barão de Jeremoabo ao Senado Estadual.

Em uma de suas cartas, transcrita por Álvaro Pinto Dantas de Carvalho Junior, em O Barão de Jeremoabo e a política do seu tempo — trajetória de um líder conservador na Bahia, Secretaria da Cultura e Turismo, Salvador, 2006, p. 248, José Gonçalves conta como evitou uma ação de Viana para constranger eleitores e candidatos eleitos pelos gonçalvistas em Vila Nova, para mudar o resultado das eleições. Tudo começou quando Gonçalves recebeu um telegrama alertando-o de que um alferes da polícia saíra de Salvador com 20 praças para Vila Nova, a fim de mudar o resultado das eleições. Gonçalves parte para lá, para preparar os moradores para a guerra.

À frente de uma multidão armada, ele vai à estação ferroviária para recepcionar os vianistas. Quando estes chegaram, com os 20 soldados da polícia de Queimadas, encontraram a estação lotada de oposicionistas armados.

"Passaram a noite [de segunda-feira] em sobressalto. Na terça-feira, dia para a bernarda [para o golpe]… não botaram a cabeça fora. Na quarta, na passagem do trem de carga… meteram-se neles… e foram corridos. Com a fuga das pestes, voltou à cidade a calma (Dantas, p. 248)."

Porém, chegou uma intimação de Salvador, ordenando que ele se retirasse da cidade, pois viria agora uma tropa de 100 homens para tomar conta da localidade. Gonçalves acirra os preparativos, manda escavar trincheiras e avisa que nem um certo presidente: “Se vier, vai ter”. O governo não arriscou.

Antônio Conselheiro e os seus tiveram ótimos professores.

O estado da Bahia era uma gigantesca bomba-relógio, só acumulando energia de detonação, para ser liberada a qualquer momento.

As eleições no Brasil, desde a Independência, sempre tiveram a marca da violência e da fraude. E, no caso da Bahia, a fraude foi tal que, em 1894, se reuniram dois congressos estaduais, um da situação vianista e outro da oposição gonçalvista, cada um num lugar diferente. Jeremoabo era o presidente do congresso da oposição. Quando o governador vianista Rodrigues Lima precisou entrar de licença, Jeremoabo pleiteou assumir o cargo, mas isso lhe foi negado pelo congresso situacionista. Jeremoabo, pensando como um coronel, apela para Prudente, esperando dele a postura de um coronel, dizendo: “Façam isso e aquilo!”

Prudente, entretanto, evitou a armadilha e preferiu seguir a lei, pesando que Viana se afastara do florianismo, respondeu a Gonçalves que a questão, conforme a lei, deveria ser resolvida pelo Legislativo estadual, que decidiu a favor do grupo de Viana. Magoado com a posição de Prudente. O grupo de Gonçalves, mostrando o mais rasteiro personalismo oportunista, anos depois se volta para o florianismo. Numa das cartas de Gonçalves a Jeremoabo, ele, que foi deposto por Floriano, e que a este se opôs ferozmente, chega a dizer que o que faltava à nação era “um homem como Floriano”.

Mais tarde, quando Severino Vieira se indispôs com Luiz Viana, o mesmo Gonçalves, que se dispusera a enfrentá-lo à bala na estação de Vila Nova, passou, todo pressuroso, para o lado dele.

As oligarquias baianas eram bem estruturadas e possuíam uma história longa e cheia de tradições pessoais e familiares. No semiárido, elas viviam em um ambiente rústico, difícil, mas perfeitamente viável, para quem se dispusesse a fazer acordos e ficar do lado do mais forte. A luta pelo poder político e pelas nesgas de terras férteis, agricultáveis ou propícias ao pasto tornava a convivência dessas famílias tumultuosa, abrindo-se para uma sequência infindável de lutas pela terra e, principalmente, pelas fontes de água. A rapidez com que se deu a transição do Império para a República só fez confundir e acirrar ainda mais o quadro. O sertão de Canudos é dominado pelos gonçalvistas.

Foi justamente nessa região que, por volta de 1874, apareceu um homem, vindo do Ceará, que fazia pregações religiosas impressionantes, atraindo uma legião de seguidores, fazendo obras de caridade, construindo e reformando igrejas e cemitérios. Sua pregação era apocalíptica, recheada de conselhos moralistas severos, no estilo do catolicismo popular. Ele se autodenominava “Peregrino”, mas no meio do povo era conhecido como Antônio Conselheiro.

Essa época coincidiu com a criação de uma estrutura de impostos municipais, que tentava adaptar a economia sertaneja, isolada e pouco produtiva, baseada no consumo local de artigos de primeira necessidade, com perfil agropecuário-artesanal, a uma aberta aos mercados maiores e mais distantes no Brasil e no mundo. Isso causaria uma maior presença da burocracia estatal para recolher e gastar os impostos advindos dessas atividades, e, já que não havia uma cultura empreendedora de mercado, como uma opção ao baixo rendimento da economia, que os impostos vinham viabilizar, por meio de investimentos públicos. Daí começa a se ampliar a incompatibilidade entre a primitiva sociedade natural pregada pelo Conselheiro e a versão coronelística da proposta econômica modernizadora das elites do Centro-Sul do país.

Em sua crise pessoal, o Conselheiro, que se adaptou de forma precária aos ritmos e tradições da sociedade imperial, se posicionou decididamente contra a República. Isso pode ser atribuído à cobrança regular de impostos e ao processo de semicapitalismo que se alastrava pelo sertão, rompendo as estruturas socioeconômicas tradicionais de sociedades de transição, herdadas dos períodos colonial, presentes na região.

 

Quanto ao caso das tabuletas de imposto quebradas pelo Conselheiro, eu prefiro seguir a descrição constante no artigo “A importância dos acervos judiciais para a pesquisa em história, um percurso”, escrito pela Dr. Prof.ª Mônica Duarte Dantas e pelo Dr. E Me. Felipe Nicoletti Ribeiro, na revista eletrônica LexCult, v. 4, n. 2, p. 47–50.

Tudo começou quando um grupo invadiu o galpão onde se realizava a feira, na Vila do Soure, em 10 de abril de 1893, instigado pelo comerciante José Honorato de Souza Neto, do grupo vianista. Soure, na comarca de Itapicuru, era área sob a influência de Jeremoabo. Esse grupo se põe a destruir as tabuletas dos impostos. Depois disso, houve ajuntamentos análogos nos dias 17 e 24 daquele mês, em uma ação orquestrada e cada vez mais violenta.

Baseado nas investigações, o Promotor denunciou 33 pessoas pela sedição, embora, mais tarde, o Juiz tenha reduzido esse número a 14, excluindo Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro, e a causa disso é:

"Ele estava ausente por ocasião dos primeiros protestos [segundo testemunhos] — chegando à vila, com seus seguidores, quando o movimento já estava em curso —, como agiu de maneira a impedir que as autoridades, entre elas o próprio Juiz de Direito, fossem atacadas pelos “sediciosos”. Quando chegaram as forças repressivas, contudo, ele e seus seguidores se juntaram aos sediciosos em fuga. Daí em diante, o grupo passaria por várias outras vilas da região, inflamando os protestos contra os novos impostos (p. 50)."

Ou seja, segundo essa versão, os conselheiristas foram pegos no meio de um fogo cruzado e empurrados para a confusão, que eles não armaram. Receando represálias — Conselheiro fora preso no Império — fugiram com os envolvidos, para em seguida sofrer um ataque precipitado de uma força policial em Masseté, que foi escorraçada até o ridículo. Aparentemente contaminados pelo incidente, começaram a atacar tabuletas em outras localidades, como no arraial do Bom Jesus e na vila do Amparo. Se é que as últimas denúncias não foram inventadas por gente interessada em manter o Peregrino sob pressão.

Levado a um tribunal sob a presidência do próprio Luís Viana, o comerciante responsável pelo conflito foi absolvido; já os conselheiristas, temerosos, internaram-se nos sertões de Canudos, ainda na primeira metade de 1893.

Posteriormente, um grupo de 80 soldados do Exército foi enviado no encalço dos devotos, mas, de repente, sem explicação, o governador Rodrigues Lima muda de ideia e chama a tropa de volta, sem explicações.

Penso que a causa disso foi que o Conselheiro iria se embrenhar no coração da área sob o domínio do Barão de Jeremoabo. Rodrigues e Viana viram nisso um grande potencial de problemas que aquele “esquisito” poderia criar ao seu desafeto político, e por isso deixaram-no em paz. Canudos/Belo Monte crescia à sombra da insanidade política e moral vigente.

Essa visão também é compartilhada pelo Almirante-de-Esquadra Mario Jorge de Fonseca Hermes.

"O governador Rodrigues Lima obteve autorização do Marechal Floriano Peixoto para enviar 80 militares do Exército em perseguição ao beato. Contudo, ele determinou o retorno da tropa para Serrinha. Cumprira orientação de Luís Viana, que, realmente, mandava no governo, e que entendera ser Antônio Conselheiro… útil aos seus desígnios políticos… naquela região encontravam-se as fazendas do Barão de Jeremoabo e de seus correligionários… formavam a 3ª Região Eleitoral… Luiz Viana imaginava que Conselheiro e seus homens criassem dificuldades aos fazendeiros locais, minando o prestígio de Jeremoabo" (Os militares e a política na República — Canudos: tentativa de uma análise conclusiva, Revista Marítima Brasileira, Serviço de Documentação Geral da Marinha, vol. 121, Nº 1/3, jan–mar, 2002, p. 123).

Ao final, não temos certeza das supostas causas econômicas do início de Canudos. Pesando as informações mais seguras, podemos afirmar com boa dose de certeza que elas não foram motivação da ação dos conselheiristas em Soure, e o que aconteceu nas outras cidades pode muito bem ser fruto de pressão política local sob a redação de jornais pouco independentes ou somente boatos.  

Canudos tornou-se um centro de atração de indivíduos e famílias ao redor, inclusive de outros estados. O Conselheiro logo teve à sua disposição uma força política e militar considerável, menos pelo poder de choque do que pela motivação, o que não impossibilitava uma convivência acordada com os coronéis locais, no esquema da tradicional troca de favores e votos. O problema era que o Conselheiro não queria fazer acordo, e nesse sentido ele se tornava um desafio direto à autoridade de Jeremoabo, nos seus redutos políticos, e, no melhor dos casos, um mau exemplo. Por enquanto, ele era pequeno demais para ser percebido, mas os políticos situacionistas logo descobririam que estavam brincando com fogo.

A situação ficou mais angustiante para Jeremoabo, à medida que a população do arraial assoma milhares de pessoas — talvez em torno de 7 mil —, pois todos ainda se lembravam dos efeitos devastadores da seca de 1877–79, chamada Grande Seca, e a de 1888–1889, a Seca dos Três Oitos. Todos sabiam que, no ano em que houvesse uma seca mais intensa, milhares de pessoas sairiam dali famintas e desesperadas, a saquear as fazendas próximas para sobreviver. Esse temor aparece claramente em Canudos: Cartas para o barão, de Consuelo Novais Sampaio. Para o grupo de Viana, Canudos isso era um presente inesperado.

Em fins de outubro de 1896, porém, foi expedido pelo juiz de direito de Juazeiro, Arlindo Leoni, um telegrama alarmista ao governador Luiz Viana, informando que homens armados de Canudos estavam ameaçando invadir e saquear a cidade, e solicitava proteção. Viana diz que não moveria a polícia por boatos. Por que mexer no que estava dando certo?

Nesse momento, Viana também estava ocupado, atacando, com a sua polícia, os domínios de outros coronéis no centro-sul da Bahia. Mas Leoni insistiu e, no dia 4 de novembro, ele mandou outro telegrama, ainda mais alarmista. Contra a vontade e para 'tirar o juiz da cola', mas sem tropa, Viana apelou para o comandante do 3º Distrito Militar de Salvador, o general Frederico Sólon de Sampaio Ribeiro, pai de Saninha, a esposa de Euclides da Cunha.

O pedido do governador chegou ao Governo Federal, cujo ministro da guerra interino, o general Dionísio Cerqueira, considerando o artigo 6º da Constituição, que ainda não fora regulamentado por lei, ordenou a Sólon que cedesse ao governador as tropas que ele precisasse para manter a ordem pública. Naquele momento, a questão resumia-se a defender a cidade de Juazeiro.

Se nós fizéssemos uma analogia, diríamos que o episódio de Canudos começou como uma pequena ferida, à qual ninguém deu importância, porque a cabeça da sociedade, a elite político-econômica, estava muito atarefada planejando golpes e descumprindo as leis que ela mesma criara. Em meio à luta furiosa pelo poder, a sociedade, nas suas porções mais pobres, embora nem sempre, distantes e abandonadas, foi sistematicamente ignorada, enquanto nelas se desenvolvia uma perigosa inflamação, do ponto de vista da cabeça, ou das elites dirigentes.

De repente, a inflamação cresceu, virou tumor, causando febre e incômodos, mas, ao invés de recorrerem a uma cura duradoura, as elites, com a cabeça só na disputa do poder, começaram a usar o tumor para criar problemas umas às outras. Nesse momento, uma terceira força, um médico maluco (Manuel Vitorino), pensando em ganhar vantagens com a crise, interviu desastradamente, transformando um problema local numa perigosa crise nacional. A sua intervenção apenas agravou o quadro.

Por fim, quando a coisa ameaçou tornar-se uma gangrena, foi inevitável partir para uma solução cirúrgica. O responsável por contratar o cirurgião (Argolo) convida um (Arthur Oscar) pior que o médico maluco que fez um estrago imensurável na sala de cirurgia, contaminando e ferindo, com a sua imperícia, médicos e auxiliares presentes que, aos poucos, contaminaram toda a sociedade, fazendo as pessoas verem em Canudos coisas que nunca estiveram lá. 

Uma nação imprevidente, que só age depois que o mal, evitável, torna o tratamento mais duro inevitável.

Eduardo Simões

segunda-feira, 22 de junho de 2026

 


O SONHO ACABOU.

Eduardo Simões

O episódio envolvendo a jovem da ponte do Esqueleto não é apenas um fato digno das folhas policiais. Muito mais do que isso: é UM FATO SÍMBOLO, um FATO SÍNTESE, desse país, de nossa sociedade e do momento que vivemos.
Tudo nesse episódio é escalafobético, estapafúrdio, estupefaciente, destrambelhado, estuporado, alucinógeno, e seja mais qual for o termo esquisito da língua portuguesa que o leitor conseguir achar, para exprimir algo que, hoje, somos quase proibidos de dizer, nesse mundo onde tudo é normal: NÃO É NORMAL!  
Jovens que buscam sentir-se vivos, pondo suas vidas em perigo, nas mãos do primeiro canalha ou cafajeste, ansioso por fazer dinheiro, que lhes proponha uma emoção perigosa. Onde estão os velhos sábios de outrora, os que escaparam do moedor de carne que foi o século XX, para dar conselhos de vida saudáveis a esses jovens e mostrar, pelo seu exemplo de vida e prudentes reflexões, que mantenham os jovens seguros dos precipícios?
Antes, quem não tinha pai nem mãe, nem parente mais velho para lhe orientar, aconselhava-se com os professores, com padres e pastores, com os estranhos nas ruas — era um tempo em que os pais não ficavam ofendidos quando um estranho chamava a atenção de seus filhos que faziam algo errado fora de casa. Eu vivi isso; cresci numa sociedade educadora, afinal havia princípios morais comuns a todos. Fora isso, havia a biografia dos grandes personagens da história que líamos com avidez para aprender a nos safar de problemas análogos que enfrentássemos. A história adotava-nos e educava-nos.
Hoje vemos velhos de 64 anos, casados, com filhos, presos por envolvimento com menores. Não é que os jovens sejam ingratos, eles apenas cansaram de ser decepcionados pelos mais velhos. Embora esse não seja o caso da maioria dos jovens,  os mais velhos desaprenderam a tratar educativamente com os jovens, provavelmente porque já não têm muito que ensinar. Vivem para o trabalho, para o dinheiro, para a conquista de status.
Não que a jovem envolvida no acidente tivesse algum desses tipos de problema, mas como resistir quando tantos ao seu redor os têm, e buscam a sua companhia para viver as emoções que não conseguem expressar, e o jovem muitas vezes não consegue fugir deles. Absorvemos coisas boas e ruins do nosso entorno.
O local em si é simbólico demais! Uma velha ponte ferroviária, construída ao custo de milhões, e que nunca foi utilizada. Isso é falta de planejamento ou a certeza de que governam o povo mais submisso e indiferente do mundo, com datas indicadas para tomar as ruas e dar sinal de que ainda está vivo? Estamos vivendo delas agora. A ponte em questão também tem um nome simbólico: ponte do Esqueleto. O que todos seremos um dia, mas pelo menos sabendo o porquê.
Constatado o desperdício, ou o rombo, o que faz o Governo Federal? Passa, aparentemente, o cuidado com a ponte para o município — um presente de grego cem por cento latino-americano.
O município, a princípio, age com responsabilidade. Faz valas para impedir o acesso a lugar tão perigoso e põe placas. E o que fazem as pessoas? Exatamente o que grande parte dos brasileiros faz quando não tem um guarda por perto: ignora e vai se divertir sobre a ponte — inclusive a morte da jovem Maria não é a primeira. Uma ciclista despencou lá de cima com bicicleta e tudo. Quem vê a ponte, tão estreita e sem amurada de um lado, só pode pensar numa coisa: que criminoso destrambelhado promoveria um passeio ciclístico no local? Mas como o acidente-suicídio-assassinato não causou comoção, pôs-se uma pedra em cima, mesmo porque não é de nossa tradição gastar muito dinheiro com o bem-estar de estranhos ao nosso círculo familiar.
No fatídico dia, havia nada menos que 80 pessoas, fora a jovem, prontas para fazer algo irregular, sabidamente perigoso e contra a lei, descumprindo as determinações de um ente público. Ninguém ali era criança, e se o era, não estava desacompanhada de responsável maior de idade. Conta-se que, antes do fatídico salto, uma criança de 6 (seis) anos saltara — nada demais se considerarmos que, em 2017, o TJ-Rio de Janeiro autorizou a presença de crianças numa exposição de pornografia pesada, desde que acompanhadas pelos pais. A jornada de trabalho de anjo da guarda de criança brasileira está entre as maiores do mundo.
Nenhuma das 80 pessoas que estavam lá naquele dia, nem as dezenas de outras que já pularam daquela ponte, jamais pensou estar entregando a sua vida e a de pessoas que amavam nas mãos de bandidos irresponsáveis, vigaristas baratos, que fariam qualquer coisa para juntar uns tostões. E era tão fácil. Bastava conferir, na internet, ou nos órgãos de defesa do consumidor, as credenciais das empresas que ofereciam o salto, e descobrir que ambas — ‘Entre Cordas’ e ‘Ih Voei’ — eram clandestinas.
Por falar nisso, desde 2014, doze anos, empresas clandestinas oferecem saltos sobre a ponte, e isso não devia ser segredo para ninguém da cidade, pois não é uma estrutura que dê para pôr atrás de um armário. Logo a Prefeitura estava sabendo. Por que não fez nada?
Três homens, três criminosos irresponsáveis, não muito mais velhos do que ela, estavam ali e a prepararam ou a viram se preparar e nada notaram sobre a ausência da corda. A corda não era equipamento de segurança, era simplesmente a atividade, a única coisa que definia se aquilo era rope jump e não um mero salto de uma estrutura. A corda era o ‘esporte’, e ninguém se preocupou com isso, apesar de haver um autoproclamado ‘supervisor de segurança’ completamente fajuto, orientando o trabalho.
Aliás, a presença dos três na delegacia, entrando e prestando depoimento, é simplesmente assustadora e lembra-me muito da reação de vários dos meus alunos diante de qualquer coisa nova que eu levasse para a aula, por mais incomum que fosse, nos últimos anos antes da aposentadoria: indiferença e a mais completa abulia. “Foi uma fatalidade”, diz um sem mostrar a menor emoção. Outro, um mano das quebradas, já bem escolado, só repetia: “Eu não lembro!” Ninguém assume nada nesse país, muito menos a responsabilidade por seus erros. 
Por falar em não assumir responsabilidade. A Prefeitura de Limeira já disse que vai processar o Governo Federal por causa da ponte. Há notícia de que a família, com razão, vai processar a Prefeitura. O Governo Federal diz que a responsabilidade é da Prefeitura. Adultos brincando do joguinho da ‘batata quente’. Para emoldurar todo esse absurdo ‘non sense’ nacional, o Governo Federal disse que vai demolir a ponte do esqueleto. Por que não fizeram isso logo quando viram que as pessoas não iam respeitar as placas de aviso ou quando morreu a primeira pessoa? Será que é a proximidade das eleições?
Resumo da ópera política. Gastou-se milhões para levantar a ponte e agora vamos gastar outros milhões para derrubá-la, sem que tenha servido para nada além de mostrar o quanto somos irresponsáveis e tirar vidas humanas valiosas, sem preço.
Uma jovem enfermeira, que estava na fila de espera, contou em vídeo que os que iam pular estavam tão encharcados de adrenalina que não prestavam atenção em nada. Muito menos na corda, apenas esperando o seu momento, mostrando o quanto havia de inconsciência e espírito de rebanho, ou de moda, indiferente a tudo o mais, nesse episódio. Um caso de loucura coletiva ou retorno à primeira adolescência, quando as crianças, em movimentos de autoafirmação, fazem tudo o que desagrada os adultos, as leis, as autoridades.
Outro detalhe infame desse conjunto maluco de infâmias, maluquices, bizarrias, mas também sintomático, é o roubo do equipamento de filmagem no capacete da jovem, fosse porque é caro, fosse porque mostraria o rosto daqueles que a acudiram embaixo da ponte, e que também são responsáveis pelo assassinato, mostrando muita frieza diante da tragédia, dando-nos a impressão de uma quadrilha de bandidos barra pesada.  
Aconteceu a tragédia. Uma jovem cheia de esperança e sonhos, que poderia ter nos ajudado a melhorar o mundo ou esse país, não estará mais entre nós. Agora é só mais um marco da certeza de que pioramos a cada momento, enquanto nos aproximamos sem freio de um perigoso precipício, onde não faltam doidos querendo que a gente pule.
No momento, estamos muito chocados com a sua morte, mas o que mais me chocou, desde que vi o vídeo pela primeira vez, foi a calma e o quase desinteresse dos criminosos que a atiraram lá de cima quando a viram arrebentar-se ao chão. Os que a arremessaram ficam olhando, abúlicos e sem reação, como quem joga algo para ver se espatifar embaixo. Enquanto isso, o supervisor de segurança olha para baixo com as mãos na cintura. A ausência completa, própria dos psicopatas e dos adultos que não conseguiram superar o seu egocentrismo infantil mais primitivo, de empatia, de cuidado, de respeito, pelo outro (veja abaixo).
Como construiremos uma grande potência, um país rico e próspero, com as pessoas comuns, a gente do povo, pela qual sempre nutrimos tanta esperança, agindo dessa maneira? Como adolescentes e jovens poderão sonhar em segurança, fazendo os seus generosos voos de reforma social para o bem do maior número de pessoas, e sem esses sonhos, onde eles e nós terminaremos?
O país do futuro ficou no passado. O sonho acabou. Está na hora de acordar.



 

TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 18

Lei Natural e Racionalismo Sociológico

I - Um comentário sobre o racionalismo filosófico. Para ilustrar um ponto importante para nós, selecionamos o seguinte significado da multiforme palavra Racionalismo. Chamamos de Racionalismo Filosófico a crença não apenas de que nossa mente (‘razão natural’) é a fonte de verdades antecedentes à experiência, mas também de que nossa mente é capaz de produzir resultados sobre assuntos supramundanos, como a existência de Deus. Nesse sentido, São Tomás era um racionalista metafísico porque, diferentemente de outros escolásticos (principalmente escotistas), ele acreditava que a existência de Deus pode ser logicamente comprovada. Ele não era um racionalista metafísico no sentido em que essa expressão passou a ser utilizada nos séculos XVII e XVIII, ou seja, que a razão humana era a única fonte admissível de conhecimento em matéria de teologia, pois ele também admitia a revelação. Ora, se um homem acredita que, também por meio dos poderes isolados de seu próprio aparato lógico, pode provar que Deus não existe, ele está, de fato, neste ponto específico, contraditoriamente oposto a São Tomás. Mas há um ponto em que eles são, no entanto, irmãos em espírito: o deísta racionalista e o ateu racionalista são ambos racionalistas no sentido definido e aliados contra qualquer um que não confie em sua razão para alcançar tal patamar, em particular contra qualquer positivista lógico da atualidade.

Não há nada de surpreendente nisso. É muito comum que pessoas com visões diferentes reconheçam e recorram à mesma autoridade. Mas era necessário mencionar esse fato porque ele nos ajudará a ver a continuidade no desenvolvimento doutrinário, onde, sem sua ajuda, veríamos apenas ruptura e antagonismo.  

 

Nota de Schumpeter

Peço desculpas pelas inúmeras deficiências desta definição. Ela é, contudo, breve e suficiente para o propósito de apresentar o único ponto relevante para o nosso tema. Isso, é claro, é inaceitável do ponto de vista do positivismo moderno. Constitui, na verdade, a única justificativa para encontrar “especulação” não apenas no conceito normativo, mas também no analítico, de lei natural. É ainda mais importante reiterar que o racionalismo sociológico ou econômico se aplica apenas à interpretação das proposições da lei natural e não necessariamente ao seu conteúdo. Podemos descartar o primeiro e manter o segundo. É verdade, porém, que o postulado do racionalismo subjetivo incorpora uma opinião exagerada sobre o valor explicativo da ação racional [como a extraída do homem econômico dos primeiros liberais] e nos leva a depositar confiança indevida em argumentos teleológicos e a cometer erros semelhantes. Isso é especialmente grave se associado ao hábito que os economistas têm de se colocarem como juízes da racionalidade não apenas dos meios, mas também dos fins (motivos), ou seja, se aprovam, como racionais, os fins (motivos) que lhes parecem “razoáveis” e descartam todos os outros como irracionais. Os doutores escolásticos são culpados de todos esses aspectos. Mas é interessante notar que nós também somos: nesse aspecto, também, como em outros, somos seus herdeiros. Não há exemplo melhor para ilustrar esse ponto do que Alfred Marshall.

 

II - Racionalismo sociológico. A atividade científica é frequentemente vista como o exemplo padrão de atividade racional, no sentido de que o pesquisador, qualquer que seja seu objetivo final, permite-se ser guiado pelas regras da inferência lógica. Isso, porém, não é totalmente preciso: precisamente, as maiores conquistas da ciência não provêm da observação, da experimentação ou da lógica ordenada, mas de algo que melhor se define como ‘visão’ e que se assemelha à criação artística. Ainda assim, os resultados precisam ser “comprovados” pelo procedimento lógico ou racional ditado pelos padrões profissionais, e isso basta para imprimir racionalidade, nesse sentido — que nada tem a ver com o sentido discutido acima. Mas esse conceito de racionalidade científica refere-se apenas à atitude dos analistas e não ao comportamento do objeto analisado. O psiquiatra pode investigar “racionalmente” as reações de loucos, o sociólogo pode investigar racionalmente a psicologia da guerra ou o comportamento de multidões enlouquecidas, sem implicar que as palavras e ações observadas “façam sentido”. Nesse sentido, todos nós, incluindo os doutores escolásticos, assim como seus piores inimigos, somos necessariamente racionalistas metodológicos, ou seja, todos acreditamos que alguns métodos racionais são aplicáveis ​​à descrição de fenômenos sociais. Generalizações resultantes da aplicação de tais métodos podem ser chamadas de leis naturais, e esta é a única relação indispensável que existe entre o conceito de lei natural e a reta razão ou ratio recta.

Mas o racionalismo sociológico ou econômico significa algo diferente. Assim como podemos contemplar o universo físico da maneira popularizada pelos estoicos — como um todo logicamente consistente, modelado segundo um plano ordenado, também podemos contemplar a sociedade como um cosmos dotado de consistência lógica inerente. Para nós, pouco importa se essa ordem lhe é imposta pela vontade divina — direcionada a fins definidos por uma mão invisível — ou se é inerente apenas no sentido de que o observador descobre nela um plano e um propósito independentes de sua racionalidade analítica, pois, em ambos os casos, nada pode entrar nesse cosmos “racional” que não estiver ao alcance da luz da razão. Devemos, contudo, distinguir ainda o Racionalismo Sociológico ou Econômico Objetivo, que não postula, e o Racionalismo Sociológico Subjetivo, que postula, que essa ordem ou plano seja ou possa ser realizado pela ação racional dos indivíduos ou grupos que compõem a sociedade. Ambos devem ser atribuídos, evidentemente, aos doutores escolásticos, bem como à maioria de seus sucessores até os nossos dias. E isso confere uma cor adicional ao seu conceito de Lei Natural e estabelece outra relação entre ele e sua ratio recta, bastante distinta daquela estabelecida anteriormente — a relação formulada para todos os tempos por São Tomás: rationis autem prima regula est lex naturae [= a primeira regra da razão é a lei natural]; (Suma Teológica, II, 1, quaest. XCV, art. 2).

III. Ratio recta e la raison. Observe que o racionalismo sociológico ou econômico não precisa levar a atitudes “conservadoras” na prática. Assim como o racionalismo metafísico, ele tem dois lados. Podemos, de fato, inferir de nossa crença na existência de uma ordem econômica ou cosmos que tudo caminha sempre para o melhor no mundo tal como ele realmente é, mas não precisamos presumir que a ordem racional das coisas realmente exista nas coisas como elas são. É suficiente acreditar em uma ordem racional que existe apenas no domínio da razão e que a própria razão nos chama a reafirmar contra uma realidade desviante. Este é o significado que o racionalismo sociológico ou econômico carrega para todos os grupos reformistas que propõem “aplicar a razão aos fenômenos sociais”... todos eles descendentes dos escolásticos. A sociologia política dos doutores escolásticos, por si só, basta para provar que eles sustentavam a segunda visão, e não a primeira, a respeito do cosmos social ou da lei natural... Trata-se do mesmo princípio metodológico que permeia todo o pensamento sociológico e político que não é anti-intelectualista. Os gregos foram os primeiros a expressá-lo articuladamente. Mas os escolásticos foram os primeiros a fazê-lo no mundo germânico. Qualquer que tenha sido a causa da revolta da raison [Schumpeter fala do racionalismo francês desse período] no século XVIII, ela não era um modo de pensar. Epistemologicamente, há perfeita continuidade, e a ratio recta (igual à naturalis ratio) é a mãe da raison [conceito muito utilizado pelos iluministas franceses]...


OS FILÓSOFOS DA LEI NATURAL: ANÁLISE DA LEI NATURAL NO SÉCULO XVII.

Deixamos agora os doutores escolásticos para considerar a obra de seus sucessores imediatos. As eternas questões sobre o governo da humanidade continuaram a ser feitas, é claro, e outras surgiram durante o século XVII em meio à profusão de novos padrões e problemas políticos. Especialmente na Inglaterra, estes produziram uma torrente de panfletos de todos os tipos, que variavam desde argumentos rigorosamente fundamentados — suponho que os escritos de (George Savile, Marquês de) Halifax sempre se destacarão como o ápice dessa literatura — até discursos inflamados alimentados por citações apocalípticas. Mas a ânsia por respostas também foi satisfeita, no nível dos princípios gerais, por um grupo de escritores que chamaremos de Filósofos da Lei Natural.

Os escolásticos protestantes ou laicos.

Embora separados dos escolásticos pela cisão religiosa e pela mudança no cenário político, eles eram do mesmo tipo profissional e se dedicavam à mesma tarefa, pelo mesmo método, com o mesmo espírito — tanto que a melhor maneira de caracterizá-los é chamá-los de escolásticos protestantes (ou laicos). Eles, é claro, não concordariam com esse diagnóstico.  

Os métodos e resultados [dos filósofos naturalistas que vieram depois] não diferem substancialmente daqueles dos escolásticos tardios. Isso não significa que os filósofos do direito natural copiaram os escolásticos sem o declarar. Embora em muitos casos a influência escolástica seja clara e inquestionável, presume-se que também houve redescoberta ou desenvolvimento a partir das mesmas fontes — em particular, os juristas romanos... Além disso, como ficará claro adiante, eles eram apenas um elo numa sequência que se estende até o século XIX. Por ambas as razões, é impossível falar deles como um grupo definitivamente delimitado... Bastará, por hora, mencionar alguns poucos nomes representativos do século XVII: Grotius, Hobbes, Locke, Pufendorf.

Hugo Grotius ou Huigh de Groot (1583–1645), foi, antes de tudo, um grande jurista cuja fama se baseia em sua atuação excepcional no direito internacional. Ele abordou brevemente temas econômicos, como preços, monopólios, moeda, juros e usura no Livro II, capítulo 12 — sem dúvida, de forma muito sensata, mas sem acrescentar nada de notável ao ensino dos escolásticos tardios.

Thomas Hobbes (1588–1679; além do Leviatã (1651)... foi um homem de Oxford do tipo tutor particular e, acima de tudo, um sociólogo político. Ele não se interessava mais por economia do que Grotius, embora também abordasse temas econômicos, especialmente o dinheiro. Sua importância para nós não se deve tanto à poderosa originalidade de sua filosofia política, mas sim ao fato de que, mais do que qualquer outro filósofo do direito natural, ele estava aberto ao incipiente materialismo mecanicista de sua época e transmitiu sua influência, particularmente por meio de seu ensino ético e psicológico (sensualismo), às ciências sociais.

 

Nota da Wikipédia em português

O sensualismo (também se diz por vezes sensismo) é, da perspectiva da filosofia acadêmica, especialmente na Inglaterra do século XVII, uma corrente intelectual muito influente do Iluminismo e é, também, uma direção filosófica nativa da França, que relaciona a experiência a impressões sensoriais individuais (ou seja, a partir de estímulos neurofisiológicos) ou percepções. O sensualismo é, portanto, uma profunda forma de reflexão do indivíduo humano sobre sua relação com seu ambiente físico.

Na epistemologia, o sensualismo é uma doutrina segundo a qual as sensações e a percepção são a forma básica e mais importante da verdadeira cognição.

O termo “sensualismo” foi usado pela primeira vez em 1804 pelo francês Joseph Marie Degérando em sua História da filosofia. Ele o utilizou para descrever teorias modernas que entendiam a sensação física como a origem de todo pensamento e ação.

 

John Locke, o filósofo (1632–1704), também foi um produto de Oxford. Sua obra é de suma importância para nós por diversos motivos. Primeiro, como filósofo no sentido estrito do termo, ele liderou a tendência empirista à vitória, primeiro na Inglaterra e depois no continente europeu, especialmente na França, contra o racionalismo cartesiano (a obra decisiva foi seu Ensaio sobre o Entendimento Humano, publicado em 1690). Isso representou, de fato, uma ruptura com a tradição escolástica (Aristóteles). O leitor deve refletir, contudo, que isso não implica que tenha havido uma ruptura semelhante na teoria política ou econômica: é essencial manter essas áreas distintas. Em segundo lugar, como defensor da tolerância (qualificada), da liberdade de imprensa e da educação ampliada, Locke foi fundamental na construção do esquema geral do liberalismo político posterior, fato que deve ser mencionado de passagem devido à sua relação com o liberalismo econômico. Em terceiro lugar, como teórico político, Locke pode reivindicar um lugar de destaque entre os filósofos do direito natural, embora tenha contribuído pouco para as ideias de Grotius e Pufendorf. Em quarto lugar, como economista, ele fez contribuições significativas que, no entanto, serão tratadas em outro contexto, pois não têm relação com sua filosofia ou sua teoria política.

Samuel von Pufendorf (1632–94)... Ele não foi muito mais do que um seguidor de Grotius. Contudo, escreveu um tratado que se tornou um livro didático de renome internacional e que resume e representa toda a estrutura da ciência social dos filósofos do direito natural muito melhor do que as obras dos grandes nomes mencionados anteriormente... Além disso, Pufendorf aprofundou-se muito mais em economia do que Grotius (Livro V, caps. 1–8), embora, a meu ver, ele ainda não tenha contribuído muito para o acervo de conhecimento e para o aparato analítico dos escolásticos tardios.

 

Exatamente como os escolásticos, os filósofos do direito natural almejavam uma ciência social abrangente — uma teoria abrangente da sociedade em todos os seus aspectos e atividades — na qual a economia não era um elemento muito importante nem independente. Essa ciência social dos filósofos apareceu primeiro na forma de sistemas de jurisprudência semelhantes aos tratados escolásticos De justitia et jure: Grotius e Pufendorf eram principalmente juristas e seus tratados são principalmente tratados de direito. Eles lidavam com princípios jurídicos e políticos para os quais se reivindicava uma validade muito geral, sob o argumento de que eram naturais no sentido de que derivavam de propriedades gerais da natureza humana e não, como o direito positivo, das condições particulares de países individuais...


sábado, 20 de junho de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER
A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA - 26

A nau dos insensatos (I)

Embora Canudos seja um dos temas mais recorrentes na História do Brasil, é notável o quanto os autores, inclusive consagrados, erram na apresentação de fatos elementares sobre o assunto. O que isso significa? Talvez indiferença pela pesquisa, talvez uma credulidade ingênua, reflexo da síndrome de Os Sertões, que fez muitos acreditarem que ali estava tudo que se precisava saber sobre o tema. É estranho!

Seja como for, os dados que aparecem são confusos, quando não errados, e as conclusões, por vezes, não fazem o menor sentido. Helio Silva, que em seu livro Os civis no poder, p. 52–53 (edição online), escreveu assim:

“Prudente de Morais sofrera todo o impacto da Guerra de Canudos…

Um de seus últimos atos fora o de mandar chamar ao Rio de Janeiro o Cel. Moreira César, encarregando-o da nova expedição a Canudos… coube a Manuel Vitorino ultimar as providências iniciadas.”

E mesmo Marco Antônio Villa, muito bem fundamentado, não se sai melhor nesse trecho de Canudos o povo da terra, 3ª edição, São Paulo, 1999, p. 57.

“Moreira Cesar… no trajeto do Rio de Janeiro a Salvador, começou a agir de forma descontrolada. No terceiro dia da viagem, passou a desconfiar do comandante… e que haveria um plano para atrasar a chegada… Resolveu prender o capitão… Só o libertando quando se aproximaram da capital baiana.”

Infelizmente, há reparos a serem feitos nessas duas afirmações.

Prudente não tem nada a ver com a expedição de Moreira Cesar a Canudos, pois havia uma missão mais importante para ele no Rio, para a qual Prudente o chamara: preservar a legalidade — a situação era, e manteve-se, tão preocupante nesse período, que, embora a polícia do Rio fosse uma das mais bem treinadas e armadas do país, não mandou tropa a Canudos. Ficou no Rio para proteger o presidente, talvez do próprio Exército!  

A linha do tempo mostra que a ida de Moreira Cesar ao Rio de Janeiro nada tem a ver com Canudos.

Dia 28 de outubro de 1896 — chega, ao governador Luís Viana, BA, o primeiro telegrama do juiz Arlindo Leoni, de Juazeiro, solicitando ajuda contra os conselheiristas.

Dia 1º de novembro — Moreira César parte de Florianópolis para o Rio de Janeiro.

Dia 3 de novembro — Moreira César chega ao Rio.

Dia 4 de novembro — chega um segundo telegrama do juiz de Juazeiro, insistindo no envio de tropa.

Dia 6 de novembro — uma força de 113 militares, comandada pelo tenente Manuel Pires Ferreira, autorizada pelo ministro da guerra Dionísio Cerqueira, certamente do conhecimento de Prudente de Moraes, parte de Salvador para proteger Juazeiro.

Dia 10 de novembro — Prudente de Moraes passa o cargo para Manuel Vitorino e se retira de licença.

Dia 21 de novembro — a força sob o comando do tenente Pires Ferreira, que marchou contra Canudos, é atacada em Uauá. Começa a guerra.

Portanto, quem nomeou César para atacar Canudos na 3ª Expedição, por razões políticas, foi exclusivamente Manuel Vitorino, um dos principais responsáveis por essa tragédia.

A confiança de Prudente de Morais em Moreira César era antiga. Numa carta de 22 de dezembro de 1889 a Benjamin Constant, então ministro da guerra de Deodoro, Prudente lhe solicita a cessão de Moreira César para comandar o Corpo Policial de São Paulo, porque ele:

Reúne todas as condições… é inteligente, criterioso, tem curso, é paulista e dedicado à causa da república. (Epaminondas Ferraz, Defesa Nacional, Nº 639, p. 51).  

Como nessa época ele estava no Mato Grosso e não podia assumir logo, Prudente escolheu outro.

O que explica a ida de Moreira César ao Rio era a necessidade de Prudente de Morais se submeter a uma cirurgia com risco de morte altíssimo, seguida de uma longa e delicada convalescença, que o obrigaria a transmitir o cargo ao vice Manuel Vitorino e aos seus florianistas radicais.

Prudente e aliados sabiam que a simples presença de Moreira Cesar na capital dissuadiria os aventureiros contra qualquer tentativa de tomada do poder. Mas foi na viagem de Moreira César de Santa Catarina para o Rio que houve um incidente estranho no navio que o transportava: o vapor Itaipú, da Companhia Nacional de Navegação Costeira, da família Lage, que Euclides da Cunha narra de uma forma execrável.

Em pleno mar, com surpresa dos próprios companheiros, prende o comandante. Assaltara-o — sem que para tal houvesse o mínimo pretexto — a suspeita de uma traição, um desvio na rota, adrede disposto para o prender e aos soldados. O ato seria absolutamente inexplicável se não o caracterizássemos como aspecto particular da desorganização psíquica que o vitimava. Não lhe diminuiu, contudo, o prestígio [Isso não é estranho?] (Os Sertões, Fundação Darcy Ribeiro, Rio de Janeiro, 2013, p. 297).

Os destaques são todos meus.

Entretanto, há uma narrativa sólida, circunstanciada, que desmente essa invenção euclidiana, feita por um jornalista de O Paiz, que, na primeira página da edição do dia 4 de novembro de 1896, no artigo DESEMBARQUE DO 7º, relata, a partir de Florianópolis:

Essas alegrias [a festa que os florianopolitanos fizeram no seu embarque, e que o jornalista chama de “delírio”]… começaram a ser toldadas por um fato excepcional… quando em pleno oceano.

A hora marcada para a partida foi demorada, a pretexto de que o navio precisava carregar mais algumas reses [proteína fresca], não obstante estar provido de todas as munições de boca [alimentação].

O coronel Moreira Cesar insistiu para que o Itaipú levantasse ferro, e essa insistência só produziu efeito quando ele a revestiu do tom solene de uma ordem imperativa”.

Resumindo: o navio atrasa a sua saída porque o capitão está enchendo o porão de comida extra, só iniciando a viagem após uma ordem severa do coronel! Continua o jornalista:

“O pretexto para uma demora injustificada à saída do navio o aconselhou talvez a ficar… atento à navegação da costa, ao demais muito sua conhecida.

Desconfiado da rota… o coronel Moreira Cesar consultou a própria carta geográfica do navio, consultou o rumo que lhe aparecia indicado, e viu então [pelos instrumentos] que o navio ia a caminho do leste, mais e mais se amarando [indo para o alto-mar].”

O navio seguia na direção do continente africano — isso explica a preocupação do comandante em encher os porões de comida, mostrando que a sua ação era premeditada!

"[O coronel] observou calmamente o fato ao comandante [meu destaque], e este, por entre evasivas, acabou por confessar que o coronel Moreira Cesar tinha razão, e que ia pôr o paquete a caminho.

Efetivamente mudou de rumo, mas dessa vez andando para o sul [o Rio de Janeiro ficava ao norte], como se o navio tivesse que arribar ao próprio porto de saída.

Desde então, o coronel considerou o caso digno de enérgica providência e prendeu o comandante do Itaipu, com sentinelas à vista [um soldado o vigiaria no seu camarote, com a porta sempre aberta].

O Itaipú navegou então à conta da pilotagem de bordo, sob a máxima vigilância dos oficiais do 7º e das suas praças [meu destaque]."

Assim chegou ao seu destino. Algumas perguntas:

a) Ele tinha ou não motivos para intervir no navio?

b) O jornalista diz que oficiais e soldados se revezavam na vigilância da ponte de comando, onde estavam os instrumentos de navegação, o piloto e demais operadores do navio. Como Euclides diz que os oficiais ficaram surpresos com a intervenção de Moreira César?

c) Ele mostrou-se capaz de ler as cartas náuticas, conferir a rota pelos instrumentos e levar o navio até o seu destino. Isso é exemplo de alguém ignorante e descontrolado, em desorganização psíquica, como Euclides sugere, ou antes de uma pessoa de inteligência aguçada e abrangente?

Aparentemente, foi ele quem levou o navio até o Rio de Janeiro e, provavelmente, com a cidade à vista, deve ter devolvido o comando para o capitão.

O navio chegou às 7 h da manhã do dia 3 de novembro, em meio a uma neblina, entre as fortalezas de Santa Cruz e São João, onde irromperam estrepitosas as primeiras saudações ao 7º batalhão de infantaria, sob o comando do bravo coronel Moreira Cesar, segundo O Paiz.

Antes mesmo de o navio atracar, subiram a bordo para cumprimentá-lo:

O coronel Bento Thomaz Gonçalves, comandante do 22º BI [lembram-se do Apulco?], alferes Bentes representando o ministro da guerra, tenente Lins… major Polycarpo, Comissão do Clube Militar, vários outros cavalheiros, oficiais de muitos corpos da guarnição [da polícia do Rio de Janeiro] e um representante de O Paiz.

No Arsenal de Guerra [que tinha um trapiche] havia uma multidão compacta, aguardando o desembarque do batalhão, que foi recebido com estrepitosos vivas…

Bandas de música do 22º e do 24º de infantaria e as duas da brigada policial tocavam o hino nacional, quando, por entre abraços disputados, o bravo comandante e seus oficiais puseram o pé em terra.

Entre as pessoas presentes em terra estavam:

O general Paulo Argolo [meu destaque] e o seu ajudante de ordem; alferes Duarte Bentes, representando o ministro da guerra; comandantes do 1º, do 22º, do 24º, e toda oficialidade [desses batalhões]; comandante do 26º, Francisco Felix; coronel Travassos; coronel Jardim, comandante dos bombeiros; tenente-coronel Ilha Moreira; João Clapp [esse comerciante, foi um benemérito presidente da Confederação Abolicionista e investiu dinheiro de sua empresa para criar centros para educar os ex-escravos, reforçando o testemunho de Patrocínio de que Moreira Cesar apoiou a luta pelo abolicionismo]; Senador Esteves Junior [Santa Catarina]; deputado Emilio Blum [federal, por Santa Catarina]; Luiz Arthur, representando o ‘general’ Glicério [um político civil]; comissão do Clube Militar [e muitos outros].

Compareceu também uma estudantada ruidosa da Escola Militar, mostrando a dimensão do seu prestígio…

Caro leitor: tem a mínima condição de alguém que carregava o peso de ter massacrado tanta gente da mais alta sociedade catarinense, e até um heroico marechal do Exército, por simples capricho, ser recebido dessa maneira? Por que as principais autoridades militares e importantes políticos iriam comparecer ou mandar representantes para recepcionar o assassino grosseiro e compulsivo de Euclides da Cunha?

Mas as comemorações não terminaram por aí:

“Depois de receber os cumprimentos dos generais Argolo e Cantuária [João Tomás de Cantuária, um heroico participante da Retirada da Laguna]."

O batalhão desfilou por diversas ruas próximas ao Arsenal:

“Trazendo à frente as bandas do 1º e 24º batalhões, o 7º percorreu as ruas… recebendo palmas e aclamações entusiásticas… essas manifestações calorosas subiram de ponto quando o batalhão passou em frente à Escola Politécnica, cujos alunos os receberam com palmas e vivas frenéticos.

As janelas do quartel-general estavam repletas de militares e civis, que acenavam com lenços, saudando os valentes soldados.

Deu-se-lhe pequeno repouso, depois do qual ele desfilou de novo para o morro de Santo Antônio [onde ficava a sua sede]… Marchou seguido das bandas do 22º e as da Brigada Policial e com uma imensa cauda de povo [marchando atrás]

Acompanharam o 7º a cavalo os comandantes do 22º e do 1º de cavalaria e a pé os do 24º e do 1º de infantaria.

Às 4 horas da tarde, um grande grupo de patriotas, à frente do qual ia o major Dias Jacaré, precedido da banda de música do 23º, foi ao quartel do 7º saudá-lo e ao seu comandante”.

Tem mais!

É grato noticiar que o comandante em chefe da esquadrilha argentina, quando de passagem por Florianópolis, assistiu a um longo exercício deste corpo [o 7º B.I.], após o qual manifestou verdadeira admiração, porque (palavras textuais) viu em cada soldado um modelo de disciplina e um atirador dos mais completos.

Como um homem “desequilibrado”, dominado por um “demônio crudelíssimo”, conseguiria tal feito? Como é que uma tropa dessas, uma unidade de elite do Exército Nacional, promoverá, poucos meses depois, uma das páginas mais infames da história do Exército Brasileiro, até ser extinta em 1908? Será que nos esconderam algo?

E o incidente no Itaipu? A solução encontrada pela autoridade competente foi, no mínimo, 'estranha'. Eis o que diz o jornal Cidade do Rio, de José do Patrocínio, na edição de 6 de novembro de 1896, no artigo ITAIPÚ, na primeira página:

“Sobre o caso do vapor Itaipú, consta que o governo mandou abrir um inquérito…

Deve ser um caso bem difícil de chegar à evidência, atendendo-se ao fato de que duas ordens de testemunhas poderão depor.

A prova que foi colhida de um lado, contra o comandante do navio, ficará imediatamente destruída apenas tenham deposto as testemunhas da guarnição do navio.

O inquérito, nesta hipótese, apurará, em vez de um, dois únicos responsáveis: o sr. coronel Moreira Cesar e o comandante do Itaipú.

É edificante!”

A armação do circo é clara: o comandante será responsabilizado por imperícia e o coronel por motim. Fica a palavra de um contra a do outro, e não dará em nada para nenhum dos dois. A sentença, é claro, saiu depois que Prudente licenciou-se, com o vice já no poder.

Esse episódio deixa patente a estratégia dos florianistas contra César: tratá-lo como a um tolo e, se ele reagir, apontá-lo como mentalmente desequilibrado, embora nesse momento ainda esperassem cooptá-lo para a causa. No caso do Itaipu, ou ele ficava vagando pelo Oceano Atlântico, até chegar ao Rio muito tempo depois, desmoralizado, ou ele tomaria a direção do barco, para conduzir a viagem ao seu desfecho, e então seria tratado como um louco, um descontrolado, como faz Euclides da Cunha.

Mas haveria outra festa ainda maior, para o coronel, e desta até os florianistas participariam.

Eduardo Simões


quinta-feira, 18 de junho de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER
A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA - 25

Um rio de sangue flui de Floriano Vieira Peixoto (1839–1895).

Floriano, parece, teve uma grande meta na vida: não deixar que ninguém soubesse o que ele pensava. Se é que havia algo dentro dele, além de uma sede instintiva de poder associada a um exacerbado instinto de sobrevivência, que o guiou, implacavelmente, aos mais altos postos do poder. A sua frase preferida, dita ao final de uma reunião conspiratória singular, era: “confiar desconfiando” (veja Hélio Silva, 1889, p. 109–110). Ela se tornou o lema entre os seus simpatizantes.

O seu discurso político era genérico, recheado de colocações ambíguas, aleatórias, pseudopatriotas, repletas de lugares comuns, conclamações e denúncias de conspirações secretas, que ninguém, fora ele, conseguia ver. Um estado de delírio permanente, que justificava as mais ferozes medidas, algumas feitas ao arrepio da lei, à qual Floriano, com a mais compenetrada e teatral seriedade, dizia estar defendendo. É antigo o sucesso dessa estratégia em nosso país, mesmo após tantos anos!

Alcançou o mais alto cargo de confiança no Exército Imperial e daí saiu, quase diretamente, para ser a principal liderança do movimento republicano, um 'herói por acaso' ou 'homem providencial', que impediu um banho de sangue no dia 15. Algo meritório, por meio de uma traição nada meritória, sobre uma possibilidade altamente improvável: resistência armada ao golpe. Mas todos acreditaram.

Seus movimentos na direção do poder eram marcados por manobras diversionistas, enganos, emboscadas e traições. Começava um movimento para um lado, para acabá-lo no extremo oposto. Nem se preocupava em criar desculpas pelas mudanças, como se sempre tivesse defendido a última opção, ou que mostrasse um mínimo de respeito à inteligência alheia. Ele usava as pessoas e sabia explorar como poucos as fraquezas humanas, em especial o medo e a busca por prestígio. Os que o conheceram bem, ou se fanatizaram ou se horrorizaram.

Era implacável em seus movimentos e decisões, e, se o seu corpo não era de ferro, o seu coração certamente o era. Quem o enfrentasse seria esmagado, de preferência por um de seus adeptos, porque ele, da mesma forma que não caía pela língua, costumava não deixar suas digitais nos crimes que se cometiam e que, no final, o beneficiavam. Mas também é verdade que premiava regiamente, com recursos públicos, seus mais próximos serviçais.

Seu projeto de poder era estritamente pessoal, familiar, espelhado no caudilhismo sul-americano e na sua desconfiança contra todos. Agia ao sabor da ocasião, no sentido de se preservar ou ampliar o seu poder. Se podia consegui-lo cumprindo a lei, cumpria-a, mas se não… não hesitava. E, apesar de nunca ter sido republicano, tornou-se a maior liderança republicana da ocasião, sem nenhum projeto para o país. Mas isso, entre nós, é uma virtude extraplanetária.

 A repressão aos que se lhe opunham foi feita em nome do combate à restauração monárquica, que nunca existiu como um coletivo, levou-o a comprar uma frota de sucatas, após haver perdido a marinha oficial para a oposição. Isso agravou a crise econômica, que ele despistou com o controle dos aluguéis, do preço de alimentos, ao sabor do momento, mas que lhe angariou a simpatia incondicional de um povo sedento de circo, ainda que falto de pão, como se tudo não passasse de um teatro de sombras.

Sua necessidade de vingança era imensa, alimentada por uma memória de paquiderme. Não esquecia nem perdoava quem lhe interpunha o passo, e tinha o cuidado de passar isso aos seus adeptos, embora, ao contrário destes, nunca perdesse o controle de suas emoções. Só expressava o que queria. A sua memória era a memória do seu movimento. E sua ação manifestava-se por momentos de paz e confiança, seguido do golpe súbito, inesperado, após movimentos de cerco meticulosamente executados, de modo a colocar a vítima numa posição em que não pudesse reagir. Sempre havia uma estratégia repleta de manobras diversionistas, nas quais Pinheiro Machado era mestre.

O pior legado de Floriano, por conseguinte, foi a criação de grupos apaixonados de civis e militares, que se infiltraram no Estado para apoiar o seu projeto ditatorial ou agir em seu nome, à revelia da lei. A ação mais bem-sucedida desses grupos foi angariar apoio e recursos para o massacre de Canudos, para o qual partiram com muita gana, e do qual se afastaram, como de vestes pestilentas, depois que perceberam a forte repulsa da nação ao que aconteceu. E aí passaram a acusar Prudente de Morais pelo ocorrido e a defender os canudenses. A sua maior cartada foi a tentativa de assassinato do presidente, e a última, da primeira geração de florianistas, a Revolta da Vacina, de 1904, quando mostraram até onde eram capazes de ir com o seu oportunismo. Apareceram em episódios recentes, sob nova roupagem, mas os mesmos métodos.

Não se envergonhavam em comemorar acintosamente o fim de seus adversários, como aconteceu na morte do almirante Saldanha da Gama. Luzes, gritos, algazarras, festas regadas a cachaças ou champanhes importados, além de peças improvisadas em teatros baratos, foram noticiadas nas ruas e mansões chiques do Rio de Janeiro. Os castilhistas ocultaram o corpo do almirante Saldanha para impedir seu sepultamento. Que apodrecessem ao relento! Como aconteceu em Canudos.

 Os florianistas ainda exultavam com a morte de Saldanha da Gama quando, 5 dias depois, em 29 de junho de 1895, emudeceram acachapados. Na localidade de Divisa, fronteira sul do estado do Rio de Janeiro, a morte tirou-lhes o ídolo.

 Esse fato natural, porém, criou neles um ressentimento profundo contra todos aqueles que, de alguma forma, haviam contrariado o marechal, como Prudente de Morais e Moreira César, que se opuseram à continuidade do seu poder pessoal.

            O renomado jornalista Luís Edmundo, que viveu nessa época, testemunhou o seguinte, no dia 6 de julho, quando foi realizado o sepultamento:

“Nem pelos dias reservados às cerimônias religiosas da Paixão de Cristo o Rio de Janeiro apresentava uma aparência assim, tão cheia de desconsolo e tristeza. Toda uma multidão silenciosa e abatida, desde cedo, havia saído para a rua. Não havia nas lojas dos floristas uma só rosa… para vender [apesar da vinda de carregamentos colossais da Serra Fluminense]… Muito antes da hora marcada para o começo das exéquias, o povo já havia obstruído completamente os logradouros mais próximos ao templo de onde deveria sair o ataúde… em direção ao cemitério… Um terço dos moradores da cidade, ou talvez mais, assistiu à solene passagem desse cortejo que levou horas e horas a desfilar. (…). Vi homens de joelhos pelas ruas, senhoras que choravam. (…). Jamais uma romaria cívica, até hoje, logrou, que eu saiba, uma imponência igual. (…). Para se ter uma pequena ideia… basta lembrar que, no momento em que chegava à porta do Campo Santo [cemitério São João Batista], o ataúde que conduziu o corpo… a larga fila dos que o acompanhavam… ainda era vista pelo Largo da Glória, entrando pela Rua do Catete [cerca de 8,4 km]” (citado pelo almirante de esquadra Fonseca Hermes, Os militares e a política durante a república Prudente José de Morais e Barros, parte XXXII, RMB, 2ºT, 2000, p. 32–33).

Como era um evento florianista, os discursos proferidos à beira do seu túmulo são violentos e sobejamente acusatórios — entre eles o do escritor Raul Pompeia (12) — terminando com vivas a Floriano e morras a Prudente. Com os ânimos insuflados, os jacobinos, em seguida, se envolvem em furiosos combates com a cavalaria da polícia. No dia da morte de Floriano, um grupo de pessoas, encabeçado por deputados florianistas, vai ao Chefe de Polícia impor que os teatros em funcionamento fechem as portas, em luto, no que são atendidos. Nessa mesma noite, um grupo deles atacou cadetes da Marinha que comemoravam num restaurante, havendo tiros, pedradas e gente ferida. Dez dias depois, florianistas inconformados porque o jornal de Patrocínio não hasteava a bandeira a meio mastro, atacaram a tiros a sua sede, sendo recebidos à bala. Patrocínio teve que fugir do Rio. 

Só a dor deles merecia respeito, e respeito extremo. A dos outros podia ser selvagemente pisoteada.  

Com Floriano, os brasileiros experimentaram o regime que mais se aproximou do totalitarismo, e parece que gostaram, pelo menos os que sobreviveram.

E ele foi floriano até o final, ao dizer que queria ser sepultado ali mesmo, na pequena cidade de Divisa, mas a família e os amigos não o permitiriam, e lhe ergueram um belo mausoléu no cemitério mais tradicional do Rio.

Os florianistas chegaram a organizar um culto cívico em torno da sua sepultura, numa espécie de 'canonização civil', reunindo-se em torno dela a cada aniversário de morte, imitando o estilo das procissões católicas. Mas, já em 1903, esse 'culto' atraía as críticas de um florianista raiz, Arthur Azevedo, pelas situações ridículas que criava. Disse ele no jornal O Paiz:

De hoje há 2 anos que vi, na esquina da rua Dona Luiza, no Catete, uma idosa ajoelhar-se e, batendo nos peitos, rezar quando passou o andor de Floriano coberto com um pálio muitas outras se têm dado durante o trajeto da romaria.

Segundo O Paiz de 1º de julho de 1895, Floriano escrevia cartas, para um militar chamado Mena Barreto, que naquele momento reprimia a Revolução Federalista, até começar a passar mal. Por volta das 15:00 h de 28 de junho, se recolheu. O mal-estar, porém, agravou-se. Pressentindo a morte, chamou a família para junto de si. Ao beijar a pequena Maria Josina, de 4 anos, diz sua última frase audível: Que infelicidade! (13)

A sua doença era uma espécie de inflamação no fígado devido ao acúmulo de gordura, que o levou a óbito por “esclerose hepática hipertrófica”. Às 20:00 h, seu corpo 'fechou-se sobre si', reproduzindo a sua psicologia. Ele não conseguia mais urinar ou excretar, e logo depois entrou em coma, apresentando episódios de vômitos e dejeções sanguíneas, até que, às 17:00 h do dia seguinte, faleceu.

Essa morte teve analogia com a sanguinolência que foi a sua passagem pelo governo. Ele não hesitou em utilizar o poder que tinha, até criminosamente, contra seus opositores, cujos corpos foram ocultos e/ou abandonados ao tempo, para que se perdesse sua memória, prática continuada por seus discípulos, animados pelo espírito violento e conspiratório do seu alucinante testamento político.

Um rio de sangue, que ele tanto fez derramar fora de si, inundou-o, incontrolável, a partir de dentro, e o matou.

O seu sócio nessa empreitada, o governador Júlio de Castilho, com sua proverbial incapacidade de negociar com quem pensava diferente, ao final de seus dias viu crescer, na laringe, um tumor maligno, que a princípio se imaginou ser uma faringite.

Castilhos falecerá em casa, em 24 de outubro de 1903, durante uma tentativa de traqueostomia para corrigir um suposto edema de glote, aparentemente por causa de uma reação alérgica ao clorofórmio utilizado para a anestesia. O destino foi generoso com ele, pois, embora tenha perecido de um mal na garganta, não experimentou os cruéis estertores de centenas de gaúchos e outros brasileiros, degolados em sua luta pelo poder (14). 

Eduardo Simões.