Não podemos fugir das
nossas escolhas, elas são a nossa história.
O coronel Moreira César
estava surpreso e preocupado. Os últimos dois anos e meio, ele passara em Santa
Catarina, e não acompanhara as mudanças ocorridas no Rio de Janeiro, em
especial a intensa polarização política nos quartéis. Ele mesmo enfrentava situações
constrangedoras com colegas tentando cooptá-lo para propostas de ditadura
militar e a militarização da República.
Descartou-as todas,
cada vez mais decidido a defender o projeto de república que sempre acalentou
para o Brasil: democrática, civil e governada pelas leis. Mas ele sabia que
oficiais e soldados do seu batalhão, inclusive do seu estado-maior, estavam sob
ataque direto de propagandistas apaixonados e bem colocados, e vários davam
sinais de que se deixavam levar pelo canto das sereias. Ele apertou a
disciplina e tentou uma convivência mais próxima com os antigos membros e os de
patente mais alta, recentemente adicionados ao grupo, mas não tinha certeza se
estava funcionando.
Ele estava nesse
momento quando recebeu um bilhete solicitando a sua presença urgente no
Quartel-General do Exército. Arrumou-se e foi. Lá o esperavam o ministro da
Guerra, Argolo, e o chefe do Estado-Maior, Costallat, as duas maiores
autoridades militares do país; dois convictos florianistas. A simpatia com que
o receberam chamou-lhe a atenção.
Bernardino de Campos
apareceu de surpresa na casa onde Prudente convalescia, em Petrópolis, mas
passar por Dona Adelaide não era fácil.
— Bernardino, por
favor! — dizia ela, tomando ares de cansada.
— Adelaide, eu não
viria se não fosse coisa séria.
— Vocês precisam
entender: ele é só o presidente do Brasil, não é Deus nem Matusalém, e, se não
for deixado em paz para se restabelecer, nem presidente ele será mais.
— Você está pronta para
encarar a decepção dele quando souber que essa informação lhe foi sonegada por
sua própria esposa?
— Ave, Bernardino, você
está argumentando como uma velha mexeriqueira. Vamos vê-lo antes que você vire
uma e a sua esposa nunca mais me perdoe. Meu marido, às vezes, não é fácil, mas
os amigos, às vezes, são menos ainda.
Enquanto se dirigiam
aos aposentos de Prudente, Bernardino continuou tentando 'amansar' a vigorosa
guardiã.
— A república não sabe
a sorte que tem por nosso presidente estar nas mãos de alguém como a senhora.
— Não me bajule,
Bernardino!
— Bajulá-la? A senhora
está muito acima disso e mesmo dos mais etéreos e formidáveis elogios!
Ela parou, pôs as duas
mãos na cintura, fez uma cara de séria, e já ia falar quando ele pôs o
indicador nos lábios e disse:
— Shhh! Ele pode estar
dormindo! Chegaram ao quarto do doente. Ela arregalou o senho e já ia responder
quando ele, vendo Prudente acordado, foi entrando.
Prudente estava pálido,
de pijama, apoiado por travesseiros no encosto da cama. Bernardino, vendo-o,
ficou penalizado; estava tão magro e tão pálido. Já o vira outras vezes
convalescente, e até em estado pior, mas não podia deixar de se emocionar com a
cena, afinal eram amigos desde os tempos da faculdade, quando eram jovens
inconsequentes, cheios de sonhos, de saúde e de uma vitalidade que parecia
eterna!
— Já tão cedo, meu
amigo! Que bom recebê-lo! Vamos encurtar mais vezes o tempo entre uma visita e
outra.
— Quem me dera, mas
você vai ter que acertar com ela. Apontou com o polegar para Adelaide, de pé
atrás dele.
Ela aproveitou.
— Fiquem aí fofocando,
mas não se animem, pois volto logo, e sei que Bernardino é um amigo MUITO
compreensivo. Os dois riram.
— Você está preocupado,
Bernardino. O que foi?
— O Vitorino vai
despachar o Moreira César para a Bahia.
Prudente empalideceu.
Ainda mais.
— Mas, por quê?
— Tem uma comunidade
lá, ou um covil de bandidos, para os lados de Juazeiro, que já derrotou duas
expedições militares; a última armada com canhões! Moreira César vai comandar a
terceira.
— Lembro que o Dionísio
despachou uma pequena tropa para lá. Nem disso o Vitorino dá conta! Mas por que
mandar um batalhão do Rio de Janeiro, com uma despesa enorme de transporte e
manutenção, e soldados desambientados, para lutar a quase dois mil quilômetros
de distância, quando o 2º Distrito Militar, em Recife, e o 3º, na própria
Salvador, estão a poucas centenas de quilômetros? Eles não têm tropa para fazer
isso?
— Têm. Mas você sabe o
porquê de ele ter tomado essa iniciativa!
— Sim. Ele está preparando o caminho para o golpe, diz Prudente.
— E não tem nada que possamos fazer. O caminho do golpe ficará desimpedido.
— Golpe? Que golpe? Diz Dona Adelaide, entrando de novo no quarto.
— Golpe? Ah, sim! Golpe de ar. Atente bem, meu amigo, conserta Bernardino,
cuidado com golpe de ar!
— Quem te conhece! Eu
que me cuide dos seus golpes, senhor Bernardino. Mas agora vá, Bernardino, que
a Francisca e os seus filhos devem estar ansiosos para vê-lo novamente.
— Eu sempre digo que,
se não fosse a senhora, a República estaria perdida, diz Bernardino. Até mais
ver, meu amigo. Adelaide, dê um beijo nas crianças.
— República? Eu nem
sabia que essa senhora já tinha sido encontrada, em meio a tanta confusão!
Quanto ao beijo, eu o darei, mas com certeza não será no rosto, posto que eu já
não os alcanço. Dê lembranças minhas à Francisca e aos seus.
Acompanhou-o à porta e
nem se preocupou em apertá-lo por mais informações, pois sabia como
consegui-las direto do marido; mesmo sem falar abertamente sobre um assunto,
ela intuía o que ele sabia, inclusive o que não era conveniente saber, e não
raro o fazia crer que sabia bem menos do que realmente sabia.
Prudente estava mudo,
olhando o vazio, preocupado. Ela sentou-se ao lado dele.
— Está preocupado, não
é? Bem que eu não queria deixá-lo entrar. Acalme-se, tenha fé em Deus que tudo
se arrumará.
— Cada vez mais, só
temos a ele. Vamos rezar um terço a Santo Antônio, para um amigo que está em
grande perigo, por minha causa. E por mim também.
Quando Moreira César
chegou ao morro de Santo Antônio, já era tarde danoite. Estava calado e
pensativo. Entrou em casa, considerou ligar um ponto de gás, mas não o fez;
deixou-se ficar no escuro, na sua cadeira de balanço, remoendo o que acabara de
ouvir.
Conseguira fugir do
cabuloso convite de Floriano para uma missão fora do Brasil, mas não tinha como
evitar essa estranha missão no interior da Bahia, por mais que tentasse. O peso
das duas maiores patentes do Exército, sem falar do presidente da República, o
obrigou a aceitar. Como escapar disso?
Não faz sentido apelar
para uma tropa a quase dois mil quilômetros de distância, perder dinheiro e
tempo tentando adaptá-la a um novo ambiente, quando Recife estava a pouco mais
de 600 quilômetros e Salvador a pouco mais de 400, com tropas suficientes e aclimatadas
— o escritor militar e combatente da 4ª Expedição, tenente Henrique
Duque-Estrada de Macedo Soares, em A Guerra de Canudos, 1ª edição, Typ. Altina,
Rio de Janeiro, 1902, p. 20, confirma: "O coronel Moreira César… aceitou,
não sem objeções, a incumbência".
Ele foi constrangido a
aceitar o comando dessa expedição sem sentido.
Tampouco fazia sentido
a conversa de um levante monarquista, com abundante fornecimento de armas e
assessoria militar estrangeira, numa das regiões mais isoladas e inóspitas do
país. Como os conspiradores mandariam armas em quantidade e consultores militares
para uma região tão remota, sem dar na vista? Ele conhecia o semiárido e a
Bahia, e sabia como as distâncias eram enormes e o povo, cultural e
fenotipicamente, muito homogêneo. Estrangeiros logo seriam percebidos. Que
dizer da fortuna gasta em trazer armas da Europa para utilizá-las nas
profundezas do sertão baiano? E se o objetivo fosse levantar multidões e
angariar recursos para a causa, por que iriam para uma região tão escassa de
gente e de recursos?
Quem tiver conhecimento
das distâncias e condições no interior desse Brasil continental, vê logo que
isso é um engodo. Infelizmente, pouquíssimos brasileiros conheciam o Brasil, e
isso perdurará até metade do século seguinte. O povo da rua do Ouvidor, as
massas nas grandes cidades e mesmo a classe média ignoravam, mas Moreira César
não, nem os comandantes do Exército. Então, por que insistiam? Mas ele também
percebeu que a decisão já estava tomada e só havia uma coisa a fazer: encerrar
quanto antes a campanha e voltar para garantir o mandato de Prudente de Morais.
No dia 3 de fevereiro
de 1897, ele acordou com o toque de alvorada, cheio de pressentimentos, mas, à
medida que se barbeava e se vestia, seu espírito se revigorava. De fora vinham
os ruídos, sempre num crescente, a que ele se habituara e que agora faziam todo
o seu corpo relaxar e sentir-se bem. O entrechoque de metais, o barulho dos
cascos de cavalos, o vozerio crescente dos soldados praguejando, rindo alto,
provocando-se mutuamente, etc. Aquilo tudo lhe deu um grande ânimo, e a
natureza do desafio, uma nova missão, encheu-o de gás e de um tolo otimismo. O
que quer que estivesse acontecendo no interior da Bahia, ele logo descobriria e
o encerraria.
Pôs os últimos
apetrechos em sua mala, entregou-a à ordenança e ficou esperando o aviso dos
oficiais. Vieram avisá-lo de que a tropa estava pronta. Ele ajeitou a espada,
pôs o quepe e dirigiu-se para a porta do pátio. À sua vista, um oficial berrou:
— Sentido!
Todos se perfilaram, e
seguiu-se um silêncio expectante. Era uma força de combate formidável,
resultado do seu empenho e capricho minucioso. Perfeitamente fardados,
alinhados e garbosos, orgulhosos do que eram; uma extensão da personalidade de
seu comandante. Olhou para o grupo de oficiais do estado-maior, perfilados ao
lado de seus cavalos. Deteve o seu olhar; alguns desviavam o rosto. Ele sabia
que alguns ali não compactuavam com os seus valores. 'Ossos do ofício', pensou.
Esperava conquistá-los
durante a campanha ou talvez a própria campanha fizesse isso por ele. Na dureza
dos combates, os soldados viravam irmãos. “Vamos resgatar a fraternidade e a
amizade invencível que sempre foi o espírito do 7º Batalhão de Infantaria”,
disse aos oficiais.
Dirige-se ao seu
auxiliar imediato, o major Cunha Mattos, e encara-o firme. Cunha Mattos sacode,
nervoso, a cabeça.
— Tudo em ordem, major?
— Sim, coronel!
Ele monta o cavalo,
seguido pelo estado-maior. Gira para o portão e, com um movimento do braço,
aponta a saída. A banda começa a tocar, e o 7º, num ritmo de marcha perfeita,
faz uma curva no portão para descer a ladeira do morro de Santo Antônio, rumo
ao centro do Rio de Janeiro.
Ao ouvir o som da
banda, as pessoas que estavam em casa, em geral as mulheres na dura labuta para
cuidar das numerosas crianças, da arrumação da casa e do preparo das refeições,
acudiam às janelas. Algumas, mais jovens, gritavam e acenavam, tentando chamar
a atenção de algum soldado conhecido. Nas calçadas ou das janelas, várias
agitavam as mãos, lenços ou o que tivessem à mão. Parecia que o bairro todo
fora despertado para uma festa, enquanto o 7º descia a ladeira marchando.
— O 7º está vindo! O 7º
está vindo!
As crianças corriam e
gritavam alvoroçadas, algumas acompanhando os soldados, fingindo marchar nas
calçadas, ou seguindo atrás da banda. Alguns adultos, mendigos, desocupados,
ébrios saídos de um boteco, ou que descansavam do almoço ou se preparavam para
ele, começaram a seguir atrás, também marchando ou bailando ao som da banda. O
comportamento exemplar de soldados e oficiais do batalhão, rigorosamente
exigido pelo comandante, que já conquistara o coração de catarinenses e
cariocas, em breve conquistaria os baianos.
Segundo o jornal O
Paiz, de 4 de fevereiro de 1894, quando chegaram à rua Senador Dantas, ela
estava praticamente fechada pela multidão que se apinhara, aguardando a tropa,
e foi só o 7º despontar que a multidão entrou em um delírio de vivas à
República, Moreira César, etc., enquanto abria espaço. Senhoras, senhoritas e
alguns homens acenavam freneticamente com um lenço ou o chapéu. A cada viva,
Moreira César, solene, tirava o seu quepe, numa breve mesura, retribuindo a
gentileza do povo.
No Largo de São
Francisco, a coisa quase saiu de controle, pois uma massa compacta da multidão
cercou o cavalo de Moreira César no intuito de carregá-lo nos braços até o
porto, em triunfo antecipado. A custo, ele evitou esse exagero. Um frenético já
ganhou, enlouqueceu o povo.
Quando entraram na rua
do Ouvidor, houve outra estupenda aclamação, seguida de uma chuva de confetes
atirados sobre a tropa, e, finalmente, quando chegaram ao trapiche de embarque
do Lloyd Brasileiro, a multidão que marchava e dançava atrás do 7º já era calculada
em cerca de 3 mil pessoas. Foi um momento do mais alegre, popular e espontâneo
patriotismo político já visto nas ruas do Rio de Janeiro, só superado pelas
grandes tragédias da República, quando já era tarde demais para fazer algo.
De barcos menores,
ancorados próximos ao vapor Maranhão, do Lloyd Brasileiro, homens e mulheres
gritavam e acenavam para os soldados. Alguns remadores mantinham seus remos
erguidos, saudando-os. No trapiche, três bandas tocavam dobrados militares e
hinos patrióticos: a do 10º B.I., a do 23º B.I. e a do Corpo de Bombeiros. Era
uma apoteose sem fim.
Para despedir-se dele,
estavam os comandantes e quase toda a oficialidade do 1º BI, 10º BI, 16º BI,
22º BI, 23º BI e 1º RA (artilharia), além dos oficiais avulsos: o Cel. Thompson
Flores (que substituirá Moreira César no comando do 7º), Hermes da Fonseca
(futuro presidente do Brasil), do 2º de artilharia; Souza Aguiar, do Corpo de
Bombeiros; os Tenentes-Coronéis Silvestre Travassos — um florianista que terá
um fim trágico na revolta de 1904 —, Braga Torres, representando o ministro das
Relações Exteriores; Segundo-Tenente Máximo Martins, representando o 6º de
artilharia; Dr. Arthur Rios, Dr. Timóteo da Costa, senador Esteves Junior,
capitão Américo de Albuquerque, da Intendência Municipal (Prefeitura); José
Ricardo de Albuquerque, representando o diretor da Central do Brasil, Paulo de
Frontin (um dos prefeitos mais famosos da história do Rio de Janeiro) e muitos
outros oficiais e autoridades civis.
Supervisionando o
embarque do pessoal e do equipamento da 4ª bateria do 2º RA, sob o comando do
capitão Salomão da Rocha, que constava de 5 oficiais e 60 praças, com 4 canhões
de campanha Krupp. Já o 7º compunha-se de 30 oficiais e 416 praças. Subiu a bordo
também um esquadrão do 9º Regimento de Cavalaria, com 64 praças, comandados
pelo capitão Pedreira Franco, dois oficiais engenheiros e 3 médicos militares,
além de 3 oficiais responsáveis pela caixa militar.
Durante o embarque da
cavalaria, um acidente premonitório: um cavalo, ao ser içado a bordo por
guindaste, assustou-se e se debateu, escorregando entre as correias. Afogou-se
no mar.
Às 13:00h, Argolo e
Costallat foram ao Maranhão conferenciar longamente com Moreira César. O que
eles tinham a dizer após tantas reuniões? Isso, aparentemente, demonstra a
insegurança deles a respeito do coronel, mas não há como ter certeza. Quando se
retiraram, já eram 15:00h, e uma boa massa de gente ainda permanecia no porto
para despedir-se da tropa; e o fez entusiasticamente, enquanto o navio se
afastava.
Quase uma hora depois.
O coronel aparentava
serenidade, mas estava introspectivo. Apareceu, à noite, como um espectro, no
castelo da popa do Maranhão, com as mãos para trás, imerso em profunda
reflexão. Viu, à luz da lua, o rastro de espuma branca que se projetava para
trás do navio. Para trás ficará também a segurança e a certeza de ter agido
corretamente em tudo que fizera, com a formação que recebera e as informações
que dispunha em cada ocasião. “Minha consciência de nada me acusa.” Preservaria
a sua coerência nos embates futuros?
Por um momento,
imaginou como seria se a viagem não acabasse, pois não conseguia tirar dos
pensamentos a ideia de que marchava para uma armadilha. Ele sacode a cabeça,
tentando afugentá-la. “Talvez na última hora, apareça uma alternativa.” E se
não aparecesse? Seja como for, ele sabia que tudo que fizera até ali, os
valores que abraçara, o levaram a esse momento. “Eu o criei para mim.” Aceitava
o seu destino, entregando-se a ele como a um êxtase religioso, de quem não tem
mais alternativa ou esperança.
Caminhou até a proa. 'A
sorte está lançada', pensou consigo mesmo. Lá encontrou-se com soldados e
oficiais, com os quais se entreteve com agradáveis conversas, pois ninguém
praguejava quando ele estava por perto.
O mar antecipava a
imensidão e o vazio das caatingas, onde Deus e o diabo disputavam as almas dos
homens fortes, tanto os que se viam santos profetas como os que se viam
guerreiros ou dragões da maldade. Tinham também os que não eram uma coisa nem
outra, mas que terminavam como todos os outros.
Nada é mais igualitário
que o inferno, a morte e a poeira do chão de onde viemos e para onde voltamos,
depois de nos diferenciarmos.
A festa dos inimigos.
Naquela noite, um grupo
de senhores de alta extração social e alguns nem tanto; civis e militares,
elegantemente vestidos, alguns, na medida do possível, comemorava as últimas
notícias. Uma casa elegante, quase um palacete, abrigava aquela seleta reunião.
— A melhor champanhe
para o dia de hoje, — diz um deles, mostrando a garrafa enquanto segurava um
vistoso charuto.
— Acompanhada dos
melhores salgadinhos, que eu mesma encomendei na Colombo, diz uma senhora ao
seu lado.
— Ah, minha amiga,
ninguém sabe receber como você! Sou-lhe devoto fiel.
— Shhh! Essa palavra
aqui é proibida — diz ela, arregalando maliciosamente os olhos.
— Qual? Devoto ou fiel?
Riram.
— As duas. Diz ela,
piscando o olho.
— Não quer que lhe
sejamos devotos?
— Prefiro que sejam
ricos, e sei que vocês também preferem isso. Agora, se me dão licença!
Saiu e foi conversar
com outros na sala ao lado, enquanto dava ordens peremptórias: “Vamos, meninas,
vão!”
— Sempre espirituosa e
sagaz — diz outro, querendo parecer agradável e sofisticado.
— Afinal, aquele
'encosto', aquele 'muro de arrimo', se foi, diz um, e nem pode reclamar, porque
teve uma despedida inesquecível. A essas horas, deve estar se sentindo uma
espécie de divindade.
— O caminho para o
poder está desimpedido.
— Mas é melhor não
esperar muito, pois o Biriba parece gato: tem sete vidas.
— Ponhamos, por
precaução, sete soldados para o fuzilar ou numa cadeia a sete chaves.
Gargalhadas
— E o Moreira César?
— O que tem?
— O que vamos fazer com
ele?
— Se tudo correr
conforme o combinado, ele vai ficar lá, atolado, no Vaza-Barris. Quando der por
si, a Inês já será morta e enterrada. 'Consumatum est.' Que vá encher o rio com
as suas lágrimas de traidor da sua classe.
— Não tem ideia do que
lhe preparamos.
— Quem mandou se meter
com quem ele não podia? Um Zé Ninguém, sem berço, nascido num buraco qualquer.
— Que volte marchando e
cozinhando a cachola sob o sol da Bahia.
— Voltar! De jeito
nenhum! Quando ele considerar voltar, já teremos arrumado a sua transferência.
Vai direto de lá para algum extremo onde a gente o mandar.
— É preciso que ele vá
para um lugar onde fique completamente isolado, e o mais longe possível do Rio
de Janeiro.
— Por que não a
Amazônia?
— É por aí. Lá, ele
poderá fazer amizade com porcos-do-mato e piranhas, bichos de sua laia.
Mais gargalhadas.
O homem de charuto
assistia a tudo aquilo com um sorriso condescendente. Foi ele quem patrocinou o
encontro.
— Conversas de
pescaria? Diz a senhora, voltando. Quando os senhores…
— Sim — respondeu o
homem de charuto — mas daquele tipo de bagre que se pega em terra firme. Mas
vamos deixar de conversa, abrir a champanhe e comemorar, que nós temos um muito
bom motivo para isso.
Todos se levantaram, em
alto e alegre falatório, aplaudindo a chegada do garçom com as garrafas em um
balde de gelo.
— Ao nosso futuro
glorioso.
É bom sentir
antecipadamente a vitória, embora não se compare a tê-la aninhada em nossos
braços, como a mulher, o filho ou filha, do amor recíproco. No mais, é prudente
não antecipar nem a entronização nem o funeral.