quinta-feira, 16 de julho de 2026

 


HOMENAGEEMOS OS NOVOS REIS DO FUTEBOL (Título que foi nosso, e que eles conquistaram com galhardia e bravura, e que nós o entregamos com vergonha e covardia).

Eduardo Simões

E agora, brasileiros? O que vamos fazer com os nossos craques milionários, ativistas? Não que não mereçam ganhar muito dinheiro, só não precisam mostrar que é só isso que importa. Não que eles sejam proibidos de assumir grandes causas, mas quando se ensaia partir para o confronto físico contra toda uma torcida, por causa de xingamentos, isso deixa de ser ativismo para se tornar descontrole emocional, e até falta de confiança em si mesmo.

Nem me digam que o nosso futebol está doente, porque não está, ou pelo menos não é ele a causa principal, mas é a nossa alma e a nossa inteligência, porque nós não nos acreditamos mais como nação, e os argentinos, que têm um amor fulgurante pelo seu país e pela sua cultura nacional, utilizaram disso justamente como alavanca e apoio para tirar de nós, atualmente soltos e perdidos no espaço, e ao mesmo tempo presenteando o mundo com uma arte inigualável, o título de PAÍS DO FUTEBOL, de PÁTRIA DE CHUTEIRAS.

Vejo isso em dois momentos-sínteses:

1º Momento: O choro de Lautaro Martinez após a vitória sobre a Inglaterra, em 15 de julho. Após a partida, ele dá uma declaração que diz tudo:

É muito forte isso. Na primeira vez que joguei por um par de chuteiras, sempre sonhei com a seleção. Desde os tempos de Racing, das vezes que sonhei… Isso vale mais do que qualquer gol e qualquer final. Tenho amigos, filhos e pessoas que estão me apoiando. Vou aproveitar tudo isso. Quero aproveitar também. Minha filha que me trouxe uma mudança. Sou um homem diferente. Sonhei que iria fazer um gol. Foi maravilhoso.”


2º Momento: uma declaração feita pelo jogador Roberto Carlos em 21 de junho de 2001, após ter se recusado a participar de um jogo pela seleção.

Vi outras seleções na Europa passarem pelo mesmo problema que a Seleção Brasileira está passando [recusa de jogadores em abrir mão de partidas bem pagas pelos patrocinadores do seu time, para jogar na seleção de seu país, sem esses ganhos]. O problema é que no Brasil existe sempre uma cobrança muito forte. E esta história de amor à camisa é conversa furada. Tenho que ter amor à minha família. A minha função é entrar em campo e jogar futebol, que é o que a Seleção precisa fazer para voltar a ser a número um do mundo.”

Para o argentino de hoje, jogar na seleção é tudo, é um sonho dourado de uma vida, desde a infância, algo transcendente, que ele não consegue falar sem se emocionar, como alguém que lembra de um pai, uma mãe ou uma pessoa muito amada. Fazer o gol decisivo numa partida decisiva é algo que não tem explicação, é divino, e a família tem uma participação fundamental nisso, em especial a sua filhinha, que certamente vai ficar cheia de orgulho do pai, que melhora por causa disso. O nome disso é gratidão!

Para o brasileiro Roberto Carlos, a seleção brasileira é uma seleção como qualquer outra, perante a qual não mais se nutre, como no passado, sentimentos e deferências especiais. Ora, a seleção é uma vitrine formidável para qualquer jogador, em início de carreira, sonhar com salários milionários e uma vida de estrela. E Roberto Carlos quer ganhá-los, sem ser cobrado, como se fosse uma divindade! Não é uma ‘gracinha’? Roberto Carlos, ao contrário de Fernandez, usa a família para justificar o desinteresse e até o descaso pela camisa da seleção. O jogador de futebol é um funcionário como outro qualquer, desempenhando uma função na seleção como outro qualquer, principalmente quando a seleção já o tiver deixado financeiramente bem e famoso. E, segundo ele, é isso que vai fazer a seleção ser vencedora novamente!

Pois é, os jogadores de hoje que ganham uma fortuna toda vez que entram em campo, esnobam a seleção a pretexto de precisar cuidar da família, enquanto deixam uma memória lamentável e arrastam na lama o bom nome da seleção, que ninguém mais respeita. Até o Marrocos partiu para cima, e por pouco não se deu muito bem. Roberto Carlos não tem do que se queixar, saiu do futebol muito mais rico do que entrou, a torcida está quite com ele e, se for sábia, ansiosa por esquecê-lo.

No tempo em que éramos os reis do futebol, nossos craques não amealhavam tantos recursos, mas nos deixavam orgulhosos de sermos brasileiros. Hoje só colhemos vergonha: 7×1 e seis copas seguidas sem vencer: somos Hexas. Hexas perdedores.

Mas não nos iludamos, nem vamos ficar cultivando bodes expiatórios. Todos são culpados, até a torcida, que tem adquirido cada vez mais gosto em  brigar com a torcida adversária do que ver seu time vencer. Não serão as sangrentas brigas de torcedores o principal motor de ida aos estádios de uma parte relevante das torcidas? Somos um povo doente. Adoecidos pelos seus próprios pensamentos, preconceitos e uma colossal ignorância turbinada por uma ingratidão visceral.

Enquanto os argentinos enaltecem a sua história e os seus antepassados, “gente superior, e por isso nós também somos superiores”, os brasileiros afundam na misantropia e na autopiedade. Seus antepassados são invasores de terras indígenas, escravocratas e genocidas, como se isso não fosse comum em TODOS, TODOS, TODOS, os outros povos, na época histórica em que tais fatos se deram. Os brasileiros adoram amaldiçoar os seus antepassados, mas quem amaldiçoa os seus antepassados é por eles amaldiçoado, com uma diferença fundamental: a nossa maldição se refere a um passado que não pode ser mudado, sequer ocultado, sem que reapareça de forma piorada adiante, mas a maldição dos antepassados atinge de frente o nosso presente e o nosso futuro, e o futebol é só um dos retratos disso.

Nós nos odiamos tanto que votamos cinco vezes nos candidatos de um partido que diz que a essência da história é a luta de classes, enquanto o seu atual presidente não cessa de lembrar a necessidade de os pobres odiarem os ricos, porque estes só querem se aproveitar dos mais pobres, estando ele garantido que não será mais pobre, como foi no passado. E assim, os pobres devem odiar ricos, pretos aos brancos, mulheres aos homens, da mesma forma como os corintianos odeiam os palmeirenses, os flamenguistas aos vascaínos, etc. Bye, bye, Brasil!


No final das contas, é isso que importa. É por isso que sonham os nossos craques, graças ao nosso suado dinheiro, tempo, e agora ferimentos, gastos nas arenas de futebol? Eu pensava que o motor era a preocupação com a família, mas vejo ser o direito e a honra de frequentar camarotes especiais, cercados de sheiks, investidores e patrocinadores milionários, longe da família e do passado. Só para assistir a mais uma derrota da seleção brasileira e a vitória de uma filosofia de vida infame.


quarta-feira, 15 de julho de 2026


A VERDADE DAS DEGOLAS EM CANUDOS E AS MENTIRAS DE CÉSAR ZAMA

Eduardo Simões

Não se pode dizer que César Zama, a nova estrela da ‘verdade oculta’ de Canudos nos meios acadêmicos, não foi bem-sucedido em sua trama para manter essa verdade mais oculta ainda aos brasileiros, se é que alguém ainda se importa com o que aconteceu lá, em meio a tantos escândalos do presente e falta de perspectiva no futuro — quem sabe o conhecimento melhor do passado nos prodigalize esperanças? — pois, assistindo a um vídeo sobre Canudos, para saber as novidades nas pesquisas, deparei-me com um mestre ou doutor, em história — esses títulos ainda importam? — fazendo questão de afirmar a superioridade de César Zama como fonte privilegiada para o conhecimento de Canudos. Logo Zama, que nunca pisou lá nem escreveu nada minimamente circunstanciado, além do ridículo Libelo republicano, cheio de distorções, mentiras e irracionalidades.

Segundo Zama, um florianista fervoroso, a ordem para a degola dos prisioneiros partiu do marechal Carlos Machado Bittencourt, mandado por Prudente de Morais, para acabar com a desorganização do abastecimento das tropas em Canudos — toda ela organizada, segundo o general Dantas Barreto, pela teimosia do general Oscar em entregar essa responsabilidade ao coronel de engenharia Campelo França, contra a recomendação de gente abalizada, dando na desordem que deu, sem que o general tomasse qualquer providência!

Zama, e só ele, inventou uma história de que, indagado por Arthur Oscar, tão florianista quanto Zama, sobre o que fazer com os prisioneiros, o marechal Bittencourt teria dito que em Queimadas, onde estava o centro do abastecimento da força, não havia lugar para os prisioneiros, e que isso era uma ‘senha’ para o massacre, sem falar de outras baboseiras que Zama inventou, ótimas para emocionar mentes fracas e gente alucinada com teorias da conspiração, como a expressão utilizada no QG de Bittencourt “é tempo de João Francisco”, um estancieiro gaúcho com fama de sanguinário, um castilhista autônomo demais para permanecer castilhista muito tempo, a quem Rui Barbosa chamou de ‘Fera do Cati’. Ajudou na mentira o fato de Bittencourt ser gaúcho.

O curioso é que o próprio general Oscar, e o seu irmão e biógrafo, general Carlos Eugênio, não citam nenhum contato de Oscar com Bittencourt, nem se dão ao menor trabalho de explicar o que aconteceu, mesmo quando já havia notórias suspeitas de que ele estivesse de alguma forma envolvido, afinal, o morticínio aconteceu na área sob o seu comando. Oscar, inclusive, falecerá dizendo que em Canudos havia uma poderosa conspiração internacional em curso para remonarquizar o Brasil.

Ao jogar a responsabilidade sobre Bittencourt, Zama a atinge por tabela a Prudente de Morais, que foi quem mandou Bittencourt a Canudos, para dar um mínimo de ordem na esculhambação do abastecimento, que estava alongando a campanha, aumentando as mortes e estourando o Tesouro nacional, combalido pela incompetência e os desmandos de Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto.

Graças à história da carochinha de Zama, é praticamente consenso na academia e em todos os meios cultos, uma unanimidade nacional, bem a propósito de Nelson Rodrigues, que os responsáveis pela degola em Canudos são Carlos Bittencourt e Prudente de Morais, o que praticamente justifica, e até heroifica, a tentativa de assassinato de Prudente de Morais, por um florianista encarniçado, ignorante e manipulado por grandes personalidades da República, todas de viés florianista. Esse atentado monstruoso é vergonhosamente omitido no libelo de Zama. Para não expor os colegas?

Entretanto, existiam também pessoas sérias e honestas envolvidas no brutal massacre de Canudos que, graças aos céus, deixaram algo escrito e isso foi milagrosamente preservado em arquivos — considerada a nossa compunção em destruir arquivos e museus — que agora tenho o prazer de mostrar a vocês, nesse pequeno blog, que só quer estabelecer os limites corretos de cada acontecimento para podermos aquilatar melhor as responsabilidades de cada um nesse lamentável episódio.

Não dá para desfazer o que foi feito, mas dá para utilizar dos seus fundamentos, desde que honestamente levantados, para impedir que isso volte a acontecer em situações análogas.

Em primeiro lugar, vou apresentar trechos do livro do estudante de medicina baiano Alvim Martins Horcades, Descrição de uma viagem a Canudos, escrito em 1899, disponível, por enquanto, na Internet.


P 109 — Aqui Horcades comenta sobre a promessa, que, segundo Beatinho, lhe foi feita pelos três generais em comando: Arthur Oscar, Carlos Eugênio e João da Silva Barbosa, e que Beatinho, depois da conversa com os generais, transmitiu a Horcades. Onde Bittencourt entra nisso?



P 110


morte, à semelhança da que se faz do estudante para o exame.

P 113 — Tudo indica que esse corresponsável seria um dos generais citados ou no mínimo um oficial de alta patente. Horcades se precata, pois sabe que o terreno é perigoso. Ele chega a citar ameaças que um estudante de medicina teria sofrido, da parte de um soldado, por reclamar contra aquilo. Havia uma omertá em curso?


P 114
P 115


P 116 (Fim do livro de Horcades)


O documento acima é uma página do livro organizado pelo tenente-coronel reformado Orvácio Deolindo da Cunha Marrecas, que era tenente em 1897, chamado Histórico da Polícia Militar do Pará, do seu início (1820) até 31 de dezembro de 1939, editado em 1940, pelas Oficinas Gráficas do Instituto Lauro Sodré (florianista encarniçado, acusado de envolvimento na trama para matar Prudente, em 1897, e derrubar Rodrigues Alves por meio de um golpe, durante a Revolta da Vacina, em 1904), em Belém.

Lendo Marrecas, vemos que o relato do policial paraense e do acadêmico baiano batem extraordinariamente nos detalhes, já que o policial, por razões tão compreensíveis quanto lamentáveis, foi muito lacônico no seu relato. Um complementa o outro.

Em primeiríssimo lugar: AMBOS SÃO TESTEMUNHAS OCULARES. ESTAVAM LÁ. VIRAM.

Tanto um quanto o outro: dizem que a ordem partiu dali mesmo e nada tem a ver com Queimadas ou Bittencourt — HORCADES cita em outro parágrafo 3 generais — os únicos presentes eram aqueles que citei acima. Estranhamente, vários outros deram baixa para não ficar ali. MARRECAS fala de “um dos ajudantes de ordens do comando em chefe das forças em operação”, que remete aos três generais citados ou ao principal deles, Arthur Oscar, pois em Queimadas, onde estava Bittencourt, não transcorriam operações.

Ambos falam EXPLICITAMENTE que havia uma 'chamada'. Os nomes desses homens eram conhecidos, estavam em listas sob a guarda dos oficiais. Que fim levaram essas listas? Como pode um general como Tristão de Alencar Araripe, que escreveu sobre Canudos, dizer que se desconhece seu número, seu nome e seu paradeiro?

Marrecas fala de uma ordem estranha: “fazer trincheiras”, que ele até supôs ser “uma gíria local”, para designar degola, o que não existe nem a rastro que um dia tenha existido tal expressão nesse sentido. Pode ser um artifício para livrar a pele de alguém, caso houvesse uma investigação a respeito. Ele se justificaria dizendo: "Não sei o que aconteceu, eu mandei cavar trincheiras, estão aqui as ordens por escrito". Ninguém, é claro, foi punido por esse desvio de 'entendimento'.

Ambos falam em degola como modo de execução.

Ambos falam na carbonização dos corpos após a execução e na cena horripilante dos corpos queimando ao relento.

Ou se prova que o policial paraense, chegado já nos estertores da refrega, e o jovem acadêmico baiano eram velhos conhecidos, ou tinham motivos para se mancomunarem a fim de destruir a boa imagem do general Arthur Oscar e do alto comando da tropa em operação, ou, na ausência de provas e testemunhos bem consistentes, coerentes de fontes diversas, e não fofocas e mentiras de cunho político-partidário, somos obrigados a assumir peremptoriamente que a ordem para o massacre em Canudos surgiu inteiramente no comando direto das tropas que ultimavam o cerco ao arraial, em especial o seu comandante máximo: o general Arthur Oscar.

 


P 124 — Mais uma vez vemos a ‘mão’ de Arthur Oscar, o “general em chefe”. Por que essa meticulosidade em destruir as igrejas até os alicerces? Para que eles serviriam no caso de uma futura revolta internacional monarquista numa das regiões mais pobres do Brasil (fazendo força para não rir)? Por que essa preocupação em apagar o rastro daquilo tudo? Só consigo encontrar uma resposta lógica: dificultar qualquer tentativa futura de saber o que realmente aconteceu ali.

Favilla Nunes, que viu os destroços das igrejas, admirou-se de sua pequenez, de seu acanhamento. Ele chega a dizer que, se a Igreja Nova era uma fortaleza, como diziam, ele não saberia como qualificar a igreja da Candelária no Rio de Janeiro, mas até isso ficou difícil de aquilatar depois que as duas foram dinamitadas até os alicerces, algo completamente inexplicável, pois em Canudos não havia muralhas, trincheiras complexas, túneis, etc. — todos os relatos falam em buracos e covas feitas improvisadamente pelos seus pobres defensores. Há uma foto que mostra bem o acanhamento da Igreja Velha, de Santo Antônio, mas a única que temos da Nova não nos permite avaliar o seu tamanho. O ângulo da foto — de baixo para cima — fa-la parecer maior do que é.

Ironicamente, as mentiras verdadeiras e as falsas verdades propaladas pelos militares após a queda de Canudos, para justificar ou ocultar um crime tão aberrante, só serviram para enaltecê-la e aumentar indevidamente a sua fama, assim como a de seu infeliz fundador. Um homem que, apesar de seus erros, não merecia, assim como os seus, um final tão cruel, e que também está longe de ser um herói, um protótipo dos novos tempos, quando é justo o contrário.

Resgatar a verdade dos acontecimentos e a dimensão correta de Canudos é a melhor maneira de superar tanto a irracionalidade com que aquela comunidade foi destruída e posteriormente demonizada, assim como também é, agora, irracionalmente apresentada como um modelo.








terça-feira, 14 de julho de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA - 31


Não podemos fugir das nossas escolhas, elas são a nossa história.

O coronel Moreira César estava surpreso e preocupado. Os últimos dois anos e meio, ele passara em Santa Catarina, e não acompanhara as mudanças ocorridas no Rio de Janeiro, em especial a intensa polarização política nos quartéis. Ele mesmo enfrentava situações constrangedoras com colegas tentando cooptá-lo para propostas de ditadura militar e a militarização da República.

Descartou-as todas, cada vez mais decidido a defender o projeto de república que sempre acalentou para o Brasil: democrática, civil e governada pelas leis. Mas ele sabia que oficiais e soldados do seu batalhão, inclusive do seu estado-maior, estavam sob ataque direto de propagandistas apaixonados e bem colocados, e vários davam sinais de que se deixavam levar pelo canto das sereias. Ele apertou a disciplina e tentou uma convivência mais próxima com os antigos membros e os de patente mais alta, recentemente adicionados ao grupo, mas não tinha certeza se estava funcionando.

Ele estava nesse momento quando recebeu um bilhete solicitando a sua presença urgente no Quartel-General do Exército. Arrumou-se e foi. Lá o esperavam o ministro da Guerra, Argolo, e o chefe do Estado-Maior, Costallat, as duas maiores autoridades militares do país; dois convictos florianistas. A simpatia com que o receberam chamou-lhe a atenção.

Bernardino de Campos apareceu de surpresa na casa onde Prudente convalescia, em Petrópolis, mas passar por Dona Adelaide não era fácil.

— Bernardino, por favor! — dizia ela, tomando ares de cansada.

— Adelaide, eu não viria se não fosse coisa séria.

— Vocês precisam entender: ele é só o presidente do Brasil, não é Deus nem Matusalém, e, se não for deixado em paz para se restabelecer, nem presidente ele será mais.

— Você está pronta para encarar a decepção dele quando souber que essa informação lhe foi sonegada por sua própria esposa?

— Ave, Bernardino, você está argumentando como uma velha mexeriqueira. Vamos vê-lo antes que você vire uma e a sua esposa nunca mais me perdoe. Meu marido, às vezes, não é fácil, mas os amigos, às vezes, são menos ainda.

Enquanto se dirigiam aos aposentos de Prudente, Bernardino continuou tentando 'amansar' a vigorosa guardiã.

— A república não sabe a sorte que tem por nosso presidente estar nas mãos de alguém como a senhora.

— Não me bajule, Bernardino!

— Bajulá-la? A senhora está muito acima disso e mesmo dos mais etéreos e formidáveis elogios!

Ela parou, pôs as duas mãos na cintura, fez uma cara de séria, e já ia falar quando ele pôs o indicador nos lábios e disse:

— Shhh! Ele pode estar dormindo! Chegaram ao quarto do doente. Ela arregalou o senho e já ia responder quando ele, vendo Prudente acordado, foi entrando.

Prudente estava pálido, de pijama, apoiado por travesseiros no encosto da cama. Bernardino, vendo-o, ficou penalizado; estava tão magro e tão pálido. Já o vira outras vezes convalescente, e até em estado pior, mas não podia deixar de se emocionar com a cena, afinal eram amigos desde os tempos da faculdade, quando eram jovens inconsequentes, cheios de sonhos, de saúde e de uma vitalidade que parecia eterna!

— Já tão cedo, meu amigo! Que bom recebê-lo! Vamos encurtar mais vezes o tempo entre uma visita e outra.

— Quem me dera, mas você vai ter que acertar com ela. Apontou com o polegar para Adelaide, de pé atrás dele.

Ela aproveitou.

— Fiquem aí fofocando, mas não se animem, pois volto logo, e sei que Bernardino é um amigo MUITO compreensivo. Os dois riram.

— Você está preocupado, Bernardino. O que foi?

— O Vitorino vai despachar o Moreira César para a Bahia.

Prudente empalideceu. Ainda mais.

— Mas, por quê?

— Tem uma comunidade lá, ou um covil de bandidos, para os lados de Juazeiro, que já derrotou duas expedições militares; a última armada com canhões! Moreira César vai comandar a terceira.

— Lembro que o Dionísio despachou uma pequena tropa para lá. Nem disso o Vitorino dá conta! Mas por que mandar um batalhão do Rio de Janeiro, com uma despesa enorme de transporte e manutenção, e soldados desambientados, para lutar a quase dois mil quilômetros de distância, quando o 2º Distrito Militar, em Recife, e o 3º, na própria Salvador, estão a poucas centenas de quilômetros? Eles não têm tropa para fazer isso?

— Têm. Mas você sabe o porquê de ele ter tomado essa iniciativa!

        — Sim. Ele está preparando o caminho para o golpe, diz Prudente.

        — E não tem nada que possamos fazer. O caminho do golpe ficará desimpedido.

        — Golpe? Que golpe? Diz Dona Adelaide, entrando de novo no quarto.

        — Golpe? Ah, sim! Golpe de ar. Atente bem, meu amigo, conserta Bernardino, cuidado com golpe de ar!

— Quem te conhece! Eu que me cuide dos seus golpes, senhor Bernardino. Mas agora vá, Bernardino, que a Francisca e os seus filhos devem estar ansiosos para vê-lo novamente.

— Eu sempre digo que, se não fosse a senhora, a República estaria perdida, diz Bernardino. Até mais ver, meu amigo. Adelaide, dê um beijo nas crianças.

— República? Eu nem sabia que essa senhora já tinha sido encontrada, em meio a tanta confusão! Quanto ao beijo, eu o darei, mas com certeza não será no rosto, posto que eu já não os alcanço. Dê lembranças minhas à Francisca e aos seus.

Acompanhou-o à porta e nem se preocupou em apertá-lo por mais informações, pois sabia como consegui-las direto do marido; mesmo sem falar abertamente sobre um assunto, ela intuía o que ele sabia, inclusive o que não era conveniente saber, e não raro o fazia crer que sabia bem menos do que realmente sabia.

Prudente estava mudo, olhando o vazio, preocupado. Ela sentou-se ao lado dele.

— Está preocupado, não é? Bem que eu não queria deixá-lo entrar. Acalme-se, tenha fé em Deus que tudo se arrumará.

— Cada vez mais, só temos a ele. Vamos rezar um terço a Santo Antônio, para um amigo que está em grande perigo, por minha causa. E por mim também.

Quando Moreira César chegou ao morro de Santo Antônio, já era tarde danoite. Estava calado e pensativo. Entrou em casa, considerou ligar um ponto de gás, mas não o fez; deixou-se ficar no escuro, na sua cadeira de balanço, remoendo o que acabara de ouvir.

Conseguira fugir do cabuloso convite de Floriano para uma missão fora do Brasil, mas não tinha como evitar essa estranha missão no interior da Bahia, por mais que tentasse. O peso das duas maiores patentes do Exército, sem falar do presidente da República, o obrigou a aceitar. Como escapar disso?

Não faz sentido apelar para uma tropa a quase dois mil quilômetros de distância, perder dinheiro e tempo tentando adaptá-la a um novo ambiente, quando Recife estava a pouco mais de 600 quilômetros e Salvador a pouco mais de 400, com tropas suficientes e aclimatadas — o escritor militar e combatente da 4ª Expedição, tenente Henrique Duque-Estrada de Macedo Soares, em A Guerra de Canudos, 1ª edição, Typ. Altina, Rio de Janeiro, 1902, p. 20, confirma: "O coronel Moreira César… aceitou, não sem objeções, a incumbência".

Ele foi constrangido a aceitar o comando dessa expedição sem sentido.

Tampouco fazia sentido a conversa de um levante monarquista, com abundante fornecimento de armas e assessoria militar estrangeira, numa das regiões mais isoladas e inóspitas do país. Como os conspiradores mandariam armas em quantidade e consultores militares para uma região tão remota, sem dar na vista? Ele conhecia o semiárido e a Bahia, e sabia como as distâncias eram enormes e o povo, cultural e fenotipicamente, muito homogêneo. Estrangeiros logo seriam percebidos. Que dizer da fortuna gasta em trazer armas da Europa para utilizá-las nas profundezas do sertão baiano? E se o objetivo fosse levantar multidões e angariar recursos para a causa, por que iriam para uma região tão escassa de gente e de recursos? 

Quem tiver conhecimento das distâncias e condições no interior desse Brasil continental, vê logo que isso é um engodo. Infelizmente, pouquíssimos brasileiros conheciam o Brasil, e isso perdurará até metade do século seguinte. O povo da rua do Ouvidor, as massas nas grandes cidades e mesmo a classe média ignoravam, mas Moreira César não, nem os comandantes do Exército. Então, por que insistiam? Mas ele também percebeu que a decisão já estava tomada e só havia uma coisa a fazer: encerrar quanto antes a campanha e voltar para garantir o mandato de Prudente de Morais.

No dia 3 de fevereiro de 1897, ele acordou com o toque de alvorada, cheio de pressentimentos, mas, à medida que se barbeava e se vestia, seu espírito se revigorava. De fora vinham os ruídos, sempre num crescente, a que ele se habituara e que agora faziam todo o seu corpo relaxar e sentir-se bem. O entrechoque de metais, o barulho dos cascos de cavalos, o vozerio crescente dos soldados praguejando, rindo alto, provocando-se mutuamente, etc. Aquilo tudo lhe deu um grande ânimo, e a natureza do desafio, uma nova missão, encheu-o de gás e de um tolo otimismo. O que quer que estivesse acontecendo no interior da Bahia, ele logo descobriria e o encerraria.

Pôs os últimos apetrechos em sua mala, entregou-a à ordenança e ficou esperando o aviso dos oficiais. Vieram avisá-lo de que a tropa estava pronta. Ele ajeitou a espada, pôs o quepe e dirigiu-se para a porta do pátio. À sua vista, um oficial berrou:

— Sentido!

Todos se perfilaram, e seguiu-se um silêncio expectante. Era uma força de combate formidável, resultado do seu empenho e capricho minucioso. Perfeitamente fardados, alinhados e garbosos, orgulhosos do que eram; uma extensão da personalidade de seu comandante. Olhou para o grupo de oficiais do estado-maior, perfilados ao lado de seus cavalos. Deteve o seu olhar; alguns desviavam o rosto. Ele sabia que alguns ali não compactuavam com os seus valores. 'Ossos do ofício', pensou.

Esperava conquistá-los durante a campanha ou talvez a própria campanha fizesse isso por ele. Na dureza dos combates, os soldados viravam irmãos. “Vamos resgatar a fraternidade e a amizade invencível que sempre foi o espírito do 7º Batalhão de Infantaria”, disse aos oficiais.

Dirige-se ao seu auxiliar imediato, o major Cunha Mattos, e encara-o firme. Cunha Mattos sacode, nervoso, a cabeça.

— Tudo em ordem, major?

— Sim, coronel!

Ele monta o cavalo, seguido pelo estado-maior. Gira para o portão e, com um movimento do braço, aponta a saída. A banda começa a tocar, e o 7º, num ritmo de marcha perfeita, faz uma curva no portão para descer a ladeira do morro de Santo Antônio, rumo ao centro do Rio de Janeiro.

Ao ouvir o som da banda, as pessoas que estavam em casa, em geral as mulheres na dura labuta para cuidar das numerosas crianças, da arrumação da casa e do preparo das refeições, acudiam às janelas. Algumas, mais jovens, gritavam e acenavam, tentando chamar a atenção de algum soldado conhecido. Nas calçadas ou das janelas, várias agitavam as mãos, lenços ou o que tivessem à mão. Parecia que o bairro todo fora despertado para uma festa, enquanto o 7º descia a ladeira marchando.

— O 7º está vindo! O 7º está vindo!

As crianças corriam e gritavam alvoroçadas, algumas acompanhando os soldados, fingindo marchar nas calçadas, ou seguindo atrás da banda. Alguns adultos, mendigos, desocupados, ébrios saídos de um boteco, ou que descansavam do almoço ou se preparavam para ele, começaram a seguir atrás, também marchando ou bailando ao som da banda. O comportamento exemplar de soldados e oficiais do batalhão, rigorosamente exigido pelo comandante, que já conquistara o coração de catarinenses e cariocas, em breve conquistaria os baianos.

Segundo o jornal O Paiz, de 4 de fevereiro de 1894, quando chegaram à rua Senador Dantas, ela estava praticamente fechada pela multidão que se apinhara, aguardando a tropa, e foi só o 7º despontar que a multidão entrou em um delírio de vivas à República, Moreira César, etc., enquanto abria espaço. Senhoras, senhoritas e alguns homens acenavam freneticamente com um lenço ou o chapéu. A cada viva, Moreira César, solene, tirava o seu quepe, numa breve mesura, retribuindo a gentileza do povo.

No Largo de São Francisco, a coisa quase saiu de controle, pois uma massa compacta da multidão cercou o cavalo de Moreira César no intuito de carregá-lo nos braços até o porto, em triunfo antecipado. A custo, ele evitou esse exagero. Um frenético já ganhou, enlouqueceu o povo.

Quando entraram na rua do Ouvidor, houve outra estupenda aclamação, seguida de uma chuva de confetes atirados sobre a tropa, e, finalmente, quando chegaram ao trapiche de embarque do Lloyd Brasileiro, a multidão que marchava e dançava atrás do 7º já era calculada em cerca de 3 mil pessoas. Foi um momento do mais alegre, popular e espontâneo patriotismo político já visto nas ruas do Rio de Janeiro, só superado pelas grandes tragédias da República, quando já era tarde demais para fazer algo.

De barcos menores, ancorados próximos ao vapor Maranhão, do Lloyd Brasileiro, homens e mulheres gritavam e acenavam para os soldados. Alguns remadores mantinham seus remos erguidos, saudando-os. No trapiche, três bandas tocavam dobrados militares e hinos patrióticos: a do 10º B.I., a do 23º B.I. e a do Corpo de Bombeiros. Era uma apoteose sem fim.

Para despedir-se dele, estavam os comandantes e quase toda a oficialidade do 1º BI, 10º BI, 16º BI, 22º BI, 23º BI e 1º RA (artilharia), além dos oficiais avulsos: o Cel. Thompson Flores (que substituirá Moreira César no comando do 7º), Hermes da Fonseca (futuro presidente do Brasil), do 2º de artilharia; Souza Aguiar, do Corpo de Bombeiros; os Tenentes-Coronéis Silvestre Travassos — um florianista que terá um fim trágico na revolta de 1904 —, Braga Torres, representando o ministro das Relações Exteriores; Segundo-Tenente Máximo Martins, representando o 6º de artilharia; Dr. Arthur Rios, Dr. Timóteo da Costa, senador Esteves Junior, capitão Américo de Albuquerque, da Intendência Municipal (Prefeitura); José Ricardo de Albuquerque, representando o diretor da Central do Brasil, Paulo de Frontin (um dos prefeitos mais famosos da história do Rio de Janeiro) e muitos outros oficiais e autoridades civis.

Supervisionando o embarque do pessoal e do equipamento da 4ª bateria do 2º RA, sob o comando do capitão Salomão da Rocha, que constava de 5 oficiais e 60 praças, com 4 canhões de campanha Krupp. Já o 7º compunha-se de 30 oficiais e 416 praças. Subiu a bordo também um esquadrão do 9º Regimento de Cavalaria, com 64 praças, comandados pelo capitão Pedreira Franco, dois oficiais engenheiros e 3 médicos militares, além de 3 oficiais responsáveis pela caixa militar.

Durante o embarque da cavalaria, um acidente premonitório: um cavalo, ao ser içado a bordo por guindaste, assustou-se e se debateu, escorregando entre as correias. Afogou-se no mar.

Às 13:00h, Argolo e Costallat foram ao Maranhão conferenciar longamente com Moreira César. O que eles tinham a dizer após tantas reuniões? Isso, aparentemente, demonstra a insegurança deles a respeito do coronel, mas não há como ter certeza. Quando se retiraram, já eram 15:00h, e uma boa massa de gente ainda permanecia no porto para despedir-se da tropa; e o fez entusiasticamente, enquanto o navio se afastava.

Quase uma hora depois.

O coronel aparentava serenidade, mas estava introspectivo. Apareceu, à noite, como um espectro, no castelo da popa do Maranhão, com as mãos para trás, imerso em profunda reflexão. Viu, à luz da lua, o rastro de espuma branca que se projetava para trás do navio. Para trás ficará também a segurança e a certeza de ter agido corretamente em tudo que fizera, com a formação que recebera e as informações que dispunha em cada ocasião. “Minha consciência de nada me acusa.” Preservaria a sua coerência nos embates futuros?

Por um momento, imaginou como seria se a viagem não acabasse, pois não conseguia tirar dos pensamentos a ideia de que marchava para uma armadilha. Ele sacode a cabeça, tentando afugentá-la. “Talvez na última hora, apareça uma alternativa.” E se não aparecesse? Seja como for, ele sabia que tudo que fizera até ali, os valores que abraçara, o levaram a esse momento. “Eu o criei para mim.” Aceitava o seu destino, entregando-se a ele como a um êxtase religioso, de quem não tem mais alternativa ou esperança.

Caminhou até a proa. 'A sorte está lançada', pensou consigo mesmo. Lá encontrou-se com soldados e oficiais, com os quais se entreteve com agradáveis conversas, pois ninguém praguejava quando ele estava por perto.

O mar antecipava a imensidão e o vazio das caatingas, onde Deus e o diabo disputavam as almas dos homens fortes, tanto os que se viam santos profetas como os que se viam guerreiros ou dragões da maldade. Tinham também os que não eram uma coisa nem outra, mas que terminavam como todos os outros.

Nada é mais igualitário que o inferno, a morte e a poeira do chão de onde viemos e para onde voltamos, depois de nos diferenciarmos.

A festa dos inimigos.

Naquela noite, um grupo de senhores de alta extração social e alguns nem tanto; civis e militares, elegantemente vestidos, alguns, na medida do possível, comemorava as últimas notícias. Uma casa elegante, quase um palacete, abrigava aquela seleta reunião.

— A melhor champanhe para o dia de hoje, — diz um deles, mostrando a garrafa enquanto segurava um vistoso charuto.

— Acompanhada dos melhores salgadinhos, que eu mesma encomendei na Colombo, diz uma senhora ao seu lado.

— Ah, minha amiga, ninguém sabe receber como você! Sou-lhe devoto fiel.

— Shhh! Essa palavra aqui é proibida — diz ela, arregalando maliciosamente os olhos.

— Qual? Devoto ou fiel?

Riram.

— As duas. Diz ela, piscando o olho.

— Não quer que lhe sejamos devotos?

— Prefiro que sejam ricos, e sei que vocês também preferem isso. Agora, se me dão licença!

Saiu e foi conversar com outros na sala ao lado, enquanto dava ordens peremptórias: “Vamos, meninas, vão!”

— Sempre espirituosa e sagaz — diz outro, querendo parecer agradável e sofisticado.

— Afinal, aquele 'encosto', aquele 'muro de arrimo', se foi, diz um, e nem pode reclamar, porque teve uma despedida inesquecível. A essas horas, deve estar se sentindo uma espécie de divindade.

— O caminho para o poder está desimpedido.

— Mas é melhor não esperar muito, pois o Biriba parece gato: tem sete vidas.

— Ponhamos, por precaução, sete soldados para o fuzilar ou numa cadeia a sete chaves.

Gargalhadas

— E o Moreira César?

— O que tem?

— O que vamos fazer com ele?

— Se tudo correr conforme o combinado, ele vai ficar lá, atolado, no Vaza-Barris. Quando der por si, a Inês já será morta e enterrada. 'Consumatum est.' Que vá encher o rio com as suas lágrimas de traidor da sua classe.

— Não tem ideia do que lhe preparamos.

— Quem mandou se meter com quem ele não podia? Um Zé Ninguém, sem berço, nascido num buraco qualquer.

— Que volte marchando e cozinhando a cachola sob o sol da Bahia.

— Voltar! De jeito nenhum! Quando ele considerar voltar, já teremos arrumado a sua transferência. Vai direto de lá para algum extremo onde a gente o mandar.

— É preciso que ele vá para um lugar onde fique completamente isolado, e o mais longe possível do Rio de Janeiro.

— Por que não a Amazônia?

— É por aí. Lá, ele poderá fazer amizade com porcos-do-mato e piranhas, bichos de sua laia.

Mais gargalhadas.

O homem de charuto assistia a tudo aquilo com um sorriso condescendente. Foi ele quem patrocinou o encontro.

— Conversas de pescaria? Diz a senhora, voltando. Quando os senhores…

— Sim — respondeu o homem de charuto — mas daquele tipo de bagre que se pega em terra firme. Mas vamos deixar de conversa, abrir a champanhe e comemorar, que nós temos um muito bom motivo para isso.

Todos se levantaram, em alto e alegre falatório, aplaudindo a chegada do garçom com as garrafas em um balde de gelo.

— Ao nosso futuro glorioso.

É bom sentir antecipadamente a vitória, embora não se compare a tê-la aninhada em nossos braços, como a mulher, o filho ou filha, do amor recíproco. No mais, é prudente não antecipar nem a entronização nem o funeral. 


segunda-feira, 13 de julho de 2026


SOBRE OS MERCADORES AVENTUREIROS DE ELISABETH I

Eduardo Simões

Estou traduzindo, com a ajuda da IA do Google, o artigo do professor e economista liberal inglês George Unwin, The Merchant Adventurers’ Company in the Reign of Elisabeth I, publicado em 1927, após a morte do autor, em 1925.

O estudo minucioso de Unwin sobre a atuação da Companhia dos Mercadores Aventureiros no reinado de Elisabeth, com todas as suas iniciativas e dificuldades para monopolizar o grande comércio inglês, em benefício de seus sócios, mas também para sobreviver às selvagens práticas concorrenciais da época, mostram que longe de uma suposta classe burguesa emergir do mundo estagnado do final da Idade Média, conforme imaginário marxista, com um projeto acabado, e, em função deste, agir como uma ‘classe’  minimamente estruturada, com objetivos claros, os diversos grupos de burgueses, coligados em torno de interesses só vagamente comuns, que só se definiam em função de seus sócios ou familiares mais próximos, lutavam para conseguir proeminência junto do centro de poder, o monarca, muitas vezes tendo como maior inimigo outros grupos de burgueses, muito mais que a nobreza ao redor, o seu suposto inimigo de classe, com a qual muitas vezes se aliavam.

Entre esses grupos se destacaram os Mercadores Aventureiros, cuja maior meta era adquirir uma posição privilegiada no estado aristocrático, longe da ideia de qualquer ordem burguesa, se organizando em guildas de comerciantes, com capelas e santos patronos, como até hoje os têm, procurando adaptar suas aspirações de lucros à ordem medieval vigente. Nada de luta de classes.

A leitura de Unwin, assim como a de Schumpeter, acentua a superficialidade pueril do conceito de luta de classes — que só se mostra eficaz como ferramenta para confrontos eleitorais, em colégios de votantes pouco esclarecidos — além do de ‘ruptura’, como um momento-chave quando uma ‘velha ordem’ cai para dar lugar a uma ‘nova’, como se o ‘novo’ dependesse dessa ruptura para aflorar plenamente.

Não é assim, e Schumpeter e Unwin o mostram com uma abundância estonteante de fatos, o que não seria possível em visitas aleatórias, impostas pelo limiar da necessidade de sobrevivência, à biblioteca do Museu Imperial.

O cerne, e eu diria até o martelo, a bigorna e a foice das mudanças estruturais nas sociedades humanas, são o acúmulo e o refinamento de micromudanças, perceptíveis somente muito depois, em pesquisas judiciosas de microacontecimentos que vão gradualmente, quase imperceptivelmente, mudando a cabeça e as disposições afetivas das pessoas, deixando-as propensas a assimilarem novos valores, que antes seriam combatidos ou recebidos com reservas.

Ao invés de rupturas, há, por conseguinte, um lento processo de transformação cuja direção ou produto final é ignorado pelos agentes sociais, que seguem como que num jogo de tateio, com muito mais enganos que acertos, do tipo ensaio e erro, às vezes tomando o caminho errado, às vezes acertando. Alguns, aqueles que têm uma noção mais clara do que são os seus valores permanentes, conseguem mais facilmente assumir uma nova construção social e transformar essas mudanças em vantagens para um maior número possível dos seus.

Outros enfrentam formidáveis forças de oposição, que acabam levando o movimento de evolução histórica a um impasse, de onde surge a necessidade de uma ruptura violenta, seja nos setores onde o processo de transformação histórica é obstaculizado — como foi o caso da Revolução Americana e da Inglesa — seja no conjunto da sociedade, quando o estado, por meio do governo vigente, se opõe terminantemente ao seu processo — como na Revolução Francesa e Russa.

Olhando para trás, sem o apelo romântico à revolução, criado mais pela propaganda facciosa do que pelos resultados observados, vemos que essas duas últimas revoluções foram muito mais sintoma da grandeza das forças que se opunham às mudanças do que prenúncios de avanços sociais mais consistentes. O fato de elas terem ocorrido mostra muito mais o atraso das sociedades onde elas aconteceram do que a predisposição ao novo de seus habitantes. Os franceses tiveram tempo, graças, entre outras coisas, à força bruta das potências europeias, de refazer os seus caminhos e realinhá-los com o que seria posteriormente o mundo moderno, que, pelo menos, não passava pela glorificação da violência e de um projeto de ‘salvação mundial’, ao contrário dos russos.

Enlinhados num projeto delirante de reforma mundial, como disfarce, muito tosco, para a retomada pretensamente mais estruturada e dissimulada de um império russo mundial, à semelhança do inglês, sem a vantagem de um vigoroso feedback como a França teve em 1815, os russos, para a sua desgraça, venceram toda a oposição externa no seu processo de formação,  e avançaram até se exaurir a irracionalidade absurda de seu projeto, mergulhando num saudosismo estéril, com quase toda a esquerda mundial, sonhando com a volta do antigo Império Soviético, enquanto mergulham numa espiral de violência e guerras compatível com a Europa de 80 anos atrás. 

O mundo está sempre mudando, e não sabemos nunca para onde ele vai. Eventualmente, algumas mudanças aceleram conquistas, enquanto outras fazem milhões mergulhar no colapso ou numa lenta recuperação. Nesse meio tempo, inúmeros analistas avaliam os eventos que foram ou são contemporâneos. Por acaso, alguns acertam e se tornam profetas para as gerações futuras, enquanto a maioria erra, embora muito poucos vivam o bastante para saber se a sociedade realmente evoluiu da forma como ele imaginou.

Não é o caso evidente de Schumpeter e Unwin, mas os dois autores, com a sua erudição e o levantamento excepcional de dados, nos ajudam muito a conhecer melhor o passado, para além dos mitos e fantasias surrados surgidos nos séculos XIX e XX, permitindo-nos avaliar melhor o que nos espera nesse século que se nos abre.

 

sexta-feira, 10 de julho de 2026


CANUDOS: UM DILÚVIO DE DELÍRIOS E FANTASIA

Eduardo Simões

“Sob pressão, os números confessam qualquer coisa!” Imaginem quando deturpados!

Tem sido um lugar comum na nossa historiografia defender a balela de que em Canudos viviam 25 mil pessoas — alguns, mais desvairados, chegam ao montante de 35 mil habitantes. Para esses nada tenho a dizer. Essa aberração, dos 25 mil habitantes, parece que fez a sua estreia no texto bem menos do que ‘não sério’, de César Zama, Libelo republicano, e foi ainda nesse não insuspeito documento que surgiu a garatuja estrombótica de que Canudos era a segunda mais populosa cidade da Bahia.

Como foi então que se espalhou, a guisa de ‘verdade de fé’, semelhantes espalhafatos

A primeira coisa a considerar é que o solo ao redor de Canudos era um dos mais pobres da região em que estava circunscrita. Veja a resposta da IA do Google à pergunta sobre a qualidade do solo de Canudos:

O solo ao redor de Canudos, na Bahia, é predominantemente raso, pedregoso e arenoso. Sua fertilidade química natural varia de média a baixa e possui baixa capacidade de reter água. Além disso, a região é muito sensível à erosão e ao processo de desertificação.

A qualidade geral do solo na região apresenta características bem específicas:

Características Físicas: São solos geralmente mais secos, com presença de muitas pedras e areia. Isso dificulta o crescimento de raízes mais profundas e a absorção de água durante as raras chuvas.

Fertilidade: Em algumas áreas do entorno de rios (como no vale do rio Vaza-Barris) ou áreas irrigadas, a fertilidade pode ser melhorada. No entanto, no geral, o solo carece de nutrientes.

Degradação e Erosão: Por causa das altas temperaturas e da falta de vegetação em algumas áreas, o solo fica exposto. Isso facilita a erosão. O avanço de áreas degradadas é uma grande preocupação para a conservação da região.”

Para aqueles que acham que a IA é “suspeita”, recomendo o artigo Índice de vegetação e dinâmica ambiental das caatingas: a susceptibilidade ambiental à desertificação em Canudos-BA, de Israel de Oliveira (UFBA) e Anderson de Jesus (UNESP), na revista Geografia Ensino e Pesquisa, da UFSM, no endereço (https://periodicos.ufsm.br/geografia/article/view/87806), do qual retirei o mapa abaixo. Nele se vê que apenas a área em bege claro tem um solo seguro para a prática de agricultura. Canudos está no centro da pior área. Aliás, se não fosse assim, a fazenda não estaria abandonada quando o Conselheiro chegou lá entre abril e maio de 1893.

 


Tipos de solo mais comuns em Canudos:

“Em Canudos, no semiárido baiano, predominam solos rasos, pedregosos e com grande variação de fertilidade. Os principais tipos descritos pela Embrapa Solos na região são os Neossolos (rasos e arenosos), os Argissolos (com acúmulo de argila) e os Vertissolos (muito férteis, porém pesados).

A região do vale do rio Vaza-Barris apresenta as seguintes características em seus solos:

Neossolos Litólicos: são solos muito rasos, jovens e cheios de pedras. Ficam logo acima da rocha matriz. Eles têm baixa capacidade de guardar água.

Neossolos Quartzarênicos: são solos formados quase só por areia. Eles deixam a água passar muito rápido e são pobres em nutrientes.

Argissolos: têm uma camada superficial mais arenosa e uma camada mais funda rica em argila. Costumam sofrer com erosão quando a vegetação nativa da Caatinga é retirada.

Vertissolos: são solos escuros, muito pesados e ricos em argila. Eles têm alta fertilidade natural, mas formam grandes rachaduras quando secam — os vertissolos são solos compostos por muita argila que reage fortemente à água. Quando chove, eles viram uma lama pegajosa. Quando seca, a terra encolhe e fica tão dura quanto cimento.

Solos de Várzea: Nas margens dos rios, como o Vaza-Barris, formam-se solos mais planos e férteis. Eles são muito utilizados para agricultura irrigada e plantio de hortaliças” (IA idem).

Nessa época, final do século XIX, o melhor solo, o de várzea, não funcionava muito, pois o rio permanecia seco a maior parte do ano. Noutras palavras: de onde se tiraria comida para alimentar 25 mil pessoas, a maioria crianças, sem gigantescas obras de engenharia hidráulica — tão grandes em Canudos que ninguém conseguiu vê-las — e sem um programa grandioso de fertilização do solo com matéria orgânica, estrume, mesmo porque o gado dominante era o caprino, de pouca produtividade. Só por milagre do Conselheiro.

Essa história começa no fim da 4ª Expedição, com o general Arthur Oscar precisando explicar à nação o uso de tanta gente e recursos para dobrar uma pobre comunidade rural em uma das zonas mais pobres da Bahia. A única saída para evitar a humilhação em larga e, quem sabe, um Conselho de Guerra, era exagerar escandalosamente nos números e sustentá-los a ferro e fogo — Canudos tinha 5.200 casas, contadas uma a uma, e 25 mil habitantes, considerando 2 adultos e 3 crianças em cada casa. A ele seguiram os que lhe eram próximos, politicamente falando, como Euclides da Cunha, e a grande maioria dos autores militares.

Oscar e seu irmão faleceram sustentando esse número absurdo e a balela de um levante monárquico internacional em Canudos, sem nunca apresentarem uma única prova ou evidência que fosse.

Zama, que era da mesma cor política de Oscar, correu pressuroso atrás disso, e atrás dele toda a academia, até os dias de hoje. Cabe a Zama também, como não podia ser diferente, a afirmação escalafobética de que Canudos, com seus 25 mil habitantes, era a segunda maior cidade da Bahia na época (1897), tresloucamente repetido por quase todos os livros que falam sobre o assunto.

Devo dizer que a cifra de 5.200 casas foi cabalmente negada por um general do Exército Brasileiro, de grande renome na época, que esteve em Canudos: o general Carlos Maria da Silva Teles, considerado um herói no Cerco de Bagé, irmão de outro militar conceituado, o general-de-divisão João Batista da Silva Telles, que disse resolutamente que não viu mais que uma mil e poucas casas em Canudos, “talvez umas mil e duzentas” — num dos meus artigos, O coronel Moreira César e Canudos devem morrer, falo mais sobre isso.

Manuel Benício, um repórter do jornal A Notícia, enquanto esteve em Canudos, na 4ª Expedição, contou minuciosamente o casario do arraial e só conseguiu umas mil e duzentas casas, que ele topou arredondar bem para 1.500, o que daria uma população de no máximo umas 7.500 pessoas, deixando boa folga.

Sabemos que Jesus Cristo se celebrizou pela multiplicação dos pães e dos peixes, que dizer da multiplicação, por três e meio, de casas e pessoas em Canudos, em meio a uma guerra devastadora, inclusive bombardeio de artilharia! Ou a Bíblia precisa ser reescrita ou estamos diante de uma das mais fragorosas fraudes ou delírios de nossa história.

Mas Canudos era de fato a segunda cidade mais populosa da Bahia? Para chegar a esse estranho resultado, Zama serviu-se tanto dos absurdos de Oscar como de outro estratagema típico de quem não é lá muito amigo da precisão ou da verdade. Como o recenseamento de 1890 ficou muito incompleto, dando apenas, e de forma precária, a população geral dos municípios, sem distinguir a área urbana, ou a população habitante na sede do município, inviabilizando uma comparação minimamente honesta.

Para resolver esse problema, Zama utiliza um artifício extraordinariamente gracioso: pega como parâmetro a população absurdamente inchada e nunca contada (recenseada) — mesmo porque o Conselheiro não o permitiria — e comparou-a com os dados de 25 anos atrás — do censo de 1872 — de todas as outras cidades da Bahia, como se sua população tivesse ficado estacionária por todo esse período, enquanto a população geral do Estado da Bahia cresceu 39% nesse período.

Por conseguinte, Zama e os neoconselheiristas, para sustentar a sua fantasia, refugam os dados do censo de 1890 por sua imprecisão, mas aceitam piamente os números aleatórios da população de Canudos que nunca foi recenseada, contada ou algo que o valha.

Nesse caso, como em outros, os números são apenas detalhes ou incômodos que cada um utiliza como melhor lhe convir, como os enfeites em uma fantasia.


 

TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 22

Interesse Próprio, Bem Comum e Utilitarismo.

Sabemos que tanto o Interesse Próprio quanto o Bem Comum eram conceitos antigos. Mas, por volta de meados do século XVIII, afirmaram-se com nova energia, não apenas na ética, mas em todo o campo do pensamento social. Em particular, eram, ou supunha-se que fossem, os princípios básicos e unificadores de todas as ciências sociais, praticamente os únicos que a “razão” havia defendido. Helvétius (1715–71) comparou o papel do princípio do interesse próprio no mundo social ao papel da lei da gravitação no mundo físico. Até mesmo o grande Beccaria [jurista italiano] chegou ao ponto de afirmar que o homem é totalmente egoísta e egocêntrico e não se preocupa em nada com o bem de nenhum outro homem (ou com o bem comum).

Deve-se observar mais uma vez que esse interesse próprio individual era orientado pela expectativa racional de prazer e dor individuais, que, por sua vez, deve ser definida em um sentido estritamente hedonista. É verdade que os autores do século XVIII acrescentaram qualificações e reconheceram prazeres que geralmente não são classificados como hedonistas, como os prazeres da malevolência, da aquisição de poder e até mesmo da crença e prática religiosa. Consequentemente, os defensores dessa doutrina obtiveram certo sucesso em sua tentativa de resgatá-la da acusação que se fez de o comportamento humano girar em torno de bifes [ou coisas aparentemente pequenas, irrelevantes].

Mas esse sucesso — além do fato de não abordar todas as outras objeções que podem ser levantadas contra qualquer teoria que enfatize excessivamente a racionalidade no comportamento — foi mais aparente do que real. Pois, se formos muito além das gratificações mais grosseiras dos apetites mais simples, chegamos perigosamente perto de identificar a expectativa de “prazer” com todos os motivos possíveis, até mesmo com o sofrimento intencional da dor, e então, é claro, a doutrina se torna uma tautologia vazia. Pior ainda, se dermos demasiada margem a tais “prazeres” que podem advir do esforço, da vitória, da crueldade e similares, podemos obter uma imagem do comportamento humano e da sociedade totalmente diferente daquela que esses homens de fato idealizaram [eles idealizavam uma sociedade livre de preconceito, de maldade, liberdade completa, tudo de bom!]. Assim, se quisermos chegar à mesma conclusão que eles chegaram a partir de suas ideias sobre prazer e dor, não temos outra escolha senão adotar uma definição desta última que, de fato, permita alguma liberdade para ir além de simples bifes, embora apenas uma liberdade limitada; ou seja, não temos outra escolha senão adotar uma teoria do comportamento que diverge dos fatos mais óbvios [noutras palavras: a definição básica nos leva a um impasse, a um beco sem saída]. Por que, então, ela foi tão prontamente adotada por tantas mentes brilhantes?

Aparentemente, esses cérebros pertenciam a reformadores práticos que lutavam contra um estado de coisas historicamente estabelecido que lhes parecia “irracional”. Em tal luta, a simplicidade e até mesmo a trivialidade são as principais virtudes de um argumento, e as filosofias pragmáticas são a melhor resposta a um sistema de direitos e deveres sacralizados de forma supramundana [a moral cristã]. Apenas pregavam tolices iguais às que todos estamos habituados a pregar, inclusive quando tem gente olhando.

Vimos acima como o bem comum ou a conveniência social dos doutores escolásticos foi moldado particularmente pelos defensores da razão do século XVIII. Vamos repetir e reformular. Os prazeres e as dores de cada indivíduo são considerados quantidades mensuráveis, capazes de serem somadas (algebricamente) em uma quantidade chamada felicidade individual (felicità). Essas “felicidades” individuais são novamente somadas em um total social, todas com o mesmo peso: “todos valem um, ninguém vale mais do que um”. Finalmente, esse total social é substituído ou identificado com o bem comum ou o bem-estar da sociedade, que é assim reduzido a sensações individuais de prazer ou dor, as únicas realidades últimas.

Isso nos leva ao princípio normativo do Utilitarismo, a saber, a Maior Felicidade do Maior Número, o qual é principalmente associado ao nome de Bentham. Se a ideia era de origem antiga e se desenvolveu tão lentamente a ponto de desafiar a datação, o próprio slogan pode ser datado com mais precisão: até onde sei, ele aparece primeiro em Hutcheson (op. cit. 1725), depois em Beccaria (op. cit. 1764, la massima felicità divisa nel maggior numero); em seguida, em Priestley (op. cit. 1768), a quem Bentham atribui o mérito do que para ele era uma “verdade sagrada”. Hume não possui o slogan, mas deve ser incluído nesta série mesmo assim.

O utilitarismo de Bentham (muito influente na Inglaterra).

O ponto essencial a compreender é que o utilitarismo nada mais era do que outro sistema de leis naturais. Isso se verifica não apenas no sentido de que os utilitaristas foram os sucessores históricos dos filósofos do direito natural do século XVII; nem apenas no sentido de que o sistema utilitarista se desenvolveu a partir do sistema dos filósofos, o que, embora evidente, pode ser comprovado em detalhes pela história da ética, por um lado, e pela história do conceito de bem comum, por outro; mas também no sentido muito mais significativo de que, em abordagem, metodologia e natureza de seus resultados, o utilitarismo foi, de fato, outro, o último, sistema de leis naturais.

O programa de derivar, à luz da razão, “leis” sobre o homem na sociedade a partir de uma natureza humana muito estável e altamente simplificada se encaixa aos utilitaristas tão bem quanto aos filósofos ou aos escolásticos. Assim como os sistemas dos filósofos ou dos escolásticos, o utilitarismo apresenta um apelo triplo. Primeiro, era uma filosofia de vida, exibindo um esquema de “valores últimos”. É aqui que devemos buscar a origem da impressão inerradicável de que o utilitarismo, especialmente o de Bentham, era algo novo e fundamentalmente antagônico aos sistemas mais antigos. Mas, como o leitor já deve saber, a diferença não era grande no que diz respeito à filosofia das atividades cotidianas. Para a esfera do estábulo, do celeiro, da loja e do mercado, os doutores escolásticos eram suficientemente utilitaristas. A verdadeira diferença residia no fato de que os médicos restringiam o ponto de vista utilitarista à atividade puramente utilitária, onde ela é (não totalmente) adequada, enquanto os utilitaristas reduziam todo o universo de valores humanos ao mesmo esquema, descartando, por ser contrário à razão, tudo o que realmente importa ao homem. Assim, eles merecem, de fato, o crédito de terem criado algo novo na literatura, se não considerarmos a contribuição de Epicuro, algo como a mais superficial de todas as filosofias de vida concebíveis, que se encontra, de fato, em posição de antagonismo irreconciliável com as demais que lhe disputam o título.

Em segundo lugar, o utilitarismo era um sistema normativo com forte viés jurídico. Era, como o sistema escolástico, um sistema de imperativos morais, por um lado, e de princípios legislativos, por outro. Bentham considerava-se primordialmente um moralista e legislador, e foi como critério de legislação boa e má” que o princípio da maior felicidade para o maior número adquiriu para ele importância primordial. Observe-se, mais uma vez, o elemento igualitário presente nele, que era tão essencial quanto o elemento da felicidade. E esses dois aspectos, juntamente com a crença não apenas de que qualquer indivíduo era muito semelhante a qualquer outro, mas também de que cada indivíduo era matéria indefinida e maleável, com poucas ou nenhuma característica inata própria, produziram o princípio político fundamental do benthamismo: educar as pessoas e deixá-las votar livremente, e todo o resto se resolverá por si só. [Isso está presente no discurso de muita gente douta, hoje, no Brasil].

Mas, em terceiro lugar, assim como a lei natural dos filósofos e escolásticos, o utilitarismo também era um sistema abrangente de ciências sociais, incorporando um método uniforme de análise. E esse aspecto é separável dos outros dois, da mesma forma que o trabalho analítico dos escolásticos e dos filósofos é separável do restante de seu pensamento. Em outras palavras, é logicamente possível desprezar o utilitarismo, por completo, tanto como filosofia de vida quanto como programa político, e ainda assim aceitá-lo, como motor de análise, em todos ou alguns dos ramos das ciências sociais. Mas, apesar de o utilitarismo não ser muito valioso como ferramenta de análise, muitos economistas não hesitaram em declarar que ele é fundamental para a teoria econômica. Como Jevons.

Nota de Schumpeter

Antes de Bentham, o catálogo de moralistas utilitaristas não coincide exatamente com o catálogo de legisladores utilitaristas. Bentham imprimiu suas preferências pessoais a um grupo de seguidores — os Radicais Filosóficos já mencionados — e a forte coesão desse grupo explica um programa definido (em essência, o laissez-faire combinado com o sufrágio universal) e a impressão de que esse programa decorria inexoravelmente de premissas analíticas. Mas em outras épocas e países, os benthamitas poderiam ter sido conservadores — Hume o era, e a maioria dos utilitaristas italianos também — ou então socialistas. Não há nada de surpreendente nisso, desde que se perceba que a preferência desempenha um papel tão importante na formulação de conclusões sobre políticas práticas que submete quase qualquer estrutura analítica aos seus ditames [para os menos avisados, vemos aqui uma interessante discussão sobre o perigo da influência da ‘ideologia’ no trabalho final do pesquisador]. Um homem pode aceitar integralmente a obra analítica de Marx e, ainda assim, ser conservador na prática. [Entenda-se esse interesse de Schumpeter por Bentham devido à grande aceitação que o seu pensamento teve nas culturas anglófonas; o que não é o caso no Brasil, onde ele é um ilustre desconhecido pela grande maioria].

 

É um erro comum entre leigos, filósofos e historiadores do pensamento prestar um respeito exagerado a tudo o que se apresenta como um princípio fundamental. Na verdade, as pessoas nem sempre utilizam, tanto no trabalho científico quanto nas questões práticas da vida, os princípios fundamentais aos quais professam fidelidade. Sendo o utilitarismo um conjunto de tais princípios fundamentais, devemos, portanto, indagar em cada caso qual papel lhe foi permitido desempenhar. No que diz respeito à economia, podemos, contudo, apresentar respostas gerais para quatro tipos de casos.

Primeiro, as hipóteses utilitaristas são completamente inúteis em questões de interpretação da história ou em questões que afetam as forças motrizes da história econômica.

Segundo, as hipóteses utilitaristas são ainda piores em todos os problemas que envolvem questões de esquemas reais de motivação, por exemplo, em um problema como os efeitos econômicos da herança.

Terceiro, as hipóteses utilitaristas são, na verdade, fundamentais para aquela parte da teoria econômica que geralmente se denomina Economia do Bem-Estar — herdeira das teorias italianas do século XVIII sobre a felicidade pública. Adotamos essas hipóteses habitualmente ao discutir problemas como os efeitos das “transferências de riqueza dos relativamente ricos para os relativamente pobres”. E é precisamente por isso que as proposições da economia do bem-estar nunca convencem ninguém que já não esteja convencido de antemão, independentemente de qualquer argumento. Pois, embora haja, certamente, um aspecto desses problemas para o qual a abordagem utilitarista seja apropriada, esse aspecto evidentemente não é o único: provamos muito pouco quando demonstramos que transferir o dinheiro de um homem rico para um homem pobre aumenta o bem-estar no sentido utilitarista. [Os comunistas fizeram isso e a única coisa que cresceu foi a Infelicidade Pública e o Mal Estar Social].

Em quarto lugar, no campo da teoria econômica, no sentido mais estrito do termo, as hipóteses utilitaristas são desnecessárias, mas inofensivas. Por exemplo, podemos enunciar e discutir as propriedades do equilíbrio econômico sem introduzi-las. Mas, se as introduzirmos, os resultados não são materialmente afetados, portanto, não são prejudicados. Isso nos permite salvar grande parte da análise econômica que, à primeira vista, parece irremediavelmente viciada por preconceitos utilitaristas.

[Considerando a importância que o utilitarismo teve na evolução da cultura inglesa e americana, além da época em que isso foi escrito, esse texto deve ter sido uma ‘tijolada’ nas principais correntes da cultura universitária americana, e mesmo na grande sociedade. Se Trump fosse o presidente naquela época, talvez o deportasse como um imigrante ilegal ou por atividade antiamericana].