domingo, 19 de abril de 2026


CIÊNCIA E IDEOLOGIA - 1

Já que estamos falando de ideologia, traduzi, abaixo, o texto de uma conferência dada por Schumpeter para a Associação dos Economistas Americanos, em 1948, publicada na The American Economic Review, em março de 1949. Posteriormente, retomaremos a History of Economic Analysis.

Há cem anos, os economistas estavam muito mais satisfeitos com seu desempenho do que estão hoje. Mas afirmo que, se essa complacência pode ser justificada, e digo que há muito mais motivos para complacência hoje do que havia naquela época, ou mesmo há um quarto de século... E se isso é verdade para o nosso domínio dos fatos, deve ser verdade também para todos os campos aplicados que, para seu avanço, dependem principalmente da apuração de fatos. Devo insistir, um pouco contido, na afirmação de que nossa capacidade de análise cresceu em paralelo com nosso acervo de fatos. Um novo conjunto de métodos estatísticos emergiu, em certa medida por nossos próprios esforços, que certamente terá tanta importância para nós quanto para todas as ciências, como a biologia ou a psicologia experimental, cujos fenômenos são expressos em termos de distribuições de frequência.

Em resposta a esse desenvolvimento e em consonância com ele, mas de forma independente, nosso próprio conjunto de ferramentas analíticas foi enormemente enriquecido: a teoria econômica, no sentido instrumental do termo — que não significa o ensino dos fins últimos das políticas públicas nem hipóteses explicativas, mas simplesmente a soma total de nossos métodos de lidar com os fatos — cresceu tanto quanto Marshall e Pareto previram. Se isso não é mais amplamente reconhecido e se é de bom tom entre economistas — principalmente em público — emitir julgamentos depreciativos sobre o estado de nossa ciência, isso se deve a uma série de causas que, embora conhecidas, costumam se repetir: um terreno onde estruturas antigas estão sendo demolidas e novas erguidas não é algo esteticamente agradável; além disso, de forma bastante desencorajadora, as novas estruturas estão sendo desacreditadas por tentativas prematuras de aplicação utilitarista; finalmente, a área de construção se expande tanto que impossibilita ao trabalhador individual compreender tudo o que acontece além do seu pequeno setor.

Seria, de fato, difícil apresentar de forma sistemática, como Smith, Mills e Marshall conseguiram fazer com maior ou menor sucesso, um tratado abrangente que demonstrasse alguma unidade e obtivesse aprovação quase universal. Assim, embora os trabalhadores de cada setor não estejam de todo insatisfeitos com o seu próprio desempenho, é bastante provável que desaprovem a maneira como os outros setores executam suas tarefas, ou mesmo que neguem que essas outras tarefas mereçam qualquer atenção... Muitos tipos de mente são necessários para construir a estrutura do conhecimento humano, tipos que nunca se entendem completamente. A ciência é técnica e, quanto mais se desenvolve, mais completamente escapa à compreensão não só do público em geral, mas também... do próprio pesquisador.

Isso ocorre mais ou menos em todos os lugares, embora uma maior uniformidade na formação e uma maior disciplina no trabalho possam, na física, reduzir o tumulto a algo semelhante à ordem. Como todos sabem, porém, existe entre nós outra fonte de confusão e outra barreira ao progresso: a maioria de nós, não contente com sua tarefa científica, cede ao chamado do dever público e ao desejo de servir ao país e à sua época, trazendo consigo para o trabalho seus valores individuais, suas crenças e sua visão política — toda a sua personalidade moral, até suas ambições espirituais.

Não pretendo discutir sobre juízos de valor ou sobre a defesa de interesses de grupo. Pelo contrário, é essencial para o meu propósito enfatizar que, em si, a prática científica não exige que nos despojemos de nossos juízos de valor ou que renunciemos à vocação de defensor de algum interesse específico. Investigar fatos ou desenvolver ferramentas para fazê-lo é uma coisa; avaliá-los de um ponto de vista moral ou cultural é, logicamente, outra coisa, e as duas não precisam entrar em conflito. Da mesma forma, o defensor de um determinado interesse pode, ainda assim, realizar um trabalho analítico honesto, e a motivação de provar um ponto em defesa do interesse ao qual deve lealdade não prova, por si só, nada a favor ou contra esse trabalho analítico: em outras palavras, defender uma causa não implica mentir ou  distorcer fatos ou inferências para servirem a um ideal ou interesse. Mas tal conduta má não é necessariamente inerente ao argumento de um pesquisador a partir de suas "premissas axiológicas" ou à defesa delas em si. Abundam exemplos em que economistas estabeleceram proposições cujas implicações não lhes causavam qualquer simpatia. Para citar um único exemplo: estabelecer a consistência lógica das condições (equações) que descrevem uma economia socialista parecerá à maioria das pessoas equivalente a ganhar um ponto para o socialismo; mas isso foi estabelecido por Enrico Barone, um homem que... não simpatizava com os ideais socialistas.

(continua)


 

TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 8

O Processo Científico: Visão e Regras de Procedimento.

Estamos agora prontos para dar o segundo passo em nossa investigação sobre os perigos do viés ideológico, ou seja, para perguntar até que ponto ele ameaça a validade dos resultados naquele campo mais restrito que descrevemos como Análise Econômica. Alguns leitores podem até pensar que não há um segundo passo a ser dado: uma vez que já renunciamos, como condicionados ideologicamente, a todos os sistemas de economia política, e uma vez que, além disso, reconhecemos como ideologias os conjuntos de opiniões sobre assuntos econômicos menos completamente sistematizados que, em qualquer tempo e lugar, “flutuam na mente do público”, parece que, de fato, admitimos tudo o que havia para admitir. E aqueles leitores, em particular, cujo principal interesse reside na história das ideias que moldam as pessoas... associadas a políticas ou a concepções sobre o que deve ser considerado justo ou desejável na gestão de assuntos econômicos, e cujo interesse no desenvolvimento da análise econômica técnica é apenas secundário, provavelmente admitirão que nosso conjunto de ferramentas pode estar tão distante da influência de ideologias quanto as técnicas de qualquer outra ciência. Infelizmente, não podemos presumir isso. Analisemos, portanto, o próprio processo científico para identificar onde elementos ideológicos podem se infiltrar e quais são os nossos meios de reconhecê-los e, talvez, eliminá-los.

Na prática, todos nós iniciamos nossas pesquisas a partir do trabalho de nossos antecessores, ou seja, raramente começamos do zero. Mas suponhamos que começássemos do zero... para sermos capazes de formular quaisquer problemas, primeiro precisaríamos visualizar um conjunto distinto de fenômenos coerentes... Em outras palavras, o esforço analítico é necessariamente precedido por um ato cognitivo pré-analítico que fornece a matéria-prima para o esforço analítico. Neste livro, esse ato cognitivo pré-analítico será chamado de Visão. É interessante notar que esse tipo de visão não só deve preceder historicamente o surgimento do esforço analítico em qualquer campo, como também pode reaparecer na história de toda ciência estabelecida sempre que alguém nos ensina a ver as coisas sob uma perspectiva cuja origem não se encontra nos fatos, métodos e resultados do estado preexistente da ciência.

Ilustremos isso com um exemplo de nossa época. Críticos e admiradores da contribuição científica do falecido Lord Keynes concordarão que sua Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda (1936) foi o grande sucesso da década de 1930 e dominou o trabalho analítico por, no mínimo, uma década após sua publicação. A Teoria Geral apresentou um aparato analítico que o autor resumiu no Capítulo 18. Se seguirmos sua exposição passo a passo (ver especialmente pp. 249–54), observamos que esse aparato foi concebido para dar expressão conveniente a certos fatos do “mundo em que vivemos” — embora, como o próprio Keynes enfatizou, esses fatos sejam atribuídos às suas tabelas fundamentais (propensão a consumir, atitude em relação à liquidez e eficiência marginal do capital) como características especiais e não como propriedades “logicamente necessárias”.

Esse padrão analítico será discutido posteriormente, onde também será demonstrado que as características especiais em questão são características do capitalismo inglês em declínio, vistas do ponto de vista de um intelectual inglês. Não há dúvidas de que foram estabelecidas por pesquisas factuais anteriores. Elas são “plausivelmente atribuídas ao nosso mundo [inglês], com base em nosso conhecimento geral da natureza humana contemporânea” (p. 250). Este não é o lugar para discutir os méritos ou deméritos dessa concepção. O que importa aqui e agora é que se trata de uma concepção ou visão, em nosso sentido, e que antecedeu todos os esforços analíticos de Keynes. O processo se destaca, neste caso, com uma clareza insuperável porque podemos ler uma formulação da visão, ainda analiticamente desarmada, em algumas páginas brilhantes de As Consequências Econômicas da Paz (1919), de Keynes. No que diz respeito a essa linha de atuação... todo o período entre 1919 e 1936 foi gasto em tentativas, primeiro malsucedidas, depois cada vez mais bem-sucedidas, de implementar a visão particular do processo econômico de nossa época que estava fixada na mente de Keynes, no máximo, em 1919 [ou seja, essa visão não pode deixar de apresentar condicionamentos sociais, logo algum nível de ideologia]...

O esforço analítico começa quando concebemos nossa visão do conjunto de fenômenos que despertou nosso interesse, independentemente de esse conjunto estar em solo virgem ou em terras já cultivadas. A primeira tarefa é verbalizar ou conceituar essa visão de forma que seus elementos ocupem seus lugares, com nomes que facilitem o reconhecimento e a manipulação, em um esquema ou representação mais ou menos ordenada. Mas ao fazer isso, nós nos impomos, quase automaticamente, duas tarefas: por um lado, reunimos mais fatos além daqueles já percebidos e aprendemos a desconfiar de outros que figuravam na visão original; por outro lado, o próprio trabalho de construir o esquema ou a imagem adicionará novas relações e conceitos ao conjunto original e, em geral, também eliminará outros.

O trabalho factual e o trabalho “teórico”, em uma relação interminável de troca e contribuição, naturalmente testando-se mutuamente e propondo novas tarefas um para o outro, eventualmente produzirão modelos científicos, os produtos conjuntos provisórios de sua interação com os elementos sobreviventes da visão original, aos quais serão aplicados padrões cada vez mais rigorosos de consistência e adequação... Agora, deve ficar perfeitamente claro que há uma ampla porta de entrada para a ideologia nesse processo. Na verdade, ela entra logo no início, no ato cognitivo pré-analítico do qual temos falado. O trabalho analítico começa com o material fornecido por nossa visão das coisas, e essa visão é ideológica quase por definição.

Ela incorpora a imagem das coisas como as vemos, e sempre que houver qualquer motivo possível para desejar vê-las sob uma determinada perspectiva em vez de outra, a maneira como as vemos dificilmente pode ser distinguida da maneira como desejamos vê-las. Quanto mais honesta e ingênua for nossa visão, mais perigosa ela será para o eventual surgimento de algo que possa ser considerado de validade geral. A inferência para as ciências sociais é óbvia, e nem mesmo é verdade que aquele que odeia um sistema social formará uma visão objetivamente mais correta dele do que aquele que o ama. Pois o amor distorce, de fato, mas o ódio distorce ainda mais. Nosso único consolo reside no fato de que há um grande número de fenômenos que não afetam nossas emoções de uma forma ou de outra e que, portanto, parecem muito semelhantes para inúmeros indivíduos.

Mas também observamos que as regras de procedimento que aplicamos em nosso trabalho analítico são quase tão isentas de influência ideológica quanto a visão está sujeita a ela. Lealdade apaixonada e ódio apaixonado podem, de fato, interferir nessas regras. Em si mesmas, essas regras, muitas das quais, aliás, nos são impostas pela prática científica em campos pouco ou nada afetados pela ideologia, são bastante eficazes em expor o mau uso. E, o que é igualmente importante, elas tendem a eliminar o erro condicionado ideologicamente das visões a partir das quais partimos. Essa é a sua virtude particular, e elas o fazem automática e independentemente dos desejos do pesquisador. Os novos fatos que ele é obrigado a acumular se impõem ao seu esquema mental. Os novos conceitos e relações, que alguém mais formulará se ele não o fizer, devem verificar suas ideologias ou então destruí-las. E se esse processo for permitido se desenvolver completamente, certamente não nos protegerá do surgimento de novas ideologias, mas, no fim, eliminará o erro das existentes.

É verdade que, em economia, e ainda mais em outras ciências sociais, essa esfera do estritamente comprovável é limitada, pois sempre existem áreas periféricas que são questões de experiência e impressão pessoal, das quais é praticamente impossível erradicar completamente a ideologia, ou mesmo a desonestidade consciente. O consolo que podemos obter com nosso argumento, portanto, nunca é completo [o máximo que se pode fazer é controlar a ideologia].

[traduzido de History of Economic Analysis]

Infelizmente Schumpeter não concluiu esse ponto antes de morrer, e boa parte da reconstituição provável desse trecho está comprometida e incompleta. Pegamos apenas as partes que ajudem a perceber melhor o que ele defendeu a respeito.

domingo, 12 de abril de 2026

 

TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 7

Diferença entre História da Análise Econômica, História dos Sistemas de Economia Política e História do Pensamento Econômico

....

Por sistema de economia política, entendo uma exposição de um conjunto abrangente de políticas econômicas que seu autor defende com base em certos princípios unificadores (normativos), como os princípios do liberalismo econômico, do socialismo e assim por diante. Tais sistemas se enquadram em nosso escopo na medida em que contenham trabalho genuinamente analítico. Por exemplo, A Riqueza das Nações, de A. Smith, foi, de fato, em sua intenção, um sistema de economia política no sentido definido acima e, como tal, não nos interessa. Nos interessa ainda mais pelo fato de que os princípios e receitas políticas de A. Smith — sua defesa cautelosa do livre comércio e outros — são apenas a capa de uma grande conquista analítica [feita antes de Smith].

Em outras palavras, não estamos tão interessados ​​no que ele argumentou, mas em como ele argumentou e quais ferramentas de análise utilizou para fazê-lo. Seus princípios e receitas políticas (incluindo a ideologia revelando juízos de valor) eram, sem dúvida, o que mais importava para ele e para seus leitores e, além disso, o que explica principalmente o sucesso de sua obra junto ao público e sua posição de destaque na história do pensamento humano. Mas estou disposto a descartá-los como meras formulações da ideologia de sua época e país, sem validade para qualquer outra.

O mesmo se aplica ao que definimos como Pensamento Econômico, ou seja, a soma total de todas as opiniões e desejos relativos a assuntos econômicos, especialmente no que diz respeito às políticas públicas que os influenciam, e que, em qualquer tempo e lugar, circulam na mente pública.

Ora, a mente pública nunca é algo indiferenciado ou homogêneo, mas sim o resultado da divisão da comunidade correspondente em grupos e classes de naturezas diversas. Em outras palavras, a mente pública reflete, de forma mais ou menos traiçoeira... a estrutura de classes da sociedade correspondente e as mentalidades ou atitudes de grupo que nela se formam. Como essas mentalidades de grupo têm diferentes oportunidades de se afirmar e, principalmente, de deixar suas marcas na literatura que chega ao conhecimento das gerações posteriores, surgem questões de interpretação que são sempre difíceis de resolver.

... Uma coisa é lidar com políticos, outra com os lojistas, agricultores e operários que são “representados” por esses políticos. E isso pode ser formulado em sistemas de economia política por escritores que pertencem, ou se vinculam, a setores específicos. Por outro lado, pode tangenciar, ou se sobrepor a, trabalhos analíticos, como frequentemente ocorre em tratados escritos por membros da burguesia comercial ou industrial. Na medida em que isso acontece, será nossa tarefa, naturalmente, selecionar, da melhor maneira possível, as interpretações analíticas dentre as verbalizações comuns dos humores da época que não estejam relacionadas ao esforço para aprimorar nosso aparato conceitual e, portanto, não nos interessam.

É claro que jamais negligenciaremos o ambiente geral do pensamento econômico no qual, em diferentes épocas, os analistas desenvolveram seu trabalho. Mas esses ambientes e suas transformações históricas nunca são nosso principal objeto de interesse. Eles surgem como influências favoráveis ​​ou inibidoras sobre o trabalho analítico, que permanecerá o protagonista ao longo de nossa análise. Ao tentarmos desvincular o trabalho analítico de seu contexto popular, mesmo que este exerça incessantemente sua influência, faremos uma descoberta que é conveniente ressaltar de imediato.

O desenvolvimento do trabalho analítico, por mais perturbado que tenha sido pelos interesses e atitudes do mercado, apresenta uma característica totalmente ausente do desenvolvimento histórico do pensamento econômico em nosso sentido, bem como da sucessão histórica dos sistemas de economia política. Essa característica pode ser melhor ilustrada por um exemplo: desde os primórdios até os dias de hoje, os economistas analíticos têm se interessado, em maior ou menor grau, pela análise do fenômeno que chamamos de preço competitivo. Quando o estudante moderno se depara com o fenômeno em um nível avançado de seus estudos, por exemplo, nos livros de Hicks ou Samuelson, ele é apresentado a uma série de conceitos e problemas que podem lhe parecer difíceis a princípio, e certamente seriam completamente incompreensíveis para um autor como John Stuart Mill. Mas o estudante também descobrirá em breve que um novo aparato apresenta e resolve problemas para os quais os autores mais antigos teriam dificilmente encontrado respostas, mesmo que os conhecessem. Isso define, de maneira sensata e, em todo caso, perfeitamente inequívoca, em que sentido houve "progresso científico" entre Mill e Samuelson.

Ora, nossa capacidade de falar em progresso nesse caso se deve, obviamente, ao fato de existir um padrão amplamente aceito, restrito a um grupo de profissionais, que nos permite organizar diferentes teorias de preço competitivo em uma série em que cada membro pode ser considerado superior ao anterior [o nível (de complexidade ou precisão) da análise mais aceita em uma época tende a ser superado pelo nível da análise mais aceita que lhe segue]. Observamos ainda que essa sequência está associada ao passar do tempo, no sentido de que a teoria posterior dos preços competitivos quase sempre ocupa posição superior na escala de perfeição analítica: quando isso não ocorre, é possível atribuir esse fato a influências extra-analíticas perturbadoras. Mas, embora seja possível falar em progresso analítico e impossível negar os fatos que essa palavra denota, nada corresponde a isso no campo do pensamento econômico ou mesmo em qualquer conjunto histórico de sistemas de economia política. 

Por exemplo, não faria sentido falar de uma superioridade das ideias de Carlos Magno sobre política econômica, reveladas por suas ações legislativas e administrativas, sobre as ideias econômicas, digamos, do Rei Hamurabi; ou dos princípios gerais de política revelados pelas proclamações dos reis Stuart sobre as de Carlos Magno; ou das declarações de política que precedem às vezes as leis do Congresso sobre essas proclamações Stuart. É claro que podemos simpatizar com alguns dos interesses favorecidos em um desses casos em vez dos interesses favorecidos em outros e, nesse sentido, organizar esses documentos também em uma escala de preferência. Mas o lugar de qualquer corrente de pensamento econômico em tal conjunto variaria de acordo com os nossos julgamentos de valores, e quanto ao resto, ficaremos com nossa preferência emocional ou estética pelos diversos esquemas de vida que encontram expressão nesses documentos. Situação semelhante a como se nos perguntassem se o melhor pintor seria Gauguin ou Ticiano. A única resposta sensata para tal pergunta é que ela não tem sentido. E o mesmo se aplica, naturalmente, a todos os sistemas de economia política, se excluirmos deles as excelências ou deficiências técnicas.

Podemos, de fato, preferir o mundo do socialismo ditatorial moderno ao mundo de Adam Smith, ou vice-versa, mas qualquer preferência desse tipo se enquadra na mesma categoria de avaliação subjetiva... Em outras palavras, não há significado objetivo para o termo progresso em questões econômicas ou de qualquer outra política, porque não existe um padrão válido para comparações. Seria supérfluo acrescentar que esse argumento parece esclarecer satisfatoriamente as diferenças entre os historiadores da economia sobre esse ponto. Alguns deles pensam em análise técnica e em um domínio crescente dos fatos; estes estão absolutamente certos ao falar do progresso científico em nossa área. Outros falam das mudanças de humor, elas próprias produto das mudanças nas condições sociais, que produzem mudanças de opinião sobre políticas e desejos; estes estão absolutamente certos ao negar que exista algo como progresso em nossa área. Qualquer um dos grupos pode errar ao ignorar que existe um aspecto do pensamento humano sobre assuntos econômicos além daquele que estão considerando exclusivamente [talvez ele esteja se referindo aqui à questão da afetividade, das preferências, que é incomensurável e que subjaz a toda atividade mental].

[traduzido de History of Economic Analysis]

segunda-feira, 6 de abril de 2026

TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 6

A HISTÓRIA DA ECONOMIA É UMA HISTÓRIA DE IDEOLOGIAS?

A natureza histórica ou ‘evolutiva’ do processo econômico limita inquestionavelmente o alcance dos conceitos e das relações gerais entre eles (‘leis econômicas’) que os economistas podem formular. De fato, não faz sentido negar, a priori, como já foi feito algumas vezes, que tais conceitos ou relações não podem sequer ser formulados. Em particular, não é necessário que os conceitos que usamos no estudo de grupos sociais sejam familiares aos próprios membros desses grupos: se é fato que o conceito de renda não era familiar às pessoas da Idade Média antes do século XIV não é motivo para não usá-lo em uma análise de sua economia. Mas é verdade também que as “leis econômicas” são muito menos estáveis ​​do que as “leis” de qualquer ciência física, que elas funcionam de maneira diferente em diferentes condições institucionais e que a negligência desse fato foi responsável por muitas aberrações. Também é verdade que, quando tentamos interpretar atitudes humanas, especialmente atitudes de pessoas muito distantes de nós no tempo ou na cultura, arriscamos compreendê-las mal, não apenas se substituirmos grosseiramente nossas próprias atitudes pelas delas, mas também se fizermos o possível para penetrar no funcionamento de suas mentes. Tudo isso se agrava consideravelmente pelo fato de o próprio observador ser produto de um determinado ambiente social — e de sua posição específica nesse ambiente — que o condiciona a enxergar certas coisas em detrimento de outras, e a vê-las sob uma determinada perspectiva. E não é só isso: fatores ambientais podem até mesmo dotar o observador de um desejo subconsciente de ver as coisas sob uma certa ótica. Isso nos leva ao problema do viés ideológico na análise econômica.

A psicologia e a psicoterapia modernas nos familiarizaram com um hábito mental que chamamos de racionalização. Esse hábito consiste em nos confortar e impressionar os outros, criando uma imagem de nós mesmos, de nossas motivações, de nossos amigos, de nossos inimigos, de nossa vocação, de nossa igreja, de nosso país, que pode ter mais a ver com o que gostaríamos que fossem do que com o que realmente são. O concorrente que é mais bem-sucedido do que nós, provavelmente deve seu sucesso a artimanhas que desprezamos. É bem provável que o líder de um partido que não é o nosso seja um charlatão... E assim por diante. A importância desse hábito para a saúde e a felicidade da mente normal é óbvia, assim como a importância de um diagnóstico correto de suas manifestações verbais.

O conceito de ideologia marxista

Meio século antes de que a importância desse fenômeno fosse plenamente reconhecida e utilizada profissionalmente [já havia o uso pejorativo feito por Napoleão I], Marx e Engels o descobriram e usaram essa descoberta em suas críticas à economia “burguesa” de sua época. Marx percebeu que as ideias ou sistemas de ideias dos homens não são, como a historiografia ainda tende a assumir acriticamente, os principais motores do processo histórico, mas formam uma “superestrutura” sobre fatores mais fundamentais...

Marx percebeu ainda que as ideias ou sistemas de ideias que prevalecem em qualquer momento e em qualquer grupo social, na medida em que contêm proposições sobre fatos e inferências a partir de fatos, serão provavelmente viciados exatamente pelas mesmas razões que também viciam as teorias de um homem sobre seu próprio comportamento individual. Ou seja, as ideias das pessoas tendem a glorificar os interesses e as ações das classes que estão em posição de se afirmar e, portanto, tendem a desenhar ou insinuar imagens delas que podem estar seriamente em desacordo com a verdade [que, por alguma razão misteriosa, só Marx e Engels conseguiam ver no seu tempo].

Assim, os cavaleiros medievais se imaginavam como protetores dos fracos e defensores da fé cristã, enquanto seu comportamento real, além de outros fatores que produziram e mantiveram a estrutura social de seu mundo, certamente parecerá muito diferente para um observador de outra época e mesmo de outra classe no seu tempo. Marx chamou esses sistemas de ideias de ideologias. E sua tese era que grande parte da economia de sua época nada mais era do que a expressão da ideologia da burguesia industrial e comercial.

O valor dessa grande contribuição para nossa compreensão dos processos históricos e do significado das ciências sociais é prejudicado, mas não destruído, por três falhas, que convém observar de imediato.

Primeiro, embora Marx estivesse tão atento ao caráter ideológico de sistemas de ideias com os quais não simpatizava, ele era completamente cego aos elementos ideológicos presentes nos seus próprios — A meu ver, este é o ponto essencial das racionalizações: elas fornecem uma espécie de autodefesa para nossos organismos psíquicos e tornam suportáveis ​​muitas vidas que não vingariam sem elas. Mas o princípio de interpretação envolvido em seu conceito de ideologia é perfeitamente geral [e pode ser estudado cientificamente]. Obviamente, não podemos dizer que em todo lugar há ideologia e que somente nós nos apoiamos na rocha da verdade absoluta [como fazem os marxistas e aqueles que querem censurar politicamente as redes sociais]. As ideologias trabalhistas não são melhores nem piores do que quaisquer outras.

Em segundo lugar, a análise marxista dos sistemas ideológicos de pensamento os reduz a emulsões de interesses de classe, que por sua vez são definidos em termos exclusivamente econômicos. Segundo Marx, as ideologias da sociedade capitalista são, para dizer de forma grosseira, glorificações dos interesses daquilo que ele denominou classe capitalista, cujos interesses giram em torno da busca por lucros pecuniários. Ideologias que não glorificam o comportamento do homem capitalista nos negócios, mas algo mais, por exemplo, o caráter e o comportamento nacional, devem, portanto, ser sempre redutíveis, ainda que indiretamente, aos interesses econômicos da classe dominante. Isso, porém, não está implícito no cerne do conceito de ideologia, mas constitui uma teoria adicional e muito duvidosa. O próprio princípio implica apenas duas coisas: que as ideologias são superestruturas erguidas sobre, e produzidas pelas realidades da estrutura social objetiva abaixo delas; e que elas tendem a refletir essas realidades de maneira caracteristicamente tendenciosa. Se essas realidades podem ser completamente descritas em termos puramente econômicos, é outra questão. Sem entrar nesse mérito aqui, registramos apenas o fato de que atribuiremos um significado muito mais amplo ao conceito de Influência Ideológica. A posição social é, sem dúvida, um fator poderoso na formação de nossas mentes. Mas isso não significa que nossas mentes sejam moldadas exclusivamente pelos elementos econômicos inerentes à nossa posição de classe ou que, mesmo que isso ocorra, sejam moldadas exclusivamente por um interesse de classe ou grupo bem definido [Nem todos os burgueses, proletários, ou membros de uma classe que o valha, pensam da mesma maneira; isso é um reducionismo atroz!].

Em terceiro lugar, Marx, e especialmente a maioria de seus seguidores, presumiram com muita facilidade que declarações que demonstram influência ideológica são, por si só, condenáveis [menos a sua, que é a verdade absoluta]. Mas é fundamental enfatizar que, assim como as racionalizações individuais, as ideologias não são mentiras... não são necessariamente errôneas. É grande a tentação de aproveitar a oportunidade para descartar de uma só vez todo um conjunto de proposições de que não gostamos, simplesmente chamando-o de ideologia. Esse artifício é, sem dúvida, muito eficaz, tão eficaz quanto os ataques às motivações pessoais de um oponente. Mas, logicamente, é inadmissível.

Como já foi apontado, a explicação, por mais correta que seja, das razões pelas quais um homem diz o que diz, nada nos informa sobre se é verdade ou mentira. Da mesma forma, declarações que procedem de uma base ideológica são passíveis de suspeita, mas ainda podem ser perfeitamente válidas. Tanto Galileu quanto seus oponentes podem ter sido influenciados por ideologias. Isso não nos impede de dizer que ele estava "certo". Mas que justificativa lógica temos para afirmar isso? Existe alguma maneira de localizar, reconhecer e, possivelmente, eliminar os elementos ideologicamente viciados na análise econômica? E o que restará após essa eliminação? Entende-se que nossas respostas, embora ilustradas por exemplos, serão, por ora, provisórias, e que a validade, ou não, dos princípios que estou prestes a formular só poderá ser avaliada por sua aplicação neste livro na sua totalidade. Mas, antes de iniciarmos essa tarefa, precisamos esclarecer uma questão preliminar.

Infelizmente, temos que bloquear uma saída de emergência pela qual alguns dos mais fervorosos defensores da doutrina de que... toda a ciência, é viciada por ilusões ideológicas, tentaram escapar da conclusão aparentemente inevitável sobre a possibilidade da "verdade científica". O professor K. Mannheim ensinava que, embora a ilusão ideológica seja o destino comum da humanidade, existem, no entanto, "inteligências independentes", flutuando livremente no espaço, que gozam do privilégio de estarem isentas desse destino. De forma um pouco mais realista, todos são vítimas da ilusão ideológica, exceto o intelectual radical moderno que se ergue, de fato, sobre a rocha da verdade, o juiz imparcial de todas as coisas humanas. Ora, se há algo que se possa considerar óbvio neste campo, é o fato de que esse intelectual nada mais é do que um amontoado de preconceitos que, na maioria dos casos, são sustentados com toda a força de uma convicção sincera. Mas, além disso, não podemos seguir Mannheim pela escada de incêndio, pois aceitamos plenamente a doutrina da onipresença do viés ideológico e, portanto, não conseguimos enxergar na crença de alguns grupos nada além de uma parte particularmente perversa de seu próprio sistema de ilusões. Agora, voltemos à nossa tarefa.

Primeiro, o viés ideológico, conforme definido acima por nossa versão modificada da definição marxista, obviamente não é o único perigo que ameaça a análise econômica. Em particular, há outros dois que devem ser mencionados especificamente porque são facilmente confundidos com o viés ideológico. Um deles é a possível manipulação de fatos ou de regras processuais por advogados peticionários [profissional especializado em escrever petições, nem sempre muito fieis aos fatos, antes de o advogado entrar em ação]. Tudo o que tínhamos a dizer sobre isso já foi dito: aqui, apenas desejo alertar o leitor de que uma argumentação justificadora não é o mesmo que análise ideologicamente viciada.

Outro perigo decorre do hábito inveterado dos economistas de emitir juízos de valor sobre os processos que observam. Os juízos de valor de um economista muitas vezes revelam sua ideologia, mas não a definem: é possível emitir juízos de valor com base em fatos irrefutavelmente estabelecidos e nas relações entre eles, e é possível abster-se de emitir qualquer juízo de valor com base em fatos vistos sob uma ótica ideologicamente distorcida. Não discutiremos o problema dos juízos de valor aqui...

 

 

Notas

Adequação conceitual

Sociólogos como Max Weber, que defendem o método interpretativo dos estados ou mudanças sociais — isto é, que acreditam que nossa principal ou única tarefa é tentar entender o que as coisas significavam para as pessoas em cada momento — podem facilmente chegar à conclusão de que o uso de quaisquer conceitos desconhecidos para as pessoas em estudo implica o erro de presumir que suas mentes funcionavam exatamente como as nossas. Ora, esse erro pode estar presente, mas não necessariamente: usar um conceito que tem significado para nós, mas não para as pessoas que observamos, é uma coisa; postular que o conceito também tinha significado para estas últimas é outra bem diferente. Não precisamos recorrer a tribos primitivas para ilustrar isso: se, em termos de nossos próprios conceitos, formularmos as condições para maximizar os lucros, não precisamos presumir que o próprio empresário utilize esses conceitos; nossa "teoria" é perfeitamente válida mesmo que saibamos que ele não a utiliza [o que invalida esses conceitos, numa abordagem pretensamente científica, é a sua conotação moral, que transcende a natureza do conceito em si, exceto aqueles que pressupõem um julgamento moral prévio, como os de “exploração”, “exploradores”, “oprimidos”, mais apropriados a pregadores religiosos].

Racionalização

O termo “racionalização”, no sentido explicado a seguir, deve ser cuidadosamente distinguido de outros significados da mesma palavra, especialmente destes dois: (1) Às vezes, falamos de racionalização quando nos referimos a uma ação que visa aprimorar algo, por exemplo, uma empresa industrial, para estar em conformidade com os padrões aprovados por consultores especializados. (2) Em trabalhos de pesquisa, às vezes falamos de racionalização quando nos referimos à tentativa de vincular um conjunto de descobertas empíricas a algum princípio teórico que as explique. Assim, dizemos que racionalizamos o comportamento empresarial observado pelo princípio da maximização do lucro. Esses significados não têm relação alguma com o significado em discussão [um mecanismo de defesa freudiano].

Burocracia e ideologia

Alguns grupos, como as burocracias, são mais propensos a essa ideologia [marxista], que, entre outras coisas, envolve a negação claramente ideológica de qualquer interesse [ideológico] em seu grupo ou, pelo menos, de sua influência [da ideologia] sobre as políticas que eles próprios criam ou ajudam a moldar. Isso pode ser usado como um primeiro exemplo da influência das ideologias sobre a análise [negando-a, esses burocratas a confirmam]. Pois essa ideologia das burocracias é um fator importante no hábito pouco científico dos economistas de usar uma teoria claramente ideológica do Estado, que eleva este último a uma agência sobre-humana para o bem público e negligencia os fatos sobre as realidades da administração pública que a ciência política moderna proporciona.

[Traduzido de History of Economic Analysis]

domingo, 29 de março de 2026

 



TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 5

Economia e filosofia

Agora, voltamo-nos para o tema das relações entre economia e filosofia... [Para saber] até que ponto a análise econômica sofreu influências da filosofia.

Devido aos muitos significados atribuídos à palavra filosofia, é preciso ter cuidado para evitar confusões. Há, em primeiro lugar, um significado para o qual nossa pergunta é muito fácil de responder, ou melhor, para o qual não há problema algum: o “filósofo” grego, que evoluiu para o retórico e o sofista, era simplesmente o homem de atividades intelectuais. Tomada nesse sentido, que foi transmitido à Idade Média e sobreviveu até o século XVIII, a filosofia significava a soma total de todo o conhecimento científico. Era simplesmente a ciência universal, da qual a metafísica fazia parte tanto quanto a física, e a física tanto quanto a matemática ou qualquer “filosofia” sobre a natureza da sociedade e da pólis [O filósofo era alguém que sabia de tudo = polímata].

Esse uso estava fadado a se manter enquanto o acervo, tanto de ferramentas analíticas quanto de fatos, permanecesse pequeno o suficiente para ser abarcado por um único cérebro. Em linhas gerais, foi assim até, aproximadamente, meados do século XVIII, quando a época dos polímatas chegou definitivamente ao fim. Como vimos, São Tomás de Aquino aderiu a esse uso da palavra filosofia, com a exceção da doutrina sagrada, que era uma ciência à parte. Todas as outras eram “disciplinas filosóficas”. É interessante notar que São Tomás não tentou atribuir à primeira qualquer outra prerrogativa além da dignidade supramundana, nem lhe conferiu qualquer autoridade sobre a segunda [manteve a autonomia das duas realidades ou universos possíveis].

Ao analisarmos esses sistemas abrangentes da ciência, não podemos ignorar uma descoberta da maior importância para o problema em questão. Nem Aristóteles, nem nenhum dos polímatas posteriores, conseguiu unificar, ou sequer tentou unificar, os vários ramos de seu ensinamento e, em particular, afirmar em cada um deles suas visões sobre as “causas últimas”, o “significado último” das coisas e afins. As teorias físicas de Aristóteles, por exemplo, são inteiramente independentes de suas visões sobre esses “fundamentos” e poderiam, no que diz respeito a estes, muito bem ter sido diferentes do que foram. E isso é tão verdadeiro para sua sociologia política (por exemplo, suas investigações sobre as constituições das cidades-estados gregas) quanto para sua física. Da mesma forma, as visões de Leibniz sobre o comércio exterior não têm absolutamente nada a ver com sua visão fundamental do mundo físico e moral, e ele poderia, no que diz respeito a estes, muito bem ter sido um defensor do livre comércio.

Portanto, é mais apropriado falarmos de um conjunto de ciências do que de uma ciência universal. Essa estrutura se desfez à medida que as exigências da divisão do trabalho se impuseram... Há outro sentido para a palavra filosofia, no qual não se questiona sua influência sobre a economia. Isso ocorre se a filosofia for concebida como uma ciência, como qualquer outra, que formula certas perguntas, utiliza certos materiais e produz certos resultados. Exemplos dos problemas que surgem, se definirmos filosofia nesse sentido, seriam: o que se entende por matéria, força, verdade, percepção sensorial e assim por diante. Essa concepção de filosofia, que agrada a muitos que não são filósofos, torna a filosofia completamente neutra em relação a qualquer proposição específica em qualquer outra ciência. Ela se aproxima de tornar a filosofia sinônimo de epistemologia, a teoria geral do conhecimento [como o fez Immanuel Kant].

Mas surge um problema muito importante se definirmos filosofia como todos os sistemas de crenças teológicos e não teológicos ("sistemas especulativos") referentes a verdades últimas (realidades, causas), fins últimos (ou valores) e normas últimas. A ética e a estética inserem-se nesses sistemas, não como ciências de certos conjuntos de fenômenos (padrões de comportamento), que eles procuram descrever (explicar), mas como códigos normativos que acarretam sanções extraempíricas. Pode-se perguntar se a economia também não entra em jogo, no sentido de que a ‘filosofia’ de um escritor determina, ou é um dos fatores que determinam, sua economia [como afirmam os marxistas].

Para preparar o terreno para nossa resposta, mencionarei primeiro alguns casos ilustrativos da história de outras ciências. Para qualquer pesquisador cuja filosofia inclua a crença cristã, a pesquisa é uma pesquisa sobre as obras de Deus... Assim, Newton expressou crenças cristãs em uma obra puramente científica... Leonhard Euler (1707-1783) defendeu seu "método para encontrar curvas que possuem certas propriedades extremas" com base no argumento de que o mundo é obra do Criador perfeito e, portanto, deve ser passível de descrição em termos de proposições de máximo e mínimo. James P. Joule (1818-1889), codescobridor do princípio fundamental da termodinâmica moderna, o princípio do equivalente mecânico do calor, argumentou que, na ausência da equivalência entre calor e movimento, algo (energia) poderia se perder no universo físico, o que seria contrário à dignidade de Deus.

Os dois últimos exemplos poderiam até ser interpretados como prova da influência direta das crenças de Euler e Joule sobre seu trabalho analítico. No entanto, ninguém duvida... (a) que o trabalho científico dos autores mencionados não foi desviado de seu curso por suas convicções teológicas; (b) que é compatível com quaisquer posições filosóficas; e (c) que não faria sentido tentar explicar seus métodos ou resultados por meio de suas posições filosóficas. Eles simplesmente coordenaram seus métodos e resultados com sua fé cristã, assim como coordenavam tudo o mais que faziam. Revestiram seu trabalho científico com uma roupagem teológica. Mas, no que diz respeito ao conteúdo desta obra, essas vestes eram removíveis [sem prejuízo para os conteúdos].

Sustento que a roupagem da filosofia também é removível no caso da economia: a análise econômica nunca foi moldada pelas opiniões filosóficas que os economistas porventura tivessem, embora tenha sido frequentemente viciada por suas posições políticas. Mas essa tese, tal como está... precisa ser esclarecida cuidadosamente, e o melhor método para isso é declarar explicitamente o que isso não envolve.

Primeiro, não envolve "cientificismo". Ou seja, não estou argumentando que, pelo fato de a roupagem filosófica ou teológica ser removível das proposições pertencentes às ciências físicas, ela também deva ser removível das proposições pertencentes às ciências sociais. Nossos exemplos foram apresentados meramente para ilustrar o que quero dizer ao afirmar que os credos teológicos ou filosóficos de um pesquisador científico não precisam exercer qualquer influência definitiva sobre seu trabalho analítico, mas não para fundamentar minha tese. No que diz respeito a esses exemplos, permanece em aberto se isso também se aplica às ciências da ação humana.

Segundo, minha tese não implica, obviamente, que a própria ação humana e os processos psíquicos a ela associados — motivos ou métodos de raciocínio, sejam políticos, econômicos ou de qualquer outra natureza — não sejam influenciados ou correlacionados com convicções filosóficas, religiosas ou éticas. Acontece que faz parte da própria psicologia social sustentar que essa correlação está longe de ser perfeita — um barão ladrão [milionários americanos do século XIX e XX] pode professar sinceramente um credo de mansidão e altruísmo [vários deles foram personagens proeminentes em suas igrejas] —, mas isso é uma questão completamente diferente. Estamos agora preocupados com as proposições das ciências do comportamento humano sobre esse comportamento humano e não questionamos que elementos religiosos ou filosóficos devam, de fato, entrar em qualquer explicação desse comportamento sempre que visem à completude ou ao realismo. E isso também se aplica à “política” do economista científico e a qualquer conselho ou recomendação que ele possa oferecer com o objetivo de influenciar “políticas”. Tudo o que nossa tese implica é que isso, ainda que exista, não se aplica às suas ferramentas e “teoremas” analíticos.

Terceiro, minha tese não envolve o recurso a considerações gerais sobre a autonomia lógica da proposição ou teorema econômico em relação à filosofia. Isso ainda seria compatível com a influência desta última infiltrando-se nos procedimentos do trabalho analítico de maneira logicamente ilegítima. De fato, seria plausível que proposições como a de que as cidades frequentemente se desenvolveram a partir de pontos de encontro de mercadores não carregassem qualquer conotação filosófica particular; ou que proposições como a de que os testes de significância ordinários são inúteis no caso de correlação entre séries temporais fossem válidas tanto para o deísta quanto para o ateu; ou ainda que proposições como a de que o aumento na taxa de remuneração de um fator de produção pode diminuir sua oferta fossem compatíveis com qualquer filosofia e não impostas por nenhuma. Mas não estou pedindo aos meus leitores que confiem em argumentos desse tipo... No momento, não estou tentando estabelecer minha tese. Estou apenas anunciando-a e explicando seu significado. A prova será apresentada adiante, quando será demonstrado que mesmo economistas que possuíam visões filosóficas muito definidas, como Locke, Hume, Quesnay e, sobretudo, Marx, na verdade não foram influenciados por elas ao realizarem seus trabalhos de análise.

 

Notas

A fronteira das ciências

Ampliando o que já foi dito sobre este ponto, quero salientar que todas as ciências históricas e ramos da ciência que a especialização... produziu são, em certa medida, relevantes para nós, mesmo quando não tratam de fatos especificamente econômicos. Por exemplo, a civilização greco-romana é objeto de pesquisa de três grupos de estudiosos claramente distintos: historiadores, filólogos e juristas. Todos os três lidam com muitas coisas que não nos dizem respeito. Mas mesmo quando o fazem, contribuem para o panorama cultural desse mundo que, em sua totalidade, não nos é indiferente; e mesmo quando descrevem a história militar ou a história das artes, utilizam as mesmas técnicas que empregam para descrever eventos e instituições econômicas ou sociais, de modo que não há uma fronteira rígida na qual se possa dizer que nosso interesse termine definitivamente.

Economia e ciência jurídica

A ciência ou ciências (em nosso sentido) cujos objetos consistem no “direito” estatutário ou consuetudinário, na prática jurídica e nas técnicas jurídicas são relevantes para uma história da análise econômica, em primeiro lugar, porque, em grande medida, os economistas foram juristas (ou, como preferimos dizer, juristas) que aplicaram os hábitos da mente jurídica à análise dos fenômenos econômicos. Por exemplo, os sistemas sociológico e econômico dos doutores escolásticos do século XVI (a literatura de jure et justitia) não podem ser compreendidos se não percebermos que eram, primordialmente, tratados sobre o direito político e econômico da Igreja Católica e que sua técnica derivava, em primeiro lugar, do antigo direito romano, adaptado às condições da época. Em segundo lugar, o arcabouço jurídico do processo econômico e a influência que um exerce sobre o outro são de considerável importância para a análise econômica. Em terceiro lugar, as raízes históricas do conceito de “direito econômico” encontram-se no conceito puramente jurídico de “direito natural”. Em quarto lugar, certos economistas do século XIX afirmavam ter se inspirado, para uma visão histórica do processo econômico, em uma escola de jurisprudência que se autodenominava "escola histórica", cuja origem e posição devem ser compreendidas de forma mais completa do que os economistas costumam fazer, se quisermos distinguir os elementos de verdade e erro nessa visão. Aproveito a oportunidade para acrescentar que a análise sociológica do direito como fenômeno social é uma coisa; que o estudo das técnicas da prática jurídica — o tipo de coisa que se ensina nas faculdades de direito americanas — é outra bem diferente; e que a jurisprudência histórica é outra coisa ainda: portanto, devemos distinguir pelo menos três "ciências" diferentes do direito, que diferem em material, ferramentas e objetivos, e são cultivadas (embora haja sobreposições) por diferentes grupos de pesquisadores, e o mesmo ocorre nos campos da religião, da ética e da estética. Nessas circunstâncias, a confusão torna-se quase desculpável, e grandes batalhas sobre princípios e "métodos" têm sido travadas em questões (por exemplo, nas ciências da arte) que se esclarecem automaticamente assim que se percebe que os participantes visam objetivos diferentes.

O conceito de sistema

Fique o leitor advertido que o termo Sistema — que, na verdade, não possui um significado mais definido do que seu protótipo grego — é usado neste livro em uma variedade de sentidos diferentes que não devem ser confundidos, por exemplo: um conjunto de princípios de ação política mais ou menos coordenados (por exemplo, sistema liberal, sistema de livre comércio); um corpo organizado de doutrina (por exemplo, o sistema escolástico, o sistema de Marshall); um conjunto de quantidades entre as quais se presume a existência de certas relações (por exemplo, sistema de preços); um conjunto de equações que expressam tais relações (por exemplo, o sistema walrasiano).

O conceito de materialismo

Isso também se aplica ao materialismo em seu sentido técnico-filosófico, ou seja, à doutrina que não mudou desde os tempos de Leucipo e Demócrito até hoje, e sustenta que a ‘matéria’ é a realidade última e existe independentemente da experiência. Aproveito a oportunidade oferecida pela necessidade de um exemplo ilustrativo do texto acima para deixar claro ao leitor que a palavra ‘materialismo’ significa muitas coisas que nada têm a ver com o significado técnico que acabei de definir. A filosofia ‘idealista’, que se baseia na proposição (igualmente desprovida de significado para mim pessoalmente) de que, em última análise, a realidade (ou o ‘mundo’) é ‘espírito’, teria servido igualmente bem a ambos os propósitos: teria fornecido um exemplo de filosofia no sentido em que levanta um problema de influência sobre a economia; e teria servido como outro exemplo de uma palavra com muitos significados, comumente confundidos.

[traduzido de History of Economic Analysis]


 


TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 4

ECONOMIA E SOCIOLOGIA

... Ao escrever história econômica, há afirmações que não deveriam ser acrescentadas a menos que devidamente fundamentadas por argumentos próprios da teoria econômica: um exemplo disso é a afirmação que vincula o grande desenvolvimento econômico da Inglaterra, da década de 1840 até o final do século XIX, à revogação das Leis do Milho e de praticamente todos os outros tipos de protecionismo. Os esquemas da teoria econômica derivam da história econômica dos arcabouços institucionais nos quais devem funcionar, sendo que somente ela pode nos dizer que tipo de sociedade existia, ou existe, à qual os esquemas teóricos devem se aplicar.

Contudo, não é apenas a história econômica que presta esse serviço à teoria econômica. É fácil perceber que, ao introduzirmos a instituição da propriedade privada, do livre contrato ou de uma maior ou menor regulamentação governamental, estamos introduzindo fatos sociais que não são simplesmente história econômica, mas sim uma espécie de história econômica generalizada, tipificada ou estilizada. E isso se aplica ainda mais às formas gerais de comportamento humano que assumimos, seja em geral ou para certas situações sociais. Todo livro didático de economia que não se limite ao ensino de técnicas no sentido mais restrito do termo, deve ter uma introdução institucional que pertence à sociologia, e não à história econômica propriamente dita.

Inspirando-nos na prática alemã, consideraremos útil, portanto, introduzir um quarto campo fundamental para complementar os outros três, embora o trabalho positivo neste campo também nos leve além da mera análise econômica: o campo que chamaremos de Sociologia Econômica (Wirtschaftssoziologie). Para usar uma expressão feliz: a análise econômica lida com as questões de como as pessoas se comportam em qualquer momento e quais os efeitos econômicos que produzem ao se comportarem dessa maneira; a sociologia econômica lida com a questão de como elas chegaram a se comportar da maneira como se comportam.

Se definirmos comportamento humano de forma suficientemente ampla para incluir não apenas ações, motivos e propensões, mas também as instituições sociais relevantes para o comportamento econômico, como governo, herança de propriedade, contratos e assim por diante, essa definição nos diz tudo o que precisamos...

Sociologia e Economia

Após o dito no capítulo anterior sobre a importância fundamental da história — e de todas as ciências e ramos da ciência que este termo abrange... é evidente que não podemos nos dar ao luxo... de negligenciar os desenvolvimentos da sociologia. Usaremos este termo no sentido estrito em que denota uma única ciência, embora longe de ser homogênea, a saber, a análise geral de fenômenos sociais como sociedade, grupo, classe, relações de grupo, liderança e similares. E usaremos o termo neste sentido ao longo de todo o texto para desenvolvimentos que antecedem em séculos a introdução da palavra. Em um sentido mais amplo, a totalidade de muitas áreas de ciências sociais sobrepostas e descoordenadas — termo que preferimos e que inclui, entre outras coisas, nossa própria economia, jurisprudência, hierologia, “ciência política”, ecologia e ética e estética descritivas (no sentido da sociologia dos padrões de comportamento moral e da arte)...

A proximidade de algumas dessas relações foi reconhecida pela criação do "campo fundamental" da Sociologia Econômica, no qual nem economistas nem sociólogos conseguem ir muito longe sem se depararem com conflitos. Mas isso não significa que a cooperação entre os dois grupos tenha sido particularmente estreita ou fértil; ou que qualquer um deles teria se dado melhor se tivesse havido mais cooperação. Quanto ao primeiro ponto, trata-se do fato de que, desde o século XVIII, ambos os grupos têm se distanciado progressivamente, até que hoje o economista e o sociólogo mais tradicionais pouco sabem e se importam com o trabalho um do outro, preferindo usar, respectivamente, uma sociologia e uma economia primitivas a aceitar os resultados profissionais um do outro — uma situação que não foi e não é melhorada pela vituperação mútua.

Já no segundo ponto, não é de forma alguma certo que uma cooperação mais estreita, tão frequentemente clamada por leigos que esperam grandes resultados da "fertilização cruzada" com uma certeza inquestionável em relação à competência profissional, teria sido uma bênção sem ressalvas. Pois certamente não teria trazido ganhos líquidos, porque haveria alguma perda daquela eficiência que resulta da especialização estrita. Isso vale até mesmo para a divisão da economia e da sociologia (em sentido amplo) em departamentos que se desenvolveram no que são, para todos os efeitos e propósitos, ciências semi-independentes. É precisamente por isso que preferimos falar de ciências sociais em vez de sociologia em sentido amplo. Como observou certa vez um eminente economista, a fertilização cruzada pode facilmente resultar em esterilização cruzada. Isso não afeta o que foi dito sobre a necessidade de acompanhar, ao menos de forma fragmentária, os desenvolvimentos de todos os "campos vizinhos" neste livro...

Lógica e psicologia

Estamos particularmente interessados ​​em lógica e psicologia. A primeira merece nossa atenção porque os economistas deram uma contribuição considerável a ela, mas especialmente por sua propensão a dogmatizar e a discutir sobre "método": os economistas que apreciam esse passatempo tendem a ser influenciados pelos escritos dos lógicos de sua época, que, portanto, embora mais aparentemente do que realmente, exercem alguma influência, legítima ou não, sobre nosso trabalho. No que diz respeito à psicologia, há a visão que surgiu primeiro no século XVIII e, portanto, tem sido defendida intermitentemente, de que a economia, como outras ciências sociais, lida com o comportamento humano.

A psicologia é realmente a base a partir da qual qualquer ciência social deve partir e em termos da qual toda explicação fundamental deve se basear. Essa visão, que foi defendida com a mesma veemência com que foi atacada, denominaremos Psicologismo. Na verdade, porém, os economistas nunca permitiram que suas análises fossem influenciadas pelos psicólogos profissionais de sua época, mas sempre formularam para si mesmos as suposições sobre processos psíquicos que consideraram convenientes. Por um lado, notaremos esse fato ocasionalmente com surpresa, pois existem problemas na análise econômica que poderiam ser atacados com vantagem por métodos elaborados por psicólogos. Por outro lado, devemos evitar uma ilusão muito comum. Se usarmos uma suposição cujo conteúdo parece pertencer a um campo específico, isso não significa necessariamente que estamos invadindo esse campo. Por exemplo, a chamada lei dos rendimentos decrescentes da terra refere-se ao que poderia ser chamado de fato físico. Mas, como já foi apontado, isso não significa que, ao formular essa suposição, estamos entrando no campo da física. Da mesma forma, quando afirmo a suposição de que, à medida que como pedaços sucessivos de pão, meu desejo por mais pedaços diminui, pode-se dizer que estou afirmando um fato psíquico. Mas, ao fazer isso, não estou tomando emprestado nada da psicologia profissional, seja bom ou ruim; estou simplesmente formulando o que acredito ser um fato da experiência comum. Se nos colocarmos nessa posição, descobriremos que há muito menos psicologia nas proposições econômicas do que se poderia pensar à primeira vista.

Falar de leis psicológicas, como a lei keynesiana da propensão a consumir, é um abuso flagrante, porque essa prática sugere a justificativa de nossas suposições, que, na verdade, não existem. No entanto, é necessário ocasionalmente observar os desenvolvimentos no campo da psicologia profissional, e essa necessidade surge, embora com menos frequência, também em relação a várias outras ciências. Por ora, limitemo-nos a mencionar a biologia como exemplo. Existe, ou existiu, algo como o darwinismo social e econômico. Se quisermos avaliar esse fenômeno, é importante certificarmo-nos do que Charles Darwin realmente disse e dos métodos e materiais que o levaram a dizê-lo.

[traduzido de History of Economic Analysis]

domingo, 22 de março de 2026

 


HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 3

Ferramentas da análise econômica

HISTÓRIA

Desses campos fundamentais, a história econômica — que abrange e inclui os fatos contemporâneos — é de longe o mais importante. Gostaria de afirmar desde já que, se ao iniciar meus estudos em economia, me dissessem que eu poderia estudar apenas um dos três, mas que teria a opção de escolher, eu escolheria a história econômica. E isso por três motivos.

Primeiro, o objeto de estudo da economia é essencialmente um processo único no tempo histórico. Ninguém pode esperar compreender os fenômenos econômicos de qualquer época, incluindo a atual, se não possui um domínio adequado dos fatos históricos e uma dose adequada de senso histórico ou do que pode ser descrito como experiência histórica [por exemplo, perceber que ações do passado não podem ser julgadas de acordo com valores do presente].

Em segundo lugar, o relato histórico não pode ser puramente econômico, antes deve inevitavelmente refletir também fatos “institucionais” que não têm a ver diretamente com economia: portanto, oferece o melhor método para entender como os fatos econômicos e não econômicos se relacionam entre si e como as várias ciências sociais devem se relacionar também.

Em terceiro lugar, acredito que a maioria dos erros fundamentais atualmente cometidos na análise econômica se deve à falta de experiência histórica, mais frequentemente do que a qualquer outra deficiência do aparato do economista. A história deve, naturalmente, ser entendida como incluindo campos que adquiriram nomes diferentes como consequência da especialização, como relatos pré-históricos e etnologia (antropologia).

Duas consequências preocupantes do argumento acima devem ser observadas imediatamente. Primeiro, visto que a história é uma fonte importante — embora não a única — do material do economista e, além disso, visto que o próprio economista é um produto de seu tempo e de todo o tempo que o precede, a análise econômica e seus resultados são certamente afetados pela relatividade histórica, e a única questão é em que medida. Nenhuma resposta válida para essa questão pode ser obtida filosofando sobre o assunto, mas será uma de nossas principais preocupações elaborá-la por meio de investigação detalhada... Segundo, temos que encarar o fato de que, sendo a história econômica parte da economia, as técnicas do historiador são passageiras no grande ônibus que chamamos de análise econômica... Portanto, mesmo os economistas que não são historiadores econômicos e que apenas leem os relatos históricos escritos por outros devem entender como esses relatos foram elaborados, caso contrário, não serão capazes de avaliar o seu significado real...

ESTATÍSTICA

......

TEORIA

O terceiro campo fundamental é a ‘teoria’. Este termo carrega muitos significados, mas apenas dois deles são relevantes para o nosso uso neste livro. O primeiro, e menos importante, torna as teorias sinônimo de hipóteses explicativas. Tais hipóteses são, naturalmente, ingredientes essenciais da historiografia e da estatística. Por exemplo, mesmo o historiador mais rigorosamente factual, seja ele da área econômica ou de outra, dificilmente conseguirá evitar formular uma hipótese ou teoria explicativa, ou várias hipóteses ou teorias explicativas, sobre as origens das cidades. O estatístico, por exemplo, precisa formular uma hipótese ou teoria sobre a distribuição conjunta das variáveis ​​estocásticas que compõem seu problema. Tudo o que precisa ser dito a respeito disso é que é um erro — bastante difundido — acreditar que a única ou principal tarefa do teórico econômico consiste em formular tais hipóteses (alguns diriam: do nada).

A teoria econômica faz algo completamente diferente. Ela não pode, de fato, assim como a física teórica, prescindir de esquemas ou modelos simplificadores que visam retratar certos aspectos da realidade e tomar algumas coisas como certas para estabelecer outras de acordo com determinadas regras de procedimento. No que diz respeito ao nosso argumento atual, as coisas (proposições) que tomamos como certas podem ser chamadas indiscriminadamente de hipóteses, axiomas, postulados, pressupostos ou mesmo princípios, e as coisas (proposições) que pensamos ter estabelecido por meio de procedimentos admissíveis são chamadas de teoremas.

É claro que uma proposição pode figurar em um argumento como um postulado e em outro como um teorema. Ora, hipóteses desse tipo também são sugeridas por fatos — levando-se em conta as observações feitas —, mas, em termos de lógica estrita, são criações arbitrárias do analista. Elas diferem das hipóteses do primeiro tipo porque não incorporam resultados finais de pesquisa que supostamente sejam interessantes por si só, mas são meros instrumentos ou ferramentas formulados com o propósito de estabelecer resultados interessantes.

Além disso, formular hipóteses não é tudo o que o teórico econômico faz, assim como formular hipóteses estatísticas não é tudo o que o teórico estatístico, ou qualquer outro teórico, faz. Igualmente importante é a elaboração dos demais instrumentos pelos quais os resultados podem ser extraídos das hipóteses — todos os conceitos (como “taxa marginal de substituição”, “produtividade marginal”, “multiplicador”, “acelerador”), as relações entre os conceitos e os métodos para lidar com essas relações, não têm nada de hipotético. E é a soma total desses instrumentos — incluindo as suposições estrategicamente úteis — que constitui a teoria econômica. Na expressão insuperavelmente feliz da Sra. Robinson, a teoria econômica é uma caixa de ferramentas.

A lógica dessa concepção da teoria econômica é simples e a mesma que em todos os outros ramos da ciência. A experiência nos ensina que os fenômenos de uma determinada classe — econômicos, biológicos, mecânicos, elétricos e outros — são, de fato, ocorrências individuais, cada uma das quais, à medida que ocorre, revela as suas peculiaridades. Mas a experiência também nos ensina que essas ocorrências individuais têm certas propriedades ou aspectos em comum e que uma enorme economia de esforço mental pode ser alcançada se lidarmos com essas propriedades ou aspectos, e com os problemas que eles suscitam, de uma vez por todas.

Para alguns propósitos, é de fato necessário analisar cada caso individual de precificação em um mercado específico, cada caso de formação de renda, cada ciclo de negócios individual, cada transação internacional e assim por diante. Mas mesmo quando isso é necessário, descobrimos que estamos usando, em cada caso, conceitos que ocorrem na análise de todos eles. Em seguida, descobrimos que todos os casos, ou pelo menos grandes conjuntos de casos individuais, exibem características semelhantes que, e cujas implicações, podem ser tratadas para todos eles em conjunto por meio de esquemas gerais de precificação, formação de renda, ciclos, transações internacionais e assim por diante. E, finalmente, descobrimos que esses esquemas não são independentes uns dos outros, mas sim relacionados, de modo que há vantagem em ascender a um nível ainda mais elevado de “abstração generalizante”, sobre o qual construímos um instrumento, motor ou organon composto de análise econômica — embora não o único, como vimos — que funciona formalmente da mesma maneira, independentemente do problema econômico ao qual nos voltemos.

A obra de Richard Cantillon é a primeira em que a consciência dessa última verdade é claramente discernível, embora os economistas tenham levado mais de um século para perceber todas as suas possibilidades — Léon Walras foi, de fato, o primeiro a fazê-lo.

... [Agora] será útil inserir aqui algumas observações adicionais na esperança de que elas contribuam para diminuir as possíveis barreiras entre mim e meus leitores.

Primeiramente, portanto, é necessário acrescentar uma ressalva ao argumento precedente sobre a natureza e as funções da teoria econômica. Esse argumento foi formulado em termos que são aplicáveis, pelo menos substancialmente, a todas as ciências que possuem algum aparato de análise universal. Mas há limites para esse paralelismo... A economia não possui os benefícios que a física obtém com experimentos de laboratório... mas, em vez disso, desfruta de uma fonte de informação negada à física, a saber, o vasto conhecimento humano sobre os significados das ações econômicas.

Essa fonte de informação também é fonte de controvérsias que nos incomodarão repetidamente ao longo de nossa jornada... quando falamos, por exemplo, de motivos que supostamente impulsionam indivíduos ou grupos, nossa fonte de informação pode ser grosseiramente identificada com o conhecimento de processos psíquicos, conscientes ou inconscientes [como a hipótese do egoísmo movendo a economia]; que seria absurdo não o utilizar, embora, como sempre enfatizei, isso não significa invadir o campo da psicologia profissional... Há, no entanto, outra maneira de interpretar nosso conhecimento de significados que é mais próxima da lógica.

Se eu afirmar, por exemplo, que — sob certas condições — os ganhos instantâneos de uma empresa serão maximizados na produção em que o custo marginal se iguala à receita marginal (esta última igualando-se ao preço no caso de concorrência perfeita), pode-se dizer que estou formulando a lógica da situação e um resultado que é verdadeiro, assim como uma regra da lógica geral, independentemente de alguém agir ou não em conformidade com ela. Isso significa que existe uma classe de teoremas econômicos que são ideais ou normas lógicas (não, obviamente, éticas ou políticas). E, evidentemente, diferem de outra classe de teoremas econômicos que se baseiam diretamente em observações, por exemplo, em observações sobre até que ponto as expectativas de oportunidades de emprego afetam os gastos dos trabalhadores com bens de consumo ou como as variações salariais afetam a taxa de casamento. Sem dúvida, seria possível assimilar ambos os tipos de teoria, interpretando as normas lógicas também como generalizações "purificadoras" de dados observacionais, inclusive de observações armazenadas subconscientemente pela experiência comum. No geral, porém, parece melhor não fazê-lo [tomar cuidado com as projeções pessoais e com o excesso de generalizações ou conexões entre as partes observadas].

Em segundo lugar, a explicação anterior pode ter contribuído para me exonerar da suspeita de estar contaminado pelo cientificismo. Este termo foi introduzido pelo Professor von Hayek para denotar a cópia acrítica dos métodos da física matemática, na crença igualmente acrítica de que esses métodos têm aplicação universal e constituem o exemplo inigualável a ser seguido por toda a atividade científica. Esta história, em sua totalidade, responderá à questão se realmente houve tal cópia acrítica de métodos que só têm significado dentro dos padrões particulares das ciências que os desenvolveram... Quanto à questão de princípio, não pode haver a menor dúvida de que Hayek está certo — e o mesmo se aplica a todos os que o precederam no século XIX ao proferirem protestos semelhantes aos seus — ao afirmar que a apropriação, por economistas, de qualquer método com base unicamente no fato de ter sido bem-sucedido em outro lugar é inadmissível... Infelizmente, essa não é a questão principal.

Precisamos perguntar o que constitui "empréstimo" antes de podermos questionar o que constitui empréstimo ilegítimo. E aqui devemos ter cuidado com uma ilusão de ótica semelhante àquela que torna os marxistas tão relutantes em usar termos como preço, custo, dinheiro, valor dos serviços da terra ou mesmo juros ao falar de uma futura ordem socialista: esses termos denotam conceitos de lógica econômica geral e parecem aos marxistas estar contaminados com um significado capitalista apenas porque também são usados ​​na sociedade capitalista. De forma semelhante, os conceitos e procedimentos da matemática “superior” foram de fato desenvolvidos inicialmente em conexão com os problemas da física, mas isso não significa que haja algo especificamente “fisicalista” nesse tipo de linguagem.

Mas isso também se aplica a alguns “conceitos gerais da física, como potencial de equilíbrio ou oscilador, ou estática e dinâmica, que surgem espontaneamente na análise econômica, assim como os sistemas de equações: o que tomamos emprestado quando usamos, por exemplo, o conceito de ‘oscilador’ é uma palavra e nada mais”. Duas circunstâncias, no entanto, combinam-se para reforçar essa ilusão de ótica. Por um lado, físicos e matemáticos, ao se depararem com esses conceitos gerais que nos ocorreram apenas mais tarde, não apenas os batizaram, mas também desenvolveram sua lógica. Enquanto essa lógica não introduzir nada de “fisicalista” [na análise econômica], seria um desperdício não utilizá-la. Por outro lado, os alunos às vezes entendem uma analogia física mais facilmente do que a economia do caso a ser apresentado. Portanto, tais analogias são frequentemente usadas no ensino.

Portanto, parece que as coisas de que somos acusados ​​de tomar emprestado são meramente reflexos do fato de que todos nós, físicos ou economistas, temos apenas um tipo de cérebro para trabalhar e que esse cérebro age de maneiras que são, em certa medida, semelhantes, independentemente da tarefa a ser executada... Isso não envolve quaisquer erros mecanicistas, deterministas ou outros erros relacionados ao sufixo “-ista”, nem qualquer negligência da verdade a “explicar” significa algo diferente nas ciências naturais e nas ciências sociais [todas, sem exceção, negligenciam algum aspecto da realidade], nem, finalmente, qualquer negação das implicações do caráter histórico de nossa área de estudo.

Terceiro, se a teoria econômica é algo tão simples e inofensivo quanto descrevi, o leitor pode se perguntar de onde vem a hostilidade que a acompanha desde que se destacou [o historiador e filósofo escocês Thomas Carlyle, sec. XIX, a chamou de “ciência sombria”]...  até os dias de hoje. Vou simplesmente listar os principais pontos para uma resposta que nossa história comprovará amplamente:

1- Em todos os momentos, inclusive no presente, considerando as necessidades de cada período (e não o estado da teoria, evitando julgar o estado da teoria em um dado momento pelos padrões de uma época posterior), o desempenho da teoria econômica tem ficado abaixo das expectativas razoáveis ​​e sujeito a críticas válidas.

2 - Embora o desempenho da teoria econômica nunca tenha atingido o nível esperado, ou seja, nunca tenha sido o que poderia ter sido, ele também estava além da compreensão da maioria dos interessados, que não conseguiam entendê-lo e se ressentiam de qualquer tentativa de refinamento analítico.

3 - Vamos distinguir cuidadosamente os dois elementos que contribuem para esse ressentimento. Por um lado, sempre houve muitos economistas que lamentavam a perda de toda aquela massa de fatos que, de fato, se perde em qualquer processo que envolva abstração... o que é frequentemente bastante justificado. Por outro lado, porém, existem mentes pouco teóricas que são incapazes de ver qualquer utilidade em algo que não se relacione diretamente com problemas práticos... que carecem da cultura científica necessária para apreciar o refinamento analítico... Isso explica o fato de que as críticas à teoria econômica partiram tanto de pessoas que estavam acima quanto de pessoas que estavam abaixo do nível da teoria econômica de sua época.

4 - A hostilidade que emanava dessas fontes era frequentemente reforçada pela hostilidade às alianças políticas que a maioria dos teóricos persistia em formar. O exemplo clássico disso é a aliança da teoria econômica com o liberalismo político do século XIX. Como veremos, essa aliança teve o efeito de transformar, por um tempo, a derrota do liberalismo político em uma derrota da teoria econômica. E, naquela época, muitas pessoas detestavam a teoria econômica porque a consideravam apenas um artifício para reforçar um programa político do qual discordavam. Essa visão era ainda mais fácil de aceitar porque os próprios teóricos econômicos compartilhavam desse erro e faziam todo o possível para utilizar seu aparato analítico a serviço de sua crença política liberal. Nesse e em muitos casos análogos, dos quais a teoria econômica moderna é outro exemplo deplorável, os economistas cederam à sua forte propensão a se envolverem na política, a venderem receitas políticas, a se apresentarem como filósofos da vida econômica e, ao fazê-lo, negligenciaram o dever de explicitar os juízos de valor que introduziam em seu raciocínio [O autor trata aqui da intensa politização do debate econômico no período que antecedeu a Guerra Fria].

Nota

A precariedade ou relatividade do nosso conhecimento

Este é um dos vários significados da palavra relatividade. Aqui, queremos dizer com ela nada mais do que (a) que não podemos usar mais material do que temos e que, em consequência, alguns ou todos os nossos resultados podem não se sustentar à luz de experiências futuras (um fato que deve, obviamente, ser devidamente considerado na interpretação dos economistas do passado); e (b) que os interesses dos economistas nos problemas de sua época, bem como suas atitudes em relação a esses problemas, condicionam suas visões gerais sobre os fenômenos econômicos.

[Traduzido de History of Economic Analysis de J A Schumpeter]