sexta-feira, 7 de agosto de 2026

 

GUERRA DO PARAGUAI: DE QUEM É A CULPA?

[Na foto, o terceiro em pé da esquerda para a direita é o cabo 'Chico Diabo', o homem que lanceou e matou Solano López. O terceiro sentado, no mesmo sentido, é o fazendeiro gaúcho Joca Tavares, que ganhará renome na Revolução Federalista de 1893–95].

Eduardo Simões

Não existe pergunta mais inadequada para ser feita a um historiador, digo a um historiador científico, não um escritor de galantes fantasias, nem tampouco um motivo para iniciar uma pesquisa científica na área, do que esse.

Um historiador não é um hagiógrafo, não busca a ‘verdade’, mesmo porque a única verdade que ele pode encontrar é a sua própria, e nenhuma outra, mas antes levantar os fatos que aconteceram e hipotetizar relações entre eles, de tal sorte que o significado daquilo que os antecedeu e os sucedeu fique mais claro, para as pessoas poderem, por meio de uma nova compreensão da história, aprimorar suas decisões e o seu comportamento na sociedade, além de aprimorar as futuras abordagens dessa ciência.

Mas o que fazer quando lidamos com gente imatura, despreparada ou condicionada a procurar na história, e em outras manifestações das ciências sociais, fórmulas prontas, ditos morais, condenações explícitas ou absolvição prévia, como aqueles ‘historiadores’ que classificam os grupos sociais como ‘oprimidos’ e ‘opressores’, negando, com esses conceitos, a própria história. O que sobra é mitologia, na qual a ciência entra como uma etiqueta ou um engano.

Entre os elementos que precisamos considerar, o mais precioso é o contexto geral da época, e considerar os objetivos gerais conflitantes, no qual podemos discernir:

a) O Brasil, a única monarquia e o único país estável e democrático da região, que precisava preservar a liberdade de navegação na bacia do Prata, por razões políticas e econômicas, enquanto outras questões menores, pois ele...

a.1. tem um contencioso territorial com o Paraguai, por causa de áreas adjacentes à fronteira paraguaia, já ocupadas por populações brasileiras.

a.2. teme a instabilidade na Argentina e o aparecimento de caudilhos nesse país que sonham, como Rosas, em anexar o Uruguai. O Brasil precisa negociar com dois centros políticos no país, com políticas diferentes em relação à região: um em Buenos Aires e outro na cidade de Paraná, onde o caudilho Urquiza manda. Tem também um contencioso fronteiriço com esse país.

a.3. teme a instabilidade e as guerras civis no Uruguai que tendem a atrair estancieiros gaúchos ou expandir tropelias para dentro do território nacional.

a.4. busca, de uma maneira geral, ajudar o Paraguai para que se torne um tampão contra possíveis pretensões argentinas, mas também teme que este adquira um peso importante no delicado equilíbrio geopolítico regional.            

b) A Argentina tem um ‘espinho atravessado’ no fato de o Paraguai se recusar a submeter-se e tornar-se mais uma província do país, revivendo o antigo Vice-Reino do Prata, dando-lhe mais musculatura para enfrentar a influência do Brasil na região, inclusive com o poder de fechar e abrir a navegação na bacia do Prata de acordo com seus interesses. O Paraguai, no passado recente,  derrotou uma força argentina que vinha anexá-lo; portanto, o contencioso entre ambos é mais grave que o contencioso do Paraguai com o Brasil.

b.1. tem problemas internos gravíssimos, duas províncias, Entre-Rios e Corrientes, têm pretensões autonomistas e se recusam a obedecer ao governo de Buenos Aires. Essas províncias são governadas por Urquiza, mais favorável ao pleito brasileiro de livre navegação na bacia.

b.2. nesse período, as duas províncias entram em guerra civil com o governo de Buenos Aires e são vencidas. O país se une sobre Mitre, mas intranquiliza o Império devido à política intervencionista daquele.

b.3. teme a influência brasileira na região; por isso, defende, mas sem convicção, a autonomia do Uruguai. Nesse período, Mitre apoia e incentiva o grupo de oposição armada uruguaio, liderado por Venâncio Flores, contra o governo central eleito de Bernardo Berro, dando início a uma guerra civil no Uruguai, aparentemente por não tolerar o aumento da influência paraguaia no país.

b.4. o país quer, com muito cuidado, evitar que o Brasil fique poderoso demais na região, em especial no estuário do rio da Prata, que considera sua área de influência incontestável.

c) O Uruguai foi uma criação da diplomacia inglesa para evitar a perpetuação da instabilidade e da guerra numa zona comercialmente muito importante para suas empresas. Ele deve ser um estado tampão entre as pretensões hegemônicas-territoriais do Brasil e da Argentina.

c.1. o país vive às turras com o Brasil devido aos incidentes de fronteiras derivados do belicismo personalista dos gaúchos de um lado e de outro da fronteira.

c.2. Tentando evitar sua anexação pela Argentina, o Brasil invade o Uruguai para defender o governo legal do país contra o caudilho Uribe e o grupo de Buenos Aires. Apesar da vitória da legalidade, ficaram mágoas pela intervenção e pelo tratado de aliança de 12 de outubro de 1851. Em 1860, sobe ao poder Bernardo Berro, com uma plataforma radical antibrasileira.

c.3. para enfrentar o Brasil, Berro e seu sucessor colocam-se sob a proteção do guarda-chuva paraguaio, alimentando o ditador paraguaio com toda sorte de notícia falsa contra o Brasil. A colocação do Paraguai, a chamado do Uruguai, no centro das questões platinas deixa o Império de sobreaviso.

c.4. escorado pelo Paraguai, o governo do Uruguai escala contra o Brasil, ignorando apelos de negociação, queimando os tratados de 1851, promovendo o arrasto da bandeira do Brasil pelas ruas de Montevidéu.

d) O Paraguai, que até ali se mantivera isolado do mundo, governado por uma ditadura totalitária, sentindo a necessidade de quebrar o isolamento, para promover o seu progresso, resolve tornar-se um agente de primeiro plano na região platina — fala-se de um plano de incorporação, ou uma aliança muito bem amarrada, com as províncias argentinas e o Uruguai garantindo ao país portos no Atlântico.

d.1. a sua maior preocupação é com a Argentina, por isso ele procura, num primeiro momento, uma aliança com as duas províncias de Urquiza, que a princípio concordam. As tentativas do Paraguai em desestabilizar a Argentina preocupavam o Brasil. Essa aliança, porém, se desfará na batalha de Pavón, quando Mitre derrota Urquiza e unifica o país sob seu comando, basicamente hostil a López.

d.2. contra o Brasil, López prevê, no seu avanço para o Uruguai, o controle da bacia platina e o seu fechamento e o asfixiamento da região central do Brasil,  até conseguir um acordo favorável sobre as fronteiras com o Mato Grosso (do Sul).

d.3. a aproximação com o Uruguai chegou às raias do ridículo. Lopez, que não tinha corpo diplomático, fez dos representantes comerciais do Uruguai no seu país, seus informantes sobre o que se passava do lado de lá da fronteira. Eles saturaram os ouvidos do ditador com as mais absurdas fantasias; tanto que ele ficou muito surpreso com a chegada em Assunção do navio de passageiros Marquês de Olinda, em 12 de novembro de 1864, e mais ainda por ele não ter as armas que o seu informante uruguaio lhe dissera.

Como vemos, o quadro, na sua imagem visível, beirava o caos, e se a isso acrescentarmos a instabilidade psicológica-emocional dos agentes envolvidos, as suas fragilidades pessoais, preconceitos e expectativas futuras, com certeza temos o caos e, com o caos, quem pode agir adequadamente para prevenir um desastre? Só se pode precatar-se contra seus efeitos terríveis que virão mais cedo ou mais tarde e que, neste caso, foram quase 5 anos de matanças onerosas e inúteis.

Esse quadro, portanto, não se explica só pelas iniciativas de um e de outro isoladamente, mas de todos os principais atores envolvidos: nesse caso, governantes e diplomatas, e até comerciantes avulsos, no caso paraguaio. Qualquer um, apesar de seus parcos recursos individuais, poderia iniciar a deflagração do evento, que começa justamente no Uruguai. Esse contexto explosivo também não se explicava somente pelos acontecimentos do presente, mas pelo conjunto das experiências passadas por cada uma dessas nações e das medidas que, ao longo do tempo, seus governantes tomaram a respeito de como deveria ser compartilhado o controle da bacia do rio da Prata, que as levaram a um impasse no qual a guerra era, de longe, a saída mais próxima.

Essa guerra, portanto, foi o resultado natural, espontâneo, das vicissitudes vividas por cada um dos beligerantes ao longo de sua história. Medidas prévias poderiam tê-la evitado. Mas quais?

     


TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 25

Por que os Estados Nacionais Eram Agressivos.

Fica claro que foi a persistência do domínio aristocrático, o acesso à riqueza idealmente disponível e o colapso do poder supranacional da Idade Média — e não algo derivado do próprio processo capitalista — que explicam não apenas o surgimento, mas também a fisionomia política do Estado moderno. Em particular, esses fatos explicam por que o Estado moderno foi “nacional” desde o princípio e refratário a qualquer consideração supranacional; por que insistiu, e mesmo compelido, a reivindicar a soberania absoluta; por que fomentou igrejas nacionais mesmo em países católicos; e, sobretudo, por que foi tão agressivo. Os novos poderes soberanos eram belicosos em virtude de suas estruturas sociais. Surgiram fortuitamente. Nenhum deles possuía tudo o que desejava; cada um tinha o que outros desejavam. E logo se viram cercados por novos mundos que os convidavam à conquista competitiva. [Ou seja, o processo colonial europeu do século XVI teve as características de sociedades aristocráticas, mais que burguesas]. Devido a essa situação e à estrutura social da época, a agressão — ou, o que é o mesmo, a “defesa” — tornou-se o eixo central da política [como nos conflitos medievais, gerados por uma aristocracia guerreira].

Nesse mundo em ebulição, a paz era apenas um armistício, a guerra o remédio normal para o desequilíbrio político, o estrangeiro ipso facto o inimigo — como o fora nos tempos primitivos. Tudo isso contribuiu para a formação de governos fortes e cronicamente atormentados por ambições políticas que ultrapassavam seus recursos econômicos, eram impelidos a tentativas de se fortalecerem ainda mais, desenvolvendo os recursos de seus territórios e utilizando-os a seu serviço. Isso, por sua vez, explica, entre outras coisas, por que a tributação assumiu uma importância muito maior [a estratégia padrão do mercantilismo].

Esses fatos, embora fundamentalmente os mesmos em toda a Europa Ocidental e Central, produziram resultados um tanto diferentes de acordo com as circunstâncias de cada nação. Desconsiderando os países menores, constatamos que a principal diferença residia entre a Inglaterra e o continente europeu. Na Alemanha, as tendências econômicas e políticas foram interrompidas pelo curso dos eventos centrados na Guerra dos Trinta Anos (1618–1648), que criou uma situação completamente nova e mudou para sempre o padrão político e cultural da Alemanha. Em solo devastado e em uma população que, em alguns lugares, havia sido reduzida a menos de 10%, os príncipes, seus soldados e suas burocracias eram, na maior parte do território nacional, praticamente tudo o que restava das forças políticas do passado. Na Itália, a situação diferia da alemã apenas em grau. A França e a Espanha não tiveram que passar por experiências como essas, mas os conflitos religiosos e os intermináveis ​​esforços de guerra produziram um empobrecimento semelhante na Espanha e condições políticas e administrativas similares às da França. Na maioria desses países com exceção da Suíça e da Hungria o príncipe [e não o burguês] passou a personificar o Estado e a nação a partir do século XVI. Ele conseguiu submeter todas as classes à sua autoridade a nobreza e o clero, a burguesia e o campesinato, embora as duas primeiras sob o entendimento de que deveriam continuar a ocupar uma posição de privilégio social e econômico. A riqueza e o poder deste Estado eram o objetivo incontestável de sua política [a busca por riquezas, para além do mérito e dos esforços para produzi-la, nada tem a ver com uma fantasiosa característica burguesa: ela é universal e atemporal].

A maximização da receita pública — para consumo da corte e do exércitoera o objetivo da política econômica, enquanto a conquista territorial era o objetivo da política externa. Não é preciso demonstrar como a preocupação com o bem-estar das classes que sustentavam esse sistema social se inseria nessa política: esse bem-estar não era visto simplesmente como um meio para um fim; era um fim em si mesmo para muitos grandes monarcas ou administradores, exatamente como o bem-estar de seus operários era e é um fim em si mesmo para muitos grandes industriais; mas precisava se adequar ao padrão político e ao sistema social vigentes. Tudo isso — precisamente onde a preocupação com o bem-estar de fabricantes, agricultores e trabalhadores era mais real — significava a gestão de tudo, o que, por sua vez, significou a ascensão da burocracia moderna, um fato não menos importante do que a ascensão da classe empresarial. A economia resultante era uma economia planificada e planejada, com o objetivo de fornecer recursos para a guerra. [Vimos isso na União Soviética, onde os membros do Comitê Central do PCUS (a corte) geriam o país, com o apoio de uma aristocracia composta pelos membros do Partido, donos dos principais cargos públicos e administrativos, criaram a maior máquina de guerra do mundo e dessa maneira todos os países 'socialistas', cuja maior herança são sofisticados aparatos de repressão interna e de guerra, controlando com rédea curta estados satélites (o antigos vassalos, na Idade Média)].

 

Nota de Schumpeter

Devemos nos limitar a um breve comentário sobre Colbert, que foi e ainda é considerado o representante típico daquela entidade imaginária, o “sistema mercantilista” — tanto que o colbertismo é frequentemente utilizado, especialmente em italiano, como sinônimo de mercantilismo. Jean-Baptiste Colbert (1619–1683), de origem burguesa, ascendeu ao cargo de ministro das finanças (abrangendo também os assuntos da indústria, do comércio e da agricultura) no primeiro período do reinado de Luís XIV. Ele foi um administrador honesto, capaz e enérgico, que sabia como arrecadar dinheiro, intimidar credores, aprimorar métodos administrativos e contábeis, estimular a indústria, construir palácios e portos, desenvolver a marinha e assim por diante, embora tenha sido notoriamente azarado na execução de seus planos mais ambiciosos, como o empreendimento colonial, cuja história demonstra que os desperdícios do planejamento público podem facilmente superar qualquer coisa que, em termos de desperdício, possa ser atribuída à iniciativa privada. Não há razão para exaltar suas realizações ou vê-lo como o grande defensor de algum princípio fundamental.

 

Na Inglaterra, observamos as mesmas tendências. Mas lá elas eram mais fracas e a resistência a elas mais forte, porque o país foi poupado das experiências que, em outros lugares, quebraram a espinha dorsal tanto das aristocracias quanto das burguesias... Podemos adotar a teoria, talvez inadequada, de que foi a ausência de invasões estrangeiras reais e a raridade de ameaças sérias de invasão que reduziram a necessidade de um aparato militar — uma marinha, é claro, tem muito menos peso político — para garantir o poder e o prestígio da Coroa e de todas as agências administrativas dependentes da Coroa [enquanto distorcia a sua função]. O sintoma mais óbvio da diferença que isso fez, a sobrevivência, apenas na Inglaterra, da antiga constituição semifeudal, não é importante em si para nós. Mas é muito mais importante o fato de que, ao longo de todo o período, o Estado inglês não conseguiu se apropriar da vida nacional como fizeram os outros Estados e que, em particular, o setor econômico da vida nacional, incluindo a empreitada colonial, permaneceu relativamente autônomo. O planejamento, se não inexistente, era mais limitado em escopo, preocupando-se principalmente com as relações da economia inglesa com a Irlanda e as colônias e com o comércio exterior; este menos rigorosamente fiscalizado do que na maioria dos países continentais.

Influência de Circunstâncias Especiais na Literatura Contemporânea.

Infelizmente, a literatura a ser analisada, na grande parte dela, é condicionada por situações específicas em países específicos que os escritores consideravam como certas, e por questões específicas que surgiram dessas situações... Uma longa lista de erros de interpretação e avaliação cometidos, especialmente por críticos “liberais” do século XIX dessa literatura, mas também por outros posteriores, poderia ser compilada para ilustrar essa verdade...

I. Toda a economia daquela época — com a possível exceção do ramo holandês — foi escrita em e para países pobres. Isso se aplica sem exceção se “pobre” for equiparado a “subdesenvolvido”. Todos os países europeus estavam no início de suas carreiras industriais e até mesmo agrícolas, e todos tinham consciência disso. Para nós, a expansão econômica está primariamente ligada a novas necessidades e métodos; aquela época, no entanto, tinha à sua frente possibilidades praticamente inesgotáveis, com necessidades e tecnologias existentes além do que se podia esperar do progresso tecnológico e das conquistas. Mas nossa proposição se aplica, em um sentido diferente e com força adicional, aos grandes países continentais que, na segunda metade do século XVII, também se depararam com um imenso problema de reconstrução. Eles eram pobres até mesmo em comparação com o que haviam sido no século XVI. Deve ficar claro que, em tais condições, políticas e raciocínios feitos na época tinham um significado que parecia absurdo para observadores que os analisavam sob a perspectiva do século XIX.

II. Em todos os países — inclusive na Inglaterra —, o setor agrário era predominante. Seus problemas econômicos eram primordialmente agrários, e a maior parte de sua população era composta por camponeses, agricultores e trabalhadores rurais. Nos séculos XVI, XVII e XVIII, esse mundo agrário passou por transformações que o revolucionaram: os historiadores econômicos falam, com razão, de uma revolução agrária, ou melhor, de várias revoluções agrárias. Essa expressão indica dois tipos distintos, embora relacionados, de mudança que se reforçaram mutuamente e que teriam desmantelado a estrutura da sociedade medieval, ainda que nada tivesse ocorrido no setor industrial. Por um lado, houve uma longa série de mudanças nas tecnologias de todos os ramos da produção agrária — esse processo ganhou impulso no século XVIII, mas teve início no começo do século XVI. Por outro lado, em sintonia com as revoluções tecnológicas, houve um processo de mudança organizacional que transformou os feudos medievais em fábricas de grãos, lã e carne, destruindo as antigas relações entre senhores feudais e camponeses ou agricultores. Basta mencionar a principal forma inglesa desse tipo de mudança: os cercamentos. Governos e, consequentemente, escritores adotaram duas atitudes caracteristicamente diferentes em relação a essa mudança. No continente europeu, e especialmente na Alemanha, os governos fizeram um esforço determinado e em grande parte bem-sucedido para salvar os camponeses e transformá-los, eventualmente, em uma classe de pequenos proprietários de terras. Na Inglaterra, a propriedade rural, com seus pequenos agricultores, foi extinta e, apesar da melancolia que pairava sobre as aldeias desertas, a grande propriedade rural prevaleceu, não como uma unidade produtiva, mas como uma unidade administrativa que deixava a produção a cargo do trabalhador capitalista, o fazendeiro [o dono da terra com uma mentalidade de trabalho e prosperidade nitidamente capitalistas].

III. Mas não é de todo surpreendente que a manufatura e o comércio internacional, por mais insignificantes que fossem, atraíssem mais atenção literária do que a agricultura. Elas eram crianças, estavam nascendo, e era delas dependia o futuro da família [havia uma motivação psicológica derivada do senso comum]. Além disso, tinham mais motivação e oportunidade para escrever sobre si e em seu próprio nome do que os latifundiários e agricultores. Para a economia, isso simplesmente significava que havia mais economistas “industriais e comerciais” do que “agrícolas”. A empresa em larga escala — grande em relação aos padrões ambientais — emergiu, em grande medida, no século XIV na Itália, no século XV na Alemanha e no século XVI (sob o reinado de Elizabeth I) na Inglaterra, primeiro na esfera financeira e comercial e depois na esfera da produção. Mas, substancialmente, a indústria manufatureira que os economistas observavam e sobre a qual refletiam era, quase sempre, a indústria manufatureira do artesão (ainda organizado em guildas de ofício), do "mestre" da indústria doméstica e do proprietário-gerente de fábricas, que eram poucas e, em sua maioria, bastante pequenas. Na Europa Ocidental, especialmente na Inglaterra, isso mudou (significativamente, mas não fundamentalmente) com a Revolução Industrial das últimas décadas do século XVIII, mas as consequências totais só se revelaram nas primeiras décadas do século XIX. Muitos autores, ocasionalmente até mesmo A. Smith, classificam o fabricante ao lado do operário. Nenhum autor, mesmo Adam Smith, tinha uma ideia muito clara do que realmente significavam os processos que levaram ao que os historiadores denominaram Revolução Industrial. A. Smith considerava, com algumas exceções,  a forma corporativa da indústria uma anomalia. Para ele e seus contemporâneos, grandes negócios ainda significavam grandes negócios comerciais e financeiros — particularmente, empreendimentos coloniais. E eles os encaravam de maneira muito semelhante à forma como os economistas modernos encaram qualquer tipo de negócio em larga escala, ou seja, com sentimentos de desconfiança ressentida.

IV. Essa evolução industrial e comercial foi caracterizada, quase até o final do período em questão, por políticas e práticas comerciais "monopolistas" que foram um dos principais temas da literatura econômica daquele período e que têm sido alvo de ampla condenação por economistas e historiadores econômicos de A. Smith até hoje. Por política pública e prática comercial privada “monopolistas”, entendemos medidas e formas de comportamento destinadas a garantir uma “saída” lucrativa para os produtos ou serviços de um indivíduo ou grupo, por meio de: (1) exclusão do estrangeiro dos mercados nacionais e internacionais — o que, enquanto os territórios nacionais não se tornaram unidades econômicas, muitas vezes excluía produtores e comerciantes da cidade ou distrito vizinho; (2) exclusão, dentro do possível, de todos os congêneres que não o indivíduo ou grupo favorecido — por exemplo, excluindo os varejistas dos negócios do comerciante; (3) restrição da produção do próprio indivíduo ou grupo favorecido e regulação de sua distribuição entre os mercados [uma forma embrionária do estatismo econômico moderno].

Vamos nos deter por um momento para analisar, à luz das considerações precedentes, as razões para a prevalência dessa política e prática. Primeiramente, poderíamos esperar que, se o capitalismo pleno tivesse surgido repentinamente no mundo e se lhe tivesse sido permitido desenvolver-se sem ser distorcido pelos fatores mencionados, tanto o comportamento empresarial quanto a política pública teriam sido, desde o início, o que de fato se tornaram, por um período, no século XIX. Ou seja, poderíamos esperar que, neste caso, em países tão pobres em bens e tão ricos em possibilidades, tivesse havido uma onda contínua de empreendimentos competitivos. Essa expectativa, contudo, seria apenas parcialmente justificada. A pobreza é uma cliente difícil, e os riscos normais de se fazer negócios aumentam consideravelmente em um ambiente onde a riqueza que alimenta a demanda não só precisa ser atraída, mas também criada. Nos negócios, como em qualquer outro setor, a estratégia de desenvolvimento muitas vezes exige táticas defensivas como complemento, embora a maioria dos economistas de todas as épocas se recuse obstinadamente a reconhecer. Mas, em condições nas quais o progresso a longo prazo era inevitavelmente lento, cada etapa precisava ser protegida com especial cuidado para se obter os meios e o tempo necessários para avançar além dela. É bastante natural que o historiador observador fique muito mais impressionado com as práticas e políticas de restrição protecionista, que dominam o cenário em todos os momentos, do que com o panorama do processo ao longo do tempo. Mas é verdade, no entanto, que mesmo um governo idealmente racional, motivado unicamente pelo fomento do desenvolvimento industrial, teria que conceder privilégios de monopólio em muitos casos nos quais a iniciativa privada seria impossível sem eles [por exemplo, as grandes navegações], e que, em outros, teria que permitir práticas monopolistas por parte dos empresários envolvidos. Isso se aplica, naturalmente, com ainda mais força aos países devastados pela guerra, como a Alemanha, onde apenas a perspectiva de lucros extraordinários poderia estimular o empreendedorismo em uma população imersa na miséria e no desespero. [Essa era a situação após a Guerra dos Trinta Anos e a Segunda Guerra Mundial].

Em segundo lugar, porém, o capitalismo não surgiu num mundo vazio: cresceu gradualmente a partir de um padrão preexistente dominado, no aspecto em questão, pelo espírito, pelas instituições e pela prática das corporações de ofício. Novos métodos de produção e novas formas de empreendimento encontram resistência em qualquer ambiente; mas, nesses séculos, existia um mecanismo legal de resistência que funcionava automaticamente.

Por um lado, a legislação e a administração em todos os países, sob pressão das corporações de ofício e em benefício próprio, submeteram a nova iniciativa “livre” a várias regulamentações que restringiam a produção. Por outro lado, embora essas regulamentações não tivessem raízes no sistema capitalista e o distorcessem, os comerciantes, mestres e outros afetados por elas naturalmente tiraram o melhor proveito da situação e se organizaram de maneira semelhante [às organizações medievais]. Havia várias razões — além dos ganhos esperados com a regulamentação restritiva — pelas quais isso lhes era fácil: os comerciantes e mestres eram eles próprios produtos de um mundo onde a organização e a ação corporativa eram reconhecidas e não tinham objeções em aceitar códigos “éticos” e religiosos, que exigiam comportamentos padronizados, incluindo reuniões de oração.

Eles não tinham prestígio nem peso político enquanto agissem individualmente, ao passo que cada Companhia Venerável era uma força política. No caso mais importante do comércio ultramarino, a necessidade de prover proteção física e resistência a agressões — existiam sociedades anônimas formadas exclusivamente para a pirataria — era um motivo que inevitavelmente uniria os comerciantes e incentivaria a ação corporativa também em outros aspectos. A Companhia Privilegiada, não uma empresa comercial em si, mas sim a estrutura organizacional para o comércio de seus membros, era, em parte em oposição e em parte em aliança com o sistema de entrepostos medieval (jus emporii), para aproveitar ao máximo as oportunidades oferecidas pelo protecionismo da época. Terceiro, os governos dos estados nacionais tinham seus próprios motivos para criar ou favorecer organizações ou cargos mais ou menos “monopolistas”. Um desses motivos já foi mencionado: o da reconstrução [Alemanha, por exemplo]. Outro era a perspectiva de ganho pessoal para os governantes — a Rainha Elizabeth participava pessoalmente dos lucros (e perdas) de empreendimentos “monopolistas”, inclusive com os lucros de roubos descarados. O mesmo grande monarca oferece exemplos notáveis ​​do método de favorecer seus favoritos, concedendo-lhes cartas patentes de monopólio.

Além disso, as organizações "monopolistas" eram como esponjas, muito melhor de espremer do que um grande número de empreendedores independentes. E, finalmente, com governos fortes, essas organizações são mais fáceis de explorar, mas também de controlar: seus próprios órgãos administrativos são inúmeras ferramentas prontas para serem usadas pelos governos. Esse aspecto se tornará ainda mais importante se nos lembrarmos da natureza da política daqueles governos para os quais as medidas relativas ao comércio eram apenas um dos instrumentos de uma política de poder agressiva: forçar o comércio em uma direção e interrompê-lo completamente em outra era, em alguns casos, quase tão eficaz quanto uma campanha militar; além disso, companhias coloniais de diferentes nações podiam guerrear entre si enquanto os respectivos governos nacionais estivessem oficialmente em paz.


terça-feira, 4 de agosto de 2026

 

TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 24


Filosofia Moral.

Todos os fatos apresentados acima sobre o pensamento do século XVIII vão mostrar que a novidade da abordagem sociológica e econômica da lei natural mantida sobre uma considerável extensão daquilo que se convencionou chamar novo espírito “experimental”... é tão ilusória quanto a noção análoga de que a obra dos filósofos do direito natural do século XVII representou uma ruptura violenta com a análise escolástica. Em outras palavras, esses fatos ensinam uma lição de continuidade no desenvolvimento dos conceitos. Contudo, o sistema de pensamento do direito natural desintegrou-se ou, pelo menos, sofreu uma transformação. Sabemos que, originalmente, era um sistema de jurisprudência e que todo o material não jurídico havia sido inserido na estrutura legal em um papel acessório. Mas, no século XVIII, o aumento desse material e a adição de novos campos de pesquisa romperam essa estrutura.

De uma posição que a colocava como uma holding governante que unificava e coordenava tudo, a “jurisprudência natural” tornou-se meramente uma especialidade de uma nova unidade abrangente que não era mais primordialmente jurídica em sua essência. Essa nova unidade foi denominada Filosofia Moral — sendo a palavra filosofia tomada em seu antigo sentido de soma total das ciências, de modo que, em linhas gerais, filosofia moral significa as ciências sociais (as ciências da “mente e da sociedade”), em contraste com a Filosofia Natural, que denotava as ciências físicas mais a matemática. Era disciplina padrão nos currículos universitários e consistia, principalmente, em teologia natural, ética natural, jurisprudência natural e política (ou “polícia” [‘or police’, no original]), que incluía economia e também finanças públicas (“receita”).

Francis Hutcheson, professor de A. Smith, era professor de filosofia moral... Tanto os Sentimentos Morais quanto A Riqueza das Nações são blocos extraídos de um todo sistemático maior. Assim, a antiga ciência social universal dos doutores escolásticos e dos filósofos do direito natural sobreviveu em uma nova forma. Mas não por muito tempo. Embora o curso de filosofia moral figurasse nos currículos universitários mesmo na primeira metade do século XIX — as universidades são conservadoras —, ele estava perdendo rapidamente, na maioria dos lugares, seu antigo significado e posição no final do século XVIII. Isso se deveu à mesma causa que levou ao colapso do sistema do direito natural. O acúmulo de material nos ramos individuais da filosofia moral tendeu a colocá-los nas mãos de especialistas, cada um dos quais inevitavelmente teve que se concentrar em seu próprio ramo e negligenciar tanto os outros ramos como os princípios abrangentes. Isso se aplica com particular força à economia.

É altamente significativo que A. Smith tenha considerado impossível fazer o que Hutcheson fizera naturalmente, ou seja, produzir um sistema completo de filosofia moral ou ciência social. O tempo para isso já havia passado: a absorção do novo material — tanto fatos quanto análises — tornara-se uma tarefa em tempo integral. Enquanto essa absorção não se completasse, o pequeno corpo de conhecimento econômico-científico herdado dos escolásticos e cultivado pelos filósofos do direito natural conservava não apenas existência independente, mas também um caráter distintivo próprio. Devido ao maior refinamento intelectual dos homens que o criaram e ao seu distanciamento das questões práticas imediatas da política econômica, sua análise econômica era diferente da análise de outras pessoas. [Começa a haver uma notável diferenciação entre a nova abordagem dos problemas econômicos e sociais, da que era praticada antes].

Ao observá-la, não podemos deixar de notar uma formulação mais correta dos fundamentos e uma visão mais ampla dos problemas práticos, ambas antecipando opiniões muito posteriores. Mas, assim que essa absorção se completa, naturalmente a perdemos de vista, embora não percamos sua contribuição. Isso aconteceu, em linhas gerais, entre 1776 e 1848: o mais recente sistema de direito natural, o utilitarismo, ganhando força quando os especialistas em economia já haviam estabelecido sua reivindicação de autonomia, não foi, como seus predecessores, capaz de exercer controle efetivo sobre eles.


MAIS FATOS DA HISTÓRIA SOCIAL

[ATENÇÃO: não se assuste se, de repente, o autor der meia volta e começar a discutir questões referentes a épocas anteriores ao último parágrafo. Schumpeter é minucioso e não quer deixar nada sem um reparo. Ele volta diversas vezes ao passado para discutir as origens de temas que ele acabou de apresentar].

Já sabemos que, com o passar do século XVIII, a economia se estabilizou no que decidimos chamar de Situação Clássica [Classical Situation] e que, em consequência disso, adquiriu o status de um campo reconhecido de conhecimento estruturado. Mas as obras de seleção e coordenação daquele período, entre as quais A Riqueza das Nações foi o sucesso mais notável, não se limitaram a ampliar e aprofundar o fluxo proveniente dos estudos dos escolásticos e dos filósofos do direito natural. Elas também absorveram as águas de outra corrente, mais impetuosa, que brotava do fórum onde homens de negócios, panfletistas e, mais tarde, professores debatiam as políticas de sua época. Neste capítulo, faremos uma análise geral dos vários tipos de literatura econômica produzidos por esses debates. Essa literatura não constitui uma unidade lógica ou histórica. Os autores, diferentemente dos filósofos do direito natural, não formam um grupo homogêneo... [Mas] discutiam problemas práticos de política econômica, e esses problemas eram os problemas do Estado Nacional em ascensão.

Portanto, se quisermos compreender o espírito que animava esses autores, suas linhas de raciocínio, os dados que consideravam como certos, devemos, por um momento, fazer um desvio para a sociologia desses Estados cuja estrutura, comportamento e vicissitudes moldaram a história europeia — tanto no pensamento quanto na ação — a partir do século XV. O ponto importante a ser compreendido é que nem o surgimento nem o comportamento (“políticas”) desses Estados foram meras manifestações da evolução capitalista. Quer queiramos ou não, temos que encarar o fato de que foram produtos de uma combinação de circunstâncias que, vistas do ponto de vista do processo capitalista em si, devem ser consideradas acidentais ou inesperadas.

 

Nota de Schumpeter

Como todos os teóricos, os teóricos da história social relutam em admitir a importância de fatores causais diferentes daqueles enfatizados por suas próprias teorias, assim como a importância do acaso na evolução dos padrões reais. Contudo, os processos históricos que produziram as situações, criaram os problemas e moldaram as atitudes refletidas nessa literatura não podem ser interpretados como muitos observadores, especialmente os marxistas, gostariam de interpretá-los, ou seja, como efeitos da ascensão do capitalismo. [Como se o capitalismo tivesse surgido como um sistema planejado, talvez até já de olho na exploração do operariado, consciente, montado peça-por-peça, como um quebra-cabeças, pela ação dos empresários e o pensamento de seus intelectuais ‘orgânicos’. Algo do tipo teoria da conspiração]. Mesmo na medida em que são atribuíveis à evolução capitalista, eles se desenvolveram de uma maneira radicalmente diferente daquela prescrita pelos interesses ou pela mentalidade capitalista.

 

Fatores Incidentais da Emergência dos Estados Nacionais.

Em primeiro lugar, foi um acidente que a ascensão do capitalismo tenha atingido uma estrutura social de força incomum. O feudalismo, sem dúvida, cedeu lugar, mas as classes guerreiras que governavam o organismo feudal não. Pelo contrário, continuaram a governar durante séculos e a burguesia em ascensão teve de se submeter. Conseguiram até absorver grande parte da nova riqueza para os seus próprios fins. O resultado foi uma estrutura política que fomentava, mas também explorava, os interesses burgueses e que não era burguesa na sua natureza e espírito: era o feudalismo gerido em bases capitalistas; uma sociedade aristocrática e militar que se alimentava do capitalismo; uma estrutura anfíbia muito distante do controle burguês... Assim, os monarcas, que eram principalmente senhores da guerra, e a classe dos latifundiários aristocráticos permaneceram os eixos do sistema social até meados do século XVIII, pelo menos no continente europeu... Além disso, foi um acidente que a conquista da América do Sul tenha produzido uma torrente de metais preciosos [ninguém sabia que os havia e na quantidade em que foram encontrados, nem o período em que foram encontrados]. Presumivelmente, o crescimento da empresa capitalista poderia ter gerado situações inflacionárias de qualquer forma, mas essa torrente fez muita diferença no curso dos acontecimentos. De uma maneira óbvia demais para precisar de maiores explicações, ela acelerou o desenvolvimento capitalista, mas muito mais importantes do que a torrente de metais, são dois outros fatos que apontam na direção oposta. Por um lado, esse acesso a meios líquidos fortaleceu consideravelmente a posição dos governantes que conseguiram obtê-los. Dadas as circunstâncias da época, isso conferiu uma vantagem decisiva no planejamento de empreendimentos militares em linhas que, muitas vezes, como no caso dos Habsburgos espanhóis, estavam completamente desconectadas dos interesses burgueses em seu vasto império ou da lógica do processo capitalista. Por outro lado, a revolução dos preços que se seguiu significou desorganização social e, portanto, foi não apenas um fator propulsor, mas também um fator de distorção. Muito do que poderia ter sido uma mudança gradual, se nada além do processo básico estivesse em ação, tornou-se afinal explosivo na atmosfera febril da inflação. Deve-se atentar especialmente para o efeito sobre o mundo agrário. Quando a inflação se instalou, a maior parte dos direitos que os camponeses continentais deviam a seus senhores foi transformada em pagamento em dinheiro [produzindo mais circulação de dinheiro, acelerando ainda mais o capitalismo ou pelo menos uma mentalidade geral].

Com o poder de compra da moeda em rápida queda, os senhores feudais tentaram, em muitos países, aumentar o valor monetário dos tributos. Os camponeses resistiram. Revoluções agrárias foram a consequência, e o espírito revolucionário assim gerado foi um fator importante nas convulsões políticas e religiosas daquela época. Mas, devido à força da elite feudal, essas revoluções não aceleraram, como se poderia esperar, o desenvolvimento social na mesma proporção que o processo básico. As revoltas dos camponeses e de outros grupos que se insurgiram em solidariedade foram reprimidas com implacável vigor. Os movimentos religiosos obtiveram sucesso apenas na medida em que foram patrocinados pelas aristocracias e, nos casos mais importantes, perderam rapidamente o radicalismo social ou político que originalmente lhes fora associado. Príncipes e barões, exércitos e clérigos emergiram da provação com prestígio e poder ampliados, enquanto o prestígio e o poder político da burguesia declinaram, especialmente na Alemanha, França e Espanha. A grande exceção, no continente, foram os Países Baixos.

Um terceiro evento histórico de importância primordial — e duradoura — foi o colapso da única autoridade internacional efetiva que o mundo já viu. Como já foi apontado, o mundo medieval era uma unidade cultural e, pelo menos em princípio, professava lealdade tanto ao Império quanto à Igreja Católica. Embora houvesse visões muito divergentes sobre a verdadeira relação entre eles, juntos formavam um poder supranacional que não só era ideologicamente reconhecido, como também politicamente invencível enquanto permanecesse unido. Segundo a visão tradicional, esse poder estava fadado a declinar assim que os efeitos corrosivos do capitalismo começassem a dissolver as bases da sociedade medieval e suas crenças. Isso não é verdade. Independentemente dos efeitos desses efeitos sobre esse poder dual, eles não tiveram relação alguma com o colapso que ocorreu muito antes de essas crenças serem abaladas, simplesmente porque — o que, do ponto de vista do processo fundamental, foi novamente acidental — o fato de que, por razões que não podem ser analisadas aqui, o império foi incapaz de aceitar a supremacia dos Papas ou de conquistá-los. Uma luta prolongada que abalou o mundo cristão até seus alicerces terminou na vitória dos Papas na época de Frederico II (1194–1250). Mas, nessa luta, ambos os lados haviam exaurido tanto seus recursos políticos que é mais correto falar de uma derrota comum: os Papas perderam autoridade, o império se desintegrou. Em consequência, o internacionalismo medieval chegou ao fim e os Estados nacionais começaram a afirmar sua independência daquela autoridade supranacional que havia sido formidável apenas enquanto a Igreja Romana cooperava com a “espada temporal” da Germânia.

 

Nota de Schumpeter

É enganoso enfatizar o elemento nacional nessa mudança. Embora ele se manifeste claramente nos casos mais importantes, como os da França, Espanha e, antes de qualquer outro lugar, da Inglaterra, a verdadeira natureza do fenômeno ficará mais evidente se considerarmos que, na Alemanha e na Itália, países que foram imediatamente subordinados ao poder imperial, esses estados ou “principados” surgiram em bases não nacionais: não foi, a princípio, o sentimento nacional que uniu essas unidades, mas sim o interesse de príncipes feudais suficientemente fortes para organizar, defender e governar um território. O próprio reino de Nápoles e Sicília de Frederico II é o exemplo mais antigo, e o estado prussiano, de outro Frederico II, o mais revelador. O apoio popular que pudesse ser vinculado a interesses capitalistas e ao sentimento nacional surgiu mais tarde e foi tanto consequência de condições anteriores, quanto fator causal em desenvolvimentos subsequentes

segunda-feira, 3 de agosto de 2026


GUERRA DO PARAGUAI: O PAPEL DA BACIA PLATINA
[topônimos do mapa acima em inglês, espanhol e português] Eduardo Simões A bacia do Rio da Prata corresponde a uma área de 1,4 milhão de quilômetros quadrados, para onde confluem as águas de alguns dos principais rios do continente — Paraná, Paraguai e Uruguai — antes de desaguarem no estuário do Prata. A importância desses rios deve-se, principalmente, ao seu papel no transporte das riquezas produzidas nessa região pelo Paraguai, Argentina, Uruguai e Brasil, assim como rota de chegada das mercadorias que vinham do exterior. Para o Brasil do século XIX, a liberdade de navegação era vital, pois era a única rota de comunicação viável com as províncias do centro-oeste, em especial o Mato Grosso, que nesse período não estava unido aos portos do litoral brasileiro por outro meio de transporte. Estradas ou ferrovias. Voltados para a Europa, econômica e tecnologicamente estagnados, ficamos à mercê dos rios dessa bacia, para viabilizar nossa posse de vastas regiões no centro da América do Sul. Ao contrário do Brasil, porém, os países hispânicos da região viam no controle da navegação do rio uma importante fonte de arrecadação e de controle estratégico, seja pela cobrança de pedágios, seja pelo fechamento do rio a um país que o detentor dos direitos sobre o rio quisesse prejudicar. Para complicar a situação, após a independência, os países da região entraram numa profunda crise de identidade, à medida que as elites tentavam impor reformas liberais em sociedades predominantemente autoritárias e acostumadas ao Antigo Regime dos monarcas absolutos, agora travestidos de ditadores ou na exótica figura dos caudilhos sul-americanos. A luta caudilhesca pelo poder não conhecia medidas. Logo, esses países viviam mergulhados em crises econômicas crônicas, fruto de guerras civis e de conquistas intermináveis, tudo para ampliar o prestígio do caudilho ou do grupo que lhe dava suporte, sem falar de questões de fronteiras que se arrastavam desde o tempo dos impérios ibéricos. Era o caos. Desse caos, o Brasil se livrou mais rápido, graças à herança portuguesa deixada após a independência: uma estrutura de estado ‘moderno’ já montada, com o seu mandatário já sentado no trono, com um projeto dinástico já definido. Ganhamos no curto prazo. Ciente de sua fragilidade e sem recursos para atender, ao mesmo tempo, os custos da burocracia imperial, a fragilidade do sistema econômico — dependente dos mercados externos e da mão de obra escravizada — e construir uma infraestrutura de estradas com as áreas centrais do país, o Brasil aferrou-se ao império de manter livre a navegação na bacia do Prata, para não perder completamente contato com o centro do país. Todas as intervenções brasileiras tinham isso como meta. A última coisa que interessava ao Brasil era a criação de uma grande potência no centro do continente, dominando o curso médio e final dos rios que desaguavam no rio da Prata, e essa meta estratégica chocava-se com a do Paraguai de Solano López, que desejava uma aliança com caudilhos no Uruguai, e assim obter o controle do curso médio dos principais rios, e, de quebra, portos no Atlântico, fosse pela fusão com o Uruguai, fosse por acordos comerciais privilegiados. Entre 1825 e 1828, o Brasil guerreou com a Argentina justamente para que isso não acontecesse. Com o domínio do Uruguai, a Argentina controlaria as duas margens do estuário; logo, a substituição dela pelo Paraguai não seria aceita, ainda mais porque Brasil e Paraguai tinham divergências territoriais lá nas áreas centrais.  Havia também, na fronteira do Rio Grande com o Uruguai, constantes escaramuças devido às características da cultura gaúcha que aí se desenvolveu, muito personalista e belicista, ocasionando confrontos intermináveis entre criadores brasileiros e uruguaios. Nessa ocasião, as lideranças políticas gaúcho-brasileiras faziam muita pressão contra os políticos na corte, ameaçando elas próprias armarem suas forças e invadirem o país vizinho para deterem os ataques. Seja porque temesse outra farroupilha, seja porque fossem fracos ou cheios de prevenção contra os vizinhos — que também tinham muita prevenção, inclusive racial, contra os brasileiros — ou um pouco de tudo isso, o gabinete do Império resolveu assumir a causa dos gaúchos. Foi enviado um ultimato ao governo do Uruguai, exigindo proteção dos brasileiros no Uruguai e indenização pelos ataques na fronteira. Naquele momento, porém, o governo local estava nas mãos de um grupo hostil ao Brasil, que não só rejeitou o ultimato como queimou, em praça pública, acordos antes firmados com o Brasil. No dia 10 de agosto de 1864, o presidente Atanasio Aguirre, do Uruguai, recebe do representante brasileiro o informe de que as forças brasileiras, em virtude do fracasso das negociações, vão intervir no Uruguai;  no dia 11 de agosto o almirante Tamandaré recebe ordem para entrar em operações; em 24 de agosto os navios da esquadra brasileira fazem fogo sobre a canhoneira uruguaia Villa del Salto, que foge para a Argentina; no dia 30 de agosto o Uruguai corta relações diplomáticas com o Brasil; no dia 12 de outubro uma brigada do exército brasileiro invade o Uruguai, tomam a cidade de Melo e a entregam ao grupo uruguaio de oposição a Montivideo, voltando ao Rio Grande do Sul; em 1º de dezembro, devido a dificuldades de mobilização e recursos, o exército brasileiro conseguiu juntar força suficiente para iniciar a invasão do Uruguai.
A guerra começara.  

sábado, 1 de agosto de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA - 34

Rescaldo: a misoginia?      

Eram duros os conselhos de conduta do Conselheiro, em especial os que diziam respeito às mulheres, pois, segundo Câmara (1993), “obrigava as mulheres a cortar o cabelo e queimar objetos de luxo.” Segundo ainda Vilanova, no Memorial de Vilanova de Nertan Macedo, “ele não falava com fêmeas", embora elas ajudassem, com sua presença, a sustentar a fama das suas aglomerações, enquanto pereciam aos montes da saraivada de partos a que, por razões diversas, tinham de se submeter. Segundo uma crença antiga, era pelo parto que a mulher se redimia do pecado de Eva e aumentava seu status social, tornando-se senhora de homens: os seus filhos.

Outra notícia, dessa vez constante de uma biografia publicada no jornal O Paiz, de 4 de fevereiro de 1897, corrobora as informações acima.

"Convém ponderar que Antônio é, na realidade, um executor sincero das teorias que prega. No quarto habitado por ele, jamais penetram mulheres, e quando tem de falar a estas… fá-lo de costas e rapidamente."

No Jornal de Notícias, de Salvador, em 4 de agosto de 1897, Lelis Piedade publicou o seguinte:

"Existem poucos homens com o... Conselheiro, que não sai mais à latada para as ladainhas das 6 horas da tarde, conservando-se quase sempre dentro de um quarto, tornando-se invisível… para as mulheres, pelo menos."

Havia uma exceção: as beatas, mulheres de certa idade, em geral viúvas, que vestiam hábito e o serviam em suas necessidades domésticas, morando em um aposento ao lado do seu, em Canudos.

No jornal A Notícia, nos dias 14 e 15 de setembro de 1897, M. Figueiredo faz um levantamento sucinto do comportamento do Conselheiro, que confirma a sua misoginia. "Pouco conversa com os seus mais íntimos e, quando fala, conserva os olhos baixos, dizendo monossilabicamente, guardando sempre certa distância do interlocutor. As mulheres raras vezes logram vê-lo, sendo mais raro ainda dirigir-lhe a palavra."

As meninas deveriam ficar sob o controle severo dos pais e da comunidade, diz Robert Levine. Isso desempenhava, no antigo universo patriarcal, uma espécie de controle de qualidade, para a hora de o pai ceder a sua filha ao filho de outro patriarca, com quem acertou casamento. Isso não quer dizer que os noivos eram vistos como “objetos” permutáveis, mas antes o quanto eles temiam a instabilidade social provocada pela irrupção de novos hábitos e das novas gerações. "Garotas adolescentes acusadas de flertar eram severamente punidas" (O sertão prometido — o massacre de Canudos, trad. Monica Dantas, Edusp, São Paulo, 1995, p. 231).

Fica mais provável a história que diz que a rixa entre Conselheiro e o juiz Leoni começou quando um conselheirista deu uma surra na amante do juiz, por seu “mau” comportamento, na feira; o que pode estar ligado a um comportamento ousado, uma roupa menor ou excesso de maquiagem.

O pouco apreço pela mulher fica evidente num episódio da guerra narrado por Euclides da Cunha: os soldados invadem uma casa e encontram um homem que duas mulheres, uma adulta e outra adolescente, agarravam, procurando contê-lo — provavelmente mãe e filha. À vista dos soldados, porém, o homem se liberta das duas com brutalidade e acerta mortalmente um soldado, sendo massacrado pelos outros. Ao morrer, o ignóbil diz: "Pelo menos levei um!"

O soldado que morrera ali, diante de seus companheiros, era provavelmente amigo destes, visto que faz parte do treinamento das tropas criar fortes laços entre os soldados, e o seu matador agora está morto. Quem sobrou para eles descontarem o que ainda resta da enorme frustração pela sua morte? 

Nos últimos dias do cerco de Canudos, uma mulher capturada pelos soldados informou que, no arraial, as mães e as crianças não estavam mais recebendo comida; esta era só para aqueles que faziam fogo (atiravam). No dia 3 de outubro, quando, após negociações, se rendeu uma grande leva de canudenses, a grande maioria era de mulheres e crianças, cuja característica mais notável eram seus corpos esqueléticos, sua extrema pobreza e a sujeira de seus trajes, confirmando o relato da prisioneira. Negava-se-lhes comida, e entregavam-nas ao inimigo! Vimos, em ensaio anterior, que a rendição das mulheres era recomendada pelo próprio Conselheiro.

E os que faziam fogo continuaram a fazê-lo após a rendição das mulheres, aumentando a raiva e a frustração dos soldados — doidos para voltar, com seus amigos, para suas famílias — e que fatalmente iriam dirigi-las contra as prisioneiras, que sofreram abusos inacreditáveis, segundo os testemunhos dos sobreviventes.

Mas se o Conselheiro era implacável com os maus hábitos das mulheres, a recíproca não era verdadeira quando se tratava dos homens. Defensor do celibato eclesiástico, ele fazia vista grossa quando o padre Sabino ia presidir os sacramentos em Canudos, uma vez que este era pai de dez filhos, e da mesma forma os tinha o padre Agripino, de Itapicuru, seu amigo. (Robert Levine, O sertão prometido — o massacre de Canudos, trad. Mônica Dantas, Edusp, São Paulo, 1995).

Além da moral severa, havia a expectativa apocalíptica com que encarava as mudanças da época e o enfraquecimento dos valores tradicionais, vistos como um sintoma de 'fim dos tempos', de onde a necessidade de se submeter a sofrimentos auto infligidos de grande severidade. ‘O mundo é mau!’ Assim pregavam os missionários da Igreja, conforme instruções vindas de Roma, e, nessa linha, judeus, maçons, protestantes e republicanos eram todos ‘filhos do demônio’ (Levine, 1995, p. 280). Conselheiro nada corrigiu a essa doutrina, portanto ele era, religiosamente falando, intolerante e antissemita.

Segundo Levine, Conselheiro, embora "clemente", levava às pessoas um Deus absoluto, rígido e exigente, uma figura remota que só redimia em troca de muitas dores corporais e humilhação — à imagem de seu pai. A sua vida expressava esse lado severo, penitencial: vivia de esmola e dava o que sobrava, não tinha residência fixa e dormia no chão.

A visão de um Conselheiro manso e bondoso deve ser matizada pela época e pelo tipo de espiritualidade que ele assimilou por meio da Missão Abreviada. Conversando com algumas mulheres que haviam morado em Canudos, o jornalista baiano Lelis Piedade, do Jornal de Notícias, de 6 de setembro de 1897, no livro de Walnice Galvão, colheu o seguinte relato: "perguntei como o Conselheiro… conseguiu levar gente para si… Me responderam que o Conselheiro seduzia maridos e amantes, dizendo-lhes que, quem não os acompanhasse, os gafanhotos e uns pentes de ferro manejados por um cão preto lhes arrancariam as peles da cabeça aos pés."

Exagero à parte, isso se amolda à informação dada em outro parágrafo de que a maior iniciativa de ir morar em Canudos partia dos homens, de mentalidade mais aventureira e romântica, do que das mulheres, mais práticas e objetivas. Afinal, eram elas que cuidavam das crianças e costumavam pensar nelas antes de se atirar em uma aventura, e que o Conselheiro também recorria ao medo e à manipulação psicológica para alcançar o coração dos seus seguidores. 

No contexto do sertão e do catolicismo popular daquela época, alimentados pela teologia penitencial e apocalíptica, além de memórias da escravidão, as ameaças e os terrores eram praticamente inevitáveis. O resto é idealização ou fantasia que, por mais generosa que seja, não muda o caráter das duras relações de dominação, hierarquia e medo nas comunidades que o Conselheiro fundou, e em todas as outras.

A imagem dele, pintada pelo jornal O Rabudo, de 22 de novembro de 1874, com um camisolão azul todo sujo, com uma vasta cabeleira desgrenhada, sebosa, com uma espantosa multidão de bichos (piolhos), à qual acrescento: com fortíssimo odor de suor antigo, além do cheiro nauseabundo de outras secreções, é a que mais se aproxima da realidade, por ser assim que qualquer um fica quando se submete às condições em que ele vivia. Isso não é xingamento, é a natureza.

Para complicar, havia ainda as injunções políticas e econômicas interferindo nessa compreensão de mundo realizada em condições tão difíceis. Alguns padres aceitavam que ele pregasse, outros o proibiam. Os padres que o proibiam arranjavam uma encrenca com os comerciantes, que desejavam a sua presença, porque ela aumentava as vendas. Em Itapicuru, principal domínio de Jeremoabo, que era do Partido Conservador, o vigário, Padre Agripino da Silva Borges, senador estadual, ex-Partido Liberal, vivia convidando o Conselheiro para pregar, irritando o delegado, que era aliado do barão.

O padre Agripino era um amigo sincero, ou só o usava para espicaçar o barão?

Uma coisa tornava Canudos muito atraente aos comerciantes, e lhe rendeu apoio dessa classe, além do desejo de muitos em se mudar para lá: em Canudos, não se cobravam impostos.

Outra coisa que ajudou a criar fortes laços com a população foi o fato de ele aceitar ser padrinho de batismo de todas as crianças cujos pais o solicitavam, dando-lhes o prestígio da sua proximidade e intercessão religiosa. O batismo, nos sertões dos 1800, gerava entre pais e padrinhos uma relação recíproca de fidelidade e aliança que ia até a morte, como se ambos tivessem se tornado parentes de sangue. Nunca faltou gente para ajudar Canudos contra o Exército, apesar dos riscos.

Eduardo Simões

 

NOSSAS CRIANÇAS NOS SALVARÃO DE NÓS MESMOS?

Eduardo Simões

Minha filha e seu esposo estiveram recentemente nos EUA e voltaram impressionados, e muito bem impressionados, com uma coisa. Nas proximidades de todo restaurante ou balcão de venda de bebida, havia cartazes bem visíveis dizendo: ‘a partir daqui, criança (menor de tal idade) não pode passar’. Justo quando se dirigiam a uma agradável varanda externa de um restaurante, com sua filhinha pequena. Mudaram de programa.

Ninguém é louco de descumprir uma lei dessas... nos Estados Unidos, pois alguém certamente ligará para a polícia e o dono do bar, se não puder enxotar o infrator, não o servirá, para não se tornar cúmplice. Lá, a polícia, mesmo com suas falhas, é uma instituição respeitada e o povo ‘chama polícia’, enquanto aqui, um afamado compositor, muito querido pelo nosso Judiciário, aconselha há mais de 50 anos: ‘chame ladrão, chame ladrão, chame ladrão!’

Enquanto isso acontece nos EUA eu penso no quanto de vezes que eu já vi crianças entrando em bares e restaurantes para comprar bebida para seu pai ou algum adulto, que não quis se dar ao trabalho de não corromper seu filho. Menor bêbado? Já vi até em festa de escola ou de Igreja. Mas penso também em 2017, quando um 'artista' fez uma apresentação completamente nu, em um renomado museu, e vários pais levaram seus filhos e os incentivaram a interagir com o 'pelado'.

O deputado Kim Kataguiri protestou contra esse ato desarrazoado e deseducativo e uma violência contra a natureza das crianças; e, por causa disso, sofreu uma campanha de críticas encarniçadas por parte de alguns jornalistas e renomados artistas, falando em favor da liberdade de expressão, do enaltecimento da arte, etc. Embora fique difícil para alguém normal discernir o porquê de alguém, por autoproclamar-se artista, poder fazer coisas que outros, pela lei, não podem, ou ainda porque a nudez é proibida num espaço público e em outro, igualmente público, é autorizada. No embalo desse esculacho, o TJ-Rio autorizou que crianças, acompanhadas pelos pais, frequentassem uma exposição de pornografia em um museu da cidade. Uma professora chegou a levar sua turma de alunos.

Se perguntar não ofende, eu pergunto: quem dá um tiro de verdade em alguém dentro de um museu ou num palco de teatro, é um artista ou um criminoso? Se ele alegar que é um 'artista', isso servirá como atenuante? A gente começa a duvidar.

Se os nossos pais cuidam adequadamente de seus filhos, por que temos tantos menores cometendo crimes, e crimes dos mais graves, inclusive na recente profusão de estupros coletivos perpetrados por menores? Se não cuidam, por que o estado deixa que esses pais levem suas crianças a lugares inadequados ao seu nível de entendimento e maturidade emocional? Será que, para a justiça, as crianças não passam de objetos nas mãos de seus pais, e para compensar isso, faz os professores prestarem contas minuciosas aos alunos, e não aos seus responsáveis, como se as crianças fossem cidadãos de 'primeira classe',  e os professores meras babás diplomadas?

A contraparte também aparece: velhotes sexagenários ou mais, casados e com filhos, aparecem de repente nas primeiras páginas da imprensa e dos sites informativos, envolvidos em infames episódios de exploração sexual de adolescentes e crianças. E assim fecha-se o ciclo, a começar pela infância, de um 'espetáculo pornográfico' a outro, com o aval do nosso Judiciário, criaremos uma geração de velhos pedófilos.

Enquanto isso, a grande massa da população ainda pensante do país, cada vez menos numerosa, preocupa-se com a nossa estagnação econômica e a nossa incapacidade de sair da armadilha da renda média. Ora, para sair dessa armadilha, o único caminho conhecido é o que nós sempre nos recusamos a tomar: cuidar do ser humano, desde a infância, para o bem de seus familiares e amigos, de sua comunidade e do estado. Os americanos sempre fizeram isso e continuam fazendo, enquanto nós persistimos na senda errada que tomamos, sustentados pelas justificativas mais vazias e sem sentido, usando inclusive da proeminência da arte para corromper nossas crianças.

Querer que a criança se torne um adulto produtivo com um alto nível de eficiência profissional e social, interagindo cooperativamente com o seu meio, começa por garantir que as crianças tenham oportunidade a uma infância saudável, sem violência, sem pornografia, sem abandono e sem superproteção, mas cuidada por todos, pois antes de qualquer pessoa se tornar um produtor, ela precisa acreditar que é um ser humano, e que merece respeito e proteção compatíveis com a sua idade, o seu discernimento e a sua estrutura emocional. 



sexta-feira, 31 de julho de 2026


FEITIÇO VIROU CONTRA FEITICEIRO 

Eduardo Simões

Quando, em 1979, o inimigo incondicional, obcecado, alucinado, do Brasil, por acaso nascido em São Paulo, escreveu um dos livros mais pérfidos e cheios de mentira da nossa história: Guerra do Paraguai, um genocídio americano, os esquerdistas, muitos futuros militantes do PT, foram os que mais vibraram e tudo fizeram para espalhar as inacreditáveis mentiras que constam desse manual de ódio contra o Brasil e os brasileiros — lembro aqui que o senador petista Randolfe Rodrigues, suposto professor de história, agitou esse arremedo no púlpito do congresso quando de uma discussão sobre o aumento do preço da energia de Itaipu, em 2010 ou 11. Eu vi, eu ouvi.

O objetivo do livro, além de fomentar o ódio entre as duas nacionalidades, visava especialmente atingir o estrato militar, que naquele momento governava o país como uma ditadura, exatamente como acontecia com o Paraguai no tempo da guerra. Mas a ditadura de Solano López podia, era popular, heroica, progressista, enquanto a nossa devia ser combatida a todo custo, inclusive pela falsificação da história.

Infelizmente, o complexo de inferioridade e a ignorância dos brasileiros sobre a sua história entraram em campo, e esse lixo foi consumido como água, acreditando piamente que aquilo era sério. O autor até criou uma versão semirromanceada para a escola básica, para os brasileiros se acostumarem a ter vergonha de si mesmos e da sua história desde pequenos.  Pela primeira vez, a Guerra do Paraguai foi tratada como um genocídio dos brasileiros contra os paraguaios, por iniciativa de um ‘brasileiro’. Sob os auspícios das editoras brasileiras Brasiliense, fundada por notórios esquerdistas, entre eles o comunista Caio Prado Junior, elogiada pela Fundação Perseu Abramo do PT (https://fpabramo.org.br/o-papel-de-uma-casa-editora/) e a Ática, que lançou a versão escolar.

Deu certo! Hoje os paraguaios usam essa história e o termo ‘genocida’ contra nós, embora 'algo' tenha saído do roteiro: a primeira grande crise causada pela visão distorcida e falsa propalada por esse livro infame, mas tão engrandecido pela esquerda, foi justamente num governo de esquerda e no meio de uma disputa eleitoral. Isso não podia ser mais sintomático.

As palavras de Lula ditas no dia 30 de julho, dizendo que o Paraguai invadiu o Brasil, podem ser encaradas de duas formas:

1º — Científica e historicamente: ele está completamente certo!

2º — Politicamente: foi uma tremenda mancada, um tiro no pé. Esperemos que isso não se volte contra os brasileiros que moram lá e não cause demonstrações, lá, de xenofobia, pois, nesse assunto, eles parecem mais cegos do que nós, embora em seu próprio favor, neste ponto, o contrário de nós. Lula estava correto, mas não foi conveniente.

Para arrematar este assunto, por enquanto, deixo uma lembrança de dois esquerdistas encarnados, da década em que esse livro infeliz foi escrito, vestidos para sair e fazer sucesso.

 


Os grandes sucessos dessa dupla têm muito a ver com o universo da esquerda brasileira: Cama redonda: boa para quem vive desnorteado e não sabe por qual lado vai entrar para a história, e Marido só no documento: pois o socialismo só dá certo no papel.