A REPÚBLICA OPACA - TEXTO REVISADO
Acima, Rodrigues Alves no landau presidencial em 1908.
Eduardo Simões
A partir de 1898, o grupo
paulista liderado por Campos Sales, Francisco Glicério, Bernardino de Campos e
Rodrigues Alves começou a implementar aquilo que eles imaginaram ser a panaceia
para resolver os conflitos personalistas, resultantes da falta de um projeto
nacional e de discussões sobre a natureza da sociedade brasileira no início da
República.
Esse início foi sacudido pelo
personalismo autoritário dos militares, que se apresentavam, e de certa forma
ainda se apresentam, como um grupo à parte, isolado da sociedade, mas o único
com competência e disponibilidade para salvá-la de si mesma, conforme as regras
estereotipadas dos ritos da caserna. Quando o general fala, todos calam a boca.
A república inaugura no Brasil o personalismo sem freio nem outro contrapeso
que não o humor do chefe do Executivo, ameaçando levar de roldão as
instituições, o regime e o país juntos. Os sintomas mais graves foram a Revolta
da Armada, a Revolta Federalista e a Guerra de Canudos.
A panaceia inventada por esse
grupo, focado em ganhos financeiros e econômicos específicos de curto prazo,
tinha o seu cerne na perspectiva de cooptar militares fogosos, ditadores em
potencial e toda sorte de aventureiros aos interesses do grupo economicamente
hegemônico, os cafeicultores paulistas,
dando uma espécie de verniz legal, institucional, à ação desses
indivíduos, ganhando sua boa vontade para a política desse grupo, que só muito
raramente se abria para as necessidades daquilo que no jargão político-sociológico
costuma chamar-se “povo” ou “nação”.
A ideia diretriz era a de que o
poder político no país nunca deixou de ser expressão dos desejos, necessidades,
medos e aversões dos grandes chefes regionais, senhores de engenho, antigos
barões e os barões do café paulistas e mineiros. Os fluminenses estavam em
franca decadência. Nesse sentido, o importante era fabricar acordos entre esses
grandes chefes, sintomaticamente chamados de coronéis, etiqueta verbal herdada
do turbulento início do regime monárquico, mais tarde substituída pelo de
“doutor”, como se a mudança dos termos causasse uma mágica mudança de
comportamento, ainda que na fabricação de novos acordos fosse necessário
sacrificar os mais “sagrados” princípios e valores; os mesmos que empolgaram as
massas urbanas durante a campanha republicana. A nossa história às vezes parece
uma ode ao “dia dos logrados”.
Nada era “sagrado” nesse novo
arranjo, muito menos a vontade do povo, expressa em eleições falsificadas ao
bel-prazer dos caciques políticos ou das mais diversas necessidades do momento,
em nome das quais se cometiam todos os excessos e até crimes, sem que o povo o
soubesse, sendo mantido estrategicamente na sua bestificação original. Aqueles
que se opuseram a essa desfaçatez, como o presidente Prudente de Morais, e o
seu jovem grupo de dissidentes paulistas, gente com muito ideal, mas pouco
apoio popular, foram tratorados sem cerimônia pela máquina, até retornarem ao
"acordão" de Sales e Alves, para poderem continuar na política.
Esse projeto mambembe de
república, que nos mostrava exatamente como éramos, justo quando mais nos
imaginávamos diferentes, mais norte-americanos ou europeus, dignos de
sentar-nos com as nações mais poderosas e avançadas do planeta, arrastou-nos na
direção de uma sociedade de ciclos, exatamente como nas tribos pré-históricas
que, ciclicamente, mudavam de endereço em função de fatores zoológicos ou
meteorológicos. Economicamente, em virtude do Convênio de Taubaté, a economia e
as finanças começaram a experimentar expansões e contrações, de acordo com o
ritmo do plantio, colheita e venda anuais do café no exterior. Na política, o
ciclo era mais espaçado, acontecendo de quatro em quatro anos, quando era
necessário escolher um novo presidente.
A esse respeito, o grande
político e escritor mineiro Afonso Arino de Melo Franco, em sua biografia sobre
Rodrigues Alves, tem algumas observações muito interessantes sobre isso:
“O poder pessoal do
presidente, forte no presidencialismo norte-americano, embora refreado pelo
Congresso e pela Suprema Corte, tornou-se praticamente absoluto na América
Latina... o presidencialismo latino-americano é uma monarquia absoluta de prazo
fixo” (Rodrigues Alves apogeu e declínio do presidencialismo; vol. II; José
Olympo — Universidade de São Paulo; São Paulo; 1973; p. 524).
Noutro momento ele diz:
“A ausência de partidos
nacionais e de autenticidade nas eleições... fazia com que as decisões sobre as
candidaturas presidenciais fossem tomadas por detrás dos reposteiros oficiais”.
Esse ‘detalhe’ existe até hoje. Não há eleições primárias nos partidos do
Brasil. Quando vários candidatos acorrem a um cargo, instaura-se uma crise no
partido, como no caso de Aldo Rebelo e Joaquim Barbosa, que acabou nos
tribunais, e, no final, o partido ficou sem candidato. Quando situação análoga
se abriu no PSD, o seu dono, Gilberto Kassab, disse logo: “a liderança do
partido [ou seja, ele próprio] decidirá!” Nossa capacidade ou teimosia em
repetir os mesmos erros são impressionantes.
Afonso Arinos relata
detalhadamente como era a dinâmica da escolha do candidato do grupo
majoritário, ou melhor, do vencedor da eleição, durante esse período
(1889–1930).
“Grupos muito pequenos de
políticos experientes... esboçavam acordos sempre anuláveis, assumiam
compromissos sempre retratáveis, ou armavam-se reciprocamente ciladas nem
sempre limpas... Quase tudo se processava em conversas reservadas, em cartas
confidenciais, sondagens discretas. Esse sigilo fazia com que a imprensa [e
os outros políticos] ficassem diante de combinações impenetráveis... e, por
isso mesmo, veiculassem as mais infundadas versões [ninguém sabia nada]... Os
manifestos solenes, as decisões convencionais eram simples ratificações das
posições assentadas e dos compromissos assumidos... que nem chegavam a ser
divulgados completamente” (idem; p. 526).
O novo sistema político criado
pelo golpe de 1889 já nascia, portanto, completamente caduco, ou com um curto
prazo de validade, como são os ciclos republicanos até o presente. E, já na
primeira intervenção do "acordão" implementado por Campos Sales e
Rodrigues Alves, na sucessão do próprio Alves, este já mostrou toda a sua
disfuncionalidade, embora só seja definitivamente abandonado numa intervenção
cirúrgica, como quem é obrigado a cortar as pernas de um morto que se recusa a
deitar.
Vejamos, de uma forma
simplificada, acompanhando o relato de Afonso Arinos, já citado, como foi a
tormentosa sucessão de Rodrigues Alves, cujo diário foi a fonte de Arinos. É
informação de primeira mão.
1º momento:
De volta de uma viagem a Minas,
em agosto de 1904, Alves fica sabendo que o general Pinheiro Machado estava
arregimentando apoio à reeleição de Campos Sales — da mesma forma que, no
Império, os áulicos da corte recebiam títulos de nobreza, políticos próximos às
forças armadas ou membros da Guarda Nacional recebiam patentes militares.
Pinheiro Machado participou de combates contra os federalistas, mas não era
militar de carreira. Essas patentes eram os novos títulos de nobreza, e um dos
mais conclusivos sinais do nosso fetiche pela “autoridade” e “títulos
simbólicos”.
Pinheiro Machado é um político
gaúcho florianista, militarista e autoritário, que deseja a todo custo impedir
que São Paulo faça o 4º presidente seguido. Rodrigues Alves é herdeiro da
mentalidade e das práticas do Império, um conservador ansioso por manter a
frente prevista no “acordão”, para o qual Machado não dá a mínima, embora se
utilize dele para o seu objetivo: o engrandecimento político do Rio Grande do
Sul e da ideologia que move o governo estadual: o positivismo. Lançando Campos
Sales, que era mal visto em São Paulo, porque sua política deflacionista
reduziu os ganhos dos exportadores, além de outros episódios internos derivados
de sua personalidade arrogante, Pinheiro espera dividir os paulistas. O
importante para Pinheiro era que o próximo presidente, se não fosse ele, teria
que ser alguém fácil de ser manipulado por ele ou seu grupo.
Rodrigues Alves já tem um
candidato no bolso: Bernardino de Campos, ex-braço direito de Prudente de
Morais, cooptado para o “acordão”.
A justificativa de Pinheiro
Machado parece ‘nobre’: era preciso ‘reparar uma injustiça’ — ele se referia à
vaia colossal que os seguidores cariocas de sua ideologia e seus aliados deram
em Campos Sales no final do seu mandato.
2º momento
Pinheiro foi ter com Rodrigues
Alves e diz ter certeza de que não queria magoá-lo, afinal era um gaúcho
propondo um paulista para a presidência, embora já fosse do conhecimento geral
que Alves e os paulistas costuravam a candidatura de Bernardino, o que lhe foi
exposto por Rodrigues Alves. Bernardino era um político muito mais viável e
respeitável, justo o que Pinheiro não queria.
Rodrigues Alves fala ainda do
apoio de Pernambuco à candidatura de Bernardino, mas Pinheiro não se
impressiona e fala mal do líder pernambucano na Câmara, Rosa e Silva. Astuto e
necessitado do apoio do pernambucano, Alves se cala, por saber que Pinheiro era
mestre em jogar seus adversários uns contra os outros. Alves acha também que
Pinheiro quer lançar Rui Barbosa.
3º momento
A campanha por Campos Sales
começa puxada pelos gaúchos e alguns paulistas. O primeiro objetivo foi
atingido: os paulistas se dividem e, como nada é feito às claras nem dito
oficialmente, a crença geral era de que esse era o desejo do grupo dominante em
São Paulo. Mas não era necessário ser especialista para saber que, no momento
em que ficasse sacramentada a candidatura de Campos Sales, o resto do Brasil se
voltaria contra os paulistas. Era uma armadilha. E só Campos Sales poderia
desarmá-la, negando-a peremptoriamente. Ele teria esse discernimento e essa
grandeza?
Pinheiro se entrevista de novo
com Alves. Lisonjeia-o, promete-lhe lealdade, e Alves escuta tudo calado. Tudo
que Alves disser, que pareça inamistoso a quem quer que seja, será usado
por Pinheiro Machado.
Alves e o seu grupo resolvem
acelerar o lançamento de Bernardino de Campo. Jorge Tibiriça, chefe de um grupo
importante de São Paulo, hesita e começa a perguntar se não é melhor lançar
outro paulista à presidência, mas, se der, vota em Bernardino.
4º Momento
Rodrigues Alves começa sondagens
em favor de Bernardino e ganha adeptos entre seus ministros (JJ Seabra e Lauro
Muller). A situação nacional, então, era a seguinte: os pequenos estados, menos
Paraná, com São Paulo de Bernardino; o Rio Grande do Sul com Pinheiro; a Bahia
com Rui Barbosa; o Rio de Janeiro, com Minas e Pernambuco, acompanha o governo
(Rodrigues Alves).
5º momento
Começa uma campanha asfixiante de
difamação contra Bernardino, a partir do jornal O Malho, do senador Antonio
Azeredo, um crente incondicional dos estratagemas de Pinheiro Machado. No Rio
de Janeiro, Nilo Peçanha começa a se afastar de Bernardino.
Para se ter uma ideia de com quem
Alves se metia, em 1915, Azeredo conseguiu que o presidente Wenceslau Brás
interviesse, sem qualquer razão séria, no governo do general Caetano de
Albuquerque, do Mato Grosso, por causa da distribuição local de cargos. O
dicionário de políticos da Primeira República da FGV diz o seguinte dele:
“Antônio Azeredo tipifica exemplarmente o representante político que utilizava com
frequência sua capacidade de influir nas questões internas de seu estado, agindo
a partir do Rio de Janeiro”. Rasgando, na prática, a Constituição, sem que
ninguém desse por isso.
Alves ficou particularmente
chocado com a campanha de Azeredo, uma vez que semanas antes este lhe havia
confessado apoio à candidatura de Rui Barbosa e uma neutralidade simpática a
Bernardino de Campos!
6º Momento
Nilo Peçanha, ideologicamente
próximo a Pinheiro, retira o apoio do Rio à candidatura de Bernardino.
Aconteceu o que se esperava. Os movimentos de Pinheiro Machado no sentido de
isolar São Paulo estão funcionando.
A situação de Rodrigues Alves
piora, uma vez que ele se mantém coerente com a política fiscal responsável de
Campos Sales, valorizando a moeda, o que beneficiava o povo e a classe média,
mas prejudicava os exportadores, além de sua política de valorização do café,
que causava justos ‘ciúmes’ em outros estados.
7º momento
Campos Sales começa a se
entusiasmar por sua própria candidatura e a ficar ressentido com aqueles que
não o seguem, como Rodrigues Alves. Em 11 de maio de 1905, os estudantes
acadêmicos paulistas afogueados encampam a candidatura de Campos Sales por meio
de um vigoroso manifesto, no qual exaltam Pinheiro Machado. Como é tradicional,
eles são tão ingênuos, desinformados e manipuláveis que, ao assumir esse
candidato específico, ajudam a inviabilizar qualquer candidatura de um
paulista, porque tanto lutavam! O que seria dos espertos se não fossem os
trouxas?
Num trecho de seu diário,
Rodrigues Alves diz que o movimento de Pinheiro Machado visava, primeiro,
impedir a eleição de Pena, e que poderia até aceitar o Bernardino, embora o seu
candidato preferido fosse Rui. Há muitas nuances aparecendo e não há certeza,
até hoje, do que esses homens pretendiam realmente com esses movimentos
erráticos. Este texto que eu escrevo é baseado nas impressões de Alves. Outros
autores dirão coisas diferentes.
“Pinheiro, ao mesmo tempo em que
concentrava os esforços divisionistas em torno... de Campos Sales, não deixava
de acenar para outros nomes prestigiosos” (idem, p. 540). Alves fala de
Pinheiro, sugerindo, num banquete, o nome de Joaquim Murtinho, enquanto o Barão
do Rio Branco conta, para um filho de Alves, que Machado também o sondou.
Leopoldo Bulhões também foi sondado. Ele espalha meticulosamente a mais crassa
divisão no entorno de Rodrigues Alves.
8º momento
Cada vez mais “assanhado”, Campos
Sales alimenta grandes esperanças, justo quando Rodrigues Alves enfrenta a
rumorosa Revolta da Vacina, em setembro de 1904. A bancada federal paulista cai
no jogo de Pinheiro Machado, se divide e enfraquece o presidente e o seu
candidato preferido. Campos Sales sonha!
“Não era pequeno [quantos?] o
número dos que, tendo estado em franca hostilidade ao meu governo, me traziam
agora a sua adesão leal e desinteressada” (idem; p. 541). Dizia Sales em um
manifesto, em agosto de 1905, completamente embalado por suas próprias
fantasias.
Quando um amigo lhe sugere que
busque uma aproximação com Rodrigues Alves, Sales responde: “Uma intervenção,
mesmo velada, do presidente, seria bastante para fazer suspeitar da
espontaneidade do movimento... Ao Rodrigues Alves só cabe, pois, uma única atitude...
a mais completa e escrupulosa abstenção” (idem; idem). “Ficaram, pois, os meus
amigos sabendo... que eu repudiava... com absoluta intransigência a ideia de
voltar ao Catete, com a condição de lá entrar pela mão de quem lá estava”
(idem; idem).
Campos Sales já não mais
fantasia; ele delira. Ao dizer isso, ele reproduz exatamente a mesma atitude de
Prudente, em 1898, e da qual ele se queixou tão amargamente, afirmando que nada
o ligava à assunção presidencial de Sales. Como o ébrio, que tentou tirar o
padre para dançar no meio de um funeral, ele posteriormente expressará, em
carta a Pinheiro Machado (de 5 de março de 1905), profunda mágoa pela falta de
apoio de Alves à sua candidatura.
O escarro de Sales seguiu o mesmo
percurso dos outros, obedecendo à lei da gravidade.
9º momento
Em meados de 1905, a candidatura
de Campos Sales naufraga melancolicamente. Restava-lhe dar o troco em Alves, o
que aconteceu no desfecho das discussões sobre o Convênio de Taubaté, no ano
seguinte.
Nesse momento, Jorge Tibiriça e
Rodrigues Alves cometem um grande erro. Lançam a candidatura de Bernardino de
Campos num ambiente paulista muito dividido.
10º Momento
Bernardino de Campos dá uma
entrevista catastrófica a Alcindo Guanabara, de O Paiz, em 26 de junho,
criticando a política econômica de seus dois antecessores e falando em reformar
a Constituição. Arinos suspeita que foi de caso pensado para implodir de vez
uma candidatura que não pegava tração. No início de julho, ela é insustentável,
mesmo em São Paulo.
11º Momento
Pinheiro Machado e sua turma,
unidos na "Coligação", ainda tentando isolar São Paulo, convidam
Afonso Pena de Minas para se candidatar à presidência. Ele topa e Minas se
aparta de São Paulo. Rápido, Rodrigues Alves pede a Bernardino que abra mão de
sua candidatura e apoie Pena, para não parecer que São Paulo foi derrotado.
Bernardino se manifesta por escrito, abrindo mão de sua candidatura, elogiando
Rodrigues Alves e aderindo à candidatura de Pena, seguido pela massa dos
paulistas. São Paulo adere aos vencedores e os mineiros não tinham por que
recusá-lo, pois não se viam como oposição ao governo. O plano de Machado gorou!
Pinheiro e Rui Barbosa ficaram
muito irritados. Rodrigues Alves escreve: “Dizem que foi o senador Rui quem
mais se irritou com essa atitude” [a adesão dos paulistas] (idem; p. 545).
Pinheiro Machado, ‘virado no moi de coentro’, faz um discurso agressivo, quase
ameaçador, no lançamento da chapa em Belo Horizonte, em 7 de setembro de 1906.
12º Momento
Outros movimentos, porém, partem
da Bahia. Em março de 1905, é lançada a candidatura de Rui Barbosa, pelo
governador da Bahia, José Marcelino, num ambiente dividido. O ex-governador
Severino Vieira alerta Marcelino: “O nosso Rui... se impõe à admiração de todos
pelo seu talento e erudição; porém, não é, nunca foi, e não poderá ser jamais
um estadista” (idem, p. 546). Pura verdade. A candidatura de Rui só serviu para
aumentar a confusão.
Indagado sobre Rui, o líder
pernambucano Rosa e Silva é categórico: “Com Rui, nem para o céu”.
Aparentemente, segundo Arinos,
mesmo não recebendo apoios significativos, aparentemente consciente de suas
limitações, Rui engajou-se na campanha com afinco, pois a última coisa que
queria era uma vitória de Bernardino de Campos, dentro do seu projeto político
pessoal de ser sempre oposição. E ele foi coerente a esse objetivo até o fim,
mesmo ao preço de sua maior frustração: nunca ter sido presidente da república,
logo, nunca ter sido situação. Vá entender!
13º Momento
Rui vai à imprensa e apresenta um
quadro maravilhoso sobre sua escolha e o seu poder de arregimentar apoios. Tudo
fantasia. Mas ele acreditava nela. Mais tarde, mesmo reconhecendo a falta de
apoio, ele continuou teimando. Mas vamos aos poucos.
Nessa ocasião, Minas ainda não se
decidira. O governador do estado, Francisco Sales, apoia Rodrigues Alves. Mas
se vê premido pela possibilidade de um candidato mineiro.
14º Momento
Pinheiro, sempre ele, promove um
encontro entre Rui Barbosa e Afonso Pena. Rui se compromete a apoiar Pena, se
ele unificar Minas Gerais, que ainda estava dividida entre Bernardino e Pena,
com vantagem para este.
No Congresso, políticos afinados
com Pinheiro começam a provocar os mineiros, para que estes acelerassem sua
escolha caseira. Os acadêmicos mineiros saem às ruas em prol de Afonso Pena.
15º Momento
Espalha-se um boato de que
Francisco Glicério e Campos Sales se articulavam contra Bernardino. Glicério
procura Rodrigues Alves em favor da solução mineira, encampada por Pinheiro e
os detratores do Malho.
16º momento
Rodrigues Alves recebe notícia de
que Pinheiro Machado resiste a Afonso Pena. Arinos acha que Pinheiro resistia a
Pena por simulação, para valorizar a sua escolha e ficar bem, mais tarde, aos
olhos dos mineiros, fazendo parecer que sua escolha foi fruto de muita
elucubração e estudo, e não consequência natural de seus conchavos e manobras,
nem sempre honestas e transparentes.
Nesse momento, Pinheiro lança
outro rojão de fumaça: Afonso Pena desistia de ser candidato em favor do
governador Francisco Sales. A confusão aumenta.
17º Momento
Em 29 de julho de 1905, os
jornais noticiam a desistência de Campos Sales e Afonso Pena. No meio de tanta
desinformação, toda sorte de manchete estapafúrdia era possível.
A propósito: ninguém foi preso
nem investigado pelo Supremo por isso
18º Momento
Afonso Pena procura Rodrigues
Alves, notificando-o de sua candidatura, e fala-lhe de apoio de outros estados,
com dados desatualizados ou não garantidos. Rodrigues Alves também é informado
de que, nesse momento, em Minas, poderosos caciques ainda se opõem à
candidatura de Pena. Esta informação teve prazo de validade curto.
19º Momento
Depois que o governo e os
paulistas aderiram à candidatura de Pena, a Coligação reagiu indicando Nilo
Peçanha, do Rio, para vice de Pena, um republicano radical e adversário
visceral de Bernardino.
O nome de Peçanha foi escolhido
por Rui Barbosa, como ele mesmo assume e afirma que “não podia haver termo de
conciliação mais desinteressado, mais simpático e mais auspicioso” (idem; p.
550).
Alves reage, afirmando que o vice
era antes “um aviso para o Pena [pois ele, um herdeiro da política imperial,
teria ao seu lado um republicano radical] e uma provocação para o governo”
(idem; idem). Ou o Rui era muito cínico, ou vivia no mundo da lua. As duas
possibilidades não são desprezíveis.
20º Momento
Pena é procurado por Alves e Rosa
e Silva (PE) e alertado sobre o perigo, mas diz que “receava renovar agitações”
(idem; idem). Ou seja: “deixa para lá”, “para que fazer marola e ter mais
trabalho”. O eterno caminho mais fácil, do “acordão” genérico, que cobrará no
final a própria vida do Pena. Alves não devia ficar chateado com isso, afinal,
foram ele e Campos Sales que puxaram o “acordão”.
Afonso Arinos completa:
“Afonso Pena não resistiu à
política imposta pelo Bloco [o nome seguinte da ‘Coligação’ de Pinheiro],
que culminou com a ameaça do seu próprio ministro da Guerra [Hermes da
Fonseca, que, segundo alguns, levou-o à morte antes do término do mandato].
Com a morte de Pena, Nilo assumiu. Mas assumiu para ser instrumento passivo da
antiga Coligação e consolidar a candidatura de Hermes. Rui Barbosa, parte
fundamental em todo esse processo, rebelou-se, inutilmente, porém, na Campanha
Civilista” (idem; p. 551). Rui cevou o bicho que, ao final, o devorou.
21º Momento
Abandonando a forma solene de
anunciar o nome do candidato à presidência pelo grupo majoritário por meio de
uma reunião solene das duas casas do Congresso, opta-se por um documento assinado pela maioria dos
deputados e senadores — afinal, o que estava se propondo ‘não valia nada’, e
poderia ser completamente mudado na eleição seguinte, nem se propunha a nada
que não fossem somente os interesses particulares e imediatos dos grupos
hegemônicos. Rui redigiu o manifesto, que foi lido em 1º de setembro de 1905.
22º Momento
Em 27 de setembro, Rodrigues
Alves registra que, num encontro com o general Mallet, Pinheiro Machado diz que
estava recebendo cartas de oficiais do Exército, que se mobilizavam em oposição
a Bernardino, e que o general Hermes da Fonseca estava disposto a ir falar com
o presidente contra Bernardino, mas que ele, Pinheiro, o demoveu depois que
Alves abriu mão da candidatura de Bernardino. Tudo uma invenção?
Em 1909, Hermes será lançado à
presidência como uma ‘criatura’ de Pinheiro Machado, para um dos quadriênios
mais catastróficos, senão o mais, da história da república.
23º Momento
Em 12 de outubro, realiza-se um
banquete no Congresso, em que Pinheiro Machado faz um cavalheiresco brinde ao
seu astuto e pertinaz adversário, Rodrigues Alves, que respondeu à gentileza,
por carta, com outras amabilidades. Eram tempos horríveis, selvagens,
patriarcais e desumanos, e não como hoje, quando, por exemplo, na posse de
Lula, em 1º de janeiro de 2023, ele chamou várias vezes seu antecessor de
“genocida”. No final, a CIVILIZAÇÃO VENCEU!!!
Em particular, Alves escreveu em
seu diário uma observação do velho conselheiro Lafayette Pereira, do Império,
que comparava Afonso Pena a “uma fechadura velha, que abria para todos os
lados com chave, prego, dedo, etc.” (idem; p. 554).
O texto do manifesto de Rui,
antes de ser lido, foi modificado, em alguns pontos, por Joaquim Murtinho, e,
no banquete do dia 12, pego de surpresa, Rui rompe com a Coligação, ou Bloco,
dizendo não ‘ser camarilha’ a decisões de que não participara. Não sacrificaria
‘a consciência, a honra e o respeito’ a si mesmo”. E depois foi aos jornais. O
divórcio antecedeu o casamento.
24º Momento
Em 18 de dezembro, Rodrigues
Alves sobe a Petrópolis com a família, diante do novo surto de febre amarela,
na cidade que fizera guerra à vacina, e lá ficou até após a eleição, sem ser
molestado, pois nessa época o voto era um direito, que os brasileiros exerciam
se quisessem; como todo direito, e não uma obrigação para agraciar espetáculos
infames.
As eleições no Rio e em muitas
partes foram tão esvaziadas e desinteressadas que faltaram cédulas eleitorais e
várias seções ficaram fechadas; os números que apareceram nas atas eram
‘fabricados’ na hora da contagem e escritos no papel ao sabor de quem o
escrevia.
Mesmo as seções que funcionaram
apresentavam um ar desolador de salas abandonadas. Segundo o jornal A
Tribuna, “as mesas sonolentas e tristes esperavam debalde os
eleitores... que só por maravilha apareciam, olhando com espanto as salas
desertas”. (idem, p. 555)
Enquanto Rodrigues Alves ganhou
592.038 votos, 93,30% dos votos válidos, em 1902, Afonso Pena recebeu 288.285
votos, cerca de 97,92% dos votos válidos, em 1906. Menos da metade em termos
absolutos.
25º Momento
Alguns jornais de grande
circulação, desinformados ou mal informados, em meio a tantos boatos, faziam as
análises tão ridículas — diferente de hoje. Para eles, Rodrigues Alves maculara
sua biografia mostrando apenas oportunismo, ao se agregar ao grupo vencedor. A
grande estrela dessa eleição seria o inigualável gênio nacional Rui Barbosa;
enquanto Pinheiro Machado seria o agente fracassado de uma comédia barata. Essa
gente não tinha a menor ideia do que acontecia no país, embora fossem a
principal fonte de informações sobre o país.
26º Momento
Rodrigues Alves termina seu
mandato completamente isolado e repudiado pelas lideranças políticas da
república, inclusive as de São Paulo, como já acontecera com Prudente de Morais
e Campos Sales, para não falar da solidão mortal de Afonso Pena, em seguida. No
final do seu governo, “com exceção dos auxiliares diretos, da família e de
alguns amigos mais chegados, Rodrigues Alves [mesmo muito popular] termina
o governo abandonado pelo meio político... Hostilizado no Congresso e na
imprensa... Os amigos mais chegados, como Glicério, iam se bandeando...
A presença do general Hermes [num duelo de Pinheiro Machado contra um
jornalista] violava os regulamentos militares, mas consolidava a
aliança entre Pinheiro e uma poderosa corrente dentro do exército... Em 29 de
abril [de 1905] desceu de Petrópolis... Em tais ocasiões recebia
numerosos congressistas; desta vez eram seis... [Em] 7 de julho, seu
aniversário... ‘Dei recepção no palácio como de costume... muitas cartas e
telegramas [de políticos], mas afastamento dos amigos’... Em São
Paulo...o presidente Tibiriçá só com muita insistência concordou em fazer o
clássico brinde de honra ao presidente da República... Em Lorena, quando da
inauguração da fábrica de pólvora... o representante de Tibiriçá não quis fazer
brinde ao presidente da República [que investira na fábrica].
A ideia de que as classes agem
monoliticamente em vista a uma fantasiosa luta de classes, gerando análises que
supõem os representantes da classe no governo se sucedem pacífica e
consensualmente na Primeira República do Brasil, é de uma jocosidade impagável.
Não resiste nem a um segundo de documentação séria. Frequentemente, o pior
inimigo desses chefes era outro chefe do mesmo quilate e não os seus empregados
por ele 'explorados'. Não raro esses chefes se aliam a seus empregados e os
promovem para enfrentar seus pares.
Que o autor Afonso Arinos tinha
qualificação para dar informações confiáveis, basta saber que ele foi casado
por 61 anos com uma neta de Rodrigues Alves.
Conclusão.
Do exposto acima, podemos tirar algumas
conclusões:
1 – O processo de escolha do
presidente da República era feito em reuniões secretas, pelos mais poderosos
chefes da política nacional, sem qualquer regra prévia que permitisse um certo
preparo por parte dos que poderiam eventualmente se candidatar ao cargo. Mais
ou menos como no Império Romano, quando não havia regra pactuada para a escolha
do Imperador e os indivíduos mais inadequados acabavam ocupando o cargo.
2 – A dinâmica do processo era
desconhecida até pelos principais articuladores, que precisavam a cada momento
se adaptar às mais variadas mudanças de cenário e, no final, até apoiar a quem
antes faziam oposição.
3 – Uma das principais
características desse processo era a sua obscuridade, a sua completa opacidade,
de sorte que ninguém, fora de alguns grupos muito seletos, ficasse sabendo de
fato o que estava acontecendo. Era fundamental não parecer perdedor diante do
grande público, que lidava com esse assunto como um torcedor, durante uma
partida de futebol, em que se vibra com a vitória do seu time e se entristece
com a derrota, porque, nesse caso, vai ser vítima das brincadeiras do time
oposto. Esse é o espírito que embala nossos políticos atuais, convencidos de
que o pior e único pecado do político é perder a eleição. As eleições viraram
um fim em si mesmas, confundidas com a essência da democracia, embora nenhuma
ditadura sobreviva sem eleição.
4 – Não há em nenhum momento
dessas negociações qualquer apelo ou preocupação com danos ou benefícios ao
país a curto ou longo prazo. Pelo menos isso não aparece nos discursos de
Rodrigues Alves e nos complementos de Afonso Arinos. É tudo uma questão de nomes
e valores adaptáveis às circunstâncias do presente.
5 – Não há nenhum apelo ao povo
ou menção dele, como se não importasse de maneira alguma. Mesmo dentro dessas
seitas sem doutrina que eram e ainda são os partidos, ninguém pensava, ou
pensa, em fazer uma mobilização de militantes para resolver uma pendência ou
situação de difícil acerto. O povo era o grande ausente nos projetos políticos
dessa elite; já hoje é tratado como massa de manobra, como escudo, para
proteger maus políticos do alcance da Justiça, nas raras vezes em que esta
decide fazer justiça.