sexta-feira, 22 de maio de 2026

 O CORONEL MOREIRA CÉSAR É INOCENTE DA MORTE DE APULCO DE CASTRO — fontes.



Eis a matéria completa sobre a absolvição do coronel Antônio Moreira César do assassinato do jornalista Apulco De Castro, na última vez que esse assunto prosperou em jornal de grande circulação do Rio de Janeiro. Logo: EUCLIDES DA CUNHA OU MENTIU OU TENTOU CONFUNDIR SEUS LEITORES.

1ª tira


2ª tira


Observe-se atentamente o penúltimo parágrafo desse trecho do artigo jornalístico, onde o capitão Antônio Moreira César e o alferes Aguiar, respectivamente o 1º e o 2º denunciados, são os únicos unanimemente aceitos como inocentes do assassinato de Castro. Infelizmente, ele era muito amigo do então tenente Bento Thomaz Gonçalves, que, aparentemente, foi reconhecido por alguns como presente no assassinato, e isso pode tê-lo [a Moreira César] arrastado para o caso.

3ª tira


4ª tira


5ª tira


Coisas a considerar:
1º - O jornal Gazeta de Notícias era um dos mais populares do Rio. Não havia como Euclides da Cunha não saber da absolvição.
2º - Embora o juiz diga no final que a sua conclusão não encerra o caso, não se tem notícia de nenhuma outra inquirição ou denúncia feita contra os suspeitos aqui apresentados. É, portanto, A PALAVRA FINAL DA JUSTIÇA. A não ser que alguém consiga trazer dados novos e reabrir o caso.
3º - Não é, portanto, de admirar que esse incidente não tenha entrado na ficha de serviço do capitão. Ele foi completamente absolvido nesse caso.
4º - Euclides da Cunha, covardemente ou muito mal intencionado, não cita o nome do jornalista supostamente assassinado por Moreira César e situa o assassinato como ocorrido em 1884, quando, na verdade, ocorreu em 25 de outubro de 1883, fugindo de qualquer processo por difamação e calúnia.





 


O PREÇO DE MERS EL-KEBIR

Eduardo Simões 

Navegando pelo site mises.org.br/, encontrei o artigo “Repensando Churchill: Crimes de guerra encobertos, O lado sombrio de 1945 e o Triunfo do estado de bem-estar social”, que se inicia com esse parágrafo exemplar:

Há diversos episódios ocorridos durante a guerra reveladores do caráter de Churchill que merecem ser mencionados. Um incidente relativamente menor foi o ataque britânico à frota francesa em Mers-el-Kébir (Orã), na costa da Argélia. Após a queda da França, Churchill exigiu que os franceses entregassem sua frota à Grã-Bretanha. Os franceses recusaram, prometendo afundar os navios antes de permitir que caíssem em mãos alemãs. Contra o conselho de seus oficiais navais, Churchill ordenou que os navios britânicos posicionados na costa argelina bombardeassem a frota francesa. Cerca de 1.500 marinheiros franceses foram mortos. Isso foi, obviamente, um crime de guerra, por qualquer definição: um ataque não provocado contra as forças de um aliado sem declaração de guerra. Em Nuremberg, oficiais alemães foram condenados à prisão por menos do que isso. Percebendo isso, Churchill mentiu sobre Mers-el-Kébir em sua história da guerra e suprimiu evidências sobre o episódio nas histórias oficiais britânicas do conflito”.

A paixão é, deveras, a grande dissimuladora da ignorância, ao fazer o apaixonado parecer um especialista em algo que ele não conhece patavina. Vejamos então o contexto que levou à chamada Operação Catapulta, em 3 de julho de 1940, minuciosamente descrita por Churchill em seu livro The Second World War — na edição em português está entre as páginas 379 a 383 — ficando clara uma mentira de Raico. 

1º - Não dá para negar que as exigências abusivas da França, durante e depois do Tratado de Versalhes, foram um fator crucial para o crescimento do nazismo e o posterior início da 2ª Guerra Mundial.

2º - Quando a guerra estourou, a população francesa dividiu-se em dois grandes grupos: a extrema direita da Ação Francesa, extremamente simpática ao nazismo, e a esquerda, em especial os comunistas, orientados por Stalin a trabalhar com Hitler.

3º - É fato: o exército francês era o mais poderoso da Europa nessa época, e os erros de comando não explicam por si só a derrocada do país em somente 45 dias. Influenciados por esses grupos, a mentalidade dominante no exército era: “não temos por que lutar, essa guerra é de Churchill”. Os franceses se renderam muito fácil. Dava para confiar?

4º - O jornalista francês Alemanha Raymond Cartier, que escreveu sobre a guerra, relata episódios em que se viam claros indícios de traição, em especial de gente da extrema direita infiltrada, no exército francês. Dava para confiar?

5º - A França foi, com a Rússia, o país que mais voluntários cedeu às tropas das SS, a Divisão Charlemagne, que inclusive, com os voluntários espanhóis, foi a unidade que sustentou a última resistência contra os soviéticos em Berlim, em 1945. Dava para confiar?

6º - Além dos voluntários, os franceses remeteram centenas de milhares de trabalhadores, homens, para sustentar o esforço de guerra nazista na Alemanha. No final da guerra, esses mesmos homens saíram caçando mulheres que haviam se aproximado, muitas por razões estritamente pessoais, de soldados alemães, e as submeteram às mais degradantes humilhações, dignas das piores selvagerias.

7º - A França se rendeu aos alemães em 22 de junho de 1940 e os ingleses fizeram de tudo para que os franceses lhe cedessem seus navios. Em vão. Os franceses se declararam neutros, portanto, JÁ NÃO ERAM MAIS ALIADOS. Raico mente.

8º - Petain, o novo chefe do regime colaboracionista francês, Vichy, disse logo após a rendição, inclusive para justificá-la, que “os alemães vão torcer o pescoço dos ingleses como o de uma galinha”. Ninguém confiava na capacidade inglesa de resistir, e Churchill precisava dar uma resposta decisiva ao mundo, para os franceses e até os ingleses, de até onde ia a determinação dele para vencer a guerra. A Inglaterra também precisava de tempo. Você arriscaria?

9º - Foram dadas chances para a frota francesa em Mers el-Kebir se render, ou simular rendição, pois uma coisa era certa: se os poderosos navios franceses caíssem nas mãos dos alemães, a Inglaterra perderia sua única vantagem e a guerra estaria perdida. Você arriscaria?

10º - Quanto à promessa de não entregar o navio aos alemães, a França já tinha prometido não se render à Alemanha e se rendeu. Em 1944, os alemães por pouco não se apoderaram da frota francesa em Toulon, que preferiu se autoafundar e passar para o lado dos aliados. E isso mostra, já no final da guerra, que os franceses ainda tinham fortes dúvidas de qual era o lado certo. Você arriscaria?

11º - A política interna de Vichy era uma piada, eram os nazistas quem mandavam, inclusive quando ordenaram, e Pétain cedeu, que lhes mandassem todos os judeus lá residentes. Se von Mises, por exemplo, morasse nesse “aliado”, nessa época, poderia ter acabado num campo de concentração. Você arriscaria?

12º - Nem os franceses confiavam em Vichy. Em 14 de agosto de 1945, o marechal Pétain foi condenado à morte por um tribunal de guerra francês, escapando por pouco, devido à sua história na 1ª Guerra e sua idade.

No seu livro Memórias da Segunda Guerra Mundial, que Raico decerto não leu, na página 383, Churchill diz que, após apresentar dados minuciosos da operação aos deputados da Câmara dos Comuns, fez uma breve conclamação a uma guerra sem quartel contra o nazismo, encerrando seu discurso. 

A Câmara permaneceu muito silenciosa durante a leitura do relatório [do ataque a Mers el-Kebir], mas ao fim ocorreu uma experiência única em minha vida. Todos pareceram manter-se erguidos por todos os lados, ovacionando, durante o que me pareceu um longo tempo. Até esse momento, o Partido Conservador havia me tratado com reserva, e era da bancada trabalhista que eu costumava receber a acolhida mais calorosa… Nessa ocasião, porém, todos se uniram num solene acordo ostensório” (idem, idem).

O ataque a Mers el-Kebir era o que faltava para convencer o mundo, e até os ingleses, de que o governo de Churchill não se renderia e que estava disposto a ir às últimas consequências para alcançar a vitória. Isso galvanizou a Inglaterra, salvando o país  do nazismo, e de tabela todo o mundo ocidental, e o resto da humanidade de ter que enfrentar uma aliança entre a União Soviética comunista e Alemanha nazista.

O poder de decisão, o heroísmo de Churchill, indiferente ao oportunismo político e ao julgamento dos ignorantes de má-fé, sua disposição em pagar o preço de fazer a coisa certa mesmo na mais desvantajosa posição, de ser coerente com o seu discurso até o risco de passar para a história como um criminoso, ao contrário dos covardes tão admirados, fez dele o símbolo máximo de um mundo que acabou, mas que um dia, não muito distante, será procurado de novo como a única chance de a humanidade continuar existindo.  

quarta-feira, 20 de maio de 2026

 O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA - fontes



Estando superada a fase belicosa do movimento, os federalistas de Santa Catarina mudaram o nome do seu partido para Republicano, como aparece no cabeçalho, mas ainda em oposição às tendências florianistas que eram fortes no Estado. Pela data, se vê que isso se deu dois anos após a morte de Moreira César e antes da publicação de Os Sertões. Até esse momento, o coronel Moreira César éra um herói querido em Santa Catarina; veja-se o título do artigo, destaque da 1ª página.





Esse é o final da matéria acima desse jornal federalista. Sabemos que isso não aconteceu e que o coronel Moreira César teve a sua memória, logo a sua honra, completamente destruída por Euclides da Cunha, e até por seus companheiros de armas.



COMO É QUE PODE? Um homem que massacrou metade da elite de um estado, a do grupo federalista, recebe uma homenagem dessas na segunda página de um jornal federalista que, se esta impostura fosse minimamente verdadeira, teria todas as razões e o direito de espinafrá-lo, ainda mais porque ele já estava morto há dois anos!! SÓ HÁ UMA CONCLUSÃO POSSÍVEL:

OS MASSACRES DE ANHATOMIRIM POR MOREIRA CÉSAR SÃO UMA FRAUDE.

Acha que não leu direito, repito:
OS MASSACRES DE ANHATOMIRIM POR MOREIRA CÉSAR SÃO UMA FRAUDE.

Finalmente, para memorizar:
OS MASSACRES DE ANHATOMIRIM POR MOREIRA CÉSAR SÃO UMA FRAUDE.





 O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA - fontes



Trecho da matéria do jornal O Estado reproduzindo um trecho da parte (relatório) do major Cunha Mattos, dizendo que foi o coronel Tamarindo que desde o início comandou o ataque da 3ª Expedição, algo sabidamente falso.


Outro trecho do mesmo jornal mostra a extrema animosidade que havia entre as lideranças políticas baianas. José Gonçalves da Silva era o líder da principal corrente de oposição ao governador em exercício Luiz Vianna, aproveitando os dissabores da campanha, para obter ganhos políticos à custa do governador.

Quer dizer que ele cometeu uma injustiça ao atacar o governador? Não. Eu não digo isso, mas apenas chamo a atenção para esse oportunismo rasteiro, embora no nível médio da política que então se praticava, inclusive a do governador, em meio a uma tragédia humana, que já arrastara centenas de pessoas à morte, e ainda arrastaria muito mais.

Isso também mostra o quanto é pueril e tosca essa abordagem, tão popular em nosso país, que quer ver tudo como fruto de luta de classes, e que aparece tão escancaradamente no filme “Guerra de Canudos”. Com isso, se perde muito dinheiro e chances de ouro, para transmitir ao povo uma História do Brasil, que estimule o pensamento inteligente.


terça-feira, 19 de maio de 2026

O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA - fontes

 


Desembarque das 4 urnas funerárias de supostos fuzilados por Moreira César em Anhatomirim no Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1934. 
Quantos restos humanos cabem em cada urna desse tamanho? Não são mais de cem as vítimas? Por que ficaram todos misturados?
Fotos do Correio da Manhã, de 2 de outubro de 1934.



O CORONEL MOREIRA CÉSAR E 

CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 15

(mudei o subtítulo)

Uma estranha transmudação

    Toda apuração de homicídio deve se basear em pelo menos quatro componentes, sem os quais a suspeita não se sustenta: um corpo, a arma utilizada no crime, a motivação e o(s) beneficiário(s). A Moreira César se atribui um número permanentemente aberto de vítimas, sem que haja corpo, arma, motivação e beneficiário.

    Os corpos nunca apareceram, sem falar que muitas das supostas vítimas, aleatoriamente listadas, ou já estavam mortas quando foram fuziladas, ou continuaram vivas após o serem.

     A arma do crime nunca apareceu, pois até hoje não se sabe se as vítimas foram fuziladas pelos soldados do 7º ou outra unidade militar em Anhatomirim, que estava fora da jurisdição de César.

        A motivação é só um detalhe, uma vez que Moreira César não conhecia as vítimas, nem contra elas tinha qualquer desafeição ou motivo para temê-las ou odiá-las. O fato de elas permanecerem vivas e livres não o prejudicava.

        Ele não teria vantagem com a sua morte violenta, antes dificultaria a sua missão, geraria ressentimentos, reduziria a cooperação dos catarinenses, além de lhe causar problemas com os seus superiores. Essas execuções eram ilegais e arruinariam sua carreira. Mas ninguém pensou nisso!

Em Niterói, onde a sua intervenção rápida e equilibrada evitou um grande conflito, ele ganhou um elogio extremamente honroso de uma lenda do exército brasileiro: o Barão do Rio Apa, o Marechal Augusto Eneas Galvão, ministro da Guerra na ocasião, teve o seu nome retirado de uma das ruas da cidade. Os niteroienses não precisam mais se lembrar dele, mas o que ele fez pela cidade e pelo Estado entre os dias 14 e 15 de dezembro de 1892, pelo qual foi elogiado, ainda não foi apagado da história. Que os niteroienses não percam as esperanças.

Eis a citação de Eneas Galvão.

“Sr. ajudante-general, declaro-vos em nome do sr. marechal vice-presidente da República, que deve ser louvado o coronel comandante do 7º BI, Antônio Moreira César, pelas providências acertadas que deu na noite de 14 e na manhã de 15 do corrente, com o fim de restabelecer a ordem pública alterada na cidade de Niterói e debelar a revolta do Regimento Policial do Estado do Rio de Janeiro.”

Por que ele ficou assim marcado?

Uma explicação possível talvez nos venha do livro do escritor gaúcho Tabajara Ruas, A cabeça de Gumercindo Saraiva, no qual ele narra a tentativa de aprofundar pesquisas sobre as degolas na Revolta Federalista com os descendentes dos envolvidos. Ninguém quis ajudá-lo, seja pelo horror dos fatos, seja por receio de retaliações, afinal, esses crimes hediondos envolveram membros de famílias poderosas no Estado. Ponha-se uma pedra em cima.  

No Paraná, a discussão sobre os massacres, e em especial a morte do Barão do Cerro Azul e seus companheiros, no km 65, emperra na responsabilidade dividida do presidente civil do estado, Vicente Machado, e na do General Raimundo Ewerton Quadros.

Em Santa Catarina também havia famílias importantes que se posicionaram decididamente a favor de um lado ou de outro e, no calor dos combates, da mesma forma que no Paraná e no Rio Grande, deram causa a excessos, que podem ter deixado feridas abertas e estremecimento nas relações.

Deve ter sido um alívio, para alguns, quando, em 1902, houve o lançamento bem-sucedido de Os sertões, falando de um César que ninguém conhecia, apresentando-o como o culpado máximo e solitário por tudo que acontecera. Como muitas pessoas ainda estavam desaparecidas, por comodidade e estratégia, acabaram todas na conta do coronel: os falecidos na ocasião, os falecidos em passado remoto e os a falecer no futuro. Velhos inimigos poderiam agora se olhar sem ‘contas em aberto’.

        Vimos também como os principais jornais de Desterro/Florianópolis se posicionaram acerca do coronel Moreira César, com o República, de cunho florianista, se derramando em elogios a César, e O Estado, federalista, com uma abordagem discreta, mas nunca o acusando de mortes ou abuso de autoridade.

Essa situação, porém, começa a mudar paulatinamente nos aniversários seguintes da morte de Moreira César.

Em 1898, a data do primeiro ano de sua morte coincidiu com a publicação dos resultados da eleição do sucessor de Prudente de Morais, e nesse momento só o República estava circulando, pois O Estado sofrera um empastelamento. O República efetua uma minuciosa cobertura das eleições e não faz referência ao aniversário de morte de Moreira César.

Em 1899, no segundo aniversário, há uma mudança de cento e oitenta graus:

O Republica traz um artigo de primeira página informando sobre a cerimônia religiosa que aconteceu em Florianópolis, rememorando o evento, citando somente uma vez o nome de Moreira César, numa situação em que era quase impossível não o citar. Nessa missa, e em outras rezadas em Santa Catarina, havia uma grande afluência de povo e autoridades, citadas nominalmente, algo incompreensível para uma pessoa supostamente envolvida em crimes tão graves.

O Estado, de volta, também publica uma matéria estritamente informativa sobre a solene missa pelos falecidos da 3ª Expedição na primeira página, mas abre a segunda página para um elogio que antes só se veria no velho República. O título é CANUDOS; abre-o com um poema de Gavroche — possivelmente Arthur Azevedo:

Era tão bravo e valente, / Era tão guapo e tão forte, / Que ainda depois da morte, / Mete medo a muita gente.

        É um jornal FEDERALISTA falando de Moreira César:

“Quando o Brasil ansiava pelo resultado da expedição M. César… um grito de dor, de angústia, vimos sair…

Longe daqui, naquele sertão árido… — Ele — o republicano sem jaça, o soldado que pela predestinação de talento e bravura fora fadado às eminências, o homem de olhar de águia rasgando as nuvens do impossível, morreu.

Historiar a vida de tão grande homem… não é o que nos propomos.

Moreira César!

O teu nome indelével perdurará sempre na memória desta mocidade e será o exemplo de civismo e de bravura para as gerações seguintes.

É a ti, mocidade… a quem concito neste momento augusto a prantear tão ilustre morto.

A. Franco.”

Eis uma completa inversão ou, como diria Cunha: transmudação! Enquanto os florianistas tratam a data de uma forma fria e burocrática, os federalistas fazem-lhes homenagens tocantes, como se Moreira César fosse um dos seus, mas como o jornal federalista encerra as suas atividades em 1902, nada mais podemos afirmar a respeito. Um novo jornal, com o mesmo nome, foi fundado em 1915, mas com outra linha editorial.

A história seguiu. Em 27 de setembro de 1934, no Governo Provisório de Getúlio Vargas, foram exumados, em Florianópolis, os supostos restos mortais de pessoas supostamente fuziladas em Anhatomirim, com seus restos depositados em quatro urnas, a serem transportadas solenemente para o Rio de Janeiro, no navio hidrográfico Calheiros da Graça.

        O antigo jornal florianista República ainda existia e, na sua edição de 30 de setembro de 1934, falou sobre o assunto de maneira vagamente informativa, circunstancial, mas nada esclareceu sobre o conteúdo das urnas. Um de seus 'bravos' articulistas caricaturizou uma grave acusação contra Moreira César:

       “Os fuzilamentos aqui foram feitos alta noite, covardemente, arrancadas de suas casas as pobres vítimas eram encarceradas, ninguém sabia aonde [Desterro devia ser uma metrópole imensa, disfarçada numa cidadezinha de 31.000 habitantes], e passadas pelas armas… pelos soldados do sanguinário Moreira César, alguns deles, como… o saudoso Caetano Moura, foram embarcados pela manhã. Os parentes desse saudoso patrício ainda tiveram tempo de levar-lhe a bordo roupas e dinheiro, mas poucos momentos depois desembarcava ele em Santa Cruz para a morte… ao verem essa hedionda carnificina, os revolucionários… escondiam-se.”

        Se eu não fosse tão endurecido pela vida ou não conhecesse essa história, acho que iria às lágrimas. O jornal, que no passado, derramava-se em elogios a Moreira César, enquanto atacava desabridamente os federalistas, ataca o ídolo falecido e se cobre de pena pelos federalistas, sem que nenhuma de suas páginas, na época em que esses ‘crimes’ aconteceram, citasse qualquer anormalidade.   

Não falo mais de Caetano Moura!

        Curioso é que, embora escondidos, os revolucionários viam essa hedionda carnificina feita altas horas, onde ninguém sabia! Repete o relato mambembe de navios da marinha fazendo meia-volta-volta-e-meia no meio do mar, tudo “descoberto” depois que Moreira César estava morto. Somos provocados a perguntar: por que os revolucionários que sobreviveram, escondidos, não o denunciaram no governo de Prudente, quando havia plena liberdade para isso, e só o fizeram depois, à sombra das ambiguidades de Euclides da Cunha? O autor “disso”, fazendo como os “valentes”,  assina somente “um catarinense”. Mas não faria nenhuma diferença se assinasse “um marciano” ou “um lunático”.

        É curioso ver essa mudança quando lemos as pequenas notícias e editoriais do República na época desses  “dramáticos” acontecimentos, e percebermos uma disposição bem diferente em relação aos federalistas. Num editorial em 24 de fevereiro de 1895, p. 2, o jornal se regozija com o início dos julgamentos dos federalistas que haviam escapado à punição do coronel.

“O dever de todos aqueles cujo patriotismo é patente, consistia somente em pedir o início do processo contra os revoltosos que, antes dele, afrontavam a opinião pública…

Como republicanos, não admitíamos que criminosos confessos permanecessem entre nós gozando de uma impunidade que ofendia a lei… [o Procurador não podia ficar] inerte diante dos criminosos que mereciam punição imediata…

Nos era impossível assistir à impunidade de nossos algozes [os federalistas dominaram Santa Catarina por um tempo], que até há poucos dias, estavam na posse de uma liberdade criminosa e injustificável.”

Pelo texto acima, vê-se que os acusados estavam todos vivos e presentes nas redondezas ou ao alcance dos olhos da justiça, que, pelo menos nesse caso, não cometeu o disparate de denunciar e condenar pessoas mortas, como afirmou uma 'pesquisadora'.

        Ou ainda nessa edição de 9 de junho de 1897, onde acusa os federalistas de serem restauradores enquanto se coloca contra o presidente Prudente de Morais.

“O jornal da oposição [O Estado], que tem feito papéis dos mais degradantes, que tem mudado de cor como o camaleão, para mais facilmente iludir… não passa de refinado explorador, de reles politiqueiro… a ninguém deve ter escapado o programa interesseiro, hipócrita, bajulador do nosso adversário.

[A] reação restauradora do 6 de setembro [início da Segunda Revolta da Armada], iniciada por esses [os federalistas de O Estado] que hoje, ao lado do atual presidente da República [Prudente], dirigem o país, auxiliados pelos que não tiveram repugnância em firmar aliança com o elemento restaurador, para trabalharem pela ruína da pátria.”

        E esses são editoriais da época em que a luta armada havia cessado. Imagine-se o nível de linguagem no momento do conflito. Eu os li e atesto: eram terríveis, e quem tiver interesse procure na hemeroteca catarinense os números desse período, que estão disponíveis na Internet. Imaginar que, 40 anos depois, esses homens estariam denunciando as injustiças contra os federalistas, quando, se dependesse deles na época de Moreira César, não escaparia um!

        Pois bem, a estranha aventura do Calheiros da Graça continuou na sua chegada ao Rio de Janeiro.Pelo jornal O Paiz, de 28 de setembro de 1934, sabemos que o navio era esperado no Rio daí a 4 dias, algo como 1 ou 2 de outubro; entretanto, algo misterioso aconteceu, e a edição de 30 de setembro traz a seguinte notícia:

Ancorou em nosso porto, ontem [dia 29], inesperadamente [meu destaque], às 14 ½ horas, o navio hidrográfico Calheiros da Graça… trazendo a seu bordo as urnas funerárias que contêm os despojos dos fuzilados em Santa Catarina, por ocasião da revolta da esquadra em 1893.

        Parece que alguém não queria publicidade.

Uma foto do jornal Diário de Notícias mostra 2 soldados carregando uma das urnas, uma espécie de meia pirâmide, afunilada embaixo, cujo lado media cerca de 70 cm. Se fossem 40, por exemplo, os exumados, teria de haver cerca de dez em cada urna; se fossem 80, haveria vinte! Como couberam? O mais normal seria uma pessoa por urna! Por que misturar os ossos? Mas há outros mistérios:

1º — Não se sabe exatamente de onde esses ossos foram retirados. Não há informações nem fotos das exumações. Disseram que foi de Anhatomirim.

2º — Os jornais não dizem se foi feita uma perícia nos ossos.

3º — Segundo uma fonte, as urnas foram entregues já lacradas pelo comandante militar da ilha de Anhatomirim, dizendo que os ossos foram retirados de lá. Não sabemos quantos corpos foram exumados.

4º — Por não serem feitas as perícias costumeiras, não sabemos se há marcas que comprovem fuzilamento ou se eles pereceram de outra maneira, ou se esses ossos datam realmente do período do suposto massacre. Hoje, por meio da genética, daria para saber se são ascendentes de pessoas ainda vivas. Faremos um dia esses testes?

5º — Li em algum lugar que essas urnas teriam sido tiradas de Anhatomirim em 1913 e levadas para o cemitério de Florianópolis, antes da transferência para o Rio. Nenhum dos jornais de 1934 mencionou isso. Por que tudo o que envolve essa ilha fica sempre numa zona cinzenta de mistério? Visível o bastante para ser utilizado seletivamente, mas escuro o suficiente para não sabermos com o que estamos lidando.

Eduardo Simões

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E 

CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 14

(mudei o subtítulo)

Os seus contemporâneos o conheciam

        Até Os Sertões de Euclides da Cunha, em 1902, Moreira César era muito admirado no Sul. Em 1885, quando ele foi transferido para Jaguarão, numa aparente punição política, por causa do seu envolvimento com o republicanismo, um jornal de Porto Alegre o recepcionou com esse texto reproduzido pelo general Ferraz, nº 639, p. 50.

“Acha-se nesta cidade, de passagem para Jaguarão, o distinto capitão… Antônio Moreira César, um dos oficiais que mais se têm interessado pela “questão militar”… há pouco transferido… para o 3º Batalhão de Infantaria.

O capitão César tem curso completo do estado-maior de 1ª classe e é um moço que, pelos seus conhecimentos e pela sua inteligência, deve ter um futuro brilhante na carreira das armas.”

Lá, enfrentando um exílio político, ao invés de se remoer em mágoas, como um coitadinho, por uma suposta injustiça sofrida — como Floriano Peixoto, Antônio Conselheiro, Arthur Oscar, Cunha Mattos — desdobrou-se na construção de um cordão sanitário na fronteira com o Uruguai, que nesse momento, 1886, enfrentava uma epidemia de varíola. Aí ganhou mais uma menção honrosa. Diz o general Ferraz (27):

“Em Jaguarão… Moreira César recebe um elogio em que são exaltadas a atividade, a lealdade… em serviço do cordão sanitário, ainda mesmo com sacrifício de sua saúde. 

        O jornal República publicou, ao final de seu mandato como governador provisório, um editorial altamente elogioso. O editorial chamou-se “ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA” e saiu no dia 28 de setembro de 1894 (28).

       Nessa edição veio um poema que mostra bem a intensidade e a qualidade dos sentimentos que despertava na população local. Eis alguns versos.

“A TIRE D’AILE [de repente]

Ao coronel Moreira César/ Ilustre cidadão, patrício abnegado, / .... / A lei, a liberdade, eis os vossos ideais, / Trabalhar pelo bem, com toda lealdade, / Querer que a pátria goze as florações da paz, / E lance sempre ao mundo enorme claridade.

Eis toda a aspiração sincera, proveitosa, / Daquele cujo nome, nobre, tão subido, / Está gravado, eterno, na alma generosa / Do povo desta terra, sempre agradecido [os destaques são meus].”

        E o que os federalistas dizem? No seu jornal, O Estado, de 5 de novembro de 1896, poucos dias após a partida de César para o Rio de Janeiro, eles fazem uma comparação entre a sua administração e a de Hercílio Luz.

Sua Excelência [Hercílio Luz] assumiu a administração do Estado em fins do ano de 1894, substituindo o sr. Coronel Moreira César, que esteve no governo apenas 6 meses, deixando nos cofres do Tesouro um saldo de 200 contos de réis aproximadamente [exatos 210 contos e 800 mil réis (210 milhões e 800 mil réis), comparados aos 480 mil réis, que ele encontrou quando assumiu], estando todos os servidores pagos em dia”        

Nesse período, já estava claro o fosso que se abria entre Moreira César e os florianistas, devido ao seu apoio à normalidade democrática, representada pela posse de Prudente de Morais, confirmado, mais tarde, pela sua recusa em apoiar o plano de golpe do vice Manuel Vitorino. Prudente chamou-o ao Rio, às vésperas de entrar de licença-saúde, como uma garantia contra o golpismo difuso, pois todos sabiam que ele, com o 7º B.I., resistiria. A certeza da guerra civil paralisava os conspiradores.

        A fama de seus feitos em Santa Catarina ultrapassou a fronteira do estado. No dia 11 de novembro de 1894, o jornal República publicou uma singela notícia, com o nome CORONEL CESAR, reproduzindo trecho do jornal pindamonhangabense Gazeta Semanal, sobre o reconhecimento dos catarinenses ao trabalho do coronel e uma iniciativa de homenagem a ele, proposta pela Assembleia Legislativa do Estado.

“Segundo acabamos de ler na República [de Santa Catarina] … o nosso ilustre conterrâneo Antônio Moreira César, ao deixar o governo daquele estado, no dia 28 de setembro próximo passado, foi alvo de diversas demonstrações de apreço…

No mesmo dia 28… o congresso daquele estado aprovou por unanimidade de votos o seguinte requerimento, apresentado e fundamentado pelo sr. Deputado Emilio Blum…

‘Requeiro que seja considerado um voto de louvor ao digno coronel Moreira César, bem como seja nomeada uma comissão para redigir uma mensagem que lhe seja dirigida, em agradecimento aos relevantes serviços prestados neste estado.'”

      O jornal de Pindamonhangaba também faz referência ao editorial do República de 29 de setembro de 1894, chamado CORONEL CÉSAR, que diz o seguinte:

“Militar disciplinado e distinto, patriota decidido e abnegado, o coronel César deixa na pátria catarinense um sulco luminosíssimo que jamais se apagará.

Em cada dia de sua honesta e isenta administração… o ilustre militar… deixou um capítulo cheio de proveitosas lições e feracíssimos exemplos.

O militar, portanto… acaba de revelar-se administrador — modesto, correto e honestíssimo, sem outra preocupação a não ser o bem público.

E, como o Nilo, que deixa no solo árido do Egito, os fermentos de uma vida nova e a fertilização dos campos, o coronel Moreira César deixa na pátria catarinense fecundos e proveitosos exemplos de disciplina, honestidade e civismo.

     Nesse mesmo jornal, numa seção chamada SOLICITADAS, em um texto chamado também CORONEL MOREIRA CÉSAR, assinado por “alguns paraibanos”, aparece mais um superlativo elogio (29).

        COMO É QUE UM HOMEM QUE FAZ AS MALDADES QUE DIZEM QUE ELE FEZ SAI COM TODO ESSE PRESTÍGIO, AO INVÉS DE TER O POVO NAS RUAS PROTESTANDO CONTRA A SUA PRESENÇA?

        Fomos enganados todo esse tempo?

segunda-feira, 18 de maio de 2026

 O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA (mudei subtítulo) Fontes - 2


Trecho do jornal Gazeta de Notícias de 14 de abril de 1897.


Mesmo assunto tratado pelo jornal O Paiz de 15 de abril de 1897.

As perguntas que não querem calar são as seguintes: 

Por que a 3ª Expedição, que justamente foi a mais estranha, trágica e famosa, além da que mais dúvidas deixou, é justamente aquela da qual se tem menos informações oficiais e documentos, para confirmar ou desmentir a montanha de questionamentos graves que ficaram sobre ela?

Onde estão os resultados desse inquérito? Sabemos que o tenente Pradel de Azambuja fez acusações gravíssimas sobre o major Cunha Mattos, que comandou a desastrosa retirada final da tropa; por que eles não foram confrontados? E se o foram, cadê os resultados? O que foi colhido nesse inquérito? Vários oficiais do estado-maior de Moreira César que escaparam vivos negaram veementemente que os fatos tenham ocorrido como o relatório (parte) do major Cunha Mattos os apresenta — nesse relatório, o coronel Moreira César é apresentado como um comandante errático, desequilibrado e até epilético, a base para as futuras calúnias e mentiras de Euclides da Cunha contra o coronel. No entanto, o relatório Cunha Mattos foi logo transformado em oficial. Por quê? Por que os outros oficiais não foram escutados?

Será que, depois de mais de cem anos de supostas pesquisas, nós teremos ainda alguma grande surpresa sobre Canudos? Da parte do Exército, haverá surpresas?


 Segundo o cálculo dos economistas, é com esse tamanho que os guarda-chuvas vão ficar após a CRISE FISCAL esperada para  2027. De resto, somos mestres em dançar na vida. Nem precisa ensaio.

DIANTE DA CRISE FISCAL INEVITÁVEL, A SOLUÇÃO VIRÁ DAS URNAS!

PROJETO PATRIÓTICO DA DIREITA (flavio bolsonaro) PARA ENFRENTAR A CRISE: “Vote em mim, que eu sou o único que pode impedir a reeleição do lula e que meu irmão, nos Estados Unidos, tenha que trabalhar".

PROJETO SALVACIONISTA DA ESQUERDA (lula da silva) PARA ENFRENTAR A CRISE: “Se você tem dívida, não se preocupe, que eu vou pagá-la com o dinheiro de todos, inclusive o seu. Menos o meu.”

JÁ É A TERCEIRA ELEIÇÃO QUE VAMOS ESCUTAR COISAS DO GÊNERO. E ainda não brochamos! Como naquele novo slogan nacional, puxado pelo presidente presidiário, justo nas comemorações do 7 de setembro,  para provocar seu rival ex-presidente ex-presidiário…

O nome disso é NAÇÃO FALIDA, e quem ainda não percebeu está mais falido do que ela, ou tem interesses ou vai para o céu. Quem não quer ir?

domingo, 17 de maio de 2026

 

PÍLULAS DA SUMA TEOLÓGICA DE SÃO TOMÁS DE AQUINO - 1

É necessário, ou não, que além da filosofia, haja outra doutrina?

Diz 2 Timóteo 3:16: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça.” Ora, a Escritura divinamente inspirada não se enquadra no âmbito das questões filosóficas, visto que estas são produto exclusivo da razão humana. Segue-se, então, que faz sentido que, além das questões filosóficas, exista outra ciência divinamente inspirada. 

Solução: Deve-se dizer: Para a salvação da humanidade, era necessário que, além das questões filosóficas, existisse outra ciência cujo campo a razão humana pudesse analisar, cujo critério fosse a revelação divina, este seria o caso. Isso porque Deus, como o fim para o qual a humanidade se esforça, transcende a compreensão que a razão sozinha pode alcançar. Isaías 64:4 diz: “Deus, ninguém viu o que preparaste para aqueles que te amam, nem mesmo tu.” O fim precisa ser conhecido pela humanidade para que ela possa direcionar seus pensamentos e ações para ele. Portanto, para sua salvação, a humanidade precisava da revelação divina para conhecer o que não podia apreender apenas por meio de sua própria razão humana. Além disso, o que a razão humana sozinha pode compreender sobre Deus também requer revelação divina, visto que, apenas com a razão humana, a verdade de Deus seria conhecida por poucos, após muita análise e com resultados repletos de erros. Contudo, a salvação completa da humanidade depende do conhecimento preciso da verdade de Deus, pois a salvação se encontra em Deus. Assim, para a salvação alcançar a humanidade com mais facilidade e segurança, era necessário que as pessoas fossem instruídas sobre o divino por meio da revelação divina. Disso tudo decorre que, além dos temas filosóficos, resultados da razão, deve haver uma doutrina sagrada, resultante da revelação.

Resposta às objeções: 1. À primeira, deve-se dizer: O homem não deve analisar apenas com suas faculdades naturais o que excede ao seu entendimento; porém, o que o excede foi revelado por Deus para ser aceito pela fé. Por isso, o texto continua (v. 25): “Muitas coisas vos foram mostradas que estão acima dos homens.” A doutrina sagrada se concentra nessas coisas. 2. Sobre o segundo ponto, devemos dizer: diferentes formas de conhecimento correspondem a diferentes ciências. Por exemplo, tanto o astrólogo quanto o físico podem concluir que a Terra é redonda. Mas enquanto o astrólogo deduz isso por meio de algo abstrato, a matemática, o físico o faz por meio de algo concreto, a matéria. Portanto, nada impede que as mesmas coisas se situem no âmbito das questões filosóficas, sendo conhecidas pela simples razão natural, e, ao mesmo tempo, no âmbito de outra ciência cujo modo de conhecimento se dá pela luz da revelação divina. Disso se segue que a teologia, que estuda a doutrina sagrada, é por sua própria natureza distinta da teodiceia, que é considerada parte da filosofia.

A doutrina sagrada é uma ciência?

É preciso dizer: a doutrina sagrada é ciência [na concepção aristotélica de ciência, um pouco diferente da atual]. Existem dois tipos de ciências. 1) Algumas, como a aritmética, a geometria e outras semelhantes, deduzem suas conclusões de princípios evidentes à luz do entendimento natural. 2) Outras, por outro lado, deduzem suas conclusões de princípios evidentes à luz de uma ciência superior. Assim, a perspectiva, que se baseia nos princípios fornecidos pela geometria; ou a música, que se baseia nos fornecidos pela aritmética. Neste último sentido, diz-se que a doutrina sagrada é ciência, visto que extrai suas conclusões de princípios evidentes à luz de uma ciência superior, isto é, a ciência de Deus e dos santos. Assim, da mesma forma que a música aceita os princípios fornecidos pelo matemático, a doutrina sagrada aceita os princípios fornecidos por Deus por meio da revelação.

Resposta às objeções: 1. À primeira, deve-se dizer: os princípios de qualquer ciência são ou autoevidentes ou se reduzem aos fornecidos por uma ciência superior. Estes últimos são os princípios próprios da doutrina sagrada, como já foi dito (solução). 2. À segunda, é preciso dizer: os eventos específicos que aparecem na doutrina sagrada não são tratados como o objetivo principal, mas como exemplos a serem imitados, como ocorre na moral. Ou para declarar a autoridade daqueles homens por meio dos quais a revelação divina, fundamento das Escrituras ou da Sagrada Doutrina, nos foi transmitida.

Nota (dos dominicanos espanhóis)

São Tomás de Aquino adota a afirmação aristotélica, um ditado comum entre os escolásticos, *de ​​​​singularibus non est scientia* [o singular, o específico, não é ciência, coisa difícil de ser entendida hoje, quando muitos, especialmente os marxistas, querem a partir de um único exemplo somente tirar todas as conclusões possíveis ou além], que se refere à ciência propriamente dita, ou ciência especulativa, e não à ciência prática, como indica a resposta ao se referir a exemplos de conduta moral. Contudo, o conteúdo desse ditado fala de singularidade quando, na realidade, a exigência inescapável para a ciência é antes a necessidade. O importante na demonstração científica, característica da teoria aristotélica, é que, partindo de certas verdades presumidas como conhecidas, isto é, de princípios, procede-se num necessário processo dedutivo ao conhecimento de outras verdades, que serão as conclusões. A necessidade é, portanto, um aspecto essencial do processo. Em outras palavras, a inteligibilidade postula um afastamento do contingente e uma proximidade ao necessário. Mas sempre que a singularidade for compatível com a necessidade de alguma forma, a ciência poderá existir, mesmo de realidades singulares. A teologia, ciência da fé que procede da fé, segue e imita o conhecimento de Deus. Mas Deus conhece a si mesmo, e Ele é o único objeto essencial do seu conhecimento. Tudo o mais [a história de Israel ou da Igreja, por exemplo] é apenas um objeto secundário, e somente na medida em que se relaciona com Deus. Os artigos de fé que dizem respeito às criaturas e, dentro delas, às circunstâncias históricas, são objetos de fé apenas na medida em que acrescentam algo a Deus (secundum quod eis aliquid veritatis primae adiungitur: De verit. q.14 a.8 ad 1) [“conforme algo da Verdade Primeira lhes é acrescentado”. O fato de o Antigo Testamento não falar dos dinossauros não tira nem acrescenta nada ao que as Sagradas Escrituras revelam de Deus]. Mas essas pessoas ou eventos, contingentes em si mesmos, possuem algo de eterno, algo de necessário e algo de verdade imutável, na medida em que são afetados pela decisão de Deus e pelo conhecimento de Dele, que delas procede. Diante dos eventos da História Sagrada, São Tomás, mesmo partindo de termos inspirados na epistemologia aristotélica, não se posiciona como Aristóteles. Para ele, a natureza temporal e singular do objeto da fé, enquanto tal, é acidental à própria fé. Os eventos interessam enquanto se relacionam com a Primeira Verdade.