sábado, 5 de setembro de 2026

 


A PROFECIA DE PITIRIM SOROKIN

Eduardo Simões

Pitirim Sorokin era um autêntico revolucionário russo, e por isso foi preso e perseguido tanto pela polícia tsarista como pelos comunistas, que ele, por ser inteligente e ter bons valores, detestava. Lenin, sanguinário que era, o prendeu por fazer oposição ao regime e o condenou à morte na década de 20. Posteriormente, comutou a pena de morte de Sorokin para exílio, com a fina flor da intelectualidade russa, que não tinha medo de pensar e se opôs às barbaridades do novo regime. Sorokin fugiu para os Estados Unidos e se naturalizou em 1930.

No seu novo país, Sorokin se tornou um dos mais reconhecidos sociólogos e, com Talcott Parsons, fundou o Departamento de Sociologia da Universidade de Harvard. Em 1947, escreveu o livro "Sociedade, cultura e personalidade, sua estrutura e dinâmica um sistema de sociologia geral", editado no Brasil pela Editora Globo, de Porto Alegre, em 1968, em dois volumes, traduzidos pelo prof. João Baptista Coelho de Aguiar e Leonel Vallandro.

Sorokin tem ‘sacadas’ geniais na sociologia, mas é um autor muito prolixo e obsessivo, que vai até os mínimos detalhes, deixando tudo muito bem explicado, o que é ruim para quem tem preguiça de ler. A sua tradução usa um vocabulário antigo e, às vezes, inadequado, senão proibido para os dias de hoje, mas quem conseguir superar o desconforto do vocabulário, fruto da nossa inconstância e gosto por modismos, e focar no sentido do texto, se impressionará com a sua profundidade e projeções futuristas impressionantes.

No primeiro volume, a partir da página 348, ele faz uma análise dos partidos políticos impressionantemente atual, apesar de seus quase oitenta anos, ou mais. Eis alguns trechos:

“Nos países que possuem vida partidária desenvolvida, nenhum indivíduo consegue escapar completamente de sua influência. Essa influência dos partidos é... considerada a principal origem dos defeitos... das democracias modernas.

O indivíduo, proclamado valor supremo e soberano independente do estado, em redor do qual devem girar todas as relações da vida pública... se tornou uma unidade tão pouco importante como era no início [quando não havia democracia]. A democracia moderna move-se dentro de um trágico círculo. A outorga de direitos às massas torna imperativa a necessidade de organizações para pôr em execução o processo eleitoral... Os partidos passam a ser os intermediários entre os eleitores e o Estado, apoderando-se gradualmente de todo o mecanismo das eleições e decidindo sobre os resultados destas [não é isso que vemos no Brasil de hoje, em que, na prática, dois movimentos políticos dividem entre si as chances de vitória?]... Além disso, o partido, suprimindo a independência de pensamento e só permitindo poucas críticas, converte-se numa espécie de seita fanática, onde os dogmas fossilizados substituem o pensamento vivo criador [como acontece com bolsonaristas e petistas, sempre a repetir palavras de ordem sem apresentar um único projeto para o país].

A atual forma de organização partidária conduz também à escolha de mediocridades e hipócritas para seus dirigentes [precisa comentário?]. Não sendo tolerada a independência de pensamento, os indivíduos de espírito criador, corajosos, honestos... evitam associar-se ao partido... [pois] se ingressam, formam uma minoria... dominada por homens de segunda ou terceira categoria, que modelam o partido... e que falam pelos votantes. Constitui-se então uma oligarquia de mediocridades... no esforço de obter tantos votos quanto possível, os partidos prometem ao povo “rios de leite...” os programas que se propõem a satisfazer múltiplos interesses, muitas vezes contraditórios entre si, permanecem vagos, indefinidos e obscuros em vários pontos impossíveis de serem executados. A autêntica vontade das massas... a opinião pública, continuam tão ignoradas depois como antes das eleições [durante as eleições são só promessas que não serão cumpridas, porque são inviáveis — não passam de delírios, alucinações, ou porque nunca foi propósito dos candidatos cumpri-las]... Daí a indiferença pelas questões políticas e o definhamento do espírito criador das massas. Manifesta-se então... uma falsa lealdade. Os cidadãos não se interessam pelas desordens que ocorrem na vida pública, porque elas são sancionadas pelo partido; em suma... o partido suprime a individualidade. Diante do partido, o indivíduo é uma quantidade desprezível... Em lugar de educar o indivíduo para a liberdade, o partido adestra os homens na subserviência. ‘A vida dentro do partido é uma ampla escola de obediência servil. As lições recebidas pelos cidadãos são lições de covardia e pusilanimidade. Quanto mais organizado for, tanto mais desmoralizados serão seus membros e tanto mais baixo o nível de sua vida social’ [não é isso que nos mostram os partidos nazista, fascista e comunista?].

.....

Mesmo os partidos abertos tornam-se grupos completamente fechados quando se trata de distribuir os despojos entre os seus membros. Os simples votantes do partido, tão ‘carinhosamente recebidos’ nessa condição, não têm a menor chance de participar da distribuição das posições, privilégios, sinecuras e benefícios do partido vitorioso, depois da eleição ou da revolução violenta.”

[No entanto, ainda há esperança; afinal, nem de longe os partidos incorporam sequer uma considerável minoria dos cidadãos de um país, uma vez que o objetivo é se apossar das grandes vantagens de ser governo, as quais são para muito poucos].

O partido, diferentemente do estado, da família e de outros grupos, não toma parte direta na formação do caráter do homem [se fosse assim, a humanidade estaria perdida], pois o indivíduo só se filia a ele quando já é maduro. Em geral, não é o partido que seleciona e prepara o indivíduo, mas é este... que escolhe o partido de acordo com suas inclinações.”

É impressionante que o texto acima tenha sido escrito há 80 anos, com base em observações que têm mais de 100 anos! A sua atualidade é desconcertante e é uma grande pena que o pensamento de Sorokin não tenha deixado nenhuma marca no Brasil, nem tenha encontrado aqui alguém que o aprimorasse e atualizasse a sua apresentação.

Quanto à questão dos partidos, creio que há um círculo vicioso. O povo desencantado e/ou corrompido vota em políticos ruins. Os partidos, vendo o sucesso dos políticos ruins, com suas estratégias desonestas de vitória, investem mais nos indivíduos que as usam. Há uma relação, por assim dizer, 'dialética' entre os maus partidos e a ignorância política das massas. Estas dão as diretrizes erradas para os maus partidos, e estes as agravam com os seus candidatos, alimentando a desonestidade, a mediocridade e a corrupção geral.

 

O sentido da vida é descobrir como a sua presença pode se tornar um presente para os outros, com os quais você compartilha significados, valores e normas, e tornar a presença dos outros um presente para você, ainda que eles não partilhem os mesmos significados, valores e normas que você.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

 


PEGA, LADRÃO!!!

Reação dos ministros do Supremo quando alguém, assustado por vê-los se aproximarem todos juntos, gritou:

— POLÍCIA!

 

O KAMIKAZE DE VORCARO

Eduardo Simões

Para quem não sabe, uns 99% dos mais jovens, durante a Segunda Guerra Mundial, desesperados com os avanços dos americanos e a derrota iminente, o alto-comando da marinha japonesa criou um grupo de pilotos, chamado kamikazes. Sua missão seria dirigir um avião cheio de explosivos para fazê-lo chocar-se, propositalmente, contra um navio americano. 

E assim salvar o Japão.

Baseado em um suposto relatório da Polícia Federal, composto só por ilações, sem apresentar um único fato concreto conclusivo, o Sr. Dono do Brasil e Ministro do Supremo nas horas vagas, Alexandre de Moraes, faz graves acusações a um seu colega. Segundo Moraes, possivelmente, supostamente, provavelmente, haja mais quem minta, o ministro André Mendonça estaria, quem sabe, talvez, desconfio, cometendo crimes gravíssimos na sua função de relator do processo dos crimes do banco Master. Em alguns momentos, parece que ele entra na consciência do seu colega e desvenda pensamentos e intenções mais recônditos de Mendonça. Quem já leu um livro de história marxista ou ouviu um analista de política dessa corrente sabe do que eu estou falando.

O mais curioso disso tudo, e até meio PSICÓTICO, é que a grande maioria dos crimes que Moraes atribui a Mendonça na condução dos inquéritos são EXATAMENTE IGUAIS, mas menos graves que os crimes que ele cometeu e ainda comete no inquérito interminável das FAKE NEWS.

DESORDEM, ESCULACHO, BAGUNÇA, ESCULHAMBAÇÃO, etc. é pouco para definir aquilo que está acontecendo agora na mais alta corte de ‘justiça’ do país. E se está assim lá nas alturas, o que não está passando pelos porões da sociedade? O país virou um sepulcro caiado. Então, Caiado para a presidência!

Mas, se considerarmos bem, a reação de Moraes até que tem uma certa lógica, embora não tenha moral nenhuma, mas quem, em Brasília, está se importando com esse ‘detalhe’ a essa altura dos acontecimentos? Não dizem por aí, o pessoal da esquerda e gente do tipo de Chico Buarque e Ruy Guerra, que não existe pecado do lado de baixo do Equador? Pequemos, pois, e colhamos o fruto. E nós sabemos qual é o fruto do pecado!

O fruto que Moraes quer colher, denunciando tão levianamente o único juiz do Supremo que se mostrou disposto a levar o caso de Vorcaro às últimas consequências, enquanto joga dentro do Supremo, da Polícia Federal, da Procuradoria Geral, a polarização odiosa que reina nas ruas, ameaçando levar tudo de roldão, até o próprio país, só pode ser um: a absolvição de Daniel Vorcaro pela nulidade de todo o processo.

As acusações contra Mendonça são tão graves quanto levianas. Por desvios e indícios muito menores, grandes e graves processos na Lava Jato foram anulados, bandidos confessos soltos, multas milionárias extintas e, por pouco, não assistimos à devolução de bilhões de reais de dinheiro público, recuperados na operação, aos que os roubaram escandalosamente, mas parece que só faltou isso.

E o que vai acontecer agora, que o juiz do caso mais escandaloso da República anos é denunciado nesses termos por seu próprio colega do Supremo, pela Polícia Federal e pela Procuradoria Geral da República? Só resta soltar Vorcaro, pedir-lhe desculpas por tanto incômodo, alguém propor uma lei transformando-o em Herói Nacional e transformar o dia de seu nascimento em feriado nacional. Fora isso, não resta mais nada, exceto o nosso antigo hábito de ver o país desmoronando ao nosso redor e continuar fingindo que está tudo bem.

O lema de Moraes, nesse caso, é: “destrua-se a minha reputação e minha própria carreira, o Supremo Tribunal Federal, a Procuradoria Geral, a Polícia Federal, e até mesmo o próprio país, mas salve-se Daniel Vorcaro!”

Só falta vir a cara dele em cédulas de real de um milhão para cima, óbvio, impressas por ele mesmo. 

Lindão é pouco!


UMA PALAVRA DE ESPERANÇA: SOCORRO!


Não há porquê desesperar,

Que Alcolumbre, do Amapá,

Há de vir para nos salvar.

Na foto acima, diante de uma seleta plateia, o Presidente do Congresso Nacional, o único que pode barrar os excessos do Supremo, faz um gesto exagerado de alegria após ouvir o Presidente da República, Lula, fazer a declaração mais importante do seu governo: “Em setembro vai entrar o grosso!”* Que ficou desconfortável com tanta alegria.


* Essa frase foi dita originalmente em julho de 2023. A propósito, estamos em setembro,

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

 


ESTÁ SEM DONO O PAÍS DE  NINGUÉM?

Agora que foi liberado o relatório-documento que liga Alexandre de Moraes, o pupilo e depois menino-prodígio do Geraldo Alckmin, que ficou maior que o seu tutor. Aprendeu até a voar. Mas quem não voa com os salários e os penduricalhos que recebe do Supremo brasileiro? Estes dão um tal calor nos bolsos que fazem evaporar a consciência, e assim, mais leve, o indivíduo voa, e nesse caso Brasília é o limite ou o fim do mundo, pois o quinto dos infernos ficou muito atrás.


É sempre bom saber a VERDADE, mas precisamos sabê-la toda, não vazada apenas nas partes que 'interessam' e em momentos chaves. O ministro André Mendonça ainda está nos devendo os relatórios ou os vazamentos de Flávio Bolsonaro, Dark Horse, etc. Há clara seletividade no que é 'vazado', na República do Vazamento, ou eufemismo para designar TRAIÇÃO, a única virtude possível num sistema que caminha para o totalitarismo judicial.

Há o temor generalizado de que o Brasil se transforme numa república de BANDIDOS, num país falido, embora, pela imagem acima, devamos reconhecer que a nossa vocação está mais para CIRCO MAMBEMBE ou RINHA DE PINGUÇOS. Algo do gênero, como tipo pátio de escola na hora do RECREIO de adolescentes malcriados.

Então ele não sabe beber ou não bebe.

Antes que me acusem de algo, vou preventivamente afirmando: seres humanos não voam, embora alguns vivam com a 'cabeça nas nuvens'. Normalmente é o sucesso que sobe à cabeça, e, embora Alexandre de Moraes não prometa voo muito longo, nesse dia, na sua posse no Supremo (acima), ele não voou nem estava assim tão cheio de gases, embora a ausência de bajuladores por perto nos faça especular sobre essa possibilidade.


 



O PECADO IMPERDOÁVEL

Eduardo Simões

Um dos mais preocupantes alertas que Jesus Cristo deixou para os seus seguidores, e os outros, todos comparados a ovelhas, era a possibilidade de um pastor preguiçoso ou despreparado tomar conta do rebanho, expondo-o ao ataque de predadores. Estes, aproveitando-se da inépcia dos pastores, esfolarão o rebanho sem piedade.

Essa possibilidade praticamente desapareceu no regime democrático, no qual as ovelhas, agora transformadas, nominalmente, em CIDADÃOS LIVRES E CONSCIENTES, aptos, pela idade, a eleger e controlar as ações de seu próprio pastor, prevenindo-se até dos bons pastores que, porventura, se corrompam na caminhada. O melhor dos mundos, o mundo perfeito, que nem Jesus Cristo imaginou!

E se as ovelhas PERDEREM A CAPACIDADE DE DIFERENCIAR OS PASTORES DOS LOBOS?

Uma das maiores vitórias do regime autoritário-militar que vigorou por 20 anos no Brasil foi a sua capacidade de extirpar, pela raiz, a capacidade de resistência do povo brasileiro, no seu legítimo direito de garantir o atendimento dos interesses da coletividade, para além do estreito círculo familiar. Aliás, os militares, percebendo a oposição que a força das relações familiares colocava contra os seus desígnios repressivos — a luta contra os desmandos do regime veio antes de familiares condoídos da brutalidade da repressão, que de projetos ideológicos claros e divergentes dos militares — atacaram-na nas suas raízes.

Aos poucos, a coesão da antiga família brasileira, inclusive aquela que saiu às ruas na ‘Marcha da Família, com Deus pela Liberdade’, começou a ser corroída por dentro, seja por razões políticas circunstanciais, manter o poder dos militares, seja por alguma razão estratégica maior: a criação de um regime autoritário, de matiz positivista, sustentável. O projeto inicial dos militares republicanos de 1889, com algumas atualizações. 

Ao mesmo tempo em que se vivia uma forte repressão política, ocorria uma grande liberalização nos costumes: as revistas masculinas como Playboy, Hustler, sem falar das nacionais Ele e Ela, Status, etc., a princípio envoltas em plástico opaco, começaram a tornar público e, de certa forma, ‘natural’ a aproximação dos sexos baseada apenas no prazer. Ao mesmo tempo se esvaziava a antiga relação homem-mulher, voltada para o casamento, sede de afetos duradouros e irracionais, que fazia pais e mães direitistas lutarem por todos os meios para que seus filhos, esquerdistas, não fossem massacrados nas entranhas do regime. O caso do arquiconservador Nelson Rodrigues, um escritor que discorria sobre temas sexuais considerados tabu pela sociedade, é exemplar. Calou fundo vê-lo, idoso, já muito famoso, tentar se ajoelhar em um dos mais famosos programas de TV da época, para pedir compaixão dos militares pelo seu filho preso, como guerrilheiro do MR-8. Eu vi! Essa família precisava ser destruída.

Mas, enquanto o povo era convidado a liberalizar suas relações sexuais, familiares etc. naquela filosofia ‘viva e deixe viver’, na alta sociedade, o grupo mais próximo ao regime, continuava-se a resolver pelo jeito antigo, à bala, as desavenças e infidelidades entre homens e mulheres. Preservava-a a tese da legítima defesa da honra...

Paralelo a isso, outros ‘avanços’ começaram a ocorrer: produtos importados, em especial bebidas, guloseimas, eletrodomésticos, etc. começaram a aparecer em profusão; o estilo de cinema chamado pornochanchada deslanchou e virou epidemia nacional, até serem liberados produções com sexo explícito em 1980. Com a pornochanchada apareceram também películas baratas eivadas de uma filosofia rala, tipo nihilismo de botequim, que procurava convencer o espectador que o mundo era uma droga, que não valia a pena tentar melhorá-lo, e nesse aspecto podemos dizer que houve uma aliança entre a esquerda, extrema ou não, com a extrema direita a inculcar nas pessoas comuns que a família tradicional era apenas um abismo de hipocrisia e de comportamentos antinaturais, etc.

No final, eles venceram. A mensagem principal do regime era: “viva a sua vida, goze as delícias do milagre brasileiro e não se meta naquilo que não é problema seu”, e cabia até uma ameaça: “ou sofrerá as consequências”. Após tanta repressão e perseguição pelos mais variados meios, e ataques à raiz dos problemas, os militares foram quebrando a tradicional solidariedade intra e interfamiliar, que criava grandes conjuntos de clãs e oligarquias ligadas pelo parentesco e a simpatia automática que os membros desfrutavam entre si — alguns grupos familiares promoviam encontros ou congressos anuais, anunciados nas mídias — até o indivíduo ficar irremediavelmente só. Era só ele e o seu acusador ou o seu torturador, este com uma nutrida retaguarda; afinal, a solidariedade entre os membros das Forças Armadas foi não só preservada como também mais reforçada por meio de punições severas aos traidores e inúmeras vantagens adquiridas à custa do Tesouro Nacional. Neles ninguém tocava, sem uma reação do conjunto.

Mas isso não é um movimento unilateral, só dos militares para o povo ou a grande massa do povo, pois este também é culpado por ter desistido — afinal, o dito não é que os brasileiros não desistem nunca? — e ter entrado no 'esquema' dos militares para também gozar vantagens. Muita gente foi fraca e se deixou comprar.

Os valores abstratos morreram, a inteligência definhou, pela violência ou pela força de ideologias burras, impermeáveis à realidade. O que importa agora é cada um cuidar de si, muitas vezes às custas até dos parentes e familiares mais próximos. Mas, num ambiente desses e com uma disposição dessas, quem vai aprender, a distinguir o amigo do inimigo, se o seu bem-estar individual é o único critério de ação? Seria perda de tempo.

O homem-mau só pensa no seu bem-estar; ele é para si mesmo a única medida de todas as coisas, portanto não lhe interessa saber, nem ele tem ferramentas mentais para guiá-lo nessa busca, quem é bom e quem não é. Mesmo se alguém for bom para ele, ele o usará enquanto for conveniente e depois o descartará. Ele está estruturalmente incapacitado para discernir a diferença entre o bem e o mal.

Bem diferente é o homem-bom, que desde o início sabe que a sua opção pessoal sofre constante ataque daqueles que não suportam o seu modo de agir, que contesta, pelo simples fato de existir o egoísmo do homem-mau. O homem-bom precisa conhecer. Conhecer a si mesmo, para entender as suas potencialidades e evitar o que pode lhe fazer mal, mas também conhecer o mundo e os outros homens para ajudá-los, porque o fato de ser bom faz com que se preocupe com o destino dos outros, também porque ele sabe que a maldade crescente do mundo é uma ameaça ao seu estilo de vida e às suas opções morais.

Assim, não é de admirar que, mesmo após a saraivada de escândalos de um lado e de outro, e mesmo a ausência dos dois principais candidatos à presidência nessa eleição, num completo desrespeito aos eleitores, eles continuem liderando com folga a disputa presidencial, um deles com já 80 anos, falando bobagens, e o outro sem experiência administrativa, ou suposto conteúdo no cérebro. Só faltam uivar! Outros candidatos com muito menos suspeitas e vida política impecável não são sequer considerados, e não é a primeira vez que isso acontece.

E isso nos leva a outra questão grave. Certa vez, quando o “homem-Deus” pregava sua mensagem e fazia grandes sinais, os seus inimigos diziam que o bem que ele fazia, fazia-o por força do mal que estava nele e que ele corporificava na sua pessoa. Nesse momento, ele fala do PECADO IMPERDOÁVEL, fruto de uma confusão ontológica entre o bem e o mal, que leva à incapacidade de discernir o que é bom do que é mal, por excesso de convivência com o mal e desinteresse pelos outros.

Não é isso que nos acontece agora?


terça-feira, 1 de setembro de 2026

 

A REPÚBLICA PUTREFATA. SERÁ O INÍCIO DO FIM OU O FIM DO COMEÇO?

É o fim de um desvio errado ou de um projeto de República que começou errado?

Depois de Débora Rodrigues ter pego 14 anos por ter ‘pixado’ com batom uma estátua, e outros velhinhos e velhinhas terem pego igual pena por quebrar vidraças na Praça dos Três Poderes, que pena poderá ser dada a um juiz do Supremo Tribunal que se associa a um criminoso miliardário que desviava o dinheiro público de aposentadorias miseráveis dos velhos pobres desse país?


Não nos esqueçamos nunca de que foi o PSDB de Alckmin quem trouxe Alexandre de Moraes para a vida pública e lhe conferiu o poder que tem hoje.

Talvez seja o início da tempestade perfeita que há meses, talvez anos, está se formando no nosso horizonte, e parece que agora vai desabar. O país sobreviverá? Estamos muito cansados dessa pasmaceira, dessa repetição dos mesmos erros e escândalos sem fim.


segunda-feira, 31 de agosto de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 38


O passageiro da agonia

Não há documentos, entrevistas ou qualquer relato que nos esclareça o porquê do aparente frenesi do Coronel Moreira César ao chegar em terras baianas. Se é que houve, pois os observadores presentes são unânimes em constatar que, apesar da pressa aparente — ou seria a eficiência do deslocamento? —, tudo corria em ordem, disciplina e calma sob o seu comando.

Será que essa pressa foi inventada por aqueles que queriam apresentá-lo como um desvairado?

Alguns criticam o coronel César por não ter se avistado com os chefes militares das outras expedições, perdendo informações que poderiam ser “vitais”; mas vamos pensar melhor:

a) O Tenente Pires Ferreira nem conseguiu chegar perto de Canudos e, embora tenha feito algumas observações técnicas interessantes, ignoradas, ele é também autor de um espalhafato, ao dizer que com mais cem homens, teria ido a Canudos e resolvido tudo. Ele participou da expedição de Moreira César, que certamente tirou dele tudo o que interessava.

O Tenente Ferreira não é político, como Febrônio, embora Gonçalves o chame de “amigo”. Seu relato é objetivo e ele viu a precariedade das armas e do modo de combater dos canudenses, daí deduziu que seria possível uma ação contundente, mesmo com uma pequena força. E ele estava parcialmente correto, contanto que não fosse uma força de só  200 homens.

b) O Major Febrônio de Brito voltou sem ver Canudos. Ele mostrou pouca habilidade em lidar com as questões políticas e com o abastecimento da coluna. Recuou assustado, após perder somente 1,6% de sua força, dando à sua retirada a conotação de uma fuga. Depois, ele passou a confrontar furiosamente o governador. Moreira César seria louco se buscasse conversar com ele, arriscando o apoio do governador, o principal fornecedor de mantimentos.

c) Efetuemos uma comparação: Pires Ferreira perdeu dez homens e chegou a pouco mais de 100 km de Canudos. Febrônio também perdeu 10 e chegou talvez a cerca de 6 km de Canudos. Arthur Oscar e Savaget, à frente de duas brigadas independentes, chegaram a Canudos com centenas de mortos e feridos. Quantos pereceram da expedição de Moreira César antes de chegar a Canudos? Dois. Ele mostrou habilidade tática e surpreendeu os canudenses.

Há, sobre isso, mais um detalhe: os jornais O Paiz e Gazeta de Notícias, quando narraram o avanço da 3ª Expedição, projetaram o ataque para 24 de fevereiro. Ora, o ataque só aconteceu em 3 de março. Será que ele acampou a uma curta distância de Canudos e ficou lá, preparando a tropa, dando uma falsa ideia aos canudenses e aos florianistas infiltrados de que ele não atacaria, para então pegar a todos de surpresa? Como de fato ele pegou.

A chegada de Moreira César também causou apreensão entre os oposicionistas. Os gonçalvistas lembravam-se de sua atuação na deposição de Gonçalves, em 1891. Um amigo do barão, Ubaldo da Silva, que morava no Rio de Janeiro, escreveu-lhe uma carta em 15 de fevereiro de 1897, na qual diz: 

"Para dar cabo de Antônio Conselheiro… não era preciso mandar aí o coronel Moreira César, homem… sanguinário por índole [no Rio falavam dos fuzilamentos de Anhatomirim], o qual vai talar de cadáveres o solo do nosso querido sertão.

Se o César cercar os Canudos, manda matar até as crianças e mulheres. Não estou fantasiando, pois foi isso que aconteceu em Santa Catarina (Consuelo Novais Sampaio, org., Canudos: cartas para o barão, EDUSP, São Paulo, 1999, p. 142–143).

O espalhamento de boatos contra César era extenso e encarniçado, mas ele não ligava, não se justificava nem se desviava um milímetro do seu objetivo. A sua capacidade de manter o foco é impressionante, típica de quem tem muito autocontrole. Outro amigo de Jeremoabo, Francisco P. de Carvalho Aragão, escreveu-lhe, do Rio de Janeiro, uma carta muito reveladora, datada de 10 de fevereiro de 1897:

“Nomeação do cruel Moreira César para comandar a 2ª expedição [na verdade, a 3ª]… O assassino dos infelizes prisioneiros da Ilha do Governador [em nenhum lugar li sobre isso] e de Santa Catarina vai fazer uma carnificina medonha nos maltrapilhos… de Canudos (idem, p. 138).”

Porém, logo adiante, o mesmo Francisco Aragão confirma o que já dissemos antes sobre o porquê da ida de Moreira César ao Rio:

“Ele já foi mandado buscar [de Santa Catarina] com toda a pressa para conter o jacobinismo na última tentativa de deposição de Prudente (idem, idem).”

A má vontade em relação a Moreira César tem muito a ver com o que aconteceu na deposição de Gonçalves, o que deve ter feito os gonçalvistas acreditarem que ele ficaria 'cozinhando' a situação, subserviente a Viana e Vitorino. Mas, quando ele atacou resolutamente o arraial, a coisa mudou, e ele passa a ser tratado pelos gonçalvistas como heroico, inditoso, bravo e intemerato. Etc.

Francisco Aragão também faz uma crítica a Manuel Vitorino, que mostra que ele seguia a mesma estratégia de Floriano.

“A economia prometida não passa de uma burla. Os ministros estão cortando… os pequenos salários dos civis para aumentarem os vencimentos dos militares.

Estes tiveram agora o abono de 3 meses de soldo adiantados, além dos extraordinários adiantamentos feitos no tempo… do Floriano… há oficiais do exército que, vivendo cem anos e chegando aos últimos postos, não conseguirão saldar os seus débitos com o Tesouro (idem, 139).”

 Foram provavelmente os grandes proprietários gonçalvistas do sertão ou gente ligada a eles (professores, advogados, médicos e até padres); gente que lia e assinava jornais, que espalhou pelo sertão, para fazer medo aos canudenses ou para jogar o povo contra o governador, o apelido de corta-pescoço.

Após pernoitarem, uma parte no navio, outra parte no forte da Jiquitaia, as tropas foram para a estação de Calçada, no subúrbio de Salvador, onde pegaram um trem em direção a Queimadas, a estação mais próxima do teatro de operações. Calçada estava lotada. Segundo Oleone Fontes (p. 31), havia cerca de duas mil pessoas alvoroçadas, entre elas autoridades políticas e administrativas, civis e militares, da Bahia, para ver a partida. Era o dia 7 de fevereiro de 1897.

O trem passa por uma sequência de estações ferroviárias, com uma breve parada em Alagoinhas, 123 km de Salvador, às 19 horas do dia 7. A estação estava lotada.

Seguem-se Aramari, Ouriçanguinhas (Ouriçangas), Cipó, Água Fria, Lamarão, Serrinha, a 173 km de Salvador, onde a tropa chegou às 2h00 da madrugada, e os oficiais puderam fazer um “lunch”, oferecido pelo comissário de polícia. Segundo Fontes, p. 69, a partir daqui a vegetação começa a mudar acentuadamente, desaparecendo as “matas opulentas do litoral” e os “brejos”, perto dos quais estão os canaviais. É uma zona de transição antes de adentrar o sertão da caatinga.

Vieram Salgado, Santa Luzia, onde o trem chegou entre 6:00h e 6h30 e os soldados puderam esticar as pernas. Nessa cidade, brotaram lendas a respeito de inimizade e até ameaças de Moreira César contra o coronel José Martins Leitão, grande proprietário, aliado de Viana, acusado por Febrônio de Brito de ser amigo e fornecedor do Conselheiro. Segue a estação de Rio do Peixe e, afinal, Queimadas — o livro de Leone Fontes tem uma lista completa das estações ferroviárias dessa linha. Recomendo.

Queimadas foi alcançada no dia 8 de fevereiro de 1897, às 8:00h. Aqui a tropa teve que desembarcar para prosseguir a pé, porque a ferrovia seguia para Juazeiro, desviando-se de Canudos. Segundo Fontes, p. 78, aí o esperavam 180 praças da polícia baiana. Ele então passa um telegrama a Luiz Viana:

“Aqui chegamos sem novidade. O Dr. chefe de polícia [Félix Gaspar]… tem empregado todos os esforços para remover dificuldades. Desejo muito que o 20 de Infantaria de Sergipe vá estacionar em Jeremoabo ou Bom Conselho.”

Felix Gaspar, por sua vez, em relatório ao governador, acrescenta:

“Coronel Moreira César, a quem por conta do estado forneci abundantes meios de transporte e munições de boca... Logo depois da chegada dele àquela vila [Queimadas], começou-se a fazer o movimento das forças que, em breves dias, terminou com facilidade e ordem que soube imprimir ao serviço o notável militar (Oleone Fontes, O Treme-Terra).”

Segundo a imprensa, a tropa estava bem abastecida e organizada, se deslocando com calma e eficientemente célere. Bem diferente dos que denunciaram açodamento e desorganização. Nesse meio tempo, ele manda um telegrama ao Ministro da Guerra.

“Estou em Queimadas… para o mais breve possível seguir para Canudos. A força está muito animada. Sem ocorrer caso algum de indisciplina. Há muita dedicação. O estado sanitário, ótimo. Governador e mais autoridades… solícitos em me auxiliar. Só temo que o fanático Antônio Conselheiro não nos espere (idem, p. 83).”

Finalmente, a caatinga está à vista. E o próximo destino é Monte Santo. No dia 11 de fevereiro, parte de Salvador uma unidade do Exército, o 9º B.I., sob o comando do coronel Pedro Nunes Batista Ferreira Tamarindo. Nesse mesmo dia, Moreira César manda um novo telegrama ao Comando da 3ª RM.

“Em vista das notícias da fuga do Conselheiro [meu destaque], apressar as operações me parece de grande vantagem; por isso poderão vir do 16º Batalhão de Infantaria apenas 100 homens para ficarem guardando Monte Santo, que é a base de operações, e vir também o coronel Souza Meneses para comandante dessa base… Vinda de 100 homens poderá ser feita com urgência, o que não se dará com o batalhão [cujo número oscila entre 300 e 1.000 homens] (idem, p. 87).” 

De fato, haviam desembarcado recentemente em Salvador 300 homens do 16º BI.

De onde ele tirou essa história da fuga do Conselheiro? Parece que ele está jogando, tentando burlar ou se desvencilhar de alguma coisa, de alguém ou de algum compromisso que, aparentemente, quer prolongar a sua estadia na Bahia. O que será? O telegrama seguinte vai no mesmo diapasão:

“Dr. Governador. — Nada nos tem faltado. Só me preocupo apressar movimento, pois estou convencido qualquer demora será prejudicial. (Idem, p. 87).”

No último telegrama expedido em Queimadas, na tarde do dia 10, ele mostra ao governador da Bahia os seus receios e o seu objetivo ali:

“Só receio a fuga dos fanáticos… já providenciamos Tucano ouvir amigos. Desejo saber vossa opinião, caso coluna receba confirmação notícias, sendo que considero em todos os casos, nosso único objetivo prender os fanáticos de Antônio Conselheiro (Aristides Milton, A Campanha de Caudos, vol. 5, Senado Federal, Brasília, 2003, p. 71).”

Eduardo Simões 


sexta-feira, 28 de agosto de 2026

 


SÓ TEMOS CERTEZA DE DUAS COISAS NESSA VIDA: QUE VAMOS ERRAR E QUE VAMOS MORRER.

AS PESSOAS DEVEM ENCARAR OS OBSTÁCULOS QUE APARECEM COMO DESAFIOS E OPORTUNIDADES PARA NOVAS APRENDIZAGENS,  E NÃO COMO OFENSA PESSOAL.

 


ESTE PAÍS ESTÁ, CADA VEZ MAIS, UMA VERGONHA!

Eduardo Simões

O presidente ignorante deste país, que se gaba de ser ignorante e de não ter estudos, assinou recentemente a autorização para a devolução do canhão El Cristiano ao Paraguai. Tudo por um momento na TV que não seja se defendendo de escândalos do seu governo ou de familiares.

Essa não é a primeira vez; afinal, em 2012, esse mesmo ignorante já havia transferido por 112 milhões de dólares duas refinarias que acabaram de custar 130 milhões, sem falar da perda dos lucros que essas refinarias poderiam dar e das oportunidades perdidas de negócios que poderiam ser feitos com esse dinheiro. O governo da Bolívia as tomou na marra e nos enfiou pela goela. Até parece que o ignorante que nos governa trata o patrimônio público como se fosse propriedade privada, que ele dispõe como bem entende, assim como os antigos coronéis do sertão de onde ele saiu, reproduzindo o modelo da infância.

Da mesma forma, o canhão El Cristiano não pode ser visto apenas por seu valor em metal ou peça de exibição, como um fotoprint de uma aventura do passado, mas antes como um símbolo e uma testemunha. Ele é o símbolo do valor de nossa RAÇA, que, mesmo em circunstâncias tão difíceis, foi lá e venceu. É também testemunha de quanto os nossos antepassados sofreram e morreram nessa guerra, em condições miseráveis, só para fazer calar esse canhão e, posteriormente, trazê-lo para casa, como um troféu e uma garantia de que ele não mataria mais brasileiros. Esse canhão é o testemunho da coragem, da bravura e da dedicação de nossa raça, no tempo em que os brasileiros não desistiam nunca, e por isso o país estava cheio de quilombos e de heróis. Esquecidas ou ignoradas no meio de tanta corrupção e ignorância.

Devolver pura e simplesmente esse canhão, 'tomado no braço' pelos nossos heróis, sem qualquer contrapartida, é tripudiar a memória de nossos antepassados, agredidos covarde e surpreendentemente pela iniciativa do tirano paraguaio. 

E que contrapartida os paraguaios poderiam dar?

Como todos sabem, ou deveriam saber, após a declaração desastrada, mas verdadeira, do presidente atual, de que o Paraguai iniciou a guerra, o país vizinho, oficialmente, convulsionou. O presidente se manifestou, o congresso local também, acusando-nos de ter começado a guerra e de ter praticado um genocídio no meio deles, quando qualquer um que não seja um ignorante ou um mal-intencionado sabe que não foi assim.

Tudo bem, talvez eles não consigam nos devolver os ossos dos passageiros sequestrados no Marquês de Olinda. Mas podem assinar um documento reconhecendo que foram eles que deram início à guerra, pedindo desculpas por nos terem ROUBADO o navio de passageiros Marquês de Olinda, por terem sequestrado e depois assassinado brutalmente, por meio de maus-tratos, privações e fome, alguns passageiros desse navio e o cônsul do Brasil em Assunção. Pedir desculpas por ter invadido, SEM PROVOCAÇÃO ou DECLARAÇÃO DE GUERRA, o Mato Grosso e depois o Rio Grande do Sul. Que não coube ao Exército Brasileiro a responsabilidade por LEVAR CRIANÇAS AO CAMPO DE BATALHA, mas ao seu próprio governante, e que as mortes na guerra foram decorrentes da dinâmica do conflito e não de um plano pré-estabelecido do Exército Brasileiro.

De quebra, pode vir até um agradecimento pela diplomacia imperial ter impedido que a Argentina anexasse completamente o país.

Ao devolver esse canhão ou qualquer outro troféu dessa guerra em nossas mãos, sem contrapartida, é o mesmo que:

A) Corroborar a mentira de que nós começamos a guerra e cometemos um genocídio proposital no país, e talvez, em breve, tenhamos de pagar bilhões e bilhões de indenização por um crime que eles cometeram, e ainda cometem com suas crianças, ocultando-lhes a verdade — e se for num governo de esquerda, alguém duvida que esse dinheiro não será pago?

B) É chamar de genocidas e agressores bárbaros os milhares de homens e mulheres que, em meio aos maiores sacrifícios, ganharam essa guerra para nós ou para a nossa elite, da qual esse presidente ignorante agora faz parte, e que, até hoje, não mereceram reconhecimento ou qualquer coisa que expresse, no mínimo, o agradecimento que a nação tanto lhes deve, se não as indenizações aos seus descendentes por promessas feitas na ocasião e nunca pagas.

C) Ajudar a perpetuar essa guerra na cabeça dos paraguaios, que até hoje nos odeiam por algo que os seus próprios antepassados fizeram por livre e espontânea vontade. É manter sempre um inimigo junto às nossas fronteiras, perdendo a oportunidade de acertar de uma vez por todas essa questão.

No momento, parece que brasileiros e paraguaios vão continuar dedicados a fazer o que sabem fazer de melhor: estragar o seu passado. Os paraguaios canonizando seus bandidos, os brasileiros demonizando os seus heróis.


É, meu amigo, no final você perdeu essa guerra, e a perdeu várias vezes. Foi convocado à força pelas patrulhas de alistamento, ou quem sabe saiu direto de uma senzala para o front de guerra, com um treinamento precário, uniforme improvisado e inadequado para o conflito, sequer um quepe que se ajustasse à sua cabeça. Lá você sofreu frio, fome, cansaço, doenças, picaduras de animais peçonhentos e de nuvens de mosquitos, mal-estar de doenças, as dores dos ferimentos e o estresse permanente da proximidade da morte, além de comandantes ineptos. E o pior de tudo: o monte de amigos que você viu mortos, estraçalhados à sua frente, e os homens que você foi obrigado a matar, para não morrer.

Mas, mesmo assim, você e seus companheiros venceram. E, por causa de sua vitória, esse país saiu engrandecido, assimilou novos territórios, e todos os outros países da bacia platina entraram num momento de grande prosperidade. Uma prosperidade que você e os seus descendentes não puderam usufruir no Brasil, muitos dos quais faleceram em estado de semi-indigência em asilos públicos e casas de caridade, sem receber as indenizações prometidas na hora dos embarques. Quem conhece os horrores de suas memórias, gravadas como ferro em brasa na sua mente, e que lhe apareciam em sonhos e mesmo com os olhos abertos? Marcas que deveriam estar naqueles que mais se favoreciam com o tipo de sociedade que existia aqui. Mas não era assim que as coisas funcionavam.

Hoje os descendentes daqueles que desguarneceram irresponsavelmente as nossas fronteiras do sul, estimulando o Paraguai a nos atacar, que fizeram promessas vazias, nunca cumpridas, de prêmios e recompensas aos que foram, em geral pretos ou pobres, querem devolver, sem mais, os troféus que vocês trouxeram, enquanto os antepassados dessa elite ficavam confortavelmente nas casas grandes, casarões e palacetes, a promover escândalos, como agora, e a pisar nos mais elevados valores civilizacionais, pelos quais vocês davam suas vidas.

O Brasil todo deveria se levantar em um único brado e gritar um MUITO OBRIGADO! Mas, sinceramente, a única coisa honesta para dizermos, se um dia nos encontrássemos com um homem desses, seria: SINTO MUITO!