A COMPANHIA DOS MERCADORES AVENTUREIROS NO REINADO DE ELIZABETH I - 5
[trechos traduzidos de artigo de George Unwin]
O rei Henrique VIII
reduziu a quantidade de prata em todas as moedas, de 11 onças para 10 onças, de
10 onças para 6 onças e de 6 onças para 4 onças [a onça vale 28,3 g]. O governo
de Eduardo VI reduziu ainda mais, de 4 onças para 3 onças. O resultado simples,
direto e inevitável dessas reduções foi que vinte xelins da moeda inglesa, que
em 1520 continham o equivalente em prata a 32 xelins flamengos, em 1550
equivaliam a apenas 13 xelins e 4 pence flamengos. Não há nenhum dos mistérios
mais profundos da política ou da ciência econômica nessa explicação. Tampouco é
mais difícil explicar a subsequente ascensão do câmbio.
Em 1550, o câmbio
atingiu seu ponto mais baixo. Naquele ano, a cunhagem estava em seu pior
estado. O que era considerado um xelim valia apenas três ou quatro pence. [Originalmente o xelim valia 12 pence: o singular de ‘pence’ é ‘penny’, 1 penny].
Os terríveis distúrbios sociais e econômicos resultantes [da desvalorização da
moeda] obrigaram o governo a tentar a restauração da moeda. Em agosto de 1551,
o governo reduziu a moeda à metade do seu valor facial: o xelim para seis
pence, o groat para dois pence e a moeda de dois pence para um pence. A
restauração ainda não foi completa... Em 1552 e 1553, a taxa de câmbio subiu
até se estabilizar entre 21 e 22 xelins. Isso, como se pode observar,
corresponde a cerca de dois terços da antiga taxa de 32 xelins. É evidente que
as grandes oscilações indicadas por Gresham podem ser explicadas por causas
mecânicas simples e não exigem grandes sutilezas da ciência econômica para
serem compreendidas. E Gresham sabia disso...
Ao mesmo tempo, ele
estava certamente convencido de que havia elevado a taxa de câmbio em outro
sentido — que a havia tornado favorável à Inglaterra em vez de desfavorável.
Essa mudança era bastante distinta e independente das alterações da paridade da
casa da moeda. Poderia haver uma taxa de câmbio desfavorável para a Inglaterra
com Antuérpia quando a taxa chegasse a 32 xelins (se a paridade da casa da
moeda fosse de 32 xelins e 6 pence), ou uma taxa favorável quando a taxa
chegasse a 13 xelins e 4 pence (se a paridade da casa da moeda fosse de 13
xelins).
Em outras palavras,
diz-se que a taxa de câmbio de um país com outro é favorável quando seus
mercadores recebem uma taxa acima da paridade da casa da moeda, e desfavorável
se receberem uma taxa abaixo da paridade da casa da moeda.
Essa variação da taxa
de câmbio acima e abaixo da paridade da casa da moeda depende do fato de que a
mesma quantidade de prata ou ouro pode valer mais — ter maior poder de compra —
em um país do que em outro. Se um comerciante em um país onde a moeda vale mais
tiver uma dívida com um país onde a moeda vale menos, ele evitará pagar em
dinheiro vivo se houver outra maneira de fazê-lo. Se ele perder seis pence por
libra ao pagar em dinheiro vivo, e um banqueiro se oferecer para quitar a
dívida por meio de uma transação em papel por três pence por libra, ele optará
pela oferta do banqueiro.
Por outro lado, um
comerciante em um país onde a moeda vale menos preferirá pagar sua dívida ao
outro país em dinheiro vivo, a menos que o custo de envio do dinheiro seja
maior que a diferença de valor. Em resumo, um país onde a moeda vale mais
tenderá a receber importações de moeda, e esse país terá uma taxa de câmbio
favorável com o país de onde a moeda tende a ser exportada. Uma taxa de câmbio
favorável é, portanto, um efeito, e não uma causa, do fluxo de metais preciosos
em direção a um determinado país. Uma das causas desse fluxo é o nível
relativamente baixo dos preços nesse país.
Em meados do século
XVI, havia normalmente um fluxo de metais preciosos em direção à Inglaterra,
assim como para o resto da Europa, provenientes das novas minas na América.
Esse fluxo passava por Antuérpia rumo à Inglaterra, e a Inglaterra, portanto,
normalmente tinha uma taxa de câmbio favorável com Antuérpia. O que Gresham
alegava ser sua maior conquista não exigiu nenhum milagre de boa administração
pública para ser produzido; foi o resultado normal de causas naturais. Como,
então, ele poderia convencer a si mesmo ou aos outros de que o havia alcançado?
Simplesmente porque o Governo, por um milagre de má administração pública,
havia produzido anteriormente uma condição de câmbio temporária e anormal. O
efeito inevitável da desvalorização da moeda fora o de expulsar as moedas de
melhor valor do país, para que seu verdadeiro valor como metal precioso fosse
realizado em outros lugares. Esse fluxo temporário de saída naturalmente faria
com que a taxa de câmbio se tornasse, por um tempo, desfavorável à Inglaterra.
Mas, assim que essa saída, devido a causas totalmente anormais, terminasse, a
entrada normal seria retomada, e em volume maior do que o habitual, porque o
país havia sido esvaziado de seu ouro pela desonestidade de seu governo. As
taxas de câmbio voltariam a ser favoráveis — e, de fato, seriam
excepcionalmente favoráveis
— até que a saída anormal fosse
contrabalançada.
Gresham era, portanto,
como a mosca na roda da carruagem de Esopo, mas não há dúvida de que ele acreditava sinceramente
ter levantado a poeira —
ou seja, elevado a taxa de câmbio
— e, assim, produzido
uma entrada de ouro. A doutrina que ele consistentemente expôs a
Northumberland, a Cecil e a Elizabeth, de que a taxa de câmbio era a causa, o
primum mobile, do fluxo de ouro e de um comércio exterior lucrativo, e que a
determinação ou manipulação da taxa de câmbio deveria ser uma preocupação
primordial do governo, não era uma invenção sua, mas parte da teoria econômica
mais amplamente aceita de sua época.
A doutrina exposta e
posta em prática por Gresham situa-se entre a dos bullionistas e a dos
pensadores mercantilistas posteriores, como Thomas Mun. O bullionista desejava
regular diretamente o fluxo de metais preciosos e opunha-se a todas as
operações privadas de câmbio. O mercantilista, por sua vez, desejava que o
governo deixasse tanto o fluxo de metais preciosos quanto o funcionamento da
bolsa de valores perfeitamente livres, limitando-se a assegurar uma balança
comercial favorável. Gresham argumentou que o fluxo de ouro poderia ser deixado
como estava e que a operação da bolsa poderia ser permitida livremente, desde
que a taxa de câmbio fosse favorável à Inglaterra, e que era dever do
financista estatal experiente como ele manter a taxa favorável.
O livre fluxo de metais
preciosos, dirigido por forças puramente econômicas de oferta e demanda
internacionais, através das flutuações da taxa de câmbio, era a única base
possível para o desenvolvimento do crédito internacional. A afirmação desse
princípio é o ponto fundamental da doutrina mercantilista posterior.
O ponto fundamental da doutrina bullionista era a sua negação. A doutrina de
Gresham era um compromisso. Ele admitia um fluxo em apenas uma direção. Sentia
a necessidade de tolerar as bolsas de valores como órgão do crédito
internacional, mas desejava tornar o crédito internacional inteiramente
subordinado às necessidades do Estado.
É um fato inegável, diz
Voltaire em algum lugar, que feitiços e encantamentos são capazes de destruir
rebanhos inteiros de ovelhas, se acompanhados de quantidades suficientes de
arsênico. Este ditado sempre me pareceu uma introdução sugestiva ao estudo da
influência das ideias, da teoria, sobre o desenvolvimento econômico. Não que o
paralelismo seja totalmente sólido ou completo; mas oferece uma correção útil a
uma tendência tão enganosa quanto universal: a tendência de superestimar o
papel ativo que a sábia previsão e a busca deliberada por ideias claras
desempenharam na história econômica das nações. No século XVI. Entretanto é
especialmente necessário olhar para além dos encantos e encantamentos da teoria
em busca do veneno dos motivos práticos.
O relato de Gresham
prova suficientemente, creio eu, que, quaisquer que fossem os resultados da
ligação entre o Governo e os Mercadores Aventureiros, sua origem e principal
motivação não residiam no desejo desinteressado do Governo de concretizar
qualquer teoria específica de comércio, mas na pressão urgente das necessidades
imediatas da Coroa. Ao longo do reinado de Eduardo VI, durante o reinado de
Maria, e com a ascensão de Elizabeth, a Coroa precisava de dinheiro, e
precisava imperativamente.
Elizabeth iniciou seu
reinado fortemente endividada e queria contrair mais empréstimos — para a
defesa nacional, para a guerra escocesa, para a guerra francesa. Financiamento
de guerra é sempre um mau negócio. Há, sem dúvida, graus de ruindade. A economia
de guerra de Pitt foi ruim [deu na independência americana], a de Eduardo III
foi pior [começou a Guerra dos Cem Anos]. Julgada por esses padrões, ou pelo
padrão de seus próprios anos posteriores, a finanças da ascensão de Elizabeth
pode possivelmente merecer um veredicto favorável. Julgada pelos padrões da
paz, deve ser condenada. Nada além de uma guerra de autopreservação poderia
justificá-la [e foi mais ou menos isso que aconteceu].
Durante esses anos,
Elizabeth vendeu uma grande quantidade de terras da Coroa. Ela vivia de seu
capital, porque não podia esperar pelos juros. Ela estava esgotando seu
crédito, porque precisava de dinheiro vivo. Nessas circunstâncias, deveríamos
esperar que qualquer teoria de comércio exterior defendida por Elizabeth, por
Burleigh ou por Gresham fosse dominada por considerações de necessidade de
Estado. Sua posição, embora ilógica, não é difícil de entender. Foi o produto
conjunto do bullionismo prático do Governo — sua necessidade de dinheiro
disponível para seus próprios fins — e do bullionismo teórico da opinião
popular. E as peculiares condições monetárias da época reforçaram a operação de
ambas as causas. Novas e abundantes fontes de ouro haviam sido descobertas na
América espanhola, e grandes rios fluíam continuamente para o leste, em direção
à Europa, e, depois de algum tempo, transbordando até mesmo para a Ásia.
À medida que esses rios
se alargavam e se espalhavam, as reservas existentes de indivíduos e Estados
perdiam valor, e o desejo de desviar o fluxo em sua própria direção, e de
impedir que ele retornasse, tornava-se irresistível. Se observarmos Gresham em Antuérpia,
enquanto ele redigia aquelas cartas para Maria, Elizabeth e Cecil, que nos
revelam mais sobre as finanças internacionais da época do que qualquer outra
fonte, parece-nos vislumbrar preciosas argosies [esquadras comerciais] sempre à
espreita. Outra frota, avaliada em um milhão de ducados, dizem os conhecedores
do 'Change’ [mercado financeiro], foi avistada em Sevilha, e mais da metade
dela já foi descontada pelos banqueiros do sul da Alemanha em Antuérpia. Então
poderemos ver Gresham, que negociou uma parte do valioso frete, secretamente
ocupado em fundi-lo em lingotes, para que possa contrabandeá-lo com mais
segurança, escondido em armaduras, para a Inglaterra.