sexta-feira, 8 de maio de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E 

CANUDOS DEVEM MORRER

A PROFECIA DO BARÃO DE COTEGIPE — 8


O coronel encrencado: apareceu uma testemunha

Chama muito a atenção nos fuzilamentos em Anhatomirim a inexistência de testemunha ocular, de alguém com um mínimo de credibilidade, que tenha participado ou presenciado os fuzilamentos. Nenhum soldado ou civil que passou pela fortaleza nesse período jamais falou ou escreveu sobre esse assunto. 

Infelizmente, para os defensores da inocência do coronel Moreira César, o pesquisador baiano Oleone Coelho Fontes, em seu livro O Treme-terra Moreira César, a república e Canudos (9), achou um relato do político sergipano Maurício Graco Cardoso — escrevia-se “Graccho” — que testemunhou ou participou de uma execução em Anhatomirim.

Segundo Fontes, Cardoso serviu na “guarnição federal de Santa Catarina e fez parte do pelotão encarregado de fuzilar inimigos da República… por ordem do coronel Moreira César”. Cabia a Graco a tarefa de comunicar ao coronel que o fuzilamento fora efetuado.

Entretanto, “uma vez que a informação ia ser feita oralmente”, Graco foi ao coronel, encontrando-o a saborear um almoço que, segundo Graco, de tão odorífero, ele o recordava muitos anos depois — só consigo imaginar algo muito estragado para dar tanta memória! Contudo, quando ele ia começar a dar a notícia, Moreira César o interrompe com um gesto, dando a entender que já sabia, e o dispensa.

Antes de tudo, precisamos mostrar o contexto que levou o sergipano Maurício Graco Cardoso a Anhatomirim, em Santa Catarina.

Ele era um cadete no Rio de Janeiro, filho de uma rica família, e seguiu para o Sul, no cruzador Niterói — que foi um dos navios que participaram do combate de 16 de abril de 1894, quando o encouraçado Aquidabã encalhou, perto de Anhatomirim, após ser torpedeado. Posteriormente, houve a tomada das fortalezas da ilha de Santa Catarina pela jovem infantaria da Escola Militar.

Graco escreveu um livro sobre o assunto, chamado “Acontecimentos da esquadra legal a bordo do cruzador Nictheroy, em 1894”. Como não consegui encontrá-lo, vou analisá-lo a partir daquilo que Fontes entendeu do texto de Graco.

1.º — Guarnição federal de Santa Catarina? Toda unidade do Exército e da Marinha é força federal. O 7º BI, provisoriamente sob outro comandante, já que o coronel era o governador, fazia parte da guarnição federal, e esse detalhe é importante.

 2º — Fontes diz que ele fez parte do pelotão encarregado de fuzilar, mas depois diz que a sua função era avisar ao coronel o resultado da execução, como se o coronel vivesse da fortaleza de Anhatomirim, ou nela trabalhasse regularmente.

 3º — Se ele estava atirando, não seria mais razoável que outro fosse avisar ao coronel? Então podemos deduzir que a informação inicial de Fontes é errada. Graco não participava dos pelotões de fuzilamento, mas só comunicava ao coronel o cumprimento da sentença, cuja execução Graco, quando muito, viu, se é que viu, pois podia estar numa saleta fazendo trabalho administrativo.

Mas vamos pensar um pouco.

a) O primeiro ponto a saber é que a fortaleza de Anhatomirim fica em uma pequena ilha de 0,28 km². As construções militares são muito próximas. A Casa do Comandante está em um lugar alto, que permite uma boa visão de toda a ilha, e essa ilha está a cerca de 20 quilômetros do centro de Desterro, na ilha de Santa Catarina.

b) Moreira César foi designado para governar Santa Catarina, para ser uma autoridade estadual. Por que ele não utilizaria a estrutura de governo que já existia no Palácio do Governo, em Desterro, para ficar em Anhatomirim, que não tinha a menor estrutura? Tampouco faria sentido ele ficar morando lá para ir atender em Desterro, voltando para “casa” para almoçar, se arriscando a ter que voltar  para algum compromisso de última hora, uma vez que Anhatomirim não tinha a menor condição de receber autoridades com conforto.

c) A planta da fortaleza mostra um galpão comprido, onde os soldados se alojavam, e uma pequena estrutura, tipo bangalô, de dois andares, onde os oficiais se alojavam embaixo e o comandante em cima — suas medidas prováveis são 14,5 m × 14,5 m. As reuniões com secretários e autoridades teriam que ser feitas com alguns sentados nas camas dos oficiais ou ao ar livre. Sentados em cadeiras ou como caciques, na grama.

d) Se ele morava lá, por que o jornal República, de Desterro, anuncia, duas vezes, uma em maio e outra em junho de 1894, que ele fez visita à fortaleza da Santa Cruz? Por que o jornal faria da ida do governador à sua “casa” um evento social?

e) Se o coronel não morava em Anhatomirim, qual é o sentido de ter todo esse trabalho para informar o coronel e não utilizar um telégrafo, bandeiras ou um sinal de luz para alguém de confiança na outra ilha, Santa Catarina, avisar ao coronel?

f) Supondo que ele estivesse no Palácio do Governo, essa urgência em comunicar pessoalmente a notícia dá a entender que aquele “fuzilamento” era importante, além de ilegal e sigiloso. Por que enviariam um jovem cadete de 19 anos para uma missão tão séria?

f) Se era Graco Cardoso o designado para dar essa mensagem, quem se deu ao imenso trabalho de correr meia maratona mais veloz, só para dar a informação em primeiro lugar?

Nada do que Graco supostamente escreveu sobre isso faz o menor sentido. Parece, antes, o produto de uma severa confusão mental, ou foi Oleone Fontes que entendeu tudo errado.

Lembram-se de que Graco Cardoso fazia parte da “guarnição federal”.

Iniciada em 1739, Santa Cruz de Anhatomirim sempre fez parte ativa do sistema de defesa costeira do Brasil até 1955, quando foi abandonada pela Marinha. Parece que, ao longo do século XIX, houve um revezamento de jurisdição entre o Exército e a Marinha. Naquele momento em que a Marinha estava revoltada, compreende-se que Floriano não achasse prudente transferi-la para esta, o que só acontecerá em 1907.

Entende-se também, pela notícia do jornal República de 21 de abril de 1894, que diz que o tenente-coronel Joaquim Vieira de Aguiar estaria “reassumindo” o comando da fortaleza, com a expulsão dos federalistas, que era ele quem a comandava antes da revolta, e que passou a comandá-la em seguida. Há, portanto, um comando federal ativo e autônomo na fortaleza.

Mas há outra consideração relevante: por fazer parte ativa do sistema de defesa costeira do país entre 1744 e 1955, podemos dizer com absoluta certeza que a Fortaleza de Anhatomirim nunca esteve sob jurisdição da Província ou do Estado de Santa Catarina. Inclusive, agora, em 2026, ela se encontra sob a administração da Universidade Federal de Santa Catarina. Em 1894, Moreira César representava o poder estadual.

Portanto, Anhatomirim estava fora da jurisdição de Moreira César.

Ele poderia até fazer um acordo com o Ministério da Guerra para guardar nas prisões de Anhatomirim os prisioneiros do interesse de Floriano, uma vez que a precariedade das cadeias de Desterro não as recomendava. Mas isso é muito diferente de utilizar uma estrutura federal para cometer crimes graves, por mero capricho pessoal. 

Se as pessoas mandadas para Anhatomirim acabaram fuziladas, a responsabilidade é toda de Floriano Peixoto, de seu ministro da Guerra na ocasião, general Bibiano Costalatt, e do tenente-coronel Joaquim Vieira de Aguiar, o comandante local, que ficaria muito encrencado se deixasse Moreira César dar ordens ilegais lá dentro.

Aproximadamente um mês, ou um pouco mais, após reassumir o comando da fortaleza, o tenente-coronel Joaquim Vieira de Aguiar solicitou transferência. Teria motivações particulares ou viu algo que não lhe agradou? 

 Que a mente do jovem Graco Cardoso era confusa e radical no culto do Marechal Floriano, mostra-nos esse artigo dele no jornal República de Desterro. O título é autocontraditório: ESPANQUEM-SE OS ÓDIOS. “O sol perfulgente que na manhã de 16 de abril espaireceu sobre as águas lutulentas do Estado de Santa Catarina a cantar ruidosamente as notas vivazes de uma alvorada rútila…

A luz de liberdade, de justiça que ressurgiu sobranceira dos escombros deixados pelos hunos que conveliram a derrocada do edifício pátrio… [o termo ‘huno’ nessa frase tem o sentido original de ‘desordeiro’, ‘saqueador’, etc.]

O momento de alucinação, o fraquejo que acabou de experimentar cérebros sem autonomia espiritual, almas desprovidas de vitalidade, passou… a aridez que cegou no coração daqueles as relvas do amor nativo…

Isso não quer dizer em absoluto que deixe de cair como clava esmagadora na cabeça dos verdadeiros antipatriotas, dos iconoclastas das grandes imagens dos templos de nossas liberdades… Implacável a destra da justiça, essa mulher que tem sempre o sorriso tão doce como o mel… e dardos para confundir e aniquilar os culpados.

Para bem longe, os ódios e os ressentimentos.

É inacreditável que haja ainda neste estado famílias, moças, federalistas. Famílias! Não cremos… impelir alguém a conduzir o guião do despotismo. Mães, irmãs, esposas, vós que sois as santas do lar… não manchastes as róseas mãos, mergulhando-as no sangue fratricida!

Moças, as vossas asas puras, imaculadas, como essas nuvenzinhas de verão, a passear no palco desmaiado de uma lua de prata… empreendei a obra santa da regeneração.

Espanquem-se os ódios…

Desterro, 2 de maio de 94 [publicada na edição do dia 3 de maio].”

Graco Cardoso, cheio de paz e amor, chama os federalistas de “hunos, cérebros sem autonomia espiritual, almas desprovidas de vitalidade (zumbis), coração cego, antipatriotas, iconoclastas, culpados, amantes do despotismo e fratricidas, descrentes da república.” 

Realmente, não há ódio que sobreviva a tanto espancamento!

Eduardo Simões

 


JUSTIÇA HISTÓRICA PARA O CORONEL ANTÔNIO MOREIRA CÉSAR

Eduardo Simões

            Em 2021, os habitantes de Niterói, em comum acordo com a Câmara Municipal, retiraram o nome do coronel Moreira César de uma das mais conhecidas ruas da cidade, mudando-o para Ator Paulo Gustavo, após o resultado quase unânime de uma votação. Um exemplo clássico do extremo a que pode nos levar o indiferentismo e o desprezo pela nossa história.

            Curioso, mas não admirável, é que a má fama do coronel Antônio Moreira César só começou após a sua morte, no malogro da 3ª Expedição a Canudos — mortos não se defendem —, primeiro, como uma tentativa de fazer a população crer no despautério de que em Canudos havia forças estrangeiras prontas para restabelecer a monarquia. Nessa linha se colocam o relatório do esquisito major Cunha Mattos e o massacrador de Canudos, o general Arthur Oscar; segundo, como uma tentativa de justificar a derrota da poderosa 3ª Expedição diante de uma comunidade de gente pobre e mal-armada. Nessa linha se esmerou a fantasia genial e o dote literário de Euclides da Cunha.

            Nesse ponto, a diferença entre Cunha Mattos e Euclides da Cunha é que o primeiro tenta passar a ideia de que César contraíra epilepsia na marcha, e que, por isso, não agia com discernimento nem conseguia ver o óbvio: um aparato de guerra internacional no sertão mais pobre da Bahia. Euclides da Cunha navega no novo 'óbvio': não havia conspiração internacional nenhuma, tudo não passou de um colossal e injustificado massacre, e como a epilepsia de última hora não funcionava mais, era preciso ir mais longe: Moreira César sempre foi problemático, um lunático de pavio curto, um assassino compulsivo, um ignorante dissimulado, abusador de menores, susceptível à bajulação, enfim uma vitrine de todos os vícios e deformações de caráter existentes, no entanto, com uma “carreira correta como poucas” e criador da “melhor unidade do Exército Brasileiro!”  Não é mais uma doença de última hora que turva o seu discernimento: é um demônio crudelíssimo. Ele é um homem possuído. E o povo brasileiro acreditou!

            A verdade é que o coronel Moreira César tinha dois grandes defeitos, tradicionalmente imperdoáveis na nossa sociedade: era um homem pobre, nascido de pais desconhecidos, que entrou jovem para o Exército, ao qual se dedicou de corpo e alma. Também não fazia concessões ao que ameaçasse seus valores pessoais e militares, o que o afastou de um grande e poderoso círculo de amizades. Faltava-lhe, portanto, o essencial para ser bem-sucedido numa sociedade aristocrática; e que essa sociedade existe até hoje, intacta, Daniel Vorcaro não me deixa mentir.

Nessas condições, o seu horrível fim era claramente previsível. Tão previsível que, semanas antes de acontecer, na madrugada do dia 4 de março de 1897, vários jornais do Rio e de Florianópolis — O Paiz, Cidade do Rio, República — noticiavam que ele seria morto e a expedição derrotada. Como essas pessoas sabiam? Estariam preparando o público para algo que já fora acertado, longe de Canudos, para reforçar a tese da conspiração internacional? Afinal, somos um país de profetas infalíveis ou de conspiradores linguarudos?

         Onde podemos achar o verdadeiro Moreira César?

         Em março e abril de 1897, como uma forma de necrológio, foi publicada uma pequena biografia dele em diversos jornais do Rio de Janeiro, como Gazeta de Notícias, O Paiz, Jornal do Comércio, O Jacobino, etc. A única desse improvável e ex-herói nacional, e nela se lê a história de um pobre órfão dando tudo de si para crescer na sua profissão, chamando desde cedo a atenção dos seus superiores pela sua dedicação às tarefas e amor ao estudo. Ele era um estudioso.

            Seu amor e dedicação à República criaram problemas com seus superiores imperiais, e por isso ele foi transferido para o Rio Grande do Sul, em 1886, onde se envolveu com a criação de um cordão sanitário, muitas vezes pondo em risco sua saúde, o que lhe mereceu mais uma das muitas menções honrosas que recebeu ao longo de sua carreira.

Antes disso, Euclides da Cunha, em seu livro muito posterior ao acontecimento, tenta envolvê-lo no assassinato de um jornalista famoso. Euclides foi tão abominável em seu relato original que dá a data errada, 1884, e não cita o nome da vítima — estaria se precavendo contra um processo judicial por algum parente vivo do coronel, afinal essa é uma das poucas coisas concretas de que ele acusa César, e que pode ser conferida? A última sentença saída nesse caso, em 22 de dezembro de 1885, inocenta completamente a Moreira César, que não foi reconhecido por nenhuma das testemunhas presentes, ao contrário dos outros acusados.

Alerta aos leitores: infelizmente, a seriedade é produto raro no país. Na edição (online) de Os Sertões, sob a responsabilidade da Fundação Darcy Ribeiro, 1ª edição, Rio de Janeiro, 2013 (coleção biblioteca básica brasileira; 24), na página 295, o revisor teve a audácia e o desplante de modificar a data constante no texto original de Euclides da Cunha, modificando-a para 1883 — a data do assassinato histórico é 25 de outubro de 1883. E assim vai-se deformando a história, ante a indiferença geral, para que novas injustiças sejam cometidas e as velhas permaneçam intocáveis.

Fala-se nos massacres de Anhatomirim. Euclides da Cunha, como lhe é próprio, não o afirma, apenas o sugere, “hábito” de que era mestre Floriano Peixoto. Mas se tomarmos todos os jornais disponíveis na Hemeroteca Catarinense, editados em Desterro/Florianópolis,  de abril de 1894 até novembro de 1896, e mesmo após sua morte, não encontraremos nenhuma menção a Anhatomirim, ou violências cometidas pelo coronel, seja como governador interino ou como um simples oficial do Exército.

Anhatomirim é um crime, um massacre, ou até um genocídio, como querem os anacrônicos, sem corpos, sem arma (não se sabe que unidade do Exército ou da polícia matou os prisioneiros), sem motivo (ele não ganhava nada com a morte daquela gente, apenas aumentaria a resistência da população contra o seu difícil governo), sem beneficiário (ele entrou coronel, saiu coronel, e nunca tentou fazer carreira política em Santa Catarina). Nunca, até a sua morte, foi acusado por alguém de Santa Catarina de algum crime ou a morte dessa gente, que aparece nas listas fraudulentas que de quando em quando vêm bestificar aqueles que não se salvarão desse tsunami de historietas, fantasias e mentiras deslavadas que sufocam a História do Brasil.

Mas não é só isso! Quem lê os jornais de Florianópolis, tanto o florianista República como o federalista O Estado, após o término do seu governo ou após a sua morte, tem a impressão de que Moreira César foi um dos homens mais beneméritos que já pisaram a terra catarinense, tal a profusão e intensidade dos elogios. É só ler!

As maluquices que ele supostamente fez durante a marcha para Canudos — que Euclides da Cunha e Cunha Mattos tanto carregam as tintas em sua descrição — não resistem nem um pouco à leitura dos jornais da época, que a descrevem como uma marcha pacífica, laboriosa, cheia de encontros positivos entre a tropa e o povo do lugar. Segundo o testemunho de jornalistas, moradores e oficiais do estado-maior da coluna, a tropa marchou tranquila, bem provisionada, e o assalto foi um sucesso — o tenente Francisco d’Ávila e Silva, que sobreviveu à retirada, disse que a tropa poderia ter dormido dentro de Canudos, tão dominada estava a situação, e que a derrota começou com a retirada. Essa impressão é reforçada pelo relatório do tenente Pradel de Azambuja, uma denúncia gravíssima contra o comando da tropa em retirada, e o testemunho de moradores sobreviventes. Mas quem vai querer ler isso?

As circunstâncias exatas da morte de Moreira César nunca foram elucidadas. A comissão de inquérito policial-militar feita para apurar o que acontecera, anunciada pelo general Argolo, ministro da Guerra, ninguém sabe o que concluiu ou se concluiu alguma coisa, ou se tudo se perdeu, de sorte que só sobrou o relato de Cunha Mattos, no qual Cunha se baseou, embora, neste caso, tenha prevalecido mais a sua fantasia.

Assim, o Moreira César histórico morre e, abandonado ao sol e aos urubus, desaparece da história, dando lugar ao Moreira César fantasmagórico, inventado pela mente de um oficial que causou uma péssima impressão no Acre, onde ocupou o cargo de prefeito de departamento. Posteriormente, foi coberto por uma armadura barroca de beleza inigualável, mas de qualidade maligna, criada por um dos escritores mais brilhantes da Literatura Brasileira Contemporânea, até se tornar completamente irreconhecível. Euclides criou um clássico para destruir a reputação de alguém que ele mal conhecia e encobrir os responsáveis por um crime hediondo.

Quanto ao demônio crudelíssimo, que ninguém conseguiu ver em Moreira César. No dia 15 de agosto de 1909, realizou uma 'espetacular' manifestação no bucólico e tranquilo bairro da Piedade, nos subúrbios do Rio de Janeiro.


 O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER — FONTES 1

Eduardo Simões

JORNAL O PAIZ - ÓRGÃO ESPECIAL DO COMMERCIO - 13/11/1883 - DO MARANHÃO.


dante de ordens, capitão Ávila. Este, depois de ter-se informado do Sr. desem-

.........

Algumas observações;

1 - O nome do jornalista morto não é, COMO TODOS DIZEM, Apulcro de Castro, mas Apulcho (pronuncia-se APULCO) de Castro.
2 - O Jornal do Commercio fala corretamente quando diz que a ofensa, principal, CALOTEIRO, foi dirigida contra um oficial específico - na minha pesquisa, que publico em partes neste meu blog, cito o nome dele completo - de uma unidade militar espécifica: o 1º Regimento de Cavalaria (uma unidade militar de elite formada por membros das famílias mais importantres e ricas), em favor de um humilde pousadeiro, possivelmente branco. O que temos, portanto, é um negro sendo massacrado por brancos ricos, guardiões da honra da nação, por querer defender o direito de um branco pobre.
3 - O jornalista tentou conseguir que o oficial quitasse a dívida apelando aos seus colegas e superiores, e após ver sua demanda desprezada deixou bem claro para a população para tomar cuidado, quando quisesse dar crédito financeiro aos oficais desse regimento. Não passou disso, pelo menos nos jornais.
4 - Antes do assassinato, depois que Apulco citou o nome do oficial e colocou sob suspeita todos os outros do 1º R.C., houve um quebra-quebra na tipografia do jornal. Desse episódio a suspeita lógica é que tivesse sido obra de um grupo, com tudo apontando para os oficiais dessa unidade. Apulco abre o verbo e os denuncia.
5 - O Paiz do Maranhão, portanto erra, tentando corrigir o Jornal do Commercio, quando diz que as ofensas não foram dirigidas a um oficial específico mas sim à toda oficialidade do Exército. Isso é claramente um abuso contra a verdade dos fatos, pois, no máximo, atingia a oficialidade do 1º R.C.
6 - No prosseguimento do artigo o jornal O Paiz, de forma execrável, começa a descaracterizar as denuncias de Apulco contra os golpes e a falsa moral da elite, querendo supor que tudo não passava de escândalos gratuitos saídos da mente do jornalista, quando, na verdade, ele apenas amplificava os escândalos que a prórpia elite produzia, num país onde o dinheiro e as amizades livravam qualquer um das justas garras da lei. O Paiz do Maranhão tenta, a todo transe, transformar Apulco no culpado de seu assassinato. Como dizia um humorista antigo: A gente que não está acostumado estranha.
6 - A situação criada era particularmente explosiva porque o que se viu foi um negro, publicamente chamando a atenção da elite branca dirigente do Império, para a preservação de valores morais fundamentais, que essa mesma elite, todos os odmingos, dizia ser sagrada ou de origem divina.
7 - A atuação do capitão Ávila, deixando que matassem um homem sob sua guarda, saindo apenas com braços contusos, foi simplesmente patética, uma mancha indelével de infame covardia na sua biografia.

Mas , nessa mesma matéria, tem um detalhe comumente ignorado nos livros: a comoção popular que se seguiu ao cruel e covarde assassinato do jornalista.




Tres dias de desordens provocadas pelo evento. 
O imperador, alheio a tudo isso e aos conselhos de quem ainda não perdera o juízo, foi confraternizar com o 1º R.C., dois ou três dias depois do assassinato.










quarta-feira, 6 de maio de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E 

CANUDOS DEVEM MORRER

A PROFECIA DO BARÃO DE COTEGIPE — 7


A fúria cega dos inimigos.

Uma testemunha ocular desses acontecimentos tem recebido cada vez mais atenção nos meios acadêmicos: o médico e escritor desterrense Duarte Paranhos Schutel, um homem inteligente, mas que, talvez, por um excesso de paixão política, dispersão mental, além de uma tragédia pessoal, fez uma crítica histórica muito precária ao analisar os acontecimentos na Desterro de sua época.

O quadro da chegada dos governistas a Santa Catarina, que ele pinta em seu texto, A República vista no meu canto, um diário pessoal, pinçado por Diego Lunardelli, em seu trabalho de bacharelado do curso de História (7), dá a impressão de uma 'invasão bárbara'. “[Desterro] ocupada sem resistência, nas violências das prisões, nas mais cruéis e angustiosas cenas de encarceramento e deportação — todos seriam feridos atrozmente, sem compaixão, sem dó, homens e mulheres, velhos e crianças. Não houve resistência, nem um sinal de despeito: abandono completo de tudo. Derramou-se a vingança à meia-noite sobre toda a cidade; foi medonho e, ao amanhecer, o sol iluminava cenas de prantos, de dores, aflições” (p. 49 e 50).

É bem possível que a atuação da tropa que ocupou Desterro em 17 de abril de 1894, da qual não temos notícia, tenha sido particularmente opressiva, pois era constituída por jovens cadetes, mais propensos ao radicalismo ideológico, e, por causa disso, podem ter cometido excessos condenáveis. Mas algo no texto de Schutell salta aos olhos. A forma preconceituosa como ele, filho de um suíço emigrado, trata os habitantes da terra, que lutaram para manter Santa Catarina fora da aventura federalista: 

“[Desterro é] entregue à vindita do estrangeiro vitorioso. Estrangeiros, com efeito, foram esses vencedores. Estrangeiro é este ditador elevado ao poder por uma sedição militar que derrubou outro ditador, erguido ele também por uma sedição militar. Estrangeiro, que não sente queimar-lhe as mãos o sangue brasileiro que derrama. Estrangeiro, que nunca viu o azul de nosso céu, que nunca sentiu afagar-lhe o peito a brisa suave de nossa terra. Mas esse estrangeiro… é o poder (25 de abril de 1894, edição online de A República vista do meu canto)”.

Esse recém-chegado acha que tem tais direitos às terras de Santa Catarina, que trata como “estrangeiros” os brasileiros que moravam em outros estados e agora estavam, em missão, no estado. Mas foram justo esses “estrangeiros” que, nos séculos anteriores, cuidaram de Santa Catarina a ponto de torná-la atraente a europeus sem perspectivas no seu continente. 

“As praças, praias e ruas cheias de soldados estranhos, despejados pelos vapores, armados e equipados em campanha, de punhal e revólver, sôfregos, arrogantes, desabridos e insultantes.”

Por que “estranhos”? Por que não eram tão loiros, brancos, nem tinham os olhos tão claros como Schutel e a sua gente, e falavam o português num ritmo aprendido com os inventores da língua? Quem se vê racialmente 'superior' deve sentir muita angústia ao se submeter aos “inferiores”. Schutel compensa a sua sensação de impotência alucinando em seus escritos, como no texto sobre a vitória federalista na Lapa (8), no Paraná, em que ele abusa do maniqueísmo.

Em que pese suas análises racistas, superficiais e partidaristas dos eventos, ele foi uma testemunha ocular de fatos pouco conhecidos e deixa escapar uma informação preciosa nesse trecho pinçado do trabalho de Lunardelli: “as prisões violentas, os arrombamentos e os varejos das casas… o aparato bélico, a fuga de quantos receavam sofrer, as notícias de multiplicidade de prisões, enchendo os cárceres de onde se levava a bordo dos navios os presos [meu destaque]… tudo incutiu rapidamente nos habitantes um tal medo que o comércio e as casas particulares se fecharam e ninguém mais ousou sair à rua.”

 Em outro trecho, datado de 24 de abril de 1894, chamado espalhafatosamente de MACABRA, Schutell diz: “têm sido presos militares e paisanos. Militares que serviram ativamente na Revolução e outros que nela não serviram; paisanos que tomaram armas como voluntários e... ainda outros que nada fizeram… Desses presos, quase todos têm sido embarcados com destino para o Rio de Janeiro”  [meu destaque].

 

 Em diversos trechos de Schutell, ele emprega o termo “deportados”, acentuando o tom preconceituoso e separatista do seu texto, como se a transferência de pessoas para outro estado do Brasil equivalesse a uma mudança de país. No entanto, ele também esclarece uma questão, confirmando o que Moreira César costumava dizer quando questionado sobre os prisioneiros desaparecidos: “enviei-os para o Rio de Janeiro”.

E Duarte Schutell é testemunha.

(Eduardo Simões)


                   O CORONEL MOREIRA CÉSAR E 

CANUDOS DEVEM MORRER

A PROFECIA DO BARÃO DE COTEGIPE — 6


O onipresente Caetano Nicolau

        O caso do fuzilado e depois “desfuzilado”, Caetano Nicolau de Moura, nº 16, é insólito, pois o seu nome aparece em quase todas as listas, das antigas às mais recentes. Entretanto, o jornal O Apóstolo, da Arquidiocese do Rio de Janeiro, na edição de 1º de fevereiro de 1895, traz, numa matéria de 1ª página, chamada UM APELO AO EXÉRCITO BRASILEIRO, uma carta da esposa de Caetano a Prudente de Morais. Datada de 18 de janeiro de 1895.

Nessa carta, a senhora Maria Luiza Valgas apela ao presidente da República para achar o paradeiro de seu esposo, Caetano Nicolau de Moura, “preso nesta capital [Desterro] por ordem do coronel Moreira Cesar, na noite de 20 de abril do ano passado”. Essa data é controversa, pois as boas fontes garantem que César só chegou no dia 21. Pode ser erro de ortografia.

Segundo a carta, recolhido à cadeia pública de Desterro, ele e outros presos foram embarcados ao meio-dia de “23… para o cruzador Santos”. Atenção para essa classe do navio, cruzador, com destino à fortaleza de Santa Cruz, “confirmado em carta que ele mesmo escreveu de bordo do vapor Itapemirim, para o qual foi removido, em viagem para a aludida praça de guerra.”

Atenção! A fortaleza na ilha de Anhatomirim chama-se Santa Cruz, mas, em Niterói, Estado do Rio, tem também uma fortaleza, muito mais poderosa, utilizada tradicionalmente como prisão política, chamada Santa Cruz da Barra, ou só Santa Cruz. É para essa que Nicolau, segundo a carta, foi enviado.

Sem notícias, ela procurou Moreira César, que garantiu que seu marido estava no Rio. Mas, como a situação persistisse, “a impetrante e suas duas filhinhas tornaram, novamente, à presença do governador… suplicando-lhe que revelasse a verdade… respondendo-lhe essa autoridade… que garantia ter o referido preso seguido para o Rio de Janeiro, e animando-lhe com a alegação de que a sua soltura seria questão de tempo”.

Daí nasceu uma lenda repugnante, que afirma que Moreira César teria pegado uma das crianças no colo e, numa janela que dava para o mar, teria prometido que seu pai voltaria em breve, embora ele já o tivesse mandado 'fuzilar' — mas, como já vimos, ele reapareceu ou “ressuscitou” para ser oficialmente inquirido em fevereiro de 1895.

Na carta, a mãe revela uma faceta do coronel: ele tenta consolá-la e dar-lhe esperanças, como faz alguém preocupado com o sofrimento de outrem. Mas outra coisa também fica evidente: pessoas estavam sendo enviadas para o Rio de Janeiro, e em nenhum momento a carta cita Anhatomirim.

Outra coisa a notar é que a carta foi escrita em janeiro de 1895, quando Moreira César já não era mais governador, enquanto ela era uma mulher de recursos e não corria nenhum perigo se o denunciasse ao presidente. Por que não o fez e ainda se deu ao trabalho de inventar toda essa história?

Ela prossegue dizendo que o seu advogado, no Rio de Janeiro, impetrou um habeas corpus em favor de Nicolau e recebeu a estranha notícia de que ele “achava-se já em liberdade” [destacado no original]. Desiludida, ela acusa, na carta, o jornal O Paiz de forjar a morte de seu marido em um combate fictício em Santa Catarina.

Há ainda um relato no jornal A Notícia, do Rio de Janeiro, edição de 24–25 de novembro de 1894, na coluna NOTÍCIAS DO RIO GRANDE DO SUL, informando que Caetano Nicolau e o engenheiro francês Buette — Pierre-Louis Buette, nº 70, da lista dos 'fuzilados' — teriam perecido em um combate em Curitibanos. Buette e outros dois franceses desaparecidos também foram postos na conta de Moreira César (5). Essas listas são como Paris: uma festa!

 A viúva, enfim, solicita a devolução do cadáver do seu marido ou que se lhe dê um documento oficial de sua morte, pois, sendo comerciante, ele acumulou patrimônio, dívidas e sócios, com os quais é preciso acertar, o que só será possível por meio de um testamento.

Mas, aqui, há um desencontro: o Caetano Nicolau, nº 16, que aparece em “Federalismo — a revolução que abalou Santa Catarina”, tem seu último sobrenome “Demoro”, e sua profissão é engenheiro, embora isso não o impeça de ser também negociante. De fato, há um Caetano Nicolao Demoro, também grafado de Moura, em Florianópolis nessa época, nascido em 1856 e morto, após 1934 (6). Esse Demoro, ou de Moura, é casado com Carolina da Costa Vinhas e tem duas filhas: Maria da Costa Vinhas e Perpétua Maria Demoro. Mas Carolina falece jovem, aos 21 anos, em 1884, quiçá de parto.

A senhora Valgas, portanto, seria a madrasta das meninas, e a mais nova teria entre 9 e 10 anos. Tento me conter, imaginando o pequeno e frágil coronel Moreira César, bufando e se tremendo todo, para levantar e pegar no colo uma adolescente de 9 ou 10 anos, só para pregar-lhe uma mentira.

Como dizem no meu estado: “É bem a cara dele!”

Se ele tivesse feito uma maldade dessas com a criança, não seria de esperar que a madrasta explodisse de indignação na carta? O que é que ela estava fazendo, gastando dinheiro para procurá-lo no Rio, quando “todo mundo”, que vivia longe de Desterro, sabia que ele fora fuzilado em Anhatomirim, em 1894?

Há ainda uma possibilidade não de todo irrazoável a ser considerada:

1º — No Rio de Janeiro, ninguém conhecia a família de Caetano Nicolau.

2º — Em Desterro, pouquíssimas pessoas, ou nenhuma, liam regularmente o jornal O Apóstolo.

3º — Publicando a carta num jornal do Rio, ela pode estar querendo cumprir uma etapa num processo jurídico-comercial, compreensível pela atividade do marido.

4º — A carta é mandada a um jornal de pequena circulação, inclusive no Rio de Janeiro. E se ele estivesse vivo e escondido em Santa Catarina, com o conhecimento da esposa?

5º — Se ele fosse dado oficialmente como morto, isso o livraria de credores e de problemas com a justiça. O que poderia causar até um interesse da família para que seu nome constasse das listas de desaparecidos ou fuzilados.

Entretanto, isso não deu certo, e ele é localizado, investigado e denunciado pelo juiz federal Cândido Valeriano da Silva Freire como incurso no crime de sedição, em 3 de julho de 1895, numa extensa sentença reproduzida nas páginas 1 e 2 do jornal República, de Florianópolis, de 5 de julho. Daí para frente é com você, leitor.

(Eduardo Simões)

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E 

CANUDOS DEVEM MORRER

A PROFECIA DO BARÃO DE COTEGIPE — 5


Repita e aumente muitas vezes uma mentira, até ela ficar completamente ridícula.

Assim, a lista dos fuzilados de Anhatomirim permaneceu por mais de um século como uma questão em aberto, povoando a imaginação e as simpatias ideológicas de muitos. Afinal, quantos foram os fuzilados? Quais eram os seus nomes? Dito de outro modo: se não há vítima bem caracterizada e identificada, como poderemos afirmar que houve um crime?  

Em 2024, um consórcio de autoridades políticas, culturais e econômicas em Santa Catarina tentou pôr um pouco de ordem nessa história, esclarecendo esse ponto a partir de um belo material gráfico chamado Exposição Federalismo — A revolução que abalou Santa Catarina. Infelizmente, longe de afastar as dúvidas, agravou-as ao apresentar mais uma lista de supostos assassinados. Ao todo, setenta e oito vítimas, enumeradas uma a uma, parcialmente identificadas pelas suas profissões, e até fotografias, entre as páginas 55 e 61.

Agora podemos, graças à internet, conferir a fiabilidade dessa lista, embora em alguns casos, como o da vítima nº 3, o Sr. Agostinho Picapau, um quitandeiro, seja uma missão impossível saber como ele acabou em Anhatomirim. Feita a conferência, porém, a situação piorou, e muito, como quem vai ao médico só para saber que contraiu a única doença que fazia questão de não contrair.

Os senhores Caetano Nicolau de Moura, nº 16; Carlos Guimarães Passos, nº 17; Elesbão Pinto da Luz, nº 23; Felix Lourenço de Siqueira, nº 27; Francisco Antônio Vieira Caldas, nº 31; e Laurentino Pinto Filho, nº 54, aparecem na primeira e na segunda página do jornal República, respectivamente dos dias 23 e 24 de fevereiro de 1895, numa lista de pessoas denunciadas pelo procurador da República em Santa Catarina, o Sr. José Joaquim de Morais Sarmento, acusadas de participação nos eventos da revolta de 1893–94. Essa matéria aparece sob a rubrica DENÚNCIA, e o resultado do inquérito saiu na edição de 5 de julho neste mesmo jornal.

Por que eles seriam citados, e três deles indiciados, se já estavam mortos? Uma pesquisadora de Santa Catarina, em seu trabalho de mestrado, encontrou uma solução que é muito simples e original: essas pessoas foram denunciadas apesar de sabidamente mortas! Não sei de nenhum outro caso, na história do Brasil, em que mortos foram alvos de inquérito e julgamento na justiça, e aqui foram três de uma só vez. E ninguém notou!

Que eu saiba, no Ocidente, desde a vulgarização da doutrina do jurista italiano Cesare Beccaria, no início do século XIX, ninguém mais utilizava o recurso de investigar, julgar e condenar mortos.  

Querer transformar a História em mera narrativa ou mitologia a serviço de interesses políticos e/ou carências emocionais, independentemente do que aconteceu, é tão danoso para a História, enquanto ciência, como a presença de militares da ativa na política partidária é danosa para a democracia.

O jornal The Rio News, do Rio de Janeiro, na coluna PROVINCIAL NOTES, de 23 de abril de 1895, traz a notícia de que Joaquim Vicente Lopes de Oliveira, nº 45, desapareceu após ser aprisionado pelo Almirante Jerônimo Gonçalves (3). Por que foi posto na conta de Moreira César?

A trágica morte do tenente sergipano e federalista Brasiliano Alves do Nascimento, nº 15, é contada de modo bem diverso pelo jornal federalista O Estado, na edição do dia 28 de abril de 1896. Segundo o jornal, ele foi preso em casa e assassinado pela escolta a caminho da prisão. Os homens dessa escolta são tratados pelo jornal somente como seus inimigos: “infelizmente, foi encontrado em casa e assassinado pela escolta, arrastado e metido num saco de estopa, depois cosido numa lona, para ser enterrado à noite”.

O jornal não cita Moreira César, que, na época dessa matéria, era um militar comum sem foro especial, e nem cita Anhatomirim!

Sobre o capitão Romualdo Carvalho Barros, nº 74, o mesmo jornal, na sua edição de 25 de abril de 1896, fala de seu papel na revolta e em sua morte, mas sem citar data, local ou circunstância. Por que ele apareceu entre os assassinados de Anhatomirim?

Sobre o alferes João Evangelista da Silva Nery, nº 42, lê-se uma mensagem sobre a sua morte na primeira página do jornal O Estado, dando a entender claramente que ele teria falecido de doença (4). E esse não é nem o detalhe mais escandaloso que escapou aos 'especialistas', mas o fato de o jornal estar datado de 3 de fevereiro de 1893, mais de um ano antes de Moreira Cesar chegar a Santa Catarina!

Na primeira página de outra edição desse jornal, está registrada a morte do tenente Firmino Ayres de Moraes Âncora, nº 29, e, embora o jornal não diga como ele faleceu, o trecho dá a entender que não foi de fuzilamento. O parágrafo que fala sobre sua morte está semiapagado, mas, como a data da edição é de 15 de março de 1894 — outra fonte data sua morte em 13 de março —, podemos cravar que ele faleceu quatro semanas antes da chegada de Moreira César a Desterro.

O caso do médico português Manuel José Lavrador, nº 62, não tem explicação. Fuzilado em Anhatomirim entre abril e outubro de 1894, ele aparece vivo ao lado de Gumercindo Saraiva, na edição de 24 de dezembro de 1894 do jornal Diário de Notícias, do Rio, na coluna A REVOLTA — EFEMÉRIDES, como ajudante de ordem de Gumercindo Saraiva. 

Há uma notícia de um filho dele, dizendo-se correspondente de guerra e membro da Guarda Nacional, preso a caminho de Canudos, no Jornal do Comércio do Rio de 22 de julho de 1897. Um site de genealogia diz que o Dr. Manuel Lavrador faleceu em 1918. Vinte e quatro anos após o seu fuzilamento. Viveu, literalmente, “agoniado”.

Espetacular é, também, a situação de Manuel Rodrigues de Macedo, o Folião, nº 63, pois ele aparece em fotos — sozinho e ao lado dos filhos — extraordinariamente bem conservado, para os seus 10 anos de morto, na revista de atualidades argentina Caras y Caretas, de 7 de maio de 1904; a legenda da foto o chama de Manuel J. Macedo — em castelhano, o ‘J’ tem o som do nosso ‘R’ inicial.

O general federalista Laurentino Pinto Filho, gaúcho de São Sepé, é o nº 54. Em fevereiro de 94, ele é detectado entre os federalistas que venceram no cerco da Lapa, quando se meteu numa rixa com seus companheiros. Sabemos que os federalistas gaúchos, no Paraná, desceram em massa para o seu estado natal quando houve o contra-ataque paulista. Como ele foi acabar fuzilado em Anhatomirim?

O jornal A Federação, dos castilhistas gaúchos, cita, no dia 7 de maio de 1894, o seu nome na lista dos passageiros federalistas do navio Isis, atracado em Buenos Aires, repleto de federalistas em condições lamentáveis. Ele aparece ainda na lista de pessoas que foram desejar um feliz aniversário ao senador Pinheiro Machado, na edição de 18 de maio do mesmo jornal, mas no ano de 1910.

A pesquisadora Cristiane Debus Pistoia fez um trabalho de mestrado na PUC-RS. O orientador foi o Dr. Moacyr Flores. O título do trabalho é “Violência física, material e moral no Rio Grande do Sul (1889–1920)”, página 163. Nele, a pesquisadora conta que o coronel Franklin Cunha, de São Sepé, incomodado com as afirmações de um historiador em relação aos maragatos, solicitou auxílio a seus antigos companheiros para responder às acusações. Um dos que lhe respondeu foi o general Laurentino Pinto Filho. Naquela época, o general morava no Rio de Janeiro e enviou uma carta de apoio a Franklin, datada de 27 de outubro de 1920. Uma carta do além?

 Mais um que sobreviveu ao seu executor.

 O nome de Laurentino Pinto Filho não aparece na lista divulgada pelos jornais, no ano de 1934, quando houve o traslado das urnas funerárias dos supostos fuzilados em Anhatomirim, de Florianópolis para o Rio de Janeiro, mas aparece agora na lista de Exposição federalismo

Afinal, que critério se utilizou para a finalização dessas listas de fuzilados? Arrisco: foi visto pelas redondezas, não é muito conhecido ou, se foi, não é mais, e, certamente, já está morto! Então vai para a lista…

terça-feira, 5 de maio de 2026

 


 O CORONEL MOREIRA CÉSAR E 

CANUDOS DEVEM MORRER

A PROFECIA DO BARÃO DE COTEGIPE — 4


O maior dos crimes jamais cometido.

Em Os Sertões, Cunha se esmera, em cada parágrafo ou frase, para incinerar tudo que possa ser ou parecer digno e nobre na reputação de Moreira César. Quanto à sua nomeação ao governo de Santa Catarina, ele afirma: “Em 1893, já coronel, porque galgara velozmente três postos em dois anos [mostrando que era muito competente], ao declarar-se a Revolta da Armada, o Marechal Floriano Peixoto destacou-o, armado de poderes discricionários, para Santa Catarina… Em ponto algum do nosso território pesou tão firme e tão estrangulador o guante dos estados de sítio”.

“Os fuzilamentos que ali se fizeram, com triste aparato de imperdoável maldade… Abalaram tanto a opinião nacional que, ao terminar a revolta, o governo civil, recém-inaugurado, pediu contas de tais sucessos ao principal responsável. A resposta, pelo telégrafo, foi pronta. Um “não”, simples, seco, atrevido, cortante, um dardo batendo em cheio à curiosidade imprudente dos poderes constituídos, sem o atavio, sem o rodeio, sem a ressalva da explicação mais breve” (1).

Quando Moreira César chegou a Desterro, estava à frente de uma tropa de cerca de 500 homens, divididos entre soldados federais, policiais e membros das milícias semiprivadas florianistas, que se apresentavam como 'batalhões patrióticos'. Aí encontrou as prisões lotadas de prisioneiros, que já deviam ter sofrido nas mãos dos garotos radicalizados do almirante Jerônimo. Será que ele foi tentado a se livrar logo dos prisioneiros?

O censo de 1890 dizia que Desterro possuía 30.687 habitantes, embora seja provável que, em 1894, esse número estivesse diminuído, em virtude da guerra. Os desterrenses levavam uma vida pacata e isolada, em que todos se conheciam e sabiam o que acontecia. Não era, portanto, um local propício a ações clandestinas espetaculares, como massacrar quase toda a elite social e política do estado e da cidade, sem que ninguém o soubesse.

As acusações de numerosos crimes graves, como desaparecimentos, fuzilamentos e outras formas de execução em massa na escuridão da noite, temperadas com atos de uma crueldade brutal, deixam-me atônito: como tudo ficou clandestino aos que moravam na cidade? Por que ninguém escreveu nada naquele momento sobre isso? Como tantos detalhes ficaram conhecidos por gente que nem morava na cidade?

As vítimas desses crimes eram de todas as classes sociais; das mais humildes até um barão do Império, de civis até a mais alta patente do Exército, como o marechal Lobo d’Eça. O local da maioria esmagadora desses crimes seria a improvável fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim, um nome que causa arrepios em quem não conhece a história e é desnecessariamente impressionável.

A primeira vez que vi uma menção a fuzilamentos em Anhatomirim foi em um jornal do Espírito Santo. O Comércio do Espírito Santo, de 19 de dezembro de 1894. O texto estava um pouco apagado, mas traz uma notícia em destaque na primeira página. Essa matéria foi copiada de um jornal federalista chamado Canabarro, editado na cidade uruguaia de Rivera. O título da matéria era “FUZILADOS”. Com o tempo, essa informação foi se tornando uma verdade aceita na nossa história. 

A matéria descreve a circunstância dos fuzilamentos de vários personagens conhecidos, com uma riqueza de detalhes impressionante… Para quem não estava lá (pisc!). Essa matéria foi também copiada pelo jornal maranhense Pacotilha, em janeiro de 1895, e provavelmente por outros. 

E, assim, lentamente, essa fantasia vai ganhando ares de verdade, com a garantia de seus inventores, e se espalha pelo país, ajudada pelo torpor geral, pelas altas taxas de analfabetismo e pelo fascínio do escandaloso (2). 

A lenda dos massacres foi inventada tão às pressas que não existem dois “especialistas” apontando para um mesmo número de fuzilados. Cada um anexa o número que mais lhe agrada. Segundo Oleone Fontes, num artigo da revista Canudos, de Salvador, nº 2, vol. 2, de 1997, o federalista apaixonado Duarte Paranhos Schutell, que, com um olhar penetrante, viu tudo do seu canto, listou 34 nomes; Lucas Alexandre Boiteux apostou no reverso e listou 43. A ordem dos fatores não altera a pesquisa. Oswaldo Rodrigues Cabral preferiu 185, sem citar fonte. Ele somente pensou grande. Os desconhecidos da Wikipédia em português orbitaram 298 vítimas, no verbete “Fuzilados em Anhatomirim (1894)”. Não se pode dizer que eles não se esforçam para continuar desconhecidos.

Se tomarmos como cem o número de vítimas, e supusermos que cada uma conhecia pelo menos cem pessoas, entre familiares, amigos e desafetos, nós teríamos um total de dez mil pessoas dando pela falta deles. Considerando a população de Desterro nessa época, como explicar que nenhum dos jornais da cidade, como o governista República e o federalista O Estado, faz qualquer menção a Anhatomirim ou liga o nome do coronel Moreira César a qualquer ato de violência política nesse período?

Anhatomirim só aparece na coluna social! Por duas vezes, o jornal República relatou que o governador Moreira César, foi à fortaleza. De visita!

Em 1896, quando Moreira César não era mais governador, ele mandou prender o editor do jornal O Estado, um certo tenente Machado, da ativa — talvez o mesmo que traiu Floriano. A detenção foi ocasionada pelo fato de Machado haver assinado um contundente editorial direcionado a Floriano Peixoto, em 3 de julho de 1896, no marco de um ano do seu falecimento. No entanto, essa detenção foi estritamente disciplinar e durou somente um dia, impulsionada pela convicção fechada de Moreira César de que os militares da ativa não deveriam se envolver na política partidária. Não é por isso que lutamos hoje?

Ora, até os federalistas entenderam a sua atitude, tanto que O Estado, na edição de 7 de julho, na matéria FLORIANO PEIXOTO, na primeira página, diz: “Em todo o caso, a prisão do tenente Machado só foi motivada por quebra de disciplina; nenhuma importância tem, como se tem pretendido propalar.”

Quanto à forma como César respondeu ao Governo Federal, Euclides da Cunha ou mente ou ignora, pois a resposta do coronel foi escrita em ofício, na forma padrão, sendo publicada na Gazeta de Notícias, um dos jornais mais importantes do Rio, em 11 de maio de 1895, p. 2:

“Cidadão General de Brigada Manuel Eufrásio dos Santos Dias [em nome do Ministro da Guerra], muito digno Comandante do 5º Distrito Militar [de Curitiba].”

“Em resposta ao ofício reservado do comando interino desse Distrito, de 17 de janeiro último, relativamente à portaria reservada do Ministério da Guerra, de 18 de dezembro de 1894, que diz: “Informai com urgência a este Ministério se no distrito de vossa circunscrição houve fuzilamentos de militares de mar e terra determinados por autoridades da República,” cumpre-me dizer, em resposta, que não.”

Esse texto apareceu também no Diário do Congresso de 27 de junho de 1896, segundo o general Epaminondas Ferraz, Excertos da história de um batalhão de infantaria, sustentáculo da República, revista Defesa Nacional, nº 639, p. 64; e integralmente no Jornal do Comércio, que reproduziremos mais adiante.

Como Euclides o ignorava?

Eduardo Simões - como estou publicando o texto em pedaços, e é grande, não colocarei as notas para não ficar confuso. Complementem a pesquisa na Internet.

(Eduardo Simões)



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CANUDOS DEVEM MORRER

A PROFECIA DO BARÃO DE COTEGIPE - 3


Um profissional dedicado

 O maior problema do Coronel Antônio Moreira César começou no dia 19 de abril de 1894, no auge de uma carreira ascendente, publicamente reconhecida, quando foi designado Governador Militar Provisório de Santa Catarina pelo Presidente Floriano Peixoto, num contexto particularmente confuso.

A sua nomeação é singular, pois até aquele momento não havia notícia de grande proximidade entre César e o Marechal Floriano, embora ele já tivesse chamado a atenção dos altos escalões, em virtude da sua dedicação, de sua cultura geral e competência profissional. Ela revela antes de tudo a ausência de quadros militares para suprir a administração pública estatal, a improvisação em nome da manutenção do poder e a importância das relações pessoais sobre a competência profissional, apesar do discurso, afinal o primeiro indicado por Floriano ao governo do estado era um tenente — o coronel entrou como que “na raspa do tacho”.

O tenente, como vimos, passou para o lado dos revoltosos e, com estes, tenta criar um país independente: os Estados Unidos Provisórios do Brasil, com a capital em Nossa Senhora do Desterro, a fim de criar dificuldades internacionais ao governo Floriano. Os revoltosos, entretanto, se dividiram numa luta estéril pela direção do movimento, favorecendo a reação do governo, por meio de sua marinha improvisada.

A frota legalista do almirante Jerônimo Francisco Gonçalves, após torpedear o encouraçado revoltoso Aquidabã, agiu rápido e desembarcou na ilha de Santa Catarina um pequeno contingente de alunos da Escola Militar do Rio de Janeiro. Jovens fogosos e florianistas radicais, eles tomaram as fortalezas ao norte da ilha de Santa Catarina e desabalaram para o sul, até se assenhorarem de toda a ilha no dia 19 de abril de 1894. No dia 21 de abril, o coronel Antônio Moreira César desembarca em Desterro, e no dia seguinte assume o governo.

Alguma coisa, entretanto, aconteceu entre 21 de abril e 28 de setembro de 1894, enquanto ele governava o estado, que manchou gravemente a sua reputação, construída em “uma carreira militar correta como poucas”, segundo Euclides da Cunha, que, após sua morte, o denunciará como um dos personagens mais sanguinários e cruéis de nossa história. A ponto de a cidade de Niterói retirar o seu nome de uma de suas ruas.

Mas o que será que aconteceu?

Eduardo Simões


 



O CORONEL MOREIRA CÉSAR E 

CANUDOS DEVEM MORRER

A PROFECIA DO BARÃO DE COTEGIPE - 2

SANTA CATARINA

 

O contexto

Em 15 de novembro de 1889, o Brasil sofreu um inesperado e inevitável golpe militar, chefiado pelo marechal Deodoro da Fonseca, que mudou o nosso sistema de governo, após anos de estremecimentos entre políticos e militares do Império, deslumbrados com a vitória na Guerra do Paraguai — que chamo Grande Guerra Platina (1864–1870). Após o fim do Império, uma série de mudanças tanto sociais como econômicas, além de outros acontecimentos impactantes, se seguiram, sem que nenhum dos grupos no poder soubesse exatamente o que fazer: os monarquistas, sobre como permanecer no poder; militares e republicanos, sobre a República que queriam. Os movimentos eram aleatórios, conduzidos por minorias, que se impunham, enquanto o povo assistia a tudo, bestificado.

O grupo social e econômico mais influente no Império, o dos grandes proprietários rurais escravocratas, estava cansado da estagnação imperial, mas tentando acomodar seus interesses econômicos de classe, e por isso, em geral, não discutia sobre a República nem votava nos republicanos. Cada um esperava para ver quem tomava a iniciativa e, com isso, tudo ficou para ser decidido na última hora, ou mesmo depois dela.

A participação do exército no golpe da República expôs a intensa mobilização política entre os militares, anteriormente desconhecida entre nós, embora a experiência latino-americana, em geral, inspirasse preocupações.

Em 1890, durante o Governo Provisório, o ministro da Fazenda, Rui Barbosa, dá prosseguimento à política de crédito fácil — iniciada pelo Visconde de Ouro Preto —, redirecionando-a para o setor industrial, mas que, em virtude da interferência política, da inexistência de uma economia de mercado e da especulação financeira, acaba no desastre do Encilhamento — a moeda se desvalorizou (aumento de preços), empresas fecharam (desemprego) e a economia se desorganizou (estagnação).

Em 24 de fevereiro de 1891, é promulgada a primeira Constituição republicana. Uma adaptação da que vigorava nos Estados Unidos.

Embora prestigiado na tropa, Deodoro sofre, ao longo do Governo Provisório, cerrada oposição do forte grupo republicano paulista, chefiado por Prudente de Morais, e de uma ala do exército, aglutinada ao redor do Marechal Floriano Peixoto, que cresce a cada dia.

Nas eleições de 25 de fevereiro de 1891, Deodoro é eleito presidente e Floriano Peixoto, vice. No parlamento, os paulistas mantêm a sua oposição às iniciativas autoritárias e personalistas de Deodoro, que quer dirigir o país como um quartel. Ignorando a Constituição, ele nomeia os governadores dos estados.

No dia 3 de novembro de 1891, inconformado com a oposição ao seu governo, Deodoro dissolve o Congresso Nacional e estabelece uma ditadura de fato. A reação vem em 23, quando o almirante Custódio de Melo levanta a Marinha e ameaça bombardear o Rio de Janeiro. É a Primeira Revolta da Armada. Deodoro renuncia e dá posse a Floriano.

Floriano, também ignorando a Constituição, depõe os governadores nomeados por Deodoro e impõe os seus, quase todos jovens militares de carreira. O Exército começa a aparelhar as instituições administrativas da República.

No dia 6 de setembro de 1893, a oficialidade da Marinha, liderada por Custódio de Melo, que tinha ambições presidenciais, exige eleições presidenciais; Floriano nega, e tem início a Segunda Revolta da Armada.

No Rio Grande do Sul, há uma divergência entre o governo positivista-ditatorial de Júlio de Castilhos e o grupo liderado pelo ex-deputado liberal Gaspar Silveira Martins, chamado “federalista”, porque defendia a descentralização política e uma democracia do tipo liberal-parlamentarista.

Em 2 de fevereiro de 1893, tem início a Revolta Federalista no Rio Grande do Sul. As forças federalistas do poderoso pecuarista Gumercindo Saraiva, vindas do Uruguai, invadem o estado, descontentes com a política centralizadora do governo de Júlio de Castilhos. A ele se juntam outros chefes federalistas, dando início a uma guerra civil. Castilhos recebe apoio explícito, e decisivo, de Floriano Peixoto.

No início de março de 1892, Floriano nomeou um homem de confiança, o tenente Manoel Joaquim Machado, interventor em Santa Catarina. Contaminado pela revolta no estado vizinho, Santa Catarina revolta-se. O tenente Machado adere à facção federalista, que se apropria da máquina administrativa estatal. Os federalistas gaúchos atravessam Santa Catarina e invadem o Paraná. Agora, sua meta é ampliar o movimento, atravessar São Paulo e pressionar pela renúncia de Floriano.

Entre janeiro e fevereiro de 1894, acontece o “cerco da Lapa”, cidadezinha paranaense defendida por tropas federais. Apesar de sua queda, a tenacidade dos defensores esgotou os federalistas e salvou São Paulo da invasão. Tropas paulistas, numerosas e bem equipadas, invadem o Paraná e empurram os federalistas de volta para o Rio Grande do Sul.

Enquanto o interior de Santa Catarina estava dominado pelos federalistas gaúchos, que não se acertavam com os revolucionários catarinenses, a esquadra comprada por Floriano derrota os navios rebelados e ocupa os fortes da ilha de Santa Catarina, onde estava a capital Desterro. Vários revolucionários do estado de Santa Catarina se juntam aos marinheiros revoltosos e se evadem para a Argentina e Uruguai. Alguns, entretanto, ficam sendo presos pelas forças federais.

Floriano, sem um aliado confiável para nomear, nomeia o coronel paulista Antônio Moreira César como governador interino de Santa Catarina, com a tarefa de reorganizar o estado e reprimir os partidários do federalismo ainda atuantes. Ele chega em 21 de abril de 1894 e assume no dia seguinte.

A partir da ação de seus adversários e, principalmente, da obra de Euclides da Cunha, inicia-se uma lenda que tenta associar o Coronel Moreira César a um evento que nunca ocorreu: o Massacre de Anhatomirim, em 1894.

Eduardo Simões