O ROSTO DA CORAGEM
E o seu endereço: https://www.youtube.com/watch?v=OALtIFyKXC0
O DNA DA HISTÓRIA
Essa propaganda de 1944 compara uma embalagem de drops com um cesto de frutas frescas e considera o drops muito mais vantajoso. Hoje isso não faz o menor sentido. Os tempos mudam, e a mentalidade das pessoas também, pelo menos algumas. Uma tradução aproximada do texto em inglês é:
“Talvez devêssemos chamar isso de ‘Retrato de uma mulher com um negócio sem futuro’, porque um soldado, por mais que goste de abacaxis, laranjas, limões e limas frescas, vai se matar carregando-os por montanhas e outros lugares quando pode obter os mesmos sabores, de forma muito mais prática, com as deliciosas balas Life Savers de cinco sabores?”
Desde o início dos anos 80, a minha geração acompanha, entre angustiada e indiferente, o crescimento do crime organizado. Em 1983, a Rede Globo estreou a minissérie Bandidos da Falange, de Falange Vermelha, o primeiro nome do Comando Vermelho, já mostrando sua periculosidade em todos os detalhes — lembro-me de um chefão da FV, cercado pela polícia num conjunto de apartamentos populares, resistindo sozinho à polícia, com ele morrendo no final e o apartamento pegando fogo. Aquilo foi um marco. Quem tinha juízo ficou preocupado, mas a grande maioria continuou como estava, votando em políticos sabidamente corruptos e inoperantes, e sem se importar com o seu vizinho.
Um amigo meu, professor, disse certa vez: “Já que a política está uma palhaçada, vou votar no palhaço”. E votou! E o palhaço não fez nada, somente cuidou de si, como se esperava. Esse é o espírito que nos acompanha desde 1822, todo concentrado na barriga, não sobrando nada para o resto.
Agora os chefes do CV não morrem mais trocando bala com a polícia em apartamentos populares. Eles vivem em mansões e compram políticos e autoridades responsáveis por combatê-los, e a conta veio na forma de uma humilhação internacional. Nossos bandidos de estimação se transformaram em perigosos terroristas para o país mais poderoso do mundo. Demorará muito até sejam para os outros países? Estamos ampliando a nossa pauta de exportação com trabalhadores e criminosos. Oremos para que, no futuro, não se reduza a isso.
E o que está sendo feito? O presidente, desesperado por fachadas, fica histérico e faz ameaças veladas aos EUA, enquanto sugere enforcar seu maior competidor: Flávio Bolseiro. Este e a sua turma festejam a saia justa do presidente paleontológico. Suas chances de vitória na eleição se ampliam. Até o próximo escândalo.
Será que dessa vez vai dar certo? Se as canetas emagrecedoras funcionarem pra valer, com o que vamos empurrar esse país até o seu destino final?
O sertanejo de Pindamonhangaba
Qual é a origem do
coronel Moreira César? Pergunta difícil de responder, pois, ao longo de mais de
cem anos, repetindo mecanicamente as acusações forjadas contra ele, os
brasileiros jamais tiveram interesse em saber se a sua história pessoal
sustenta tão graves acusações. Com o tempo, perderam-se muitos elementos que
poderiam nos ajudar a reconstituir os fatos de sua vida. Mas nem todos se
perderam.
Vamos nos virar com
algumas migalhas e muita dedução lógica.
Segundo a declaração de
fé de ofício que ele fez ao ingressar no exército em 29 de dezembro de 1869,
ele era natural de um distrito de Pindamonhangaba, mas filho de pais
desconhecidos. Há, entretanto, uma informação que liga o seu nascimento ao
'deslize' do padre Antônio Moreira César de Almeida (1814–1860) e de uma devota
solteirona, Francisca Correia de Toledo (1818–1895).
Algumas questões
parecem desautorizar um esquema tão simples e socialmente constrangedor como
esse:
a) Tanto o sobrenome
'Almeida' quanto 'Toledo' eram muito prestigiados em São Paulo. Moreira César
não herdará nenhum dos dois.
b) Li numa edição do Gazeta
de Notícias que um suposto sobrinho do coronel, de nome Fernando, de 15
anos, logo filho de um irmão ou irmã de Moreira César, estava na expedição a
Canudos e sobreviveu ao combate que vitimou o tio. Que um padre tenha feito um
filho numa devota solteira de uma família conhecida é possível, mas constituir
uma prole com ela é mais complicado, sem falar que um sobrinho tão jovem já
engajado no exército é indício de que o irmão ou a irmã do coronel também era
pobre.
c) Segundo a Wikipédia
em português. Uma fonte suspeita. O cunhado da suposta mãe de Moreira César era
o capitão Bento Moreira Cesar de Almeida, que, por sua vez, era irmão do padre,
embora na fonte citada pela Wikipédia (https://archive.is/HewJ3), o capitão não
era cunhado de Francisca Toledo, mas marido de uma prima dela. Que confusão!
Foi talvez por meio
desse capitão, irmão do padre, que ele adquiriu gosto pela carreira militar, de
sorte que a procurou não só para fugir de uma condição precária, mas também por
uma identificação com os ideais da farda.
Mas há ainda uma outra
possibilidade que talvez explique melhor o que se passou.
Ele e seu irmão ou irmã
não eram filhos do padre, mas sim de um casal pobre que morreu cedo. Então, o
padre e a devota decidiram adotar as crianças por caridade. Isso era comum na
antiga sociedade patriarcal, onde essas crianças moravam na 'casa grande',
brincavam com outras crianças, mas nunca eram tratadas como iguais. Eram os
moleques de recados. A sua compleição física, muito franzina, pode ser indício
de que ele não teve uma alimentação boa por muito tempo na infância.
Outro indício era a
grande preocupação que ele sempre mostrou para com sua família, seu irmão ou
irmã, a ponto de fugir da caserna para ajudá-la(o) — segundo um relato do
general Ferraz. Sinal de que ele ou ela não tinha mais ninguém que o(a)
ajudasse.
Reforça ainda a nossa
convicção o fato de Francisca Toledo, a suposta mãe, ter falecido em 1895,
depois que ele já se tornara oficial superior e uma pessoa famosa, e até
governador de Estado. Ele nunca faz menção a ela, nem a família dela ou a do
padre jamais interveio em seu favor.
Soldado exemplar,
quando necessário.
Se tomarmos a sua pequena e única biografia disponível,
que eu saiba, que circulou nos jornais do Rio de Janeiro, logo após a sua morte
— guiei-me pela que saiu no jornal ultraflorianista O Jacobino, de 13 de
março de 1897, onde se tem um panorama de uma carreira impecável, como diria
Euclides da Cunha: correta como poucas (3). O que vemos é um
jovem pobre, sem patronos, galgando passo a passo, num esforço pessoal
pungente, os degraus da carreira militar. Em 1874, era designado alferes, o
equivalente hoje a segundo tenente — o cargo de alferes era o distintivo de um
profissional diferenciado: um título de honra.
Sua dedicação aos
estudos fez-lhe merecer mais um galão na sua farda, em 1877. Aliás, o cultivo
do conhecimento e o desejo permanente de atualização vão ser a marca distintiva
de sua formação profissional.
Como Euclides da Cunha
pode descrevê-lo como um apedeuta de pavio curto, produto superficial do
tumulto ignorante das multidões, turbinado pelo contexto político, quando toda
a sua trajetória profissional está profundamente arraigada na tranquilidade institucional
do IIº Império? Em uma sociedade onde tudo conspirava contra ele, seja pela sua
condição financeira ou pela ausência de 'sobrenome'?
Mas nem tudo são
flores. Segundo Epaminondas Ferraz, em seu Excertos da história de um
batalhão de infantaria que foi o sustentáculo da república (4), nos
primeiros tempos ele apresentava uma grande preocupação com a família, assim
como não era muito “obediente”, pois certa vez saiu sem autorização do quartel,
para atender a um assunto familiar, e acabou amargando uma prisão. Sintoma,
talvez, de uma personalidade inteligente, com iniciativa, inquieta, mas, para
Ferraz, isso apenas indica desobediência, e parece que, para este, quem é
desobediente pode cometer qualquer crime, pois ele completa:
“Seu verdadeiro
temperamento [o descrito por Euclides da Cunha] aflorara,
afinal, sobrepondo-se ao exercício da disciplina, disciplina que tanto exigirá,
na maturidade, de seus comandados (p. 48).”
Não podemos deixar de
notar a pressa com que alguns companheiros de arma, de Moreira César, forçam
para encontrar um pretexto para desmerecê-lo. Isso não me parece muito adequado
à natureza do espírito de companheirismo que deve nortear as relações entre
militares.
Ferraz esquece que
Moreira César era uma vocação integral para o exército, que sempre se empenhava
e entregava mais do que os seus superiores, as regras comuns e os
condicionamentos da caserna exigiam dele. Não percebe que só os medíocres se
apegam à literalidade das regras, que o soldado brasileiro do século XIX era,
antes de tudo, um homem contrariado, mobilizado à força por meio de injusta
violência. Logo, exigia um tipo de liderança muito mais afirmativa e até
autoritária que a de uma tropa hoje.
Parece que Ferraz quer
nos fazer crer que Moreira César era um hipócrita, que exigia dos comandados a
disciplina que não praticava, mas isso é uma ilação absurda, negada
profusamente pela forma organizada e pessoal com que dirigia as missões que
assumiu. Ninguém conseguiria o que ele conseguiu de seus soldados, se não fosse
antes o primeiro e o mais arrebatador exemplo. O comportamento do 7º, inclusive
no colapso após a sua morte, desmente frontalmente a insinuação de Ferraz.
As iniciativas e
desobediências de César denotam independência mental e honestidade moral, pois
tudo era feito às claras, devidamente anotado e assinado. Inclusive quando ele
começou a se assumir como republicano, enfrentando resoluto, mas lealmente, os seus
superiores.
Em 1881, torna-se
ajudante de ordens do ministro da guerra, sendo logo promovido a capitão por
estudos. Nesse mesmo ano, ao que parece, torna-se instrutor de tiro na
Fortaleza de São João. A sua competência é tamanha que, quando o ministro
resolve transferi-lo, o comandante da Fortaleza intercede para que ele fique,
como escreve Ferraz.
“Diz o comandante geral
da artilharia ser difícil ter-se “um professor tão dedicado… tão hábil, que
tanto gosto tenha pela arma da infantaria como o oficial de que se trata”
[meu destaque] (Ferraz, idem, p. 48).
Ele amava profundamente
a sua carreira e o meio no qual vivia. Ele era isso.
Em 1883, afasta-se por
3 meses por um problema de saúde, que Ferraz não diz qual é; tampouco encontrei
qualquer anotação médica que atestasse epilepsia. Não há relato de crises
epilépticas ao longo de sua carreira, mesmo no desgastante período em que ele
passou à frente do governo de Santa Catarina.
Nesse ano, porém,
aconteceu um episódio violento e nebuloso que o envolveu em um assassinato
ocorrido no Rio de Janeiro, na descrição do qual Euclides da Cunha excede-se em
fantasias e calúnias, fosse por motivos pessoais, fosse para auxiliar na
estratégia do grupo político ao qual estava ligado.
Eduardo Simões
TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 15
Do
século XIV ao XVII (1)
O último dos três períodos em que decidimos dividir a história da escolástica estende-se do início do século XIV até as primeiras décadas do século XVII. Abrange praticamente toda a história da economia escolástica. Mas, tendo já explicado detalhadamente o contexto e a natureza do trabalho escolástico, podemos ser breves. Em particular, não parece necessária nenhuma explicação adicional para a facilidade com que a economia dos doutores absorveu todos os fenômenos do capitalismo nascente e, consequentemente, para o fato de ter servido tão bem como base para o trabalho analítico de seus sucessores, incluindo A. Smith [A análise dos mestres escolásticos preparou, por assim dizer, o desdobramento da análise burguesa-liberal da economia no século XVIII e na formulação posterior dessa doutrina econômica].
Para alcançar a máxima concisão, mencionarei apenas alguns nomes representativos... Para o século XIV, escolhemos Buridano e Oresmes como representantes. O tratado deste último sobre moeda é geralmente descrito como o primeiro tratado inteiramente dedicado a um problema econômico. Mas é principalmente de natureza jurídica e política e, na verdade, não contém muito material estritamente econômico — em particular, nada que não fosse doutrina corrente entre os escolásticos da época —, tendo como principal objetivo combater a prática prevalecente de desvalorização da moeda, um tema tratado posteriormente em uma vasta literatura... Nossos representantes do século XV serão Santo Antonino de Florença, talvez o primeiro homem a quem se possa atribuir uma visão abrangente do processo econômico em todos os seus principais aspectos, e Biel. Para o século XVI, selecionamos Mercado e, como representantes da literatura sobre Justiça e Direito (De justitia et jure), que no século XVI se tornou o principal repositório escolástico de material econômico, os três grandes jesuítas... Lessius, Molina e de Lugo.
Tudo o que precisa ser dito sobre a sociologia dos escolásticos posteriores é que eles desenvolveram, com maior detalhe e com uma percepção mais completa das implicações, as ideias que se cristalizaram nas obras de seus predecessores do século XIII. Sua sociologia política, em particular, manteve o mesmo método de abordagem aos fenômenos do Estado e do governo, bem como o mesmo espírito “radical”. Sua sociologia econômica, especialmente sua teoria da propriedade, continuou a tratar as instituições temporais como dispositivos utilitários que deveriam ser explicados — ou “justificados” — por considerações de conveniência social centradas no conceito de Bem Público. E essa conveniência social poderia, de acordo com as circunstâncias históricas, às vezes favorecer e às vezes se opor à propriedade privada.
Sem dúvida, eles acreditavam que, nas sociedades civilizadas, isto é, nas sociedades que já haviam superado o estado inicial ou natural em que todas as posses eram comuns a todos (omnia omnibus sunt communia), essas considerações favoreciam a propriedade privada (divisio rerum); mas não havia nenhum princípio teórico ou moral que os impedisse de chegar à conclusão oposta sempre que novos fatos o sugerissem [por uma consequência lógica e não imposição doutrinária de minorias excitadas]... Mas outro ponto deve ser mencionado brevemente. Os escolásticos não se preocupavam primordialmente com os problemas dos Estados nacionais e suas políticas de poder. Este é precisamente um dos elos mais importantes entre eles e os “liberais” dos séculos XVIII e até XIX. Mas alguns dos fenômenos que acompanharam a ascensão desses Estados estavam, no entanto, fadados a atrair sua atenção crítica, e entre eles estava a política fiscal. Menciono isso aqui, e não em conexão com sua economia, porque eles quase não se aprofundaram nos problemas especificamente econômicos das finanças públicas, como a incidência de impostos, os efeitos econômicos dos gastos governamentais e similares: mesmo quando discutiram o endividamento público (que, seguindo a linha de pensamento de São Tomás, eles geralmente condenaram) ou a questão dos méritos relativos dos impostos sobre a riqueza e dos impostos sobre o consumo (Molina, Lessius e de Lugo, entre outros, tocaram nessa questão), eles não produziram nada que se qualificasse como análise econômica.
O que mais lhes interessava era a “justiça” da tributação, no sentido mais amplo do termo — questões como se e quando os impostos poderiam ser legitimamente impostos, por quem e sobre quem, para quais fins e em que medida. E, abaixo de suas proposições normativas, havia alguma análise sociológica da natureza da tributação e da relação entre Estado e cidadão. Tanto essas normas quanto essa análise, juntamente com o restante de sua sociologia política e econômica, influenciaram a obra de seus sucessores laicos... Mas, enquanto a sociologia econômica dos doutores escolásticos desse período era, em essência, nada mais do que a doutrina do século XIII elaborada de forma mais completa, a economia “pura” que eles também transmitiram a esses sucessores laicos foi, em quase sua totalidade, criação própria.
Foi dentro de seus sistemas de teologia moral e direito que a economia ganhou existência definida, ainda que não separada, e foram eles que se aproximaram mais do que qualquer outro grupo de terem sido os “fundadores” da economia científica. E não só isso: parecerá, inclusive, que as bases que eles estabeleceram para um conjunto útil e bem integrado de ferramentas e proposições analíticas eram mais sólidas do que grande parte dos trabalhos subsequentes, no sentido de que uma parte considerável da economia do final do século XIX poderia ter sido desenvolvida a partir dessas bases mais rapidamente e com menos dificuldade do que realmente custou desenvolvê-la, e que alguns desses trabalhos subsequentes foram, portanto, um desvio demorado e trabalhoso.
Naquilo que pode ser descrito como a economia aplicada dos doutores escolásticos, o conceito central era o mesmo Bem Público que também dominava sua sociologia econômica. Este Bem Público foi concebido, num espírito distintamente utilitarista, com referência à satisfação das necessidades económicas dos indivíduos, tal como discernidas pela razão ou ratio recta (reta razão) do observador — e é, portanto, salvo questões técnicas, exatamente a mesma coisa que o conceito de bem-estar da Economia do Bem-Estar moderna, como o do Professor Pigou (1877–1959), por exemplo. A ligação mais importante entre esta última e a economia do bem-estar escolástica reside na economia do bem-estar dos economistas italianos do século XVIII. No que diz respeito à avaliação da política econômica e da prática empresarial, a ideia dos escolásticos sobre o que é “injusto” estava associada — embora nunca identificada — com a sua ideia sobre o que é contrário ao bem-estar público nesse sentido. Para dar pelo menos um exemplo: Molina declarou que o monopólio era, em geral (regulariter), injusto e prejudicial ao bem-estar público, e ainda que não tenha definido ambos, a sua justaposição é significativa.
A economia do bem-estar dos doutores escolásticos vinculou-se à sua economia “pura” através do conceito fundamental desta última, o Valor, que também se baseava nos “desejos” e em sua “satisfação”. É claro que não havia nada de novo nesse ponto de partida. Mas a distinção aristotélica entre valor de uso e valor de troca foi aprofundada e desenvolvida em uma teoria subjetiva ou utilitária fragmentária, porém genuína, do valor de troca ou preço, de uma maneira para a qual não havia análogo nem em Aristóteles nem em São Tomás, embora houvesse em ambos o que podemos descrever como uma semente.
Primeiro, ao criticarem Duns Scotus e seus seguidores, os escolásticos tardios, particularmente Molina, deixaram bem claro que o custo, embora um fator na determinação do valor de troca (ou preço), não era a sua fonte lógica ou “causa”. Segundo, eles esboçaram com clareza inequívoca a teoria da utilidade, que consideravam a fonte ou causa do valor. Molina (1535–1600) e Lugo (1583-1660), por exemplo, foram tão cuidadosos quanto C. Menger (1840–1921) ao salientar que essa utilidade não era uma propriedade dos bens em si, nem idêntica a quaisquer de suas qualidades inerentes, mas sim o reflexo dos usos que os indivíduos propunham fazer desses bens e da importância que atribuíam a esses usos. Mas um século antes disso, Santo Antonino de Florença (1389–1459), evidentemente motivado pelo desejo de despojar um conceito tão relevante de significados “objetivos” indesejáveis, empregou o termo não clássico, porém excelente, complacibilitas — o equivalente exato do “desejo” do Professor Irving Fisher (1867-1947), que também é usado para expressar o fato de que uma coisa está sendo de fato desejada e nada mais. Terceiro, os escolásticos tardios, embora não tenham resolvido explicitamente o “paradoxo do valor” — que a água, embora útil, normalmente não tem valor de troca — contornaram a dificuldade ao tornar seu conceito de utilidade, desde o início, relativo à abundância ou escassez; sua utilidade não era a utilidade dos bens em abstrato, mas a utilidade das quantidades de bens disponíveis ou produzíveis nas situações particulares do indivíduo. Finalmente, em quarto lugar, eles listaram todos os fatores determinantes de preços, embora não tenham conseguido integrá-los em uma teoria completa de demanda e oferta. Mas os elementos para tal teoria já estavam todos lá, e o aparato técnico de tabelas e conceitos marginais que se desenvolveu durante o século XIX foi tudo o que realmente precisou ser acrescentado a eles.
O JUDICIÁRIO DEMENTE DE UMA NAÇÃO DESMORALIZADA
O CORONEL MOREIRA CÉSAR E
CANUDOS DEVEM MORRER
A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 20
RIO
DE JANEIRO
Rumo ao Vaza-barris
João Maurício Wanderley, o Barão de Cotegipe, da Bahia,
se notabilizou, no tempo do Império, de duas maneiras: a primeira, por lutar
contra a Lei Áurea, imaginando o prejuízo que esta causaria à economia e a
imprevisão sobre as dificuldades que os ex-escravos teriam em se integrar à
sociedade; a segunda, por suas profecias sobre o final do Império e início da
República.
Em setembro de 1884,
numa reunião em sua casa, na presença de dois amigos, ele falou:
— “A Princesa não há
de subir ao trono e, se subir, terá chegado a vez da República, que deverá ser
feita por nós, conservadores; porque, se o for pelos liberais, desunidos e
desorientados como estão, não serão capazes de manter a integridade deste
colosso, a qual vale mais que a sua forma de governo… As constituições não se
fazem olhando para o exterior do país” [como o fez Rui Barbosa, em 1891].
Um dos amigos falou que
talvez a República não esperasse a filha do imperador.
— “É possível, mas será
um desastre; porque, se a República esperar o
romper do dia e sair à rua ao cair da noite [talvez no sentido de
“após o fim da noite”, como de fato aconteceu], depois de tatear algum
tempo nas trevas, dará com tudo isto em Vaza-Barris…” (1)
(p. 36)
O processo de
republicanização do Brasil, entretanto, ao contrário do que queria Cotegipe,
foi dominado por liberais como Rui Barbosa, Floriano Peixoto, Silveira Martins,
chefes dos federalistas gaúchos, etc. Rui fez-nos uma Constituição, no molde da
americana. No Rio Grande do Sul, Floriano afiançou a ditadura do republicano
histórico Júlio de Castilhos, contra o seu ex-colega liberal Gaspar Silveira
Martins, desencadeando uma das mais selvagens guerras civis da nossa história.
Na Bahia não foi
diferente, pois Rui, aproveitando-se de sua influência no governo Deodoro,
mexeu os pauzinhos para garantir as melhores colocações para seus antigos
correligionários liberais. A Bahia, como o Rio
Grande, virou um caos! E, no final, veio Canudos. Luiz Viana e seu preposto:
Joaquim José Rodrigues Lima, sem falar de César Zama, eram todos liberais!
Por que será que era
tão importante aos republicanos aplicar o golpe ao anoitecer, e não esperar o
amanhecer? Tenho uma teoria a esse respeito, mas só vou falar no final.
Cotegipe, pelo visto,
conhecia profundamente o Brasil e os brasileiros, uma habilidade perdida pelos
nossos políticos, e mais uma vez profetizou, dessa vez na companhia de Antônio
da Silva Jardim, o Silva Jardim, o republicano mais 'socialista' da época,
ainda assim capaz de dialogar com quem pensava diferente. Encontraram-se num
dia frio e cinzento no Hotel das Paineiras, no Rio de Janeiro, onde Cotegipe
convalescia, em 13 de fevereiro de 1889. Disse Cotegipe, quando Jardim lhe
provocou, perguntando sobre a chegada da República:
— “Não se apresse a
correr para ela, que ela está correndo para nós.
O meu Ministério caiu por uma conspiração de Palácio [a Princesa Isabel
e o Conde D’Eu queriam a abolição já]; o meu sucessor há de cair na lama das
ruas, e o sucessor do meu sucessor cairá na ponta das baionetas e, talvez, com
ele, a Monarquia. Os nossos ministérios duram pouco e, portanto, V. não terá
muito que esperar (idem, p. 37).
O gabinete
Cotegipe, conservador, foi sucedido pelo gabinete conservador-moderado de João
Alfredo Correia de Oliveira, que promoveu a Abolição e foi embora sem deixar
rastro. Acabou na poeira do esquecimento. Depois veio o gabinete liberal de
Afonso Celso de Assis Figueiredo, o Visconde de Ouro Preto, durante o qual se
deu o golpe de 15 de novembro. Como previsto.
A República começou,
portanto, cercada pelos liberais, como ele tanto temia, e o único conservador
que teve papel predominante, o marechal Deodoro, já não estava funcionando
muito bem. Dizem que ele nunca funcionou.
Na sessão de 12 de maio
de 1888, a última em que se discutiu sobre a Lei Áurea, Cotegipe tomou a
palavra e pôs-se a profetizar: “A verdade é que há de haver uma
perturbação enorme no país durante muitos anos, o que não verei, talvez, mas
aqueles a quem Deus conceder mais vida, ou que forem mais moços, a
presenciarão” (2) (Anais do Senado, p. 36).
Em 1889 houve a queda
do império; em 1890 houve a maior crise financeira da história do Brasil, o
Encilhamento; em 1893 houve o início da Revolta Federalista e da Armada, que
durou dois anos; em 1896 estourou a guerra em Canudos, que durou quase um ano. Foram
de sete a oito anos de conflitos e confusão, com muito sangue derramado.
No dia 12 de maio ele
fez uma impressionante profecia durante os debates finais para a aprovação da
Lei Áurea, onde voltou a lembrar a necessidade de formação de sociedades
beneficentes, como era a compreensão da época, para preparar os ex-escravizados
paras prosperarem na sociedade nacional, e desfiou a sibila que havia nele.
— “Senhores, a grande
transformação se aproxima; a cerração negra [a estagnação
econômica, política e social do Império] desaparece, rejeitada pela força
irresistível dos acontecimentos que operam as mutações do tempo no seio da
história, e por esses espaços imensos… entrarão os fachos deslumbrantes de um
novo sol, e o oxigênio poderoso da civilização americana purifica essa
atmosfera saturada de emanações cadavéricas; é uma ressurreição; é um passado
de volta ao abismo de onde caiu [há erros ortográficos nesse texto, talvez
o certo seja “saiu”]; é uma … era nova que começa; de todos os pontos de
nossas fronteiras… os ventos nos trazem ideias vivificadoras… a liberdade
religiosa; a regularização da legislação em todos os seus ramos; a difusão do
ensino e universidade do voto a desenfeudação da propriedade; a federação dos
Estados-Unidos Brasileiros…” (Estrepitosos aplausos prolongados).
— “Tudo isto
precisamos, e o faremos, apesar da Coroa e contra a Coroa, se ela se opuser,
porque já nos devemos convencer de que não é possível amalgamar a liberdade com
o absolutismo: são duas coisas que se excluem. (Aplausos prolongados). Isto que
era impossível antes da abolição, hoje torna-se inevitável. Estas são as nossas
reformas… que hão de modelar os novos partidos políticos, de cujas evoluções
dependem as nossas futuras instituições, que não podem ter outro princípio
senão o da mais ampla liberdade no estilo americano. (Aplausos e vivas.)”
— “Entendo que grandes
males vão surgir desta medida; convém que sejam quanto antes tomadas
providências em benefício não só da lavoura, como dos que vão ser libertados.
Chamo também a atenção do país e do governo para as tendências, que já
aparecem, e, ao final, pedirei a Deus, do mais íntimo do meu coração, que
afaste de nós todos os males que eu prevejo [E que,
infelizmente, aconteceram].”
(Idem, p. 36–37).
Quem conhece a barbárie
que tomou conta do país na década de 1890 sente um arrepio ao ler essas
palavras e se pergunta: “Como ele sabia?”
Eduardo Simões
PILULAS DA SUMA TEOLÓGICA DE AQUINO (pelos dominicanos espanhóis)
A Ciência Sagrada é uma ciência prática?
Nota dos dominicanos espanhóis
O que essas palavras significam para São
Tomás? Aquilo que é ordenado a fazer algo, aquilo direcionado para a
ação, é chamado de prático; aquilo ordenado para o conhecimento, aquilo direcionado para o conhecer, é chamado de especulativo. A inteligência
humana, como tal, conhece por conhecer: este é o seu próprio fim, a sua obra
específica. Mas ela também pode conhecer para direcionar algo além da sua
própria operação: isto é, ela pode produzir (finis non est cognitio sed opus:
In Sent. 3 d.35 q.1 a.3 sol.2). Mas mesmo neste segundo caso, trata-se de
conhecimento intelectual; duas faculdades não seriam necessárias, mas sim uma
com duas funções. A ciência prática lida especulativamente com coisas práticas.
A inteligência, que é inerentemente especulativa, “torna-se” prática
por extensão. Os princípios com os quais se opera em cada caso são diferentes. Assim,
os princípios especulativos são resolutivos (analíticos), porque a verdade
daquilo que se conclui é resolvida nesses princípios; os princípios práticos
são composicionais (sintéticos) porque consideram a verdade conhecida na medida
em que ela é “acionável”, ou seja, tendem a sintetizar o que é
conhecido com a existência. Isso explica por que o prático vê as coisas em
termos de sua existência singular (contingente), enquanto o especulativo vê
tudo na medida em que é universal (necessário).
Toda ciência prática lida com o que pode ser feito pelo
homem. Assim, a Moral lida com os atos humanos; a Arquitetura, com os
edifícios. A doutrina sagrada, por outro lado, tem como objeto principal Deus,
cuja maior obra é o homem. Portanto, não é uma ciência prática, mas sobretudo
especulativa.
Solução: Deve-se dizer que a doutrina sagrada, sendo una,
abrange tudo o que pertence às ciências filosóficas da perspectiva formal sob a
qual a considera, isto é, na medida em que pode ser conhecida pela luz divina.
Portanto, embora algumas ciências filosóficas sejam especulativas e outras
práticas, a doutrina sagrada as abrange a todas, da mesma forma que Deus
conhece a si mesmo e suas ações com o mesmo conhecimento. Além disso, estamos
lidando com uma ciência mais especulativa do que prática porque se ocupa
principalmente do divino, e não do humano. Pois, quando se ocupa da humanidade,
fá-lo na medida em que o homem, por meio de suas ações, é direcionado para o
conhecimento perfeito de Deus, visto que a felicidade eterna consiste nesse
conhecimento.
Nota dos dominicanos espanhóis
Tomás de Aquino retoma a divisão de
Aristóteles, segundo a qual os hábitos práticos do homem santo são a prudência
e a arte, e os especulativos são a ciência, a sabedoria e o hábito dos
princípios [disposição natural e inata da mente humana para
discernir as verdades mais evidentes e universais sem necessidade de
demonstração, como o princípio da não contradição].
A função prática, dissemos, é o próprio intelecto ordenando-se para um fim que
não é sua própria operação; portanto, será sempre algo secundário a ele, e que
pressupõe a função especulativa primária. Aqui, São Tomás rompe com toda a
tradição ao atribuir à teologia a função especulativa como sua função primária.
Até ele, todos os teólogos agostinianos concordavam em rejeitar um fim
puramente especulativo para o conhecimento teológico, convergindo para uma
teologia afetiva. A natureza de uma ciência deve ser determinada em termos de
seu fim, e o fim último desta doutrina é a contemplação da primeira verdade na
pátria celestial. Assim, trata-se, de fato, primordialmente de pensamento
especulativo, como já havia expressado São Tomás. Isso é o que seus
predecessores e contemporâneos rejeitaram, para quem o pensamento deveria ser
um meio para a ação. Segundo ele, ao contrário, a ação não é o fim pretendido
por esta ciência, mas antes a contemplação. Esta é a posição mais coerente com
a escolha feita, na qual a inteligibilidade da criação tem primazia.
A doutrina sagrada é superior às outras ciências.
Solução. É preciso dizer: como esta ciência é
especulativa em alguns aspectos e prática em outros, ela é superior a todas as
outras ciências, tanto especulativas quanto práticas. Entre as ciências
especulativas, diz-se que uma é superior a outra segundo a certeza que contém,
ou segundo a dignidade do assunto que aborda. Em ambos os aspectos, a doutrina
sagrada é superior às outras ciências especulativas. Quanto à certeza das
ciências especulativas, fundada na razão natural, que pode errar, ela contrasta
com a certeza fundada na luz da ciência divina, que não pode falhar. Quanto à
dignidade do assunto, é porque a doutrina sagrada lida principalmente com algo
que, por sua sublimidade, transcende a razão humana. As outras ciências
consideram apenas o que está sujeito à razão.
Dentre as ciências práticas, a mais valiosa é aquela que
se orienta para um fim superior, assim como a ciência civil se orienta para o
militar, visto que o bem do exército tem como fim o bem do povo. O fim da
doutrina sagrada, como ciência prática, é a felicidade eterna, que é o fim para
o qual todos os objetivos das ciências práticas se orientam. É evidente, sob
todas as perspectivas, que a doutrina sagrada é superior às demais ciências.
Resposta às objeções: Nada impede que aquilo que é certo por
sua natureza nos pareça menos certo, devido à fragilidade do nosso
entendimento, pois o nosso entendimento. Portanto, a dúvida que surge em alguns
a respeito dos artigos de fé não se origina na incerteza do seu conteúdo, mas
na fragilidade do entendimento humano. No entanto, o pouco que se pode saber
sobre as coisas sublimes é preferível ao muito e à certeza que podemos saber
sobre as coisas inferiores [materiais].
Nota dominicanos espanhóis
Esta resposta pressupõe, embora não
explicitamente, o papel da razão na tarefa teológica. Ela atua como causa
primária, mas subordinada à fé. É precisamente a maneira como a inteligência
humana participa dessas outras ciências “inferiores” à teologia que
as torna mais certas: não em si mesmas, como esclarece São Tomás de Aquino, mas
devido às limitações do nosso entendimento [daí a necessidade da fé prévia].
O segundo ponto a ser destacado é o
seguinte: esta ciência pode recorrer a disciplinas filosóficas, não por
necessidade, mas para melhor explicar seu objeto de estudo. Pois ela não deriva
seus princípios de outras ciências, mas diretamente de Deus por meio da
revelação. E mesmo quando recorre a outras ciências, não o faz por serem
superiores, mas sim por serem subordinadas e subservientes, assim como a
arquitetura tem fornecedores, ou a ciência civil tem fornecedores militares. A
ciência sagrada o faz não por deficiência ou incapacidade, mas devido à
fragilidade de nossa compreensão. A partir daquilo que conhece pela razão
natural (da qual outras ciências procedem), ela é conduzida, como que guiada
pela mão, àquilo que transcende a razão humana e que é o objeto da ciência
sagrada.
A doutrina sagrada é uma
sabedoria.
Nota dos dominicanos espanhóis
Esta era a afirmação tradicional a
respeito da doutrina sagrada, da qual ninguém discordava. Desde Santo
Agostinho, ao afirmar o caráter da sabedoria e negar o da ciência para a
teologia, a questão, ao longo da escolástica, não ofereceu dúvidas. A sabedoria
é o supremo dos hábitos intelectuais ou cognitivos. A sabedoria é o mais elevado dos hábitos intelectuais ou
cognitivos. Ou seja, a ciência em seu grau mais elevado; aquilo que se
manifesta por meio de suas causas ou princípios mais elevados. Ciência suprema
em todos os sentidos, ela julga os princípios de todas as ciências: ela os
ordena, explica e defende. Por outro lado, “sabedoria” evocava um
conhecimento “delicioso”, que se harmonizava admiravelmente com a
doutrina sagrada. Mas o que tradicionalmente se apresentava como um dilema (ou
é ciência ou é sabedoria) é resolvido por São Tomás de Aquino ao observar que a
sabedoria não se opõe à ciência, mas antes lhe acrescenta algo. É conhecimento
por meio de causas (ciência) e por meio da causa suprema (sabedoria). Para São
Tomás, na realidade, precisamente por ser ciência subordinada à ciência de
Deus, a teologia é una, especulativa e prática, superior a todas as outras
ciências e à sabedoria. E isso se aplica ainda mais à metafísica, visto que
esta alcança Deus indiretamente (quantum ad illud quod est per creaturas
cognoscibile = no que se refere àquilo que é cognoscível
através das criaturas), enquanto a teologia o alcança
diretamente (quantum ad id quod no tum est sibi de seipso = no que se refere àquilo que lhe é
desconhecido). A revelação é, na realidade, uma
derivação da luz pela qual Deus se conhece, como já vimos anteriormente.
Esta doutrina é, dentre toda a
sabedoria humana, a sabedoria em mais alto grau, não apenas em um sentido
específico, mas de forma única e completa. O papel do sábio é guiar e julgar; e
seu julgamento é feito tendo como ponto de referência a causa suprema de tudo o
que é inferior. Assim, em todos os tipos de coisas, aquele que mantém em mente
a causa suprema de cada coisa concreta é chamado de sábio. Por exemplo, o
trabalhador que prepara os projetos de um edifício é chamado de sábio e
arquiteto em relação aos trabalhadores que esculpem a madeira ou poliam a
pedra. Nesse sentido, 1 Coríntios 3:10 diz: “Como sábio mestre de obras,
ele lançou os alicerces.” E na vida humana, o sábio é chamado de prudente
por guiar a ação humana ao seu fim próprio. Por isso, Provérbios 10:23 diz:
“A sabedoria do homem é a prudência.” Assim, aquele que tem como
ponto de referência a causa suprema de todo o universo, que é Deus, será
chamado de sábio em mais alto grau. Portanto, a sabedoria é definida como o
conhecimento do divino, como afirma Agostinho no Livro XII de *De Trinitate*,
p. 11. O aspecto mais genuíno da doutrina sagrada é referir-se a Deus como a
causa suprema, e não apenas pelo que se pode conhecer d'Ele através da criação…
mas também por aquilo que somente Ele pode saber de Si mesmo e que Ele comunica
aos outros por meio da revelação. Disso se segue que a doutrina sagrada é
sabedoria em grau máximo.
Resposta às objeções:
A doutrina sagrada não extrai seus
princípios de nenhuma outra ciência humana, mas da ciência divina, que, como
sabedoria em grau máximo, governa todo o nosso entendimento.
Os princípios das outras ciências são
ou autoevidentes e não necessitam de demonstração; ou são evidentes em alguma
outra ciência sendo demonstrados por um processo mental natural. O conhecimento
próprio que se possui na ciência sagrada é dado pela revelação, não pela razão
natural. Portanto, não lhe cabe provar os princípios de outras ciências, mas
apenas julgá-los. Assim, condena como falso tudo o que, em outras ciências, é
incompatível com a sua verdade.
Ao sábio corresponde julgar. Visto que
existem duas maneiras de julgar, a sabedoria também deve ser compreendida de
duas maneiras. Uma delas é se o juiz possui uma inclinação particular para
algo. Por exemplo, a pessoa virtuosa julgará corretamente tudo o que se
relaciona à virtude, visto que tem inclinação para ela. Daí o que se diz no
Livro X da Ética, 12: “A pessoa virtuosa é a regra e a medida das ações
humanas.” Outra maneira de julgar é pelo conhecimento. Assim, por exemplo,
um especialista em moral pode julgar os atos de uma virtude específica mesmo
que não a possua. Agora, quando se trata de julgar assuntos divinos, a primeira
maneira indicada é aquela que corresponde à sabedoria que está entre os dons do
Espírito Santo, seguindo o que se diz em 1 Coríntios 2:15: “O homem
espiritual discerne todas as coisas”, etc... A segunda forma de julgamento
pertence à doutrina sagrada, na medida em que é adquirida por meio do estudo;
embora adote os princípios que emanam da revelação.
Nota dos dominicanos espanhóis
A teologia não demonstra os princípios
de outras ciências, mas condena como falso tudo o que é incompatível com a
verdade teológica. Será necessário, mais uma vez, ter em mente que a
inteligência do teólogo em seu trabalho é intrínseca e constantemente iluminada
e medida pela fé. Quando a teologia ultrapassa o alcance da revelação, essa
condenação poderia também se estender a áreas fora de sua competência
[criava-se assim uma área de atrito perigosa]. São Tomás estabelece a distinção
relevante para resolver a objeção levantada [a sabedoria como dom do Espírito
Santo e como resultante da leitura dos textos sagrados]: como a teologia
envolve diversos níveis de inteligibilidade e diversos modos de acesso às suas
conclusões, é legítimo propor a distinção. Mas isso não implica separação. A
frase conclusiva deste ad 3 (licet eius principia ex revelatione habeantur =
embora seus princípios sejam derivados da revelação) adverte sobre a
necessidade de uma recomposição contínua da unidade teológica, retornando
constantemente aos seus princípios (In Boet. de Trin. q.6 a.1). Nada se
encontra em São Tomás que autorize a fundamentação nele da ruptura dos devotos
do século XV, que dissociaram a teologia espiritual da teologia especulativa. O
trabalho teológico não é um projeto meramente humano, nem tem nada a ver com
uma tarefa filosófica “aplicada” a dados aceitos como postulados.
“O teólogo não é um filósofo que trabalha sobre uma crença, mas um
crente” (Congar). As conclusões teológicas estão sempre intimamente
ligadas aos seus princípios, que, como sabemos, são os artigos de fé (ver a
passagem citada em In Boet. de Trin.).