quarta-feira, 3 de junho de 2026

 

ANHATOMIRIM, A LENDA QUE ABALOU SANTA CATARINA.

 


Não deixa de ser muito prazeroso para quem se dedica à história, como eu, que fui professor de escola pública, ver um tema de história ser promovido por órgãos públicos, como aconteceu nessa exposição em Florianópolis, ao longo de 2025, vista por milhares de pessoas.
Entretanto, a bem da história, é necessário fazer correções, em nome da objetividade factual histórica, a fim de que julgamentos injustos ou teorias tortas não obscureçam o caminho do entendimento das pessoas sobre o que elas são e a sua real possibilidade, como ser humano e como nação. Todos precisamos das referências de nossos antepassados, que não foram anjos, nem demônios, antes pessoas tão humanas quanto aquelas que frequentaram essa exposição e outras. Eles são o retrato de nossas potencialidades e o que eles fizeram, de bom ou de ruim, pode acontecer de novo se as circunstâncias se repetirem e seus descendentes ignorarem ou fantasiarem em demasia a sua história, não sabendo agir quando o contexto se apresentar.

 




Uma publicação, apresentada nessa exposição, cuja capa abre esse post, apresenta nas páginas 60 e 61 uma lista de 78 nomes de pessoas que teriam sido “fuziladas” ou “executadas” na fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim, pelo 'cruel' e 'sanguinário' coronel Moreira César. O personagem em foco, o famoso coronel Folião, gaúcho, aparece como fuzilado ou executado nº 63. A publicação também traz uma foto do desditoso Folião, cuja vida foi encurtada tão violentamente.



Mas algo aconteceu. E eis que ele aparece vivo, numa revista argentina, em 7 de maio de 1904, participando de uma revolta que Aparício Saraiva aprontava contra o governo central do Uruguai. Não esquecer que o 'J' castelhano tem o som do nosso 'R'. Um milagre espantoso, ainda desconhecido, ou ele foi muito mal fuzilado. Abaixo, o número dessa revista argentina e o endereço de acesso.



https://hemerotecadigital.bne.es/hd/es/viewer?id=cdb3d19a-c1cf-4d52-85e4-7b9fb6bb69de&page=46 




terça-feira, 2 de junho de 2026


    O CORONEL MOREIRA CÉSAR E 

               CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 20


RIO DE JANEIRO

Rumo ao Vaza-barris

            João Maurício Wanderley, o Barão de Cotegipe, da Bahia, se notabilizou, no tempo do Império, de duas maneiras: a primeira, por lutar contra a Lei Áurea, imaginando o prejuízo que esta causaria à economia e a imprevisão sobre as dificuldades que os ex-escravos teriam em se integrar à sociedade; a segunda, por suas profecias sobre o final do Império e início da República.

Em setembro de 1884, numa reunião em sua casa, na presença de dois amigos, ele falou:

— “A Princesa não há de subir ao trono e, se subir, terá chegado a vez da República, que deverá ser feita por nós, conservadores; porque, se o for pelos liberais, desunidos e desorientados como estão, não serão capazes de manter a integridade deste colosso, a qual vale mais que a sua forma de governo… As constituições não se fazem olhando para o exterior do país” [como o fez Rui Barbosa, em 1891].

Um dos amigos falou que talvez a República não esperasse a filha do imperador.

— “É possível, mas será um desastre; porque, se a República esperar o romper do dia e sair à rua ao cair da noite [talvez no sentido de “após o fim da noite”, como de fato aconteceu], depois de tatear algum tempo nas trevas, dará com tudo isto em Vaza-Barris…” (1) (p. 36)

O processo de republicanização do Brasil, entretanto, ao contrário do que queria Cotegipe, foi dominado por liberais como Rui Barbosa, Floriano Peixoto, Silveira Martins, chefes dos federalistas gaúchos, etc. Rui fez-nos uma Constituição, no molde da americana. No Rio Grande do Sul, Floriano afiançou a ditadura do republicano histórico Júlio de Castilhos, contra o seu ex-colega liberal Gaspar Silveira Martins, desencadeando uma das mais selvagens guerras civis da nossa história.

Na Bahia não foi diferente, pois Rui, aproveitando-se de sua influência no governo Deodoro, mexeu os pauzinhos para garantir as melhores colocações para seus antigos correligionários liberais. A Bahia, como o Rio 
Grande, virou um caos! E, no final, veio Canudos. Luiz Viana e seu preposto: Joaquim José Rodrigues Lima, sem falar de César Zama, eram todos liberais!

Por que será que era tão importante aos republicanos aplicar o golpe ao anoitecer, e não esperar o amanhecer? Tenho uma teoria a esse respeito, mas só vou falar no final.

Cotegipe, pelo visto, conhecia profundamente o Brasil e os brasileiros, uma habilidade perdida pelos nossos políticos, e mais uma vez profetizou, dessa vez na companhia de Antônio da Silva Jardim, o Silva Jardim, o republicano mais 'socialista' da época, ainda assim capaz de dialogar com quem pensava diferente. Encontraram-se num dia frio e cinzento no Hotel das Paineiras, no Rio de Janeiro, onde Cotegipe convalescia, em 13 de fevereiro de 1889. Disse Cotegipe, quando Jardim lhe provocou, perguntando sobre a chegada da República:

 

— “Não se apresse a correr para ela, que ela está correndo para nós. O meu Ministério caiu por uma conspiração de Palácio [a Princesa Isabel e o Conde D’Eu queriam a abolição já]; o meu sucessor há de cair na lama das ruas, e o sucessor do meu sucessor cairá na ponta das baionetas e, talvez, com ele, a Monarquia. Os nossos ministérios duram pouco e, portanto, V. não terá muito que esperar (idem, p. 37).

 O gabinete Cotegipe, conservador, foi sucedido pelo gabinete conservador-moderado de João Alfredo Correia de Oliveira, que promoveu a Abolição e foi embora sem deixar rastro. Acabou na poeira do esquecimento. Depois veio o gabinete liberal de Afonso Celso de Assis Figueiredo, o Visconde de Ouro Preto, durante o qual se deu o golpe de 15 de novembro. Como previsto.

A República começou, portanto, cercada pelos liberais, como ele tanto temia, e o único conservador que teve papel predominante, o marechal Deodoro, já não estava funcionando muito bem. Dizem que ele nunca funcionou.

Na sessão de 12 de maio de 1888, a última em que se discutiu sobre a Lei Áurea, Cotegipe tomou a palavra e pôs-se a profetizar: “A verdade é que há de haver uma perturbação enorme no país durante muitos anos, o que não verei, talvez, mas aqueles a quem Deus conceder mais vida, ou que forem mais moços, a presenciarão” (2) (Anais do Senado, p. 36).

Em 1889 houve a queda do império; em 1890 houve a maior crise financeira da história do Brasil, o Encilhamento; em 1893 houve o início da Revolta Federalista e da Armada, que durou dois anos; em 1896 estourou a guerra em Canudos, que durou quase um ano. Foram de sete a oito anos de conflitos e confusão, com muito sangue derramado.

No dia 12 de maio ele fez uma impressionante profecia durante os debates finais para a aprovação da Lei Áurea, onde voltou a lembrar a necessidade de formação de sociedades beneficentes, como era a compreensão da época, para preparar os ex-escravizados paras prosperarem na sociedade nacional, e desfiou a sibila que havia nele.

— “Senhores, a grande transformação se aproxima; a cerração negra [a estagnação econômica, política e social do Império] desaparece, rejeitada pela força irresistível dos acontecimentos que operam as mutações do tempo no seio da história, e por esses espaços imensos… entrarão os fachos deslumbrantes de um novo sol, e o oxigênio poderoso da civilização americana purifica essa atmosfera saturada de emanações cadavéricas; é uma ressurreição; é um passado de volta ao abismo de onde caiu [há erros ortográficos nesse texto, talvez o certo seja “saiu”]; é uma … era nova que começa; de todos os pontos de nossas fronteiras… os ventos nos trazem ideias vivificadoras… a liberdade religiosa; a regularização da legislação em todos os seus ramos; a difusão do ensino e universidade do voto a desenfeudação da propriedade; a federação dos Estados-Unidos Brasileiros…” (Estrepitosos aplausos prolongados).

— “Tudo isto precisamos, e o faremos, apesar da Coroa e contra a Coroa, se ela se opuser, porque já nos devemos convencer de que não é possível amalgamar a liberdade com o absolutismo: são duas coisas que se excluem. (Aplausos prolongados). Isto que era impossível antes da abolição, hoje torna-se inevitável. Estas são as nossas reformas… que hão de modelar os novos partidos políticos, de cujas evoluções dependem as nossas futuras instituições, que não podem ter outro princípio senão o da mais ampla liberdade no estilo americano. (Aplausos e vivas.)”

— “Entendo que grandes males vão surgir desta medida; convém que sejam quanto antes tomadas providências em benefício não só da lavoura, como dos que vão ser libertados. Chamo também a atenção do país e do governo para as tendências, que já aparecem, e, ao final, pedirei a Deus, do mais íntimo do meu coração, que afaste de nós todos os males que eu prevejo [E que, infelizmente, aconteceram].”

(Idem, p. 36–37).

Quem conhece a barbárie que tomou conta do país na década de 1890 sente um arrepio ao ler essas palavras e se pergunta: “Como ele sabia?”

Eduardo Simões

domingo, 31 de maio de 2026

 

PILULAS DA SUMA TEOLÓGICA DE AQUINO (pelos dominicanos espanhóis)

A Ciência Sagrada é uma ciência prática?

Nota dos dominicanos espanhóis

O que essas palavras significam para São Tomás? Aquilo que é ordenado a fazer algo, aquilo direcionado para a ação, é chamado de prático; aquilo ordenado para o conhecimento, aquilo direcionado para o conhecer, é chamado de especulativo. A inteligência humana, como tal, conhece por conhecer: este é o seu próprio fim, a sua obra específica. Mas ela também pode conhecer para direcionar algo além da sua própria operação: isto é, ela pode produzir (finis non est cognitio sed opus: In Sent. 3 d.35 q.1 a.3 sol.2). Mas mesmo neste segundo caso, trata-se de conhecimento intelectual; duas faculdades não seriam necessárias, mas sim uma com duas funções. A ciência prática lida especulativamente com coisas práticas. A inteligência, que é inerentemente especulativa, “torna-se” prática por extensão. Os princípios com os quais se opera em cada caso são diferentes. Assim, os princípios especulativos são resolutivos (analíticos), porque a verdade daquilo que se conclui é resolvida nesses princípios; os princípios práticos são composicionais (sintéticos) porque consideram a verdade conhecida na medida em que ela é “acionável”, ou seja, tendem a sintetizar o que é conhecido com a existência. Isso explica por que o prático vê as coisas em termos de sua existência singular (contingente), enquanto o especulativo vê tudo na medida em que é universal (necessário).

Toda ciência prática lida com o que pode ser feito pelo homem. Assim, a Moral lida com os atos humanos; a Arquitetura, com os edifícios. A doutrina sagrada, por outro lado, tem como objeto principal Deus, cuja maior obra é o homem. Portanto, não é uma ciência prática, mas sobretudo especulativa.

Solução: Deve-se dizer que a doutrina sagrada, sendo una, abrange tudo o que pertence às ciências filosóficas da perspectiva formal sob a qual a considera, isto é, na medida em que pode ser conhecida pela luz divina. Portanto, embora algumas ciências filosóficas sejam especulativas e outras práticas, a doutrina sagrada as abrange a todas, da mesma forma que Deus conhece a si mesmo e suas ações com o mesmo conhecimento. Além disso, estamos lidando com uma ciência mais especulativa do que prática porque se ocupa principalmente do divino, e não do humano. Pois, quando se ocupa da humanidade, fá-lo na medida em que o homem, por meio de suas ações, é direcionado para o conhecimento perfeito de Deus, visto que a felicidade eterna consiste nesse conhecimento.

 

Nota dos dominicanos espanhóis

Tomás de Aquino retoma a divisão de Aristóteles, segundo a qual os hábitos práticos do homem santo são a prudência e a arte, e os especulativos são a ciência, a sabedoria e o hábito dos princípios [disposição natural e inata da mente humana para discernir as verdades mais evidentes e universais sem necessidade de demonstração, como o princípio da não contradição]. A função prática, dissemos, é o próprio intelecto ordenando-se para um fim que não é sua própria operação; portanto, será sempre algo secundário a ele, e que pressupõe a função especulativa primária. Aqui, São Tomás rompe com toda a tradição ao atribuir à teologia a função especulativa como sua função primária. Até ele, todos os teólogos agostinianos concordavam em rejeitar um fim puramente especulativo para o conhecimento teológico, convergindo para uma teologia afetiva. A natureza de uma ciência deve ser determinada em termos de seu fim, e o fim último desta doutrina é a contemplação da primeira verdade na pátria celestial. Assim, trata-se, de fato, primordialmente de pensamento especulativo, como já havia expressado São Tomás. Isso é o que seus predecessores e contemporâneos rejeitaram, para quem o pensamento deveria ser um meio para a ação. Segundo ele, ao contrário, a ação não é o fim pretendido por esta ciência, mas antes a contemplação. Esta é a posição mais coerente com a escolha feita, na qual a inteligibilidade da criação tem primazia.

A doutrina sagrada é superior às outras ciências.

Solução. É preciso dizer: como esta ciência é especulativa em alguns aspectos e prática em outros, ela é superior a todas as outras ciências, tanto especulativas quanto práticas. Entre as ciências especulativas, diz-se que uma é superior a outra segundo a certeza que contém, ou segundo a dignidade do assunto que aborda. Em ambos os aspectos, a doutrina sagrada é superior às outras ciências especulativas. Quanto à certeza das ciências especulativas, fundada na razão natural, que pode errar, ela contrasta com a certeza fundada na luz da ciência divina, que não pode falhar. Quanto à dignidade do assunto, é porque a doutrina sagrada lida principalmente com algo que, por sua sublimidade, transcende a razão humana. As outras ciências consideram apenas o que está sujeito à razão.

Dentre as ciências práticas, a mais valiosa é aquela que se orienta para um fim superior, assim como a ciência civil se orienta para o militar, visto que o bem do exército tem como fim o bem do povo. O fim da doutrina sagrada, como ciência prática, é a felicidade eterna, que é o fim para o qual todos os objetivos das ciências práticas se orientam. É evidente, sob todas as perspectivas, que a doutrina sagrada é superior às demais ciências.

Resposta às objeções: Nada impede que aquilo que é certo por sua natureza nos pareça menos certo, devido à fragilidade do nosso entendimento, pois o nosso entendimento. Portanto, a dúvida que surge em alguns a respeito dos artigos de fé não se origina na incerteza do seu conteúdo, mas na fragilidade do entendimento humano. No entanto, o pouco que se pode saber sobre as coisas sublimes é preferível ao muito e à certeza que podemos saber sobre as coisas inferiores [materiais].

Nota dominicanos espanhóis

Esta resposta pressupõe, embora não explicitamente, o papel da razão na tarefa teológica. Ela atua como causa primária, mas subordinada à fé. É precisamente a maneira como a inteligência humana participa dessas outras ciências “inferiores” à teologia que as torna mais certas: não em si mesmas, como esclarece São Tomás de Aquino, mas devido às limitações do nosso entendimento [daí a necessidade da fé prévia].

 

O segundo ponto a ser destacado é o seguinte: esta ciência pode recorrer a disciplinas filosóficas, não por necessidade, mas para melhor explicar seu objeto de estudo. Pois ela não deriva seus princípios de outras ciências, mas diretamente de Deus por meio da revelação. E mesmo quando recorre a outras ciências, não o faz por serem superiores, mas sim por serem subordinadas e subservientes, assim como a arquitetura tem fornecedores, ou a ciência civil tem fornecedores militares. A ciência sagrada o faz não por deficiência ou incapacidade, mas devido à fragilidade de nossa compreensão. A partir daquilo que conhece pela razão natural (da qual outras ciências procedem), ela é conduzida, como que guiada pela mão, àquilo que transcende a razão humana e que é o objeto da ciência sagrada.

A doutrina sagrada é uma sabedoria.

 

Nota dos dominicanos espanhóis

Esta era a afirmação tradicional a respeito da doutrina sagrada, da qual ninguém discordava. Desde Santo Agostinho, ao afirmar o caráter da sabedoria e negar o da ciência para a teologia, a questão, ao longo da escolástica, não ofereceu dúvidas. A sabedoria é o supremo dos hábitos intelectuais ou cognitivos. A sabedoria é o mais elevado dos hábitos intelectuais ou cognitivos. Ou seja, a ciência em seu grau mais elevado; aquilo que se manifesta por meio de suas causas ou princípios mais elevados. Ciência suprema em todos os sentidos, ela julga os princípios de todas as ciências: ela os ordena, explica e defende. Por outro lado, “sabedoria” evocava um conhecimento “delicioso”, que se harmonizava admiravelmente com a doutrina sagrada. Mas o que tradicionalmente se apresentava como um dilema (ou é ciência ou é sabedoria) é resolvido por São Tomás de Aquino ao observar que a sabedoria não se opõe à ciência, mas antes lhe acrescenta algo. É conhecimento por meio de causas (ciência) e por meio da causa suprema (sabedoria). Para São Tomás, na realidade, precisamente por ser ciência subordinada à ciência de Deus, a teologia é una, especulativa e prática, superior a todas as outras ciências e à sabedoria. E isso se aplica ainda mais à metafísica, visto que esta alcança Deus indiretamente (quantum ad illud quod est per creaturas cognoscibile =  no que se refere àquilo que é cognoscível através das criaturas), enquanto a teologia o alcança diretamente (quantum ad id quod no tum est sibi de seipso = no que se refere àquilo que lhe é desconhecido). A revelação é, na realidade, uma derivação da luz pela qual Deus se conhece, como já vimos anteriormente.

 

Esta doutrina é, dentre toda a sabedoria humana, a sabedoria em mais alto grau, não apenas em um sentido específico, mas de forma única e completa. O papel do sábio é guiar e julgar; e seu julgamento é feito tendo como ponto de referência a causa suprema de tudo o que é inferior. Assim, em todos os tipos de coisas, aquele que mantém em mente a causa suprema de cada coisa concreta é chamado de sábio. Por exemplo, o trabalhador que prepara os projetos de um edifício é chamado de sábio e arquiteto em relação aos trabalhadores que esculpem a madeira ou poliam a pedra. Nesse sentido, 1 Coríntios 3:10 diz: “Como sábio mestre de obras, ele lançou os alicerces.” E na vida humana, o sábio é chamado de prudente por guiar a ação humana ao seu fim próprio. Por isso, Provérbios 10:23 diz: “A sabedoria do homem é a prudência.” Assim, aquele que tem como ponto de referência a causa suprema de todo o universo, que é Deus, será chamado de sábio em mais alto grau. Portanto, a sabedoria é definida como o conhecimento do divino, como afirma Agostinho no Livro XII de *De Trinitate*, p. 11. O aspecto mais genuíno da doutrina sagrada é referir-se a Deus como a causa suprema, e não apenas pelo que se pode conhecer d'Ele através da criação… mas também por aquilo que somente Ele pode saber de Si mesmo e que Ele comunica aos outros por meio da revelação. Disso se segue que a doutrina sagrada é sabedoria em grau máximo.

Resposta às objeções:

A doutrina sagrada não extrai seus princípios de nenhuma outra ciência humana, mas da ciência divina, que, como sabedoria em grau máximo, governa todo o nosso entendimento.

Os princípios das outras ciências são ou autoevidentes e não necessitam de demonstração; ou são evidentes em alguma outra ciência sendo demonstrados por um processo mental natural. O conhecimento próprio que se possui na ciência sagrada é dado pela revelação, não pela razão natural. Portanto, não lhe cabe provar os princípios de outras ciências, mas apenas julgá-los. Assim, condena como falso tudo o que, em outras ciências, é incompatível com a sua verdade.

Ao sábio corresponde julgar. Visto que existem duas maneiras de julgar, a sabedoria também deve ser compreendida de duas maneiras. Uma delas é se o juiz possui uma inclinação particular para algo. Por exemplo, a pessoa virtuosa julgará corretamente tudo o que se relaciona à virtude, visto que tem inclinação para ela. Daí o que se diz no Livro X da Ética, 12: “A pessoa virtuosa é a regra e a medida das ações humanas.” Outra maneira de julgar é pelo conhecimento. Assim, por exemplo, um especialista em moral pode julgar os atos de uma virtude específica mesmo que não a possua. Agora, quando se trata de julgar assuntos divinos, a primeira maneira indicada é aquela que corresponde à sabedoria que está entre os dons do Espírito Santo, seguindo o que se diz em 1 Coríntios 2:15: “O homem espiritual discerne todas as coisas”, etc... A segunda forma de julgamento pertence à doutrina sagrada, na medida em que é adquirida por meio do estudo; embora adote os princípios que emanam da revelação.

Nota dos dominicanos espanhóis

A teologia não demonstra os princípios de outras ciências, mas condena como falso tudo o que é incompatível com a verdade teológica. Será necessário, mais uma vez, ter em mente que a inteligência do teólogo em seu trabalho é intrínseca e constantemente iluminada e medida pela fé. Quando a teologia ultrapassa o alcance da revelação, essa condenação poderia também se estender a áreas fora de sua competência [criava-se assim uma área de atrito perigosa]. São Tomás estabelece a distinção relevante para resolver a objeção levantada [a sabedoria como dom do Espírito Santo e como resultante da leitura dos textos sagrados]: como a teologia envolve diversos níveis de inteligibilidade e diversos modos de acesso às suas conclusões, é legítimo propor a distinção. Mas isso não implica separação. A frase conclusiva deste ad 3 (licet eius principia ex revelatione habeantur = embora seus princípios sejam derivados da revelação) adverte sobre a necessidade de uma recomposição contínua da unidade teológica, retornando constantemente aos seus princípios (In Boet. de Trin. q.6 a.1). Nada se encontra em São Tomás que autorize a fundamentação nele da ruptura dos devotos do século XV, que dissociaram a teologia espiritual da teologia especulativa. O trabalho teológico não é um projeto meramente humano, nem tem nada a ver com uma tarefa filosófica “aplicada” a dados aceitos como postulados. “O teólogo não é um filósofo que trabalha sobre uma crença, mas um crente” (Congar). As conclusões teológicas estão sempre intimamente ligadas aos seus princípios, que, como sabemos, são os artigos de fé (ver a passagem citada em In Boet. de Trin.).


sábado, 30 de maio de 2026

O HOMEM TORMENTA (CANUDOS).

Um personagem foi fundamental para o desabamento da tempestade que aniquilou Canudos. O juiz de direito Arlindo Batista Leoni, que por meio de telegramas insistentes conseguiu o início da intervenção federal contra a comunidade, alegando que os canudenses queriam saquear Juazeiro, no início de novembro de 1896.

Contaminados pelo relato de Euclides da Cunha, jornalistas e pesquisadores não se preocuparam em procurar esse personagem e extrair mais informações a respeito do gatilho do conflito, informações que, hoje, fazem falta, como a sua relação com as pendências da política nacional. 

Deputados e ilustres lideranças políticas baianas, reunidos no Jockey Clube do Rio de Janeiro, em 1933, para homenagear o interventor da Bahia, nomeado por Getúlio Vargas, Arthur Neiva, o penúltimo sentado, à direita, com braços cruzados, de óculos e paletó claro. No centro, sentado, segurando um volume, uma estrela política em ascensão na Bahia: Juraci Magalhães. Na extrema esquerda, sentado, olhando fixo, com as mãos nas coxas, o homem que desatou a tormenta: o ex-juiz, agora deputado federal Arlindo Leoni, que, embora tenha passado seus últimos anos de vida no Rio de Janeiro, faleceu em 1936. Ninguém o procurou para esclarecer o que aconteceu em Juazeiro, naquele novembro de 1896. Quem pagou o preço por tanta elegância e sofisticação, às vésperas de uma ditadura, foram os soldados e os sertanejos em Canudos (copiado de https://editoradionisi.com.br/folhaespiritacairbarschutel/2021/03/20/dr-arthur-neiva/). 

  

Nessa foto, ele é o quarto da esquerda para a direita, de costas na primeira fila, num outro instantâneo acontecido no almoço de 1933 no Jockey Club.

Essa foto está no verbete Arlindo Batista Leoni, na Wikipedia em português. O curioso é que o verbete levanta vários cargos públicos importantes que ele desempenhou na política baiana e nacional, mas não faz nenhuma menção ao papel fundamental dele no início da Guerra de Canudos. Uma característica desse acontecimento foi o silêncio impressionante em que se fecharam todos os principais personagens dessa gigantesca tragédia-crime. A mesma omissão se vê no Dicionário Biográfico da Primeira República, da FGV, que traz a sua biografia mais completa, mas que também não cita Canudos. 



quinta-feira, 28 de maio de 2026

 


DISCURSO DE RAUL POMPEIA NO SEPULTAMENTO DE FLORIANO PEIXOTO, RECONSTITUÍDO POR ELE (O PAIZ 3 de outubro de 1895, p. 4).







Vê-se na antepenúltima tira, infelizmente manchada, a mania mania de ver conspirações por toda parte, típica do florianismo e de todos aqueles que vivem conspirando para quebrar as regras do jogo. Ao dizer que os outros estão conspirando, ele transfere a culpa para os inimigos, enquanto se justifica: eu só conspiro para me proteger das suas conspitrações.
Na última tira vê-se o ódio injustificado e a crítica desproporcional contra os portugueses, típicos do jacobinismo desvairado, o que nesse caso atingia o presidente, uma vez ele reatou as relações com Portugal, desfeitas por Floriano, que não perdoava o abrigo dado aos inimigos. 
Os seus elogios ao marechal Floriano, nas primeiras tiras, ficam bem para um fã-clube juvenil, não para um intelectual que já ganhara certa projeção como Raul de Pompeia! 
Como a reconstituição foi feita pelo próprio Pompeia, na calma do lar, um bom tempo após a ocorrência dos fatos e já sofrendo as consequências do que disse, não é possível dizer com certeza que foram exatamente essas as palavras e, principalmente, o tom emocional dado ao discurso.


 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E 

CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 19

Notas de Santa Catarina

1 — Euclides da Cunha, Os sertões, 1ª edição, Fundação Darcy Ribeiro, Rio de Janeiro, 2013, (Coleção Biblioteca Básica Brasileira 24), p. 296–297.

2 — No primeiro número da revista Don Quixote, de 1895, saiu, nas páginas 4 e 5, uma gravura mostrando, em Santa Catarina, o Barão de Batovi diante de um pelotão de fuzilamento, com Moreira César, e o filho vindo abraçá-lo.

3— http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=349070&pesq=vicente%20lopes%20de%20oliveira

4 — “Telegrama particular, recebido ontem nesta capital, dá-nos a dolorosa notícia da infausta morte do inditoso moço, nosso distinto comprovinciano João Evangelista da Silva Nery, alferes do exército, ocasionada por sofrimento de que saíra daqui atacado” [talvez tuberculose]. 

5 — Também citado por Diogo Lunardelli; Florianópolis: a marca do legalismo autoritário em Desterro; trabalho para a conclusão do curso de bacharel em História sob a supervisão do prof. Dr. Paulo Pinheiro Machado; Florianópolis; 2020. Aliás, sobre esse engenheiro e seus colegas: Etienne Charles Muller, n° 25, e Felipe Maes Etienne, n° 26, da lista, os brasileiros deliram faz tempo. Noutro lugar, li que a França exigiu uma indenização de um milhão de francos pelos seus desaparecimentos, e que o governo de Prudente de Morais pagou. Mas, misteriosamente, não saiu nem um tostão do salário do coronel, nem foi acrescentado qualquer demérito em sua ficha pessoal!

6 — Ver em https://ancestors.familysearch.org/pt/K8QV-LB4/caetano-nicolao-demoro-1856-1934 e https://www.mafra.com.br/genealogia/getperson.php?personID=I019961&tree=arfamis001 

7 — FLORIANÓPOLIS: marca do legalismo autoritário em Desterro, UFSC, Florianópolis, 2020.

8 — O cerco das tropas federais posicionadas em Lapa, no norte do Paraná, pelos federalistas, durou de 14 de janeiro a 11 de fevereiro de 1894. Na cidade de Lapa, estavam 938 soldados governistas — militares, policiais e voluntários — cercados por cerca de 3 mil federalistas, que, após combates duríssimos, se renderam a estes, sob promessa de vida. Schutell não participou do cerco.

9 — 2ª edição, Vozes, Petrópolis, 1995 (p. 170–172).

10 — Os batalhões patrióticos do início da República foram mais ou menos o equivalente à Guarda Nacional do Império, com algumas diferenças. Eram unidades voluntárias compostas por civis entusiastas da República, independentemente da renda. Tinham, portanto, uma feição popular e garantia de trabalho remunerado por curtos espaços de tempo, em meio a uma grande massa de desempregados gerada pelo Encilhamento. Também chamava muito a atenção a presença de jovens acadêmicos de classe média, sempre ansiosos para servir um ‘salvador da pátria’. Convocados pelo grupo de Floriano Peixoto, estavam fortemente vinculados a este e desenvolveram, com o passar do tempo, um fanático culto à personalidade do marechal. Bem comandados eram contendores tremendos, sempre muito motivados. Um dos batalhões mais famosos foi o carioca Benjamin Constant, que teve uma participação decisiva na selvagem batalha de Ponta de Armação em fevereiro de 1894. Como esses batalhões não tinham ligação orgânica com o exército, eram um instrumento valioso para realizar missões ‘sujas’ ou sigilosas para o chefe. Prudente de Morais os dispensou, e eles se extinguiram naturalmente. Ninguém deu pela falta deles.

O escritor pernambucano José Gonçalves Maia, que viveu essa época, escreveu no seu livro Horas de prisão, Imprensa Industrial, Pernambuco, 1923, das páginas 95 a 101, um capítulo intitulado Os Tiradentes, onde faz um apanhado da ação de um desses batalhões ‘patrióticos’, do qual transcrevo algumas partes:

São, em geral, indesejáveis, criminosos, cavaleiros de indústria [oportunistas], larápios, vigaristas, esquecidos da polícia, e que se garantem, oferecendo-se em sacrifício à ordem e à legitimidade. A impunidade é o primeiro salário dos mercenários. O patriotismo é um pretexto e um manto.

Aboletados no mesmo edifício do 14º de Infantaria… Os prisioneiros testemunham cenas depravadas desse bando de «patriotas» que formam o batalhão sagrado da legalidade.

Desde a sua chegada que se estabeleceu a anarquia no quartel e o terror nas ruas.

Não há mais hora de entrada, nem de saída. As cantigas, os assobios, as gargalhadas… as rixas, as conversas em voz alta, os impropérios obscenos com que se mimoseiam; perturbam a ordem, mesmo após o toque de silêncio, e se prolongam pela madrugada”.

11 — Revista Defesa Nacional, Biblioteca do Exército, nº 639, Rio de Janeiro, set – out 71, p. 64.

12 — 7ª edição, Nacional, São Paulo, 1976, p. 127.

13 — Ed. Estação Brasil, Rio de Janeiro, 2017.

14 — Ver José Justino de A. e Silva; Coleção cronológica da Legislação Portuguesa, compilada e anotada — segunda série (1640–1647), Imprensa de F. X. de Sousa, Lisboa, 1856.

15 — Marcelo W. Rabello de Souza, Conde de Lippe (e seus artigos de guerra), quando passou por aqui, chegou também lá, trabalho de mestrado em História do Direito, sob a orientação do Pr. Dr. Rui Marcos, Lisboa, s/d).

16 — O Coronel-Engenheiro Cláudio Moreira Bento teve a feliz iniciativa de propiciar-nos pela internet os famosos 29 Artigos de Guerra do Conde Lippe, para podermos compreender o espírito e as leis reinantes no exército luso-brasileiro do século XVIII

https://www.ahimtb.org.br/ARTIGOS%20DE%20GUERRA%20DO%20CONDE%20DE%20LIPPE.pdf

17 — O traço característico dos dois primeiros períodos [Colônia e Império] é uma multidão de leis, decretos, regulamentos, portarias, ordens do dia, avisos, ordenanças, provisões, resoluções, instruções, etc., muitas delas se chocando com outras, umas revogando outras, expressamente ou não (José César de Assis, Uma visão crítica sobre o Ministério Público Militar durante o período da República Velha, no site www.jusmilitari.com.br).

Apesar disso, e desde o período colonial, fica bem claro a completa impossibilidade de um oficial inferior condenar à morte um superior, e mais ainda fazê-lo por iniciativa própria, sem passar por um tribunal previsto em lei e com direito a apelação.

18 — Ferraz, idem, p. 65.

Eis o que diz o Decreto 1.681, de 28 de fevereiro de 1894

Declara sujeitos à jurisdição do foro militar os crimes que se relacionarem à rebelião que ora conflagra o Distrito Federal e outros pontos do território da União [Revolta da Armada].

.....   

Considerando que, nas circunstâncias… não é lícito ao Poder Público deixar de punir imediatamente, e com o máximo rigor, os graves crimes que atentam contra a consolidação da república, o restabelecimento da paz e a sustentação do princípio da autoridade [atualmente o pretexto é a democracia].

.....

Artigo único. Ficam desde já sujeitos à jurisdição do foro militar os crimes que tenham sido ou vierem a ser cometidos por militares ou civis em qualquer ponto do território da União ocupado por forças legais ou rebeldes, uma vez que tais crimes estejam enumerados no art. 1º da lei n. 631, de 18 de setembro de 1851, e se relacionem com a rebelião que ora conflagra o Distrito Federal e outros pontos do território da República."

Ou seja: eles não poderiam ser julgados em um foro civil na área conflagrada. O decreto procura se embasar em legislação anterior. O decreto 61 de 24 de outubro de 1838, no período conturbado das regências, e na lei nº 631, de 18 de setembro de 1851.

Decreto 61.

Art. 2º No caso de rebelião, poderá o Governo ordenar que se observem no Exército as leis militares em tempo de Guerra [as quais são mais severas] …

Art. 3º Ficam revogadas as outras leis em contrário.

Lei 631.

Art. 1º No caso de guerra externa, serão punidos com a pena de morte na província em que tiverem lugar as operações do Exército Imperial… 1º os espiões: 2º os [colaboracionistas]: 3º os que… tentarem seduzir as mesmas praças, a fim de que se levantem contra o Governo, ou os seus Superiores: 4º os que atacarem sentinelas: 5º os que entrarem nas Fortalezas sem ser pelas portas e lugares ordinários [sabotadores].

 § 8º No caso de guerra externa, o Governo fica autorizado: 1º a criar provisoriamente na Província, em que tiverem lugar as operações de guerra, uma Junta de Justiça militar para o julgamento, em segunda instância, dos crimes militares de sua competência… [não havia essa instância em Desterrro, necessária para o caso de sentença de morte]”.

O Decreto 1685, de 4 de março, simplesmente amplia a aplicação da legislação de guerra para outros crimes de menor gravidade ocorridos nas áreas conflagradas. Foi só mais uma volta no parafuso.

19 — 3ª edição, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo, 1995, p. 122–123.

20 — Senado Federal, Brasília, 2005, p. 34–35.

21 — Floriano diz para Moreira César que está pensando em mandar um major organizar a segurança da embaixada do Brasil no Uruguai e pergunta-lhe o que acha disso:

Cesar responde-lhe:

— Para que mandar um major? Basta um alferes com um bom conhecimento do fuzil brasileiro!

À primeira vista, uma resposta maluca, mas Floriano entendeu muito bem o que ele quis dizer e nunca mais voltou ao assunto.

Se César respondesse seriamente o que ele achava — e ele tinha envergadura intelectual para isso — Floriano lhe diria: “Para que vou mandar um major, é melhor mandar você, que é um coronel.” E ele ficaria na difícil situação de dizer “não”. Ele sabia que Floriano queria se livrar dele para dar um golpe, ao qual César se opunha, mas este preferiu permanecer aqui, como um ‘problema em aberto’ para Floriano e seus seguidores. 

22 — 4ª edição, Difel, São Paulo, 1983, p. 145.

23 — Epaminondas Vilalba, A Revolução Federalista no Rio Grande do Sul, Laemmert & Cia, Rio de Janeiro — São Paulo — Recife, 1897, p. 231–232.

24 — Excertos da história de um batalhão de infantaria… (parte 3), Defesa Nacional, nº 640, p. 23.

25 — “O Congresso representativo, reunido em sessão de instalação [com o governador, foram eleitos deputados e senadores locais e federais, em datas distintas, mas próximas], agradece os leais serviços prestados à pátria catarinense pelo coronel Antônio Moreira César (Transcrita no Diário Oficial de 29.9.1894)” (general Epaminondas Ferraz, N 640, p. 27)

26 — Excertos da história de um batalhão de infantaria, sustentáculo da república (3ª parte), revista Defesa Nacional, nº 640, Nov.–Dez. 1971, p. 20.     

27 — Ferraz, nº 639, p. 50.

28 — Todos os destaques são meus.

Termina hoje, neste Estado, sua missão governativa iniciada em 22 de abril último, o distinto militar coronel Antônio Moreira César, deixando traços luminosos

O seu merecimento, assinalado pelos inolvidáveis serviços que prestou durante o governo, reorganizando politicamente o Estado… conquistou-lhe a admiração e a estima do povo catarinense.

Depois de uma revolta que abalou profundamente a vida social e política… mediante grandes esforços… conseguiu restabelecer a ordem e o sossego geral e restaurar as finanças…

Na suprema direção do Estado foram atendidos todos os ramos do serviço público, salientando-se a instrução primária e secundária, assunto de seus incessantes cuidados

Efetivamente, foi o coronel Moreira César quem restaurou a Constituição [estadual] de 11 de junho de 1891 e a sua lei complementar na parte judiciária; decretou outras leis, especialmente a que amortizou a dívida do Estado e que é um dos sulcos brilhantes de sua passagem… 

Preencheu todas as comarcas, dando-lhes juízes à altura do cargo, bem como os lugares de promotores, e, sendo muito reduzido o pessoal existente no Estado para a judicatura e o Ministério Público, recorreu aos estados… onde avulta o número de graduados em direito… no louvável intuito de dar à justiça bons representantes.

Educado nos rígidos princípios da disciplina militar, soube, entretanto, aliar a severidade do alto e espinhoso cargo que ocupou… [buscando] a equidade, sempre que esta se fazia mister por amor à causa pública

O nome do coronel Moreira César, respeitável e cercado do largo prestígio de que merecidamente goza entre seus companheiros de armas…

A nomeada que ficou de seu governo vulgarizou o seu prestígio, como militar, cidadão e administrador, motivou o apreço e gratidão do povo catarinense

A administração do coronel Moreira César foi, portanto, a consagração do bem, da verdade, do direito e da justiça.”

29 — “Eis um nome que sintetiza um vulto espartano de chefe, um caráter sem jaça, uma probidade inconcussa, uma celebração valente, concretizando as energias de uma geração inteira.

Curvamo-nos reverentemente ante tão benemérito patriota, que tem sabido ser credor das mais beneméritas e gerais manifestações do povo brasileiro… e muito principalmente do florescente Estado de Santa Catarina.

Foi assim que Washington, na América do Norte, Beaconsfield, na Inglaterra, Gambetta, na França, Cavour, na Itália, Canovas del Castillo, na Espanha, registraram seus nomes na história universal… [Vejam a quem ele é comparado!].

Está felizmente na consciência de todos os catarinenses a política larga e fraternizadora, liberal e progressiva, essencialmente republicana, que realizou durante o período espinhosíssimo de sua sábia administração…

Honra ao ínclito patriota! Louros ao heroico soldado.

27-9-94

Alguns paraibanos.”

30 — Juízos críticos, Os sertões (campanha de Canudos) por Euclides da Cunha, 2ª edição corrigida — 1903, Laemmert & C., Rio de Janeiro, 1904, p. 18.

31 — Um testemunho da antiguidade e generalização da degola entre nós é dado por um texto de Edwin Reesink na revista ANTHROPOLÓGICAS, dizendo que: em 1624, o general holandês Jan Van Dorth foi aprisionado pelos portugueses, degolado e decapitado, na Bahia; em São Jorge de Mina, na África, os portugueses e seus aliados africanos degolaram 450 prisioneiros holandeses; na chamada Guerra dos Bárbaros, entre 1650 e 1720, travada portugueses e grupos nativos no semiárido, a degola ganhou patrocínio oficial, como se pode observar na recomendação a seguir, feita durante o combate aos jês do Rio Grande do Norte:  “degolando a todos que forem de oito anos para cima, aprisionando as mulheres e as crias” (Saber os nomes: observações sobre a degola e a violência contra Belo Monte (Canudos), ano 17, volume 24(2), 2013).

ANEXO

Nós, os de minha geração, fomos educados para acreditar que, em geral, com os primeiros fios de bigode ou barba, nascia, nos homens, as raízes da vergonha na cara, ainda mais quando o cidadão tinha os bigodes tão vistosos e biografia exemplar como Joaquim Nabuco e Euclides da Cunha.

Em seu livro A intervenção estrangeira durante a revolta de 1893 (Senado Federal, Brasília, 2003, p. 77), Nabuco repete as piores, mais indignas e virulentas calúnias contra Moreira César, no afã de compensar-se por sua causa perdida: o retorno da monarquia, e para dar suporte às suas calúnias, ele cita, na abundante nota número 10, as edições do Jornal do Comércio de 9 de maio e de 16 de maio de 1895, afirmando peremptoriamente que César matou os franceses Buette e Müller, completando que "toda a cidade do Desterro se levantaria para atestar que os dois engenheiros franceses foram fuzilados, sem julgamentos, por ordem de Moreira César."

Por que não o atestaram naquela época? Onde eles foram fuzilados? Que unidade do Exército ou grupo de bandidos os fuzilou? Quando, exatamente, foram fuzilados? O que Moreira César ganhou com isso?

Outro problema é que, embora a edição de 16 de maio do jornal citado traga uma longa matéria sobre os eventos no Paraná, a de 9 de maio não traz nada sobre Santa Catarina e Moreira César, embora a edição do dia 10 traga uma notícia que nos induz a pensar justamente para o contrário do que diz Joaquim Nabuco, e eu a reproduzo abaixo, na escrita original.

FUZILAMENTOS

O Diario Official publica hoje, em virtude de deliberação no Senado, vários ofícios sobre fuzilamentos.

Relativamente ao Estado de Santa Catarina, eis o que consta dessa publicação:

Cópia. — Commando do 5º Districto Militar. — Quartel General em Curityba, 9 de Fevereiro de 1895. — Reservado — Ao cidadão general de divisão Bernardo Vasquez, Ministro dos Negócios da Guerra. — Cumprindo a vossa determinação referida em portaria de 18 de Dezembro findo e em telegramma de 16 de Janeiro ultimo, tenho a honra de transmittir-vos a informação prestada pelo coronel Antonio Moreira Cesar, commandante [atual] de Santa Catarina, declarando não ter havido alli fuzilamentos de officiaes de mar e guerra.

Saude e fraternidade — Manuel Eufrazio dos Santos Dias, general de brigada. — Conforme — F. M. das Chagas.

Copia. — Commando da guarnição do Estado de Santa Catharina. Florianopolis, 30 de Janeiro de 1895. — Cidadão general de brigada Manuel Eufrasio [aqui está escrito com “s”] dos Santos Dias, muito digno commandante do 5º districto militar. — Em resposta ao officio reservado do commandante interino deste districto, de 17 de Janeiro ultimo relativamente á portaria reservada do Ministério da Guerra de 18 de Dezembro de 1894 que diz: “informai com urgência a este Ministério se no districto de vossa circumscripção houve fuzilamentos de militares de mar e guerra determinados por autoridades da Republica” cumpre-me dizer-vos em resposta que não.

Saude e fraternidade. — (assignado) Antonio Moreira Cesar. — Confere — Tenente, Francisco Craveiro de Sá, secretario interino. — Conforme F. M. das Chagas.


Se a República esperar o romper do dia e sair à rua ao cair da noite, depois de tatear algum tempo nas trevas, dará com tudo isto em Vaza-Barris [rio que passava por Canudos].

Barão de Cotegipe, 1884.


A impressão que passa é que a nossa república ficaria permanentemente em um atoleiro. Não é isso que vemos agora?

quarta-feira, 27 de maio de 2026

 

OS FRANCESES NÃO QUERIAM LUTAR CONTRA OS ALEMÃES E NÃO ERAM CONFIÁVEIS.

Em 10 de junho de 1940, a Itália declarou guerra à França, o que já era esperado pelo alto comando franco-inglês. Os ingleses então transferiram 4 esquadrilhas de bombardeiros pesados para o aeródromo de Salon, para, a partir daí, bombardear as cidades industriais de Gênova e Turim, bem à mão. Tudo combinado e acertado com as lideranças políticas francesas.

Qual não foi a surpresa de todos, as autoridades civis e militares da região da Provença, onde estava Salon, discordaram da decisão e decidiram que os aviões não deveriam atacar, porque isso desataria a ira dos italianos e eles poderiam querer revidar nas cidades francesas próximas, mesmo com a Itália já tendo declarado guerra!!!! À véspera do ataque, o comandante do setor aéreo, o ultracondecorado herói de guerra francês Joseph Vuillemin, em conluio com outros, simplesmente ligou para o comandante inglês da operação, o capitão de grupo Field, e proibiu a partida dos aviões.

Telefonema para lá e para cá, decisão tomada: “Esquadrilha autorizada a atacar a Itália a partir de Salon”... “Agora vai”... “Quase foi”... Por volta de 0h30, quando os aviadores estão se preparando para partir, a pista é invadida por dezenas de caminhões e carroças militares e civis, que a bloqueiam irremediavelmente. A operação é cancelada. Uma desordem! E desde o início, isso está bem claro.

Nos livros de Raymond Cartier, historiador e jornalista inglês, sobre a Segunda Guerra, as ações do exército francês em 1940 são marcadas pela desorganização e apatia, que só podem ser atribuídas à sabotagem de colaboradores tanto de extrema direita, por simpatia a Hitler, como dos comunistas, sequestrados pelo pacto de Hitler e Stalin. Os ingleses ainda tentaram uns reides contra a Itália nesse período, com os aviões partindo de aeródromos de Guernsey e Jersey, com resultados pífios. A oportunidade fora perdida.

Dava para confiar que os franceses não iriam entregar os seus navios aos alemães? Daí o ataque a Mers el-Kebir. A Wikipedia em francês evita cuidadosamente esse tema.

 


terça-feira, 26 de maio de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E 

CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 18

O corpo do almirante Saldanha, um prelúdio.

O Jornal do Comércio do Rio, em sua edição de 23–24 de junho de 1930, p. 4, traz uma longa matéria sobre as buscas feitas por alguns federalistas para achar o corpo de Saldanha da Gama, após a batalha de Campo Osório, em 24 de junho de 1895. Ela nos dá uma ideia da selvageria nos combates da Revolta Federalista, selvageria que se repetirá, 2 anos depois, em Canudos.

Essa história se inicia em 25 de junho, quando os federalistas no Uruguai receberam a nova de que a sua última esperança de uma reação militar, visando alcançar uma paz digna, com Saldanha da Gama, acabou no falecimento deste. A batalha ocorreu em Campo Osório, nas proximidades de Santana do Livramento, de frente para Rivera, no Uruguai. Ao pequeno grupo de exploradores federalistas juntou-se o irmão do almirante, que era médico e iria supervisionar a autópsia do cadáver.

No dia 26 de junho, esse grupo, que partiu de Montevidéu, chegou a Rivera, quando, à noite, “fomos dolorosamente surpreendidos pelos ruidosos ecos da estrepitosa manifestação tributada [em Santana do Livramento]… aos comandantes das forças governistas, de regresso de Campo Osório… Ouvimos melancólicos o espoucar dos foguetes e os acordes das bandas militares dos vencedores.” O articulista lembra ainda que essa algazarra mudou para um silêncio profundo, quando, a 29 de junho, chegou a notícia da morte de Floriano Peixoto.

No dia seguinte, eles chegam a Santana do Livramento, onde têm a oportunidade de escutar dos soldados que participaram da batalha a primeira versão sobre a morte do almirante, derrubado do cavalo por lancetadas, e depois morto com golpes de espada na cabeça. Com muito tato e cuidado, colhem informações e se preparam para ir ao local do combate. No dia 2 de julho, saem para resgatar o corpo do almirante.

Saímos de Rivera ao meio-dia. Compunha-se nossa comitiva de um break com 6 pessoas — uma carroça com caixão metálico para os restos do almirante, mantimentos, pás… quinze cavaleiros entre oficiais da marinha e paisanos.”

A viagem não foi confortável; andaram em lugares ínvios e pegaram chuva e névoa, havia muita gente armada e hostil nos arredores. “Após uma hora de marcha, divisamos, à grande distância, densas nuvens de corvos [entre os gaúchos, emprega-se o termo “corvo” para “urubu”]… era lá que estava a carniça… Fomos avançando, vagarosamente… Lufadas de exalações nauseabundas impestavam a atmosfera e aumentavam à medida que subíamos”

Súbito, numa volta, “um cadáver, de costas sobre um cavalo, em adiantado estado de putrefação… era o Chaves, vulgo Paraguaio… rapaz muito moço ainda, da gente do almirante… a seguir, à esquerda, outro corpo acocorado — que deixou os expedicionários em dúvida se era branco ou preto, sendo denunciado pelos pés. Um dos pés do infeliz, realçava-se, já um tanto marmoreado [esbranquiçado], sobre a nudez escura do corpo em decomposição.

À direita, quase de pé… um homem, jovem ainda, com a cabeça quase decepada por formidável corte de orelha a orelha, pondo-lhe o esôfago à mostra [sinal da degola uruguaia], macabramente ria-se… “Este foi degolado depois de morto”, cochicharam… “Não correu sangue, — a camisa não está manchada.”

Finalmente alcançam um chapadão, onde se deu o grosso da batalha, fazem então uma pausa para se alimentar. Churrasqueamos… entre cadáveres de homens e cavalos, num ambiente insuportável… aqui o corpo de um sargento do exército, um belo rapaz… que pareceria mais belo se não fosse o bando de varejeiras que lhe entravam pelos olhos e saíam pelo nariz — ali o destemido conde alemão von Schewerin, entusiasta do almirante… Acolá, um desconhecido.

Procedeu-se, em seguida… rigoroso exame do campo de batalha… as pás e picaretas dificilmente penetravam no chão [que era muito pedregoso, como em Canudos]… de sorte que nos vimos reduzidos a... cobrir os preciosos restos de pedras soltas, deixando às vezes os pés de algumas vítimas destapados [Como em Canudos]. No descampado… entre as trincheiras… jaziam alguns corpos carbonizados e horrivelmente deformados pelo fogo [Como em Canudos].”

 

No alto de uma árvore pequena, encontraram “completamente nu — estirado com pernas e braços abertos — o corpo de um adolescente, de uma criança quase, com… orifício de uma bala na altura do coração.” Começa então um debate se ele era um oficial ou não, em virtude do cuidado de suas unhas e de seu corpo em geral. “Unhas limpas — homem de trato”… Em todo o caso, um dos que atiravam quando o Almirante tombou — “Sá Peixoto” — É possível.” Enterraram-no.

Somente 4 corpos de federalistas em Campo Osório estavam vestidos. Muitos apresentavam feridas no pescoço a guisa de degola, feita antes ou após sua morte. Ao desnudar o corpo, facilita-se a ação dos animais carniceiros e acelera-se o processo de putrefação.

Mas, apesar de todo o trabalho, não foi possível achar o corpo do almirante Saldanha, que só será encontrado por um sargento da Marinha, procurando-o por conta própria, no dia 28 de julho, a quase um quilômetro e meio de distância da batalha. Era um lugar remoto, difícil de achar, denunciado pelo voo dos urubus. Fora posto ali com o claro objetivo de fazê-lo desaparecer, devorado pelos animais, apesar da ordem de Prudente para o corpo ser entregue aos familiares.

O corpo foi autopsiado no dia 10 de agosto de 1895, por médicos liderados pelo irmão do almirante. Nessa autópsia, constatou-se que Saldanha da Gama recebeu duas lancetadas na região do ventre, uma em cada lado, e dois golpes de espada na cabeça, à altura da têmpora, um deles fatal. O corpo também mostrou a falta de uma orelha e metade do bigode tinha sido raspado — talvez uma ironia ao célebre episódio em que ele ordenou a um marujo, que lhe jurara morte após uma punição, para vir fazer a sua barba.

Quem quiser mais detalhes sobre as buscas e os seus impactos na sociedade, leia o livro do almirante Honorato Paiva, Apoteose do almirante Saldanha da Gama, de 1896, disponível na internet.

Após a autópsia, o corpo do almirante foi sepultado no cemitério de Rivera, onde permaneceu até 1908, quando foi trasladado para o Brasil, com os ossos do almirante Barroso. Saldanha mereceu um belo monumento em sua sepultura no cemitério de São João Batista, no Rio de Janeiro, além de muitos outros de que se tornou merecedor.

O coronel Moreira César não teve essa sorte. 

Eduardo Simões