terça-feira, 20 de outubro de 2026

 

UMA MORIBUNDA MARRENTA.

Abaixo traduzo, com a IA, uma página do livro de John R. Green, A Short History of English People, que fala sobre os últimos dias de Elizabeth I.

“O triunfo na Irlanda lançou seu brilho sobre os últimos dias de Elizabeth, mas nenhum triunfo externo pôde romper a melancolia que se acumulava ao redor da Rainha moribunda. Solitária como sempre fora, sua solidão aprofundou-se à medida que envelhecia. Os estadistas e guerreiros de seus primeiros dias haviam saído um a um de seu Conselho; e seus sucessores observavam seus últimos momentos, intrigando por favores no próximo reinado. Seu favorito, Lorde Essex, foi atraído a uma insana conspiração que o levou ao cepo de execução. O antigo esplendor de sua corte minguou e desapareceu. Apenas funcionários permaneciam ao seu redor, enquanto “os outros membros do Conselho e a nobreza se distanciavam em todas as ocasiões”. Onde ela passava em suas viagens oficiais, o povo, cujo aplauso ela cortejava, permanecia frio e silencioso.

O temperamento da época, estava mudando, isolando-a à medida que mudava. Sua própria Inglaterra — séria, moral, prosaica [e feliz, pelo menos do jeito que os ingleses reconhecem] — afastava-se friamente desta filha brilhante, fantasiosa e inescrupulosa da terra e do Renascimento. Ela havia aproveitado a vida como os homens de seu tempo a aproveitavam e, agora que eles haviam partido, ela se apegava a ela com uma tenacidade feroz. Ela caçava, dançava, gracejava com seus jovens favoritos, flertava, repreendia e divertia-se aos sessenta e sete anos como havia feito aos trinta. “A Rainha”, escreveu um cortesão alguns meses antes de sua morte, “nunca esteve tão galante nestes muitos anos, nem tão inclinada à alegria”. Ela persistia, apesar da oposição, em suas suntuosas viagens de palácio em palácio pelo campo. Apegava-se aos negócios como antigamente e repreendia, à sua maneira habitual, “aquele que não se importava em lhe prestar contas de algum assunto”.

Mas a morte se aproximava. Seu rosto tornou-se abatido e seu corpo encolheu-se quase até virar um esqueleto. Por fim, seu gosto por adornos desapareceu e ela se recusou a trocar de roupa por uma semana inteira. Uma estranha melancolia se abateu sobre ela: “ela segurava na mão”, diz alguém que a viu em seus últimos dias, “uma taça de ouro, que frequentemente levava aos lábios [aparentemente vazia]... Gradualmente, sua mente cedeu. Ela perdeu a memória, a violência de seu temperamento tornou-se insuportável e até sua coragem pareceu abandoná-la. Ela queria uma espada constantemente ao seu lado e a cravava de tempos em tempos nas tapeçarias das paredes, como se visse assassinos se aproximando. [Desenvolveu tanto mania de perseguição, medo de ser assassinada, como por vezes sentava-se e chorava por horas a fio sem consolo.]

Alimentos e descanso tornaram-se igualmente desagradáveis. Ela passava o dia e a noite sentada em um banco, apoiada por almofadas, com o dedo nos lábios, os olhos fixos no chão, sem dizer uma palavra. Se quebrava o silêncio uma única vez, era com um lampejo de sua antiga realeza. [Alguns disseram que ela temia deitar na cama e não mais acordar.] Quando Robert Cecil [Conde de Nottingham, filho de William Cecil, Lorde Burghley] afirmou que ela “devia” ir para a cama, a palavra a despertou [irritada] como um toque de trombeta. “Devo!”, exclamou ela; “por acaso 'devo' é uma palavra a ser dirigida a príncipes? Homenzinho, homenzinho! Teu pai, se estivesse vivo, não teria ousado usar essa palavra.” Então, conforme sua raiva se esgotava, ela afundava em seu antigo abatimento. “Tu és tão presunçoso”, disse ela, “porque sabes que vou morrer.”

Ela se restabeleceu mais uma vez quando os ministros, ao lado de sua cama, nomearam o Lorde Beauchamp, o herdeiro da reivindicação de Suffolk, como um possível sucessor. “Não terei o filho de um patife”, gritou ela roucamente, “em meu lugar.” Mas ela não deu nenhum sinal, exceto um movimento de cabeça, com a menção do Rei dos Escoceses. Ela estava, de fato, tornando-se rapidamente insensível; e, na madrugada do dia seguinte, a vida de Elizabeth — uma vida tão grande, tão estranha e solitária em sua grandeza — desvaneceu-se silenciosamente”.

John Richard Green; A Short History Of The English People; Macmillan and Co. Limited; London; 1926; p. 459.

Já o site tudorbrasil.com.br acrescenta

“Foi com muita tristeza que a morte da rainha foi anunciada nas ruas de Londres. Testemunhas descreveram que houve um estranho silêncio entre uma atordoada multidão”.

 https://tudorbrasil.com.br/2014/10/29/elizabeth-i-parte-xvi-depressao-e-morte/

Outra versão de suas últimas palavras claramente audíveis foi a seguinte:

"Todas as minhas posses por um tempo a mais".

Acima, ilustrando o artigo, o momento em que o jovem Robert Cecil, a geração Z de Elizabeth I, dá a infeliz sugestão para a rainha moribunda, mas ainda cheia de pose. Esse quadro a óleo, de 1828, é do pintor francês Paulo Delaroche.


 

A COMPANHIA DOS MERCADORES AVENTUREIROS NO REINADO DE ELIZABETH I - 7

O Efeito das Companhias Privilegiadas no Desenvolvimento Comercial.

A Companhia dos Mercadores Aventureiros não restaurou, duradouramente, o crédito do governo. Muito menos auxiliou Gresham a realizar os feitos miraculosos que ele reivindicou… Mas não serviu, pelo menos, como o principal instrumento da política mercantilista do governo?

Para os nossos propósitos, existe uma certa unidade nesse período [1564–1588]. Ele culmina com a ruptura definitiva da Inglaterra com a Liga Hanseática. Isso ocorreu no ano anterior à Invencível Armada e, no ano seguinte, corsários ingleses atacavam o comércio hanseático sob o pretexto de que as cidades hanseáticas estavam auxiliando a Espanha. Para uma mente patriótica, pode parecer natural que a vitória contra a Armada trouxesse consigo a futura supremacia do comércio inglês sobre o alemão... Devemos, no entanto, suprimir deliberadamente nossos sentimentos naturais em relação à Armada e nos limitar às questões simples: o governo tinha alguma política comercial consistente? Os Mercadores Aventureiros eram o instrumento dessa política? O comércio inglês estava em expansão nesses anos? Sua política declarada era diretamente contrária a isso, pois visava: (1) limitar o número de membros da Companhia, (2) confinar o comércio ativo a uma pequena minoria de membros e (3) restringir o volume de comércio realizado por cada um dos membros da minoria favorecida. Antes de prosseguirmos, convém relembrar os principais fatos da história da Companhia, na medida em que se relacionam com sua composição e a extensão de seus membros.

As cartas régias anteriores, sejam de príncipes estrangeiros ou ingleses, até meados do século XV, não eram concedidas à Companhia em si, mas aos mercadores ingleses que negociavam além-mar em geral, e os privilégios assim conferidos eram compartilhados por mercadores de outros portos ingleses, assim como de Londres. É extremamente provável, no entanto, que o grupo que tomou a iniciativa na obtenção das cartas tenha sido um grupo de mercadores londrinos que negociavam em Antuérpia ou Bruges, unidos em uma fraternidade dedicada a São Tomás Becket, e que, ao longo do século XV, adquiriram propriedades e construíram uma casa de guilda e uma capela, primeiro em Bruges e Middelburg, e depois em Antuérpia. Nos primeiros tempos, eles admitiram outros mercadores ingleses em sua fraternidade, ou, pelo menos, ao exercício do comércio sob a carta, em condições bastante favoráveis; mas mais tarde, à medida que as despesas de seu estabelecimento aumentaram, eles elevaram suas taxas de admissão.

Em 1497, vários mercadores de portos periféricos a Londres reclamaram ao Parlamento que, por esses arranjos, estavam excluídos de participar do melhor mercado externo da Inglaterra. De acordo com a lei, os tratados e as cartas régias, eles tinham total liberdade para comprar e vender nos mercados dos Países Baixos. Mas, na verdade, a guilda dos londrinos havia conseguido obter tal controle sobre o comércio que nenhum inglês podia participar dele até pagar a taxa de entrada que lhe era imposta. O valor dessa taxa, nominalmente destinada aos fins religiosos de sua fraternidade, era originalmente de apenas três xelins e quatro pence, mas depois foi aumentado, primeiro para cem xelins flamengos e depois para vinte libras. O resultado foi que a maioria dos comerciantes mais recentes, especialmente aqueles nos portos periféricos, ficou excluída do comércio direto com os Países Baixos e foi obrigada a negociar por meio dos membros da guilda, o que restringiu o mercado de tecidos ingleses e aumentou o preço de todos os produtos importados.

Na resposta, o Parlamento declarou que todo inglês era livre para comercializar nos Países Baixos, sem pagar mais de dez marcos pelo uso da guilda. O efeito desta lei foi admitir implicitamente o direito da guilda de controlar o comércio e impor taxas de entrada. Assim, conferia sanção legal ao que antes eram meramente atos de uma associação privada. A lei não obrigava a guilda a conferir plena filiação mediante o pagamento de dez marcos, mas apenas o direito de comerciar.

Aqueles que foram admitidos nos termos da Lei eram chamados de membros da Nova Liga Hanseática, enquanto os membros originais, e aqueles que sucederam a seus direitos, eram chamados de Velha Liga Hanseática, e eram estes últimos que controlavam a política da Companhia e desfrutavam plenamente de seus privilégios... Os mercadores dos portos periféricos alcançaram uma posição reconhecida na organização. O órgão governante era a corte em Antuérpia — a sede dos Aventureiros além-mar — e ali o Governador e os Assistentes eram eleitos; mas havia cortes menores em outros mercados estrangeiros, bem como, na Inglaterra, em Londres e, provavelmente, em outros portos. A própria corte, em Londres, era subordinada à Antuérpia, mas os mercadores londrinos controlavam a corte de Antuérpia, pessoalmente ou por meio de seus agentes e aprendizes.

Durante a crise de 1553, Gresham escreveu a Northumberland dizendo que seu plano de usar os Aventureiros como recurso financeiro não funcionaria, a menos que a admissão de novos membros por meio da Nova Liga Hanseática fosse interrompida. “Pois, na verdade”, diz ele, “eles foram e são uma das principais causas da queda da bolsa de valores. [...] Então, peço a Vossa Graça que me perdoe, como é possível que um menestrel, um sapateiro ou qualquer artesão [...] tenha [...] conhecimento dos negócios dos Mercadores Aventureiros?” Aprendemos com outras fontes que os membros admitidos na Nova Liga Hanseática exigiam igualdade com a Velha Liga Hanseática e que o Conselho Privado, seguindo o conselho de Gresham, não só rejeitou suas reivindicações, como também prendeu os líderes na Frota até que se submetessem à Companhia. Em 1564, a Companhia obteve sua carta régia, que, pela primeira vez, deu uma base legal ao seu monopólio de comércio dos Países Baixos, tanto quanto uma carta régia podia conferir.

Nota da IA (traduzida do inglês)

Durante o reinado de Elizabeth I, os termos "Velha Liga Hanseática" e "Nova Liga Hanseática" geralmente se referiam às guildas mercantis inglesas rivais que disputavam o controle do lucrativo comércio de tecidos estrangeiros, e não aos mercadores alemães estrangeiros da Liga Hanseática.

A Velha Liga Hanseática (historicamente conhecida como a Irmandade dos Mercadores de Londres [Fellowship of London Merchants = Companhia dos Mercadores de Lã?) foi a guilda original de mercadores ingleses que recebeu privilégios reais e monopólios para comercializar no exterior, particularmente tecidos de lã.

A Nova Liga Hanseática (oficialmente constituída como Companhia dos Mercadores Aventureiros) foi uma guilda de mercadores reorganizada e ampliada. Foi formada para gerenciar o crescente comércio de exportação para os Países Baixos e a Alemanha, operando sob cartas régias apoiadas por Henrique VII e, posteriormente, por Elizabeth I.

O Conflito Central

  • Competição: A Velha Liga Hanseática e a Nova Liga Hanseática frequentemente entravam em conflito por causa de taxas de adesão, direitos comerciais e monopólios de mercado.
  • Os "Estranhos": havia, além dessas ligas, a tradicional Liga Hanseática (uma poderosa confederação de mercadores do norte da Alemanha sediada em um complexo-fortaleza em Londres chamado Steelyard).
  • Resposta de Elizabeth: A rainha favorecia os mercadores ingleses. Em 1598, para impulsionar a própria posição econômica da Inglaterra, ela baniu os mercadores alemães e fechou a Steelyard.

 

Em 1564, a Companhia obteve sua carta régia, que, pela primeira vez, deu uma base legal ao seu monopólio de comércio dos Países Baixos, tanto quanto uma carta régia podia conferir.

A concessão do privilégio foi considerada inconstitucional pelos opositores da Companhia; enquanto, por parte do Governo, foi posteriormente considerada um precedente importantíssimo para o estabelecimento de outros monopólios. Era natural que surgisse uma nova disputa quanto ao direito de entrada no comércio. Em dezembro de 1566, dois projetos de lei foram apresentados ao Parlamento. A Companhia propôs revogar a Lei de 1497 e, assim, privar a Nova Liga Hanseática de sua principal arma. Os que estavam fora e a Nova Liga Hanseática propuseram impor novas penalidades à Companhia por dificultar a admissão de membros, conforme prescrito pela Lei. 

Declararam que súditos do Reino, que negociavam sob a autorização da referida Lei, haviam sido severamente multados e presos, e suas mercadorias retidas, até que pagassem, alguns cem marcos, outros cem libras, e ainda foram forçados a firmar títulos de quinhentos ou seiscentos marcos, com a intenção de não gozarem da liberdade. [A Nova Hansa, representada pelos Aventureiros, lutava não só contra a Hansa alemã, como também contra aqueles ingleses que, percebendo as vantagens, queriam entrar na Hansa dos Aventureiros.]

Essas propostas hostis se anularam mutuamente, e a Velha Liga Hanseática permaneceu no controle do mercado. O mecanismo a que se aludiu, de obrigar aqueles que haviam adquirido uma liberdade nominal a não a utilizarem, fora praticado dois séculos antes nas guildas da Grande Londres. Outro mecanismo das guildas foi adotado pelos Aventureiros para garantir alguma medida de igualdade entre os membros que de fato desfrutavam dos privilégios do comércio. Isso era conhecido como "limite". Um aprendiz com licença para negociar por conta própria (no último ano de seu aprendizado) podia exportar 100 tecidos; um membro livre, em seu primeiro, segundo e terceiro anos, 400 tecidos; em seu quarto ano, 450; em seu quinto, 500, e assim por diante. Em seu décimo quinto ano, ele poderia exportar 1000. Este era o máximo. E, da mesma forma, à medida que sua antiguidade aumentava, ele podia desfrutar de uma participação crescente na licença gratuita detida pela Companhia para a exportação de tecidos inacabados, seu monopólio mais valioso. Esses métodos restritivos eram, de fato, abertamente defendidos pela Companhia. [Perceba-se como essas medidas, tomadas por iniciativa dos burgueses, impediam o desenvolvimento do comércio e, por meio dele, da própria burguesia, enquanto ‘classe’; teríamos uma ‘luta de classes’ no seio da burguesia?]

Se houvesse muitos vendedores de tecidos ingleses, a concorrência pelos clientes estrangeiros baixaria o preço. Se houvesse muitos compradores de mercadorias estrangeiras, a concorrência aumentaria o preço. Esses argumentos se baseiam no que nos parece uma suposição surpreendente: a de que o mercado externo era estritamente limitado, tanto pela demanda quanto pela oferta. O fato de essa suposição ter sido bem aceita no século XVI explica muito do que, de outra forma, seria misterioso na história econômica da época. O progresso econômico — a expansão comercial e industrial — só poderia ser alcançado por aqueles que negassem essa suposição. Ela foi negada, de fato, pelos inúmeros forasteiros que abriram novos mercados, desafiando a Companhia. Foi negada, em teoria, pelos membros do Parlamento que elaboraram o Relatório sobre o Projeto de Lei do Livre Comércio de 1604. “Quando o comércio for livre, é provável que muitos jovens busquem novos lugares.” “Quando o comércio florescer... as mercadorias aumentarão diariamente.” Em 1604, essas não eram verdades óbvias, mas descobertas copernicanas. Não precisamos, portanto, suspeitar de que um crítico da Companhia do século XVII tenha feito uma subestimação grave ao afirmar que, embora o número normal de membros dos Mercadores Aventureiros chegasse a três ou quatro mil, todo o comércio passou a ser administrado por quarenta ou cinquenta pessoas. A questão, portanto, de saber se os Mercadores Aventureiros foram um órgão para a expansão do comércio inglês deve ser respondida claramente negativamente...

Mas outros grupos de Mercadores Aventureiros surgiram continuamente durante o reinado de Elizabeth I e, na terceira década do reinado, grande parte do interesse da história comercial se voltou para essas companhias, na fundação das quais os membros da Companhia original tiveram uma participação considerável. Não poderíamos buscar nelas o segredo do desenvolvimento? À primeira vista, parece natural considerar um crescimento organizacional, como o que encontramos no século XVI, como um sinal claro e inequívoco da expansão do comércio. Quando encontramos, no curto espaço de uma dúzia de anos, novas corporações de mercadores aventureiros surgindo em um porto periférico após o outro: Newcastle, 1547; Chester, 1553; Exeter, 1557; Bristol, 1566; York, 1578. Nosso primeiro pensamento é de que uma nova era de prosperidade está se abrindo para esses portos e que mais capitais e novas iniciativas estão fluindo para explorar seus recursos.

Da mesma forma, quando encontramos, cerca de vinte anos depois, uma sucessão de novas companhias nacionais formadas em Londres, cada uma dedicando-se a um campo específico do comércio exterior — uma Companhia Espanhola, uma Companhia Francesa, uma Companhia do Oriente, uma Companhia do Levante, uma Companhia do Senegal — parece natural conectar essas novas corporações com aquela energia pioneira dos elisabetanos de que tanto falam. O comerciante inglês não se contenta mais com tímidas incursões pelo Canal da Mancha. Ele está, finalmente, aventurando-se audaciosamente no Báltico e no Mediterrâneo. Novos campos de comércio estão sendo abertos para o empreendedorismo e o capital ingleses. Os alicerces da supremacia comercial britânica estão sendo lançados [à revelia e contra a política predominante dos Aventureiros originais].

Mas nosso entusiasmo se extingue repentinamente se nos debruçarmos sobre as cartas régias, tanto das companhias de aventureiros provinciais quanto das novas companhias nacionais. Encontramos nelas pouco ou nada sobre expansão, e muito sobre restrição e interesses particulares. De fato, pode-se dizer, creio eu, sem exagero, que a característica comum a todas as cartas régias é o desejo expresso de excluir varejistas e artesãos do comércio exterior. 

Poucos meses depois de Gresham ter escrito a Northumberland, solicitando que nenhum outro membro da Nova Liga Hanseática fosse admitido na Companhia dos Mercadores Aventureiros, sob a alegação de que provavelmente seriam sapateiros ou músicos de menestréis, os mercadores de Chester obtiveram uma carta régia como “meros mercadores”, com o propósito de impedir que varejistas se dedicassem ao comércio atacadista de exportação.

Uma carta régia solicitada pelos mercadores de Exeter, na ascensão de Elizabeth, foi elaborada no mesmo sentido e levou a sérios conflitos na cidade... Em 1566, a Companhia dos Mercadores Aventureiros de Bristol conseguiu a aprovação de uma Lei Privada, que excluía os varejistas. Mas, no Parlamento seguinte, em 1571, a cidade incumbiu expressamente seus dois membros de obterem a revogação, o que foi feito. [O que nós vemos aqui são membros da alta burguesia lutando para manter leis medievais restritivas em benefício de seus interesses de classe econômicos, mas contra os seus interesses de classe políticos].

A questão em jogo nesses casos não era trivial. Uma nítida divisão entre comerciante e artesão havia sido um dos principais entraves ao progresso do comércio nos burgos escoceses; mas nunca fizera parte da melhor tradição cívica da Inglaterra. Londres, em particular, fora isenta dessa distinção. Aqueles que assistiram à encantadora peça de Dekker, "As Férias do Sapateiro" [de 1599], lembrarão que o sapateiro ascendeu à fortuna e se tornou xerife por meio da compra especulativa de uma carga ‘recuperada’ de um naufrágio. Independentemente do elemento de exagero humorístico que possa haver nisso, revela o segredo da prosperidade comercial de Londres.

Nota da Wikipedia em inglês sobre as Férias do sapateiro de Thomas Dekker.

As diversas transações e interações comerciais na peça revelam uma cultura capitalista inicial na qual os lucros são obtidos à custa dos outros [inevitável num universo mercantilista, ou marxista, tanto faz]. As transações comerciais dão lugar a interações sociais que retratam a mobilidade social e a economia do amor.

No Ato 3, Cena 1, a compra da carga com grande desconto por Eyre [o sapateiro] de um capitão holandês revela o tema do capitalismo de bastidores. Eyre consegue comprar a carga a preço de banana por causa do "amor que ele [o armador] nutre por Hans" [há, por assim dizer, uma troca de favor, sem falar que Hans é um nobre disfarçado, que aqui simboliza a necessidade da ajuda da nobreza para o empreendedor burguês deslanchar]. No entanto, o contexto histórico revela outras motivações. No final do século XVI, Londres sofreu aumentos acentuados nos preços dos alimentos e dos aluguéis, o que aumentou drasticamente a proporção de pobreza na cidade. Enquanto isso, a população imigrante cresceu, criando tensões significativas. Especificamente, os holandeses eram vistos como uma ameaça a "todo o setor comercial e marítimo da economia inglesa". Essas circunstâncias implicam que "[a] riqueza é um bolo fixo; o aumento da posição de alguém depende da diminuição da de outro". Eyre prioriza a honestidade nos negócios para fomentar uma relação comercial de longo prazo [ganhar clientes], mas também busca maximizar seus lucros. Esta decisão de investimento calculada é um “triunfo da empresa capitalista” [O capitalista bem-sucedido é aquele que consegue administrar sua fome de lucro para saciá-la no momento certo].

O Ato 3, Cena 1, também revela a ligação intrínseca entre capital e classe. O lucro deste empreendimento aumenta substancialmente a riqueza de Eyre, o que "permite a Eyre expandir a sua rede social" ou, em outras palavras, "compra-lhe o capital social que lhe permitirá ser nomeado representante [vereador] e, mais tarde, Lord Mayor [prefeito] de Londres".

Além disso, há duas tentativas de trocar dinheiro por amor, cada uma delas refletindo a cultura comercial e o poder geral do capital. A primeira é vista no Ato 1, Linha 76, quando o Lorde Prefeito Roger Otley presenteia Rowland Lacy com 20 libras [uma fortuna] para que este renuncie ao seu amor/separe-se de Rose. Esse gesto deriva de expectativas culturais relativas à "oferta de presentes e à hospitalidade, a fim de criar laços com nobres e cavalheiros que, por sua vez, eram obrigados a retribuir com benefícios tangíveis, como ajuda econômica e proteção" [uma sociedade de troca de favores, como na tribo neolítica]. Os presentes anteriores de Otley incluem banquetes e financiamento de guerras, e seu presente para Lacy segue uma linha semelhante. Isso demonstra que o Lorde Prefeito [Otley] acredita que "emoções podem ser compradas ou compensadas numa troca comercial".

 


segunda-feira, 19 de outubro de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 43

Almoço em Canudos?

Segundo o major Augusto, Moreira Cesar, animado pela facilidade com que o 7º escorraçou essa emboscada, muda os planos anteriores de pausar para atacar Canudos só no dia 4. Moreira César resolve de sopetão, ignorando o estado falimentar da tropa, atacar naquele dia mesmo, não sem antes fazer uma declaração absurda, maluca, segundo Augusto, registrada em Manuel Benício, Rei dos Jagunços, p. 159. E, como era habitual, Euclides a reinventa numa declaração mais absurda ainda:

“Meus camaradas, como todos sabem, estou visivelmente enfermo. Há muitos dias que quase não me alimento, mas Canudos está muito perto e vamos tomá-lo.”

Euclides da Cunha, sempre que se refere a Moreira César, tem que esculachar mais que os outros, pois, após dizer isso para os oficiais, ele se dirige ao conjunto da tropa gritando para os 1.200 soldados enfileirados em torno: “Vamos almoçar em Canudos! Respondeu-lhe uma ovação da soldadesca (Os Sertões, p. 324)."

Falar e ser ouvido por mil e duzentos homens é uma demonstração de vigor incomum para quem está “visivelmente enfermo” e há “dias quase sem comer”. O texto do jornal República, porém, diz que essa frase foi dita somente para os oficiais.

As questões são:

a) Por que ele ficaria sem comer se não faltava comida? E, se faltava, por que isso não aparece em outros testemunhos?

b) Por que a inapetência do coronel, “há muitos dias quase não me alimento”, não é citada por nenhuma fonte, nem pelo Major Augusto? Os médicos viram e se preocuparam com a epilepsia, que não havia, e não viram nem se preocuparam com a hiporexia flagrante do coronel, a ponto de ele ter que explicar isso para os soldados, como se fosse um recruta se justificando ao superior? Ou, na melhor das hipóteses, tudo isso é pura invenção.

c) Como é que um comandante, na véspera do combate, faz uma declaração dessas? É jogar para a derrota!

d) Por que ele seria tão detalhado na descrição de sua péssima situação pessoal, já que “todos sabem”, e ele estava “visivelmente doente”, como se quisesse tornar pública a sua condição pessoal de insano? Quem faz isso? Isso não é um criminoso se entregando à polícia, é ele entrar por conta própria na cela, se trancar e dar a chave para o delegado.

e) Se ele estava doente, cansado, faminto, sedento, como explicar a atividade febril dele ao longo de todo o dia 3 e, mesmo após ser ferido, perdendo sangue, ainda lutar 12 horas com a morte?

f) O Sargento Villela, que estava entre os soldados, não menciona nem esse discurso insano nem essa “ovação da soldadesca”.

Quanto a “tomar Canudos”, Rafael Augusto, que não perdia a oportunidade para perder o seu chefe, diz:

"A esse convite com caráter de ordem, corresponderam quase todos os oficiais."

Por que os oficiais que pensavam como o major, e ele próprio, não protestaram e deixaram passar para a posteridade a ideia de que a decisão de atacar recebeu apoio unânime? Por que se calaram? Essa é uma história posterior aos fatos, muito mal contada, sob circunstâncias muito suspeitas.

Essa mesma reunião foi presenciada de maneira bem diferente por alguém que esteve lá, aparentemente um oficial do estado-maior, que a narrou para um jornalista do jornal República, do Rio de Janeiro, e que foi, por sua vez, reproduzida pelo República de Florianópolis, em 6 de abril de 1897. Após Moreira César mandar tocar 'reunir oficiais', lhes diz:

"Camaradas. Desejo ouvi-los, pois a minha opinião é que o inimigo, fugindo à nossa frente, acha-se acovardado e é de conveniência entrarmos em Canudos a fim de que estes não levem ao conhecimento do Conselheiro notícias nossas, porque nesse caso, sem dúvida, não nos esperarão [ou seja, fugirão]."  

Os oficiais, continua o jornal, unanimemente concordaram com o coronel e deram calorosos vivas à república, mostrando grande entusiasmo pela empreitada.

Noutras palavras: a expressão que aparece no livro de Euclides da Cunha, e só nele, de "almoçar em Canudos", não foi escutada por mais ninguém.

Qualquer um que não seja tão espetacular como o Major Rafael Augusto sabe que um plano de guerra deve se submeter às condições objetivas do campo de batalha. Se a resistência dos canudenses, desde o início, fosse muito forte, seria bom ser cauteloso e avançar devagar. Mas os testemunhos dos sobreviventes, nos jornais, falam do 7º avançando como um rolo compressor, e Moreira César, mostrando competência profissional, resolveu aproveitar o momento favorável, com seus oficiais, não dando aos canudenses tempo para reorganizarem a defesa.

É evidente que o Major Augusto não está fazendo uma análise técnica nem objetiva do que aconteceu.

 

Os cartões de visita

A 6 km do arraial, o coronel, informado por Jesuíno Lima, segundo Cunha, da direção da cidade, ordena dois tiros de canhão na direção de Canudos. Com esse gesto, segundo Augusto, o coronel mostrava-se temerário, pois revelava a posição das tropas naquele momento, algo muito ridículo de dizer, pois a tropa já era acompanhada pelos canudenses desde Pitombas, cerca de 17 km antes.

Sobre esse tiro de canhão, é interessante ler Euclides da Cunha:

Moreira César pôs em batalha a divisão Pradel [tenente Marcos Pradel de Azambuja,  da artilharia] e, graduada a alça de mira para três quilômetros, mandou dar dois tiros segundo o rumo indicado (p. 325).

Ou seja: ao deixar uma margem de uns três quilômetros, ele evitou atingir aleatoriamente a cidade com os Krupp 7 ½, para não causar vítimas inocentes.

Esse relato é repetido pelo jornal República, com uma diferença: quem aponta a direção de Canudos são os oficiais de engenharia, e não o sertanejo Jesuíno. A marcha prossegue e Euclides da Cunha, sempre querendo complicar o coronel, diz que ele ordenou aos soldados que se livrassem de toda a tralha, própria para um cerco demorado, e somente com suas armas e munição básica, avançassem em passo acelerado rumo a Canudos.

 

O plano do coronel

Logo que Canudos, em toda a sua trágica magnificência, se apresentou aos seus olhos, o coronel, com uma visão tática excepcional, certificou-se de que eram corretas as informações que recebera, e logo percebeu a direção que devia dar ao ataque: contra as igrejas e o seu entorno. E a explicação é simples.

a) Ele já sabia, pelas informações obtidas no caminho, que os conselheiristas eram poucos e estavam mal armados. Suas armas eram antigas, de carregamento lento e forte desgaste sob fogo contínuo. O testemunho de Honório Vilanova o confirma.

b) O sertanejo é bom de tocaia, de guerra de escaramuças. A melhor forma de se contrapor a isso era com a guerra de movimento, com ataques rápidos de infantaria, concentrados nos pontos-chave, com a cavalaria pelos flancos.

c) A imponência da Igreja Nova e da Igreja Velha de Santo Antônio, cercada de um enorme casario desordenado e pobre, mostrava claramente qual era o grande, e talvez único, foco da comunidade e, ao mesmo tempo, o seu calcanhar de Aquiles: as igrejas.

d) Próximo às igrejas, havia casas de alvenaria e telhas, contrastando com os milhares de casas de taipa, muito mais simples, indicavam que ali se abrigava a elite local. Capturando essa área, não haveria mais razão para os moradores continuarem lutando, inclusive para poupar as igrejas — a correria dos canudenses em volta das igrejas, criando trincheiras ao seu redor e dentro delas, confirmava-o.

e) Um ataque firme e vigoroso a esses pontos de resistência garantiria uma vitória rápida, com um custo mínimo de vidas. Sem falar que pouparia as famílias mais humildes, que estavam abrigadas nos casebres ao fundo.

Ele projeta, então, um engenhoso assalto num movimento de pinças, para tomar ambas as igrejas e estabelecer uma cunha no coração do arraial. As condições eram-lhe amplamente favoráveis.

a) Os fuzis dos militares tinham uma cadência de fogo duas vezes e meia superior às melhores armas dos canudenses. Na defensiva, eles fariam ‘chover bala’ sobre os atacantes, no ataque contariam com a lentidão da recarga dos fuzis canudenses.  

b) A tropa estava bem servida de munição na retaguarda. Pelo menos 60 mil tiros.

c) Estavam bem treinados em ataques a baionetas, modo de luta estranho aos sertanejos, mas eficaz num combate corpo a corpo.

d) Percebendo a importância e a grande presença dos canudenses ao redor da Igreja Nova, ele lança contra ela a maior parte de suas forças. O 7º de infantaria, apoiado pelo 9º de infantaria, e a tropa da polícia para desbordar a cunha de ataque, apoiando o flanco, justo onde o casario era mais denso.

e) A Igreja Velha, à direita, ficou para o 9º de infantaria, do coronel Tamarindo, e a cavalaria se posicionaria também à direita, cobrindo a estrada para Jeremoabo, com o intuito de prevenir qualquer infiltração na retaguarda.

O General Araripe elogia essa disposição das tropas.

Outro detalhe importante é o rio, que no dia 3 de março de 1897 estava cheio. Euclides fala que os soldados que tombaram mortos enquanto atravessavam o rio foram levados pela correnteza. O Gazeta de Notícias diz que os soldados atravessaram com água pela cintura.

Após descer a barranca da margem direita do Vaza-barris, o 7º, seguido dos outros, avançou sobre o rio, com cada soldado carregando o seu fuzil sobre a cabeça, ante o tiroteio cerrado dos defensores. Eventualmente, um ou outro soldado era atingido, mas quase todos venceram a corrente, e daquela forma organizada, que impressionou os oficiais argentinos, arremeteram, organizados, em grandes linhas. Às vezes, uma fileira se ajoelhava, após o disparo, deixando a mira livre para a linha de, e assim sucessivamente, criando ondas sucessivas de balaços, como rajadas de metralhadora.

Quando alcançavam uma posição defensiva, a luta era tremenda, mas desigual para os sertanejos, que não se exercitavam no combate à baioneta e em grupos. Aqueles que ficassem para trás estavam perdidos. Os soldados, então, corriam para tomar a próxima posição.

Eduardo Simões

domingo, 18 de outubro de 2026

 MUNDO ANGLO-SAXÃO


Um romano, em Londres, pedindo cinco cervejas.

Acabei de comprar uma pedra para detecção de terremotos. Você a coloca no chão e, se ela começar a se mexer, é porque está havendo um terremoto.

A namorada: “Não sei por que você adora ‘Quanto mais idiota melhor’. Só os idiotas gostam daquilo?” “Pelo mesmo motivo que você adora ‘mulheres à beira de um ataque de nervos’.”

A baleia, no oceano, anseia por krill; no Brasil, por emendas.

Na escola, eu fazia parte de uma gangue chamada “Os Sete Secretos”. Éramos tão secretos que eu nunca soube quem eram os outros seis.

Eu tenho uma memória de elefante. Lembro-me de uma vez que fui ao zoológico e vi um.

Ontem à noite minha esposa me chamou de preguiçoso só porque  comprei uma escada rolante para casa.

Discordo daqueles que afirmam que as pessoas costumam morrer por causa do cigarro. Meu tio fumava e ele só morreu uma vez.

Levar um golpe nos testículos é mais doloroso do que dar à luz. A prova: os homens não querem levar outro golpe nos testículos, mas as mulheres querem dar à luz novamente.

Minha esposa disse que está me deixando porque eu “não sou bom de comunicação”. Vou provar o contrário mandando-lhe um e-mail amanhã.

Apesar de estar tomando a pílula anticoncepcional, minha namorada continua engravidando. Acho melhor eu parar.

Minha esposa não para de reclamar por eu ter gasto trinta libras em um Rolex falso, desde as 14h63m.

Eu nunca questiono a mim mesmo. Sem antes saber a resposta.

Eu estava na banheira quando pensei em você. Fiquei todo molhado.

Comprei um papagaio porque achei que seria legal ter um animal que falasse. Mas, como ele não sabia dizer “estou com fome”, morreu.

Eu não entendo o conceito de fast food (comida rápida). Quanto mais como, mais lento fico.

Minha esposa disse que vai me deixar e que vai garantir que o saldo da minha conta bancária fique zerado. É gentil da parte dela pagar o meu cheque especial.

Surpreendi minha namorada durante o sexo na outra noite... Chegando em casa mais cedo.

Seja você mesmo; os outros já estão ocupados.

Se você não consegue ficar comigo no meu pior momento, não me merece no meu melhor.

Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana; e não tenho certeza sobre o universo

Seja você mesmo e diga o que sente, porque quem se importa não importa, e quem importa não se importa. O resto é guia de importação.

Você sabe que está apaixonado quando não consegue dormir porque a realidade, finalmente, ficou melhor que os seus sonhos.

Só se vive uma vez, mas, se você viver direito, uma vez só basta.

Confissão de um quase-suicida apressado: tentei me enforcar outro dia, mas parei. Aquilo estava demorando uma eternidade, e o suspense estava me matando.


sábado, 17 de outubro de 2026

 


    A REPÚBLICA OPACA - TEXTO REVISADO
Acima, Rodrigues Alves no landau presidencial em 1908.

Eduardo Simões

A partir de 1898, o grupo paulista liderado por Campos Sales, Francisco Glicério, Bernardino de Campos e Rodrigues Alves começou a implementar aquilo que eles imaginaram ser a panaceia para resolver os conflitos personalistas, resultantes da falta de um projeto nacional e de discussões sobre a natureza da sociedade brasileira no início da República.

Esse início foi sacudido pelo personalismo autoritário dos militares, que se apresentavam, e de certa forma ainda se apresentam, como um grupo à parte, isolado da sociedade, mas o único com competência e disponibilidade para salvá-la de si mesma, conforme as regras estereotipadas dos ritos da caserna. Quando o general fala, todos calam a boca. A república inaugura no Brasil o personalismo sem freio nem outro contrapeso que não o humor do chefe do Executivo, ameaçando levar de roldão as instituições, o regime e o país juntos. Os sintomas mais graves foram a Revolta da Armada, a Revolta Federalista e a Guerra de Canudos.

A panaceia inventada por esse grupo, focado em ganhos financeiros e econômicos específicos de curto prazo, tinha o seu cerne na perspectiva de cooptar militares fogosos, ditadores em potencial e toda sorte de aventureiros aos interesses do grupo economicamente hegemônico, os cafeicultores paulistas,  dando uma espécie de verniz legal, institucional, à ação desses indivíduos, ganhando sua boa vontade para a política desse grupo, que só muito raramente se abria para as necessidades daquilo que no jargão político-sociológico costuma chamar-se “povo” ou “nação”.

A ideia diretriz era a de que o poder político no país nunca deixou de ser expressão dos desejos, necessidades, medos e aversões dos grandes chefes regionais, senhores de engenho, antigos barões e os barões do café paulistas e mineiros. Os fluminenses estavam em franca decadência. Nesse sentido, o importante era fabricar acordos entre esses grandes chefes, sintomaticamente chamados de coronéis, etiqueta verbal herdada do turbulento início do regime monárquico, mais tarde substituída pelo de “doutor”, como se a mudança dos termos causasse uma mágica mudança de comportamento, ainda que na fabricação de novos acordos fosse necessário sacrificar os mais “sagrados” princípios e valores; os mesmos que empolgaram as massas urbanas durante a campanha republicana. A nossa história às vezes parece uma ode ao “dia dos logrados”. 

Nada era “sagrado” nesse novo arranjo, muito menos a vontade do povo, expressa em eleições falsificadas ao bel-prazer dos caciques políticos ou das mais diversas necessidades do momento, em nome das quais se cometiam todos os excessos e até crimes, sem que o povo o soubesse, sendo mantido estrategicamente na sua bestificação original. Aqueles que se opuseram a essa desfaçatez, como o presidente Prudente de Morais, e o seu jovem grupo de dissidentes paulistas, gente com muito ideal, mas pouco apoio popular, foram tratorados sem cerimônia pela máquina, até retornarem ao "acordão" de Sales e Alves, para poderem continuar na política.

Esse projeto mambembe de república, que nos mostrava exatamente como éramos, justo quando mais nos imaginávamos diferentes, mais norte-americanos ou europeus, dignos de sentar-nos com as nações mais poderosas e avançadas do planeta, arrastou-nos na direção de uma sociedade de ciclos, exatamente como nas tribos pré-históricas que, ciclicamente, mudavam de endereço em função de fatores zoológicos ou meteorológicos. Economicamente, em virtude do Convênio de Taubaté, a economia e as finanças começaram a experimentar expansões e contrações, de acordo com o ritmo do plantio, colheita e venda anuais do café no exterior. Na política, o ciclo era mais espaçado, acontecendo de quatro em quatro anos, quando era necessário escolher um novo presidente. 

A esse respeito, o grande político e escritor mineiro Afonso Arino de Melo Franco, em sua biografia sobre Rodrigues Alves, tem algumas observações muito interessantes sobre isso:

“O poder pessoal do presidente, forte no presidencialismo norte-americano, embora refreado pelo Congresso e pela Suprema Corte, tornou-se praticamente absoluto na América Latina... o presidencialismo latino-americano é uma monarquia absoluta de prazo fixo” (Rodrigues Alves apogeu e declínio do presidencialismo; vol. II; José Olympo — Universidade de São Paulo; São Paulo; 1973; p. 524).

Noutro momento ele diz:

“A ausência de partidos nacionais e de autenticidade nas eleições... fazia com que as decisões sobre as candidaturas presidenciais fossem tomadas por detrás dos reposteiros oficiais”. Esse ‘detalhe’ existe até hoje. Não há eleições primárias nos partidos do Brasil. Quando vários candidatos acorrem a um cargo, instaura-se uma crise no partido, como no caso de Aldo Rebelo e Joaquim Barbosa, que acabou nos tribunais, e, no final, o partido ficou sem candidato. Quando situação análoga se abriu no PSD, o seu dono, Gilberto Kassab, disse logo: “a liderança do partido [ou seja, ele próprio] decidirá!” Nossa capacidade ou teimosia em repetir os mesmos erros são impressionantes.

Afonso Arinos relata detalhadamente como era a dinâmica da escolha do candidato do grupo majoritário, ou melhor, do vencedor da eleição, durante esse período (1889–1930).

“Grupos muito pequenos de políticos experientes... esboçavam acordos sempre anuláveis, assumiam compromissos sempre retratáveis, ou armavam-se reciprocamente ciladas nem sempre limpas... Quase tudo se processava em conversas reservadas, em cartas confidenciais, sondagens discretas. Esse sigilo fazia com que a imprensa [e os outros políticos] ficassem diante de combinações impenetráveis... e, por isso mesmo, veiculassem as mais infundadas versões [ninguém sabia nada]... Os manifestos solenes, as decisões convencionais eram simples ratificações das posições assentadas e dos compromissos assumidos... que nem chegavam a ser divulgados completamente” (idem; p. 526).

O novo sistema político criado pelo golpe de 1889 já nascia, portanto, completamente caduco, ou com um curto prazo de validade, como são os ciclos republicanos até o presente. E, já na primeira intervenção do "acordão" implementado por Campos Sales e Rodrigues Alves, na sucessão do próprio Alves, este já mostrou toda a sua disfuncionalidade, embora só seja definitivamente abandonado numa intervenção cirúrgica, como quem é obrigado a cortar as pernas de um morto que se recusa a deitar.

Vejamos, de uma forma simplificada, acompanhando o relato de Afonso Arinos, já citado, como foi a tormentosa sucessão de Rodrigues Alves, cujo diário foi a fonte de Arinos. É informação de primeira mão.

1º momento:

De volta de uma viagem a Minas, em agosto de 1904, Alves fica sabendo que o general Pinheiro Machado estava arregimentando apoio à reeleição de Campos Sales — da mesma forma que, no Império, os áulicos da corte recebiam títulos de nobreza, políticos próximos às forças armadas ou membros da Guarda Nacional recebiam patentes militares. Pinheiro Machado participou de combates contra os federalistas, mas não era militar de carreira. Essas patentes eram os novos títulos de nobreza, e um dos mais conclusivos sinais do nosso fetiche pela “autoridade” e “títulos simbólicos”.

Pinheiro Machado é um político gaúcho florianista, militarista e autoritário, que deseja a todo custo impedir que São Paulo faça o 4º presidente seguido. Rodrigues Alves é herdeiro da mentalidade e das práticas do Império, um conservador ansioso por manter a frente prevista no “acordão”, para o qual Machado não dá a mínima, embora se utilize dele para o seu objetivo: o engrandecimento político do Rio Grande do Sul e da ideologia que move o governo estadual: o positivismo. Lançando Campos Sales, que era mal visto em São Paulo, porque sua política deflacionista reduziu os ganhos dos exportadores, além de outros episódios internos derivados de sua personalidade arrogante, Pinheiro espera dividir os paulistas. O importante para Pinheiro era que o próximo presidente, se não fosse ele, teria que ser alguém fácil de ser manipulado por ele ou seu grupo.

Rodrigues Alves já tem um candidato no bolso: Bernardino de Campos, ex-braço direito de Prudente de Morais, cooptado para o “acordão”.

A justificativa de Pinheiro Machado parece ‘nobre’: era preciso ‘reparar uma injustiça’ — ele se referia à vaia colossal que os seguidores cariocas de sua ideologia e seus aliados deram em Campos Sales no final do seu mandato.

2º momento

Pinheiro foi ter com Rodrigues Alves e diz ter certeza de que não queria magoá-lo, afinal era um gaúcho propondo um paulista para a presidência, embora já fosse do conhecimento geral que Alves e os paulistas costuravam a candidatura de Bernardino, o que lhe foi exposto por Rodrigues Alves. Bernardino era um político muito mais viável e respeitável, justo o que Pinheiro não queria.

Rodrigues Alves fala ainda do apoio de Pernambuco à candidatura de Bernardino, mas Pinheiro não se impressiona e fala mal do líder pernambucano na Câmara, Rosa e Silva. Astuto e necessitado do apoio do pernambucano, Alves se cala, por saber que Pinheiro era mestre em jogar seus adversários uns contra os outros. Alves acha também que Pinheiro quer lançar Rui Barbosa. 

3º momento

A campanha por Campos Sales começa puxada pelos gaúchos e alguns paulistas. O primeiro objetivo foi atingido: os paulistas se dividem e, como nada é feito às claras nem dito oficialmente, a crença geral era de que esse era o desejo do grupo dominante em São Paulo. Mas não era necessário ser especialista para saber que, no momento em que ficasse sacramentada a candidatura de Campos Sales, o resto do Brasil se voltaria contra os paulistas. Era uma armadilha. E só Campos Sales poderia desarmá-la, negando-a peremptoriamente. Ele teria esse discernimento e essa grandeza?

Pinheiro se entrevista de novo com Alves. Lisonjeia-o, promete-lhe lealdade, e Alves escuta tudo calado. Tudo que Alves disser, que pareça inamistoso a quem quer que seja, será usado por Pinheiro Machado.

Alves e o seu grupo resolvem acelerar o lançamento de Bernardino de Campo. Jorge Tibiriça, chefe de um grupo importante de São Paulo, hesita e começa a perguntar se não é melhor lançar outro paulista à presidência, mas, se der, vota em Bernardino.

4º Momento

Rodrigues Alves começa sondagens em favor de Bernardino e ganha adeptos entre seus ministros (JJ Seabra e Lauro Muller). A situação nacional, então, era a seguinte: os pequenos estados, menos Paraná, com São Paulo de Bernardino; o Rio Grande do Sul com Pinheiro; a Bahia com Rui Barbosa; o Rio de Janeiro, com Minas e Pernambuco, acompanha o governo (Rodrigues Alves).

5º momento

Começa uma campanha asfixiante de difamação contra Bernardino, a partir do jornal O Malho, do senador Antonio Azeredo, um crente incondicional dos estratagemas de Pinheiro Machado. No Rio de Janeiro, Nilo Peçanha começa a se afastar de Bernardino.

Para se ter uma ideia de com quem Alves se metia, em 1915, Azeredo conseguiu que o presidente Wenceslau Brás interviesse, sem qualquer razão séria, no governo do general Caetano de Albuquerque, do Mato Grosso, por causa da distribuição local de cargos. O dicionário de políticos da Primeira República da FGV diz o seguinte dele: “Antônio Azeredo tipifica exemplarmente o representante político que utilizava com frequência sua capacidade de influir nas questões internas de seu estado, agindo a partir do Rio de Janeiro”. Rasgando, na prática, a Constituição, sem que ninguém desse por isso.

Alves ficou particularmente chocado com a campanha de Azeredo, uma vez que semanas antes este lhe havia confessado apoio à candidatura de Rui Barbosa e uma neutralidade simpática a Bernardino de Campos!

 

6º Momento

Nilo Peçanha, ideologicamente próximo a Pinheiro, retira o apoio do Rio à candidatura de Bernardino. Aconteceu o que se esperava. Os movimentos de Pinheiro Machado no sentido de isolar São Paulo estão funcionando.

A situação de Rodrigues Alves piora, uma vez que ele se mantém coerente com a política fiscal responsável de Campos Sales, valorizando a moeda, o que beneficiava o povo e a classe média, mas prejudicava os exportadores, além de sua política de valorização do café, que causava justos ‘ciúmes’ em outros estados.

 7º momento

Campos Sales começa a se entusiasmar por sua própria candidatura e a ficar ressentido com aqueles que não o seguem, como Rodrigues Alves. Em 11 de maio de 1905, os estudantes acadêmicos paulistas afogueados encampam a candidatura de Campos Sales por meio de um vigoroso manifesto, no qual exaltam Pinheiro Machado. Como é tradicional, eles são tão ingênuos, desinformados e manipuláveis que, ao assumir esse candidato específico, ajudam a inviabilizar qualquer candidatura de um paulista, porque tanto lutavam! O que seria dos espertos se não fossem os trouxas?

Num trecho de seu diário, Rodrigues Alves diz que o movimento de Pinheiro Machado visava, primeiro, impedir a eleição de Pena, e que poderia até aceitar o Bernardino, embora o seu candidato preferido fosse Rui. Há muitas nuances aparecendo e não há certeza, até hoje, do que esses homens pretendiam realmente com esses movimentos erráticos. Este texto que eu escrevo é baseado nas impressões de Alves. Outros autores dirão coisas diferentes.

“Pinheiro, ao mesmo tempo em que concentrava os esforços divisionistas em torno... de Campos Sales, não deixava de acenar para outros nomes prestigiosos” (idem, p. 540). Alves fala de Pinheiro, sugerindo, num banquete, o nome de Joaquim Murtinho, enquanto o Barão do Rio Branco conta, para um filho de Alves, que Machado também o sondou. Leopoldo Bulhões também foi sondado. Ele espalha meticulosamente a mais crassa divisão no entorno de Rodrigues Alves.

8º momento

Cada vez mais “assanhado”, Campos Sales alimenta grandes esperanças, justo quando Rodrigues Alves enfrenta a rumorosa Revolta da Vacina, em setembro de 1904. A bancada federal paulista cai no jogo de Pinheiro Machado, se divide e enfraquece o presidente e o seu candidato preferido. Campos Sales sonha!

“Não era pequeno [quantos?] o número dos que, tendo estado em franca hostilidade ao meu governo, me traziam agora a sua adesão leal e desinteressada” (idem; p. 541). Dizia Sales em um manifesto, em agosto de 1905, completamente embalado por suas próprias fantasias.

Quando um amigo lhe sugere que busque uma aproximação com Rodrigues Alves, Sales responde: “Uma intervenção, mesmo velada, do presidente, seria bastante para fazer suspeitar da espontaneidade do movimento... Ao Rodrigues Alves só cabe, pois, uma única atitude... a mais completa e escrupulosa abstenção” (idem; idem). “Ficaram, pois, os meus amigos sabendo... que eu repudiava... com absoluta intransigência a ideia de voltar ao Catete, com a condição de lá entrar pela mão de quem lá estava” (idem; idem).

Campos Sales já não mais fantasia; ele delira. Ao dizer isso, ele reproduz exatamente a mesma atitude de Prudente, em 1898, e da qual ele se queixou tão amargamente, afirmando que nada o ligava à assunção presidencial de Sales. Como o ébrio, que tentou tirar o padre para dançar no meio de um funeral, ele posteriormente expressará, em carta a Pinheiro Machado (de 5 de março de 1905), profunda mágoa pela falta de apoio de Alves à sua candidatura.

O escarro de Sales seguiu o mesmo percurso dos outros, obedecendo à lei da gravidade.

9º momento

Em meados de 1905, a candidatura de Campos Sales naufraga melancolicamente. Restava-lhe dar o troco em Alves, o que aconteceu no desfecho das discussões sobre o Convênio de Taubaté, no ano seguinte.

Nesse momento, Jorge Tibiriça e Rodrigues Alves cometem um grande erro. Lançam a candidatura de Bernardino de Campos num ambiente paulista muito dividido.

10º Momento

Bernardino de Campos dá uma entrevista catastrófica a Alcindo Guanabara, de O Paiz, em 26 de junho, criticando a política econômica de seus dois antecessores e falando em reformar a Constituição. Arinos suspeita que foi de caso pensado para implodir de vez uma candidatura que não pegava tração. No início de julho, ela é insustentável, mesmo em São Paulo.

11º Momento

Pinheiro Machado e sua turma, unidos na "Coligação", ainda tentando isolar São Paulo, convidam Afonso Pena de Minas para se candidatar à presidência. Ele topa e Minas se aparta de São Paulo. Rápido, Rodrigues Alves pede a Bernardino que abra mão de sua candidatura e apoie Pena, para não parecer que São Paulo foi derrotado. Bernardino se manifesta por escrito, abrindo mão de sua candidatura, elogiando Rodrigues Alves e aderindo à candidatura de Pena, seguido pela massa dos paulistas. São Paulo adere aos vencedores e os mineiros não tinham por que recusá-lo, pois não se viam como oposição ao governo. O plano de Machado gorou!

Pinheiro e Rui Barbosa ficaram muito irritados. Rodrigues Alves escreve: “Dizem que foi o senador Rui quem mais se irritou com essa atitude” [a adesão dos paulistas] (idem; p. 545). Pinheiro Machado, ‘virado no moi de coentro’, faz um discurso agressivo, quase ameaçador, no lançamento da chapa em Belo Horizonte, em 7 de setembro de 1906.

12º Momento

Outros movimentos, porém, partem da Bahia. Em março de 1905, é lançada a candidatura de Rui Barbosa, pelo governador da Bahia, José Marcelino, num ambiente dividido. O ex-governador Severino Vieira alerta Marcelino: “O nosso Rui... se impõe à admiração de todos pelo seu talento e erudição; porém, não é, nunca foi, e não poderá ser jamais um estadista” (idem, p. 546). Pura verdade. A candidatura de Rui só serviu para aumentar a confusão.

Indagado sobre Rui, o líder pernambucano Rosa e Silva é categórico: “Com Rui, nem para o céu”.

Aparentemente, segundo Arinos, mesmo não recebendo apoios significativos, aparentemente consciente de suas limitações, Rui engajou-se na campanha com afinco, pois a última coisa que queria era uma vitória de Bernardino de Campos, dentro do seu projeto político pessoal de ser sempre oposição. E ele foi coerente a esse objetivo até o fim, mesmo ao preço de sua maior frustração: nunca ter sido presidente da república, logo, nunca ter sido situação. Vá entender!

13º Momento

Rui vai à imprensa e apresenta um quadro maravilhoso sobre sua escolha e o seu poder de arregimentar apoios. Tudo fantasia. Mas ele acreditava nela. Mais tarde, mesmo reconhecendo a falta de apoio, ele continuou teimando. Mas vamos aos poucos.

Nessa ocasião, Minas ainda não se decidira. O governador do estado, Francisco Sales, apoia Rodrigues Alves. Mas se vê premido pela possibilidade de um candidato mineiro.

14º Momento

Pinheiro, sempre ele, promove um encontro entre Rui Barbosa e Afonso Pena. Rui se compromete a apoiar Pena, se ele unificar Minas Gerais, que ainda estava dividida entre Bernardino e Pena, com vantagem para este.

No Congresso, políticos afinados com Pinheiro começam a provocar os mineiros, para que estes acelerassem sua escolha caseira. Os acadêmicos mineiros saem às ruas em prol de Afonso Pena.

15º Momento

Espalha-se um boato de que Francisco Glicério e Campos Sales se articulavam contra Bernardino. Glicério procura Rodrigues Alves em favor da solução mineira, encampada por Pinheiro e os detratores do Malho.

16º momento

Rodrigues Alves recebe notícia de que Pinheiro Machado resiste a Afonso Pena. Arinos acha que Pinheiro resistia a Pena por simulação, para valorizar a sua escolha e ficar bem, mais tarde, aos olhos dos mineiros, fazendo parecer que sua escolha foi fruto de muita elucubração e estudo, e não consequência natural de seus conchavos e manobras, nem sempre honestas e transparentes.

Nesse momento, Pinheiro lança outro rojão de fumaça: Afonso Pena desistia de ser candidato em favor do governador Francisco Sales. A confusão aumenta.

17º Momento

Em 29 de julho de 1905, os jornais noticiam a desistência de Campos Sales e Afonso Pena. No meio de tanta desinformação, toda sorte de manchete estapafúrdia era possível.

A propósito: ninguém foi preso nem investigado pelo Supremo por isso

18º Momento

Afonso Pena procura Rodrigues Alves, notificando-o de sua candidatura, e fala-lhe de apoio de outros estados, com dados desatualizados ou não garantidos. Rodrigues Alves também é informado de que, nesse momento, em Minas, poderosos caciques ainda se opõem à candidatura de Pena. Esta informação teve prazo de validade curto.

19º Momento

Depois que o governo e os paulistas aderiram à candidatura de Pena, a Coligação reagiu indicando Nilo Peçanha, do Rio, para vice de Pena, um republicano radical e adversário visceral de Bernardino.

O nome de Peçanha foi escolhido por Rui Barbosa, como ele mesmo assume e afirma que “não podia haver termo de conciliação mais desinteressado, mais simpático e mais auspicioso” (idem; p. 550).

Alves reage, afirmando que o vice era antes “um aviso para o Pena [pois ele, um herdeiro da política imperial, teria ao seu lado um republicano radical] e uma provocação para o governo” (idem; idem). Ou o Rui era muito cínico, ou vivia no mundo da lua. As duas possibilidades não são desprezíveis.

20º Momento

Pena é procurado por Alves e Rosa e Silva (PE) e alertado sobre o perigo, mas diz que “receava renovar agitações” (idem; idem). Ou seja: “deixa para lá”, “para que fazer marola e ter mais trabalho”. O eterno caminho mais fácil, do “acordão” genérico, que cobrará no final a própria vida do Pena. Alves não devia ficar chateado com isso, afinal, foram ele e Campos Sales que puxaram o “acordão”.

Afonso Arinos completa:

“Afonso Pena não resistiu à política imposta pelo Bloco [o nome seguinte da ‘Coligação’ de Pinheiro], que culminou com a ameaça do seu próprio ministro da Guerra [Hermes da Fonseca, que, segundo alguns, levou-o à morte antes do término do mandato]. Com a morte de Pena, Nilo assumiu. Mas assumiu para ser instrumento passivo da antiga Coligação e consolidar a candidatura de Hermes. Rui Barbosa, parte fundamental em todo esse processo, rebelou-se, inutilmente, porém, na Campanha Civilista” (idem; p. 551). Rui cevou o bicho que, ao final, o devorou.

21º Momento

Abandonando a forma solene de anunciar o nome do candidato à presidência pelo grupo majoritário por meio de uma reunião solene das duas casas do Congresso, opta-se  por um documento assinado pela maioria dos deputados e senadores — afinal, o que estava se propondo ‘não valia nada’, e poderia ser completamente mudado na eleição seguinte, nem se propunha a nada que não fossem somente os interesses particulares e imediatos dos grupos hegemônicos. Rui redigiu o manifesto, que foi lido em 1º de setembro de 1905.

22º Momento

Em 27 de setembro, Rodrigues Alves registra que, num encontro com o general Mallet, Pinheiro Machado diz que estava recebendo cartas de oficiais do Exército, que se mobilizavam em oposição a Bernardino, e que o general Hermes da Fonseca estava disposto a ir falar com o presidente contra Bernardino, mas que ele, Pinheiro, o demoveu depois que Alves abriu mão da candidatura de Bernardino. Tudo uma invenção?

Em 1909, Hermes será lançado à presidência como uma ‘criatura’ de Pinheiro Machado, para um dos quadriênios mais catastróficos, senão o mais, da história da república.

23º Momento

Em 12 de outubro, realiza-se um banquete no Congresso, em que Pinheiro Machado faz um cavalheiresco brinde ao seu astuto e pertinaz adversário, Rodrigues Alves, que respondeu à gentileza, por carta, com outras amabilidades. Eram tempos horríveis, selvagens, patriarcais e desumanos, e não como hoje, quando, por exemplo, na posse de Lula, em 1º de janeiro de 2023, ele chamou várias vezes seu antecessor de “genocida”. No final, a CIVILIZAÇÃO VENCEU!!!

Em particular, Alves escreveu em seu diário uma observação do velho conselheiro Lafayette Pereira, do Império, que comparava Afonso Pena a “uma fechadura velha, que abria para todos os lados com chave, prego, dedo, etc.” (idem; p. 554).

O texto do manifesto de Rui, antes de ser lido, foi modificado, em alguns pontos, por Joaquim Murtinho, e, no banquete do dia 12, pego de surpresa, Rui rompe com a Coligação, ou Bloco, dizendo não ‘ser camarilha’ a decisões de que não participara. Não sacrificaria ‘a consciência, a honra e o respeito’ a si mesmo”. E depois foi aos jornais. O divórcio antecedeu o casamento.

24º Momento

Em 18 de dezembro, Rodrigues Alves sobe a Petrópolis com a família, diante do novo surto de febre amarela, na cidade que fizera guerra à vacina, e lá ficou até após a eleição, sem ser molestado, pois nessa época o voto era um direito, que os brasileiros exerciam se quisessem; como todo direito, e não uma obrigação para agraciar espetáculos infames.

As eleições no Rio e em muitas partes foram tão esvaziadas e desinteressadas que faltaram cédulas eleitorais e várias seções ficaram fechadas; os números que apareceram nas atas eram ‘fabricados’ na hora da contagem e escritos no papel ao sabor de quem o escrevia.

Mesmo as seções que funcionaram apresentavam um ar desolador de salas abandonadas. Segundo o jornal A Tribuna, “as mesas sonolentas e tristes esperavam debalde os eleitores... que só por maravilha apareciam, olhando com espanto as salas desertas”. (idem, p. 555)

Enquanto Rodrigues Alves ganhou 592.038 votos, 93,30% dos votos válidos, em 1902, Afonso Pena recebeu 288.285 votos, cerca de 97,92% dos votos válidos, em 1906. Menos da metade em termos absolutos.

25º Momento

Alguns jornais de grande circulação, desinformados ou mal informados, em meio a tantos boatos, faziam as análises tão ridículas — diferente de hoje. Para eles, Rodrigues Alves maculara sua biografia mostrando apenas oportunismo, ao se agregar ao grupo vencedor. A grande estrela dessa eleição seria o inigualável gênio nacional Rui Barbosa; enquanto Pinheiro Machado seria o agente fracassado de uma comédia barata. Essa gente não tinha a menor ideia do que acontecia no país, embora fossem a principal fonte de informações sobre o país.

26º Momento

Rodrigues Alves termina seu mandato completamente isolado e repudiado pelas lideranças políticas da república, inclusive as de São Paulo, como já acontecera com Prudente de Morais e Campos Sales, para não falar da solidão mortal de Afonso Pena, em seguida. No final do seu governo, “com exceção dos auxiliares diretos, da família e de alguns amigos mais chegados, Rodrigues Alves [mesmo muito popular] termina o governo abandonado pelo meio político... Hostilizado no Congresso e na imprensa... Os amigos mais chegados, como Glicério, iam se bandeando... A presença do general Hermes [num duelo de Pinheiro Machado contra um jornalista] violava os regulamentos militares, mas consolidava a aliança entre Pinheiro e uma poderosa corrente dentro do exército... Em 29 de abril [de 1905] desceu de Petrópolis... Em tais ocasiões recebia numerosos congressistas; desta vez eram seis... [Em] 7 de julho, seu aniversário... ‘Dei recepção no palácio como de costume... muitas cartas e telegramas [de políticos], mas afastamento dos amigos’... Em São Paulo...o presidente Tibiriçá só com muita insistência concordou em fazer o clássico brinde de honra ao presidente da República... Em Lorena, quando da inauguração da fábrica de pólvora... o representante de Tibiriçá não quis fazer brinde ao presidente da República [que investira na fábrica].

A ideia de que as classes agem monoliticamente em vista a uma fantasiosa luta de classes, gerando análises que supõem os representantes da classe no governo se sucedem pacífica e consensualmente na Primeira República do Brasil, é de uma jocosidade impagável. Não resiste nem a um segundo de documentação séria. Frequentemente, o pior inimigo desses chefes era outro chefe do mesmo quilate e não os seus empregados por ele 'explorados'. Não raro esses chefes se aliam a seus empregados e os promovem para enfrentar seus pares.

Que o autor Afonso Arinos tinha qualificação para dar informações confiáveis, basta saber que ele foi casado por 61 anos com uma neta de Rodrigues Alves.

Conclusão.

Do exposto acima, podemos tirar algumas conclusões:

1 – O processo de escolha do presidente da República era feito em reuniões secretas, pelos mais poderosos chefes da política nacional, sem qualquer regra prévia que permitisse um certo preparo por parte dos que poderiam eventualmente se candidatar ao cargo. Mais ou menos como no Império Romano, quando não havia regra pactuada para a escolha do Imperador e os indivíduos mais inadequados acabavam ocupando o cargo.

2 – A dinâmica do processo era desconhecida até pelos principais articuladores, que precisavam a cada momento se adaptar às mais variadas mudanças de cenário e, no final, até apoiar a quem antes faziam oposição.

3 – Uma das principais características desse processo era a sua obscuridade, a sua completa opacidade, de sorte que ninguém, fora de alguns grupos muito seletos, ficasse sabendo de fato o que estava acontecendo. Era fundamental não parecer perdedor diante do grande público, que lidava com esse assunto como um torcedor, durante uma partida de futebol, em que se vibra com a vitória do seu time e se entristece com a derrota, porque, nesse caso, vai ser vítima das brincadeiras do time oposto. Esse é o espírito que embala nossos políticos atuais, convencidos de que o pior e único pecado do político é perder a eleição. As eleições viraram um fim em si mesmas, confundidas com a essência da democracia, embora nenhuma ditadura sobreviva sem eleição.

4 – Não há em nenhum momento dessas negociações qualquer apelo ou preocupação com danos ou benefícios ao país a curto ou longo prazo. Pelo menos isso não aparece nos discursos de Rodrigues Alves e nos complementos de Afonso Arinos. É tudo uma questão de nomes e valores adaptáveis às circunstâncias do presente.

5 – Não há nenhum apelo ao povo ou menção dele, como se não importasse de maneira alguma. Mesmo dentro dessas seitas sem doutrina que eram e ainda são os partidos, ninguém pensava, ou pensa, em fazer uma mobilização de militantes para resolver uma pendência ou situação de difícil acerto. O povo era o grande ausente nos projetos políticos dessa elite; já hoje é tratado como massa de manobra, como escudo, para proteger maus políticos do alcance da Justiça, nas raras vezes em que esta decide fazer justiça.