segunda-feira, 8 de junho de 2026

 

 
O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER
A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA - 23

Sem leme ou carta de navegação, mas com muitos comandantes.

A Proclamação da República, em 1889, foi fruto de um golpe militar improvisado para atender a interesses classistas e uma disputa de prestígio por egos inflados, em que o interesse nacional, muito citado, não era prioridade.

O Governo Provisório que lhe seguiu foi uma patética demonstração do quanto a nação e as suas elites políticas estavam distantes do ideal de uma república moderna, mesmo para aquela época, quando já havia uma longa experiência republicana entre os nossos vizinhos. Para não falar do desinteresse popular pelo assunto.

Cada grupo, principalmente aqueles com poder de intervenção no funcionamento da estrutura imperial, como o exército e os republicanos paulistas, articula projeto próprio, excludente, não necessariamente coerente, enquanto se manifesta uma multidão de 'imperadores' — gente pouco propensa às negociações, adepta de soluções de força e saídas extralegais. 

Esses grupos, aproveitando a oportunidade e o poder já acumulados, criam um clima de desconfiança e conspiração permanente que, transbordando de palácios, mansões e repartições públicas, inunda as ruas por meio de alucinadas palavras de ordem e boatos absurdos, como num rastilho de pólvora numa atmosfera saturada.

Ninguém sabia muito bem o que estava acontecendo, o que fazer ou para onde ir, afinal, durante quase 400 anos sempre houve um rei apontando a única direção 'aceitável'. Mostrar a 'força do braço' era mais importante que a força do argumento ou a discussão de projetos de longo prazo, num país em que quase 90% da população era analfabeta. Quando havia algum, ninguém conseguia ler ou suportar, como os textos enormes e eruditos do nosso brilhante, mas inacessível, Rui Barbosa.

Cada grupo político que se formava, deformava ou se conformava ao sabor dos últimos acontecimentos — dizia-se “sucessos” — julgava-se dono da verdade, capaz de só ele trazer algum tipo de estabilidade ao país, com isso gerando mais instabilidade.

O que se seguiu ao catastrófico Governo Provisório foi o acirramento da polarização política e da pobreza generalizada, por causa do Encilhamento. Ainda assim, conseguimos a promulgação da primeira constituição republicana, em 1891, e acertou-se encaminhar a primeira eleição para presidente do Brasil, feita pelos membros do Congresso Constituinte, em um ambiente com grande expectativa de golpe (6). Não havia um projeto dominante, coerente, para o novo regime, e o único que se aproximava disso, o dos paulistas, estava isolado por falta de amparo militar.

Era consenso entre os republicanos, históricos ou não, que a manutenção de Deodoro no poder seria um desastre, mas, nos quartéis, em especial entre os oficiais, deslumbrados com o poder recém-adquirido, a eleição de Deodoro era imperativa. A crença era de que, como foi o exército quem fez a república, ela como que lhe pertencia ou, no mínimo, deveria a ele se submeter. Para eles, os militares correram o risco e agora os civis, de seus camarotes, queriam aproveitar-se. O contexto de crise econômica aguda, pelo Encilhamento, só fazia piorar as coisas.

A maioria achava que, se Deodoro não vencesse as eleições, haveria um golpe. Havia, no recinto de votação, vários militares fardados e policiais à paisana, armados. A intimidação era visível. Entre os presentes, alguns haviam assinado pactos prometendo dar a própria vida pela lisura do processo, entre estes, o tenente-coronel Moreira César, conforme o testemunho do jornalista José do Patrocínio, no jornal Cidade do Rio, de 8 de março de 1897:

Quem escreve estas linhas pode dar testemunho da sinceridade republicana de Moreira César. Nos tempos da propaganda [abolicionista], eram um só os corações. Amavam-se como irmãos.

Durante a campanha abolicionista, era Moreira César um dos supremos apelos para levar larga esperança ao cativo. Com ele garantíamos a vida do propagandista, porque os nossos adversários estavam convencidos de que ele não sabia tergiversar e fazia da sua espada uma tara para que a lei pesasse ouro no direito da propaganda abolicionista [ele protegia a integridade física dos abolicionistas]…

Proclamada a república… o militar e o jornalista encontravam-se… num pensamento comum: é que a república não podia ser de uma individualidade [ditadura pessoal] por mais gloriosa que ela fosse…

O senhor Prudente de Moraes deve lembrar-se de que, no dia da eleição… quem escreve estas linhas saudou-o e ao então general Floriano… o que ninguém sabia… era que um punhado de brasileiros tinha entrado no Congresso depois de haver celebrado um pacto: ou dali sairia presidente da República o Dr. Prudente de Morais, se conseguisse maioria, ou então ficariam mortos lá dentro… Um deles era Moreira César.”

Prudente conduziu calmamente a eleição, no dia 25 de fevereiro de 1891, abrindo mão da presidência dos trabalhos, como presidente do Senado Federal, quando o seu nome começou a sair das urnas. Quem não ficou esperto, como o velho Saldanha Marinho, eleitor de Prudente, teve o seu voto roubado e trocado pelo de Deodoro — os livros de Hélio Silva (A República não esperou o amanhecer), Edgar Carone (A República Velha II: evolução política 1889–1930) e de R. Magalhães Junior (Deodoro a espada contra o Império), etc., são muito esclarecedores a esse respeito.

Um episódio mostra bem a disposição de Floriano.

Em 24 de fevereiro de 1891, estavam Campos Sales e Prudente de Morais na sala da presidência do Congresso, quando o tenente-coronel Carlos Soares entra e informa os preparativos da tropa para impor a vitória de Deodoro. Segundo Soares, Floriano, para a surpresa de ninguém, estava se dizendo simpático a Deodoro. Nesse momento, ele é deodorista.

Campos Sales, estranhando aquilo, sai e o encontra em um canto, isolado, mas visível ou “encontrável”, para o caso de alguma proposta. Sales solicita o seu posicionamento.

— “Reafirmo o que já afirmei [Além de outras afirmações em contrário]. Sustentarei a candidatura do doutor Prudente (Hélio Silva, 1889).”

Agora ele é prudentista, mas no momento de sua sucessão negará qualquer apoio a Prudente, embora este e a bancada paulista tenham sido fundamentais para sustentar o seu governo. Floriano ainda lançou algumas candidaturas visivelmente inviáveis, enquanto articulava a sua vitaliciedade no cargo — nesse momento final ele é o que sempre foi: florianista.

Nas eleições, aconteceu o previsível: ameaçados pelos militares e rumores de tropas, os deputados elegeram Deodoro da Fonseca, enquanto o 'versátil' Floriano Peixoto ganha a vice-presidência, saindo diretamente dos píncaros do Exército Imperial para ser o segundo homem da República. O que ele fez para merecer isso?

Não há um único documento que comprove que ele um dia moveu um grão de areia pela República, tampouco ter escrito ou emitido publicamente uma opinião que desafiasse o Império. Sua ideia de República ele liberou numa carta a um amigo, na qual elogiava o autoritarismo do ditador paraguaio Francisco Solano Lopez. E só!

Deodoro foi eleito presidente, sem aptidão para o cargo e sem um projeto, portanto não é de admirar que, em 3 de novembro de 1891, incapaz de lidar com os movimentos legislativos de uma democracia, dissolve o Congresso e impõe a ditadura. Um tiro no pé! No dia 23 de novembro, ao deparar-se com uma rebelião na Marinha, a Primeira Revolta da Armada, renuncia. Sai do poder, que ele criara com um golpe, para, por meio de outro, deixá-lo como estava. E ainda ficar muito magoado!

Num determinado momento de seu mandato, já muito isolado, ele recebeu de seu ministro, o Barão de Lucena, o conselho para procurar o apoio de Floriano Peixoto. A resposta de Deodoro mostra que ele conhecia bem o caráter de Floriano:

— “Fique certo de que, se ele tiver certeza da necessidade que temos de seu apoio, se atirará abertamente nos braços da oposição (Helio Silva, O poder militar, 3ª edição, LePM, São Paulo, 1987, p. 53).”

Deodoro renuncia e solicita reforma do exército, vivendo seus últimos dias como um civil ou um ‘casaca’, como ele dizia antes, cheio de desprezo, fazendo aquilo que mais prezava: “pular cerca”, se me entendem.

Na renúncia, Deodoro chamou Floriano, que durante os últimos meses transformara sua casa num ninho de conspiradores (7). Nas reuniões, ele frequentemente simulava desinteresse; recebia as visitas com um roupão, falava de sua saúde precária, fingindo teatralmente surpresa diante dos temas subversivos que apareciam. Se fosse pego, ele certamente diria: “Que eu podia fazer, se eles queriam conversar disso justo na minha casa?”

A impressão que passa é a de um psicótico manipulador, em um nível raro.

Eduardo Simões

O CORONEL MOREIRA CÉSAR E 

               CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 22

Um homem que não era pulcro

Houve, no último quartel do século XIX, um assassinato, ou melhor, um linchamento, famoso no Rio de Janeiro, no qual Moreira César se viu envolvido, embora até hoje não saibamos por que ele foi arrolado no inquérito.

Esse crime, perpetrado por militares em via pública, à luz do dia, com a vítima sob proteção de uma importante autoridade militar, envolveu o mais prestigioso grupamento militar do Império e o próprio imperador. Euclides da Cunha apelou para todo tipo de contorcionismo linguístico e deturpação de fatos para ligar Moreira César a ele.

O relato euclidiano foi engolido pelo público com tanta pressa e acriticidade que o nome da vítima foi mudado, em detrimento dela mesma, tornando-se o único pelo qual ela é conhecida hoje. Modernamente, tem-se ressaltado a cor da pele da vítima, preta, para poder acrescentar um epíteto infame contra César: “racista”.

Segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, em sua edição online, “pulcro” significa algo ou alguém: “Que possui grande beleza… belo, formoso. Que possui delicadeza, graciosidade, delicado, gracioso, mimoso.”

Logo, A-pulcro, com o prefixo de negação “A”, é justamente alguém desprovido de beleza, graciosidade, formosura, etc. Procurando nos jornais da época e documentos antigos, inclusive no seu jornal, O Corsário, o nome verdadeiro dele, conforme a ortografia da época, é Apulcho de Castro, pronuncia-se “apulco”.

Facilita essa confusão o fato de Cunha não citar o nome do jornalista supostamente vitimado por Moreira Cesar, além de errar a data do crime, que ele diz ter ocorrido em 1884, quando na verdade aconteceu em 25 de outubro de 1883. Em algumas edições modernas de Os Sertões, estão alterando criminosamente essa data, para fazê-las coincidir com o fato histórico, o que é, no mínimo, desonestidade.

Estaria Euclides se prevenindo contra a possibilidade de um processo por difamação e calúnia? Todos os elementos que ele apresenta, no único parágrafo em que dedica a esse assunto, apontam deveras para Apulco, mas, quando comparado com as notícias colhidas em jornais da época, ele se torna um dos trechos mais demeritórios de seu grande livro. Diz Euclides:

“Um jornalista, ou melhor, um alucinado, criara, agindo libérrimo graças à frouxidão das leis repressivas, escândalo permanente de insultos intoleráveis na corte do antigo Império.

Euclides injustamente acusa Apulco de criar escândalos, quando ele somente repercutia os escândalos da elite e que, à boca miúda, corriam pela cidade, desmentindo a fachada de honradez e civilidade que envolvia as principais figuras, às quais todos prestavam homenagem e que, por vezes, prejudicavam os pobres. Apulco podia até errar na dose, mas não errava no diagnóstico invariável: falta de vergonha na cara.

 Fora isso, ele era bocudo, debochado — chamava D. Pedro II de ‘Vovô’ — e muito criativo nas suas brincadeiras, mas nunca inventava escândalos ou calúnias, como Euclides fez. Aliás, nesse trecho, Euclides aproveita para dar uma pitada de sua visão autoritária, referindo-se às “leis frouxas” que regiam a imprensa no tempo do Império. Diferente do Marechal de Ferro, que fechou vários jornais oposicionistas para consolidar-se no poder — a única consolidação que ele tentou de fato e não conseguiu.

Eis uma série de trocadilhos da seção de humorismo, de 9 de outubro de 1883:

“Vou dar-te por conta uma seção de humorismo e, se não alcançar esse objetivo, o leitor que faça de conta que a teve.

Agora não há motivo para zangar-se, por essa história de dar uma por conta ou de fazer de conta. O leitor, se nunca deu uma por conta, pelo menos já fez de conta, conquanto isso não seja de minha conta, parece-me ouvir o leitor dizer: “Isso não é coisa que se conta” [fiz algumas poucas alterações ortográficas para o texto ficar mais compreensível].”

 O seu jornal chamava-se O Corsário e tinha como texto de abertura, em todas as edições, a seguinte chamada:

ÓRGÃO DE MORALIZAÇÃO SOCIAL

ATACADO, SAQUEADO E INCENDIADO PELO GOVERNO LIBERAL, SENDO MINISTRO DA JUSTIÇA M. P. DE SOUZA DANTA, SENDO CHEFE DE POLÍCIA O. F. TRIGO DE LOUREIRO 

Tinhoso estava sempre dando uma boiada para começar uma briga e duas para não sair dela! Mas as causas em que se metia, em geral, eram justas, embora, talvez por isso, inevitavelmente perdidas. Prossigamos com Euclides: “E tendo respingado sobre o exército parte das alusões indecorosas, que por igual abrangiam todas as classes.”

Será? Eu chamaria antes de indecorosa a questão que gerou a morte de Apulco, e a forma como ela se deu. Tudo começou na edição de 9 de outubro, na seção A PEDIDOS, na página 3 do jornal.

1º Regimento de Cavalaria Ligeira: O safardana do oficial desse corpo ainda não se moveu a fim de pagar ao taverneiro da Rua da Quitanda.

Nem o senhor comandante, para quem apelou o credor, dignou-se a dar qualquer providência…

O Sr. ajudante-general [o comandante do exército] também não procurou saber qual o oficial do 1º regimento de cavalaria ligeira que caloteia os taverneiros e cinicamente lhes passa documentos para não cumprirem” [vales,  ou algo do tipo].

Após perceber que os colegas do ‘caloteiro’ também ficaram indiferentes, Apulco resolve partir para a ameaça e, para não perder a oportunidade, enfiou todos no mesmo saco e ‘baixou a lenha’.

        

“À vista de tanto indiferentismo, o que deverá fazer o roubado?

O único partido é gastar mais dinheiro, porém tornar conhecido o oficialzinho do primeiro regimento de cavalaria ligeira, como caloteiro que é.

Taverneiros! Açougueiros! Padeiros! Alerta!

Quando virem um indivíduo que tenha galões e que seja oficial do 1º Regimento de Cavalaria Ligeira, sentido com ele! Se não for o tal, poderá ser outro de igual jaez.”

O que há de indecoroso nisso, fora a dívida do oficial? O que há de indecoroso em solicitar a alguém, com condições de pagar uma dívida, que o faça, ainda que de uma forma acintosa, após esgotarem-se os meios de diálogo e conversa particular? Para mim, Euclides parece interessado em comprometer a vítima.

Ao dizer que Apulco foi “indecoroso” com o exército, mas sem citar o que aconteceu, Euclides deixa o leitor no ar. Mas isso pode ter um motivo: se ele o revelasse, muitos desconfiariam, afinal, como alguém com uma “carreira correta como poucas” se deixaria tomar por tanta fúria por causa da justa cobrança de uma dívida, que nem é dele nem de alguém de sua unidade militar? A verdadeira história deste assassinato e o seu desenlace estão ocultos em Os Sertões.

Se Euclides citasse dados como o nome da vítima e a data correta do evento, um caso famoso na cidade, pessoas que acompanharam o inquérito pelos jornais e lhe tinham memória diriam: “Mas ele já foi absolvido por isso!”, e a sua criação ficaria desmoralizada. Ao não citar a vítima e dar a data errada, ele punha uma dúvida no ar. Será que foi outro caso? Tudo, enfim, soa estranho nesse relato.

O 1º Regimento de Cavalaria Ligeira, a que se refere o jornalista, é o mesmo 1º Regimento de Cavalaria de Guarda, chamado hoje Dragões da Independência. Constituía, e ainda constitui, uma unidade militar de elite, responsável pela segurança do primeiro mandatário da nação. Nessa época, ele era formado por gente do topo da sociedade. Os filhos de grandes fazendeiros, que tinham recursos suficientes para bancar as despesas do curso de cavalaria e pagar por apetrechos cerimoniais próprios da arma. Moreira César era da infantaria, lotado em outra unidade.

Que camaradagem é essa, ligando o pobre capitão da infantaria ao oficial nobre do 1º regimento, ao ponto de aquele arriscar o imenso esforço que já fizera para evoluir na profissão, defendendo um suposto 'amigo' ou 'colega', numa causa tão indigna?

Com a ameaça de divulgação do nome do caloteiro, a sociedade carioca ferveu. Era o assunto do dia. Então, alguns homens invadem a sede de O Corsário e promovem um quebra-quebra. Apulco passa a imprimir o jornal em outra oficina. No dia 23 de outubro, ele volta à carga: em um extenso editorial, cheio de denúncias e desafios.

“O 1º Regimento de Cavalaria Ligeira diz para quem queira ouvir que Apulco de Castro há de ser assassinado… se continuar a publicar O Corsário.

Ora, Apulco não teme as ameaças do 1º Regimento, e O Corsário continuará a ser publicado. A sua oficina tipográfica está ameaçada de ser quebrada tantas vezes for montada… Sim, porque havemos de vingar-nos do 1º Regimento…”

A ira de Apulco é toda dirigida ao 1º Regimento de Cavalaria Ligeira, não se referindo ao exército na totalidade. Apulco prossegue:

“Já depositamos a nossa família em lugar seguroBebam, embora, como prometem, o sangue do negro, mas ficarão sabendo que o negro é homem que não teme a multidão... Assassinem-nos que dos vermes saídos de nosso corpo brotarão fantasmas que vos hão de perseguir eternamente.

O remorso.”

E, para não perder a viagem, entregou o nome do caloteiro com todas as letras: “Alferes Firmino Garges Bellegarde.”

Espatifou! Essa briga era justa, mas também era desigual.

Gente com esse sobrenome veio ao Brasil na frota do príncipe D. João, em 1808, no mesmo navio que este! O jovem príncipe Pedro, o nosso Pedro I, foi padrinho de batismo de um Pedro Bellegarde no Rio de Janeiro. Embora não dê para dizer que o alferes seja descendente direto deles, o sobrenome e a unidade militar nos dizem, porém, que não se trata de um homem pobre, sem recursos para pagar uma dívida dessas.

Dois dias depois, à tardinha, Apulco procura o chefe de polícia, por causa de um grupo de homens que rondava a sua casa, utilizando roupas civis e barba postiça. O chefe de polícia achou melhor Apulco haver-se diretamente com o comandante do exército, o Visconde da Gávea, mas, assim que saiu da delegacia, viu que o grupo suspeito o esperava e retornou.

Pouco depois, chega o capitão João Antônio d’Ávila, ajudante de ordens do Visconde da Gávea, que, após falar com os suspeitos, volta dizendo que estes queriam apenas dar uma sova em Apulco, mas se ele ficasse ao seu lado, nada lhe aconteceria. Relato de Hermeto Lima na Revista da Semana (ano XXV, Nº 38, Companhia Editora Americana, 13 de setembro de 1924, Rio de Janeiro, p. 30). Essa conversa do capitão com os facínoras é indício certo de que ele e os assassinos se conheciam; logo, eram militares. 

É possível que a surra fosse a ideia original, como a lembrar o jornalista da condição em que viviam muitos daqueles que tinham a pele como a sua. Afinal, era um negro cobrando coerência moral (HONRA) de homens da elite branca, em favor, provavelmente, de um branco pobre, talvez português, como o eram muitos donos de pousadas no antigo Rio. Mas a coisa saiu do controle, e mal a carruagem com Apulco dobrou a primeira esquina, esse grupo se atirou contra o jornalista, apunhalando-o selvagemente: 7 punhaladas nas costas, uma na boca e uma na ilharga. Segundo Hermeto Lima. Noutros relatos, fala-se também de um tiro. 

No momento do ataque, o capitão Ávila, que dera a sua palavra de que Apulco estava seguro ao seu lado, limitou-se a empurrar os agressores, ficando com um braço contuso. Para mim, ele fez o pior papel de todos. Se sabia da armadilha ou participou da trama, foi um grande canalha, mas se não o sabia, tinha a obrigação de defender aquele a quem pôs sob a sua guarda, ao preço da própria vida. Saiu completamente desonrado do episódio.

Outro indício de que os atacantes eram militares e/ou gente de importância foi o cuidado e a lentidão com que os policiais e espectadores, que estavam nas imediações, se aproximaram da carruagem e o depoimento confuso que deram no inquérito. Para piorar as coisas, o Senhor Imperador, dois ou três dias depois do crime, numa atitude escandalosa, fez uma visita de cortesia, que poderíamos considerar até de agradecimento, ao 1º Regimento de Cavalaria.

É horrível também a forma como Euclides da Cunha falseia os dados. Ele não teve a hombridade de deixar claro a que episódio se reportava. Acusou gravemente Moreira César ao mesmo tempo que ocultava o nome da vítima e a real história por trás daquela tragédia. Diz ele em Os Sertões:

Entre os subalternos… figurava, mais graduado, o capitão Moreira César, ainda moço, à volta dos seus trinta anos, e tendo já, em seus assentamentos averbados, merecidos elogios por várias comissões exemplarmente cumpridas [meu destaque]. E foi o mais afoito, o mais impiedoso, o primeiro talvez [meu destaque] no esfaquear pelas costas a vítima, exatamente na ocasião em que ela, num carro, sentada ao lado de autoridade superior do próprio exército…

O crime acarretou-lhe a transferência para Mato Grosso, e dessa Sibéria canicular do nosso exército tornou somente após a proclamação da República” (Os sertões, idem, p. 296).

Um texto infame… para dizer o mínimo.

1º — Ele coloca Moreira Cesar no centro da ação criminosa, mas se exime de responsabilidade sobre o que diz, pois a palavra 'talvez', posta estrategicamente, o isenta da afirmação de que foi realmente Moreira Cesar quem iniciou o ataque, e até se ele estava presente.

2º — Não é verdade que Moreira César tenha ido para o Mato Grosso em virtude desse crime. O general Epaminondas Ferraz nos informa que a ordem de transferência dele para o 19º B.I., de São Luís de Cáceres, MT (p. 49), se deu no dia 1º de setembro, e o crime contra Apulco foi em 25 de outubro. Só no dia 10 de abril de 1884, 5 meses e meio após o crime, ele parte para o Mato Grosso.

3º — Estando já com transferência marcada para o Mato Grosso, por que ele iria se envolver de uma forma tão extremada numa questão tão mesquinha?

Segundo Ferraz, em agosto ele retorna ao Rio para prestar contas à Justiça. Com ele se apresentam o tenente Bento Thomaz Gonçalves, seu grande amigo do 1º B.I., o alferes Isnard (?) Caetano Pereira do Lago e Antônio Manuel de Aguiar e Silva, do 1º de Cavalaria Ligeira, que se notabilizou em Canudos.

Capitão Manuel de Aguiar e Silva, do estado-maior do general Carlos Eugênio, em Canudos do livro de Henrique Duque Estrada de Macedo Soares, Guerra de Canudos.


Foto de Flávio Barros do sepultamento de Aguiar e Silva, em Canudos, quase ao final da guerra, cujo título é Sepultura do Capitão Silva 02.21, hospedada na Brasiliana Fotográfica. Um ar de tristeza e desalento impregna a foto.


Embora não haja notícia de algum feito singular desse oficial, parece que era muito querido pela tropa, pois vários autores se referem à sua morte. Vejamos primeiramente o testemunho do jornalista Favilla Nunes, no Gazeta de Notícias, de 17 de outubro de 1897 — rememorando episódios da guerra.

 Às 3 horas, morreu em meus braços o capitão do 1º regimento de cavalaria Antônio Manuel de Aguiar e Silva, que havia sido baleado na linha, falecendo logo que chegou na barraca, sendo sepultado às 6 horas da tarde; era assistente do General Carlos Eugênio...” (citado por Walnice Galvão, No calor da hora… p. 267) (5).

Lelis Piedade também noticiou a morte do capitão Aguiar. Disse ele em 21 de outubro de 97, no Jornal de Notícias. “Num dos últimos combates, morreu o ajudante de ordem Aguiar, da coluna do General Carlos Eugênio, vítima de uma bala. O seu corpo foi conduzido solenemente para o cemitério, carregado pelo Coronel Dantas Barreto, Alferes Mangabeira, Enaut e outros. No ato da inumação foram tiradas fotografias. Muito sentida essa morte” (idem, p. 540).

Alvim Horcades também o cita no seu Descrição de uma viagem a Canudos, p. 78. Nesse trabalho [dinamitar as casas onde os canudenses ainda resistiam, no dia 1º de outubro] morreu o bravo Capitão Aguiar, pertencente ao estado-maior do General Carlos Eugênio.

Sabemos que Euclides mentiu, mas não sabemos por que César foi arrolado no inquérito. Ele estava entre os instigadores? Entre os que agiram? Era próximo de alguns deles? Foi vítima de uma calúnia por ser republicano e abolicionista?

O jornal Gazeta de Notícias, de 24 de dezembro de 1884, informa que, até essa data, a apuração ficou a cargo do desembargador Serafim Moniz Barreto, sendo denunciados pelo promotor os seguintes oficiais: 1º capitão Antônio Moreira Cesar, 2º alferes Manuel de Aguiar e Silva, 3º tenente Bento Thomaz Gonçalves e o 4º alferes Ismael Caetano Pereira do Lago (Ferraz o chama “Isnard”!).

Como a Justiça do Império era rápida!

Como testemunhas se apresentaram: 1ª Américo Cardoso, 2ª tenente Manuel Moreira Lyrio, 3ª major Nolthenio Tolentino Alvares, 4ª Pedro José da Cunha, 5ª Antônio José Ferreira de Sampaio, 6ª José Ferreira do Nascimento, 7ª Jorge do Nascimento Rocha e 8ª Alfredo Leopoldo de Moura Ribeiro. Depois das averiguações, inquirições e interrogatórios feitos, o juiz dispensa previamente dois dos acusados, declarando o seguinte:

“O que tudo visto e bem examinado, e considerando que todas as testemunhas, inclusive as referidas, nenhuma carga fazem [meu destaque] contra o 1º e 2º denunciados [Antônio Moreira Cesar e Antônio Manuel de Aguiar e Silva], contra os quais não há indício algum de participação no crime de que se trata [idem].”

E ponto final! A compleição física mirrada de Moreira César o destacaria no meio dos outros oficiais, em especial os da cavalaria, mas ele não foi reconhecido por ninguém.

Outra questão é: como é que Euclides da Cunha não conhecia esse veredito, se o Gazeta de Notícias era um dos jornais mais importantes no Rio de Janeiro?

Contra os outros dois, a coisa se complicava: Bento Thomaz teria invadido a pista de tráfego e segurado os arreios dos cavalos para parar a carruagem. Ismael Caetano foi supostamente visto subindo no estribo traseiro e projetando-se por uma janela, que ficava atrás da lona que cobria o carro, atingindo, pelas costas, o jornalista, sendo, provavelmente, o primeiro a atacá-lo. Mas, como as testemunhas se contradisseram ou, pressionadas, não sustentaram adequadamente o seu testemunho, o desembargador acabou por liberá-las.

Ao final, o infame testemunho do capitão João Antônio d'Ávila, inocentando a tudo e a todos, transformou toda aquela investigação em um circo hediondo. Resta datar e assinar:

Rio de Janeiro, 22 de dezembro de 1884, Serafim Moniz Barreto.”

A participação de Moreira Cesar na Questão Militar e a defesa escancarada do regime republicano o tornaram uma figura incômoda no Rio. Despacharam-no para a fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai, onde participou da montagem do bem-sucedido cordão sanitário de 1886.

Eduardo Simões



                




sábado, 6 de junho de 2026

O ROSTO DA CORAGEM

E o seu endereço: https://www.youtube.com/watch?v=OALtIFyKXC0

 

 


ENCONTRO DE HUMANIDADES.

Aspecto provável do encontro entre neandertais e homens modernos na Europa pré-histórica. Você sabe quem é quem?


UM DIA ISSO FEZ SENTIDO!

Essa propaganda de 1944 compara uma embalagem de drops com um cesto de frutas frescas e considera o drops muito mais vantajoso. Hoje isso não faz o menor sentido. Os tempos mudam, e a mentalidade das pessoas também, pelo menos algumas. Uma tradução aproximada do texto em inglês é:

“Talvez devêssemos chamar isso de ‘Retrato de uma mulher com um negócio sem futuro’, porque um soldado, por mais que goste de abacaxis, laranjas, limões e limas frescas, vai se matar carregando-os por montanhas e outros lugares quando pode obter os mesmos sabores, de forma muito mais prática, com as deliciosas balas Life Savers de cinco sabores?”

 



A ESPERANÇA E A BARRIGA SÃO AS ÚLTIMAS QUE MORREM.

Desde o início dos anos 80, a minha geração acompanha, entre angustiada e indiferente, o crescimento do crime organizado. Em 1983, a Rede Globo estreou a minissérie Bandidos da Falange, de Falange Vermelha, o primeiro nome do Comando Vermelho, já mostrando sua periculosidade em todos os detalhes — lembro-me de um chefão da FV, cercado pela polícia num conjunto de apartamentos populares, resistindo sozinho à polícia, com ele morrendo no final e o apartamento pegando fogo. Aquilo foi um marco. Quem tinha juízo ficou preocupado, mas a grande maioria continuou como estava, votando em políticos sabidamente corruptos e inoperantes, e sem se importar com o seu vizinho.

Um amigo meu, professor, disse certa vez: “Já que a política está uma palhaçada, vou votar no palhaço”. E votou! E o palhaço não fez nada, somente cuidou de si, como se esperava. Esse é o espírito que nos acompanha desde 1822, todo concentrado na barriga, não sobrando nada para o resto.

Agora os chefes do CV não morrem mais trocando bala com a polícia em apartamentos populares. Eles vivem em mansões e compram políticos e autoridades responsáveis por combatê-los,  e a conta veio na forma de uma humilhação internacional. Nossos bandidos de estimação se transformaram em perigosos terroristas para o país mais poderoso do mundo. Demorará muito até sejam para os outros países? Estamos ampliando a nossa pauta de exportação com trabalhadores e criminosos. Oremos para que, no futuro, não se reduza a isso.

E o que está sendo feito? O presidente, desesperado por fachadas, fica histérico e faz ameaças veladas aos EUA, enquanto sugere enforcar seu maior competidor: Flávio Bolseiro. Este e a sua turma festejam a saia justa do presidente paleontológico. Suas chances de vitória na eleição se ampliam. Até o próximo escândalo. 

Será que dessa vez vai dar certo? Se as canetas emagrecedoras funcionarem pra valer, com o que vamos empurrar esse país até o seu destino final?


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E 

               CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 21


 O sertanejo de Pindamonhangaba

Qual é a origem do coronel Moreira César? Pergunta difícil de responder, pois, ao longo de mais de cem anos, repetindo mecanicamente as acusações forjadas contra ele, os brasileiros jamais tiveram interesse em saber se a sua história pessoal sustenta tão graves acusações. Com o tempo, perderam-se muitos elementos que poderiam nos ajudar a reconstituir os fatos de sua vida. Mas nem todos se perderam.

Vamos nos virar com algumas migalhas e muita dedução lógica.

Segundo a declaração de fé de ofício que ele fez ao ingressar no exército em 29 de dezembro de 1869, ele era natural de um distrito de Pindamonhangaba, mas filho de pais desconhecidos. Há, entretanto, uma informação que liga o seu nascimento ao 'deslize' do padre Antônio Moreira César de Almeida (1814–1860) e de uma devota solteirona, Francisca Correia de Toledo (1818–1895).

Algumas questões parecem desautorizar um esquema tão simples e socialmente constrangedor como esse:

a) Tanto o sobrenome 'Almeida' quanto 'Toledo' eram muito prestigiados em São Paulo. Moreira César não herdará nenhum dos dois.

b) Li numa edição do Gazeta de Notícias que um suposto sobrinho do coronel, de nome Fernando, de 15 anos, logo filho de um irmão ou irmã de Moreira César, estava na expedição a Canudos e sobreviveu ao combate que vitimou o tio. Que um padre tenha feito um filho numa devota solteira de uma família conhecida é possível, mas constituir uma prole com ela é mais complicado, sem falar que um sobrinho tão jovem já engajado no exército é indício de que o irmão ou a irmã do coronel também era pobre.

c) Segundo a Wikipédia em português. Uma fonte suspeita. O cunhado da suposta mãe de Moreira César era o capitão Bento Moreira Cesar de Almeida, que, por sua vez, era irmão do padre, embora na fonte citada pela Wikipédia (https://archive.is/HewJ3), o capitão não era cunhado de Francisca Toledo, mas marido de uma prima dela. Que confusão!

Foi talvez por meio desse capitão, irmão do padre, que ele adquiriu gosto pela carreira militar, de sorte que a procurou não só para fugir de uma condição precária, mas também por uma identificação com os ideais da farda.

Mas há ainda uma outra possibilidade que talvez explique melhor o que se passou.

Ele e seu irmão ou irmã não eram filhos do padre, mas sim de um casal pobre que morreu cedo. Então, o padre e a devota decidiram adotar as crianças por caridade. Isso era comum na antiga sociedade patriarcal, onde essas crianças moravam na 'casa grande', brincavam com outras crianças, mas nunca eram tratadas como iguais. Eram os moleques de recados. A sua compleição física, muito franzina, pode ser indício de que ele não teve uma alimentação boa por muito tempo na infância.

Outro indício era a grande preocupação que ele sempre mostrou para com sua família, seu irmão ou irmã, a ponto de fugir da caserna para ajudá-la(o) — segundo um relato do general Ferraz. Sinal de que ele ou ela não tinha mais ninguém que o(a) ajudasse.

Reforça ainda a nossa convicção o fato de Francisca Toledo, a suposta mãe, ter falecido em 1895, depois que ele já se tornara oficial superior e uma pessoa famosa, e até governador de Estado. Ele nunca faz menção a ela, nem a família dela ou a do padre jamais interveio em seu favor.

 

Soldado exemplar, quando necessário.

            Se tomarmos a sua pequena e única biografia disponível, que eu saiba, que circulou nos jornais do Rio de Janeiro, logo após a sua morte — guiei-me pela que saiu no jornal ultraflorianista O Jacobino, de 13 de março de 1897, onde se tem um panorama de uma carreira impecável, como diria Euclides da Cunha: correta como poucas (3). O que vemos é um jovem pobre, sem patronos, galgando passo a passo, num esforço pessoal pungente, os degraus da carreira militar. Em 1874, era designado alferes, o equivalente hoje a segundo tenente — o cargo de alferes era o distintivo de um profissional diferenciado: um título de honra.

Sua dedicação aos estudos fez-lhe merecer mais um galão na sua farda, em 1877. Aliás, o cultivo do conhecimento e o desejo permanente de atualização vão ser a marca distintiva de sua formação profissional.

Como Euclides da Cunha pode descrevê-lo como um apedeuta de pavio curto, produto superficial do tumulto ignorante das multidões, turbinado pelo contexto político, quando toda a sua trajetória profissional está profundamente arraigada na tranquilidade institucional do IIº Império? Em uma sociedade onde tudo conspirava contra ele, seja pela sua condição financeira ou pela ausência de 'sobrenome'?

Mas nem tudo são flores. Segundo Epaminondas Ferraz, em seu Excertos da história de um batalhão de infantaria que foi o sustentáculo da república (4), nos primeiros tempos ele apresentava uma grande preocupação com a família, assim como não era muito “obediente”, pois certa vez saiu sem autorização do quartel, para atender a um assunto familiar, e acabou amargando uma prisão. Sintoma, talvez, de uma personalidade inteligente, com iniciativa, inquieta, mas, para Ferraz, isso apenas indica desobediência, e parece que, para este, quem é desobediente pode cometer qualquer crime, pois ele completa:

“Seu verdadeiro temperamento [o descrito por Euclides da Cunha] aflorara, afinal, sobrepondo-se ao exercício da disciplina, disciplina que tanto exigirá, na maturidade, de seus comandados (p. 48).”

Não podemos deixar de notar a pressa com que alguns companheiros de arma, de Moreira César, forçam para encontrar um pretexto para desmerecê-lo. Isso não me parece muito adequado à natureza do espírito de companheirismo que deve nortear as relações entre militares.

Ferraz esquece que Moreira César era uma vocação integral para o exército, que sempre se empenhava e entregava mais do que os seus superiores, as regras comuns e os condicionamentos da caserna exigiam dele. Não percebe que só os medíocres se apegam à literalidade das regras, que o soldado brasileiro do século XIX era, antes de tudo, um homem contrariado, mobilizado à força por meio de injusta violência. Logo, exigia um tipo de liderança muito mais afirmativa e até autoritária que a de uma tropa hoje.

Parece que Ferraz quer nos fazer crer que Moreira César era um hipócrita, que exigia dos comandados a disciplina que não praticava, mas isso é uma ilação absurda, negada profusamente pela forma organizada e pessoal com que dirigia as missões que assumiu. Ninguém conseguiria o que ele conseguiu de seus soldados, se não fosse antes o primeiro e o mais arrebatador exemplo. O comportamento do 7º, inclusive no colapso após a sua morte, desmente frontalmente a insinuação de Ferraz.

As iniciativas e desobediências de César denotam independência mental e honestidade moral, pois tudo era feito às claras, devidamente anotado e assinado. Inclusive quando ele começou a se assumir como republicano, enfrentando resoluto, mas lealmente, os seus superiores.

Em 1881, torna-se ajudante de ordens do ministro da guerra, sendo logo promovido a capitão por estudos. Nesse mesmo ano, ao que parece, torna-se instrutor de tiro na Fortaleza de São João. A sua competência é tamanha que, quando o ministro resolve transferi-lo, o comandante da Fortaleza intercede para que ele fique, como escreve Ferraz.

“Diz o comandante geral da artilharia ser difícil ter-se “um professor tão dedicado… tão hábil, que tanto gosto tenha pela arma da infantaria como o oficial de que se trata [meu destaque] (Ferraz, idem, p. 48).

Ele amava profundamente a sua carreira e o meio no qual vivia. Ele era isso.

Em 1883, afasta-se por 3 meses por um problema de saúde, que Ferraz não diz qual é; tampouco encontrei qualquer anotação médica que atestasse epilepsia. Não há relato de crises epilépticas ao longo de sua carreira, mesmo no desgastante período em que ele passou à frente do governo de Santa Catarina.

Nesse ano, porém, aconteceu um episódio violento e nebuloso que o envolveu em um assassinato ocorrido no Rio de Janeiro, na descrição do qual Euclides da Cunha excede-se em fantasias e calúnias, fosse por motivos pessoais, fosse para auxiliar na estratégia do grupo político ao qual estava ligado.

Eduardo Simões

 TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 15

Do século XIV ao XVII (1)

O último dos três períodos em que decidimos dividir a história da escolástica estende-se do início do século XIV até as primeiras décadas do século XVII. Abrange praticamente toda a história da economia escolástica. Mas, tendo já explicado detalhadamente o contexto e a natureza do trabalho escolástico, podemos ser breves. Em particular, não parece necessária nenhuma explicação adicional para a facilidade com que a economia dos doutores absorveu todos os fenômenos do capitalismo nascente e, consequentemente, para o fato de ter servido tão bem como base para o trabalho analítico de seus sucessores, incluindo A. Smith [A análise dos mestres escolásticos preparou, por assim dizer, o desdobramento da análise burguesa-liberal da economia no século XVIII e na formulação posterior dessa doutrina econômica].

Para alcançar a máxima concisão, mencionarei apenas alguns nomes representativos... Para o século XIV, escolhemos Buridano e Oresmes como representantes. O tratado deste último sobre moeda é geralmente descrito como o primeiro tratado inteiramente dedicado a um problema econômico. Mas é principalmente de natureza jurídica e política e, na verdade, não contém muito material estritamente econômico — em particular, nada que não fosse doutrina corrente entre os escolásticos da época —, tendo como principal objetivo combater a prática prevalecente de desvalorização da moeda, um tema tratado posteriormente em uma vasta literatura... Nossos representantes do século XV serão Santo Antonino de Florença, talvez o primeiro homem a quem se possa atribuir uma visão abrangente do processo econômico em todos os seus principais aspectos, e Biel. Para o século XVI, selecionamos Mercado e, como representantes da literatura sobre Justiça e Direito (De justitia et jure), que no século XVI se tornou o principal repositório escolástico de material econômico, os três grandes jesuítas... Lessius, Molina e de Lugo.

Tudo o que precisa ser dito sobre a sociologia dos escolásticos posteriores é que eles desenvolveram, com maior detalhe e com uma percepção mais completa das implicações, as ideias que se cristalizaram nas obras de seus predecessores do século XIII. Sua sociologia política, em particular, manteve o mesmo método de abordagem aos fenômenos do Estado e do governo, bem como o mesmo espírito “radical”. Sua sociologia econômica, especialmente sua teoria da propriedade, continuou a tratar as instituições temporais como dispositivos utilitários que deveriam ser explicados — ou “justificados” — por considerações de conveniência social centradas no conceito de Bem Público. E essa conveniência social poderia, de acordo com as circunstâncias históricas, às vezes favorecer e às vezes se opor à propriedade privada.

Sem dúvida, eles acreditavam que, nas sociedades civilizadas, isto é, nas sociedades que já haviam superado o estado inicial ou natural em que todas as posses eram comuns a todos (omnia omnibus sunt communia), essas considerações favoreciam a propriedade privada (divisio rerum); mas não havia nenhum princípio teórico ou moral que os impedisse de chegar à conclusão oposta sempre que novos fatos o sugerissem [por uma consequência lógica e não imposição doutrinária de minorias excitadas]... Mas outro ponto deve ser mencionado brevemente. Os escolásticos não se preocupavam primordialmente com os problemas dos Estados nacionais e suas políticas de poder. Este é precisamente um dos elos mais importantes entre eles e os “liberais” dos séculos XVIII e até XIX. Mas alguns dos fenômenos que acompanharam a ascensão desses Estados estavam, no entanto, fadados a atrair sua atenção crítica, e entre eles estava a política fiscal. Menciono isso aqui, e não em conexão com sua economia, porque eles quase não se aprofundaram nos problemas especificamente econômicos das finanças públicas, como a incidência de impostos, os efeitos econômicos dos gastos governamentais e similares: mesmo quando discutiram o endividamento público (que, seguindo a linha de pensamento de São Tomás, eles geralmente condenaram) ou a questão dos méritos relativos dos impostos sobre a riqueza e dos impostos sobre o consumo (Molina, Lessius e de Lugo, entre outros, tocaram nessa questão), eles não produziram nada que se qualificasse como análise econômica.

O que mais lhes interessava era a “justiça” da tributação, no sentido mais amplo do termo — questões como se e quando os impostos poderiam ser legitimamente impostos, por quem e sobre quem, para quais fins e em que medida. E, abaixo de suas proposições normativas, havia alguma análise sociológica da natureza da tributação e da relação entre Estado e cidadão. Tanto essas normas quanto essa análise, juntamente com o restante de sua sociologia política e econômica, influenciaram a obra de seus sucessores laicos... Mas, enquanto a sociologia econômica dos doutores escolásticos desse período era, em essência, nada mais do que a doutrina do século XIII elaborada de forma mais completa, a economia “pura” que eles também transmitiram a esses sucessores laicos foi, em quase sua totalidade, criação própria.

Foi dentro de seus sistemas de teologia moral e direito que a economia ganhou existência definida, ainda que não separada, e foram eles que se aproximaram mais do que qualquer outro grupo de terem sido os “fundadores” da economia científica. E não só isso: parecerá, inclusive, que as bases que eles estabeleceram para um conjunto útil e bem integrado de ferramentas e proposições analíticas eram mais sólidas do que grande parte dos trabalhos subsequentes, no sentido de que uma parte considerável da economia do final do século XIX poderia ter sido desenvolvida a partir dessas bases mais rapidamente e com menos dificuldade do que realmente custou desenvolvê-la, e que alguns desses trabalhos subsequentes foram, portanto, um desvio demorado e trabalhoso.

Naquilo que pode ser descrito como a economia aplicada dos doutores escolásticos, o conceito central era o mesmo Bem Público que também dominava sua sociologia econômica. Este Bem Público foi concebido, num espírito distintamente utilitarista, com referência à satisfação das necessidades económicas dos indivíduos, tal como discernidas pela razão ou ratio recta (reta razão) do observador  — e é, portanto, salvo questões técnicas, exatamente a mesma coisa que o conceito de bem-estar da Economia do Bem-Estar moderna, como o do Professor Pigou (1877–1959), por exemplo. A ligação mais importante entre esta última e a economia do bem-estar escolástica reside na economia do bem-estar dos economistas italianos do século XVIII. No que diz respeito à avaliação da política econômica e da prática empresarial, a ideia dos escolásticos sobre o que é “injusto” estava associada — embora nunca identificada — com a sua ideia sobre o que é contrário ao bem-estar público nesse sentido. Para dar pelo menos um exemplo: Molina declarou que o monopólio era, em geral (regulariter), injusto e prejudicial ao bem-estar público, e ainda que não tenha definido ambos, a sua justaposição é significativa.

A economia do bem-estar dos doutores escolásticos vinculou-se à sua economia “pura” através do conceito fundamental desta última, o Valor, que também se baseava nos “desejos” e em sua “satisfação”. É claro que não havia nada de novo nesse ponto de partida. Mas a distinção aristotélica entre valor de uso e valor de troca foi aprofundada e desenvolvida em uma teoria subjetiva ou utilitária fragmentária, porém genuína, do valor de troca ou preço, de uma maneira para a qual não havia análogo nem em Aristóteles nem em São Tomás, embora houvesse em ambos o que podemos descrever como uma semente.

Primeiro, ao criticarem Duns Scotus e seus seguidores, os escolásticos tardios, particularmente Molina, deixaram bem claro que o custo, embora um fator na determinação do valor de troca (ou preço), não era a sua fonte lógica ou “causa”. Segundo, eles esboçaram com clareza inequívoca a teoria da utilidade, que consideravam a fonte ou causa do valor. Molina (1535–1600) e Lugo (1583-1660), por exemplo, foram tão cuidadosos quanto C. Menger (1840–1921) ao salientar que essa utilidade não era uma propriedade dos bens em si, nem idêntica a quaisquer de suas qualidades inerentes, mas sim o reflexo dos usos que os indivíduos propunham fazer desses bens e da importância que atribuíam a esses usos. Mas um século antes disso, Santo Antonino de Florença (1389–1459), evidentemente motivado pelo desejo de despojar um conceito tão relevante de significados “objetivos” indesejáveis, empregou o termo não clássico, porém excelente, complacibilitas — o equivalente exato do “desejo” do Professor Irving Fisher (1867-1947), que também é usado para expressar o fato de que uma coisa está sendo de fato desejada e nada mais. Terceiro, os escolásticos tardios, embora não tenham resolvido explicitamente o “paradoxo do valor” — que a água, embora útil, normalmente não tem valor de troca — contornaram a dificuldade ao tornar seu conceito de utilidade, desde o início, relativo à abundância ou escassez; sua utilidade não era a utilidade dos bens em abstrato, mas a utilidade das quantidades de bens disponíveis ou produzíveis nas situações particulares do indivíduo. Finalmente, em quarto lugar, eles listaram todos os fatores determinantes de preços, embora não tenham conseguido integrá-los em uma teoria completa de demanda e oferta. Mas os elementos para tal teoria já estavam todos lá, e o aparato técnico de tabelas e conceitos marginais que se desenvolveu durante o século XIX foi tudo o que realmente precisou ser acrescentado a eles. 


sexta-feira, 5 de junho de 2026

 O JUDICIÁRIO DEMENTE DE UMA NAÇÃO DESMORALIZADA


Quando a gente pensa que já viu tudo, vem algo muito pior. A juíza Elizabeth Machado Louro resolveu, de sua própria cabeça, liberar uma mulher que assistiu indiferente à tortura e assassinato de seu filho, afinal, ela estava em casa no momento que isso aconteceu.
Essa interpretação dos fatos, já em si muito controvertida, foi piorada no momento em que a juíza abriu a boca para justificar o seu voto — antes não o fizesse; pronunciasse a sentença e fosse para casa, quem quisesse que achasse ruim, conforme é a prática, por exemplo, dos juízes do Supremo. Mas não, ela resolveu abrir a boca.
Na versão da sábia juíza, a justa indignação da sociedade com a indiferença de uma mãe diante do massacre de seu filho por seu namorado, não passa de misoginia. Uma sociedade que já se indigna até com maus-tratos e morte de animais tem que ficar indiferente ao massacre de uma criança, senão a 'Justiça' solta o criminoso.
Para piorar, e muito, ela avançou dizendo que se fosse um pai que tivesse cometido o crime, ele “nem teria sido processado”. Ao dizer isso, ela avacalha, da forma mais degradante possível, todo o JUDICIÁRIO BRASILEIRO, que permite um absurdo desses, e do qual ela participa avacalhando mais ainda, porque, pelas suas palavras, seu julgamento é cotado por decisões que ela considera injustas, equilibrando assim a injustiça feita a favor de um lado com uma injustiça a favor do outro, se é que as coisas acontecem assim. Aonde isso vai parar? 
Mas a situação fica pior, pois alguns casos, inclusive muito famosos, apontam que a nobre juíza está, no mínimo, alucinando (sejamos generosos). E o caso Daniela Nardoni? E o caso Bernardo Boldrini? E o pai que pegou 175 anos pelo assassinato de seus filhos no RS, condenado em 15 de maio agora?
Se não é desfaçatez nem maldade pura, então estamos diante de um caso grave de demência, senilidade, Alzheimer, um dos mais dignos da passagem bíblica “perdoai, que ela não sabe o que faz!”
É para isso que cercamos de tanto prestígio e consideração os cursos de direito e temos um dos judiciários com os mais altos salários do planeta?

quarta-feira, 3 de junho de 2026

 

ANHATOMIRIM, A LENDA QUE ABALOU SANTA CATARINA.

 


Não deixa de ser muito prazeroso para quem se dedica à história, como eu, que fui professor de escola pública, ver um tema de história ser promovido por órgãos públicos, como aconteceu nessa exposição em Florianópolis, ao longo de 2025, vista por milhares de pessoas.
Entretanto, a bem da história, é necessário fazer correções, em nome da objetividade factual histórica, a fim de que julgamentos injustos ou teorias tortas não obscureçam o caminho do entendimento das pessoas sobre o que elas são e a sua real possibilidade, como ser humano e como nação. Todos precisamos das referências de nossos antepassados, que não foram anjos, nem demônios, antes pessoas tão humanas quanto aquelas que frequentaram essa exposição e outras. Eles são o retrato de nossas potencialidades e o que eles fizeram, de bom ou de ruim, pode acontecer de novo se as circunstâncias se repetirem e seus descendentes ignorarem ou fantasiarem em demasia a sua história, não sabendo agir quando o contexto se apresentar.

 




Uma publicação, apresentada nessa exposição, cuja capa abre esse post, apresenta nas páginas 60 e 61 uma lista de 78 nomes de pessoas que teriam sido “fuziladas” ou “executadas” na fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim, pelo 'cruel' e 'sanguinário' coronel Moreira César. O personagem em foco, o famoso coronel Folião, gaúcho, aparece como fuzilado ou executado nº 63. A publicação também traz uma foto do desditoso Folião, cuja vida foi encurtada tão violentamente.



Mas algo aconteceu. E eis que ele aparece vivo, numa revista argentina, em 7 de maio de 1904, participando de uma revolta que Aparício Saraiva aprontava contra o governo central do Uruguai. Não esquecer que o 'J' castelhano tem o som do nosso 'R'. Um milagre espantoso, ainda desconhecido, ou ele foi muito mal fuzilado. Abaixo, o número dessa revista argentina e o endereço de acesso.



https://hemerotecadigital.bne.es/hd/es/viewer?id=cdb3d19a-c1cf-4d52-85e4-7b9fb6bb69de&page=46