segunda-feira, 6 de julho de 2026

 

O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA - 30

Uma hipótese diferente

Conhecemos o isolamento e o descaso a que foram entregues as populações do interior do Brasil ao longo do Período Colonial. Havia leis e decretos severos restringindo a ida de colonos portugueses para o interior, e a causa disso estava originalmente ligada ao projeto de garantir as rotas marítimas para o Extremo Oriente, contando somente com os colonos portugueses e seus aliados indígenas.

Era, portanto, fundamental mantê-los próximos ao litoral, para o reabastecimento dos navios e como força de dissuasão a invasores. Posteriormente, com a perda do Oriente, as proibições de internamento das populações foram mantidas, mas com menos severidade, pois agora se tratava de impedir o desvio das riquezas da colônia, por uma questão fiscal. Era preciso um controle estrito do fluxo de gente e mercadorias, afinal, o Estado português já estava gastando por conta do que ia encontrar.

No semiárido, porém, a fusão da cultura portuguesa com a indígena, turbinada pela chegada de africanos e seus descendentes, fugidos da escravidão dos engenhos em busca de locais culturalmente protegidos. Esse movimento, e outros, criaram uma 'civilização do semiárido', com suas peculiaridades, graças ao esquecimento a que foi relegada, ante a aparente falta de recursos naturais que atendessem ao extrativismo argentário luso, ou outra atividade rentável, que compensasse os custos de montar uma estrutura estatal na região.

Semifeudal e semicapitalista, o semiárido aprendeu a viver à revelia do Estado, recorrendo a ele supletivamente. Mas, sem este para mediar os conflitos da vida em comunidade, impor um direito, o que sobra é o poder do chefe de família, que pouco difere do dos chefes nativos, que era também o da memória dos afrodescendentes. As três culturas se entrelaçaram e, abandonadas pelos agentes do Estado, voltaram-se para os desafios da sobrevivência e os símbolos culturais dela decorrentes, num meio climático muito desafiador para os recursos da época. Uma sociedade de ritmo mais 'lento' tentando se adaptar aos lampejos de mudanças que, de tempos em tempos, a atingiam.

Isso, aparentemente, explica algumas características da antiga sociedade sertaneja, na qual as relações familiares, de matiz patriarcal, são fortemente cercadas de símbolos socialmente impostos, porque cumprem uma função ideológica, explicativa sobre o sentido do mundo, fortemente hierarquizada e belicosa. O conceito abstrato de honra, subjetivamente definido, era causa de conflitos tão inesperados quanto sangrentos, até que o ofendido sentisse a sua honra plenamente 'lavada'. Nesses conflitos, quem definia se o objetivo fora alcançado, em geral, era o que sobrevivia — há até um dito de Gustavo Barroso que expressa bem a mentalidade reinante: No semiárido, o homem que não se vinga está moralmente morto.

Esse foi, em parte, o caso de Vicente Mendes Maciel, o pai, e de Antônio Vicente Mendes Maciel, enquanto este não fugirá ao embate como na sua versão anterior de humilde negociante, advogado ou professor, mas perecerá matando a quem se lhe opõe, ainda que pelas mãos de outros.

As grandes famílias, como nas tribos e nos feudos, eram centros de poder, criando suas próprias leis, obrigando tanto o Estado português como o imperial a se submeterem a elas — o livro de Billy Jaines Chandler, Os Feitosas e o sertão dos Inhamuns, faz observações interessantes a esse respeito. Como nos feudos, essas famílias viviam brigando por territórios que as protegeriam economicamente: terras agricultáveis e fontes d'água perenes — o termo feudo, aqui, é utilizado somente no sentido analógico e não conceitual.

A vida tendia a ser curta, violenta, repetitiva, com baixo consumo — sem qualquer sentido pejorativo ou negativo —, mas, para uma grande maioria, isso era natural, fruto do pecado de Adão e Eva. Os de fora viam isso como fruto de uma mentalidade 'fatalista', 'retrógrada', mas era justamente ela que ajudava a manter a estabilidade mental de muita gente ante os impactos da dureza das relações humanas e com a natureza. A mortalidade e a natalidade eram altas e a expectativa de vida, baixa.

O grande problema no sertão era a chegada de uma seca, que, de tempos em tempos, em um ritmo quase previsível, revolucionava a vida de todos e interrompia a estagnação na qual as mentes se vissem, porventura, tentadas a permanecer.

Mas até ela tinha o seu lado positivo, pois eliminava o excedente de vivos, que o homem nordestino fazia com tanto gosto, às custas da saúde e até da vida de suas companheiras, o que ele também atribuía à Vontade Divina. O excesso de nascimentos também compensava os que pereciam por causas diversas, inclusive as secas anteriores. A seca também desorganizava, momentaneamente, o espaço social, ou impunha uma reacomodação das estruturas vigentes ao nível dos médios e pequenos proprietários. Mas, tudo bem, a seca já estava incorporada ao pecado do homem e à onipotência divina.

A sensação de autonomia duramente conquistada nos períodos de abandono foi fortemente chacoalhada pela imposição da República e de uma nova política econômica, conduzida por uma elite mais dinâmica, interessada em explorar o potencial econômico das áreas mais letárgicas do país. Desenvolveu-se um sistema mais abrangente de impostos em moeda, para financiar uma estrutura de serviços públicos mais ampla e profissional e investimentos na produção, que a desordem e a corrupção transformaram em carestia e conflitos sociais.

Pegas de surpresa, as elites sertanejas, que tinham um pé no mundo moderno e outro no sertão, procuraram se adaptar, aumentando as exigências sobre a mão de obra. No tempo do Império, a voracidade dos barões era em parte mitigada pelo poder da Igreja Católica, incrustada na estrutura de Estado ou nas casas senhoriais, mas, com a separação da Igreja do Estado, a tendência foi de uma piora das relações. Uma sensação de que no passado era melhor, quando havia mais 'liberdade' ou menos Estado, o que, nesse caso, quer dizer menos impostos e obrigações políticas, enraíza-se no imaginário de muitas pessoas. Os sertanejos mais pobres estão tão isolados quanto antes, mas agora sofrem exigências por parte dos coronéis e agentes públicos, que precisam arrecadar mais impostos e mais votos nas eleições.

Essa desorientação existencial vai encontrar uma válvula de escape na pessoa do estranho pregador, que, por meio do discurso religioso apocalíptico e da vida despojada, se tornará o porta-voz daquela população, um sinal maravilhoso de que o modo de vida tradicional é o certo. Isso os fará sustentar e fortalecer as iniciativas do pregador, num processo de retroalimentação mútua. O sertão dos mais pobres e dos mais ‘conservadores’ — no sentido etimológico do termo — reencontrava, no Conselheiro, a sua identidade mais profunda e a sua força para exigir das autoridades republicanas e dos coronéis a sua cota de respeito e até independência.

Enquanto o sertão da Bahia pegava fogo, a temperatura política no Rio de Janeiro estourava os termômetros.

Um ninho estranho

Pouco depois que assumiu o governo, em 11 de novembro de 1896, Manuel Vitorino convoca uma reunião com o ministério de Prudente, acompanhado de alguns de seus apoiadores florianistas, entre os quais Francisco Glicério. Pretextando a necessidade de dar uma nova dinâmica ao governo, que estava “muito paralisado”, eles chegaram à conclusão de que era hora de cobrar do presidente, pelo bem da república e de sua saúde, a sua patriótica renúncia do cargo” — o autor dessa sugestão teria sido o deputado gaúcho florianista Ramiro Barcellos.

Que felicidade para o nosso país ter sempre tantos políticos pensando nele! 

Bernardino de Campos, amigo de Prudente e seu olheiro no Itamarati, propõe, para evitar a deposição do presidente, uma reforma ministerial completa, para o ministério ficar com a cara da nova administração. Ele manobrou com tanta habilidade que conseguiu até se tornar ministro de Vitorino, na pasta da Fazenda, sempre levando a Prudente as últimas sobre as tramas daquele.

O florianismo passa a ter uma forte presença no Governo Federal, em especial na ala militar, na qual o general Francisco de Paula Argolo, homem de confiança de Floriano, substituiu o general Dionísio Cerqueira, da ala profissional, no Ministério da Guerra. Isso feito, Argolo, como era a regra, nomeia o também florianista marechal Bibiano Costallat Ajudante-General do Exército. Os dois postos mais importantes do Exército estão nas mãos deles.

Vitorino se deslumbra e adquire o Palácio do Catete, que, dado como garantia de um empréstimo, fora incorporado ao patrimônio do Banco da República, comprando-o por 3 mil contos de réis — algo em torno de 200 milhões de reais. Em seguida, faz-lhe uma reforma suntuosa e o inaugura com uma festa monumental.

Ele também fez grandes promessas à população e aos financistas estrangeiros, e segue confiando que Prudente, embora ainda vivo,  não escape de uma longa convalescença. Os fatos lhe dão esperanças. Iria repetir as mesmas manobras do velho marechal.

Mas ninguém deve menosprezar um caipira de Piracicaba, que conhece o segredo da jabuticaba!

Segundo o historiador Antonio Barreto do Amaral, em seu livro Prudente de Moraes — uma vida marcada, IHGSP, São Paulo, 1971, Prudente era tão ligado a essa fruta que isolou uma área do seu quintal para plantar jabuticaba, com muro e portão de cadeado, cuja chave só ele tinha, e não deixava ninguém entrar. Crianças só entravam acompanhadas por um adulto, e só ele determinava quando as jabuticabas podiam ser colhidas. Ele não só escapou da operação como começou a se recuperar a olhos vistos.

Cuide das suas jabuticabas, que elas cuidarão de você.

A percepção de que Prudente se recuperava deixava um certo “fino cavalheiro”, como o jornal O Jacobino qualificava Manuel Vitorino, temeroso de seu futuro. Talvez fosse necessário apelar para recursos mais drásticos, mas como fazê-lo com o coronel Moreira César e o 7º B.I. vigilantes no morro de Santo Antônio? Em meio a essa preocupação, ele recebeu a notícia do fracasso da expedição Febrônio de Brito, que causou impacto e chamou a atenção até nos jornais do Rio. Canudos agora era visível.

De repente, Vitorino viu uma oportunidade! Chamou o ajudante de ordens e escreveu rapidamente um bilhete. Pôs num envelope, lacrou-o e disse:

— Rápido, entregue isso ao Ministro da Guerra!

Começou então a rascunhar um longo telegrama para Luís Viana, na Bahia.

Vitorino teve a clareza de que Canudos seria um ótimo pretexto para tirar Moreira César do Rio de Janeiro, mandando-o em missão oficial ao interior da Bahia, para enfrentar uma misteriosa comunidade sertaneja, e isso o deleitava profundamente.

Mas retirar uma tropa de elite famosa do Rio de Janeiro para mandá-la ao interior da Bahia, por causa de um pequeno arraial, precisava de uma boa justificativa; e a tradicional tática florianista calhava: transformar uma paupérrima comunidade agropastoril em um perigoso núcleo internacional de “conspiração restauradora-monarquista”. O 'esquisitão' que a dominava não era monarquista confesso? Jornais para espalhar boatos não faltavam! Nunca faltaram.

Começa uma rumorosa troca de telegramas entre Vitorino e Luiz Viana, para informar a este da decisão do governo federal e fazer com que ele engolisse o fato consumado, pois, segundo o seu filho, não agradava a Luís Viana o nome de Moreira César.

Só nos resta especular a causa disso, partindo do princípio de que a Luís Viana interessava, acima de tudo, ficar no controle da expedição, para poder utilizá-la politicamente como quisesse, retardando a solução definitiva do caso, para angústia dos gonçalvistas.

1º — Ele sabia que Moreira César, um homem que ele conhecia, dificilmente se deixaria conduzir. Seria difícil enrolá-lo, enquanto o tempo passava, sem falar que ele já havia sido governador em Santa Catarina. E se ele resolvesse ser governador de um estado maior?

2º — Havia um clube militar na Bahia, florianista e hostil a Viana, e que fatalmente tentaria se aproximar de César para conquistá-lo, pois nem todos sabiam que ele, embora tivesse apoiado Floriano em 91, não era simpático aos objetivos e métodos do florianismo. Nessa época, correu em Salvador um boato de que ele, após destruir Canudos, destituiria Viana e se tornaria governador do estado. Talvez o objetivo desse boato fosse criar problemas tanto para Viana quanto para César, pois reforçava a ideia de que ele era um desequilibrado, ou talvez fosse ainda uma tentativa de cooptá-lo, oferecendo-lhe a governadoria do estado, mantendo-o longe do Rio de Janeiro.

3º — Moreira César ajudara indiretamente Luís Viana a chegar ao poder, ao auxiliar na derrubada de Gonçalves, e muita mágoa ficou do lado contrário, que se pôs a trabalhar ativamente para desmerecer César, espalhando que ele vinha promover um 'banho de sangue' na Bahia, e é possível que tenham sido eles que espalharam entre os canudenses o apelido de 'corta-pescoço'.

4º — A presença de tropas do Rio de Janeiro e Minas, o 16º B.I., para resolver um problema baiano não deixava de ferir os brios locais, já atingidos na passagem da monarquia para a república. Ia sobrar para a popularidade de Viana.

Vitorino não lhe deixou alternativas…

Deixo agora uma opinião pessoal sobre Luís Viana, com base no que aprendi em minhas leituras. Ele surge no ambiente republicano secundando o golpe de Floriano contra os governadores impostos por Deodoro, formando, gradualmente, uma poderosa corrente política.

Isso, porém, não quer dizer que ele estivesse fechado com as manobras e os interesses da corrente florianista, como César Zama. Viana tinha um projeto próprio, não hesitando em aproveitar-se das vantagens ora de um lado, ora do outro. Nesse sentido, era um político típico. Sem qualquer demérito nisso, a princípio.

Sua autonomia diante dos florianistas vai aparecer no seu empenho em favor da eleição ao Senado Federal de Rui Barbosa, inimigo de Floriano. Quando Viana fez esse movimento, provocou a inimizade de Zama, que também disputava o cargo. Zama passará, agora, a atacar desabridamente os dois.

A minha impressão é que ele utilizou o fenômeno de Canudos para atingir os seus desafetos políticos, deixando a coisa se arrastar e crescer. Canudos ameaçava Gonçalves; logo servia aos seus interesses.

Ele, certamente, não queria o massacre daquela gente, seja por razões pessoais, seja porque, politicamente falando, pegaria mal, como de fato pegou, mas ele também não ponderou as  consequências de seus atos. Longe disso. Tudo não passou de um cálculo político, e desde o início muito arriscado. Ele não percebeu a profundidade da força psicossocial que Canudos acumulava, e que a solução para o desafio que representava ficava mais difícil a cada dia em que se postergava uma solução institucional. E ele continuou empurrando com a barriga, até a situação sair de controle.

Depois de tudo, diante do fim brutal da comunidade, quando nada se encontrou que confirmasse a teoria de um levante monarquista, restou-lhe o silêncio sobre o assunto. Silêncio que se observa nos principais envolvidos nessa monstruosidade. Nada ficou de seus documentos nem na sua memória, e assim ele se furtou de mentir, ou revelar verdades incômodas, deixando a nação no vácuo. Mas ele também tem responsabilidade, uma responsabilidade com dolo eventual, por essa horrível mortandade.

Canudos, após ser tratada durante mais de um século como um episódio de combustão espontânea, tornou-se um centro alucinante de novas teorias anti-históricas, derivadas da preguiça ou da incapacidade de entender o seu significado, causada por uma especialização precoce, uma queda na cultura geral, no reducionismo de ocasião ou na mera reversão de símbolos, criando novas gerações de campeões morais, sem méritos ou sem coerência, fabricados em ritmo de aventura, como se isso, por si só, magicamente, resolvesse os enormes questionamentos que surgem desse trágico acontecimento.

Isso pode ser fruto também de um movimento instintivo de defesa e proteção, de nossa permanente imaturidade, porque olhar em profundidade para Canudos significa olhar em profundidade para aquilo que nós já fizemos e que ainda podemos fazer, e que não nos orgulha nem um pouco. Porém, só não erra quem permanece bebê, deitado em um berço que já nem é tão esplêndido assim.

No final, o tumor social gerado pela indiferença e oportunismo político de muitos estourou nas suas mãos. Luís Viana pagou o preço. Quase nada, se comparado ao pago por aquela gente, utilizada como peão num jogo de xadrez sem regras… A comunidade, por ter menos recursos, pagou mais caro.

Aumentar a grandiosidade da festa não deterá o afundamento já iniciado do Titanic dos sertões. Por falar em navio, Viana falecerá glamourosamente a bordo de um, a caminho da Europa, em julho de 1920.

Eduardo Simões.


 


NEM VÁRZEA NEM LIGA. QUEM LIGA?

Eduardo Simões

“Brasil está vazio na tarde de domingo, né?

Olha o sambão, aqui é o país do futebol”

Era uma grande excitação, nos áureos e sombrios tempos da Ditadura Militar, quando inadvertidamente, talvez até por preguiça, jogávamos na lata do lixo o melhor de nós mesmos, idealizando, no silêncio e na morte de muitos, democracia e prosperidade para todos. 

Tínhamos um estilo musical tipicamente popular brasileiro, o samba, e outro para a classe média branca e intelectualizada, a bossa nova, que, como o ritmo anterior, conquistava o mundo e caía nas graças de americanos e europeus. Era a nossa vez.

Nada, porém, nos definia melhor do que a seleção de futebol, que disputava de igual para igual com seleções de países muito mais poderosos e vencia com sobras. Robert Kennedy, uma das personalidades mais importantes da época, premido pelos compromissos, fez questão de ir ao banheiro do Maracanã, para conhecer pessoalmente o nosso Pelé, saído às pressas do banho, ainda coberto de sabão. Se duvida, eis a foto no dia 21 de novembro de 1965.

Se a bossa nova era da classe média e o samba era do povo, o futebol era de todos, espelhado na face multiétnica de nossos craques. Já que éramos analfabetos (a taxa em 1960 era de 40%) e pouco dados à leitura, e, portanto, nunca consideramos a nossa história como uma marca de identidade, agora havia algo que aparentemente cobria essa lacuna e não dava muito trabalho, pelo contrário, que era o amor pelo futebol — mesmo sem considerar que são 22 suando em campo, e dezenas de milhares, assistindo dispersos nas arquibancadas, imaginando que se estivessem em campo fariam melhor.

Mas, tirando essas idiossincrasias, o futebol mostrava bem a idealização que fazíamos de nós mesmos: fisicamente vigorosos, colaborativos, unidos e igualitários (indiferentes a preconceitos de raça, fortuna, religião), respeitadores das regras, respeitosos, criativos, flexíveis, solidários, etc. Apesar de todas essas qualidades não aparecerem com muita frequência no dia a dia, elas bem que eram um esboço generoso do que poderíamos ser, se não desistíssemos tão fácil ou se vivêssemos um pouco mais atentos. Essa era realmente a nossa identidade.

O que nós não consideramos é que essa identidade não nascia com a gente, como muitos supuseram e insistiram, talvez por preguiça, mas de uma lenta e penosa vida de desafios que começava nas várzeas de riachos das periferias e terrenos baldios nas cidades brasileiras, onde se jogava futebol com qualquer coisa minimamente redonda. Faziam-se bolas com jornais, meias, bexiga de bichos diversos, etc.

A várzea era mágica! Vivíamos numa época de grande inocência e segurança, os meninos que se dirigiam para lá em grande número sabiam que iam se divertir. Ninguém pensava em sequestros, alguém puxando faca ou revólver para resolver uma pendência, adultos circulando para abusar das crianças etc. A impressão que tínhamos é que todos os adultos cuidavam de todas as crianças.

Ali havia um esboço de ‘democracia racial’ e ‘social’. Ninguém queria saber se o garoto era branco ou negro, rico ou pobre, feio ou bonito. O que importava era o quanto sabia jogar futebol. Uma meritocracia exigente, perfeita. E as histórias que se contavam, cada uma mais engraçada que a outra, sobre lances acontecidos no campo ou fora dele. As peladas em dia de chuva, quando as mães vinham nos catar com cabo de vassoura na mão, por causa do perigo dos raios. Uma coisa, porém, faltava ou era rara nessas peladas: as garotas, e à medida que sentimos a necessidade de estar mais perto delas, nos afastamos para os salões de danças e bailes, exceto os que estavam vocacionados a se tornarem craques, ou fracassarem tentando.

Pensando nas garotas, nessas peladas aprendíamos tanto a ganhar como a perder, aprendizado que levamos para a vida, como quando uma garota não queria mais continuar o namoro. Vida que segue, toca a bola para frente, que outra aparece. Hoje vemos jovens e adultos reagindo com violência, numa frequência absurda para alguém da minha geração, a um dos fatos mais corriqueiros da vida. E a jovem sofre um fim bárbaro!

A partir dos anos 70, o crescimento urbano acelerado e o desenvolvimento de projetos imobiliários nos subúrbios, com a redução acelerada de terrenos baldios nos bairros mais centrais. Enquanto isso, nos subúrbios, as áreas de várzea foram isoladas pela violência de facções do crime organizado e começavam a tornar perigosa a sua frequência. A resistência coletiva à agressão contra as crianças foi quebrada pelo reinado das drogas.

Nos jornais, muitos comentavam, eu os li, sobre o fim dos terrenos baldios e campos de várzea, e o prejuízo para o futebol brasileiro. Burocratas e tecnocratas responderam com a construção de quadras de futebol de salão, que não é a mesma coisa, em praças do subúrbio, com pouco efeito além de se tornarem pontos de venda de drogas. Jogar futebol tornou-se uma coisa imprópria para menores.

Paralelamente, à medida que aumentava a escolarização das crianças e a carga horária das escolas, sem a respectiva melhora da qualidade de ensino, as crianças ficaram com menos tempo livre. A escola se tornou uma prisão que as mantinha longe dos perigos do mundo real, que as autoridades não queriam ou não sabiam enfrentar. Sem falar que um campo de futebol association, pelo seu tamanho, ainda é um luxo indisponível para muitas escolas, embora o material usado tenha melhorado muito.

O espaço asséptico, obrigatório, autoritário, inclusive quando enseja, pelo paternalismo, a desmoralização dos professores para fins políticos, não é, pelos seus métodos, propício a estimular a convivência pacífica entre os alunos e a resolução racional e madura de seus conflitos. Estes, inclusive, se agudizaram pelo contato, em espaços densamente frequentados, com grupos de bairros diferentes dominados por diferentes facções, deixando meninos e meninas muito estressados. As brigas de torcidas nas competições escolares ficaram tão sérias que, em alguns municípios, as escolas se abstêm de competições interescolares ou fazem competições sem torcida.

No Estado de São Paulo, houve um grande investimento para criar quadras cobertas em todas as escolas, com um detalhe faltando: a arquibancada da torcida. Quem quisesse ver o jogo teria que ficar de pé fora da quadra, protegido por tela de arame, mas exposto ao sol. Quem fez esse projeto e quem o aprovou não teve infância e juventude. O que motiva, ou desmotiva, mais um atleta é a exaltação ou a hostilidade do público presente. E o quanto isso educa para a vida? Como os meninos e meninas vão aprender isso jogando em quadras à prova de torcidas?

Uma alternativa aos grandes campeonatos de futebol de várzea do passado seria, como nos Estados Unidos, além de outros detalhes, a criação de ligas de futebol e outros esportes nos diversos níveis de escolaridade: liga do ensino médio, liga universitária, até chegar aos clubes, aproveitando toda a força educadora do esporte, criando 'craques' que serão modelo dentro e fora do campo, e não esses que usam do sucesso que seu talento natural lhe deu para se envolverem em casos  escabrosos e até crimes. 

Para o menino ou menina de talento, restam as escolinhas dos clubes. Mas, sendo um clube uma empresa, e muitas vezes de sócios estrangeiros, se tornam cada vez mais uma fábrica de talentos para times europeus, criando jogadores que, apesar de nascidos no Brasil, nunca jogaram em um time aqui. É o caso do futebolista Paulo Vitor Barreto de Souza, que, levado para a Itália aos 13 anos, fez toda a sua carreira, até se aposentar em 2020 naquele país. 

Precisamos nos resignar ao fato de que não somos mais, e por responsabilidade nossa, o 'país do futebol'. Não será mais isso que nos identificará para o mundo e para nós mesmos, além do país, ou do povo, que adora alianças com ditaduras. Destruímos ou deixamos destruir as bases daquilo que nos unificava e distinguia. Daqui para frente seremos apenas uma potência mediana nesse esporte, com tendência a nos tornarmos menos ainda. 


sábado, 4 de julho de 2026

 


Um escravo chinês em 1900. Aos seus pés, a carga que deve carregar.

O QUESTIONAMENTO MAIS ABSURDO E TONTO QUE EU JÁ VI.

Eduardo Simões

 A jornalista Vilma Gryzinski, da Veja, fez um artigo muito interessante sobre o impacto, em alguns, da chamada “remada viking” no mundial de futebol chamado: “Está a Noruega moralmente certa ao celebrar, com seleção, herança viking?” na qual comenta a reação que está causando em alguns setores, como o representado pelo jornalista inglês Gavin Mortimer, da revista inglesa The Espectator, criada em 1828.

Para Mortimer, segundo Grysinski, essa escolha norueguesa, que está para a copa de 2026 o que a ola mexicana está para a de 1986, deveria ser repudiada por causa das desgraças que os navegadores vikings trouxeram aos povos europeus de seu tempo: roubos, saques, destruição, genocídio (?), escravização, etc. Ele inclusive aponta, como um dado comprometedor, o fato de 1 milhão de ingleses ter genes escandinavos — é nisso que dá a pessoa 'matar' aulas de matemática, estatística e lógica.

Primeiro: 1 milhão em 60 milhões corresponde a pouco mais de 1% da população. Considerando que levas e mais levas de nórdicos vieram à Inglaterra em 250 anos, isso é muito pouco e pode nos apontar noutra direção: ingleses ‘puros’ massacraram muitos nórdicos, logo os atuais descendem de genocidas.

Segundo: como desvincular essa abordagem de Mortimer daquelas que são típicas dos piores racistas?

Terceiro: o número bruto aponta tanto para violência sexual como para trocas consensuais, a não ser que o sr. Mortimer tenha descoberto um modo científico de determinar pelo mapa genético de uma população ou um indivíduo, se os emparelhamentos sexuais foram consensuais ou não. Se não for esse o caso, ele estará apenas expressando receios neuróticos sobre a sua origem, e somos obrigados a tranquilizá-lo dizendo que não é porque alguém imagina ter uma origem suspeita, que os outros o são.

Quarto: ele apresenta, como modelo, os hispânicos nos EUA, por não fazerem a 'remada de Colombo', como que envergonhados pelo que os europeus fizeram na América. Nós, entretanto, respondemos: os hispânicos não fazem a ‘remada de Colombo' porque os navios de Colombo não tinham remos, como os dos vikings. São de OUTRA ÉPOCA. E essa expressão quase diz tudo, pois não abarca o  complexo de inferioridade dos latino-americanos, que se deixam influenciar facilmente por qualquer idiotice que dizem sobre suas origens. Por isso são pobres e dominados, e continuarão sendo, se não mudarem.

Há algum tempo, um completo energúmeno pôs fogo numa estátua de Borba Gato, na entrada de São Bernardo do Campo, em São Paulo. Muitos intelectuais e jornalistas levantaram-se aplaudindo, uma vez que, para eles, os bandeirantes eram gente má que roubava, matava e escravizava nativos. Uma jornalista, com muito sentimento, chamou o personagem representado na estátua vandalizada de ‘escravagista’, enquanto outros o apodaram de ‘genocida’. Mas nesse sentido ele é exatamente igual aos sobas africanos que capturavam gente do seu 'continente' ou da sua 'raça' — os dois conceitos não existiam para os africanos daquela época — para vender aos europeus, sem falar dos muitos que eles matavam, por não quererem se submeter. Havia ainda os que pereciam na marcha até o fortim onde seriam vendidos. E assim eram os cristãos em relação aos islâmicos e vice-versa, eslavos em relação aos povos asiáticos e vice-versa, chineses hans em relação aos não-hans. 

Mas se todos praticavam escravidão, violência, estupro, genocídio legalmente naquela ÉPOCA, eles não podem ser condenados agora por um crime que não cometeram no tempo em que eram vivos, e que, mortos, já não o podem cometer. Querer julgá-los a partir de critérios morais ou legais contemporâneos é o cúmulo da insensatez. O que temos de fazer é combater essas práticas hoje, que são, com justiça, declaradas ilegais, a partir de uma compreensão contemporânea das relações humanas, que podem mudar e coisas que hoje são comuns, naturais, talvez se tornem escandalosas no futuro. Como dizia um poeta (Cazuza): “O tempo não para, não para não, não para!”

O nosso caso é realmente excepcional, pois enquanto aplaudimos a destruição de monumentos a nossos ‘cruéis’ antepassados, aplaudimos entusiastas a aliança com países que até recentemente admitiam e praticavam a escravidão, como a China. Vejam o que diz a Wikipedia em inglês no verbete SLAVERY IN CHINA:

“O sistema Laogai na China, abreviação de Laodong Gaizao (ou "Reeducação pelo Trabalho"), foi estabelecido sob a liderança de Mao Tsé-Tung, intitulado “Instruções para a Eliminação Completa de Contrarrevolucionários Ocultos”, na década de 1950, e continua a funcionar de várias formas até hoje. Ele serve como um mecanismo para o Partido Comunista Chinês suprimir a dissidência e impor a conformidade ideológica. Prisioneiros políticos, incluindo aqueles que se opõem às políticas governamentais ou praticam religiões proibidas, são submetidos a trabalhos forçados, muitas vezes sem julgamento ou acusações formais. Esses indivíduos suportam condições de trabalho extenuantes, coerção psicológica e abuso físico, tudo com o objetivo de quebrar sua resistência e incutir lealdade ao partido. Apesar das alegações oficiais de reforma, o sistema Laogai persiste sob nomes diferentes, continuando a explorar prisioneiros para ganho econômico."

A diferença é que não é escravidão privada, mas estatal, tão cruel ou talvez pior do que aquela, pois não conhece a piedade eventual de um senhor mais humano. Dizer que ela é melhor ou justificada por ser, TEORICAMENTE, feita em benefício da sociedade é um imenso aleijão moral, um absurdo, uma idiotice.

Tudo o que temos devemos aos nossos antepassados, e um dia seremos também antepassados para outras pessoas. Mas existem, infelizmente, pessoas fracassadas ou desnaturadas o bastante para condenar em bloco todos os seus antepassados e os de outros. 

Os povos que são gratos aos seus antepassados e à sua história, como os noruegueses, alcançam os píncaros do progresso e da democracia, enquanto os outros acabam como a União Soviética, Cuba, Camboja, Albânia, etc. A China de Mao não existe mais, a moderna ainda não se consolidou e ainda preserva sementes do passado. 

Quem amaldiçoa e repudia seus antepassados é por eles amaldiçoado e repudiado, e da mesma forma que um testador pode excluir alguém de uma herança, doando-a em vida, nossos antepassados podem tirar-nos a nossa, que por acaso é o próprio Brasil. Todos falam mal dos bandeirantes, mas ninguém quer abrir mão da herança que eles deixaram, apesar de supostamente baseada numa infinidade de crimes graves, imprescritíveis, porque ela nos faz poderosos diante de outros povos. Até quando?

Dois pontos de reflexão:

Um ditado antigo: Deus começa por tirar o juízo daqueles que querem se perder. Não será por isso que vamos pela terceira vez disputar entre Lula e Bolsonaro? 

Uma verdade: devemos aos nossos antepassados, independentemente de seu caráter, de seus crimes ou méritos, o que há de mais sublime e superior em nós mesmos: a nossa humanidade.


 

TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 21

Interesse Próprio, Bem Comum e Utilitarismo.

Sabemos que tanto o Interesse Próprio quanto o Bem Comum eram conceitos antigos. Mas, por volta de meados do século XVIII, afirmaram-se com nova energia, não apenas na ética, mas em todo o campo do pensamento social. Em particular, eram, ou supunha-se que fossem, os princípios básicos e unificadores de todas as ciências sociais, praticamente os únicos que a “razão” havia defendido. Helvétius (1715–71) comparou o papel do princípio do interesse próprio no mundo social ao papel da lei da gravitação no mundo físico. Até mesmo o grande Beccaria [jurista italiano] chegou ao ponto de afirmar que o homem é totalmente egoísta e egocêntrico e não se preocupa em nada com o bem de nenhum outro homem (ou com o bem comum).

Deve-se observar mais uma vez que esse interesse próprio individual era orientado pela expectativa racional de prazer e dor individuais, que, por sua vez, deve ser definida em um sentido estritamente hedonista. É verdade que os autores do século XVIII acrescentaram qualificações e reconheceram prazeres que geralmente não são classificados como hedonistas, como os prazeres da malevolência, da aquisição de poder e até mesmo da crença e prática religiosa. Consequentemente, os defensores dessa doutrina obtiveram certo sucesso em sua tentativa de resgatá-la da acusação que se fez de o comportamento humano girar em torno de bifes [ou coisas aparentemente pequenas, irrelevantes].

Mas esse sucesso — além do fato de não abordar todas as outras objeções que podem ser levantadas contra qualquer teoria que enfatize excessivamente a racionalidade no comportamento — foi mais aparente do que real. Pois, se formos muito além das gratificações mais grosseiras dos apetites mais simples, chegamos perigosamente perto de identificar a expectativa de “prazer” com todos os motivos possíveis, até mesmo com o sofrimento intencional da dor, e então, é claro, a doutrina se torna uma tautologia vazia. Pior ainda, se dermos demasiada margem a tais “prazeres” que podem advir do esforço, da vitória, da crueldade e similares, podemos obter uma imagem do comportamento humano e da sociedade totalmente diferente daquela que esses homens de fato idealizaram [eles idealizavam uma sociedade livre de preconceito, de maldade, liberdade completa, tudo de bom!]. Assim, se quisermos chegar à mesma conclusão que eles chegaram a partir de suas ideias sobre prazer e dor, não temos outra escolha senão adotar uma definição desta última que, de fato, permita alguma liberdade para ir além de simples bifes, embora apenas uma liberdade limitada; ou seja, não temos outra escolha senão adotar uma teoria do comportamento que diverge dos fatos mais óbvios [noutras palavras: a definição básica nos leva a um impasse, a um beco sem saída]. Por que, então, ela foi tão prontamente adotada por tantas mentes brilhantes?

Ao que parece, esses cérebros pertenciam a reformadores práticos que lutavam contra um estado de coisas historicamente estabelecido que lhes parecia “irracional”. Em tal luta, a simplicidade e até mesmo a trivialidade são as principais virtudes de um argumento, e as filosofias pragmáticas são a melhor resposta a um sistema de direitos e deveres sacralizados de forma supramundana [a moral cristã]. Apenas pregavam tolices iguais às que todos estamos habituados a pregar, inclusive quando tem gente olhando.

Vimos acima como o bem comum ou a conveniência social dos doutores escolásticos foi moldado particularmente pelos defensores da razão do século XVIII. Vamos repetir e reformular. Os prazeres e as dores de cada indivíduo são considerados quantidades mensuráveis, capazes de serem somadas (algebricamente) em uma quantidade chamada felicidade individual (felicità). Essas “felicidades” individuais são novamente somadas em um total social, todas com o mesmo peso: “todos valem um, ninguém vale mais do que um”. Finalmente, esse total social é substituído ou identificado com o bem comum ou o bem-estar da sociedade, que é assim reduzido a sensações individuais de prazer ou dor, as únicas realidades últimas.

Isso nos leva ao princípio normativo do Utilitarismo, a saber, a Maior Felicidade do Maior Número, o qual é principalmente associado, em reconhecimento à sua ardente defesa, cuidadosa elaboração e ampla aplicação, ao nome de Bentham. Se a ideia era de origem antiga e se desenvolveu tão lentamente a ponto de desafiar a datação, o próprio slogan pode ser datado com mais precisão: até onde sei, ele aparece primeiro em Hutcheson (op. cit. 1725), depois em Beccaria (op. cit. 1764, la massima felicità divisa nel maggior numero); em seguida, em Priestley (op. cit. 1768), a quem Bentham atribui o mérito do que para ele era uma “verdade sagrada”. Hume não possui o slogan, mas deve ser incluído nesta série mesmo assim.

O utilitarismo de Bentham (muito influente na Inglaterra).

O ponto essencial a compreender é que o utilitarismo nada mais era do que outro sistema de leis naturais. Isso se verifica não apenas no sentido de que os utilitaristas foram os sucessores históricos dos filósofos do direito natural do século XVII; nem apenas no sentido de que o sistema utilitarista se desenvolveu a partir do sistema dos filósofos, o que, embora evidente, pode ser comprovado em detalhes pela história da ética, por um lado, e pela história do conceito de bem comum, por outro; mas também no sentido muito mais significativo de que, em abordagem, metodologia e natureza de seus resultados, o utilitarismo foi, de fato, outro, o último, sistema de leis naturais.

O programa de derivar, à luz da razão, “leis” sobre o homem na sociedade a partir de uma natureza humana muito estável e altamente simplificada se encaixa aos utilitaristas tão bem quanto aos filósofos ou aos escolásticos. Assim como os sistemas dos filósofos ou dos escolásticos, o utilitarismo apresenta um apelo triplo. Primeiro, era uma filosofia de vida, exibindo um esquema de “valores últimos”. É aqui que devemos buscar a origem da impressão inerradicável de que o utilitarismo, especialmente o de Bentham, era algo novo e fundamentalmente antagônico aos sistemas mais antigos. Mas, como o leitor já deve saber, a diferença não era grande no que diz respeito à filosofia das atividades cotidianas. Para a esfera do estábulo, do celeiro, da loja e do mercado, os doutores escolásticos eram suficientemente utilitaristas. A verdadeira diferença residia no fato de que os médicos restringiam o ponto de vista utilitarista à atividade puramente utilitária, onde ela é (não totalmente) adequada, enquanto os utilitaristas reduziam todo o universo de valores humanos ao mesmo esquema, descartando, por ser contrário à razão, tudo o que realmente importa ao homem. Assim, eles merecem, de fato, o crédito de terem criado algo novo na literatura, se não considerarmos a contribuição de Epicuro, algo como a mais superficial de todas as filosofias de vida concebíveis, que se encontra, de fato, em posição de antagonismo irreconciliável com as demais que lhe disputam o título.

Em segundo lugar, o utilitarismo era um sistema normativo com forte viés jurídico. Era, como o sistema escolástico, um sistema de imperativos morais, por um lado, e de princípios legislativos, por outro. Bentham considerava-se primordialmente um moralista e legislador, e foi como critério de legislação boa e má” que o princípio da maior felicidade para o maior número adquiriu para ele importância primordial. Observe-se, mais uma vez, o elemento igualitário presente nele, que era tão essencial quanto o elemento da felicidade. E esses dois aspectos, juntamente com a crença não apenas de que qualquer indivíduo era muito semelhante a qualquer outro, mas também de que cada indivíduo era matéria indefinida e maleável, com poucas ou nenhuma característica inata própria, produziram o princípio político fundamental do benthamismo: educar as pessoas e deixá-las votar livremente, e todo o resto se resolverá por si só. [Isso está presente no discurso de muita gente douta, hoje, no Brasil].

Mas, em terceiro lugar, assim como a lei natural dos filósofos e escolásticos, o utilitarismo também era um sistema abrangente de ciências sociais, incorporando um método uniforme de análise. E esse aspecto é separável dos outros dois, da mesma forma que o trabalho analítico dos escolásticos e dos filósofos é separável do restante de seu pensamento. Em outras palavras, é logicamente possível desprezar o utilitarismo, por completo, tanto como filosofia de vida quanto como programa político, e ainda assim aceitá-lo, como motor de análise, em todos ou alguns dos ramos das ciências sociais. Mas, apesar de o utilitarismo não ser muito valioso como ferramenta de análise, muitos economistas não hesitaram em declarar que ele é fundamental para a teoria econômica. Como Jevons.

Nota de Schumpeter

Antes de Bentham, o catálogo de moralistas utilitaristas não coincide exatamente com o catálogo de legisladores utilitaristas. Bentham imprimiu suas preferências pessoais a um grupo de seguidores — os Radicais Filosóficos já mencionados — e a forte coesão desse grupo explica um programa definido (em essência, o laissez-faire combinado com o sufrágio universal) e a impressão de que esse programa decorria inexoravelmente de premissas analíticas. Mas em outras épocas e países, os benthamitas poderiam ter sido conservadores — Hume o era, e a maioria dos utilitaristas italianos também — ou então socialistas. Não há nada de surpreendente nisso, desde que se perceba que a preferência desempenha um papel tão importante na formulação de conclusões sobre políticas práticas que submete quase qualquer estrutura analítica aos seus ditames [para os menos avisados, vemos aqui uma interessante discussão sobre o perigo da influência da ‘ideologia’ no trabalho final do pesquisador]. Um homem pode aceitar integralmente a obra analítica de Marx e, ainda assim, ser conservador na prática. [Entenda-se esse interesse de Schumpeter por Bentham devido à grande aceitação que o seu pensamento teve nas culturas anglófonas; o que não é o caso no Brasil, onde ele é um ilustre desconhecido pela grande maioria da população].

 

É um erro comum entre leigos, filósofos e historiadores do pensamento prestar um respeito exagerado a tudo o que se apresenta como um princípio fundamental. Na verdade, as pessoas nem sempre utilizam, tanto no trabalho científico quanto nas questões práticas da vida, os princípios fundamentais aos quais professam fidelidade. Sendo o utilitarismo um conjunto de tais princípios fundamentais, devemos, portanto, indagar em cada caso qual papel lhe foi permitido desempenhar. No que diz respeito à economia, podemos, contudo, apresentar respostas gerais para quatro tipos de casos.

Primeiro, as hipóteses utilitaristas são completamente inúteis em questões de interpretação da história ou em questões que afetam as forças motrizes da história econômica.

Segundo, as hipóteses utilitaristas são ainda piores em todos os problemas que envolvem questões de esquemas reais de motivação, por exemplo, em um problema como os efeitos econômicos da herança.

Terceiro, as hipóteses utilitaristas são, na verdade, fundamentais para aquela parte da teoria econômica que geralmente se denomina Economia do Bem-Estar — herdeira das teorias italianas do século XVIII sobre a felicidade pública. Adotamos essas hipóteses habitualmente ao discutir problemas como os efeitos das “transferências de riqueza dos relativamente ricos para os relativamente pobres”. E é precisamente por isso que as proposições da economia do bem-estar nunca convencem ninguém que já não esteja convencido de antemão, independentemente de qualquer argumento. Pois, embora haja, certamente, um aspecto desses problemas para o qual a abordagem utilitarista seja apropriada, esse aspecto evidentemente não é o único: provamos muito pouco quando demonstramos que transferir o dinheiro de um homem rico para um homem pobre aumenta o bem-estar no sentido utilitarista. [Os comunistas fizeram isso e a única coisa que cresceu foi a Infelicidade Pública e o Mal Estar Social].

Em quarto lugar, no campo da teoria econômica, no sentido mais estrito do termo, as hipóteses utilitaristas são desnecessárias, mas inofensivas. Por exemplo, podemos enunciar e discutir as propriedades do equilíbrio econômico sem introduzi-las. Mas, se as introduzirmos, os resultados não são materialmente afetados, portanto, não são prejudicados. Isso nos permite salvar grande parte da análise econômica que, à primeira vista, parece irremediavelmente viciada por preconceitos utilitaristas.

[Considerando a importância que o utilitarismo teve na evolução da cultura inglesa e americana, além da época em que isso foi escrito, esse texto deve ter sido uma ‘tijolada’ nas principais correntes da cultura universitária americana, e mesmo na grande sociedade. Se fosse hoje, provavelmente Trump o deportaria como um imigrante secretamente ilegal ou por atividade antiamericana].


quarta-feira, 1 de julho de 2026

 


O GÊNIO DO CORONEL MOREIRA CÉSAR

Eduardo Simões

A pena de Euclides da Cunha caprichou sobremaneira no seu intento de mostrar Moreira César não só como um homem sanguinário, como um completo incapaz. Mas será que é isso que aparece nos documentos oficiais da época que dizem respeito a ele? Vejam a dimensão e a importância da cultura jurídica desse militar competente, corretíssimo, nascido pobre e órfão de pai e mãe, tão odiado pelos brasileiros.

Em Excertos da história de um batalhão, sustentáculo da república, do general de brigada integrado Epaminondas Ferraz da Cunha, em artigos na revista Defesa Nacional.

Logo após a Proclamação da República...


Os arquivos que o general cita acima são os arquivos militares de Moreira César. Vejam bem o PRESTÍGIO INTELECTUAL que ele tem no Exército. Como ele pode ser o ignorante de pavio curto apresentado por Euclides da Cunha? Mas tem mais, e QUANTO MAIS!!!!

Vejam abaixo o trecho da apresentação da página do site do Senado Federal (o endereço é https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/178946) que disponibiliza para download o anteprojeto citado acima.


Conclusão:

1º - Floriano Peixoto substitui Benjamin Constant, brigado com Deodoro, no Ministério da Guerra.

2º - Floriano solicita a opinião de Moreira César sobre o trabalho feito por uma comissão composta por alguns dos mais qualificados juristas e altos oficiais do Exército Brasileiro.

3º - Moreira César critica o anteprojeto nascido daquelas sumidades jurídicas.

4º - Floriano Peixoto suspende os trabalhos da comissão.

Argumentando: é possível que Floriano tenha encaminhado a análise do anteprojeto a outras personalidades civis e militares, embora não tenhamos informações sobre isso

É possível que a aceitação da(s) crítica(s) e recusa do anteprojeto tenha mais a ver com a pouca cultura de Floriano ou de ligações políticas que ele tinha com Moreira César, apresentado por Cunha e outros inimigos do coronel, como florianista radical.

É possível que o desmanche da comissão tenha a ver com outras disputas fora do âmbito do anteprojeto.

Mas também é certo que grandes juristas também repudiaram esse anteprojeto, entre os quais um dos mais respeitados: o Dr. Crysólito de Gusmão, em seu livro Direito Penal Militar, Jacintho Ribeiro dos Santos, Rio de Janeiro, 1915, p. 36–38. 



O cerne da crítica do Dr. Crysólito ao anteprojeto de 1890 está no final do Capítulo II, quando ele analisa um cacoete ainda presente no código Militar de sua época, que já havia no anteprojeto, de não diferenciar o crime cometido no âmbito e em decorrência do ambiente ou do contexto militar dos outros, nas páginas 54 e 55.



O coronel tinha razão.


terça-feira, 30 de junho de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA - 29

O que era Canudos?

Lendo alguns autores, Canudos parece um País das Maravilhas, meio El Dorado, meio Terra do Nunca, onde se vivia em paz, prosperidade, igualdade, democracia e socialismo, longe desse insensato mundo que costumamos chamar de realidade, como se a fantasia pudesse existir fora dos nossos sonhos.

Ultimamente, alguns estudiosos passaram a ver Canudos como um projeto “revolucionário”, construído conscientemente para afrontar a realidade injusta da sociedade rural brasileira do final do século XIX. Seus habitantes, revolucionários precoces, pressionavam as autoridades e donos de latifúndios por distribuição de terras. Isso era praticado em Canudos, onde as condições de vida eram melhores que nas fazendas do entorno; guiados por um homem de sensibilidade social, inteligência e iniciativa acima da média, destruído por um Estado a serviço de uma classe opressora.

Considerando o arranjo das edificações de Canudos, com as duas igrejas e cemitérios como as edificações mais destacadas, separadas e envoltas por espaços vazios, como praças, cercadas das casas da população privilegiada. Em volta delas espalhava-se uma enorme quantidade de casario irregular, no qual se abrigava a parcela pobre da população. A gente se vê remetido aos antigos centros cerimoniais na América Andina, na Mesoamérica e até na Anatólia, com duas diferenças: as obras de engenharia hidráulica e planejamento urbano desses centros antigos, que faltavam em Canudos. Sem falar que, enquanto os antigos centros eram ilhas de tecnologia de ponta na sua época, Canudos estava cercada de tecnologia mais avançada do que a que havia nela.

É preciso considerar que os centros cerimoniais eram, antes de tudo, pontos aglutinadores de populações dispersas, para as quais eram sinais de unidade, de identidade, a partir da resposta dada àquilo que sempre foi, e a arqueologia o comprova, a necessidade mais básica do ser humano: uma resposta para o sentido da vida neste mundo e no outro. Conselheiro, em Canudos, oferecia uma resposta muito incisiva e adequada à cultura sertaneja da época sobre isso.

Canudos era a manifestação da perplexidade dos sertanejos diante das mudanças do século, do seu abandono pelas autoridades constituídas, pela sociedade urbana brasileira em geral, e de sua dificuldade em decodificar e assimilar as regulamentações e as leis disfuncionais criadas nos centros políticos. Mas Canudos também representava o desejo do sertanejo de recuperar e/ou consolidar a sua identidade tradicional. A distância entre eles e a elite das cidades era tal que mesmo aquilo que era pensado, por essa elite, como uma vantagem para esse povo, se tornava desvantagem, como, por exemplo, as eleições e os direitos políticos.

Durante o Império, como as eleições eram acessíveis somente aos mais ricos, os grandes senhores de terras preocupavam-se apenas em cobrar produtividade de seus trabalhadores, além de braços para as eventuais lutas de vizinhos, de sorte que, na maior parte do tempo, eles eram deixados em paz.

Com a cidadania doada pelos republicanos, com a finalidade de promover a massa inerte da população, facultando as eleições a todos os homens que soubessem ler e escrever. Os fazendeiros, que, no passado, afirmavam o seu prestígio nas grandes festas de padroeiros e nos casamentos, afirmam-se agora pelo tamanho do séquito de eleitores que conseguem arrebanhar, numa amolação contínua, sem sentido e sem efeito. À exploração do burro de carga, juntava-se a humilhação do eleitor de cabresto, sem atenuar aquela.

Era no rito máximo dessa cidadania artificial que o sertanejo se sentia mais degradado, tratado como coisa sem vontade própria, com um poderoso a lhe dizer: “vote nesse”, “vote naquele”, “fale mal de X, porque é meu adversário”, “não fale mal de X, que agora é meu amigo”. Canudos foi um grito desesperado em busca de identidade e respeito, que a República não sabia dar porque não sabia lidar com essa gente, porque não a conhecia em absoluto, e no final a tratou da única forma para a qual estávamos culturalmente preparados: a violência extrema.

Eu não creio que em Canudos se vivia melhor que nas fazendas do entorno, afinal as terras de Canudos são de baixa produtividade, sem falar no testemunho daqueles que viram as casas em Canudos, como Horcades, Benício, Favilla Nunes, etc., que atestam a sua impressionante miséria. Além disso, as fazendas dos grandes proprietários ficavam nas melhores terras, bem abastecidas de água, onde podia-se plantar uma roça com resultados melhores.

Canudos, pelo tamanho, não era propriamente um arraial, embora a sua organização administrativa, fortemente personalista, lembrasse mais um arraial, e até uma aldeia. E, embora não fosse uma cidade na acepção completa do termo, já se observava nela alguma estratificação social, própria dela. Canudos era uma estrutura em transição, meio arraial, meio cidade, um centro cerimonial a caminho de se tornar cidade, um foco de civilização sertaneja, apartada do resto do país, que para eles não lhe fazia sentido.

Quando se quer falar sobre o seu tamanho, os estudiosos seguem Euclides da Cunha, que, por sua vez, segue automaticamente a contabilidade de Arthur Oscar, de cerca de 5.200 casas, “cuidadosamente contadas”. Calculando uma média razoável de 5 pessoas por casa, teríamos algo em torno de 25 mil habitantes — alguns autores especulam até 35 mil. Uma gigantesca e invisível metrópole numa das áreas mais inóspitas do semiárido.

O relatório de Oscar, entretanto, oferece dificuldades:

1º — A cidade foi submetida a um intenso bombardeio de artilharia, cuja intensidade deve ter sido considerável, revolvendo muitas casas, o que dificultava a contagem.

2º — Outro fator importante foi a pressa com que Arthur Oscar abandonou o local; e, a esse respeito, Marco Antonio Villa, em Canudos o povo da terra faz observações interessantes:

2.1 — Os combates acabaram no final da tarde (16:00h) do dia 5.

2.2 — Havia incêndios grassando no que sobrou e montes de cadáveres espalhados pelo solo.

2.3 — Na manhã seguinte, logo cedo, teve início a destruição completa do que sobrou. Não era mais possível fazer contagem.

A contagem, portanto, foi feita ao final do entardecer, em meio aos incêndios, após vários dias de duros combates, numa área que devia abranger vários quilômetros quadrados. Era humanamente impossível fazer o cômputo de um número tão grande de casas em tão pouco tempo, com pouca luminosidade e circunstâncias tão dramáticas. Lembra as atas eleitorais da época! Mas esse número enorme justificava, para a opinião pública, a dificuldade de um exército formidável em vencer uma gente tão pobre, enquanto ocultava a incompetência de um comandante. Num livro biográfico, que ouso dizer que foi um dos mais indecorosos que já li, o marechal Carlos Eugênio de Andrade Guimarães diz, sem apresentar nenhuma evidência, que seu irmão, Arthur, enfrentou cerca de dez mil homens armados (Arthur Oscar um soldado do império e da república, p. 121). Será que ele acreditava realmente nisso?

2.4 — Os números oficiais, finais, de Canudos são um abismo de contradição: 5.200 casas e 647 corpos de homens contados pelo coronel Dantas Barreto. Muito pouco! Para uma cidade de 25 mil habitantes, toda centrada nas igrejas e mobilizada para a sua defesa. Essa foi uma das duas batalhas, durante a guerra, em que se contou, com certeza, mais de uma centena de mortos entre os canudenses, se o número apresentado pelo Tenente Ferreira não é um chute. Para onde foram os 25 mil habitantes?

As condições climáticas, pedológicas (relativas ao solo), culturais e tecnológicas impunham uma baixa produtividade e impediam que a localidade pudesse abrigar uma população muito grande. Nessa mesma compreensão, milita corretamente Marco Antônio Villa. Nem hoje, apesar do açude de Cocorobó, que impede a seca do Vaza-Barris, das modernas técnicas de fertilização do solo, irrigação e de transporte, etc., foi possível dar ao moderno município de Canudos uma população tão grande — a população em 2025 era quase 17 mil. Dizer que o Conselheiro, com os recursos do final do século XIX, conseguiu isso é um desvario.

O general Carlos Teles, um dos grandes nomes do exército na 4ª Expedição, escreveu algo a respeito no Jornal do Brasil, em 23 de agosto de 1897, ao mesmo tempo em que faz justiça a Moreira César:

“Que Canudos tem somente mil casas (ranchos) ou pouco mais e nunca quatro a cinco mil… Calculo, ao chegar ali a quarta expedição, o número de jagunços em seiscentos no máximo; … eles nunca possuíram balas explosivas [essa informação estava sendo espalhada pelo general Arthur Oscar]; … se não fosse a morte do Coronel Moreira César, Canudos teria sido tomado a 3 de março último.

Pelo número insignificante de armamentos e munições de guerra que então possuíam os jagunços; … O mal causado à quarta expedição foi com as armas e munições abandonadas pela do Coronel Moreira César e por outras anteriores: que calculo em duzentos, no máximo, o número de jagunços existentes em Canudos depois do assalto de 18 de julho findo; … não há ali fim restaurador nem mesmo influência de pessoa estranha nesse sentido; que em Canudos não existe nenhum estrangeiro.”

Um escândalo, portanto, que 600, ou um pouco mais de pobres sertanejos, paralisem um exército com milhares de homens, com armas modernas, canhões e os recursos do Tesouro Nacional. Quem o diz é um dos mais conceituados generais do exército brasileiro, que atuou no conflito.

Em seguida, ele passa a discorrer sobre as baixas da 4ª Expedição, quase repetindo o que disse Honório Vilanova, no livro de Nertan Macedo.

“Não é de admirar o grande número de baixas que teve a segunda coluna [da 4ª Expedição, comandada por Arthur Oscar] nos dias 25, 26 e 27 e... a 28 de junho, considerando-se que os jagunços combatiam em ótimas posições, bem entrincheirados e ocultos nas caatingas, de onde poucos homens bem armados e municiados podem pôr fora de combate centenas de valentes soldados… É certo que os cartuchos queimados não se enchem de novo, mas é também certo que podem ser substituídos por outros tomados aos comboios nas estradas [e isso aconteceu na 4ª Expedição]. Deem a Antônio Conselheiro cinco a dez mil jagunços, dois ou três milhões de tiros e intentos restauradores monarquistas… [como faziam os generais Arthur Oscar e Carlos Eugênio] … [Podem] adulterar a verdade para encarecer Canudos e alarmar o espírito público, a isso não me presto… Bahia, 21 de agosto de 1897” (Walnice Nogueira Galvão, No calor da hora: A Guerra de Canudos nos jornais, (p. 110–112). Cepe Editora. Edição do Kindle.

Ele denuncia claramente uma campanha de desinformação, que aparentemente era encaminhada pelo Comando da 4ª Expedição, com o qual ele rompeu, com o intuito de alarmar a população, gerando mais violência nas cidades e conseguir mais recursos para a guerra. Era uma questão política.

Num artigo do Jornal do Comércio, de 10 de agosto de 1897, Manuel Benício ironiza: “Os jagunços ou são poucos ou adotaram a tática de combater em grupos de cinco a dez. Os próprios assaltantes confessam isso.”

Benício, comentando os números apresentados por Carlos Teles, acima, faz um grande elogio a Moreira César:

“Para S. S. [General Carlos Telles], a terceira expedição teria liquidado Canudos, se não fora a desgraça da morte do distinto Moreira César de saudosa memória. Naquela ocasião, estavam os jagunços mal armados, e agora o estão bem, graças ao armamento e munições tomados àquela malfadada expedição (idem, idem).”

Posteriormente, em seu livro, Benício se unirá aos detratores de Moreira César. Por que ele fez isso se antes estava convencido da ‘saudosa memória’ do coronel? Foi convencido do oposto com o lançamento da parte de Cunha Mattos? Quis ‘apimentar’ a história e turbinar as vendas de seu romance? Foi obrigado a fazê-lo? Lendo os seus artigos no Jornal do Comércio e o seu livro, tem-se a impressão de que existem dois Manuel Benício.

Um relato jornalístico tenta explicar a multiplicação, ou a impressão de um grande número, de conselheiristas, no Jornal de Notícias, de Salvador, de 7 de agosto de 1897, que coincide com o que diz Vilanova em Nertan Macedo:

“Usam eles de uma astúcia em atirar contra os defensores da lei… armam uma trincheira, limitada, e, atirando de um ponto, correm logo para outro e outro” (citado por Walnice Galvão, No calor da hora, Kindle, p. 462).

Quem melhor fundamentou uma contagem sobre o número de casas e de habitantes em Canudos foi Manuel Benício no Jornal do Comércio do Rio, na edição de 12 de agosto de 1897. Diz ele:

Canudos, 18 de julho… Canudos. Tem no máximo duas mil casinholas… Cerca de duas horas estivemos a contá-las [ele e o correspondente do jornal A Notícia do Rio de Janeiro], do Alto da Favela, e não chegamos a mais de 1.200. São casebres sem portas, de parede de taipa [pintadas de vermelho e branco ou cinza]… com cobertura de folhas de icó emboçadas de barro.

Para fazer a vontade dos exasperados… darei a maior: 300 casebres… a eles que nunca tiveram a pachorra de contá-los como eu tive…

Não me convencerão nunca de que Canudos tem 4.000 casas e que estamos brigando com 3.000 jagunços. As casas não passam de dois mil, e aposto todo o ordenado que o jornal me quiser pagar… Dentro de Canudos, nos cinco grupos [de casas] que formam, são três de 200 — bairro cinzento — dois de 300 — bairro vermelho [a soma dá 1.200]. Em derredor de Canudos há outras casas, que não sobem a 200, e que não são metidas em conta… [porque] já foram incendiadas…

Em cada casarepartida com uma sala de três ou quatro metros, que serve também de cozinha, e em um quarto escuro, no máximo podiam habitar cinco pessoas… Visitei… 15 casas destas! Em uma delas encontrei: o capitão Laureano Roco… o alferes Jonas Napoleão… outro alferes [Galdino]… outro alferes que foi ajudante do coronel Flores [Thompson Flores, do 7º BI, morto precocemente]… Para esse casebre levei uma jaguncinha de nove anos, ferida em um pé. Era impossível estarmos ali, tão apertado era o recinto.

Cinco pessoas [por casa], vá!

Vamos dar [com exagero] … 1,5 criança por casa, e 1,5 mulher também por casa e 1,5 homem ainda por casa. Soma, 7.500 pessoas! 8.000, vá! [O número exato, considerando 1.500 casas, seria 6.750].”

Benício também calculou que a 4ª Expedição não enfrentou mais que mil conselheiristas, coincidindo perfeitamente com o número de corpos de homens contados entre as ruínas de Canudos após a sua queda: 647 (Walnice Galvão, No calor da hora…)

Prossegue Manuel Benício caracterizando os grupos humanos que as tropas encontraram na sua ida a Canudos:

Antônio Conselheiro divide-os em classes de sua confiança pessoal. Há a classe dos fanáticos… Esta cerca sempre ele… [gente de] sua maior confiança, armando-a a Mannlicher, etc. [Frei João Evangelista já a notara e calculou-a em uns 800].

Há a dos valentões, bandidos que vivem a explorar as estradas, saqueando, fazendo piquetes [não formavam a Guarda Católica], acoitados nos antros… dispersos [não moravam em Canudos], tiroteando as tropas… os soldados caçadores de bodes, e que fogem ao primeiro tiro certo que recebem.

É a pior jagunçada

Pode-se juntar a essa classe a dos pequenos lavradores e criadores da circunvizinhança… que defendem as suas propriedades atacadas pela força [o exército] para haver alimento a todo transe [comum na 4ª Expedição].

Há ainda os vagabundos, os trabalhadores, que vivem a caçar… a tomar serviços [avulsos], os quais voltam a Canudos, onde deixam as famílias… [Percorrendo] às vezes, vinte léguas de distância do arraial…

Alguns estão armados… [com] espingarda de caça, pica-paus [pequena espingarda carregada pela boca], clavinotes, etc. A duzentos metros não são muito temíveis [a Mannlicher, do exército, tinha o alcance de 500 m].

Agora as mulheres… no combate de 18 [de julho], dia em que muitas foram presas, mortas e outras se entregaram… Nos dias seguintes, magotes delas vieram se entregar, dizendo que, por ordem do Conselheiro” [as mulheres foram entregues à sanha daqueles que o Conselheiro tratava como demônios!].

Isso é uma versão requentada do episódio do Levita e a sua concubina (Jz 19) e de Lote, em Sodoma (Gn 19,8)? Ou é a versão conselheirista de 'mulheres e crianças primeiro'?

A lenda da prosperidade dos habitantes de Canudos veio da abundância de comida e objetos encontrada nas casas ocupadas pelos soldados de Moreira César. Tal confusão ocorre porque os soldados da 3ª Expedição invadiram as casas próximas das igrejas, que pertenciam à elite local: os comerciantes, os principais proprietários, os quase burocratas da Santa Companhia e assistentes próximos do Conselheiro.

Isso desmente o mito de uma sociedade igualitária, pois a maior parte da população, as 'classes produtoras', vivia numa pobreza espantosa, do ponto de vista de quem vivia em cidade, mas que era natural do semiárido. Os sertanejos não viam, nisso, motivo de vergonha ou sentimentos de inferioridade, pois eles não se viam pobres, e não concebiam um mundo diferente do seu, exceto como anarquia ou afastamento de Deus. Sua confiança e generosidade são muito puras, assim como o seu ressentimento e desejo de vingança, quando se sentem traídos ou ameaçados.

O militar e jornalista Favila Nunes fez o seguinte informe no Gazeta de Notícias, do Rio, em 5 de outubro de 1897:

“As portas [das casas] são tão pequenas que é preciso abaixar-se a cabeça para transpô-las; estendendo-se o braço para cima, toca-se quase a cumeeira; os caibros e ripas são seguros com cordas ou com cipós, as dobradiças das portas e microscópicas janelinhas são de sola [couro], na sua quase totalidade não têm reboco nem caiação, interna ou externa; é um aldeamento de barro, eis o que são as casas de Canudos” (Walnice Galvão, idem, p. 249).

O jornalista Favilla Nunes escreveu o seguinte, na edição de 1º de janeiro de 1898 do jornal Gazeta de Notícias, do Rio:

“Uma população enorme não tinha uma cadeira, uma mesa, uma só cama!… Os combatentes não souberam utilizar-se de quatro canhões Krupp 7,5 e não sabiam fazer uso da alça de mira das carabinas que nos tomaram [Como acertaram Moreira César a 400 metros?].

Viviam na mais absoluta miséria e morreram de fome e sede, sem ter… quem lhes fizesse um curativo.”

Entre as casas da elite se destacava a dos irmãos Vilanova, descrita no jornal A Notícia de 29 de setembro de 1897: “algumas constituem magníficas habitações cobertas com telhas francesas. A do célebre bandido Vilanova, por exemplo, é muito forte, não tendo até agora a artilharia conseguido destruí-la” (citado por Walnice Guerra, No calor da hora…, Kindle, p. 571).

Lelis Piedade, do Jornal de Notícias, também notou a imponência da casa.

“A casa de Vila Nova era uma trincheira fortíssima, bem armada, bem municiada (idem, idem, p. 540).”

Alvim Horcades, em seu livro Descrição de uma viagem a Canudos, de 1899, p. 179, fala que a casa onde morava o Conselheiro, que ele chamou de casa-trincheira, tinha paredes de pedra de mais de um metro de largura.

“Algumas [casas] havia que tinham espessas paredes, porém arranjadas [creio que ele quis dizer ‘arrancadas’] na ocasião da investida feita pela força, pois constavam elas de uma sólida estacada cheia de grandes pedras que impediam a perfuração por qualquer projétil [a casa dos Vila Nova era assim]. Dentre todas, menciono destacadamente 3 destas casinholas, que serviam de morada ao Santo Conselheiro e eram conhecidas pelo nome de Santuário; estas tinham paredes trincheiras (pois bem mereciam ser assim denominadas), que mediam pouco mais ou menos um metro e meio de sólidas pedras e onde o bandido-chefe colocara toda a sua santaria [imagens de santos].”

Noutras palavras. Assim como não faz sentido vê-los como pobres coitadinhos, por causa da ausência de objetos e serviços comuns em uma cidade grande, tampouco faz sentido propalar que havia em Canudos uma sociedade igualitária e próspera, a caminho do socialismo, conforme as expectativas, anseios e alucinações importadas do pensamento europeu do século XIX.

Eduardo Simões