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O DNA DA HISTÓRIA
O CORONEL MOREIRA CÉSAR E
CANUDOS DEVEM MORRER
A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 20
RIO
DE JANEIRO
Rumo ao Vaza-barris
João Maurício Wanderley, o Barão de Cotegipe, da Bahia,
se notabilizou, no tempo do Império, de duas maneiras: a primeira, por lutar
contra a Lei Áurea, imaginando o prejuízo que esta causaria à economia e a
imprevisão sobre as dificuldades que os ex-escravos teriam em se integrar à
sociedade; a segunda, por suas profecias sobre o final do Império e início da
República.
Em setembro de 1884,
numa reunião em sua casa, na presença de dois amigos, ele falou:
— “A Princesa não há
de subir ao trono e, se subir, terá chegado a vez da República, que deverá ser
feita por nós, conservadores; porque, se o for pelos liberais, desunidos e
desorientados como estão, não serão capazes de manter a integridade deste
colosso, a qual vale mais que a sua forma de governo… As constituições não se
fazem olhando para o exterior do país” [como o fez Rui Barbosa, em 1891].
Um dos amigos falou que
talvez a República não esperasse a filha do imperador.
— “É possível, mas será
um desastre; porque, se a República esperar o
romper do dia e sair à rua ao cair da noite [talvez no sentido de
“após o fim da noite”, como de fato aconteceu], depois de tatear algum
tempo nas trevas, dará com tudo isto em Vaza-Barris…” (1)
(p. 36)
O processo de
republicanização do Brasil, entretanto, ao contrário do que queria Cotegipe,
foi dominado por liberais como Rui Barbosa, Floriano Peixoto, Silveira Martins,
chefes dos federalistas gaúchos, etc. Rui fez-nos uma Constituição, no molde da
americana. No Rio Grande do Sul, Floriano afiançou a ditadura do republicano
histórico Júlio de Castilhos, contra o seu ex-colega liberal Gaspar Silveira
Martins, desencadeando uma das mais selvagens guerras civis da nossa história.
Na Bahia não foi
diferente, pois Rui, aproveitando-se de sua influência no governo Deodoro,
mexeu os pauzinhos para garantir as melhores colocações para seus antigos
correligionários liberais. A Bahia, como o Rio
Grande, virou um caos! E, no final, veio Canudos. Luiz Viana e seu preposto:
Joaquim José Rodrigues Lima, sem falar de César Zama, eram todos liberais!
Por que será que era
tão importante aos republicanos aplicar o golpe ao anoitecer, e não esperar o
amanhecer? Tenho uma teoria a esse respeito, mas só vou falar no final.
Cotegipe, pelo visto,
conhecia profundamente o Brasil e os brasileiros, uma habilidade perdida pelos
nossos políticos, e mais uma vez profetizou, dessa vez na companhia de Antônio
da Silva Jardim, o Silva Jardim, o republicano mais 'socialista' da época,
ainda assim capaz de dialogar com quem pensava diferente. Encontraram-se num
dia frio e cinzento no Hotel das Paineiras, no Rio de Janeiro, onde Cotegipe
convalescia, em 13 de fevereiro de 1889. Disse Cotegipe, quando Jardim lhe
provocou, perguntando sobre a chegada da República:
— “Não se apresse a
correr para ela, que ela está correndo para nós.
O meu Ministério caiu por uma conspiração de Palácio [a Princesa Isabel
e o Conde D’Eu queriam a abolição já]; o meu sucessor há de cair na lama das
ruas, e o sucessor do meu sucessor cairá na ponta das baionetas e, talvez, com
ele, a Monarquia. Os nossos ministérios duram pouco e, portanto, V. não terá
muito que esperar (idem, p. 37).
O gabinete
Cotegipe, conservador, foi sucedido pelo gabinete conservador-moderado de João
Alfredo Correia de Oliveira, que promoveu a Abolição e foi embora sem deixar
rastro. Acabou na poeira do esquecimento. Depois veio o gabinete liberal de
Afonso Celso de Assis Figueiredo, o Visconde de Ouro Preto, durante o qual se
deu o golpe de 15 de novembro. Como previsto.
A República começou,
portanto, cercada pelos liberais, como ele tanto temia, e o único conservador
que teve papel predominante, o marechal Deodoro, já não estava funcionando
muito bem. Dizem que ele nunca funcionou.
Na sessão de 12 de maio
de 1888, a última em que se discutiu sobre a Lei Áurea, Cotegipe tomou a
palavra e pôs-se a profetizar: “A verdade é que há de haver uma
perturbação enorme no país durante muitos anos, o que não verei, talvez, mas
aqueles a quem Deus conceder mais vida, ou que forem mais moços, a
presenciarão” (2) (Anais do Senado, p. 36).
Em 1889 houve a queda
do império; em 1890 houve a maior crise financeira da história do Brasil, o
Encilhamento; em 1893 houve o início da Revolta Federalista e da Armada, que
durou dois anos; em 1896 estourou a guerra em Canudos, que durou quase um ano. Foram
de sete a oito anos de conflitos e confusão, com muito sangue derramado.
No dia 12 de maio ele
fez uma impressionante profecia durante os debates finais para a aprovação da
Lei Áurea, onde voltou a lembrar a necessidade de formação de sociedades
beneficentes, como era a compreensão da época, para preparar os ex-escravizados
paras prosperarem na sociedade nacional, e desfiou a sibila que havia nele.
— “Senhores, a grande
transformação se aproxima; a cerração negra [a estagnação
econômica, política e social do Império] desaparece, rejeitada pela força
irresistível dos acontecimentos que operam as mutações do tempo no seio da
história, e por esses espaços imensos… entrarão os fachos deslumbrantes de um
novo sol, e o oxigênio poderoso da civilização americana purifica essa
atmosfera saturada de emanações cadavéricas; é uma ressurreição; é um passado
de volta ao abismo de onde caiu [há erros ortográficos nesse texto, talvez
o certo seja “saiu”]; é uma … era nova que começa; de todos os pontos de
nossas fronteiras… os ventos nos trazem ideias vivificadoras… a liberdade
religiosa; a regularização da legislação em todos os seus ramos; a difusão do
ensino e universidade do voto a desenfeudação da propriedade; a federação dos
Estados-Unidos Brasileiros…” (Estrepitosos aplausos prolongados).
— “Tudo isto
precisamos, e o faremos, apesar da Coroa e contra a Coroa, se ela se opuser,
porque já nos devemos convencer de que não é possível amalgamar a liberdade com
o absolutismo: são duas coisas que se excluem. (Aplausos prolongados). Isto que
era impossível antes da abolição, hoje torna-se inevitável. Estas são as nossas
reformas… que hão de modelar os novos partidos políticos, de cujas evoluções
dependem as nossas futuras instituições, que não podem ter outro princípio
senão o da mais ampla liberdade no estilo americano. (Aplausos e vivas.)”
— “Entendo que grandes
males vão surgir desta medida; convém que sejam quanto antes tomadas
providências em benefício não só da lavoura, como dos que vão ser libertados.
Chamo também a atenção do país e do governo para as tendências, que já
aparecem, e, ao final, pedirei a Deus, do mais íntimo do meu coração, que
afaste de nós todos os males que eu prevejo [E que,
infelizmente, aconteceram].”
(Idem, p. 36–37).
Quem conhece a barbárie
que tomou conta do país na década de 1890 sente um arrepio ao ler essas
palavras e se pergunta: “Como ele sabia?”
Eduardo Simões
PILULAS DA SUMA TEOLÓGICA DE AQUINO (pelos dominicanos espanhóis)
A Ciência Sagrada é uma ciência prática?
Nota dos dominicanos espanhóis
O que essas palavras significam para São
Tomás? Aquilo que é ordenado a fazer algo, aquilo direcionado para a
ação, é chamado de prático; aquilo ordenado para o conhecimento, aquilo direcionado para o conhecer, é chamado de especulativo. A inteligência
humana, como tal, conhece por conhecer: este é o seu próprio fim, a sua obra
específica. Mas ela também pode conhecer para direcionar algo além da sua
própria operação: isto é, ela pode produzir (finis non est cognitio sed opus:
In Sent. 3 d.35 q.1 a.3 sol.2). Mas mesmo neste segundo caso, trata-se de
conhecimento intelectual; duas faculdades não seriam necessárias, mas sim uma
com duas funções. A ciência prática lida especulativamente com coisas práticas.
A inteligência, que é inerentemente especulativa, “torna-se” prática
por extensão. Os princípios com os quais se opera em cada caso são diferentes. Assim,
os princípios especulativos são resolutivos (analíticos), porque a verdade
daquilo que se conclui é resolvida nesses princípios; os princípios práticos
são composicionais (sintéticos) porque consideram a verdade conhecida na medida
em que ela é “acionável”, ou seja, tendem a sintetizar o que é
conhecido com a existência. Isso explica por que o prático vê as coisas em
termos de sua existência singular (contingente), enquanto o especulativo vê
tudo na medida em que é universal (necessário).
Toda ciência prática lida com o que pode ser feito pelo
homem. Assim, a Moral lida com os atos humanos; a Arquitetura, com os
edifícios. A doutrina sagrada, por outro lado, tem como objeto principal Deus,
cuja maior obra é o homem. Portanto, não é uma ciência prática, mas sobretudo
especulativa.
Solução: Deve-se dizer que a doutrina sagrada, sendo una,
abrange tudo o que pertence às ciências filosóficas da perspectiva formal sob a
qual a considera, isto é, na medida em que pode ser conhecida pela luz divina.
Portanto, embora algumas ciências filosóficas sejam especulativas e outras
práticas, a doutrina sagrada as abrange a todas, da mesma forma que Deus
conhece a si mesmo e suas ações com o mesmo conhecimento. Além disso, estamos
lidando com uma ciência mais especulativa do que prática porque se ocupa
principalmente do divino, e não do humano. Pois, quando se ocupa da humanidade,
fá-lo na medida em que o homem, por meio de suas ações, é direcionado para o
conhecimento perfeito de Deus, visto que a felicidade eterna consiste nesse
conhecimento.
Nota dos dominicanos espanhóis
Tomás de Aquino retoma a divisão de
Aristóteles, segundo a qual os hábitos práticos do homem santo são a prudência
e a arte, e os especulativos são a ciência, a sabedoria e o hábito dos
princípios [disposição natural e inata da mente humana para
discernir as verdades mais evidentes e universais sem necessidade de
demonstração, como o princípio da não contradição].
A função prática, dissemos, é o próprio intelecto ordenando-se para um fim que
não é sua própria operação; portanto, será sempre algo secundário a ele, e que
pressupõe a função especulativa primária. Aqui, São Tomás rompe com toda a
tradição ao atribuir à teologia a função especulativa como sua função primária.
Até ele, todos os teólogos agostinianos concordavam em rejeitar um fim
puramente especulativo para o conhecimento teológico, convergindo para uma
teologia afetiva. A natureza de uma ciência deve ser determinada em termos de
seu fim, e o fim último desta doutrina é a contemplação da primeira verdade na
pátria celestial. Assim, trata-se, de fato, primordialmente de pensamento
especulativo, como já havia expressado São Tomás. Isso é o que seus
predecessores e contemporâneos rejeitaram, para quem o pensamento deveria ser
um meio para a ação. Segundo ele, ao contrário, a ação não é o fim pretendido
por esta ciência, mas antes a contemplação. Esta é a posição mais coerente com
a escolha feita, na qual a inteligibilidade da criação tem primazia.
A doutrina sagrada é superior às outras ciências.
Solução. É preciso dizer: como esta ciência é
especulativa em alguns aspectos e prática em outros, ela é superior a todas as
outras ciências, tanto especulativas quanto práticas. Entre as ciências
especulativas, diz-se que uma é superior a outra segundo a certeza que contém,
ou segundo a dignidade do assunto que aborda. Em ambos os aspectos, a doutrina
sagrada é superior às outras ciências especulativas. Quanto à certeza das
ciências especulativas, fundada na razão natural, que pode errar, ela contrasta
com a certeza fundada na luz da ciência divina, que não pode falhar. Quanto à
dignidade do assunto, é porque a doutrina sagrada lida principalmente com algo
que, por sua sublimidade, transcende a razão humana. As outras ciências
consideram apenas o que está sujeito à razão.
Dentre as ciências práticas, a mais valiosa é aquela que
se orienta para um fim superior, assim como a ciência civil se orienta para o
militar, visto que o bem do exército tem como fim o bem do povo. O fim da
doutrina sagrada, como ciência prática, é a felicidade eterna, que é o fim para
o qual todos os objetivos das ciências práticas se orientam. É evidente, sob
todas as perspectivas, que a doutrina sagrada é superior às demais ciências.
Resposta às objeções: Nada impede que aquilo que é certo por
sua natureza nos pareça menos certo, devido à fragilidade do nosso
entendimento, pois o nosso entendimento. Portanto, a dúvida que surge em alguns
a respeito dos artigos de fé não se origina na incerteza do seu conteúdo, mas
na fragilidade do entendimento humano. No entanto, o pouco que se pode saber
sobre as coisas sublimes é preferível ao muito e à certeza que podemos saber
sobre as coisas inferiores [materiais].
Nota dominicanos espanhóis
Esta resposta pressupõe, embora não
explicitamente, o papel da razão na tarefa teológica. Ela atua como causa
primária, mas subordinada à fé. É precisamente a maneira como a inteligência
humana participa dessas outras ciências “inferiores” à teologia que
as torna mais certas: não em si mesmas, como esclarece São Tomás de Aquino, mas
devido às limitações do nosso entendimento [daí a necessidade da fé prévia].
O segundo ponto a ser destacado é o
seguinte: esta ciência pode recorrer a disciplinas filosóficas, não por
necessidade, mas para melhor explicar seu objeto de estudo. Pois ela não deriva
seus princípios de outras ciências, mas diretamente de Deus por meio da
revelação. E mesmo quando recorre a outras ciências, não o faz por serem
superiores, mas sim por serem subordinadas e subservientes, assim como a
arquitetura tem fornecedores, ou a ciência civil tem fornecedores militares. A
ciência sagrada o faz não por deficiência ou incapacidade, mas devido à
fragilidade de nossa compreensão. A partir daquilo que conhece pela razão
natural (da qual outras ciências procedem), ela é conduzida, como que guiada
pela mão, àquilo que transcende a razão humana e que é o objeto da ciência
sagrada.
A doutrina sagrada é uma
sabedoria.
Nota dos dominicanos espanhóis
Esta era a afirmação tradicional a
respeito da doutrina sagrada, da qual ninguém discordava. Desde Santo
Agostinho, ao afirmar o caráter da sabedoria e negar o da ciência para a
teologia, a questão, ao longo da escolástica, não ofereceu dúvidas. A sabedoria
é o supremo dos hábitos intelectuais ou cognitivos. A sabedoria é o mais elevado dos hábitos intelectuais ou
cognitivos. Ou seja, a ciência em seu grau mais elevado; aquilo que se
manifesta por meio de suas causas ou princípios mais elevados. Ciência suprema
em todos os sentidos, ela julga os princípios de todas as ciências: ela os
ordena, explica e defende. Por outro lado, “sabedoria” evocava um
conhecimento “delicioso”, que se harmonizava admiravelmente com a
doutrina sagrada. Mas o que tradicionalmente se apresentava como um dilema (ou
é ciência ou é sabedoria) é resolvido por São Tomás de Aquino ao observar que a
sabedoria não se opõe à ciência, mas antes lhe acrescenta algo. É conhecimento
por meio de causas (ciência) e por meio da causa suprema (sabedoria). Para São
Tomás, na realidade, precisamente por ser ciência subordinada à ciência de
Deus, a teologia é una, especulativa e prática, superior a todas as outras
ciências e à sabedoria. E isso se aplica ainda mais à metafísica, visto que
esta alcança Deus indiretamente (quantum ad illud quod est per creaturas
cognoscibile = no que se refere àquilo que é cognoscível
através das criaturas), enquanto a teologia o alcança
diretamente (quantum ad id quod no tum est sibi de seipso = no que se refere àquilo que lhe é
desconhecido). A revelação é, na realidade, uma
derivação da luz pela qual Deus se conhece, como já vimos anteriormente.
Esta doutrina é, dentre toda a
sabedoria humana, a sabedoria em mais alto grau, não apenas em um sentido
específico, mas de forma única e completa. O papel do sábio é guiar e julgar; e
seu julgamento é feito tendo como ponto de referência a causa suprema de tudo o
que é inferior. Assim, em todos os tipos de coisas, aquele que mantém em mente
a causa suprema de cada coisa concreta é chamado de sábio. Por exemplo, o
trabalhador que prepara os projetos de um edifício é chamado de sábio e
arquiteto em relação aos trabalhadores que esculpem a madeira ou poliam a
pedra. Nesse sentido, 1 Coríntios 3:10 diz: “Como sábio mestre de obras,
ele lançou os alicerces.” E na vida humana, o sábio é chamado de prudente
por guiar a ação humana ao seu fim próprio. Por isso, Provérbios 10:23 diz:
“A sabedoria do homem é a prudência.” Assim, aquele que tem como
ponto de referência a causa suprema de todo o universo, que é Deus, será
chamado de sábio em mais alto grau. Portanto, a sabedoria é definida como o
conhecimento do divino, como afirma Agostinho no Livro XII de *De Trinitate*,
p. 11. O aspecto mais genuíno da doutrina sagrada é referir-se a Deus como a
causa suprema, e não apenas pelo que se pode conhecer d'Ele através da criação…
mas também por aquilo que somente Ele pode saber de Si mesmo e que Ele comunica
aos outros por meio da revelação. Disso se segue que a doutrina sagrada é
sabedoria em grau máximo.
Resposta às objeções:
A doutrina sagrada não extrai seus
princípios de nenhuma outra ciência humana, mas da ciência divina, que, como
sabedoria em grau máximo, governa todo o nosso entendimento.
Os princípios das outras ciências são
ou autoevidentes e não necessitam de demonstração; ou são evidentes em alguma
outra ciência sendo demonstrados por um processo mental natural. O conhecimento
próprio que se possui na ciência sagrada é dado pela revelação, não pela razão
natural. Portanto, não lhe cabe provar os princípios de outras ciências, mas
apenas julgá-los. Assim, condena como falso tudo o que, em outras ciências, é
incompatível com a sua verdade.
Ao sábio corresponde julgar. Visto que
existem duas maneiras de julgar, a sabedoria também deve ser compreendida de
duas maneiras. Uma delas é se o juiz possui uma inclinação particular para
algo. Por exemplo, a pessoa virtuosa julgará corretamente tudo o que se
relaciona à virtude, visto que tem inclinação para ela. Daí o que se diz no
Livro X da Ética, 12: “A pessoa virtuosa é a regra e a medida das ações
humanas.” Outra maneira de julgar é pelo conhecimento. Assim, por exemplo,
um especialista em moral pode julgar os atos de uma virtude específica mesmo
que não a possua. Agora, quando se trata de julgar assuntos divinos, a primeira
maneira indicada é aquela que corresponde à sabedoria que está entre os dons do
Espírito Santo, seguindo o que se diz em 1 Coríntios 2:15: “O homem
espiritual discerne todas as coisas”, etc... A segunda forma de julgamento
pertence à doutrina sagrada, na medida em que é adquirida por meio do estudo;
embora adote os princípios que emanam da revelação.
Nota dos dominicanos espanhóis
A teologia não demonstra os princípios
de outras ciências, mas condena como falso tudo o que é incompatível com a
verdade teológica. Será necessário, mais uma vez, ter em mente que a
inteligência do teólogo em seu trabalho é intrínseca e constantemente iluminada
e medida pela fé. Quando a teologia ultrapassa o alcance da revelação, essa
condenação poderia também se estender a áreas fora de sua competência
[criava-se assim uma área de atrito perigosa]. São Tomás estabelece a distinção
relevante para resolver a objeção levantada [a sabedoria como dom do Espírito
Santo e como resultante da leitura dos textos sagrados]: como a teologia
envolve diversos níveis de inteligibilidade e diversos modos de acesso às suas
conclusões, é legítimo propor a distinção. Mas isso não implica separação. A
frase conclusiva deste ad 3 (licet eius principia ex revelatione habeantur =
embora seus princípios sejam derivados da revelação) adverte sobre a
necessidade de uma recomposição contínua da unidade teológica, retornando
constantemente aos seus princípios (In Boet. de Trin. q.6 a.1). Nada se
encontra em São Tomás que autorize a fundamentação nele da ruptura dos devotos
do século XV, que dissociaram a teologia espiritual da teologia especulativa. O
trabalho teológico não é um projeto meramente humano, nem tem nada a ver com
uma tarefa filosófica “aplicada” a dados aceitos como postulados.
“O teólogo não é um filósofo que trabalha sobre uma crença, mas um
crente” (Congar). As conclusões teológicas estão sempre intimamente
ligadas aos seus princípios, que, como sabemos, são os artigos de fé (ver a
passagem citada em In Boet. de Trin.).
O HOMEM TORMENTA (CANUDOS).
Um personagem foi fundamental para o desabamento da tempestade que aniquilou Canudos. O juiz de direito Arlindo Batista Leoni, que por meio de telegramas insistentes conseguiu o início da intervenção federal contra a comunidade, alegando que os canudenses queriam saquear Juazeiro, no início de novembro de 1896.
Contaminados pelo relato de Euclides da Cunha, jornalistas e pesquisadores não se preocuparam em procurar esse personagem e extrair mais informações a respeito do gatilho do conflito, informações que, hoje, fazem falta, como a sua relação com as pendências da política nacional.
Deputados e ilustres lideranças políticas baianas, reunidos no Jockey Clube do Rio de Janeiro, em 1933, para homenagear o interventor da Bahia, nomeado por Getúlio Vargas, Arthur Neiva, o penúltimo sentado, à direita, com braços cruzados, de óculos e paletó claro. No centro, sentado, segurando um volume, uma estrela política em ascensão na Bahia: Juraci Magalhães. Na extrema esquerda, sentado, olhando fixo, com as mãos nas coxas, o homem que desatou a tormenta: o ex-juiz, agora deputado federal Arlindo Leoni, que, embora tenha passado seus últimos anos de vida no Rio de Janeiro, faleceu em 1936. Ninguém o procurou para esclarecer o que aconteceu em Juazeiro, naquele novembro de 1896. Quem pagou o preço por tanta elegância e sofisticação, às vésperas de uma ditadura, foram os soldados e os sertanejos em Canudos (copiado de https://editoradionisi.com.br/folhaespiritacairbarschutel/2021/03/20/dr-arthur-neiva/).
Nessa foto, ele é o quarto da esquerda para a direita, de costas na primeira fila, num outro instantâneo acontecido no almoço de 1933 no Jockey Club.
Essa foto está no verbete Arlindo Batista Leoni, na Wikipedia em português. O curioso é que o verbete levanta vários cargos públicos importantes que ele desempenhou na política baiana e nacional, mas não faz nenhuma menção ao papel fundamental dele no início da Guerra de Canudos. Uma característica desse acontecimento foi o silêncio impressionante em que se fecharam todos os principais personagens dessa gigantesca tragédia-crime. A mesma omissão se vê no Dicionário Biográfico da Primeira República, da FGV, que traz a sua biografia mais completa, mas que também não cita Canudos.
DISCURSO DE RAUL POMPEIA NO SEPULTAMENTO DE FLORIANO PEIXOTO, RECONSTITUÍDO POR ELE (O PAIZ 3 de outubro de 1895, p. 4).
O CORONEL MOREIRA CÉSAR E
CANUDOS DEVEM MORRER
A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 19
Notas de Santa Catarina
1 — Euclides da Cunha, Os
sertões, 1ª edição, Fundação Darcy Ribeiro, Rio de Janeiro, 2013, (Coleção
Biblioteca Básica Brasileira 24), p. 296–297.
2 — No primeiro número
da revista Don Quixote, de 1895, saiu, nas páginas 4 e 5, uma gravura
mostrando, em Santa Catarina, o Barão de Batovi diante de um pelotão de
fuzilamento, com Moreira César, e o filho vindo abraçá-lo.
3— http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=349070&pesq=vicente%20lopes%20de%20oliveira
4 — “Telegrama
particular, recebido ontem nesta capital, dá-nos a dolorosa notícia da infausta
morte do inditoso moço, nosso distinto comprovinciano João Evangelista da Silva
Nery, alferes do exército, ocasionada por sofrimento de que saíra daqui
atacado” [talvez tuberculose].
5 — Também citado por
Diogo Lunardelli; Florianópolis: a marca do legalismo autoritário em
Desterro; trabalho para a conclusão do curso de bacharel em História sob a
supervisão do prof. Dr. Paulo Pinheiro Machado; Florianópolis; 2020. Aliás,
sobre esse engenheiro e seus colegas: Etienne Charles Muller, n° 25, e Felipe
Maes Etienne, n° 26, da lista, os brasileiros deliram faz tempo. Noutro lugar,
li que a França exigiu uma indenização de um milhão de francos pelos seus
desaparecimentos, e que o governo de Prudente de Morais pagou. Mas,
misteriosamente, não saiu nem um tostão do salário do coronel, nem foi
acrescentado qualquer demérito em sua ficha pessoal!
6 — Ver em https://ancestors.familysearch.org/pt/K8QV-LB4/caetano-nicolao-demoro-1856-1934
e https://www.mafra.com.br/genealogia/getperson.php?personID=I019961&tree=arfamis001
7 — FLORIANÓPOLIS:
marca do legalismo autoritário em Desterro, UFSC, Florianópolis, 2020.
8 — O cerco das tropas
federais posicionadas em Lapa, no norte do Paraná, pelos federalistas, durou de
14 de janeiro a 11 de fevereiro de 1894. Na cidade de Lapa, estavam 938
soldados governistas — militares, policiais e voluntários — cercados por cerca
de 3 mil federalistas, que, após combates duríssimos, se renderam a estes, sob
promessa de vida. Schutell não participou do cerco.
9 — 2ª edição, Vozes,
Petrópolis, 1995 (p. 170–172).
10 — Os batalhões
patrióticos do início da República foram mais ou menos o equivalente à Guarda
Nacional do Império, com algumas diferenças. Eram unidades voluntárias
compostas por civis entusiastas da República, independentemente da renda.
Tinham, portanto, uma feição popular e garantia de trabalho remunerado por
curtos espaços de tempo, em meio a uma grande massa de desempregados gerada
pelo Encilhamento. Também chamava muito a atenção a presença de jovens
acadêmicos de classe média, sempre ansiosos para servir um ‘salvador da
pátria’. Convocados pelo grupo de Floriano Peixoto, estavam fortemente
vinculados a este e desenvolveram, com o passar do tempo, um fanático culto à
personalidade do marechal. Bem comandados eram contendores tremendos, sempre
muito motivados. Um dos batalhões mais famosos foi o carioca Benjamin Constant,
que teve uma participação decisiva na selvagem batalha de Ponta de Armação em
fevereiro de 1894. Como esses batalhões não tinham ligação orgânica com o
exército, eram um instrumento valioso para realizar missões ‘sujas’ ou
sigilosas para o chefe. Prudente de Morais os dispensou, e eles se extinguiram
naturalmente. Ninguém deu pela falta deles.
O escritor pernambucano
José Gonçalves Maia, que viveu essa época, escreveu no seu livro Horas de
prisão, Imprensa Industrial, Pernambuco, 1923, das páginas 95 a 101, um
capítulo intitulado Os Tiradentes, onde faz um apanhado da ação de um
desses batalhões ‘patrióticos’, do qual transcrevo algumas partes:
“São, em geral,
indesejáveis, criminosos, cavaleiros de indústria [oportunistas], larápios,
vigaristas, esquecidos da polícia, e que se garantem, oferecendo-se em
sacrifício à ordem e à legitimidade. A impunidade é o primeiro salário dos
mercenários. O patriotismo é um pretexto e um manto.
Aboletados no mesmo
edifício do 14º de Infantaria… Os prisioneiros testemunham cenas depravadas
desse bando de «patriotas» que formam o batalhão sagrado da
legalidade.
Desde a sua chegada que
se estabeleceu a anarquia no quartel e o terror nas ruas.
Não há mais hora de
entrada, nem de saída. As cantigas, os assobios, as gargalhadas… as rixas, as
conversas em voz alta, os impropérios obscenos com que se mimoseiam; perturbam
a ordem, mesmo após o toque de silêncio, e se prolongam pela madrugada”.
11 — Revista Defesa
Nacional, Biblioteca do Exército, nº 639, Rio de Janeiro, set – out 71, p.
64.
12 — 7ª edição,
Nacional, São Paulo, 1976, p. 127.
13 — Ed. Estação
Brasil, Rio de Janeiro, 2017.
14 — Ver José Justino
de A. e Silva; Coleção cronológica da Legislação Portuguesa, compilada e
anotada — segunda série (1640–1647), Imprensa de F. X. de Sousa,
Lisboa, 1856.
15 — Marcelo W. Rabello
de Souza, Conde de Lippe (e seus artigos de guerra), quando passou por aqui,
chegou também lá, trabalho de mestrado em História do Direito, sob a
orientação do Pr. Dr. Rui Marcos, Lisboa, s/d).
16 — O
Coronel-Engenheiro Cláudio Moreira Bento teve a feliz iniciativa de
propiciar-nos pela internet os famosos 29 Artigos de Guerra do Conde Lippe,
para podermos compreender o espírito e as leis reinantes no exército
luso-brasileiro do século XVIII
https://www.ahimtb.org.br/ARTIGOS%20DE%20GUERRA%20DO%20CONDE%20DE%20LIPPE.pdf
17 — O traço
característico dos dois primeiros períodos [Colônia e Império] é uma
multidão de leis, decretos, regulamentos, portarias, ordens do dia, avisos,
ordenanças, provisões, resoluções, instruções, etc., muitas delas se chocando
com outras, umas revogando outras, expressamente ou não (José César de
Assis, Uma visão crítica sobre o Ministério Público Militar durante o
período da República Velha, no site www.jusmilitari.com.br).
Apesar disso, e desde o
período colonial, fica bem claro a completa impossibilidade de um oficial
inferior condenar à morte um superior, e mais ainda fazê-lo por iniciativa
própria, sem passar por um tribunal previsto em lei e com direito a apelação.
18 — Ferraz, idem, p.
65.
Eis o que diz o Decreto
1.681, de 28 de fevereiro de 1894
“Declara sujeitos à
jurisdição do foro militar os crimes que se relacionarem à rebelião que ora
conflagra o Distrito Federal e outros pontos do território da União
[Revolta da Armada].
.....
Considerando que, nas
circunstâncias… não é lícito ao Poder Público deixar de punir imediatamente, e
com o máximo rigor, os graves crimes que atentam contra a consolidação da
república, o restabelecimento da paz e a sustentação do princípio da autoridade
[atualmente o pretexto é a democracia].
.....
Artigo único. Ficam
desde já sujeitos à jurisdição do foro militar os crimes que tenham sido ou
vierem a ser cometidos por militares ou civis em qualquer ponto do território
da União ocupado por forças legais ou rebeldes, uma vez que tais crimes estejam
enumerados no art. 1º da lei n. 631, de 18 de setembro de 1851, e se relacionem
com a rebelião que ora conflagra o Distrito Federal e outros pontos do
território da República."
Ou seja: eles não
poderiam ser julgados em um foro civil na área conflagrada. O decreto procura
se embasar em legislação anterior. O decreto 61 de 24 de outubro de 1838, no
período conturbado das regências, e na lei nº 631, de 18 de setembro de 1851.
Decreto 61.
“Art. 2º No caso de
rebelião, poderá o Governo ordenar que se observem no Exército as leis
militares em tempo de Guerra [as quais são mais severas] …
Art. 3º Ficam revogadas
as outras leis em contrário.
Lei 631.
“Art. 1º No caso de
guerra externa, serão punidos com a pena de morte na província em que tiverem
lugar as operações do Exército Imperial… 1º os espiões: 2º os
[colaboracionistas]: 3º os que… tentarem seduzir as mesmas praças, a fim de
que se levantem contra o Governo, ou os seus Superiores: 4º os que atacarem
sentinelas: 5º os que entrarem nas Fortalezas sem ser pelas portas e lugares
ordinários [sabotadores].
§ 8º No caso de guerra externa, o Governo
fica autorizado: 1º a criar provisoriamente na Província, em que tiverem lugar
as operações de guerra, uma Junta de Justiça militar para o julgamento, em
segunda instância, dos crimes militares de sua competência… [não havia
essa instância em Desterrro, necessária para o caso de sentença de morte]”.
O Decreto 1685, de 4 de
março, simplesmente amplia a aplicação da legislação de guerra para outros
crimes de menor gravidade ocorridos nas áreas conflagradas. Foi só mais uma
volta no parafuso.
19 — 3ª edição,
Imprensa Oficial do Estado, São Paulo, 1995, p. 122–123.
20 — Senado Federal,
Brasília, 2005, p. 34–35.
21 — Floriano diz para
Moreira César que está pensando em mandar um major organizar a segurança da
embaixada do Brasil no Uruguai e pergunta-lhe o que acha disso:
Cesar responde-lhe:
— Para que mandar um
major? Basta um alferes com um bom conhecimento do fuzil brasileiro!
À primeira vista, uma
resposta maluca, mas Floriano entendeu muito bem o que ele quis dizer e nunca
mais voltou ao assunto.
Se César respondesse
seriamente o que ele achava — e ele tinha envergadura intelectual para isso —
Floriano lhe diria: “Para que vou mandar um major, é melhor mandar você, que é
um coronel.” E ele ficaria na difícil situação de dizer “não”. Ele sabia que
Floriano queria se livrar dele para dar um golpe, ao qual César se opunha, mas
este preferiu permanecer aqui, como um ‘problema em aberto’ para Floriano e
seus seguidores.
22 — 4ª edição, Difel,
São Paulo, 1983, p. 145.
23 — Epaminondas
Vilalba, A Revolução Federalista no Rio Grande do Sul, Laemmert &
Cia, Rio de Janeiro — São Paulo — Recife, 1897, p. 231–232.
24 — Excertos
da história de um batalhão de infantaria… (parte 3), Defesa Nacional, nº
640, p. 23.
25 — “O Congresso
representativo, reunido em sessão de instalação [com o governador, foram
eleitos deputados e senadores locais e federais, em datas distintas, mas
próximas], agradece os leais serviços prestados à pátria catarinense pelo
coronel Antônio Moreira César (Transcrita no Diário Oficial de 29.9.1894)”
(general Epaminondas Ferraz, N 640, p. 27)
26 — Excertos
da história de um batalhão de infantaria, sustentáculo da república (3ª
parte), revista Defesa Nacional, nº 640, Nov.–Dez. 1971, p.
20.
27 — Ferraz, nº 639, p.
50.
28 — Todos os destaques
são meus.
“Termina hoje, neste
Estado, sua missão governativa iniciada em 22 de abril último, o distinto
militar coronel Antônio Moreira César, deixando traços luminosos …
O seu merecimento,
assinalado pelos inolvidáveis serviços que prestou durante o governo,
reorganizando politicamente o Estado… conquistou-lhe a admiração e a estima
do povo catarinense.
Depois de uma revolta
que abalou profundamente a vida social e política… mediante grandes esforços… conseguiu
restabelecer a ordem e o sossego geral e restaurar as finanças…
Na suprema direção do
Estado foram atendidos todos os ramos do serviço público, salientando-se a
instrução primária e secundária, assunto de seus incessantes cuidados…
Efetivamente, foi o
coronel Moreira César quem restaurou a Constituição
[estadual] de 11 de junho de 1891 e a sua lei complementar na parte
judiciária; decretou outras leis, especialmente a que amortizou a dívida do
Estado e que é um dos sulcos brilhantes de sua passagem…
Preencheu todas as
comarcas, dando-lhes juízes à altura do cargo, bem como os lugares de
promotores, e, sendo muito reduzido o pessoal existente no Estado para a
judicatura e o Ministério Público, recorreu aos estados… onde avulta o número
de graduados em direito… no louvável intuito de dar à justiça bons
representantes.
Educado nos rígidos
princípios da disciplina militar, soube, entretanto, aliar a severidade
do alto e espinhoso cargo que ocupou… [buscando] a equidade, sempre
que esta se fazia mister por amor à causa pública…
O nome do coronel
Moreira César, respeitável e cercado do largo prestígio de que merecidamente
goza entre seus companheiros de armas…
A nomeada que ficou de
seu governo vulgarizou o seu prestígio, como militar, cidadão e administrador, motivou
o apreço e gratidão do povo catarinense…
A administração do
coronel Moreira César foi, portanto, a consagração do bem, da verdade, do
direito e da justiça.”
29 — “Eis um nome
que sintetiza um vulto espartano de chefe, um caráter sem jaça, uma probidade
inconcussa, uma celebração valente, concretizando as energias de uma geração
inteira.
Curvamo-nos
reverentemente ante tão benemérito patriota, que tem sabido ser credor das mais
beneméritas e gerais manifestações do povo brasileiro… e muito principalmente
do florescente Estado de Santa Catarina.
Foi assim que
Washington, na América do Norte, Beaconsfield, na Inglaterra, Gambetta, na
França, Cavour, na Itália, Canovas del Castillo, na Espanha, registraram seus
nomes na história universal… [Vejam a quem ele é
comparado!].
Está felizmente na
consciência de todos os catarinenses a política larga e fraternizadora, liberal
e progressiva, essencialmente republicana, que realizou durante o período
espinhosíssimo de sua sábia administração…
Honra ao ínclito
patriota! Louros ao heroico soldado.
27-9-94
Alguns paraibanos.”
30 — Juízos
críticos, Os sertões (campanha de Canudos) por Euclides da Cunha, 2ª edição
corrigida — 1903, Laemmert & C., Rio de Janeiro, 1904, p. 18.
31 — Um testemunho da
antiguidade e generalização da degola entre nós é dado por um texto de Edwin
Reesink na revista ANTHROPOLÓGICAS, dizendo que: em 1624, o general holandês
Jan Van Dorth foi aprisionado pelos portugueses, degolado e decapitado, na Bahia;
em São Jorge de Mina, na África, os portugueses e seus aliados africanos
degolaram 450 prisioneiros holandeses; na chamada Guerra dos Bárbaros, entre
1650 e 1720, travada portugueses e grupos nativos no semiárido, a degola ganhou
patrocínio oficial, como se pode observar na recomendação a seguir, feita
durante o combate aos jês do Rio Grande do Norte: “degolando a todos que
forem de oito anos para cima, aprisionando as mulheres e as crias” (Saber os
nomes: observações sobre a degola e a violência contra Belo Monte (Canudos),
ano 17, volume 24(2), 2013).
ANEXO
Nós, os de minha
geração, fomos educados para acreditar que, em geral, com os primeiros fios de
bigode ou barba, nascia, nos homens, as raízes da vergonha na cara, ainda mais
quando o cidadão tinha os bigodes tão vistosos e biografia exemplar como Joaquim
Nabuco e Euclides da Cunha.
Em seu livro A
intervenção estrangeira durante a revolta de 1893 (Senado Federal,
Brasília, 2003, p. 77), Nabuco repete as piores, mais indignas e virulentas
calúnias contra Moreira César, no afã de compensar-se por sua causa perdida: o
retorno da monarquia, e para dar suporte às suas calúnias, ele cita, na
abundante nota número 10, as edições do Jornal do Comércio de 9 de maio e de 16
de maio de 1895, afirmando peremptoriamente que César matou os franceses Buette
e Müller, completando que "toda a cidade do Desterro se levantaria para
atestar que os dois engenheiros franceses foram fuzilados, sem julgamentos, por
ordem de Moreira César."
Por que não o atestaram
naquela época? Onde eles foram fuzilados? Que unidade do Exército ou grupo de
bandidos os fuzilou? Quando, exatamente, foram fuzilados? O que Moreira César
ganhou com isso?
Outro problema é que,
embora a edição de 16 de maio do jornal citado traga uma longa matéria sobre os
eventos no Paraná, a de 9 de maio não traz nada sobre Santa Catarina e Moreira
César, embora a edição do dia 10 traga uma notícia que nos induz a pensar
justamente para o contrário do que diz Joaquim Nabuco, e eu a reproduzo abaixo,
na escrita original.
FUZILAMENTOS
O Diario Official
publica hoje, em virtude de deliberação no Senado, vários ofícios sobre
fuzilamentos.
Relativamente ao Estado
de Santa Catarina, eis o que consta dessa publicação:
Cópia. — Commando do 5º
Districto Militar. — Quartel General em Curityba, 9 de Fevereiro de 1895. —
Reservado — Ao cidadão general de divisão Bernardo Vasquez, Ministro dos
Negócios da Guerra. — Cumprindo a vossa determinação referida em portaria de 18
de Dezembro findo e em telegramma de 16 de Janeiro ultimo, tenho a honra de
transmittir-vos a informação prestada pelo coronel Antonio Moreira Cesar,
commandante [atual] de Santa Catarina, declarando
não ter havido alli fuzilamentos de officiaes de mar e guerra.
Saude e fraternidade —
Manuel Eufrazio dos Santos Dias, general de brigada. — Conforme — F. M. das
Chagas.
Copia. — Commando da
guarnição do Estado de Santa Catharina. Florianopolis, 30 de Janeiro de 1895. —
Cidadão general de brigada Manuel Eufrasio [aqui está
escrito com “s”] dos Santos Dias, muito digno commandante do 5º districto
militar. — Em resposta ao officio reservado do commandante interino deste
districto, de 17 de Janeiro ultimo relativamente á portaria reservada do
Ministério da Guerra de 18 de Dezembro de 1894 que diz: “informai com urgência
a este Ministério se no districto de vossa circumscripção houve fuzilamentos de
militares de mar e guerra determinados por autoridades da Republica” cumpre-me
dizer-vos em resposta que não.
Saude e fraternidade. —
(assignado) Antonio Moreira Cesar. — Confere — Tenente, Francisco Craveiro de
Sá, secretario interino. — Conforme F. M. das Chagas.
Se a República esperar o romper do dia e sair à rua ao cair da noite, depois de tatear algum tempo nas trevas, dará com tudo isto em Vaza-Barris [rio que passava por Canudos].
Barão de Cotegipe, 1884.
A impressão que passa é que a nossa república ficaria permanentemente em um atoleiro. Não é isso que vemos agora?
OS FRANCESES NÃO QUERIAM LUTAR CONTRA OS ALEMÃES E NÃO ERAM
CONFIÁVEIS.
Em 10 de junho de 1940, a Itália declarou guerra à França, o
que já era esperado pelo alto comando franco-inglês. Os ingleses então transferiram
4 esquadrilhas de bombardeiros pesados para o aeródromo de Salon, para, a
partir daí, bombardear as cidades industriais de Gênova e Turim, bem à mão.
Tudo combinado e acertado com as lideranças políticas francesas.
Qual não foi a surpresa de todos, as autoridades civis e
militares da região da Provença, onde estava Salon, discordaram da decisão e decidiram
que os aviões não deveriam atacar, porque isso desataria a ira dos italianos e
eles poderiam querer revidar nas cidades francesas próximas, mesmo com a Itália
já tendo declarado guerra!!!! À véspera do ataque, o comandante do setor aéreo,
o ultracondecorado herói de guerra francês Joseph Vuillemin, em conluio com
outros, simplesmente ligou para o comandante inglês da operação, o capitão de
grupo Field, e proibiu a partida dos aviões.
Telefonema para lá e para cá, decisão tomada: “Esquadrilha
autorizada a atacar a Itália a partir de Salon”... “Agora vai”... “Quase foi”... Por
volta de 0h30, quando os aviadores estão se preparando para partir, a pista é
invadida por dezenas de caminhões e carroças militares e civis, que a bloqueiam
irremediavelmente. A operação é cancelada. Uma desordem! E desde o início, isso
está bem claro.
Nos livros de Raymond Cartier, historiador e jornalista
inglês, sobre a Segunda Guerra, as ações do exército francês em 1940 são marcadas pela desorganização e apatia, que só podem ser atribuídas
à sabotagem de colaboradores tanto de extrema direita, por simpatia a Hitler,
como dos comunistas, sequestrados pelo pacto de Hitler e
Stalin. Os ingleses ainda tentaram uns reides contra a Itália nesse período,
com os aviões partindo de aeródromos de Guernsey e Jersey, com resultados
pífios. A oportunidade fora perdida.
Dava para confiar que os franceses não iriam entregar os
seus navios aos alemães? Daí o ataque a Mers el-Kebir. A Wikipedia em francês evita cuidadosamente esse tema.
O CORONEL MOREIRA CÉSAR E
CANUDOS DEVEM MORRER
A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 18
O corpo
do almirante Saldanha, um prelúdio.
O Jornal do
Comércio do Rio, em sua edição de 23–24 de junho de 1930, p. 4, traz uma longa
matéria sobre as buscas feitas por alguns federalistas para achar o corpo de
Saldanha da Gama, após a batalha de Campo Osório, em 24 de junho de 1895. Ela
nos dá uma ideia da selvageria nos combates da Revolta Federalista, selvageria
que se repetirá, 2 anos depois, em Canudos.
Essa
história se inicia em 25 de junho, quando os federalistas no Uruguai receberam
a nova de que a sua última esperança de uma reação militar, visando alcançar
uma paz digna, com Saldanha da Gama, acabou no falecimento deste. A batalha
ocorreu em Campo Osório, nas proximidades de Santana do Livramento, de frente
para Rivera, no Uruguai. Ao pequeno grupo de exploradores federalistas
juntou-se o irmão do almirante, que era médico e iria supervisionar a autópsia
do cadáver.
No dia 26 de
junho, esse grupo, que partiu de Montevidéu, chegou a Rivera, quando, à noite,
“fomos dolorosamente surpreendidos pelos ruidosos ecos da estrepitosa
manifestação tributada [em Santana do Livramento]… aos comandantes das
forças governistas, de regresso de Campo Osório… Ouvimos melancólicos o
espoucar dos foguetes e os acordes das bandas militares dos vencedores.”
O articulista lembra ainda que essa algazarra mudou para um silêncio profundo,
quando, a 29 de junho, chegou a notícia da morte de Floriano Peixoto.
No dia
seguinte, eles chegam a Santana do Livramento, onde têm a oportunidade de
escutar dos soldados que participaram da batalha a primeira versão sobre a
morte do almirante, derrubado do cavalo por lancetadas, e depois morto com
golpes de espada na cabeça. Com muito tato e cuidado, colhem informações e se
preparam para ir ao local do combate. No dia 2 de julho, saem para resgatar o
corpo do almirante.
“Saímos
de Rivera ao meio-dia. Compunha-se nossa comitiva de um break com 6 pessoas —
uma carroça com caixão metálico para os restos do almirante, mantimentos, pás…
quinze cavaleiros entre oficiais da marinha e paisanos.”
A viagem não
foi confortável; andaram em lugares ínvios e pegaram chuva e névoa, havia muita
gente armada e hostil nos arredores. “Após uma hora de marcha,
divisamos, à grande distância, densas nuvens de corvos [entre os gaúchos,
emprega-se o termo “corvo” para “urubu”]… era lá que estava a carniça… Fomos
avançando, vagarosamente… Lufadas de exalações nauseabundas impestavam a
atmosfera e aumentavam à medida que subíamos”
Súbito, numa volta, “um cadáver, de costas sobre um
cavalo, em adiantado estado de putrefação… era o Chaves, vulgo Paraguaio… rapaz
muito moço ainda, da gente do almirante… a seguir, à esquerda, outro corpo
acocorado — que deixou os expedicionários em dúvida se era branco ou preto,
sendo denunciado pelos pés. Um dos pés do infeliz, realçava-se, já um tanto
marmoreado [esbranquiçado], sobre a nudez escura do corpo em
decomposição.
À
direita, quase de pé… um homem, jovem ainda, com a cabeça quase decepada por
formidável corte de orelha a orelha, pondo-lhe o esôfago à mostra [sinal da degola uruguaia], macabramente
ria-se… “Este foi degolado depois de morto”, cochicharam… “Não correu sangue, —
a camisa não está manchada.”
Finalmente
alcançam um chapadão, onde se deu o grosso da batalha, fazem então uma pausa
para se alimentar. Churrasqueamos… entre cadáveres de homens e cavalos, num
ambiente insuportável… aqui o corpo de um sargento do exército, um belo rapaz…
que pareceria mais belo se não fosse o bando de varejeiras que lhe entravam
pelos olhos e saíam pelo nariz — ali o destemido conde alemão von Schewerin,
entusiasta do almirante… Acolá, um desconhecido.
Procedeu-se,
em seguida… rigoroso exame do campo de batalha… as pás e picaretas
dificilmente penetravam no chão [que era muito pedregoso, como em Canudos]… de
sorte que nos vimos reduzidos a... cobrir os preciosos restos de pedras soltas,
deixando às vezes os pés de algumas vítimas destapados [Como em Canudos]. No
descampado… entre as trincheiras… jaziam alguns corpos carbonizados e
horrivelmente deformados pelo fogo [Como em Canudos].”
No alto de
uma árvore pequena, encontraram “completamente nu — estirado com
pernas e braços abertos — o corpo de um adolescente, de uma criança quase, com…
orifício de uma bala na altura do coração.” Começa então um debate se
ele era um oficial ou não, em virtude do cuidado de suas unhas e de seu corpo
em geral. “Unhas limpas — homem de trato”… Em todo o caso, um dos que
atiravam quando o Almirante tombou — “Sá Peixoto” — É possível.” Enterraram-no.
Somente 4
corpos de federalistas em Campo Osório estavam vestidos. Muitos apresentavam
feridas no pescoço a guisa de degola, feita antes ou após sua morte. Ao
desnudar o corpo, facilita-se a ação dos animais carniceiros e acelera-se o
processo de putrefação.
Mas, apesar
de todo o trabalho, não foi possível achar o corpo do almirante Saldanha, que
só será encontrado por um sargento da Marinha, procurando-o por conta própria,
no dia 28 de julho, a quase um quilômetro e meio de distância da batalha. Era
um lugar remoto, difícil de achar, denunciado pelo voo dos urubus. Fora posto
ali com o claro objetivo de fazê-lo desaparecer, devorado pelos animais, apesar
da ordem de Prudente para o corpo ser entregue aos familiares.
O corpo foi
autopsiado no dia 10 de agosto de 1895, por médicos liderados pelo irmão do
almirante. Nessa autópsia, constatou-se que Saldanha da Gama recebeu duas
lancetadas na região do ventre, uma em cada lado, e dois golpes de espada na
cabeça, à altura da têmpora, um deles fatal. O corpo também mostrou a falta de
uma orelha e metade do bigode tinha sido raspado — talvez uma ironia ao célebre
episódio em que ele ordenou a um marujo, que lhe jurara morte após uma punição,
para vir fazer a sua barba.
Quem quiser
mais detalhes sobre as buscas e os seus impactos na sociedade, leia o livro do
almirante Honorato Paiva, Apoteose do almirante Saldanha da Gama, de 1896,
disponível na internet.
Após a
autópsia, o corpo do almirante foi sepultado no cemitério de Rivera, onde
permaneceu até 1908, quando foi trasladado para o Brasil, com os ossos do almirante
Barroso. Saldanha mereceu um belo monumento em sua sepultura no cemitério de
São João Batista, no Rio de Janeiro, além de muitos outros de que se tornou
merecedor.
O coronel
Moreira César não teve essa sorte.
Eduardo Simões