segunda-feira, 19 de outubro de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 43

Almoço em Canudos?

Segundo o major Augusto, Moreira Cesar, animado pela facilidade com que o 7º escorraçou essa emboscada, muda os planos anteriores de pausar para atacar Canudos só no dia 4. Moreira César resolve de sopetão, ignorando o estado falimentar da tropa, atacar naquele dia mesmo, não sem antes fazer uma declaração absurda, maluca, segundo Augusto, registrada em Manuel Benício, Rei dos Jagunços, p. 159. E, como era habitual, Euclides a reinventa numa declaração mais absurda ainda:

“Meus camaradas, como todos sabem, estou visivelmente enfermo. Há muitos dias que quase não me alimento, mas Canudos está muito perto e vamos tomá-lo.”

Euclides da Cunha, sempre que se refere a Moreira César, tem que esculachar mais que os outros, pois, após dizer isso para os oficiais, ele se dirige ao conjunto da tropa gritando para os 1.200 soldados enfileirados em torno: “Vamos almoçar em Canudos! Respondeu-lhe uma ovação da soldadesca (Os Sertões, p. 324)."

Falar e ser ouvido por mil e duzentos homens é uma demonstração de vigor incomum para quem está “visivelmente enfermo” e há “dias quase sem comer”. O texto do jornal República, porém, diz que essa frase foi dita somente para os oficiais.

As questões são:

a) Por que ele ficaria sem comer se não faltava comida? E, se faltava, por que isso não aparece em outros testemunhos?

b) Por que a inapetência do coronel, “há muitos dias quase não me alimento”, não é citada por nenhuma fonte, nem pelo Major Augusto? Os médicos viram e se preocuparam com a epilepsia, que não havia, e não viram nem se preocuparam com a hiporexia flagrante do coronel, a ponto de ele ter que explicar isso para os soldados, como se fosse um recruta se justificando ao superior? Ou, na melhor das hipóteses, tudo isso é pura invenção.

c) Como é que um comandante, na véspera do combate, faz uma declaração dessas? É jogar para a derrota!

d) Por que ele seria tão detalhado na descrição de sua péssima situação pessoal, já que “todos sabem”, e ele estava “visivelmente doente”, como se quisesse tornar pública a sua condição pessoal de insano? Quem faz isso? Isso não é um criminoso se entregando à polícia, é ele entrar por conta própria na cela, se trancar e dar a chave para o delegado.

e) Se ele estava doente, cansado, faminto, sedento, como explicar a atividade febril dele ao longo de todo o dia 3 e, mesmo após ser ferido, perdendo sangue, ainda lutar 12 horas com a morte?

f) O Sargento Villela, que estava entre os soldados, não menciona nem esse discurso insano nem essa “ovação da soldadesca”.

Quanto a “tomar Canudos”, Rafael Augusto, que não perdia a oportunidade para perder o seu chefe, diz:

"A esse convite com caráter de ordem, corresponderam quase todos os oficiais."

Por que os oficiais que pensavam como o major, e ele próprio, não protestaram e deixaram passar para a posteridade a ideia de que a decisão de atacar recebeu apoio unânime? Por que se calaram? Essa é uma história posterior aos fatos, muito mal contada, sob circunstâncias muito suspeitas.

Essa mesma reunião foi presenciada de maneira bem diferente por alguém que esteve lá, aparentemente um oficial do estado-maior, que a narrou para um jornalista do jornal República, do Rio de Janeiro, e que foi, por sua vez, reproduzida pelo República de Florianópolis, em 6 de abril de 1897. Após Moreira César mandar tocar 'reunir oficiais', lhes diz:

"Camaradas. Desejo ouvi-los, pois a minha opinião é que o inimigo, fugindo à nossa frente, acha-se acovardado e é de conveniência entrarmos em Canudos a fim de que estes não levem ao conhecimento do Conselheiro notícias nossas, porque nesse caso, sem dúvida, não nos esperarão [ou seja, fugirão]."  

Os oficiais, continua o jornal, unanimemente concordaram com o coronel e deram calorosos vivas à república, mostrando grande entusiasmo pela empreitada.

Noutras palavras: a expressão que aparece no livro de Euclides da Cunha, e só nele, de "almoçar em Canudos", não foi escutada por mais ninguém.

Qualquer um que não seja tão espetacular como o Major Rafael Augusto sabe que um plano de guerra deve se submeter às condições objetivas do campo de batalha. Se a resistência dos canudenses, desde o início, fosse muito forte, seria bom ser cauteloso e avançar devagar. Mas os testemunhos dos sobreviventes, nos jornais, falam do 7º avançando como um rolo compressor, e Moreira César, mostrando competência profissional, resolveu aproveitar o momento favorável, com seus oficiais, não dando aos canudenses tempo para reorganizarem a defesa.

É evidente que o Major Augusto não está fazendo uma análise técnica nem objetiva do que aconteceu.

 

Os cartões de visita

A 6 km do arraial, o coronel, informado por Jesuíno Lima, segundo Cunha, da direção da cidade, ordena dois tiros de canhão na direção de Canudos. Com esse gesto, segundo Augusto, o coronel mostrava-se temerário, pois revelava a posição das tropas naquele momento, algo muito ridículo de dizer, pois a tropa já era acompanhada pelos canudenses desde Pitombas, cerca de 17 km antes.

Sobre esse tiro de canhão, é interessante ler Euclides da Cunha:

Moreira César pôs em batalha a divisão Pradel [tenente Marcos Pradel de Azambuja,  da artilharia] e, graduada a alça de mira para três quilômetros, mandou dar dois tiros segundo o rumo indicado (p. 325).

Ou seja: ao deixar uma margem de uns três quilômetros, ele evitou atingir aleatoriamente a cidade com os Krupp 7 ½, para não causar vítimas inocentes.

Esse relato é repetido pelo jornal República, com uma diferença: quem aponta a direção de Canudos são os oficiais de engenharia, e não o sertanejo Jesuíno. A marcha prossegue e Euclides da Cunha, sempre querendo complicar o coronel, diz que ele ordenou aos soldados que se livrassem de toda a tralha, própria para um cerco demorado, e somente com suas armas e munição básica, avançassem em passo acelerado rumo a Canudos.

 

O plano do coronel

Logo que Canudos, em toda a sua trágica magnificência, se apresentou aos seus olhos, o coronel, com uma visão tática excepcional, certificou-se de que eram corretas as informações que recebera, e logo percebeu a direção que devia dar ao ataque: contra as igrejas e o seu entorno. E a explicação é simples.

a) Ele já sabia, pelas informações obtidas no caminho, que os conselheiristas eram poucos e estavam mal armados. Suas armas eram antigas, de carregamento lento e forte desgaste sob fogo contínuo. O testemunho de Honório Vilanova o confirma.

b) O sertanejo é bom de tocaia, de guerra de escaramuças. A melhor forma de se contrapor a isso era com a guerra de movimento, com ataques rápidos de infantaria, concentrados nos pontos-chave, com a cavalaria pelos flancos.

c) A imponência da Igreja Nova e da Igreja Velha de Santo Antônio, cercada de um enorme casario desordenado e pobre, mostrava claramente qual era o grande, e talvez único, foco da comunidade e, ao mesmo tempo, o seu calcanhar de Aquiles: as igrejas.

d) Próximo às igrejas, havia casas de alvenaria e telhas, contrastando com os milhares de casas de taipa, muito mais simples, indicavam que ali se abrigava a elite local. Capturando essa área, não haveria mais razão para os moradores continuarem lutando, inclusive para poupar as igrejas — a correria dos canudenses em volta das igrejas, criando trincheiras ao seu redor e dentro delas, confirmava-o.

e) Um ataque firme e vigoroso a esses pontos de resistência garantiria uma vitória rápida, com um custo mínimo de vidas. Sem falar que pouparia as famílias mais humildes, que estavam abrigadas nos casebres ao fundo.

Ele projeta, então, um engenhoso assalto num movimento de pinças, para tomar ambas as igrejas e estabelecer uma cunha no coração do arraial. As condições eram-lhe amplamente favoráveis.

a) Os fuzis dos militares tinham uma cadência de fogo duas vezes e meia superior às melhores armas dos canudenses. Na defensiva, eles fariam ‘chover bala’ sobre os atacantes, no ataque contariam com a lentidão da recarga dos fuzis canudenses.  

b) A tropa estava bem servida de munição na retaguarda. Pelo menos 60 mil tiros.

c) Estavam bem treinados em ataques a baionetas, modo de luta estranho aos sertanejos, mas eficaz num combate corpo a corpo.

d) Percebendo a importância e a grande presença dos canudenses ao redor da Igreja Nova, ele lança contra ela a maior parte de suas forças. O 7º de infantaria, apoiado pelo 9º de infantaria, e a tropa da polícia para desbordar a cunha de ataque, apoiando o flanco, justo onde o casario era mais denso.

e) A Igreja Velha, à direita, ficou para o 9º de infantaria, do coronel Tamarindo, e a cavalaria se posicionaria também à direita, cobrindo a estrada para Jeremoabo, com o intuito de prevenir qualquer infiltração na retaguarda.

O General Araripe elogia essa disposição das tropas.

Outro detalhe importante é o rio, que no dia 3 de março de 1897 estava cheio. Euclides fala que os soldados que tombaram mortos enquanto atravessavam o rio foram levados pela correnteza. O Gazeta de Notícias diz que os soldados atravessaram com água pela cintura.

Após descer a barranca da margem direita do Vaza-barris, o 7º, seguido dos outros, avançou sobre o rio, com cada soldado carregando o seu fuzil sobre a cabeça, ante o tiroteio cerrado dos defensores. Eventualmente, um ou outro soldado era atingido, mas quase todos venceram a corrente, e daquela forma organizada, que impressionou os oficiais argentinos, arremeteram, organizados, em grandes linhas. Às vezes, uma fileira se ajoelhava, após o disparo, deixando a mira livre para a linha de, e assim sucessivamente, criando ondas sucessivas de balaços, como rajadas de metralhadora.

Quando alcançavam uma posição defensiva, a luta era tremenda, mas desigual para os sertanejos, que não se exercitavam no combate à baioneta e em grupos. Aqueles que ficassem para trás estavam perdidos. Os soldados, então, corriam para tomar a próxima posição.

Eduardo Simões

domingo, 18 de outubro de 2026

 MUNDO ANGLO-SAXÃO


Um romano, em Londres, pedindo cinco cervejas.

Acabei de comprar uma pedra para detecção de terremotos. Você a coloca no chão e, se ela começar a se mexer, é porque está havendo um terremoto.

A namorada: “Não sei por que você adora ‘Quanto mais idiota melhor’. Só os idiotas gostam daquilo?” “Pelo mesmo motivo que você adora ‘mulheres à beira de um ataque de nervos’.”

A baleia, no oceano, anseia por krill; no Brasil, por emendas.

Na escola, eu fazia parte de uma gangue chamada “Os Sete Secretos”. Éramos tão secretos que eu nunca soube quem eram os outros seis.

Eu tenho uma memória de elefante. Lembro-me de uma vez que fui ao zoológico e vi um.

Ontem à noite minha esposa me chamou de preguiçoso só porque  comprei uma escada rolante para casa.

Discordo daqueles que afirmam que as pessoas costumam morrer por causa do cigarro. Meu tio fumava e ele só morreu uma vez.

Levar um golpe nos testículos é mais doloroso do que dar à luz. A prova: os homens não querem levar outro golpe nos testículos, mas as mulheres querem dar à luz novamente.

Minha esposa disse que está me deixando porque eu “não sou bom de comunicação”. Vou provar o contrário mandando-lhe um e-mail amanhã.

Apesar de estar tomando a pílula anticoncepcional, minha namorada continua engravidando. Acho melhor eu parar.

Minha esposa não para de reclamar por eu ter gasto trinta libras em um Rolex falso, desde as 14h63m.

Eu nunca questiono a mim mesmo. Sem antes saber a resposta.

Eu estava na banheira quando pensei em você. Fiquei todo molhado.

Comprei um papagaio porque achei que seria legal ter um animal que falasse. Mas, como ele não sabia dizer “estou com fome”, morreu.

Eu não entendo o conceito de fast food (comida rápida). Quanto mais como, mais lento fico.

Minha esposa disse que vai me deixar e que vai garantir que o saldo da minha conta bancária fique zerado. É gentil da parte dela pagar o meu cheque especial.

Surpreendi minha namorada durante o sexo na outra noite... Chegando em casa mais cedo.

Seja você mesmo; os outros já estão ocupados.

Se você não consegue ficar comigo no meu pior momento, não me merece no meu melhor.

Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana; e não tenho certeza sobre o universo

Seja você mesmo e diga o que sente, porque quem se importa não importa, e quem importa não se importa. O resto é guia de importação.

Você sabe que está apaixonado quando não consegue dormir porque a realidade, finalmente, ficou melhor que os seus sonhos.

Só se vive uma vez, mas, se você viver direito, uma vez só basta.

Confissão de um quase-suicida apressado: tentei me enforcar outro dia, mas parei. Aquilo estava demorando uma eternidade, e o suspense estava me matando.


sábado, 17 de outubro de 2026

 


    A REPÚBLICA OPACA - TEXTO REVISADO
Acima, Rodrigues Alves no landau presidencial em 1908.

Eduardo Simões

A partir de 1898, o grupo paulista liderado por Campos Sales, Francisco Glicério, Bernardino de Campos e Rodrigues Alves começou a implementar aquilo que eles imaginaram ser a panaceia para resolver os conflitos personalistas, resultantes da falta de um projeto nacional e de discussões sobre a natureza da sociedade brasileira no início da República.

Esse início foi sacudido pelo personalismo autoritário dos militares, que se apresentavam, e de certa forma ainda se apresentam, como um grupo à parte, isolado da sociedade, mas o único com competência e disponibilidade para salvá-la de si mesma, conforme as regras estereotipadas dos ritos da caserna. Quando o general fala, todos calam a boca. A república inaugura no Brasil o personalismo sem freio nem outro contrapeso que não o humor do chefe do Executivo, ameaçando levar de roldão as instituições, o regime e o país juntos. Os sintomas mais graves foram a Revolta da Armada, a Revolta Federalista e a Guerra de Canudos.

A panaceia inventada por esse grupo, focado em ganhos financeiros e econômicos específicos de curto prazo, tinha o seu cerne na perspectiva de cooptar militares fogosos, ditadores em potencial e toda sorte de aventureiros aos interesses do grupo economicamente hegemônico, os cafeicultores paulistas,  dando uma espécie de verniz legal, institucional, à ação desses indivíduos, ganhando sua boa vontade para a política desse grupo, que só muito raramente se abria para as necessidades daquilo que no jargão político-sociológico costuma chamar-se “povo” ou “nação”.

A ideia diretriz era a de que o poder político no país nunca deixou de ser expressão dos desejos, necessidades, medos e aversões dos grandes chefes regionais, senhores de engenho, antigos barões e os barões do café paulistas e mineiros. Os fluminenses estavam em franca decadência. Nesse sentido, o importante era fabricar acordos entre esses grandes chefes, sintomaticamente chamados de coronéis, etiqueta verbal herdada do turbulento início do regime monárquico, mais tarde substituída pelo de “doutor”, como se a mudança dos termos causasse uma mágica mudança de comportamento, ainda que na fabricação de novos acordos fosse necessário sacrificar os mais “sagrados” princípios e valores; os mesmos que empolgaram as massas urbanas durante a campanha republicana. A nossa história às vezes parece uma ode ao “dia dos logrados”. 

Nada era “sagrado” nesse novo arranjo, muito menos a vontade do povo, expressa em eleições falsificadas ao bel-prazer dos caciques políticos ou das mais diversas necessidades do momento, em nome das quais se cometiam todos os excessos e até crimes, sem que o povo o soubesse, sendo mantido estrategicamente na sua bestificação original. Aqueles que se opuseram a essa desfaçatez, como o presidente Prudente de Morais, e o seu jovem grupo de dissidentes paulistas, gente com muito ideal, mas pouco apoio popular, foram tratorados sem cerimônia pela máquina, até retornarem ao "acordão" de Sales e Alves, para poderem continuar na política.

Esse projeto mambembe de república, que nos mostrava exatamente como éramos, justo quando mais nos imaginávamos diferentes, mais norte-americanos ou europeus, dignos de sentar-nos com as nações mais poderosas e avançadas do planeta, arrastou-nos na direção de uma sociedade de ciclos, exatamente como nas tribos pré-históricas que, ciclicamente, mudavam de endereço em função de fatores zoológicos ou meteorológicos. Economicamente, em virtude do Convênio de Taubaté, a economia e as finanças começaram a experimentar expansões e contrações, de acordo com o ritmo do plantio, colheita e venda anuais do café no exterior. Na política, o ciclo era mais espaçado, acontecendo de quatro em quatro anos, quando era necessário escolher um novo presidente. 

A esse respeito, o grande político e escritor mineiro Afonso Arino de Melo Franco, em sua biografia sobre Rodrigues Alves, tem algumas observações muito interessantes sobre isso:

“O poder pessoal do presidente, forte no presidencialismo norte-americano, embora refreado pelo Congresso e pela Suprema Corte, tornou-se praticamente absoluto na América Latina... o presidencialismo latino-americano é uma monarquia absoluta de prazo fixo” (Rodrigues Alves apogeu e declínio do presidencialismo; vol. II; José Olympo — Universidade de São Paulo; São Paulo; 1973; p. 524).

Noutro momento ele diz:

“A ausência de partidos nacionais e de autenticidade nas eleições... fazia com que as decisões sobre as candidaturas presidenciais fossem tomadas por detrás dos reposteiros oficiais”. Esse ‘detalhe’ existe até hoje. Não há eleições primárias nos partidos do Brasil. Quando vários candidatos acorrem a um cargo, instaura-se uma crise no partido, como no caso de Aldo Rebelo e Joaquim Barbosa, que acabou nos tribunais, e, no final, o partido ficou sem candidato. Quando situação análoga se abriu no PSD, o seu dono, Gilberto Kassab, disse logo: “a liderança do partido [ou seja, ele próprio] decidirá!” Nossa capacidade ou teimosia em repetir os mesmos erros são impressionantes.

Afonso Arinos relata detalhadamente como era a dinâmica da escolha do candidato do grupo majoritário, ou melhor, do vencedor da eleição, durante esse período (1889–1930).

“Grupos muito pequenos de políticos experientes... esboçavam acordos sempre anuláveis, assumiam compromissos sempre retratáveis, ou armavam-se reciprocamente ciladas nem sempre limpas... Quase tudo se processava em conversas reservadas, em cartas confidenciais, sondagens discretas. Esse sigilo fazia com que a imprensa [e os outros políticos] ficassem diante de combinações impenetráveis... e, por isso mesmo, veiculassem as mais infundadas versões [ninguém sabia nada]... Os manifestos solenes, as decisões convencionais eram simples ratificações das posições assentadas e dos compromissos assumidos... que nem chegavam a ser divulgados completamente” (idem; p. 526).

O novo sistema político criado pelo golpe de 1889 já nascia, portanto, completamente caduco, ou com um curto prazo de validade, como são os ciclos republicanos até o presente. E, já na primeira intervenção do "acordão" implementado por Campos Sales e Rodrigues Alves, na sucessão do próprio Alves, este já mostrou toda a sua disfuncionalidade, embora só seja definitivamente abandonado numa intervenção cirúrgica, como quem é obrigado a cortar as pernas de um morto que se recusa a deitar.

Vejamos, de uma forma simplificada, acompanhando o relato de Afonso Arinos, já citado, como foi a tormentosa sucessão de Rodrigues Alves, cujo diário foi a fonte de Arinos. É informação de primeira mão.

1º momento:

De volta de uma viagem a Minas, em agosto de 1904, Alves fica sabendo que o general Pinheiro Machado estava arregimentando apoio à reeleição de Campos Sales — da mesma forma que, no Império, os áulicos da corte recebiam títulos de nobreza, políticos próximos às forças armadas ou membros da Guarda Nacional recebiam patentes militares. Pinheiro Machado participou de combates contra os federalistas, mas não era militar de carreira. Essas patentes eram os novos títulos de nobreza, e um dos mais conclusivos sinais do nosso fetiche pela “autoridade” e “títulos simbólicos”.

Pinheiro Machado é um político gaúcho florianista, militarista e autoritário, que deseja a todo custo impedir que São Paulo faça o 4º presidente seguido. Rodrigues Alves é herdeiro da mentalidade e das práticas do Império, um conservador ansioso por manter a frente prevista no “acordão”, para o qual Machado não dá a mínima, embora se utilize dele para o seu objetivo: o engrandecimento político do Rio Grande do Sul e da ideologia que move o governo estadual: o positivismo. Lançando Campos Sales, que era mal visto em São Paulo, porque sua política deflacionista reduziu os ganhos dos exportadores, além de outros episódios internos derivados de sua personalidade arrogante, Pinheiro espera dividir os paulistas. O importante para Pinheiro era que o próximo presidente, se não fosse ele, teria que ser alguém fácil de ser manipulado por ele ou seu grupo.

Rodrigues Alves já tem um candidato no bolso: Bernardino de Campos, ex-braço direito de Prudente de Morais, cooptado para o “acordão”.

A justificativa de Pinheiro Machado parece ‘nobre’: era preciso ‘reparar uma injustiça’ — ele se referia à vaia colossal que os seguidores cariocas de sua ideologia e seus aliados deram em Campos Sales no final do seu mandato.

2º momento

Pinheiro foi ter com Rodrigues Alves e diz ter certeza de que não queria magoá-lo, afinal era um gaúcho propondo um paulista para a presidência, embora já fosse do conhecimento geral que Alves e os paulistas costuravam a candidatura de Bernardino, o que lhe foi exposto por Rodrigues Alves. Bernardino era um político muito mais viável e respeitável, justo o que Pinheiro não queria.

Rodrigues Alves fala ainda do apoio de Pernambuco à candidatura de Bernardino, mas Pinheiro não se impressiona e fala mal do líder pernambucano na Câmara, Rosa e Silva. Astuto e necessitado do apoio do pernambucano, Alves se cala, por saber que Pinheiro era mestre em jogar seus adversários uns contra os outros. Alves acha também que Pinheiro quer lançar Rui Barbosa. 

3º momento

A campanha por Campos Sales começa puxada pelos gaúchos e alguns paulistas. O primeiro objetivo foi atingido: os paulistas se dividem e, como nada é feito às claras nem dito oficialmente, a crença geral era de que esse era o desejo do grupo dominante em São Paulo. Mas não era necessário ser especialista para saber que, no momento em que ficasse sacramentada a candidatura de Campos Sales, o resto do Brasil se voltaria contra os paulistas. Era uma armadilha. E só Campos Sales poderia desarmá-la, negando-a peremptoriamente. Ele teria esse discernimento e essa grandeza?

Pinheiro se entrevista de novo com Alves. Lisonjeia-o, promete-lhe lealdade, e Alves escuta tudo calado. Tudo que Alves disser, que pareça inamistoso a quem quer que seja, será usado por Pinheiro Machado.

Alves e o seu grupo resolvem acelerar o lançamento de Bernardino de Campo. Jorge Tibiriça, chefe de um grupo importante de São Paulo, hesita e começa a perguntar se não é melhor lançar outro paulista à presidência, mas, se der, vota em Bernardino.

4º Momento

Rodrigues Alves começa sondagens em favor de Bernardino e ganha adeptos entre seus ministros (JJ Seabra e Lauro Muller). A situação nacional, então, era a seguinte: os pequenos estados, menos Paraná, com São Paulo de Bernardino; o Rio Grande do Sul com Pinheiro; a Bahia com Rui Barbosa; o Rio de Janeiro, com Minas e Pernambuco, acompanha o governo (Rodrigues Alves).

5º momento

Começa uma campanha asfixiante de difamação contra Bernardino, a partir do jornal O Malho, do senador Antonio Azeredo, um crente incondicional dos estratagemas de Pinheiro Machado. No Rio de Janeiro, Nilo Peçanha começa a se afastar de Bernardino.

Para se ter uma ideia de com quem Alves se metia, em 1915, Azeredo conseguiu que o presidente Wenceslau Brás interviesse, sem qualquer razão séria, no governo do general Caetano de Albuquerque, do Mato Grosso, por causa da distribuição local de cargos. O dicionário de políticos da Primeira República da FGV diz o seguinte dele: “Antônio Azeredo tipifica exemplarmente o representante político que utilizava com frequência sua capacidade de influir nas questões internas de seu estado, agindo a partir do Rio de Janeiro”. Rasgando, na prática, a Constituição, sem que ninguém desse por isso.

Alves ficou particularmente chocado com a campanha de Azeredo, uma vez que semanas antes este lhe havia confessado apoio à candidatura de Rui Barbosa e uma neutralidade simpática a Bernardino de Campos!

 

6º Momento

Nilo Peçanha, ideologicamente próximo a Pinheiro, retira o apoio do Rio à candidatura de Bernardino. Aconteceu o que se esperava. Os movimentos de Pinheiro Machado no sentido de isolar São Paulo estão funcionando.

A situação de Rodrigues Alves piora, uma vez que ele se mantém coerente com a política fiscal responsável de Campos Sales, valorizando a moeda, o que beneficiava o povo e a classe média, mas prejudicava os exportadores, além de sua política de valorização do café, que causava justos ‘ciúmes’ em outros estados.

 7º momento

Campos Sales começa a se entusiasmar por sua própria candidatura e a ficar ressentido com aqueles que não o seguem, como Rodrigues Alves. Em 11 de maio de 1905, os estudantes acadêmicos paulistas afogueados encampam a candidatura de Campos Sales por meio de um vigoroso manifesto, no qual exaltam Pinheiro Machado. Como é tradicional, eles são tão ingênuos, desinformados e manipuláveis que, ao assumir esse candidato específico, ajudam a inviabilizar qualquer candidatura de um paulista, porque tanto lutavam! O que seria dos espertos se não fossem os trouxas?

Num trecho de seu diário, Rodrigues Alves diz que o movimento de Pinheiro Machado visava, primeiro, impedir a eleição de Pena, e que poderia até aceitar o Bernardino, embora o seu candidato preferido fosse Rui. Há muitas nuances aparecendo e não há certeza, até hoje, do que esses homens pretendiam realmente com esses movimentos erráticos. Este texto que eu escrevo é baseado nas impressões de Alves. Outros autores dirão coisas diferentes.

“Pinheiro, ao mesmo tempo em que concentrava os esforços divisionistas em torno... de Campos Sales, não deixava de acenar para outros nomes prestigiosos” (idem, p. 540). Alves fala de Pinheiro, sugerindo, num banquete, o nome de Joaquim Murtinho, enquanto o Barão do Rio Branco conta, para um filho de Alves, que Machado também o sondou. Leopoldo Bulhões também foi sondado. Ele espalha meticulosamente a mais crassa divisão no entorno de Rodrigues Alves.

8º momento

Cada vez mais “assanhado”, Campos Sales alimenta grandes esperanças, justo quando Rodrigues Alves enfrenta a rumorosa Revolta da Vacina, em setembro de 1904. A bancada federal paulista cai no jogo de Pinheiro Machado, se divide e enfraquece o presidente e o seu candidato preferido. Campos Sales sonha!

“Não era pequeno [quantos?] o número dos que, tendo estado em franca hostilidade ao meu governo, me traziam agora a sua adesão leal e desinteressada” (idem; p. 541). Dizia Sales em um manifesto, em agosto de 1905, completamente embalado por suas próprias fantasias.

Quando um amigo lhe sugere que busque uma aproximação com Rodrigues Alves, Sales responde: “Uma intervenção, mesmo velada, do presidente, seria bastante para fazer suspeitar da espontaneidade do movimento... Ao Rodrigues Alves só cabe, pois, uma única atitude... a mais completa e escrupulosa abstenção” (idem; idem). “Ficaram, pois, os meus amigos sabendo... que eu repudiava... com absoluta intransigência a ideia de voltar ao Catete, com a condição de lá entrar pela mão de quem lá estava” (idem; idem).

Campos Sales já não mais fantasia; ele delira. Ao dizer isso, ele reproduz exatamente a mesma atitude de Prudente, em 1898, e da qual ele se queixou tão amargamente, afirmando que nada o ligava à assunção presidencial de Sales. Como o ébrio, que tentou tirar o padre para dançar no meio de um funeral, ele posteriormente expressará, em carta a Pinheiro Machado (de 5 de março de 1905), profunda mágoa pela falta de apoio de Alves à sua candidatura.

O escarro de Sales seguiu o mesmo percurso dos outros, obedecendo à lei da gravidade.

9º momento

Em meados de 1905, a candidatura de Campos Sales naufraga melancolicamente. Restava-lhe dar o troco em Alves, o que aconteceu no desfecho das discussões sobre o Convênio de Taubaté, no ano seguinte.

Nesse momento, Jorge Tibiriça e Rodrigues Alves cometem um grande erro. Lançam a candidatura de Bernardino de Campos num ambiente paulista muito dividido.

10º Momento

Bernardino de Campos dá uma entrevista catastrófica a Alcindo Guanabara, de O Paiz, em 26 de junho, criticando a política econômica de seus dois antecessores e falando em reformar a Constituição. Arinos suspeita que foi de caso pensado para implodir de vez uma candidatura que não pegava tração. No início de julho, ela é insustentável, mesmo em São Paulo.

11º Momento

Pinheiro Machado e sua turma, unidos na "Coligação", ainda tentando isolar São Paulo, convidam Afonso Pena de Minas para se candidatar à presidência. Ele topa e Minas se aparta de São Paulo. Rápido, Rodrigues Alves pede a Bernardino que abra mão de sua candidatura e apoie Pena, para não parecer que São Paulo foi derrotado. Bernardino se manifesta por escrito, abrindo mão de sua candidatura, elogiando Rodrigues Alves e aderindo à candidatura de Pena, seguido pela massa dos paulistas. São Paulo adere aos vencedores e os mineiros não tinham por que recusá-lo, pois não se viam como oposição ao governo. O plano de Machado gorou!

Pinheiro e Rui Barbosa ficaram muito irritados. Rodrigues Alves escreve: “Dizem que foi o senador Rui quem mais se irritou com essa atitude” [a adesão dos paulistas] (idem; p. 545). Pinheiro Machado, ‘virado no moi de coentro’, faz um discurso agressivo, quase ameaçador, no lançamento da chapa em Belo Horizonte, em 7 de setembro de 1906.

12º Momento

Outros movimentos, porém, partem da Bahia. Em março de 1905, é lançada a candidatura de Rui Barbosa, pelo governador da Bahia, José Marcelino, num ambiente dividido. O ex-governador Severino Vieira alerta Marcelino: “O nosso Rui... se impõe à admiração de todos pelo seu talento e erudição; porém, não é, nunca foi, e não poderá ser jamais um estadista” (idem, p. 546). Pura verdade. A candidatura de Rui só serviu para aumentar a confusão.

Indagado sobre Rui, o líder pernambucano Rosa e Silva é categórico: “Com Rui, nem para o céu”.

Aparentemente, segundo Arinos, mesmo não recebendo apoios significativos, aparentemente consciente de suas limitações, Rui engajou-se na campanha com afinco, pois a última coisa que queria era uma vitória de Bernardino de Campos, dentro do seu projeto político pessoal de ser sempre oposição. E ele foi coerente a esse objetivo até o fim, mesmo ao preço de sua maior frustração: nunca ter sido presidente da república, logo, nunca ter sido situação. Vá entender!

13º Momento

Rui vai à imprensa e apresenta um quadro maravilhoso sobre sua escolha e o seu poder de arregimentar apoios. Tudo fantasia. Mas ele acreditava nela. Mais tarde, mesmo reconhecendo a falta de apoio, ele continuou teimando. Mas vamos aos poucos.

Nessa ocasião, Minas ainda não se decidira. O governador do estado, Francisco Sales, apoia Rodrigues Alves. Mas se vê premido pela possibilidade de um candidato mineiro.

14º Momento

Pinheiro, sempre ele, promove um encontro entre Rui Barbosa e Afonso Pena. Rui se compromete a apoiar Pena, se ele unificar Minas Gerais, que ainda estava dividida entre Bernardino e Pena, com vantagem para este.

No Congresso, políticos afinados com Pinheiro começam a provocar os mineiros, para que estes acelerassem sua escolha caseira. Os acadêmicos mineiros saem às ruas em prol de Afonso Pena.

15º Momento

Espalha-se um boato de que Francisco Glicério e Campos Sales se articulavam contra Bernardino. Glicério procura Rodrigues Alves em favor da solução mineira, encampada por Pinheiro e os detratores do Malho.

16º momento

Rodrigues Alves recebe notícia de que Pinheiro Machado resiste a Afonso Pena. Arinos acha que Pinheiro resistia a Pena por simulação, para valorizar a sua escolha e ficar bem, mais tarde, aos olhos dos mineiros, fazendo parecer que sua escolha foi fruto de muita elucubração e estudo, e não consequência natural de seus conchavos e manobras, nem sempre honestas e transparentes.

Nesse momento, Pinheiro lança outro rojão de fumaça: Afonso Pena desistia de ser candidato em favor do governador Francisco Sales. A confusão aumenta.

17º Momento

Em 29 de julho de 1905, os jornais noticiam a desistência de Campos Sales e Afonso Pena. No meio de tanta desinformação, toda sorte de manchete estapafúrdia era possível.

A propósito: ninguém foi preso nem investigado pelo Supremo por isso

18º Momento

Afonso Pena procura Rodrigues Alves, notificando-o de sua candidatura, e fala-lhe de apoio de outros estados, com dados desatualizados ou não garantidos. Rodrigues Alves também é informado de que, nesse momento, em Minas, poderosos caciques ainda se opõem à candidatura de Pena. Esta informação teve prazo de validade curto.

19º Momento

Depois que o governo e os paulistas aderiram à candidatura de Pena, a Coligação reagiu indicando Nilo Peçanha, do Rio, para vice de Pena, um republicano radical e adversário visceral de Bernardino.

O nome de Peçanha foi escolhido por Rui Barbosa, como ele mesmo assume e afirma que “não podia haver termo de conciliação mais desinteressado, mais simpático e mais auspicioso” (idem; p. 550).

Alves reage, afirmando que o vice era antes “um aviso para o Pena [pois ele, um herdeiro da política imperial, teria ao seu lado um republicano radical] e uma provocação para o governo” (idem; idem). Ou o Rui era muito cínico, ou vivia no mundo da lua. As duas possibilidades não são desprezíveis.

20º Momento

Pena é procurado por Alves e Rosa e Silva (PE) e alertado sobre o perigo, mas diz que “receava renovar agitações” (idem; idem). Ou seja: “deixa para lá”, “para que fazer marola e ter mais trabalho”. O eterno caminho mais fácil, do “acordão” genérico, que cobrará no final a própria vida do Pena. Alves não devia ficar chateado com isso, afinal, foram ele e Campos Sales que puxaram o “acordão”.

Afonso Arinos completa:

“Afonso Pena não resistiu à política imposta pelo Bloco [o nome seguinte da ‘Coligação’ de Pinheiro], que culminou com a ameaça do seu próprio ministro da Guerra [Hermes da Fonseca, que, segundo alguns, levou-o à morte antes do término do mandato]. Com a morte de Pena, Nilo assumiu. Mas assumiu para ser instrumento passivo da antiga Coligação e consolidar a candidatura de Hermes. Rui Barbosa, parte fundamental em todo esse processo, rebelou-se, inutilmente, porém, na Campanha Civilista” (idem; p. 551). Rui cevou o bicho que, ao final, o devorou.

21º Momento

Abandonando a forma solene de anunciar o nome do candidato à presidência pelo grupo majoritário por meio de uma reunião solene das duas casas do Congresso, opta-se  por um documento assinado pela maioria dos deputados e senadores — afinal, o que estava se propondo ‘não valia nada’, e poderia ser completamente mudado na eleição seguinte, nem se propunha a nada que não fossem somente os interesses particulares e imediatos dos grupos hegemônicos. Rui redigiu o manifesto, que foi lido em 1º de setembro de 1905.

22º Momento

Em 27 de setembro, Rodrigues Alves registra que, num encontro com o general Mallet, Pinheiro Machado diz que estava recebendo cartas de oficiais do Exército, que se mobilizavam em oposição a Bernardino, e que o general Hermes da Fonseca estava disposto a ir falar com o presidente contra Bernardino, mas que ele, Pinheiro, o demoveu depois que Alves abriu mão da candidatura de Bernardino. Tudo uma invenção?

Em 1909, Hermes será lançado à presidência como uma ‘criatura’ de Pinheiro Machado, para um dos quadriênios mais catastróficos, senão o mais, da história da república.

23º Momento

Em 12 de outubro, realiza-se um banquete no Congresso, em que Pinheiro Machado faz um cavalheiresco brinde ao seu astuto e pertinaz adversário, Rodrigues Alves, que respondeu à gentileza, por carta, com outras amabilidades. Eram tempos horríveis, selvagens, patriarcais e desumanos, e não como hoje, quando, por exemplo, na posse de Lula, em 1º de janeiro de 2023, ele chamou várias vezes seu antecessor de “genocida”. No final, a CIVILIZAÇÃO VENCEU!!!

Em particular, Alves escreveu em seu diário uma observação do velho conselheiro Lafayette Pereira, do Império, que comparava Afonso Pena a “uma fechadura velha, que abria para todos os lados com chave, prego, dedo, etc.” (idem; p. 554).

O texto do manifesto de Rui, antes de ser lido, foi modificado, em alguns pontos, por Joaquim Murtinho, e, no banquete do dia 12, pego de surpresa, Rui rompe com a Coligação, ou Bloco, dizendo não ‘ser camarilha’ a decisões de que não participara. Não sacrificaria ‘a consciência, a honra e o respeito’ a si mesmo”. E depois foi aos jornais. O divórcio antecedeu o casamento.

24º Momento

Em 18 de dezembro, Rodrigues Alves sobe a Petrópolis com a família, diante do novo surto de febre amarela, na cidade que fizera guerra à vacina, e lá ficou até após a eleição, sem ser molestado, pois nessa época o voto era um direito, que os brasileiros exerciam se quisessem; como todo direito, e não uma obrigação para agraciar espetáculos infames.

As eleições no Rio e em muitas partes foram tão esvaziadas e desinteressadas que faltaram cédulas eleitorais e várias seções ficaram fechadas; os números que apareceram nas atas eram ‘fabricados’ na hora da contagem e escritos no papel ao sabor de quem o escrevia.

Mesmo as seções que funcionaram apresentavam um ar desolador de salas abandonadas. Segundo o jornal A Tribuna, “as mesas sonolentas e tristes esperavam debalde os eleitores... que só por maravilha apareciam, olhando com espanto as salas desertas”. (idem, p. 555)

Enquanto Rodrigues Alves ganhou 592.038 votos, 93,30% dos votos válidos, em 1902, Afonso Pena recebeu 288.285 votos, cerca de 97,92% dos votos válidos, em 1906. Menos da metade em termos absolutos.

25º Momento

Alguns jornais de grande circulação, desinformados ou mal informados, em meio a tantos boatos, faziam as análises tão ridículas — diferente de hoje. Para eles, Rodrigues Alves maculara sua biografia mostrando apenas oportunismo, ao se agregar ao grupo vencedor. A grande estrela dessa eleição seria o inigualável gênio nacional Rui Barbosa; enquanto Pinheiro Machado seria o agente fracassado de uma comédia barata. Essa gente não tinha a menor ideia do que acontecia no país, embora fossem a principal fonte de informações sobre o país.

26º Momento

Rodrigues Alves termina seu mandato completamente isolado e repudiado pelas lideranças políticas da república, inclusive as de São Paulo, como já acontecera com Prudente de Morais e Campos Sales, para não falar da solidão mortal de Afonso Pena, em seguida. No final do seu governo, “com exceção dos auxiliares diretos, da família e de alguns amigos mais chegados, Rodrigues Alves [mesmo muito popular] termina o governo abandonado pelo meio político... Hostilizado no Congresso e na imprensa... Os amigos mais chegados, como Glicério, iam se bandeando... A presença do general Hermes [num duelo de Pinheiro Machado contra um jornalista] violava os regulamentos militares, mas consolidava a aliança entre Pinheiro e uma poderosa corrente dentro do exército... Em 29 de abril [de 1905] desceu de Petrópolis... Em tais ocasiões recebia numerosos congressistas; desta vez eram seis... [Em] 7 de julho, seu aniversário... ‘Dei recepção no palácio como de costume... muitas cartas e telegramas [de políticos], mas afastamento dos amigos’... Em São Paulo...o presidente Tibiriçá só com muita insistência concordou em fazer o clássico brinde de honra ao presidente da República... Em Lorena, quando da inauguração da fábrica de pólvora... o representante de Tibiriçá não quis fazer brinde ao presidente da República [que investira na fábrica].

A ideia de que as classes agem monoliticamente em vista a uma fantasiosa luta de classes, gerando análises que supõem os representantes da classe no governo se sucedem pacífica e consensualmente na Primeira República do Brasil, é de uma jocosidade impagável. Não resiste nem a um segundo de documentação séria. Frequentemente, o pior inimigo desses chefes era outro chefe do mesmo quilate e não os seus empregados por ele 'explorados'. Não raro esses chefes se aliam a seus empregados e os promovem para enfrentar seus pares.

Que o autor Afonso Arinos tinha qualificação para dar informações confiáveis, basta saber que ele foi casado por 61 anos com uma neta de Rodrigues Alves.

Conclusão.

Do exposto acima, podemos tirar algumas conclusões:

1 – O processo de escolha do presidente da República era feito em reuniões secretas, pelos mais poderosos chefes da política nacional, sem qualquer regra prévia que permitisse um certo preparo por parte dos que poderiam eventualmente se candidatar ao cargo. Mais ou menos como no Império Romano, quando não havia regra pactuada para a escolha do Imperador e os indivíduos mais inadequados acabavam ocupando o cargo.

2 – A dinâmica do processo era desconhecida até pelos principais articuladores, que precisavam a cada momento se adaptar às mais variadas mudanças de cenário e, no final, até apoiar a quem antes faziam oposição.

3 – Uma das principais características desse processo era a sua obscuridade, a sua completa opacidade, de sorte que ninguém, fora de alguns grupos muito seletos, ficasse sabendo de fato o que estava acontecendo. Era fundamental não parecer perdedor diante do grande público, que lidava com esse assunto como um torcedor, durante uma partida de futebol, em que se vibra com a vitória do seu time e se entristece com a derrota, porque, nesse caso, vai ser vítima das brincadeiras do time oposto. Esse é o espírito que embala nossos políticos atuais, convencidos de que o pior e único pecado do político é perder a eleição. As eleições viraram um fim em si mesmas, confundidas com a essência da democracia, embora nenhuma ditadura sobreviva sem eleição.

4 – Não há em nenhum momento dessas negociações qualquer apelo ou preocupação com danos ou benefícios ao país a curto ou longo prazo. Pelo menos isso não aparece nos discursos de Rodrigues Alves e nos complementos de Afonso Arinos. É tudo uma questão de nomes e valores adaptáveis às circunstâncias do presente.

5 – Não há nenhum apelo ao povo ou menção dele, como se não importasse de maneira alguma. Mesmo dentro dessas seitas sem doutrina que eram e ainda são os partidos, ninguém pensava, ou pensa, em fazer uma mobilização de militantes para resolver uma pendência ou situação de difícil acerto. O povo era o grande ausente nos projetos políticos dessa elite; já hoje é tratado como massa de manobra, como escudo, para proteger maus políticos do alcance da Justiça, nas raras vezes em que esta decide fazer justiça.


 MUNDO ANGLO-SAXÃO

Tirinha explorando estereótipos: O QUE DIZER ANTES DAS REFEIÇÕES. Na França, Alemanha e Itália, todos dizem, na sua língua, “Bom apetite!”. Na Inglaterra, onde a comida vem em uma lata ou caixinha, a expressão mais correta seria: “deixa para lá”. Equiparando a rica culinária desses países com o desinteresse tradicional dos ingleses nesse assunto.

Minha mulher é uma grande amante... das conversas com as amigas.

Um homem entra em uma biblioteca e pergunta: — “Você tem algum livro sobre como lidar com a rejeição sem cometer um crime?” — “O senhor não quer perguntar isso noutro lugar?”

É um contrassenso dizer a alguém para “ir arrumar o que fazer” no Facebook?

Na escola, me acusavam de ouvir a conversa dos outros. Só queria que dissessem isso na minha cara.

Algumas pessoas caçam marfim nas florestas, e outras nas salas de concerto.

A preferência por leite desnatado afeta a autoestima dos bovinos?

“Garçom, tem uma mosca na minha sopa!” “Fale baixo, senhor, ou todo mundo vai querer uma também!”

Se as pessoas soubessem que o som é uma onda, não fariam tanta questão para as coisas serem ditas na sua frente.

As pessoas vivem solicitando que as opiniões sejam ditas na sua frente, quando basta o ouvido ao lado.

Um casal de jovens vinha conversando pela calçada, quando uma mulher, muito generosa, passou à sua frente. O rapaz se entusiasmou: “Isso é que é uma mulher de verdade!” “Não, onde você está olhando!” Completou a amiga.


terça-feira, 13 de outubro de 2026

 


ATENÇÃO, PESQUISADORES SÉRIOS, COM RECURSOS E PRESTÍGIO.

Um livro com vários autores, editado pela Fundação Casa Rui Barbosa, chamado "Canudos: subsídios para a sua reavaliação histórica", afirma na página 45, que foi reunido no Quartel da Palma, em Salvador, um Conselho de Investigação, para apurar o que aconteceu na 3ª Expedição a Canudos, do coronel Antonio Moreira César. Li nos jornais O Paiz e Gazeta de Notícias que esse conselho era composto por 3 coronéis e pôs frente a frente o major Cunha Mattos e o tenente Azambuja Pradel, da artilharia, cujos relatórios divergem completamente sobre o que aconteceu na retirada, sem falar da possibilidade de terem sido ouvidos outros oficiais, como o tenente do estado-maior da coluna Francisco d’Ávila e Silva, cujos depoimentos aos jornais contam uma história bem diferente daquela que foi consagrada por Euclides da Cunha.

O BRASIL PRECISA SABER A VERDADE!


 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 42

O coronel Moreira César escolhe a sua hora.

O que aconteceu nos últimos momentos do coronel Moreira César só sabemos por meio do relatório do major Rafael Augusto, ‘enfeitado’, para fins literários e políticos, por Euclides da Cunha. Trechos desse relato aparecem em Manuel Benício. Eles nos jogam para os primeiros dias de março de 1897, numa Quarta-Feira de Cinzas. Seguirei também os dados do livro de Oleone Fontes: O Treme-terra Moreira César, a República e Canudos, sempre fazendo referências aos grandes esquecidos por esses livros: os jornais da época.

No penúltimo trajeto da viagem, de Cumbe a Rancho do Vigário, tanto Euclides como Benício falam de um terrível problema de falta d’água, agravado pelo fato de não terem levado ferramentas adequadas para a instalação de uma bomba d'água. Benício fala que faltou uma marreta para cravar a bomba no solo. Euclides, compreensivelmente, para o objetivo de sua obra, diz que não só não levaram a marreta como levaram um macaco, para erguer peso, como a querer mostrar que havia um completo maluco no comando da tropa (12).

Mais estranho ainda é o relato do sargento Marcos Evangellista da Costa Villela Junior, em Canudos: memórias de um combatente, que descreve minuciosamente esse deslocamento, ressaltando as dificuldades do transporte da artilharia — cada Krupp 7.5 pesava cerca de 900 kg. Mas ele nada fala sobre fome, sede ou qualquer outra privação, muito menos de bomba d’água, cujo fracasso certamente causaria um grande impacto entre os soldados, supostamente  muito sedentos, famintos e cansados.

Não existe nada nos depoimentos de Villela Junior, uma testemunha ocular, que se pareça com o relato euclidiano de:

“A tropa estava exausta. Exausta e sequiosa. Caminhara oito horas sem parar, em pleno arder do sol bravio.

A tropa combalida abalou à tarde… foi essa jornada de oito ou dez léguas, sem folga. Mil e tantos homens penetrando, quase em cambaleios, torturados de sede, acurvados sob as armas, em pleno território inimigo.”

O depoimento do general Tristão de Alencar Araripe, estudioso do tema, complementa o sargento da artilharia, negando Euclides:

“Até ali [dia 2 de março, no Rancho do Vigário, a 19 km de Canudos] vinha a expedição se deslocando com método, em jornadas curtas, com longos descansos” (p. 59).

Segundo Villela Jr., em Monte Santo, o capitão Jesuíno Lima, fugido de Canudos, se juntou à tropa para acertar contas com Pajeú, o suposto matador de seus parentes, numa das versões. Villela também fala da casa destruída de uma família, massacrada pelos jagunços; ele disse que viu “pedaços de couro cabeludo pregados pelas paredes” (p. 18). Ou a comunidade de Canudos não é o remanso de paz e justiça que se conta, ou estavam acontecendo coisas pelas costas do Conselheiro, ou as duas coisas.

A destruição vista por Vilella confere com a afirmação de Robert Levine (O sertão prometido — O massacre de Canudos, trad. Monica Danta, EDUSP, 1995, p. 241 e 249). Levine é simpatizante de Canudos e do Conselheiro.

“Foi Zé Venâncio que ordenou a destruição das fazendas e pequenas residências dos arredores para que não pudessem ser utilizadas pelas forças do governo.

Os combatentes do Conselheiro haviam deixado um mar de desolação ao redor de Canudos, queimando sítios e fazendas… num raio de 10 km.”

Quem resistiu foi morto, como se viu na casa ocupada por Vilella Jr.

Véspera

Moreira César reviu seus planos, pesou e repesou as suas decisões até ali e as que tomaria no dia seguinte, pois seus olheiros e até a enorme sensação de paz e tranquilidade que havia ao redor do acampamento gritavam aos seus instintos: “Esta é a hora.” Não retrocederia. Amanhã, Canudos será atacada e tomada, independentemente do que políticos, povo e até outros militares pensassem, pois esse era o seu dever e a coisa certa a fazer.

“Então vão me matar?” Pensou ele enquanto manuseava cartas e telegramas de amigos vindos do Rio de Janeiro, alertando-o. “Vou lhes facilitar as coisas.” Chamou o alferes Poli e, com a ajuda de alguns soldados, levou a sua barraca vários metros para fora do acampamento, ultrapassando o limite de segurança, e para lá levou suas coisas, ficando sozinho. Olhou para o acampamento, enquanto dizia para si mesmo: “Se querem me matar, estou aqui, sozinho.” Era o dia 2 de março, terça de carnaval, início da lua nova.

Tempo de escuridão.

Partida

No dia 3, pela manhã, a brigada desperta excitada de seu acampamento em Rancho do Vigário, com a perspectiva, segundo o major Augusto, de marchar e acampar em Angico, a 9 km de Canudos, e aí descansar para o ataque no dia seguinte (13). O que não faz o menor sentido, pois seria o mesmo que dizer aos conselheiristas: “Preparem-se, que nós vamos atacá-los.”

Moreira César acordou bem disposto, fez a barba e escolheu a melhor farda que trouxe. Um soldado levou-lhe o desjejum, após o qual fez o asseio possível naquela circunstância e vestiu o seu uniforme. Impecável.

O tenente Francisco d'Ávila veio vê-lo, cumprimentou-o e, reparando no uniforme, estacou, arregalando os olhos.

— Está tudo bem, senhor?

— É por causa disso? Acenou com a cabeça, apontando o uniforme.

— Pois é, o senhor não acha perigoso?

— Algo me diz que hoje será um grande dia para mim. Nós os pegaremos totalmente desprevenidos e, se tivermos audácia e coragem, encerraremos essa campanha e voltarei para o meu ninho. Agora, se vou pedir que os meus soldados arrisquem a vida para vencer o inimigo, eu nem posso ficar na retaguarda nem me expor a um tiro, e isso é o máximo que farei, consoante às minhas obrigações, para estar mais próximo deles. Eles sabem o que espero deles, e eles o que esperar de mim. Confio que eles saberão o que fazer. No final, se Deus quiser, comemoraremos juntos um bom resultado.

— Tudo bem, senhor. Mas não se exponha com isso.

 — Não pretendo dar esse prazer aos conselheiristas.

Saiu e dirigiu-se a um grupo de oficiais que conversava animadamente. Ao vê-lo, calaram a conversa imediatamente e o olharam, estupefatos. E começaram a cochichar.

— Só pode ser provocação!

Os soldados, que também estavam se preparando e já quase perfilados para sair, quando o veem aproximar-se, voltam-se, como se fossem um só homem, na sua direção, e, ao vê-lo naquele uniforme, percebem instintivamente o que ele queria lhes dizer, ficando ainda mais alvoroçados.

— É isso aí, senhor, vamos pegá-los!

— O coronel é um dos nossos! Ele confia em nós!

— Hoje é um grande dia! — repete ele.

— Esse coronel é muito valente! — diz um soldado ao seu companheiro.

— Ao seu lado, a gente não sente medo, respondeu.

E se aglomeram ao redor do seu cavalo.

— Vamos para cima sim, meus amigos, nós somos todos soldados brasileiros, nada nos assusta nem nos detém no cumprimento do dever. Teremos daqui a pouco uma grande batalha na qual daremos o melhor de nós para nos tornarmos dignos dos que nos precederam. E falo não só dos grandes como Caxias, Osório, Sampaio, Mallet, mas também dos soldados, como vocês, que com eles partilharam suas jornadas, e hoje compartilham da celestial com eles, da mesma forma que nós, em breve, estaremos nos braços de Santo Antônio.

Os soldados entenderam que ele falava do Morro de Santo Antônio, no qual ficava a sede do batalhão. Um veterano aproximou-se emocionado, com lágrimas nos olhos.

— Senhor, é uma honra servir sob o seu comando.

— A honra é toda minha.

Ele estava alegre e falante, sentia-se à vontade, quando percebeu o jovem Cabo Colombo Sabino e chamou-o para junto de si. Abaixando-se, lhe diz:

— Quando rever seu pai, diga-lhe que foi uma honra conhecê-lo e que ele tem muitos motivos para ter orgulho do seu filho. Mande lembranças minhas ao povo de Santa Catarina.

O jovem cabo estranhou porque ele estava utilizando os verbos no passado, e ele quase o perguntou, não fosse o alvoroço ao redor. Pouco depois, empertigando-se no cavalo, o coronel gritou com toda a força:

— Sentido!

Todos correram para assumir o seu lugar de marcha, enquanto ele acelerava um pouco na direção dos oficiais. Enquanto se adiantava, os soldados gritavam, chamando-o pela sua patente, agitando o boné ou levantando os fuzis, fazendo um grande alarido, e lá seguia ele, num cavalo branco, com o seu uniforme de gala, também todo branco. Um alvo perfeito. Só faltava estar escrito em suas costas: “Se vão me matar, o alvo é este!” 

Os interessados receberam o aviso e se preparavam para a resposta no tempo oportuno. 

Pitombas

Meia légua depois, em Pitombas, ocorre uma escaramuça com as sentinelas de Canudos. Nesse tiroteio ocorre uma perda pessoal para o coronel: logo após os primeiros disparos, um esquadrão de cavalaria realiza uma carga temerária contra os atiradores e o alferes Poly Coelho, o seu braço direito, cai gravemente ferido. Outro que é ferido nesse combate, segundo relatos do Gazeta de Notícias (RJ), é o próprio Moreira César, com um chumbinho na omoplata — mostrando a precariedade das armas dos canudenses. 

Mesmo com esse desconforto, ele continua comandando ativamente as operações da tropa e ordena ao major Rafael Augusto uma carga de infantaria contra os tocaieiros.

O sétimo avançou firme sobre as sentinelas, que, surpreendidas pelo ímpeto da tropa, fogem. Na volta, sempre procurando atrair o major para o seu lado, e também porque ele o merecera, dirigi-lhe elogios — Augusto, segundo o seu relato, aproveita para mais uma vez dizer que aquilo era uma manobra e o pior os aguardava dentro da cidade. Alguns jornais do Rio, após a derrota da 3ª Expedição, reforçaram isso com histórias mirabolantes da coluna entrando numa Canudos, toda vazia, para ser atacada, de repente, por um número incontável de guerreiros bem armados e municiados, atirando de dentro de suas casas-fortalezas. Como se fosse uma cidade europeia.

O jornal República, de Florianópolis, reproduzindo matéria do República, do Rio de Janeiro, traz na edição de 6 de abril de 1897:

“Nesse primeiro tiroteio, foi ferido o coronel Moreira César, levemente, mas não menos dolorosamente, na omoplata, e o tenente Costa [da polícia], na coxa. Igualmente, sem gravidade.”

 

A morte de Poli Coelho.

Após o reinício da marcha, alguém vem anunciar-lhe que o alferes Poli falecera em virtude do ferimento. Ele fez alto e foi ver, pela última vez, o corpo do amigo, que ficara em Pitombas.

Ele mira o cadáver pensativo, e nesse momento tem um vislumbre do destino que lhe esperava, não diz nada, apenas olha o despojo, talvez pensando na sua própria morte. De alguma forma ele a antecipava. Bateu-lhe continência e saiu dali mais convicto do que nunca. Faz ainda uma última recomendação aos médicos e ao pessoal da retaguarda.

— Um soldado fica onde cai. Aqui não são os Pampas — o alferes era gaúcho — mas ainda é Brasil. Cavem uma sepultura digna para o alferes Poli Coelho e os outros, que em breve nos veremos. Voltou para a frente da coluna, onde ordenou, categórico:

— Major Rafael Augusto, mantenha seus homens na cola do inimigo. Corneteiro, toque acelerado!

Parece que o alferes Poli Coelho e um soldado foram as únicas baixas fatais que a coluna vai amargar antes de chegar a Canudos. Mais adiante, apresentam-lhe uma pequena espingarda sertaneja, modelo pica-pau ou lazarina, abandonada pelos atacantes. Ao vê-la, Moreira César, que já sabia da precariedade das armas dos sertanejos, brada: “Essa gente está desarmada!” Ao tenente Mário Barbosa, com uma companhia do 7º, é ordenado que espere, com a força da polícia e o esquadrão de cavalaria, que os médicos façam os primeiros curativos nos feridos, e depois sigam ao encontro da coluna.

É bom realçar aqui esse pequeno trecho do jornal Cidade do Rio de Janeiro, de 15 de março de 1897, chamado SUCESSOS DA BAHIA, 1ª página, produzido pelo correspondente do jornal na Bahia:

“A ambulância e o comboio vinham protegidos pela polícia; a cavalaria vinha comboiando o gado para a alimentação da brigada.”

Esse pequeno texto, referente a esse deslocamento, mostra o quanto é maldosa e pérfida a afirmação de que Moreira César atirou soldados cansados e famintos contra Canudos. Eles sempre tiveram comida, munição e descanso — segundo Dantas Barreto, quando saíram de Cumbe, a manada de bois, à disposição dos soldados, seria de 150 animais (Acidentes da guerra, Livraria Riograndense, Rio Grande do Sul, 1905, p. 95).

Considerando que cada bicho fornecia de 200 a 300 quilos de carne…   

Eduardo Simões.