DISCURSO DE RAUL POMPEIA NO SEPULTAMENTO DE FLORIANO PEIXOTO, RECONSTITUÍDO POR ELE (O PAIZ 3 de outubro de 1895, p. 4).
O DNA DA HISTÓRIA
DISCURSO DE RAUL POMPEIA NO SEPULTAMENTO DE FLORIANO PEIXOTO, RECONSTITUÍDO POR ELE (O PAIZ 3 de outubro de 1895, p. 4).
O CORONEL MOREIRA CÉSAR E
CANUDOS DEVEM MORRER
A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 19
Notas de Santa Catarina
1 — Euclides da Cunha, Os
sertões, 1ª edição, Fundação Darcy Ribeiro, Rio de Janeiro, 2013, (Coleção
Biblioteca Básica Brasileira 24), p. 296–297.
2 — No primeiro número
da revista Don Quixote, de 1895, saiu, nas páginas 4 e 5, uma gravura
mostrando, em Santa Catarina, o Barão de Batovi diante de um pelotão de
fuzilamento, com Moreira César, e o filho vindo abraçá-lo.
3— http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=349070&pesq=vicente%20lopes%20de%20oliveira
4 — “Telegrama
particular, recebido ontem nesta capital, dá-nos a dolorosa notícia da infausta
morte do inditoso moço, nosso distinto comprovinciano João Evangelista da Silva
Nery, alferes do exército, ocasionada por sofrimento de que saíra daqui
atacado” [talvez tuberculose].
5 — Também citado por
Diogo Lunardelli; Florianópolis: a marca do legalismo autoritário em
Desterro; trabalho para a conclusão do curso de bacharel em História sob a
supervisão do prof. Dr. Paulo Pinheiro Machado; Florianópolis; 2020. Aliás,
sobre esse engenheiro e seus colegas: Etienne Charles Muller, n° 25, e Felipe
Maes Etienne, n° 26, da lista, os brasileiros deliram faz tempo. Noutro lugar,
li que a França exigiu uma indenização de um milhão de francos pelos seus
desaparecimentos, e que o governo de Prudente de Morais pagou. Mas,
misteriosamente, não saiu nem um tostão do salário do coronel, nem foi
acrescentado qualquer demérito em sua ficha pessoal!
6 — Ver em https://ancestors.familysearch.org/pt/K8QV-LB4/caetano-nicolao-demoro-1856-1934
e https://www.mafra.com.br/genealogia/getperson.php?personID=I019961&tree=arfamis001
7 — FLORIANÓPOLIS:
marca do legalismo autoritário em Desterro, UFSC, Florianópolis, 2020.
8 — O cerco das tropas
federais posicionadas em Lapa, no norte do Paraná, pelos federalistas, durou de
14 de janeiro a 11 de fevereiro de 1894. Na cidade de Lapa, estavam 938
soldados governistas — militares, policiais e voluntários — cercados por cerca
de 3 mil federalistas, que, após combates duríssimos, se renderam a estes, sob
promessa de vida. Schutell não participou do cerco.
9 — 2ª edição, Vozes,
Petrópolis, 1995 (p. 170–172).
10 — Os batalhões
patrióticos do início da República foram mais ou menos o equivalente à Guarda
Nacional do Império, com algumas diferenças. Eram unidades voluntárias
compostas por civis entusiastas da República, independentemente da renda.
Tinham, portanto, uma feição popular e garantia de trabalho remunerado por
curtos espaços de tempo, em meio a uma grande massa de desempregados gerada
pelo Encilhamento. Também chamava muito a atenção a presença de jovens
acadêmicos de classe média, sempre ansiosos para servir um ‘salvador da
pátria’. Convocados pelo grupo de Floriano Peixoto, estavam fortemente
vinculados a este e desenvolveram, com o passar do tempo, um fanático culto à
personalidade do marechal. Bem comandados eram contendores tremendos, sempre
muito motivados. Um dos batalhões mais famosos foi o carioca Benjamin Constant,
que teve uma participação decisiva na selvagem batalha de Ponta de Armação em
fevereiro de 1894. Como esses batalhões não tinham ligação orgânica com o
exército, eram um instrumento valioso para realizar missões ‘sujas’ ou
sigilosas para o chefe. Prudente de Morais os dispensou, e eles se extinguiram
naturalmente. Ninguém deu pela falta deles.
O escritor pernambucano
José Gonçalves Maia, que viveu essa época, escreveu no seu livro Horas de
prisão, Imprensa Industrial, Pernambuco, 1923, das páginas 95 a 101, um
capítulo intitulado Os Tiradentes, onde faz um apanhado da ação de um
desses batalhões ‘patrióticos’, do qual transcrevo algumas partes:
“São, em geral,
indesejáveis, criminosos, cavaleiros de indústria [oportunistas], larápios,
vigaristas, esquecidos da polícia, e que se garantem, oferecendo-se em
sacrifício à ordem e à legitimidade. A impunidade é o primeiro salário dos
mercenários. O patriotismo é um pretexto e um manto.
Aboletados no mesmo
edifício do 14º de Infantaria… Os prisioneiros testemunham cenas depravadas
desse bando de «patriotas» que formam o batalhão sagrado da
legalidade.
Desde a sua chegada que
se estabeleceu a anarquia no quartel e o terror nas ruas.
Não há mais hora de
entrada, nem de saída. As cantigas, os assobios, as gargalhadas… as rixas, as
conversas em voz alta, os impropérios obscenos com que se mimoseiam; perturbam
a ordem, mesmo após o toque de silêncio, e se prolongam pela madrugada”.
11 — Revista Defesa
Nacional, Biblioteca do Exército, nº 639, Rio de Janeiro, set – out 71, p.
64.
12 — 7ª edição,
Nacional, São Paulo, 1976, p. 127.
13 — Ed. Estação
Brasil, Rio de Janeiro, 2017.
14 — Ver José Justino
de A. e Silva; Coleção cronológica da Legislação Portuguesa, compilada e
anotada — segunda série (1640–1647), Imprensa de F. X. de Sousa,
Lisboa, 1856.
15 — Marcelo W. Rabello
de Souza, Conde de Lippe (e seus artigos de guerra), quando passou por aqui,
chegou também lá, trabalho de mestrado em História do Direito, sob a
orientação do Pr. Dr. Rui Marcos, Lisboa, s/d).
16 — O
Coronel-Engenheiro Cláudio Moreira Bento teve a feliz iniciativa de
propiciar-nos pela internet os famosos 29 Artigos de Guerra do Conde Lippe,
para podermos compreender o espírito e as leis reinantes no exército
luso-brasileiro do século XVIII
https://www.ahimtb.org.br/ARTIGOS%20DE%20GUERRA%20DO%20CONDE%20DE%20LIPPE.pdf
17 — O traço
característico dos dois primeiros períodos [Colônia e Império] é uma
multidão de leis, decretos, regulamentos, portarias, ordens do dia, avisos,
ordenanças, provisões, resoluções, instruções, etc., muitas delas se chocando
com outras, umas revogando outras, expressamente ou não (José César de
Assis, Uma visão crítica sobre o Ministério Público Militar durante o
período da República Velha, no site www.jusmilitari.com.br).
Apesar disso, e desde o
período colonial, fica bem claro a completa impossibilidade de um oficial
inferior condenar à morte um superior, e mais ainda fazê-lo por iniciativa
própria, sem passar por um tribunal previsto em lei e com direito a apelação.
18 — Ferraz, idem, p.
65.
Eis o que diz o Decreto
1.681, de 28 de fevereiro de 1894
“Declara sujeitos à
jurisdição do foro militar os crimes que se relacionarem à rebelião que ora
conflagra o Distrito Federal e outros pontos do território da União
[Revolta da Armada].
.....
Considerando que, nas
circunstâncias… não é lícito ao Poder Público deixar de punir imediatamente, e
com o máximo rigor, os graves crimes que atentam contra a consolidação da
república, o restabelecimento da paz e a sustentação do princípio da autoridade
[atualmente o pretexto é a democracia].
.....
Artigo único. Ficam
desde já sujeitos à jurisdição do foro militar os crimes que tenham sido ou
vierem a ser cometidos por militares ou civis em qualquer ponto do território
da União ocupado por forças legais ou rebeldes, uma vez que tais crimes estejam
enumerados no art. 1º da lei n. 631, de 18 de setembro de 1851, e se relacionem
com a rebelião que ora conflagra o Distrito Federal e outros pontos do
território da República."
Ou seja: eles não
poderiam ser julgados em um foro civil na área conflagrada. O decreto procura
se embasar em legislação anterior. O decreto 61 de 24 de outubro de 1838, no
período conturbado das regências, e na lei nº 631, de 18 de setembro de 1851.
Decreto 61.
“Art. 2º No caso de
rebelião, poderá o Governo ordenar que se observem no Exército as leis
militares em tempo de Guerra [as quais são mais severas] …
Art. 3º Ficam revogadas
as outras leis em contrário.
Lei 631.
“Art. 1º No caso de
guerra externa, serão punidos com a pena de morte na província em que tiverem
lugar as operações do Exército Imperial… 1º os espiões: 2º os
[colaboracionistas]: 3º os que… tentarem seduzir as mesmas praças, a fim de
que se levantem contra o Governo, ou os seus Superiores: 4º os que atacarem
sentinelas: 5º os que entrarem nas Fortalezas sem ser pelas portas e lugares
ordinários [sabotadores].
§ 8º No caso de guerra externa, o Governo
fica autorizado: 1º a criar provisoriamente na Província, em que tiverem lugar
as operações de guerra, uma Junta de Justiça militar para o julgamento, em
segunda instância, dos crimes militares de sua competência… [não havia
essa instância em Desterrro, necessária para o caso de sentença de morte]”.
O Decreto 1685, de 4 de
março, simplesmente amplia a aplicação da legislação de guerra para outros
crimes de menor gravidade ocorridos nas áreas conflagradas. Foi só mais uma
volta no parafuso.
19 — 3ª edição,
Imprensa Oficial do Estado, São Paulo, 1995, p. 122–123.
20 — Senado Federal,
Brasília, 2005, p. 34–35.
21 — Floriano diz para
Moreira César que está pensando em mandar um major organizar a segurança da
embaixada do Brasil no Uruguai e pergunta-lhe o que acha disso:
Cesar responde-lhe:
— Para que mandar um
major? Basta um alferes com um bom conhecimento do fuzil brasileiro!
À primeira vista, uma
resposta maluca, mas Floriano entendeu muito bem o que ele quis dizer e nunca
mais voltou ao assunto.
Se César respondesse
seriamente o que ele achava — e ele tinha envergadura intelectual para isso —
Floriano lhe diria: “Para que vou mandar um major, é melhor mandar você, que é
um coronel.” E ele ficaria na difícil situação de dizer “não”. Ele sabia que
Floriano queria se livrar dele para dar um golpe, ao qual César se opunha, mas
este preferiu permanecer aqui, como um ‘problema em aberto’ para Floriano e
seus seguidores.
22 — 4ª edição, Difel,
São Paulo, 1983, p. 145.
23 — Epaminondas
Vilalba, A Revolução Federalista no Rio Grande do Sul, Laemmert &
Cia, Rio de Janeiro — São Paulo — Recife, 1897, p. 231–232.
24 — Excertos
da história de um batalhão de infantaria… (parte 3), Defesa Nacional, nº
640, p. 23.
25 — “O Congresso
representativo, reunido em sessão de instalação [com o governador, foram
eleitos deputados e senadores locais e federais, em datas distintas, mas
próximas], agradece os leais serviços prestados à pátria catarinense pelo
coronel Antônio Moreira César (Transcrita no Diário Oficial de 29.9.1894)”
(general Epaminondas Ferraz, N 640, p. 27)
26 — Excertos
da história de um batalhão de infantaria, sustentáculo da república (3ª
parte), revista Defesa Nacional, nº 640, Nov.–Dez. 1971, p.
20.
27 — Ferraz, nº 639, p.
50.
28 — Todos os destaques
são meus.
“Termina hoje, neste
Estado, sua missão governativa iniciada em 22 de abril último, o distinto
militar coronel Antônio Moreira César, deixando traços luminosos …
O seu merecimento,
assinalado pelos inolvidáveis serviços que prestou durante o governo,
reorganizando politicamente o Estado… conquistou-lhe a admiração e a estima
do povo catarinense.
Depois de uma revolta
que abalou profundamente a vida social e política… mediante grandes esforços… conseguiu
restabelecer a ordem e o sossego geral e restaurar as finanças…
Na suprema direção do
Estado foram atendidos todos os ramos do serviço público, salientando-se a
instrução primária e secundária, assunto de seus incessantes cuidados…
Efetivamente, foi o
coronel Moreira César quem restaurou a Constituição
[estadual] de 11 de junho de 1891 e a sua lei complementar na parte
judiciária; decretou outras leis, especialmente a que amortizou a dívida do
Estado e que é um dos sulcos brilhantes de sua passagem…
Preencheu todas as
comarcas, dando-lhes juízes à altura do cargo, bem como os lugares de
promotores, e, sendo muito reduzido o pessoal existente no Estado para a
judicatura e o Ministério Público, recorreu aos estados… onde avulta o número
de graduados em direito… no louvável intuito de dar à justiça bons
representantes.
Educado nos rígidos
princípios da disciplina militar, soube, entretanto, aliar a severidade
do alto e espinhoso cargo que ocupou… [buscando] a equidade, sempre
que esta se fazia mister por amor à causa pública…
O nome do coronel
Moreira César, respeitável e cercado do largo prestígio de que merecidamente
goza entre seus companheiros de armas…
A nomeada que ficou de
seu governo vulgarizou o seu prestígio, como militar, cidadão e administrador, motivou
o apreço e gratidão do povo catarinense…
A administração do
coronel Moreira César foi, portanto, a consagração do bem, da verdade, do
direito e da justiça.”
29 — “Eis um nome
que sintetiza um vulto espartano de chefe, um caráter sem jaça, uma probidade
inconcussa, uma celebração valente, concretizando as energias de uma geração
inteira.
Curvamo-nos
reverentemente ante tão benemérito patriota, que tem sabido ser credor das mais
beneméritas e gerais manifestações do povo brasileiro… e muito principalmente
do florescente Estado de Santa Catarina.
Foi assim que
Washington, na América do Norte, Beaconsfield, na Inglaterra, Gambetta, na
França, Cavour, na Itália, Canovas del Castillo, na Espanha, registraram seus
nomes na história universal… [Vejam a quem ele é
comparado!].
Está felizmente na
consciência de todos os catarinenses a política larga e fraternizadora, liberal
e progressiva, essencialmente republicana, que realizou durante o período
espinhosíssimo de sua sábia administração…
Honra ao ínclito
patriota! Louros ao heroico soldado.
27-9-94
Alguns paraibanos.”
30 — Juízos
críticos, Os sertões (campanha de Canudos) por Euclides da Cunha, 2ª edição
corrigida — 1903, Laemmert & C., Rio de Janeiro, 1904, p. 18.
31 — Um testemunho da
antiguidade e generalização da degola entre nós é dado por um texto de Edwin
Reesink na revista ANTHROPOLÓGICAS, dizendo que: em 1624, o general holandês
Jan Van Dorth foi aprisionado pelos portugueses, degolado e decapitado, na Bahia;
em São Jorge de Mina, na África, os portugueses e seus aliados africanos
degolaram 450 prisioneiros holandeses; na chamada Guerra dos Bárbaros, entre
1650 e 1720, travada portugueses e grupos nativos no semiárido, a degola ganhou
patrocínio oficial, como se pode observar na recomendação a seguir, feita
durante o combate aos jês do Rio Grande do Norte: “degolando a todos que
forem de oito anos para cima, aprisionando as mulheres e as crias” (Saber os
nomes: observações sobre a degola e a violência contra Belo Monte (Canudos),
ano 17, volume 24(2), 2013).
ANEXO
Nós, os de minha
geração, fomos educados para acreditar que, em geral, com os primeiros fios de
bigode ou barba, nascia, nos homens, as raízes da vergonha na cara, ainda mais
quando o cidadão tinha os bigodes tão vistosos e biografia exemplar como Joaquim
Nabuco e Euclides da Cunha.
Em seu livro A
intervenção estrangeira durante a revolta de 1893 (Senado Federal,
Brasília, 2003, p. 77), Nabuco repete as piores, mais indignas e virulentas
calúnias contra Moreira César, no afã de compensar-se por sua causa perdida: o
retorno da monarquia, e para dar suporte às suas calúnias, ele cita, na
abundante nota número 10, as edições do Jornal do Comércio de 9 de maio e de 16
de maio de 1895, afirmando peremptoriamente que César matou os franceses Buette
e Müller, completando que "toda a cidade do Desterro se levantaria para
atestar que os dois engenheiros franceses foram fuzilados, sem julgamentos, por
ordem de Moreira César."
Por que não o atestaram
naquela época? Onde eles foram fuzilados? Que unidade do Exército ou grupo de
bandidos os fuzilou? Quando, exatamente, foram fuzilados? O que Moreira César
ganhou com isso?
Outro problema é que,
embora a edição de 16 de maio do jornal citado traga uma longa matéria sobre os
eventos no Paraná, a de 9 de maio não traz nada sobre Santa Catarina e Moreira
César, embora a edição do dia 10 traga uma notícia que nos induz a pensar
justamente para o contrário do que diz Joaquim Nabuco, e eu a reproduzo abaixo,
na escrita original.
FUZILAMENTOS
O Diario Official
publica hoje, em virtude de deliberação no Senado, vários ofícios sobre
fuzilamentos.
Relativamente ao Estado
de Santa Catarina, eis o que consta dessa publicação:
Cópia. — Commando do 5º
Districto Militar. — Quartel General em Curityba, 9 de Fevereiro de 1895. —
Reservado — Ao cidadão general de divisão Bernardo Vasquez, Ministro dos
Negócios da Guerra. — Cumprindo a vossa determinação referida em portaria de 18
de Dezembro findo e em telegramma de 16 de Janeiro ultimo, tenho a honra de
transmittir-vos a informação prestada pelo coronel Antonio Moreira Cesar,
commandante [atual] de Santa Catarina, declarando
não ter havido alli fuzilamentos de officiaes de mar e guerra.
Saude e fraternidade —
Manuel Eufrazio dos Santos Dias, general de brigada. — Conforme — F. M. das
Chagas.
Copia. — Commando da
guarnição do Estado de Santa Catharina. Florianopolis, 30 de Janeiro de 1895. —
Cidadão general de brigada Manuel Eufrasio [aqui está
escrito com “s”] dos Santos Dias, muito digno commandante do 5º districto
militar. — Em resposta ao officio reservado do commandante interino deste
districto, de 17 de Janeiro ultimo relativamente á portaria reservada do
Ministério da Guerra de 18 de Dezembro de 1894 que diz: “informai com urgência
a este Ministério se no districto de vossa circumscripção houve fuzilamentos de
militares de mar e guerra determinados por autoridades da Republica” cumpre-me
dizer-vos em resposta que não.
Saude e fraternidade. —
(assignado) Antonio Moreira Cesar. — Confere — Tenente, Francisco Craveiro de
Sá, secretario interino. — Conforme F. M. das Chagas.
Se a República esperar o romper do dia e sair à rua ao cair da noite, depois de tatear algum tempo nas trevas, dará com tudo isto em Vaza-Barris [rio que passava por Canudos].
Barão de Cotegipe, 1884.
A impressão que passa é que a nossa república ficaria permanentemente em um atoleiro. Não é isso que vemos agora?
OS FRANCESES NÃO QUERIAM LUTAR CONTRA OS ALEMÃES E NÃO ERAM
CONFIÁVEIS.
Em 10 de junho de 1940, a Itália declarou guerra à França, o
que já era esperado pelo alto comando franco-inglês. Os ingleses então transferiram
4 esquadrilhas de bombardeiros pesados para o aeródromo de Salon, para, a
partir daí, bombardear as cidades industriais de Gênova e Turim, bem à mão.
Tudo combinado e acertado com as lideranças políticas francesas.
Qual não foi a surpresa de todos, as autoridades civis e
militares da região da Provença, onde estava Salon, discordaram da decisão e decidiram
que os aviões não deveriam atacar, porque isso desataria a ira dos italianos e
eles poderiam querer revidar nas cidades francesas próximas, mesmo com a Itália
já tendo declarado guerra!!!! À véspera do ataque, o comandante do setor aéreo,
o ultracondecorado herói de guerra francês Joseph Vuillemin, em conluio com
outros, simplesmente ligou para o comandante inglês da operação, o capitão de
grupo Field, e proibiu a partida dos aviões.
Telefonema para lá e para cá, decisão tomada: “Esquadrilha
autorizada a atacar a Itália a partir de Salon”... “Agora vai”... “Quase foi”... Por
volta de 0h30, quando os aviadores estão se preparando para partir, a pista é
invadida por dezenas de caminhões e carroças militares e civis, que a bloqueiam
irremediavelmente. A operação é cancelada. Uma desordem! E desde o início, isso
está bem claro.
Nos livros de Raymond Cartier, historiador e jornalista
inglês, sobre a Segunda Guerra, as ações do exército francês em 1940 são marcadas pela desorganização e apatia, que só podem ser atribuídas
à sabotagem de colaboradores tanto de extrema direita, por simpatia a Hitler,
como dos comunistas, sequestrados pelo pacto de Hitler e
Stalin. Os ingleses ainda tentaram uns reides contra a Itália nesse período,
com os aviões partindo de aeródromos de Guernsey e Jersey, com resultados
pífios. A oportunidade fora perdida.
Dava para confiar que os franceses não iriam entregar os
seus navios aos alemães? Daí o ataque a Mers el-Kebir. A Wikipedia em francês evita cuidadosamente esse tema.
O CORONEL MOREIRA CÉSAR E
CANUDOS DEVEM MORRER
A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 18
O corpo
do almirante Saldanha, um prelúdio.
O Jornal do
Comércio do Rio, em sua edição de 23–24 de junho de 1930, p. 4, traz uma longa
matéria sobre as buscas feitas por alguns federalistas para achar o corpo de
Saldanha da Gama, após a batalha de Campo Osório, em 24 de junho de 1895. Ela
nos dá uma ideia da selvageria nos combates da Revolta Federalista, selvageria
que se repetirá, 2 anos depois, em Canudos.
Essa
história se inicia em 25 de junho, quando os federalistas no Uruguai receberam
a nova de que a sua última esperança de uma reação militar, visando alcançar
uma paz digna, com Saldanha da Gama, acabou no falecimento deste. A batalha
ocorreu em Campo Osório, nas proximidades de Santana do Livramento, de frente
para Rivera, no Uruguai. Ao pequeno grupo de exploradores federalistas
juntou-se o irmão do almirante, que era médico e iria supervisionar a autópsia
do cadáver.
No dia 26 de
junho, esse grupo, que partiu de Montevidéu, chegou a Rivera, quando, à noite,
“fomos dolorosamente surpreendidos pelos ruidosos ecos da estrepitosa
manifestação tributada [em Santana do Livramento]… aos comandantes das
forças governistas, de regresso de Campo Osório… Ouvimos melancólicos o
espoucar dos foguetes e os acordes das bandas militares dos vencedores.”
O articulista lembra ainda que essa algazarra mudou para um silêncio profundo,
quando, a 29 de junho, chegou a notícia da morte de Floriano Peixoto.
No dia
seguinte, eles chegam a Santana do Livramento, onde têm a oportunidade de
escutar dos soldados que participaram da batalha a primeira versão sobre a
morte do almirante, derrubado do cavalo por lancetadas, e depois morto com
golpes de espada na cabeça. Com muito tato e cuidado, colhem informações e se
preparam para ir ao local do combate. No dia 2 de julho, saem para resgatar o
corpo do almirante.
“Saímos
de Rivera ao meio-dia. Compunha-se nossa comitiva de um break com 6 pessoas —
uma carroça com caixão metálico para os restos do almirante, mantimentos, pás…
quinze cavaleiros entre oficiais da marinha e paisanos.”
A viagem não
foi confortável; andaram em lugares ínvios e pegaram chuva e névoa, havia muita
gente armada e hostil nos arredores. “Após uma hora de marcha,
divisamos, à grande distância, densas nuvens de corvos [entre os gaúchos,
emprega-se o termo “corvo” para “urubu”]… era lá que estava a carniça… Fomos
avançando, vagarosamente… Lufadas de exalações nauseabundas impestavam a
atmosfera e aumentavam à medida que subíamos”
Súbito, numa volta, “um cadáver, de costas sobre um
cavalo, em adiantado estado de putrefação… era o Chaves, vulgo Paraguaio… rapaz
muito moço ainda, da gente do almirante… a seguir, à esquerda, outro corpo
acocorado — que deixou os expedicionários em dúvida se era branco ou preto,
sendo denunciado pelos pés. Um dos pés do infeliz, realçava-se, já um tanto
marmoreado [esbranquiçado], sobre a nudez escura do corpo em
decomposição.
À
direita, quase de pé… um homem, jovem ainda, com a cabeça quase decepada por
formidável corte de orelha a orelha, pondo-lhe o esôfago à mostra [sinal da degola uruguaia], macabramente
ria-se… “Este foi degolado depois de morto”, cochicharam… “Não correu sangue, —
a camisa não está manchada.”
Finalmente
alcançam um chapadão, onde se deu o grosso da batalha, fazem então uma pausa
para se alimentar. Churrasqueamos… entre cadáveres de homens e cavalos, num
ambiente insuportável… aqui o corpo de um sargento do exército, um belo rapaz…
que pareceria mais belo se não fosse o bando de varejeiras que lhe entravam
pelos olhos e saíam pelo nariz — ali o destemido conde alemão von Schewerin,
entusiasta do almirante… Acolá, um desconhecido.
Procedeu-se,
em seguida… rigoroso exame do campo de batalha… as pás e picaretas
dificilmente penetravam no chão [que era muito pedregoso, como em Canudos]… de
sorte que nos vimos reduzidos a... cobrir os preciosos restos de pedras soltas,
deixando às vezes os pés de algumas vítimas destapados [Como em Canudos]. No
descampado… entre as trincheiras… jaziam alguns corpos carbonizados e
horrivelmente deformados pelo fogo [Como em Canudos].”
No alto de
uma árvore pequena, encontraram “completamente nu — estirado com
pernas e braços abertos — o corpo de um adolescente, de uma criança quase, com…
orifício de uma bala na altura do coração.” Começa então um debate se
ele era um oficial ou não, em virtude do cuidado de suas unhas e de seu corpo
em geral. “Unhas limpas — homem de trato”… Em todo o caso, um dos que
atiravam quando o Almirante tombou — “Sá Peixoto” — É possível.” Enterraram-no.
Somente 4
corpos de federalistas em Campo Osório estavam vestidos. Muitos apresentavam
feridas no pescoço a guisa de degola, feita antes ou após sua morte. Ao
desnudar o corpo, facilita-se a ação dos animais carniceiros e acelera-se o
processo de putrefação.
Mas, apesar
de todo o trabalho, não foi possível achar o corpo do almirante Saldanha, que
só será encontrado por um sargento da Marinha, procurando-o por conta própria,
no dia 28 de julho, a quase um quilômetro e meio de distância da batalha. Era
um lugar remoto, difícil de achar, denunciado pelo voo dos urubus. Fora posto
ali com o claro objetivo de fazê-lo desaparecer, devorado pelos animais, apesar
da ordem de Prudente para o corpo ser entregue aos familiares.
O corpo foi
autopsiado no dia 10 de agosto de 1895, por médicos liderados pelo irmão do
almirante. Nessa autópsia, constatou-se que Saldanha da Gama recebeu duas
lancetadas na região do ventre, uma em cada lado, e dois golpes de espada na
cabeça, à altura da têmpora, um deles fatal. O corpo também mostrou a falta de
uma orelha e metade do bigode tinha sido raspado — talvez uma ironia ao célebre
episódio em que ele ordenou a um marujo, que lhe jurara morte após uma punição,
para vir fazer a sua barba.
Quem quiser
mais detalhes sobre as buscas e os seus impactos na sociedade, leia o livro do
almirante Honorato Paiva, Apoteose do almirante Saldanha da Gama, de 1896,
disponível na internet.
Após a
autópsia, o corpo do almirante foi sepultado no cemitério de Rivera, onde
permaneceu até 1908, quando foi trasladado para o Brasil, com os ossos do almirante
Barroso. Saldanha mereceu um belo monumento em sua sepultura no cemitério de
São João Batista, no Rio de Janeiro, além de muitos outros de que se tornou
merecedor.
O coronel
Moreira César não teve essa sorte.
Eduardo Simões
O CORONEL MOREIRA CÉSAR E
CANUDOS DEVEM MORRER
A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 17
(mudei o subtítulo)
A verdade
de uma foto e uma sombra na nossa história
É comum os
pesquisadores confundirem a execução por degola, ou corte na garganta, com a
decapitação, o seccionamento completo do pescoço, com o descolamento da cabeça.
Na
decapitação, feita por uma espada ou machado, utiliza-se um instrumento de
lâmina grande e/ou pesada para dar um golpe de trás para frente, em geral de
cima para baixo, de sorte a arrancar a cabeça da vítima com esse golpe. Na
degola, ao contrário, o corte é geralmente feito de baixo para cima e da frente
para trás, e visa não separar a cabeça do pescoço, mas cortar a passagem de
sangue para o cérebro pelo seccionamento de veias e artérias no pescoço, em
especial a carótida. O instrumento para isso é qualquer lâmina afiada. Quanto
mais leve, melhor.
Enquanto a
decapitação é uma operação complexa e exige uma certa habilidade ou treino, a
degola é mais fácil, e a morte, sem um socorro adequado e rápido, é inevitável.
É o método de execução ideal dos grupos mais pobres ou mais sádicos.
A degola foi
muito comum na Revolta Federalista, e não a decapitação, que às vezes acontecia
em virtude da profundidade do corte no pescoço, e por isso não faz sentido
chamar Moreira César de “corta-cabeças”. Os jornais da época, como o República
e o Gazeta de Notícias, diziam que o seu apelido era “corta-pescoço”. Quanto ao
“corta-cabeça” e “treme-terra”, esses nomes nunca são mencionados nos jornais
da época, referindo-se a Moreira César. São “invenções” posteriores, de matiz
euclidiano.
Há mais de
um século, a foto acima assombra a memória e a autoimagem festiva e afetiva que
os brasileiros construíram de si mesmos, porque mostra o quanto podemos ser
espontaneamente cruéis e desumanos, como todos os outros povos.
Ela mostra
uma forma de execução comum de prisioneiros durante a Revolta Federalista, nos
três estados do Sul do Brasil, e depois em Canudos. Entretanto, devemos
considerar que:
a) A degola
de prisioneiros não é exclusiva das populações sulinas; antes, foi amplamente
praticada em todo o Brasil, por ser uma forma impressionante, rápida, barata e
eficaz de execução (31). Ela ficou famosa na Revolta Federalista, talvez
por sua frequência, e sua utilização por forças federais e estaduais, logo sob
o guarda-chuva do Estado definido por uma Constituição que proibia a pena de
morte. A degola impressiona também devido ao estremecimento instintivo,
incontrolável, do corpo, enquanto o sangue se esvai por veias e artérias
abertas. Em alguns casos, procedeu-se também à castração da vítima a ser
executada ou já morta, além de outros pedaços de corpos, que eram exibidos como
troféus.
b) Na
Revolta Federalista, dizem, havia dois tipos de degola: a “brasileira”, mais
discreta, que dava um corte superficial no pescoço, seccionando veias ou
artérias, e uma mais profunda, chamada “uruguaia”, um corte profundo de orelha
a orelha, executado pela frente ou por trás.
c) A foto
não é uma encenação, mas uma degola em andamento, com um pouco de sangue já
escorrendo do pescoço da vítima.
d) Esse é um
grupo de federalistas.
Muitos
afirmam que o degolador na foto, de autoria de Affonso de Oliveira Mello, é o
célebre Adão Latorre, mas é errado. O jornal República, de Desterro, de
15 de junho de 1894, reproduz uma matéria saída no jornal O Paiz, do Rio
de Janeiro, de 30 de maio do corrente, que detalha essa foto, numa matéria
intitulada HORROROSO, a qual reproduzo alguns trechos abaixo.
"Dão
estes desprezíveis comparsas [6 adultos e um adolescente, que cercam a cena, da esquerda
para a direita] pelo nome: Capitão Porto, major dr. Fritz, Galdino de Castro
(coronel Carlito), Capitão Estrombel, tenente Alfredo (conhecido por Mocinho)
[que parece querer esconder o rosto] e capitão Dionysio. A criança… o digno
remetente da fotografia, ou não sabe, ou não quis revelar [seu nome], e
nesse caso fez bem…
A
execução deu-se na cidade de Ponta Grossa [PR], perto da estação da estrada de ferro, em um
dos primeiros dias do mês de abril próximo passado [abril de 1894].
Quem o
supliciado?
Não
sabemos…
O
carrasco… era cabo
[do exército ou da polícia?] … Chamava-se Sebastião Juvêncio.”
Endereço da
fonte:
http://hemeroteca.ciasc.sc.gov.br/republica/1894/REP189443.pdf
Pelos dados
do jornal O Tempo, esse fato teria acontecido mais provavelmente entre
15 e 30 de abril, quando os federalistas estabeleceram seu centro de comando,
no Paraná, em Ponta Grossa. Não sabemos o nome da vítima, mas pela sua cor
podemos presumir que era um imigrante e que era civil. O jornal O Tempo, de 1º
de maio de 1894, comentando a retirada dos federalistas de Ponta Grossa, fala
sobre “o degolamento de um pobre
idiota no Paraná, pelo fato de repelir energicamente insultos que lhe atirou um
dos ‘valentes salvadores da pátria’, resume tudo que de abominável e nojento,
praticou essa horda, que felizmente acha-se hoje varrida do solo brasileiro”,
num evidente exagero — a luta se arrastou até 23 de agosto de 1895, quando foi
assinado o Tratado de Paz de Pelotas que pôs fim à Revolta Federalista.
Eduardo Simões
EUCLIDES DA CUNHA MENTIU
PÍLULAS DA SUMA TEOLÓGICA (texto dos dominicanos espanhóis)
A Ciência Sagrada é uma ou
múltipla (discorre sobre várias realidades diferentes)
Solução. É preciso dizer que a doutrina sagrada é uma
única ciência. A unidade da faculdade ou hábito é dada pelo objeto, mas não sob
o aspecto material, e sim sob o formal. Por exemplo, o homem, o jumento e a
pedra podem ser considerados sob o aspecto formal da cor, o qual é o objeto da
visão [sob o aspecto material ou físico eles são diferentes, mas todos
compartilham um único aspecto formal: todos têm cor]. Se tivermos em mente que
a Sagrada Escritura considera algumas coisas enquanto reveladas por Deus, tudo
o que pode ser revelado por Deus se enquadra no aspecto formal de tal ciência
[no caso concreto acima, ‘a cor’, no caso da teologia ‘as coisas reveladas por
Deus’].
Em relação ao primeiro ponto, é preciso dizer: a
doutrina sagrada não se ocupa igualmente de Deus e das criaturas; em vez disso,
ocupa-se de Deus como seu objeto principal e das criaturas na medida em que se
relacionam com Ele como seu princípio e fim. Isso não a impede de ser uma única
ciência. Em relação ao segundo ponto, é preciso dizer: nada impede que as
faculdades ou hábitos se diversifiquem ao considerar seus diferentes objetos e,
ao mesmo tempo, que esses objetos sejam considerados por uma faculdade ou
hábito superior; visto que uma faculdade ou hábito superior considera tudo a
partir de uma perspectiva formal muito mais universal. Exemplo: O senso comum
lida com o que é perceptível, e o que é perceptível é também objeto da visão e
da audição. Portanto, o senso comum, como faculdade, abrange os objetos
próprios dos cinco sentidos. Da mesma forma, o que se enquadra no campo das
diversas ciências filosóficas pode ser considerado a partir de uma única
perspectiva: a de ser revelado por Deus, a doutrina sagrada como uma única
ciência. Assim, a doutrina sagrada é como uma imagem da ciência divina, que é
una, simples e abrangente.
Nota dos dominicanos espanhóis
Alguns conceitos são essenciais para
compreender o alcance da resposta de São Tomás de Aquino. São eles:
“objeto”, “hábito”, “poder” e “formal”.
Objeto: ‘o que está aí’ (ob-iacet). O
que é alcançado pelo ato humano de uma determinada potência, faculdade ou
hábito. Ele especifica (determina a espécie ou a caracteriza nela mesma) essa
potência, a tendência que dela procede ou o ato que lhe é próprio. É frequente
a distinção entre objeto material e objeto formal… Objeto formal é o aspecto
ou formalidade particular considerada no objeto material. No objeto formal, cabe
ainda distinguir entre objeto terminativo (enquanto coisa — ut est res (como a
coisa é) — ou objeto formal quod (enquanto tal)) o qual é o perceptível do objeto
material, o objeto motivo (o que pode ser conhecido, cognoscível, que é aquilo
pelo qual é alcançável). No exemplo dado, o asno, a pedra e o homem seriam para
a vista o objeto material, a cor o objeto formal terminativo, e a luz o objeto
formal motivo.
[A
inteligência artificial do google apresenta essa questão da seguinte maneira:
O objeto
formal terminativo é o objetivo final de uma
investigação ou o aspecto conclusivo que define uma área do saber. Na filosofia
e na metodologia científica, ele representa a finalidade última ou a pergunta
específica que se busca responder
Exemplo:
Objeto
Material: O corpo humano.
Objeto Formal (Cardiologia): O sistema circulatório e o coração.
Objeto Formal
Terminativo (Cardiologia): A finalidade
de descobrir, prevenir e curar as doenças cardíacas.
O objeto
formal motivo (ou objeto formal quo) é o
ângulo, a luz ou a capacidade específica pela qual a mente humana estuda um
determinado assunto. Ele representa a ferramenta ou o método utilizado para
investigar um problema, diferenciando-se da área de estudo em si (o objeto
material).
Diferentes ciências podem
estudar exatamente a mesma coisa (objeto material), mas utilizam objetos formais
motivos completamente distintos:
Matéria
estudada: O ser humano (objeto material).
Medicina:
Estuda o corpo sob a luz da biologia e da fisiologia (objeto formal motivo).
Psicologia:
Estuda o mesmo ser humano sob a ótica da mente e do comportamento (objeto
formal motivo).
Teologia:
Estuda o ser humano sob a perspectiva da fé e do espírito (objeto formal
motivo)].
Formal. O aspecto formal de um ser é consequência de
sua “forma” [que está dentro dele como potência e determinação; você
pode até fazer a imagem de um burro numa pedra, mas ela não deixará de ser
pedra e ninguém a confundirá com o animal, porque falta-lhe naturalmente a sua
forma]. Esta tradução deriva do grego μορφή, que nada tem a ver com a aparência
externa, como seria em seu uso comum, mas sim com o princípio determinante ou
constitutivo de tudo o que existe. É um conceito correlato ao de “matéria”, o qual é indeterminação, potencialidade. As coisas são o que são por causa de sua
“forma”, a qual é um princípio intrínseco, constitutivo e operante. O
“formal” deriva da determinação essencial de um ser.
Hábito é uma disposição estável
para agir — pronta, facil e prazerosamente — bem ou mal (dependendo
se o hábito é bom ou mau). É gerado e desenvolvido por meio de atos e de sua
repetição. Se for operante, é uma disposição das faculdades para agir de um
jeito ou de outro em relação a certos objetos. A ciência é um hábito operante [Podemos considerar o hábito também como uma resposta orgânica, estrutural,
reforçada pela sociedade (cultura), condicionada pelas possibilidades de
assimilação do organismo, que podem, eventualmente, sair ao contrário daquilo
que a sociedade pretendia do comportamento daquele indivíduo — a sociedade tem
suas contradições].
Potência, no texto, significa
potência ativa, isto é, o princípio imediato da ação. Assim, as faculdades da
alma são potências.
As Sagradas Escrituras
Nos comunicam todas as coisas que são divinamente
reveláveis ou cognoscíveis por meio da Luz Divina. A precisão de São Tomás,
neste artigo e no próximo, ao falar de revelabilidade e cognoscibilidade como o
objeto formal motivo, e não do que é revelado ou conhecido, é interessante.
“Revelado” acrescenta à “revelável” o fato existencial da
manifestação de Deus. Mas “revelável” indicaria não apenas a
possibilidade de ser revelado, mas também a necessidade de ser conhecido dessa
maneira. Ou seja, que a compreensibilidade ou cognoscibilidade do fato revelado
é conhecida apenas mediante a luz divina [Deus nos fornece, pelo Espírito
Santo, os meios de entender e aceitar a sua palavra, na medida de nosso
entendimento]. Com efeito, já anteriormente dissemos que nada impede que as
disciplinas filosóficas tratem de algumas coisas conhecidas também por
revelação, enquanto cognoscíveis pela luz natural da razão, inclusive, em
alguns casos, havendo mesmo a necessidade daquelas. Reafirmamos: o “revelável”
não é só o que é revelado, como “visível” é só o que pode ser visto, mas também
o que tem que ser revelado para poder ser conhecido. Essa distinção de
Santo Tomás antecipou a resposta à oposição nominalista de Pedro Aureolo
(1280–1322). Dizia Aureolo: “Se Deus revelasse simultaneamente a filosofia e a
geometria, ainda que fosse idêntica a luz que as tornou cognoscíveis, nem por
isso seriam uma só ciência”. Efetivamente, a filosofia e a geometria, podendo ser
reveladas, não o são, porque não têm que sê-lo, uma vez que a sua
cognoscibilidade não supera a razão humana. Já o “revelado”, como diz Caetano,
pode entender-se como causado eficientemente, o que não dá unidade à ciência
(tudo poderia ser assim revelado); ou o “revelado” pode ser entendido como
razão ou modo de entender o objeto [no caso, Deus]. E é por isso que a unidade
que Santo Tomás fala “formalmente”, não a diz “revelada”, mas antes
“divinamente revelada” [A revelação não apenas mostra o objeto, mas dá a única
ferramenta possível para a sua compreensão, estando
cada um, o objeto e o entendimento deste, inseparáveis, na própria revelação].
Não é raro encontrar em São Tomás, na sobriedade do estilo da Suma Teológica, afirmações surpreendentes feitas com
absoluta simplicidade. Concluindo este segundo ponto, São Tomás vê a doutrina
sagrada como o reflexo no homem da ciência divina. Uma fórmula admirável. Se,
segundo o ditado escolástico, “o que está disperso nas coisas inferiores
está unido nas superiores”, então, ao atingir a realidade suprema, não
apenas tudo parecerá unido, mas reduzido à unidade; e não uma unidade de composição,
mas uma unidade simples. A doutrina sagrada, portanto, traz a marca da ciência
divina.
QUEM ERA O CORONEL MOREIRA CÉSAR - fontes
O CORONEL MOREIRA CÉSAR E
CANUDOS DEVEM MORRER
A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 16
(mudei o subtítulo)
Um homem franco e capaz
Após o golpe da República, houve, por iniciativa de Benjamin Constant, a criação de uma comissão encarregada de escrever o Código Penal Militar.
Essa comissão era composta por quatro grandes luminares do direito, tanto civil como militar — Marechal Visconde de Beaurepaire Rohan, ex-ministro da Guerra; General de brigada João Manoel de Lima e Silva; o auditor de guerra Agostinho de Carvalho Dias Lima; e Carlos Augusto de Carvalho, famoso jurista e diplomata. Entretanto, antes de sair o anteprojeto, o ministro Benjamim Constant, ao se indispor com Deodoro, foi substituído pelo marechal Floriano Peixoto. Floriano, que certamente conhecia a bagagem intelectual de Moreira César, remete-lhe o anteprojeto para a sua avaliação — como é que Euclides da Cunha comete o desplante de apresentá-lo como um ignorante?
Tempo depois, Floriano recebe a seguinte resposta, revelada pelo gal. Ferraz:
“Cidadão Ministro da Guerra Floriano Peixoto.
Agradecendo-vos a atenção de afetar à minha apreciação o Código… peço licença para francamente externar a minha opinião…
O Código Militar apresentado por essa comissão me parece péssimo [destaque de Ferraz]; contraria em muitos pontos dispositivos contidos em nossa lei base — a Constituição; apoia-se muitas vezes em disposições já derrogadas de códigos antigos.”
Uma página do site do Senado, que comenta sobre esse assunto, dizendo que “em 14 de janeiro de 1890, o ministro da Guerra nomeou uma comissão para elaborar o Código Penal e de Processo Militar. Resultou daí o projeto do Código de Justiça Militar para o Exército Brasileiro… Contudo, a substituição de Benjamin Constant por Floriano Peixoto à frente do Ministério da Guerra resultou na interrupção dos trabalhos da comissão do Exército.” (https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/178946).
Isso aconteceu por causa da opinião de Moreira César? Eis uma amostra incontestável de que ele era um dos homens mais cultos e respeitados, pelo seu preparo intelectual, do Exército Brasileiro, e até Floriano o reconhecia. Até o grande jurista militar Chrysolito de Gusmão, posteriormente, reconheceu grandes falhas nesse anteprojeto.
Como é que Euclides da Cunha quer nos convencer de que ele não passava de um completo ignorante com pavio curto, como quando cita uma desavença com um oficial argentino, por causa de uma palavra mal entendida? Alguém está mentindo, e eu não acredito que seja o general Ferraz.
Um encontro pessoal com Moreira César
O jornalista, poeta e escritor gaúcho Múcio Scevola Lopes Teixeira, mais conhecido como Múcio Teixeira, foi um dos jornalistas mais conceituados no Rio, do final do século XIX. Ele escreveu, numa edição comemorativa ao aniversário de um ano da publicação de Os sertões, de Euclides da Cunha, um artigo chamado “Os sertões (conclusão).”
Acompanhando a tendência geral, Múcio se rende acriticamente à obra de Cunha, derramando-se em elogios para, em seguida, descrever um encontro dele com César, em 1896. Esforçando-se para confirmar a grotesca invenção do autor da moda, ele cai no anacronismo de não perceber a mudança do tempo e da memória, sem perceber que escrevia agora com os olhos de quem se rendia ao novo ópio dos intelectuais, envolvidos pela aprovação social de Os Sertões:
“O livro de Euclides da Cunha, como ficou demonstrado, é uma obra histórica, uma obra científica e uma obra de arte. Analisando sob qualquer destes pontos de vista, resiste vitorioso às exigências da crítica e merece os mais sinceros louvores” (30).
Múcio lembra que conhecera César em um curso na Escola Militar em Porto Alegre, em 1873, e, segundo ele, César já dava sinais de um temperamento “impulsivo” — note-se a abrangência e a subjetividade do termo. A questão é: ele notou isso naquele tempo ou forçou agora, sugestionado por Cunha, semelhanças entre certos acontecimentos do passado e a nova ‘revelação’ sobre o seu ex-camarada. Ele começa a ajustar, sem perceber, as suas lembranças para amoldá-las ao texto de Euclides da Cunha.
Múcio relata que, em janeiro de 1896, quando fazia uma viagem de navio do Rio Grande para o Rio de Janeiro, Moreira César tomou esse mesmo navio em Florianópolis. Segundo Múcio, quando ele embarcou, vindo em um escaler, “acompanhado das autoridades estaduais e altas patentes militares”, um “murmúrio de imprecações correu de boca a boca”, que Múcio, em 1903, na época do artigo, o associou a Moreira César.
Um navio repleto de gaúchos devia ter entre eles alguns federalistas e gente contaminada por relatos falsos sobre Santa Catarina, embora a manifestação possa também ter sido contra a delegação de militares, e não a um deles em especial. Naquele momento, Múcio conversava com um casal e pode não ter percebido o contexto. Acreditou no que era melhor acreditar após ler Euclides Cunha.
Múcio também não revela o nome do casal, nem faz nenhuma citação que evoque uma antiga amizade entre eles. Somente diz: eu conversava no tombadilho com um oficial do exército, que assistira ao fuzilamento do Barão de Batovi, e a senhora desse oficial mostrava-se ainda vivamente indignada… Tudo indica um encontro casual, tanto que ele, depois, ficou conversando com César.
Então.
a) Esse oficial, com certeza, não pertencia ao 7º B.I., por ser ignorado por César, nem o ‘atilado’ repórter informa a que unidade ele pertencia na ocasião, nem se sua unidade serviu em Anhatomirim. Se a unidade dele servia em Anhatomirim, ele é coautor do crime, e a sua senhora, para ser coerente com a sua indignação, devia lançá-lo ao mar.
b) Se ele não servia lá, então foi assistir ao fuzilamento do barão como convidado? Quem o convidou?
c) Se ele assistiu a um crime militar tão grave, ele tinha a obrigação de denunciá-lo. Por que não o fez? Nesse caso, ele é que devia lançar-se ao mar.
d) Como ele viu o fuzilamento do barão, se este foi visto desembarcando vivo no Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro, em 30 de abril de 1894, cinco dias após a data oficial do seu ‘fuzilamento’?
Esse homem está mentindo descaradamente. Ele não denunciou um “grave assassinato”, que ele presenciou, e ainda fica fazendo fofoca para os tolos de ocasião. Múcio continua.
“Moreira César… parou, abrindo-me os braços.
— Oh! Múcio! Que belo encontro!
— Oh! César!… (E abracei-o, humilhado, diante daquela senhora, que eu acabava de aplaudir, nas manifestações de ódio contra o homem que eu também acabava de acusar [que belo amigo!]). O vapor estava a pequena distância da fortaleza que servira de cadafalso a tantas vítimas [Anhatomirim?]…
— E quis a fatalidade que nos encontrássemos tão perto do teatro da tua crueldade… A heroicidade deve coincidir com a bondade: por que foste tão mau?
— Tens razão, disse-me ele. Houve exagero em tudo aquilo… Ficou um instante pensativo, com um ar melancólico. Mas, de repente, como se o fogo do inferno ardesse no seu olhar, sorriu, bradando…
— Mas se amanhã a República periclitar de novo, eu tornarei a fazer o mesmo que fiz! Então continuamos a passear juntos pelo tombadilho [ou seja, Múcio voltou a fingir-se amigo], conversando sobre os acontecimentos da revolução riograndense, passando ele em seguida a falar-me de seu péssimo estado de saúde: tinha vertigens amiudadas; mostrou-me uma cicatriz sobre a sobrancelha esquerda, que adquirira em uma congestão cerebral, pois caíra dias antes sobre uma mala, havendo grande hemorragia… [Múcio então lhe recomenda um novo tratamento hidroterápico, o do padre alemão Sebastian Kneipp, que entusiasmou o coronel]
Vamos nós…
Primeiro: que relação existe entre o tipo doentio e enrustido do César fabricado por Euclides da Cunha e esse homem que, ao se encontrar com um velho conhecido, abre os braços e agradece pelo encontro, como um típico brasileiro antigo?
Segundo: Múcio mostrou um comportamento dúbio e infantil. Foi dúbio por aceitar o abraço e a companhia de César, mesmo acreditando que ele era culpado, e infantil por assimilar, sem contestação, aquela informação recente. Ele podia ter questionado o casal.
Terceiro: a impressão que passa na descrição do encontro é que Múcio está falando para outros intelectuais e jornalistas euclidianos, com medo de ser por eles julgado, como se dissesse: “Eu fui amigo dele, mas deixei de sê-lo, e já naquele tempo eu desconfiava que havia algo errado.” Se fosse hoje, ele estaria em campanha nas redes sociais: “por favor, não me cancelem, eu acredito em Euclides da Cunha.”
Quarto: ao invés de aproveitar a ocasião e aprofundar a história dos fuzilamentos, ele aceita aquilo como verdade e condena a priori o amigo. Isso não explicaria o olhar de “melancolia”, talvez cansaço, de César?
Quinto: Quantas vezes ele foi ao inferno para saber a diferença entre um olhar que reproduz as chamas daquele lugar e outro qualquer? Ali, onde Múcio enxergou até o inferno, conforme ele imaginava em 1903, não enxergou, em 1896, uma grande oportunidade jornalística bem diante de seus olhos.
Sexto: A resposta de César não é a de quem tem culpa, pois nem nega nem tenta justificar qualquer excesso, e quando reconhece algo errado, fala de forma genérica, impessoal: “houve exagero em tudo aquilo”. Quando ele se refere à sua parte, mostra-se indiferente ao que o acusam: “Tornarei a fazer o mesmo que fiz”, como quem diz: “Não fiz nada errado, minha consciência está limpa… quer você acredite, quer não, e eu não vou lhe dar satisfações”.
Aliás, essa é uma característica de sua personalidade. Quando ele tem a consciência de que fez a coisa certa num assunto controvertido, não fica se explicando nem alonga a conversa — foi assim na resposta curta e protocolar que deu ao ministro da Guerra, foi assim com Múcio. Nesse sentido, ele difere da média.
Múcio, antecipadamente, já o julgara e condenara, e isso talvez explique por que o quase encontro dos dois na Bahia, durante a 3ª Expedição, não se realizou, apesar da proximidade. César, que ficara tão feliz em rever Múcio no navio, já não tinha nenhum interesse por ele.
Moreira César ainda ficou algum tempo conversando amenidades com Múcio, tentando, talvez, retomar a antiga amizade, mas, quando percebeu a inutilidade do esforço, largou de mão e se despediram para sempre.
Um jornalista crédulo e tonto perdeu uma grande oportunidade. E é só isso!
Nesse texto, porém, há um dado que vale a pena aprofundar: a moléstia que azucrinava a vida, e quiçá o juízo, de Moreira César.
Segundo o general Epaminondas Ferraz, em 1881, com 30 anos, ele obteve uma licença de 3 meses para se tratar de uma doença desconhecida. Então, até janeiro de 1896, data desse encontro, a sua “epilepsia” não havia sido ainda diagnosticada, pois eles teriam falado sobre isso, uma vez que essa doença já havia sido minuciosamente estudada e descrita desde o final do século XVIII.
A epilepsia não era mais um mistério, embora nas sociedades mais atrasadas ou ignorantes continuasse a ser associada a transtornos psicoespirituais, um meio-termo entre a loucura e a possessão, como em alguns textos que caluniam Moreira César.
Os seus contemporâneos são unânimes em dizer que ele era possuidor de uma energia físico-mental fora do comum, de forma que estava sempre à beira de uma estafa. Essas vertigens, na época chamadas “congestão cerebral”, já eram diferenciadas dos ataques epilépticos e podiam ser perfeitamente resultantes de sobrecarga de trabalho. No mais, o tratamento do Padre Kneipp nunca foi recomendado para a epilepsia.
Não há, portanto, disponível, nenhum testemunho médico declarando que Moreira César sofresse de epilepsia. Quem começou essa história foi o major Cunha Matos, num momento singular da Campanha de Canudos.
Eduardo Simões