O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER
A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA - 35
Na ilustração acima, o Papa Pio IX, com o seu secretário, assiste à impressionante chuva de meteoros ocorrida em 27 de novembro de 1872, de uma varanda do Vaticano, dois anos após a fatídica queda de Roma para a República Italiana. O fenômeno foi consequência da entrada da Terra, em seu movimento orbital, nos fragmentos do cometa 3D/Biela, colapsado entre 1842 e 1843, quando milhares de asteroides riscavam o céu. Muitos viram nisso um aviso do fim do mundo como castigo pelos sofrimentos impostos ao Papa.
Uma igreja em transe
No dia 17 de junho de
1794, 16 freiras carmelitas descalças do mosteiro de Compiègne, no interior da
França, foram condenadas à morte por não quererem renunciar à sua vida
religiosa, tornando-se rés dos crimes de 'fanatismo' e conspiração contra a
República.
Sobre esse evento,
contam-se duas histórias, que os católicos reputam como edificantes:
a) Quando as freiras
chegaram numa charrete à mais famosa prisão de Paris, a Conciergerie, uma das
freiras, octogenária, manca e com as mãos amarradas, foi chutada para fora,
arrebentando-se na calçada, ferindo a cabeça. Ela se levanta, o agradece: "obrigado
por não me matar, assim vou poder morrer por Cristo depois."
b) As freiras chegam ao
cadafalso cantando um hino do século IX, Veni Creator Spiritus, e, à
medida que iam para a guilhotina, ajoelhavam-se diante da superiora, pediam a
sua bênção e licença para morrer, sempre cantando. Por fim, foi a vez da madre
superiora, ante o silêncio da multidão presente.
Em seu combate contra o
'fanatismo', as autoridades revolucionárias francesas frequentemente se
comportaram como fanáticas: a) Em alguns crimes, como o das freiras, se negava
advogado aos réus; b) não davam nenhum prazo para recurso — as freiras foram condenadas
pela manhã e decapitadas à tarde; c) não guardavam registro do que foi dito no
julgamento, mas somente as peças acusatórias e a sentença, o que dificultava as
tentativas de revisão dos casos; d) a rapidez com que os promotores aceitavam
as acusações mais levianas transformou os tribunais em fábricas de sentenças de
morte.
Calcula-se que em toda
a França foram proferidas em torno de 40 mil sentenças de morte, no curto
espaço de cerca de 10 anos, algumas muito desumanas. Em Nantes, onde a
autoridade revolucionária optou pela técnica do afogamento em massa no rio
Loire. O comissário Fouché, de Lyon, um homem de origem humilde, mas que sabia
cuidar de seus interesses (morreu muito rico), preferia juntar os prisioneiros
numa aglomeração e disparar contra eles a metralha de um canhão.
Mas podemos ver também
fanatismo na postura das freiras, afinal, elas estavam renunciando a um
instinto básico por uma abstração religiosa, na esperança de uma vida nova, em
um lugar impossível de ser descrito. Um estado que trata supostos fanáticos da
maneira acima pode ser classificado como esclarecido? Em alguns afogamentos em
Nantes, pessoas foram presas em porões de navios que seriam afundados. Numa
dessas ocasiões, havia um velho cego de 78 anos, doze meninas, quinze crianças:
dez com idade entre 6 e 10 anos e cinco bebês em fase de amamentação (5).
A impressão é que o
termo fanático se refere a alguém que luta até a morte por aquilo em que
acredita. Mas não é dessa mesma argila com que se moldam os heróis nacionais?
Esse termo, 'fanático', jamais deveria aparecer como categoria de análise em um
estudo de história científica, exceto em citações de documentos antigos.
Os habitantes de
Canudos não eram fanáticos, mas pessoas que tinham uma estima enorme pelo seu
modo de vida e queriam preservá-lo o mais intacto possível, à revelia das
determinações do governo e da Constituição do Brasil. E, embora houvesse coisas
nesse modo de vida que, mesmo naquela época, seriam condenáveis, como a
intolerância religiosa, o personalismo autoritário, etc., isso não os torna
réus de pena de morte em lugar nenhum.
A atuação dos
revolucionários franceses foi traumática para a Igreja Católica, que
frequentara até ali os palácios reais do país. Calcula-se que cerca de 3 mil
padres, bispos e religiosos foram executados nesse período. Mas, como a Igreja
recebeu o apoio de quase todos os países da Europa, inclusive os protestantes,
a dor do impacto arrefeceu logo, diferente da perda de Roma, em 1870.
Nesse ano, em 20 de
setembro, o exército do reino do Piemonte, que encabeçava a luta pela
unificação da Itália, irrompeu pela Porta Pia e, após um breve combate,
assenhorou-se da cidade, para transformá-la na capital do Reino da Itália,
tomando-a da Igreja Católica, dando início à Questão Romana. Dessa vez, nem os
estados católicos apoiaram a Igreja.
O jovem major Giacomo Pagliari (48 anos) da tropa de elite dos 'bersaglieri', conhecidos pelos penachos no chapéu, cai mortalmente ferido no momento em que as tropas italianas irrompem pelas muralhas de Roma. Pio IX, desastradamente, recomendou às suas tropas uma defesa apenas simbólica àquela agressão, que causou 49 mortes entre os italianos e 19 entre seus soldados, e que gerou um profundo ressentimento nos italianos contra o Papa e a Igreja que ele personificava.
O Papa, na ocasião, era
Pio IX, uma personalidade complexa e contraditória, que assumiu a função, em
1846, como um campeão do liberalismo e da modernização da Igreja. Ele era um
homem de boa vontade que queria dialogar com o seu tempo, mas, até por questões
de saúde não estava bem preparado. Não suportava a grande pressão típica do
jogo diplomático, às vezes reagia com um movimento excessivo na direção oposta.
Ele se desequilibrava quando se sentia encurralado.
Na Questão Romana, ele
se fechou em copas. Toda vez que os representantes do rei Vitor-Emanuel II
vinham negociar o status de Roma e as condições para o Papa continuar exercendo
o seu ministério na capital da Itália, ele dizia: "não estou autorizado
a tratar desse assunto." Como os italianos e os romanos não abriam mão
da cidade, Pio IX foi deixado de lado.
Isolado, Pio IX
declarou-se prisioneiro do estado italiano e nunca mais participou
de qualquer cerimônia pública como chefe de estado, sequer da bênção ao povo na
janela de seu palácio, que ficou trancada no seu pontificado, no de Leão XIII,
Pio X, Bento XV, Pio XI, até a concordata de 1929.
Em uma área, porém, Pio
IX deixou uma marca poderosa: no zelo pela formação moral e intelectual dos
padres, aumentando as exigências sobre o comportamento destes e a correta
exposição da doutrina, para melhor enfrentar um mundo em fuga acelerada dos
antigos valores cristãos. Noutras palavras: em termos de moralidade e
penitência, o espírito de Pio IX se aproximava do de Conselheiro, mas, no que
diz respeito à fidelidade filosófico-teológica do discurso, eles se
distanciavam.
A situação, no final
dos anos 1800, para os católicos na Europa, era preocupante, devido ao avanço
de doutrinas secularistas e anticlericais, e o esbulho, pela violência, de bens
do patrimônio da Igreja, sem que ninguém se importasse. O velhinho Pio IX, amofinado,
vagando na escuridão das salas do Vaticano, levava muitos às lágrimas.
"Esse mundo está perdido” era o discurso reinante entre padres e fiéis.
Para evitar a
contaminação, em um mundo tão hostil, uma mensagem pesadamente emocional,
moralista e penitencial começou a ser propagada ao redor do mundo e chegou ao
Brasil, embora a nossa realidade, a esse respeito, não fosse tão grave. Havia
um grande desânimo em relação ao futuro entre os católicos.
Essa situação
repercutiu em Portugal, onde um clero muito apegado à sua aliança com os
reis absolutistas começou a sofrer os efeitos do esvaziamento da monarquia.
Enquanto isso, o ideário liberal avançava no país sob a influência dos ingleses
e entusiastas da Revolução Francesa. Essas ideias floresceram muito nos 13 anos
em que a família real ficou no Brasil. Até a família real sofreu influência.
Uma marca do
liberalismo ibérico é o acentuado anticlericalismo, a ideia de que o atraso
econômico, político e social de Portugal e Espanha deriva tanto de reis
autoritários e incapazes como do suporte que lhes vinha da Igreja Católica.
Talvez ela, mais do que os reis, fosse responsável por aquele atraso, como a
principal fonte de justificação ideológica do regime junto ao povo. A sua
influência precisava ser combatida prioritariamente.
Após as guerras contra
os invasores franceses, houve uma guerra civil: a Guerra Civil Portuguesa, que
se arrastou de 1828 a 1834, envolvendo os seguidores do príncipe
arquiconservador, D. Miguel, contra o rei Pedro IV (o nosso Pedro I, rei por 22
dias) e sua filha Maria II, ao lado dos liberais, que venceram a guerra e, no
espírito do Marquês de Pombal, criaram uma legislação fortemente anticlerical (6).
O esvaziamento do
catolicismo em Portugal afetou as populações rurais pelo declínio rápido do
número de padres. Isso levou um deles, piedoso, mas intelectualmente simplório,
Manuel José Gonçalves do Couto, a escrever um livro para auxiliar seus colegas
em suas missões, que eram a forma como a Igreja Católica compensava a falta de
padres em regiões remotas. Esse livro, chamado Missão Abreviada, lançado
em 1859, se tornará o maior sucesso editorial do país do século XIX. Coerente
com sua proposta, o padre Couto abriu mão dos direitos autorais e morreu pobre.
Nesse livro, embora
esteja presente a Misericórdia Divina e a certeza de que Deus é um ser bondoso,
a imagem dele como um juiz severíssimo, a pedir conta até dos pensamentos,
sejam eles maus ou somente ociosos, se destaca. A ênfase dada à descrição das consequências
do pecado e o estado final dos pecadores impressionava; e era tão severa e
obsessiva que punha em perigo aqueles de personalidade mais impressionável — há
relatos de gente enlouquecendo ou entrando em profunda crise após sua leitura (7).
Essa espiritualidade do
terror, com viés apocalíptico, combinava com a sensação de encurralamento que a
Igreja Católica sentia na Europa Ocidental, e acabou aqui no Brasil. As elites
locais acompanhavam esse fenômeno com pouco interesse, já o povo nada sabia,
mas o tumulto gerado por aqui acabou sendo assimilado no imaginário popular
como um perigo difuso, que ameaçava a todos. Essa impressão ficou mais forte
com as mudanças de fim de século, inclusive de coisas que, no
entendimento geral, foram determinadas por Deus, como a monarquia, que
pecadores escandalosos estavam destruindo.
Os sertanejos mais
esclarecidos percebiam o perigo desse livro; um deles, o major Eufrásio
Feitosa, na década de 1960, disse:
Conheço muito a Missão
Abreviada. Eu tinha até um parente que costumava dizer que esse livro fechava
completamente ‘as portas da salvação’ (citado por
Nertan Macedo, Memorial de Vilanova, p. 17).
Honório Vilanova havia
notado o apego do Conselheiro pelo livro.
"O livro do
Peregrino era a Missão Abreviada… Os frades pregadores daquele tempo conduziam
sempre esse livro, que, de tão cru nas palavras,
fechava sem piedade as portas do céu… O Peregrino amava esse livro e varava o
dia e a noite lendo ou copiando as meditações ou os exemplos dos santos. Quando
a mão do Peregrino estava cansada, escrevia por ele Leão de Natuba (idem,
p. 49)."
Por que essa
predileção por um livro que atiça tanto o sentimento de culpa? Como ele se
sentia ao lê-lo, considerando que não havia perdoado a ex-esposa, que
abandonara os filhos e a amante, se envolvendo tanto com um livro que exigia
pureza e virtude num grau absoluto? Em nenhum momento ele procurou acordo com a
República ou com o Exército que destruía a sua comunidade. Será que ele via
nessa implacabilidade uma compensação para seus erros? No final, tornou-se um
juiz, um senhor implacável, um supercoronel, como tantos outros no
sertão.
Honório Vilanova, mais
sensível, confessa que fugia das pregações do Conselheiro, talvez com medo de
sentir-se muito questionado, enquanto seu irmão, Antônio, mais pragmático,
sempre o acompanhou nas terríveis pregações. Na hora ‘H’, porém, agiu de acordo
com os seus interesses pessoais e fugiu de Canudos, enquanto podia.
Há um episódio que
mostra o quanto Canudos estava longe de uma sociedade democrática, igualitária
e justa.
Quando o Conselheiro
chegou a Canudos, várias famílias moravam no lugar, como a do comerciante
Antônio da Mota Coelho. A família Mota também tinha algumas fazendas, mas a
atividade em que mais se destacava era o comércio de couro de caprinos, a
criação mais viável naquele solo pobre. Ora, a chegada de mais gente fez esse
comércio prosperar, e em pouco tempo os Motas, os Macambira e outros passaram a
constituir uma espécie de “burguesia” em Canudos.
Segundo alguns, os
irmãos Vilanova, que eram cearenses e conhecidos de Antônio Maciel, foram
atraídos para Canudos, talvez até por convite do próprio Conselheiro. Os irmãos
Vilanova, porém, queriam trabalhar no ramo de comércio mais próspero, dominado
pelos Mota.
Antônio Vilanova
aproximou-se do chefe da Santa Companhia, João Abade, e, aproveitando-se do
combate em Uauá, em novembro de 1896, prendeu e denunciou os homens da família
Mota de conluio com os militares, e os levou ao Conselheiro para um arremedo de
julgamento — nunca foi apresentado qualquer fato concreto ou testemunho
independente que sustentasse a acusação.
Segundo Calasans (Quase
biografias de jagunços — o séquito de Antônio Conselheiro, Universidade
Federal da Bahia — Centro de Estudos Baianos, 1986, p. 55–67), os Mota, que
eram compadres do Conselheiro, negaram a acusação e imploraram a sua ajuda, e
ele estaria propenso a dá-la, quando Vilanova e João Abade, percebendo a sua
hesitação, apressaram a execução dos prisioneiros, provavelmente por degola —
segundo Frederico Pernambucano de Mello (A guerra total de Canudos, 3ª
edição revista e ampliada, Escrituras, Recife, 2014, Cap. 2, nota nº 2), um
parente de Antônio da Mota testemunhou, a um jornal no Recife, que nesse
momento morreram cinco membros da sua família, e, posteriormente, mais dois que
realizavam negócios nos arredores. As crianças e as mulheres dos mortos foram
acolhidas pelos Macambira, enquanto a loja dos Mota era saqueada pela multidão
embrutecida e transferida de mão-beijada para os Vilanova.
A morte dos Mota teve
duas consequências: deu aos Vilanova o monopólio do comércio de couro local,
mas também acirrou a vingança de um pernambucano brigador: o comerciante
Jesuíno Lima, amigo dos Motas, que se unirá às tropas e participará das três
expedições seguintes. Ele será um dos que reconhecerão o cadáver do Conselheiro
e passará para a história com o nome de “Capitão Jagunço”, dado por Euclides da
Cunha, que, estranhamente, não faz referência ao massacre dos Mota.
Um jornal chileno de 1877 zomba da exacerbação crenças de fim do mundo havida nesse período e a associa à ignorância e à Igreja Católica, na figura de frade.
É um mundo novo que começa. Ele está cheio de avanços tecnológicos, mas também de hábitos novos, estranhos e até contrários ao que era até então considerado virtude. Verdadeiras armadilhas. É necessário caminhar nele, crescer nele, mas como fazê-lo sem se contaminar com as suas 'sujeiras', com a sua 'lama'? Como agir nele sem excessos, inclusive saudosistas, mas com prudência e sabedoria, e passar essa disposição para os outros? Eduardo Simões