A nau dos insensatos (I)
Embora Canudos
seja um dos temas mais recorrentes na História do Brasil, é notável o quanto os
autores, inclusive consagrados, erram na apresentação de fatos elementares
sobre o assunto. O que isso significa? Talvez indiferença pela pesquisa, talvez
uma credulidade ingênua, reflexo da síndrome de Os Sertões, que fez
muitos acreditarem que ali estava tudo que se precisava saber sobre o tema. É
estranho!
Seja como for, os dados
que aparecem são confusos, quando não errados, e as conclusões, por vezes, não
fazem o menor sentido. Helio Silva, que em seu livro Os civis no poder,
p. 52–53 (edição online), escreveu assim:
“Prudente de Morais
sofrera todo o impacto da Guerra de Canudos…
Um de seus últimos atos
fora o de mandar chamar ao Rio de Janeiro o Cel. Moreira César, encarregando-o
da nova expedição a Canudos… coube a Manuel Vitorino ultimar as providências
iniciadas.”
E mesmo Marco Antônio
Villa, muito bem fundamentado, não se sai melhor nesse trecho de Canudos o
povo da terra, 3ª edição, São Paulo, 1999, p. 57.
“Moreira Cesar… no
trajeto do Rio de Janeiro a Salvador, começou a agir de forma descontrolada. No
terceiro dia da viagem, passou a desconfiar do comandante… e que haveria um
plano para atrasar a chegada… Resolveu prender o capitão… Só o libertando quando
se aproximaram da capital baiana.”
Infelizmente, há
reparos a serem feitos nessas duas afirmações.
Prudente não tem nada a
ver com a expedição de Moreira Cesar a Canudos, pois havia uma missão mais
importante para ele no Rio, para a qual Prudente o chamara: preservar a
legalidade — a situação era, e manteve-se, tão preocupante nesse período, que,
embora a polícia do Rio fosse uma das mais bem treinadas e armadas do país, não
mandou tropa a Canudos. Ficou no Rio para proteger o presidente, talvez do
próprio Exército!
A linha do tempo mostra
que a ida de Moreira Cesar ao Rio de Janeiro nada tem a ver com Canudos.
Dia 28 de outubro de
1896 — chega, ao governador Luís Viana, BA, o primeiro telegrama do juiz
Arlindo Leoni, de Juazeiro, solicitando ajuda contra os conselheiristas.
Dia 1º de novembro —
Moreira César parte de Florianópolis para o Rio de Janeiro.
Dia 3 de novembro —
Moreira César chega ao Rio.
Dia 4 de novembro —
chega um segundo telegrama do juiz de Juazeiro, insistindo no envio de tropa.
Dia 6 de novembro — uma
força de 113 militares, comandada pelo tenente Manuel Pires Ferreira,
autorizada pelo ministro da guerra Dionísio Cerqueira, certamente do
conhecimento de Prudente de Moraes, parte de Salvador para proteger Juazeiro.
Dia 10 de novembro —
Prudente de Moraes passa o cargo para Manuel Vitorino e se retira de licença.
Dia 21 de novembro — a
força sob o comando do tenente Pires Ferreira, que marchou contra Canudos, é
atacada em Uauá. Começa a guerra.
Portanto, quem nomeou
César para atacar Canudos na 3ª Expedição, por razões políticas, foi
exclusivamente Manuel Vitorino, um dos principais responsáveis por essa
tragédia.
A confiança de Prudente
de Morais em Moreira César era antiga. Numa carta de 22 de dezembro de 1889 a
Benjamin Constant, então ministro da guerra de Deodoro, Prudente lhe solicita a
cessão de Moreira César para comandar o Corpo Policial de São Paulo, porque
ele:
Reúne todas as
condições… é inteligente, criterioso, tem curso, é paulista e dedicado à causa
da república. (Epaminondas Ferraz, Defesa
Nacional, Nº 639, p. 51).
Como nessa época ele
estava no Mato Grosso e não podia assumir logo, Prudente escolheu outro.
O que explica a ida de
Moreira César ao Rio era a necessidade de Prudente de Morais se submeter a uma
cirurgia com risco de morte altíssimo, seguida de uma longa e delicada
convalescença, que o obrigaria a transmitir o cargo ao vice Manuel Vitorino e
aos seus florianistas radicais.
Prudente e aliados
sabiam que a simples presença de Moreira Cesar na capital dissuadiria os
aventureiros contra qualquer tentativa de tomada do poder. Mas foi na viagem de
Moreira César de Santa Catarina para o Rio que houve um incidente estranho no
navio que o transportava: o vapor Itaipú, da Companhia Nacional de Navegação
Costeira, da família Lage, que Euclides da Cunha narra de uma forma execrável.
Em pleno mar, com
surpresa dos próprios companheiros, prende o comandante. Assaltara-o
— sem que para tal houvesse o mínimo pretexto — a suspeita de
uma traição, um desvio na rota, adrede disposto para o prender e aos soldados.
O ato seria absolutamente inexplicável se não o caracterizássemos como aspecto
particular da desorganização psíquica que o vitimava. Não lhe diminuiu,
contudo, o prestígio [Isso não é estranho?] (Os Sertões,
Fundação Darcy Ribeiro, Rio de Janeiro, 2013, p. 297).
Os destaques são todos
meus.
Entretanto, há uma
narrativa sólida, circunstanciada, que desmente essa invenção euclidiana, feita
por um jornalista de O Paiz, que, na primeira página da edição do dia 4
de novembro de 1896, no artigo DESEMBARQUE DO 7º, relata, a partir de
Florianópolis:
“Essas alegrias
[a festa que os florianopolitanos fizeram no seu embarque, e que o jornalista
chama de “delírio”]… começaram a ser toldadas por um fato excepcional…
quando em pleno oceano.
A hora marcada para a
partida foi demorada, a pretexto de que o navio precisava
carregar mais algumas reses [proteína fresca], não obstante estar
provido de todas as munições de boca [alimentação].
O coronel Moreira Cesar
insistiu para que o Itaipú levantasse ferro, e essa insistência só produziu
efeito quando ele a revestiu do tom solene de uma ordem imperativa”.
Resumindo: o navio
atrasa a sua saída porque o capitão está enchendo o porão de comida extra, só
iniciando a viagem após uma ordem severa do coronel! Continua o jornalista:
“O pretexto para uma
demora injustificada à saída do navio o aconselhou talvez a ficar… atento à
navegação da costa, ao demais muito sua conhecida.
Desconfiado da rota… o
coronel Moreira Cesar consultou a própria carta geográfica do navio,
consultou o rumo que lhe aparecia indicado, e viu então [pelos
instrumentos] que o navio ia a caminho do leste, mais e mais se amarando
[indo para o alto-mar].”
O navio seguia na
direção do continente africano — isso explica a preocupação do comandante em
encher os porões de comida, mostrando que a sua ação era premeditada!
"[O coronel] observou
calmamente o fato ao comandante [meu destaque], e este,
por entre evasivas, acabou por confessar que o coronel Moreira Cesar tinha
razão, e que ia pôr o paquete a caminho.
Efetivamente mudou de
rumo, mas dessa vez andando para o sul [o Rio de Janeiro
ficava ao norte], como se o navio tivesse que arribar ao próprio
porto de saída.
Desde então, o coronel
considerou o caso digno de enérgica providência e prendeu o comandante do
Itaipu, com sentinelas à vista [um soldado o vigiaria
no seu camarote, com a porta sempre aberta].
O Itaipú navegou então
à conta da pilotagem de bordo, sob a máxima vigilância dos oficiais do 7º e
das suas praças [meu destaque]."
Assim chegou ao seu
destino. Algumas perguntas:
a) Ele tinha ou não
motivos para intervir no navio?
b) O jornalista diz que
oficiais e soldados se revezavam na vigilância da ponte de comando, onde
estavam os instrumentos de navegação, o piloto e demais operadores do navio.
Como Euclides diz que os oficiais ficaram surpresos com a intervenção de
Moreira César?
c) Ele mostrou-se capaz
de ler as cartas náuticas, conferir a rota pelos instrumentos e levar o navio
até o seu destino. Isso é exemplo de alguém ignorante e descontrolado, em
desorganização psíquica, como Euclides sugere, ou antes de uma pessoa de inteligência
aguçada e abrangente?
Aparentemente, foi ele
quem levou o navio até o Rio de Janeiro e, provavelmente, com a cidade à vista,
deve ter devolvido o comando para o capitão.
O navio chegou às 7 h
da manhã do dia 3 de novembro, em meio a uma neblina, entre as fortalezas de
Santa Cruz e São João, onde irromperam estrepitosas as primeiras saudações
ao 7º batalhão de infantaria, sob o comando do bravo coronel Moreira Cesar,
segundo O Paiz.
Antes mesmo de o navio
atracar, subiram a bordo para cumprimentá-lo:
O coronel Bento Thomaz
Gonçalves, comandante do 22º BI [lembram-se do
Apulco?], alferes Bentes representando o ministro da guerra, tenente Lins…
major Polycarpo, Comissão do Clube Militar, vários outros cavalheiros, oficiais
de muitos corpos da guarnição [da polícia do Rio de Janeiro] e um
representante de O Paiz.
No Arsenal de Guerra
[que tinha um trapiche] havia uma multidão compacta, aguardando o
desembarque do batalhão, que foi recebido com estrepitosos vivas…
Bandas de música do 22º
e do 24º de infantaria e as duas da brigada policial tocavam o hino nacional,
quando, por entre abraços disputados, o bravo comandante e seus oficiais
puseram o pé em terra.
Entre as pessoas
presentes em terra estavam:
O general Paulo
Argolo [meu destaque] e o seu ajudante de ordem; alferes
Duarte Bentes, representando o ministro da guerra; comandantes do 1º, do 22º,
do 24º, e toda oficialidade [desses batalhões]; comandante do 26º,
Francisco Felix; coronel Travassos; coronel Jardim, comandante dos bombeiros;
tenente-coronel Ilha Moreira; João Clapp [esse comerciante, foi um
benemérito presidente da Confederação Abolicionista e investiu dinheiro de sua
empresa para criar centros para educar os ex-escravos, reforçando o testemunho
de Patrocínio de que Moreira Cesar apoiou a luta pelo abolicionismo]; Senador
Esteves Junior [Santa Catarina]; deputado Emilio Blum [federal, por
Santa Catarina]; Luiz Arthur, representando o ‘general’ Glicério [um
político civil]; comissão do Clube Militar [e muitos outros].
Compareceu também uma
estudantada ruidosa da Escola Militar, mostrando a dimensão do seu prestígio…
Caro leitor: tem a
mínima condição de alguém que carregava o peso de ter massacrado tanta gente da
mais alta sociedade catarinense, e até um heroico marechal do Exército, por
simples capricho, ser recebido dessa maneira? Por que as principais autoridades
militares e importantes políticos iriam comparecer ou mandar representantes
para recepcionar o assassino grosseiro e compulsivo de Euclides da Cunha?
Mas as comemorações não
terminaram por aí:
“Depois de receber os
cumprimentos dos generais Argolo e Cantuária [João Tomás de
Cantuária, um heroico participante da Retirada da Laguna]."
O batalhão desfilou por
diversas ruas próximas ao Arsenal:
“Trazendo à frente as
bandas do 1º e 24º batalhões, o 7º percorreu as ruas… recebendo palmas e
aclamações entusiásticas… essas manifestações calorosas subiram de ponto quando
o batalhão passou em frente à Escola Politécnica, cujos alunos os receberam com
palmas e vivas frenéticos.
As janelas do
quartel-general estavam repletas de militares e civis, que acenavam com lenços,
saudando os valentes soldados.
Deu-se-lhe pequeno
repouso, depois do qual ele desfilou de novo para o morro de Santo Antônio
[onde ficava a sua sede]… Marchou seguido das bandas do 22º e as da Brigada
Policial e com uma imensa cauda de povo [marchando atrás]…
Acompanharam o 7º a
cavalo os comandantes do 22º e do 1º de cavalaria e a pé os do 24º e do 1º de infantaria.
Às 4 horas da tarde, um
grande grupo de patriotas, à frente do qual ia o major Dias Jacaré, precedido
da banda de música do 23º, foi ao quartel do 7º saudá-lo e ao seu comandante”.
Tem mais!
É grato noticiar que o
comandante em chefe da esquadrilha argentina, quando de passagem por
Florianópolis, assistiu a um longo exercício deste corpo
[o 7º B.I.], após o qual manifestou verdadeira admiração, porque (palavras
textuais) viu em cada soldado um modelo de disciplina e um atirador dos mais
completos.
Como um homem
“desequilibrado”, dominado por um “demônio crudelíssimo”, conseguiria tal
feito? Como é que uma tropa dessas, uma unidade de elite do Exército Nacional,
promoverá, poucos meses depois, uma das páginas mais infames da história do
Exército Brasileiro, até ser extinta em 1908? Será que nos esconderam algo?
E o incidente no
Itaipu? A solução encontrada pela autoridade competente foi, no mínimo,
'estranha'. Eis o que diz o jornal Cidade do Rio, de José do Patrocínio, na
edição de 6 de novembro de 1896, no artigo ITAIPÚ, na primeira página:
“Sobre o caso do vapor
Itaipú, consta que o governo mandou abrir um inquérito…
Deve ser um caso bem
difícil de chegar à evidência, atendendo-se ao fato de que duas ordens de
testemunhas poderão depor.
A prova que foi colhida
de um lado, contra o comandante do navio, ficará imediatamente destruída apenas
tenham deposto as testemunhas da guarnição do navio.
O inquérito, nesta
hipótese, apurará, em vez de um, dois únicos responsáveis: o sr. coronel
Moreira Cesar e o comandante do Itaipú.
É edificante!”
A armação do circo é
clara: o comandante será responsabilizado por imperícia e o coronel por motim.
Fica a palavra de um contra a do outro, e não dará em nada para nenhum dos
dois. A sentença, é claro, saiu depois que Prudente licenciou-se, com o vice já
no poder.
Esse episódio deixa
patente a estratégia dos florianistas contra César: tratá-lo como a um tolo e,
se ele reagir, apontá-lo como mentalmente desequilibrado, embora nesse momento
ainda esperassem cooptá-lo para a causa. No caso do Itaipu, ou ele ficava vagando
pelo Oceano Atlântico, até chegar ao Rio muito tempo depois, desmoralizado, ou
ele tomaria a direção do barco, para conduzir a viagem ao seu desfecho, e então
seria tratado como um louco, um descontrolado, como faz Euclides da Cunha.
Mas haveria outra festa
ainda maior, para o coronel, e desta até os florianistas participariam.
Eduardo Simões