quarta-feira, 29 de julho de 2026

 

SQUATTER: A OPERAÇÃO MAIS MALUCA DA 2ª GUERRA MUNDIAL

Eduardo Simões

David Stirling, nascido em 1915, era descendente de uma série de nobres militares escoceses por parte de pai e do rei Carlos II, por parte de mãe. Um nobre endinheirado, com uma fortuna suficiente para sustentá-lo após sua expulsão do Trinity College de Cambridge, uma das faculdades mais elitistas do Reino Unido, após 28 graves incidentes disciplinares — nunca terminou a universidade — e sustentá-lo em sua busca pessoal. Seja como artista em Paris e cowboy no sertão dos Estados Unidos, procurando descobrir sua vocação.

Quando estourou a 2ª Guerra, ele, que já tinha um curso na Guarda Escocesa, voltou para ela, até que, em meio às suas loucas aventuras e violações do regulamento, resolveu inventar uma unidade militar de operações especiais, para fazer ataques na retaguarda das tropas inimigas. Para obter autorização e recursos do alto-comando, ele, mentindo e fingindo-se mais ferido do que estava, entrou no quartel-general, e para não ser apanhado, após ser reconhecido, invadiu o gabinete do general Ritchie, para quem falou do seu projeto. Ritchie gostou e transmitiu a Sir Claude Auchinleck, o comandante geral das tropas britânicas no Norte da África. Auchinleck aprovou, mas adiantou: nada de recursos até mostrar algum retorno.

Stirling, que não era ‘comum’, juntou-se a outro... O oficial de ligação da aeronáutica, e um dos mais qualificados e condecorados agentes coletores de informação do exército britânico, Dudley Clark, de família humilde, mas aventureira, que alcançou a patente de brigadeiro, apesar de seus disfarces nada convencionais (abaixo) — mas, dizem, fora isso Clark tinha fama de andar sempre acompanhado de belas mulheres, e talvez por isso, ou nem tanto, além de não gostar de crianças, sem falar que, para um homem nascido no século XIX, seria difícil explicar esses disfarces para os filhos, ele nunca se casou. Foi coerente.



Da junção dos dois doidos, nasceu, em 1941, no Norte da África, o SAS (Special Air Service), uma unidade irregular de combate, que deveria saltar de paraquedas para fazer ações de sabotagem na retaguarda dos inimigos. Foram admitidos na unidade vários dos piores soldados de outras unidades do front — como o irlandês beberrão Paddy Maine, recém-saído da prisão por ter nocauteado o seu superior; nada especial para quem já nocauteou um cavalo com um soco, e que fará uma brilhante carreira no SAS. O treinamento era maluco; como não havia recursos para criar todo o aparato de treino, inclusive a torre de salto, os voluntários eram jogados de caminhões em alta velocidade, simulando a aterrissagem com paraquedas. Stirling mesmo os empurrava. Algumas costelas e braços tiveram que ser reparados. Falhas no equipamento de salto (o cabo estático) abreviaram a vida de dois voluntários, mas no dia seguinte os oficiais foram os primeiros a saltar para provar que o equipamento havia sido consertado.

Quando começou a operação Crusader, do exército inglês, em 1941, Stirling achou que era hora do SAS fazer a sua aparição, por meio de uma operação contra os campos de pouso alemães na retaguarda, na OPERAÇÃO SQUATTER (invasor). Na noite de 16 para 17 de novembro de 1941, a totalidade do SAS, entre 60 e 50 homens, saiu para a missão sem se importar com o tempo — sua missão era atacar aeroportos e comboios ítalo-germânicos na retaguarda. Boa parte de seu equipamento era improvisado ou roubado de outras unidades do exército inglês. Chegados ao solo, fariam a pé seu deslocamento para os alvos. Quando estavam sobrevoando a área de salto, perceberam estar em cima de uma tempestade de areia. Stirling não hesitou: saltou com todos os seus homens — algo como um grupo saltar de paraquedas no meio de uma tempestade de ventos. As chances de morrer ou se quebrar feio no salto são de quase 100%.

Dos quase 60 que saltaram, só uns 21 ou 22 sobreviveram, após andarem umas 36 horas pelo deserto do Saara, até chegar ao ponto de encontro, entre eles o próprio Stirling. Era impossível continuar a operação. Eles então voltaram e ainda posaram para uma foto onde aparecem os sobreviventes, inclusive o fotógrafo, do qual só aparece a sombra. Stirling, com seu metro e noventa e oito, se destaca. Depois dessa, melhor treinados, os SAS se tornaram uma tropa lendária, capaz das missões impossíveis de verdade, modelo de todas as outras que lhe seguiram. E, com isso, o jovem louco, que não sabia o que fazer da vida, escreveu um nome gigante na história militar, até morrer, em 1990, com um título de nobreza conquistado ao enfrentar, e ensinar outros homens a enfrentar, missões que a quase totalidade das pessoas comuns classificaria como impossíveis. 

O lema da unidade era: “Quem ousa, vence”, e o principal general inglês na guerra, Bernard Montgomery, exprimiu com exatidão quem era Stirling: “o rapaz Stirling é louco, completamente, completamente louco. No entanto, numa guerra, há lugar para os loucos.”

Vejam o que diz o texto da Wikipedia em português sobre o SAS de Stirling, onde se percebe a importância dessa iniciativa de Stirling na criação de unidades similares do mundo inteiro, redefinindo a forma de as forças de segurança e militares lidarem com situações extremas.

“É considerada a primeira “SOF - Special Operation Force” e criadora das operações tipo “Destrua e Fuja”. Dentre diversas forças especiais, a SAS é uma das mais respeitadas do mundo, pelo fato de ser uma unanimidade, assim mantendo uma influência tão grande no Ocidente como na Spetsnaz GRU da Rússia e no Oriente.

Muitos grupos de operações especiais do mundo foram inspirados no SAS Britânico, como: a Força Delta americana, Sayeret Matkal de Israel, GSG 9 [da polícia alemã], Special Air Service Regiment [da Australia], KSK [do exército alemão], GIGN [da polícia francesa], GOE [da polícia portuguesa], o GROM da Polônia, SFF-SG da Índia.”


A foto parece dizer: “já que a guerra é inevitável e não fomos nós que a fizemos, e sim os políticos, por que não vivê-la como uma aventura?” Stirling conversa com uma equipe do SAS recém-retornada de uma missão de 3 meses, no dia 18 de janeiro de 1943. Ele conversa com o tenente Edward McDonald, do destacamento L.

Grupo francês do SAS na Tunísia, em 1943, mostrando que até na guerra os franceses fazem questão de parecer mais elegantes que os ingleses. Ambos os grupos igualmente mortais.


 


O POLÍTICO QUE EXERCE A POLÍTICA COMO SE FOSSE CIÊNCIA É UM TONTO, E O CIENTISTA QUE PRATICA A CIÊNCIA COMO SE FOSSE POLÍTICA É UM IGNORANTE MAL-INTENCIONADO.

terça-feira, 28 de julho de 2026

 



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PESQUISAS GENÉTICAS NAS POPULAÇÕES AMERICANAS

[Artigo traduzido do site do Florida Museum].

O DNA antigo reconta a história dos primeiros habitantes do Caribe.

Por Natalie van Hoose • 23 de dezembro de 2020
  
A história dos habitantes originais das ilhas do Caribe ganha maior nitidez em um novo estudo publicado na revista Nature , que combina décadas de trabalho arqueológico com avanços na tecnologia genética.
Uma equipe internacional liderada por David Reich, da Escola de Medicina de Harvard, analisou os genomas de 263 indivíduos no maior estudo de DNA humano antigo nas Américas até o momento. A análise genética traça duas grandes ondas migratórias no Caribe, realizadas por dois grupos distintos, com milhares de anos de diferença, revelando um arquipélago povoado por povos altamente nômades, com parentes distantes frequentemente vivendo em ilhas diferentes.

O laboratório de Reich também desenvolveu uma nova técnica genética para estimar o tamanho da população no passado, mostrando que o número de pessoas que viviam no Caribe quando os europeus chegaram era muito menor do que se pensava anteriormente — provavelmente dezenas de milhares, em vez do milhão ou mais relatado por Colombo e seus sucessores.
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Os arqueólogos frequentemente se baseiam em vestígios da vida doméstica — cerâmica, ferramentas, ossos e conchas descartadas — para reconstruir o passado. Agora, avanços tecnológicos no estudo do DNA antigo estão lançando nova luz sobre a movimentação de animais e humanos, particularmente no Caribe, onde cada ilha pode ser um microcosmo de vida único.

Embora o calor e a umidade dos trópicos possam decompor rapidamente a matéria orgânica, o corpo humano contém um verdadeiro cofre de material genético: uma pequena parte do osso que protege o ouvido interno, excepcionalmente densa. Utilizando principalmente essa estrutura, pesquisadores extraíram e analisaram o DNA de 174 pessoas que viveram no Caribe e na Venezuela entre 400 e 3.100 anos atrás, combinando os dados com o DNA de 89 indivíduos previamente sequenciados.
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Duas ondas populacionais, separadas por milhares de anos.



Essas lâminas representam a tecnologia do início da Idade Arcaica e eram usadas para cortar, cavar, fabricar ferramentas como lanças e pontas, e preparar arbustos para construções. Foto do Museu da Flórida por William Keegan

As evidências genéticas oferecem novas perspectivas sobre o povoamento do Caribe. Os primeiros habitantes das ilhas, um grupo de usuários de ferramentas de pedra, chegaram a Cuba de barco há cerca de 6.000 anos, expandindo-se gradualmente para o leste, para outras ilhas, durante o período Arcaico da região. Sua origem permanece incerta — embora sejam mais aparentados com os povos da América Central e do Sul do que com os da América do Norte, sua genética não corresponde à de nenhum grupo indígena específico. No entanto, artefatos semelhantes encontrados em Belize e Cuba podem sugerir uma origem centro-americana, afirmou Keegan.

Há cerca de 2.500 a 3.000 anos, agricultores e ceramistas aparentados aos povos de língua arawak do nordeste da América do Sul [muito presentes no Brasil] estabeleceram uma segunda rota para o Caribe. Utilizando os braços do rio Orinoco como rodovias, eles viajaram do interior até a costa da Venezuela e seguiram para o norte, em direção ao Mar do Caribe, estabelecendo-se em Porto Rico e, eventualmente, migrando para o oeste. Sua chegada marcou o início da Era da Cerâmica na região, caracterizada pela agricultura e pela produção e uso generalizados de cerâmica.

Com o tempo, quase todos os vestígios genéticos dos povos da Era Arcaica desapareceram, com exceção de uma comunidade isolada no oeste de Cuba que persistiu até a chegada dos europeus [os cálculos apontam para o desaparecimento de até 98% dos portadores desses genes]. Casamentos entre os dois grupos eram raros, com apenas três indivíduos no estudo apresentando ancestralidade mista.
Muitos cubanos, dominicanos e porto-riquenhos da atualidade são descendentes de povos da Idade da Cerâmica, bem como de imigrantes europeus e africanos escravizados. No entanto, pesquisadores observaram apenas evidências marginais de ancestralidade da Idade Arcaica em indivíduos modernos.
“Isso é um grande mistério”, disse Keegan. “Para Cuba, é especialmente curioso que não vejamos mais ancestralidade arcaica.”

Mudanças nos estilos de cerâmica não estão relacionadas a novas migrações.


Esses vasos em forma de efígie são exemplos de cerâmica saladóide [um tipo específico de cultura ceramista, em Saladero, nas margens do rio Orinoco, na Venezuela], caracterizada por pintura branca sobre fundo vermelho e formas ornamentadas. Foto cedida por Corinne Hofman.

Durante a Era Cerâmica, a cerâmica caribenha passou por pelo menos cinco mudanças marcantes de estilo ao longo de 2.000 anos. A cerâmica vermelha ornamentada, decorada com desenhos pintados de branco, deu lugar a vasos simples, de cor bege, enquanto outros vasos eram pontuados com pequenos pontos e incisões ou apresentavam rostos de animais esculpidos que provavelmente também serviam como alças.

Alguns arqueólogos apontaram essas transições como evidência de novas migrações para as ilhas. Mas o DNA conta uma história diferente, sugerindo que todos os estilos foram desenvolvidos por descendentes das pessoas que chegaram ao Caribe há 2.500 a 3.000 anos, embora possam ter interagido e se inspirado em povos de fora.

“Essa era uma pergunta que talvez não tivéssemos pensado em fazer se não tivéssemos um especialista em arqueologia em nossa equipe”, disse a coautora principal Kendra Sirak, pesquisadora de pós-doutorado no Laboratório Reich. “Documentamos essa notável continuidade genética ao longo das mudanças no estilo da cerâmica. Falamos sobre 'vasos versus pessoas', e, até onde sabemos, são apenas vasos.”

Estudos genéticos revelam conexões familiares entre ilhas

Destacando a interconectividade da região, um estudo de cromossomos X masculinos revelou 19 pares de “primos genéticos” vivendo em ilhas diferentes — pessoas que compartilham a mesma quantidade de DNA como primos biológicos, mas que podem estar separadas por gerações. No exemplo mais impressionante, um homem foi enterrado nas Bahamas enquanto seu parente foi sepultado a cerca de 965 quilômetros de distância, na República Dominicana.
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Descobrir uma proporção tão alta de primos genéticos em uma amostra de menos de 100 homens é mais um indicador de que o tamanho total da população da região era pequeno, disse Reich, professor de genética no Instituto Blavatnik da HMS e professor de biologia evolutiva humana em Harvard.
Quando você analisa amostras de dois indivíduos modernos, raramente descobre que eles são parentes próximos”, disse ele. “Aqui, estamos encontrando parentes em todos os lugares.”
Revisão das estimativas do tamanho da população caribenha

Uma técnica desenvolvida pelo coautor do estudo, Harald Ringbauer, pós-doutorando no Laboratório Reich, usou segmentos compartilhados de DNA para estimar o tamanho da população no passado, um método que também poderia ser aplicado a futuros estudos de povos antigos. A técnica de Ringbauer mostrou que cerca de 10.000 a 50.000 pessoas viviam em duas das maiores ilhas do Caribe, Hispaniola e Porto Rico, pouco antes da chegada dos europeus [em todo o Caribe talvez fossem uns 80 mil]. Isso está muito aquém do milhão de habitantes que Colombo descreveu a seus patronos, provavelmente para impressioná-los, disse Keegan.

Mais tarde, o historiador do século XVI, Bartolomé de las Casas, afirmou que a região abrigava 3 milhões de pessoas antes de ser dizimada pela escravidão europeia e por doenças. Embora isso também fosse um exagero, o número de pessoas que morreram em decorrência da colonização continua sendo uma atrocidade, disse Reich.

Neste momento, não me importo se estou certo ou errado”, disse ele. “É simplesmente empolgante ter uma base mais sólida para reavaliar como encaramos o passado no Caribe. Um dos resultados mais significativos deste estudo é que ele demonstra a importância da cultura para a compreensão das sociedades humanas. Os genes podem ser unidades discretas e mensuráveis, mas o genoma humano é construído culturalmente.”

Daniel Fernandes , da Universidade de Viena e da Universidade de Coimbra, em Portugal, também foi co-primeiro autor do estudo. Outros co-autores seniores são Alfredo Coppa, da Universidade Sapienza de Roma, Mark Lipson, da Harvard Medical School e Harvard, e Ron Pinhasi, da Universidade de Viena.
Este trabalho foi financiado pela National Geographic Society, National Science Foundation, National Institutes of Health/National Institute of General Medical Sciences, Paul Allen Foundation, John Templeton Foundation e Howard Hughes Medical Institute.

O original em inglês
https://www.floridamuseum.ufl.edu/science/ancient-dna-retells-story-of-caribbeans-first-people/


segunda-feira, 27 de julho de 2026


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA - 33

BAHIA (O DESERTO DAS ALMAS)

 

O destino do Brasil

No inferno dos homens sem alma e das almas sem honra, quando Deus se foi e a luz se apagou na terra do sol, nós nos tornamos íntimos das trevas.

O Barão de Cotegipe, nobre e político baiano, disse certa vez: “Se a República esperar o romper do dia e sair à rua ao cair da noite, depois de tatear algum tempo nas trevas, dará com tudo isso no Vaza-Barris.” (Antônio Coelho Rodrigues, A República na América do Sul ou um pouco de história e crítica oferecido aos latino-americanos, Senado Federal, Brasília, 2016, p. 36).

Há duas versões possíveis para o nome 'Vaza-Barris', dado ao rio que nasce no sopé da serra dos Macacos, próximo a Uauá, em cujas margens nasceu Canudos. Uma diz que, como a navegação do rio é difícil e acidentada, os barris de água nos navios tendiam a se chocar e afrouxar suas tábuas, vazando o seu conteúdo. A segunda remete ao fato de que os navios dos séculos XVI e XVII tinham barris nos quais os marujos faziam suas necessidades ou aliviavam o enjoo, e que, volta e meia, precisavam ser limpos. É possível que estivessem a fazer isso na foz do rio, justo quando alguém pensou em lhe dar um nome.

 

O santo do Ceará

Todo cearense, quando não peca, é um santo, embora às vezes seja difícil discernir, neles e em todos os outros, os limites entre a santidade e a loucura. Esse estado também tem uma quantidade apreciável de gaiatos e gênios matemáticos que, em virtude da antiga precariedade das condições locais, davam a impressão de brotar por geração espontânea, aleatoriamente, como se Deus estivesse se divertindo em burlar a lógica. Escapei desse destino — não sou santo nem matemático —, mas o nosso personagem não, já que foi um pretenso santo, filho de um pretenso gênio da matemática, embora nenhum dos dois jamais desenvolveu uma verve humorística (1). Às vezes dá tudo numa pessoa só, sem nunca a gente saber onde começa e acaba o gênio, o santo, o gaiato, o doido ou somente um pobre coitado.

O nosso santo chamou-se, no batismo, Antônio Vicente Mendes Maciel, nascido em Quixeramobim, também conhecida como Vila Nova de Campo Maior, no dia 13 de março de 1830, filho de Maria Joaquina de Jesus e de Vicente Mendes Maciel, um homem com uma história que, de certa forma, prenunciava a do filho. Sua madrinha de batismo foi uma rica fazendeira, Maria Francisca de Paula, a mãe da famosa Marica Lessa (2), mostrando que seu pai tinha prestígio na sociedade local.

O pai era membro da família Maciel, um clã remediado, numeroso e aguerrido. Um Maciel não levava desaforo para casa nem morria na cama, e, nesse tempo, eles fizeram guerra a outra família, igualmente numerosa, porém mais rica, os Araújos, supostamente por causa de uma fofoca ociosa de mesa de botequim. O mesmo lugar onde o atual presidente quer resolver os problemas do país e do mundo.

Vicente Maciel era um filho natural do patriarca Miguel Carlos Maciel e, por isso, não estava obrigado a participar das guerras da família; e, de fato, ele preferiu ir morar em Quixeramobim, à sombra de um potentado da família dos Veras que, embora aliados aos Araújos, não tinham mágoas dos Maciel, e aí Vicente constituiu uma família com Maria Joaquina de Jesus, tornando-se um comerciante razoavelmente bem-sucedido.

Enquanto isso, a guerra dos Maciel contra os Araújo escalava, vitimando o pai e o tio de Vicente, Miguel Carlos e Antônio, além do seu famoso meio-irmão, Miguel Carlos Filho. Este homem morreu enganchado com Manuel Araújo, cada um com a sua faca cravada no outro, segundo uma história semilendária que corria o sertão. Quem ousaria desmenti-la?

Euclides da Cunha disse em Os Sertões: O nordestino é, antes de tudo, um forte, e isso é verdade, mas não porque o nordestino tenha em si uma força especial, uma herança genética; é que a dureza das condições de sobrevivência, no final do século XIX, era tamanha que só os fortes sobreviviam, ao contrário das comunidades tecnologicamente mais adiantadas, cuja força está justamente em propiciar condições para os mais fracos sobreviverem, prosperarem e terem descendência. No sertão antigo, o que valia era a lei natural, a lei do mais forte, que nem sempre era a dos mais ricos ou dos donos dos meios de produção.

Mas mesmo aqueles que sobreviviam pagavam um preço alto ao precário equilíbrio entre o ambiente natural e psicossocial que os rodeava, sem falar de outra característica comum em comunidades muito isoladas: a endogamia, o casamento entre parentes próximos, que tende a potencializar genes recessivos prejudiciais, gerando disfunções físicas e mentais. 

O jornalista João Brígido dos Santos, que conheceu Vicente Mendes Maciel, o pai de Conselheiro, diz isso dele:

“Um bonito homem… vigoroso, inteligente, mas retraído, taciturno, mau e perigosamente desconfiado, bem que muito cortês e obsequioso, e honrado. Tinha momentos terríveis de cólera, se tocava no álcool. Em um desses momentos, deu tantas facadas na mulher que a deixou sacramentada” (citado por Fernando Câmara, Antônio Conselheiro e o Centenário de Canudos, palestra proferida nas Associações das Federações Comunitárias de Quixeramobim, em 22 de outubro de 1993).

Vicente tinha surtos de loucura, mas não podemos dizer se foi por causa disso que Antônio, aos 4 anos, e suas duas irmãs ficaram órfãos de mãe por dois anos, até Vicente se casar de novo com uma mulher que não simpatizava com o menino. Idoso, ele ainda recordava os maus-tratos. Antônio Conselheiro foi uma criança abusada.

Vicente conseguiu amealhar um certo patrimônio, dando boas condições materiais para a família, mas, com o tempo, as suas crises de demência ficaram mais frequentes, fazendo-o tomar decisões extravagantes — segundo Benício, ele tinha mania de reformar as casas que tinha — que dilapidavam o patrimônio da família, exasperando a madrasta, que descontava em Antônio. Vicente falece em 1855.

 

Antônio era um bom rapaz, calmo, estudioso, com um fino verniz de cultura geral, gentil, introvertido e muito religioso. Havia um vazio emocional imenso — causado por um pai mentalmente instável e uma madrasta repressora — que ele preenchia com uma literatura rasa, escapista, de aventuras de cavalaria, livros devocionais e biografias de santos, repletas de milagres e acontecimentos maravilhosos. Segundo Fernando Câmara, o povo da cidade gostava dele.

Ignorando o conselho dos mais velhos, o ingênuo e bondoso Antônio casou-se com uma prima de primeiro grau, Brasilina Laurentina de Lima, de somente 15 aninhos, em 1857. Uma adolescente de pele muito branca, olhos e cabelos negros, atraentes como Capitu, cheia de sedução e maneirismos muito precoces, aprendidos na convivência com a mãe, uma Maciel de hábitos muito livres.

Um temperamento sonhador e a dificuldade de priorizar um objetivo fizeram Antônio perder várias oportunidades e quebrar a empresa do pai, tornando-se alfabetizador de crianças pobres e depois advogado leigo. Não se deu bem em nenhuma das duas profissões — uma observação do Barão de Jeremoabo patenteia que a sua cultura geral era superficial, ainda que enorme, para os padrões da cultura média, inclusive a das elites, nos sertões (3).

O resultado do empobrecimento da família foi a fragilização dos votos matrimoniais, assumidos com uma companheira tão imatura, e que se romperam de vez quando Antônio a surpreendeu, em sua casa, em adultério com um soldado da polícia. Humilhado, ele foge para a fazenda de um amigo, e ela se muda com o amante para a cidade de Sobral, deixando um filho ou dois para ele criar.

Nesse momento, ele toma a decisão que mudará tudo. Incapaz de se curar de sua vergonha, ele afunda na autopiedade: abandona o seu filho, ou filhos, deixando-o(s) com a sogra, e se muda para Santa Quitéria, onde trabalha como professor e se une a uma artesã, Joana Imaginária, com quem tem mais um filho, Joaquim Aprígio. Porém, ele também os abandona e começa a mergulhar em crises de loucura e confusão mental de cunho religioso (4).

Por volta de 1865, ele fica sabendo, na casa de uma de suas irmãs, que a ex-esposa, abandonada pelo soldado, se tornara prostituta e que vivia da caridade pública, mas também circula que, na casa dessa irmã, ele tem um surto e fere à faca o cunhado, que tentou contê-lo. No final dos anos 60 ou início dos anos 70, ele abandona de vez a companhia de parentes e amigos e se perde pela caatinga para se tornar um novo homem, fazer a sua jornada do herói, nas condições que lhe foram dadas.

Será que em algum momento ele se perguntou se, caso não tivesse abandonado tudo e ficado para criar o(s) filho(s) do jeito que desse, ele não poderia ter dado a volta nessa história? Mas, como fez isso, e ainda abandonou os filhos que teve, não terá ficado um sentimento de culpa e pensamentos de que ele não tinha mais salvação, no estilo da Missão Abreviada?

Nesse meio tempo, ele ouve falar, e talvez participe, das missões de José Antônio de Maria Ibiapina, o padre Ibiapina, um ex-juiz e ex-professor do Barão de Cotegipe, que, abandonado pela noiva, larga tudo e vira padre. Em 1866, preocupado com os mais pobres, sai em missão pelos sertões adentro.

“Sempre de batina, a pé ou a cavalo, [Ibiapina] peregrinou por Pernambuco, Rio Grande do Norte, Piauí e Paraíba, catequizando, organizando missões, construindo capelas, igrejas, açudes, cacimbas, poços, cemitérios e hospitais, chegando a fundar mais de vinte Casas de Caridade para moças órfãs, onde elas recebiam educação religiosa e moral, aprendiam a ler, escrever e trabalhos domésticos, além de terem assistência à saúde [já Conselheiro não queria conversa com mulheres]… ensinou técnicas agrícolas aos sertanejos… e defendeu os direitos dos trabalhadores rurais” [enquanto Conselheiro só queria saber das coisas espirituais]. (Padre Mestre Ibiapina, 05/08/2021, site institucional da Universidade Federal de Pernambuco).

Num longo processo de mutação interna e externa, compatível com os valores e as expectativas pessoais e do meio social onde vivia, Antônio Vicente Mendes Maciel 'transmudara-se' de um humilde rapaz, do qual todos gostavam, mas também abusavam, em um líder carismático, poderoso e autoritário. Um campeão dos valores tradicionais, contra um mundo em transformação. Assume um nome, “Peregrino”, como se não fosse deste mundo — e não o era em muitos sentidos. Para o povo, ele é Antônio Conselheiro, de cuja boca só saem bons conselhos, além de outros nomes que mostram uma certa confusão entre a realidade de um pobre coitado e a idealização de um poderoso profeta, que dele faziam os sertanejos, e que o confundia também.

Mas, por mais que alguém mude, qualquer mudança só será possível a partir de um acordo consciente com o passado, porque é impossível enterrar a própria história. Ela faz parte do que cada um é a cada momento. O inofensivo e atrapalhado comerciante, professor e advogado quixeramobinense continuavam nele, fossem ou não compatíveis com a sua nova forma de vida.

Em primeiro lugar, ele tivera uma esposa e um filho, ou filhos, e, em que pese o fato de ela o ter traído, isso não justificava, aos olhos da doutrina católica, o abandono do filho, ou filhos, o que era considerado um pecado grave desde a mais remota Idade Média. Isso o colocava em situação de impossibilidade de comunhão.

Em segundo lugar, ele constituíra uma família fora da Igreja, com a artesã Joana, e a abandonara para se dedicar à pregação. Porém, desde os séculos XII e XIII, a Igreja ensinava que o homem casado só podia deixar a esposa para ser padre com o consentimento dela, e com o compromisso de ela guardar celibato. Além disso, se o casal tivesse filho, o homem só poderia ingressar na carreira religiosa após essa criança ter se tornado um adulto independente.

Esse homem, duas vezes em pecado grave diante da Igreja, tomou ares de guardião da fé católica tradicional e fez da Missão Abreviada o seu livro de cabeceira, com o hábito de sua leitura e até cópia diária. Esse livro, absurdamente penitencial, que atiça, como poucos, os sentimentos de culpa do leitor até em relação aos seus mais despreocupados pensamentos. Como ele conseguia suportar isso sem enlouquecer?

Se é que não enlouqueceu?   


domingo, 26 de julho de 2026

 



OS PROFETAS DO SOCIALISMO

O artigo ‘Socialism’ da The Concise Encyclopedia of Economics, editada por David Handerson em 1993, logo após a queda da União Soviética, traz uma elucidativa abordagem feita por um artigo de Robert Heilbronner, um economista americano, que por um bom tempo militou nas fileiras do socialismo, e que, naquele momento, como toda pessoa inteligente, dava o braço para ser torcido pelos fatos, enquanto explicava com muito didatismo a natureza desses mesmos fatos. Quem quiser ver o texto em inglês, o endereço é (https://www.econlib.org/library/Enc/Socialism.html).

Segue a sua tradução.

“O socialismo — definido como uma economia planificada centralmente, na qual o governo controla todos os meios de produção — foi o fracasso trágico do século XX. Nascido do compromisso de remediar os defeitos econômicos e morais do CAPITALISMO, ele superou em muito o capitalismo tanto em disfuncionalidade econômica quanto em crueldade moral. Contudo, a ideia e o ideal do socialismo persistem. Se o socialismo, de alguma forma, retornará eventualmente como uma grande força organizadora nos assuntos humanos é incerto, mas ninguém pode avaliar com precisão suas perspectivas sem considerar a dramática história de sua ascensão e queda.

O Nascimento do Planejamento Socialista. Costuma-se pensar que a ideia de socialismo deriva da obra de KARL MARX. Na verdade, Marx escreveu apenas algumas páginas sobre o socialismo, seja como um projeto moral ou prático para a sociedade. O verdadeiro arquiteto de uma ordem socialista foi Lenin, que primeiro enfrentou as dificuldades práticas de organizar um sistema econômico sem os incentivos da busca pelo lucro ou as restrições autogeradoras da COMPETIÇÃO.

Lenin partiu da antiga ilusão de que a organização econômica se tornaria menos complexa uma vez descartado o lucro e o mecanismo de mercado — “tão evidente”, escreveu ele, quanto “as operações extraordinariamente simples de observar, registrar e emitir recibos, ao alcance de qualquer pessoa que saiba ler e escrever e conheça as quatro regras básicas da aritmética”. Na verdade, a vida econômica conduzida sob essas quatro regras básicas tornou-se tão desorganizada que, quatro anos após a revolução de 1917, a produção soviética havia caído para 14% do seu nível pré-revolucionário.

Em 1921, Lenin foi forçado a instituir a Nova Política Econômica (NEP), um retorno parcial aos incentivos de mercado do capitalismo. Essa breve mistura de socialismo e capitalismo chegou ao fim em 1927, após Stalin instituir o processo de coletivização forçada que visava mobilizar os recursos russos para o seu salto rumo ao poder industrial. O sistema que se desenvolveu sob Stalin e seus sucessores assumiu a forma de uma pirâmide de comando. Em seu ápice estava o Gosplan, a mais alta agência estatal de planejamento, que estabelecia diretrizes gerais para a economia, como a meta de crescimento e a alocação de esforços entre a produção militar e civil, entre a indústria pesada e a leve, e entre as diversas regiões. O Gosplan transmitia as diretrizes gerais aos sucessivos ministérios de planejamento industrial e regional, cujos consultores técnicos desdobravam o plano nacional em diretrizes específicas para fábricas, polos industriais, fazendas coletivas e assim por diante.

Esses milhares de subplanos individuais eram finalmente analisados ​​pelos gerentes de fábrica e engenheiros que, eventualmente, teriam que implementá-los. Em seguida, o plano de produção subia novamente a pirâmide, juntamente com as sugestões, emendas e solicitações daqueles que o haviam analisado. Por fim, um plano completo era alcançado por meio de negociação, votado pelo Soviete Supremo e transformado em lei. Assim, o plano final assemelhava-se a um imenso livro de encomendas, especificando os componentes, as vigas de aço, a produção de grãos, os tratores, o algodão, o papelão e o carvão que, em sua totalidade, constituíam a produção nacional. Em teoria, uma carteira de encomendas desse tipo deveria permitir aos planejadores reconstituir uma economia funcional a cada ano — desde que, é claro, as porcas se encaixassem nos parafusos; as vigas tivessem as dimensões corretas; a produção de grãos fosse armazenada adequadamente; os tratores estivessem em condições de uso; e o algodão, o papelão e o carvão fossem dos tipos necessários para seus múltiplos usos. Mas havia um abismo vasto e crescente entre a teoria e a prática.

Surgem problemas. A lacuna não apareceu imediatamente. Em retrospectiva, vemos que a tarefa enfrentada por Lenin e Stalin nos primeiros anos não era tanto econômica, mas sim quase militar: mobilizar o campesinato para formar uma força de trabalho capaz de construir estradas e ferrovias, barragens e redes elétricas, complexos siderúrgicos e fábricas de tratores. Essa era uma tarefa formidável, mas muito menos formidável do que aquela que o socialismo enfrentaria cinquenta anos depois, quando a tarefa não era tanto criar empreendimentos enormes, mas sim empreendimentos relativamente autossuficientes, e integrar todos os resultados em um conjunto coerente.

Ao longo da década de 1960, a economia soviética continuou a apresentar um forte crescimento geral — aproximadamente o dobro do dos Estados Unidos [se mal pergunto, não é isso o que acontece com a China agora, em condição mais opaca ainda?] —, mas os observadores começaram a notar sinais de problemas iminentes. Um deles era a dificuldade de especificar os resultados em termos que maximizassem o bem-estar de todos na economia, e não apenas os bônus ganhos por gerentes de fábrica individuais por “superarem” suas metas estabelecidas. O problema era que o plano especificava os resultados em termos físicos. Uma das consequências foi que os gerentes passaram a maximizar a produção em metros ou toneladas, e não a qualidade. Uma famosa charge na revista satírica Krokodil mostrava um gerente de fábrica exibindo orgulhosamente sua produção recorde: um único prego gigantesco suspenso por um guindaste.

À medida que o fluxo econômico se tornava cada vez mais congestionado e obstruído, a produção passou a ser realizada em “explosões” no final de cada trimestre ou ano, quando todos os recursos eram utilizados para atingir metas preestabelecidas. O mesmo sistema rígido logo gerou expedidores, ou tolkachi, para organizar os envios aos gerentes sobrecarregados que precisavam de insumos não planejados — e, portanto, inacessíveis — para alcançar seus objetivos de produção. Pior ainda, sem o direito de comprar seus próprios suprimentos ou de contratar ou demitir seus próprios trabalhadores, as fábricas criaram oficinas de fabricação, depois centros de distribuição e, finalmente, suas próprias MORADIAS para os trabalhadores, a fim de manter o controle sobre seus pequenos territórios.

Não é surpreendente que esse sistema cada vez mais complexo tenha começado a gerar sérias disfunções por trás das estatísticas gerais de crescimento. Durante a década de 1960, a União Soviética tornou-se o primeiro país industrializado da história a sofrer uma queda prolongada na expectativa de vida média em tempos de paz, sintoma de sua desastrosa má alocação de recursos. Instalações de pesquisa militar podiam obter tudo o que precisavam, mas hospitais eram considerados de baixa prioridade [o general-presidente Medici, da ditadura brasileira, disse certa vez referindo-se ao Brasil: “o país está bem, mas o povo vai mal”; os extremos se complementam].

Na década de 1970, os números indicavam claramente uma desaceleração da produção geral. Na década de 1980, a União Soviética reconheceu oficialmente o fim iminente do crescimento que, na realidade, era um declínio não oficial. Em 1987, a primeira lei oficial incorporando a perestroika — reestruturação — entrou em vigor. O presidente Mikhail Gorbachev anunciou sua intenção de reformular a economia de cima a baixo, introduzindo o mercado, restabelecendo a propriedade privada e abrindo o sistema para o livre intercâmbio econômico com o Ocidente. Setenta anos de ascensão socialista haviam chegado ao fim.

Planejamento Socialista aos Olhos do Ocidente: A compreensão das dificuldades do planejamento central demorou a surgir. Em meados da década de 1930, enquanto o processo de industrialização russo estava disparando, poucos se manifestavam sobre seus problemas. Entre esses poucos estavam Ludwig von Mises, um economista de livre mercado eloquente e extremamente argumentativo, e Friedrich Hayek, de temperamento muito mais contemplativo, que receberia mais tarde o Prêmio Nobel por seu trabalho em teoria monetária. Juntos, Mises e Hayek lançaram um ataque à viabilidade do socialismo que, na época, parecia pouco convincente em sua argumentação sobre os problemas funcionais de uma economia planificada. Mises, em particular, argumentava que um sistema socialista era impossível porque não havia como os planejadores obterem a informação (ver INFORMAÇÃO E PREÇOS) — “produza isto, não aquilo” — necessária para uma economia coerente. Essa informação, enfatizava Hayek, emergia espontaneamente em um sistema de mercado a partir da subida e descida dos preços. Um sistema de planejamento estava fadado ao fracasso precisamente por lhe faltar tal mecanismo de sinalização [outra opção à desorganização do socialismo é a loucura de tentar mascarar o preço por meio de subsídios diretos, como faz o nosso infeliz governo com o preço dos combustíveis, e outros, só para ganhar a eleição].

O argumento de Mises-Hayek encontrou seu contra-argumento mais formidável em dois artigos brilhantes de Oskar Lange, um jovem economista que se tornaria o primeiro embaixador da Polônia nos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial. Lange propôs-se a demonstrar que os planejadores, na verdade, teriam exatamente as mesmas informações que guiariam uma economia de mercado. Essas informações seriam reveladas à medida que os estoques de mercadorias aumentassem e diminuíssem, sinalizando que a OFERTA era maior que a DEMANDA ou que a demanda era maior que a oferta. Assim, enquanto os planejadores observavam os níveis de estoque, eles também aprendiam quais dos preços administrados (isto é, ditados pelo Estado) estavam muito altos e quais muito baixos. Restava, portanto, apenas ajustar os preços para que a oferta e a demanda se equilibrassem, exatamente como no mercado.

A resposta de Lange era tão simples e clara que muitos acreditaram que o argumento de Mises-Hayek havia sido demolido. Na verdade, agora sabemos que o argumento deles era muito profético. Ironicamente, porém, Mises e Hayek estavam certos por uma razão que não previram com a mesma clareza que o próprio Lange. “O verdadeiro perigo do socialismo”, escreveu Lange, em itálico, “é o da burocratização da vida econômica.” Mas ele diluiu a força da observação ao acrescentar, sem itálico: “Infelizmente, não vemos como o mesmo perigo, ou mesmo um perigo maior, possa ser evitado sob o capitalismo monopolista” (Lange e Taylor 1938, pp. 109–110) [embora, no capitalismo, apenas a empresa vá à falência e não todo o país, se um dia o capitalismo monopolista se tornar uma realidade, e não a fantasia, como é hoje].

Os efeitos da “burocratização da vida econômica” são dramaticamente relatados em O Ponto de Virada, um ataque mordaz às realidades do planejamento econômico socialista feito por dois economistas soviéticos, Nikolai Smelev e Vladimir Popov, que apresenta exemplos do processo de planejamento em funcionamento. Em 1982, para estimular a produção de luvas a partir de peles de toupeira, o governo soviético aumentou o preço que estava disposto a pagar por peles de toupeira de vinte para cinquenta copeques [subunidade da moeda russa] por pele. Smelev e Popov observaram: as compras estatais aumentaram e agora todos os centros de distribuição estão cheios dessas peles. A indústria não consegue utilizá-las todas e, muitas vezes, elas apodrecem nos armazéns antes de serem processadas. O Ministério da Indústria Leve já solicitou duas vezes ao Goskomtsen [Comitê Estatal de Preços] a redução dos preços, mas “a questão ainda não foi decidida”. Isso não é surpreendente. Seus membros estão ocupados demais para decidir. Não têm tempo: além de definir os preços dessas peles, precisam acompanhar outros 24 milhões de preços. E como podem saber quanto reduzir o preço hoje para não terem que aumentá-lo amanhã? Essa história diz muito sobre o problema de um sistema de planejamento centralizado.

O elemento crucial que falta não é tanto a “informação”, como argumentaram Mises e Hayek, mas sim a motivação para agir com base na informação. Afinal, os estoques de peles de toupeira indicaram aos planejadores que sua produção estava, a princípio, muito baixa e, depois, muito alta. O que faltava era a disposição — ou melhor, a necessidade — de responder aos sinais da variação dos estoques. Uma empresa capitalista responde às mudanças de preços porque a omissão dessa resposta acarretaria prejuízos. Um ministério socialista ignora as mudanças nos estoques porque os burocratas aprendem que fazer algo tem mais probabilidade de lhes causar problemas do que não fazer nada, a menos que a inação resulte em um desastre absoluto [como em Tchernobyl].

No final da década de 1980, um desastre econômico absoluto chegou à União Soviética e seus antigos satélites orientais, e esses países ainda estão tentando construir alguma forma de estrutura econômica que não apresente mais a inércia e a indiferença mortais que se tornaram as marcas registradas do socialismo. É cedo demais para prever se esses esforços serão bem-sucedidos. O principal obstáculo para uma verdadeira perestroika é a impossibilidade de criar um sistema de mercado funcional sem uma base sólida de propriedade privada, ainda mais quando a criação de tal base encontra uma ferrenha oposição na antiga burocracia estatal e a hostilidade das pessoas comuns, há muito são treinadas para desconfiar da busca pela riqueza.

Diante de tais incertezas, todas as previsões são temerárias, exceto uma: nenhuma transição rápida ou fácil do socialismo para alguma forma de não socialismo é possível. Transformações de tal magnitude são convulsões históricas, não meras mudanças de política. Sua conclusão deve ser medida em décadas ou gerações, não em anos.”


quinta-feira, 23 de julho de 2026


 ODISSEIA DE NOLAN: ENTRE A TESTOSTERONA DOMESTICADA E A VIOLÊNCIA GRATUITA

Eduardo Simões

(tem spoiler)

As pessoas normalmente não perguntam, talvez porque temam a resposta, por que o homem frequentemente age com tanta intensidade e ‘perde’ a cabeça, causando muitos momentos constrangedores e até tragédias? Entretanto, se observassem bem, sem negar a importância dos fatores hormonais, afinal sobram pesquisas evidenciando os efeitos estressantes de doses extras de testosterona no comportamento masculino e feminino, veriam que esses momentos estão bastante ligados a pessoas a quem foram sonegadas as chances de uma boa educação, um entorno ‘sadio’ além de pai e mãe modelares.

Que fique bem claro: o ideal de comportamento socialmente aceito, capaz de conter os arroubos hormonais em limites socialmente aceitáveis, deve conectar-se com o entorno da criança e do adolescente. Não se pode esperar um comportamento pacífico, racional, num meio social agressivo, estressado, ou numa família onde os cônjuges e parentes adultos próximos não sabem se conter, porque são psicológica e socialmente imaturos. Há uma complementaridade necessária entre a atuação dos hormônios e a educação da criança.

Antes que se busque apressadamente condenar os impulsos naturais desse hormônio, é bom considerar que o amor exacerbado pela aventura, pelo desafio e até a confrontação violenta, estão de mãos dadas com a paixão por alguém, com as 'loucuras' que os homens fizeram ou fazem para ficar próximos de quem amam, etc., pois tudo isso também tem a ver com testosterona. Os antigos sabiam disso, e já haviam colocado no seu panteão deusas que assumiam ao mesmo tempo a função de protetoras do amor e da fertilidade e a da guerra, tais foram: Inana, na Suméria, Astarté, na Fenícia, Freya entre os nórdicos, a Vênus dos romanos, etc. Os gregos engendraram uma solução genial: casaram Afrodite com Marte.

Era uma mistura de amor à família e à aventura que fazia os homens deixarem a segurança da fogueira de sua caverna para se aventurar em campo aberto, enfrentando gatos maiores do que os leões atuais com caninos de 30 cm. Só muito doido, muito apaixonado ou sob o efeito de alguma ‘droga’. E essa droga era a testosterona! Um coadjuvante poderoso na construção das civilizações nos quatro cantos do planeta, inclusive no fato de milhares de homens se enfiarem em frágeis embarcações para enfrentarem outros a 580 km dali, sem conhecerem bem os seus recursos militares.

Onde não há testosterona, decerto não há muita inteligência, a começar pela construção de um cavalo empinado, para enganar os troianos, colocado num local onde a maré alta o alcançava, quase afogando os seus moradores. Não perceberam aonde ia a linha de maré mesmo após terem morado por dez anos naquelas praias! Os cearenses diziam, fazendo graça: “é tão inteligente que é burro”. Mas sem isso se perderia uma oportunidade para suspense, inclusive quando, graças à única posição possível do cavalo, ‘deitado no chão’, os troianos começam a espetá-lo com espada, sem se lembrarem de arrombar a portinha na barriga que naquela posição ficava bem visível. Que dizer do amontoado desgraçado em que dezenas de homens ficariam, uns sobre os outros, no traseiro do cavalo, ou no seu reto! Tudo pelo suspense.

Outra patacoada é que, pela dimensão do cavalo e a postura do bicho, seria impossível passar pelas portas da muralha; e o bicho passou sem um arranhão e portas intactas!? E não podia ser diferente, pois se perderia o suspense gerado pela lenta abertura do travessão da porta pelos gregos, enquanto os troianos, alertados, vinham combatê-los em massa. Tudo pelo suspense.

Dentro da cidade, outra bizarrice muito politicamente correta. O povo se revolta fortemente contra o cavalo e quer que os governantes o rejeitem, afinal, o povo sempre tem razão, mesmo se considerarmos que em 1200 a.C. a ideia de povo era a mesma que a de ‘filhos’, e os filhos obedecem prontamente aos pais. De repente, estamos em pleno século XXI depois de Cristo, onde foi comprovada a sabedoria do povo em episódios como a Revolução Francesa, a Revolução Russa, a Revolução Cubana, o Khmer Vermelho, todas bem-sucedidas e prósperas.

Os gregos, como no original, saíram da barriga do cavalo, mas naquele cavalo havia um lugar por onde eles sairiam mais rápido e com menos sacrifício, só pela força da gravidade, embora com bem menos dignidade. Mas já que ninguém viu a portinha da barriga, eles até poderiam ter saído pelos olhos que não tiraria nem acrescentaria nada do filme.

No filme, a personagem de Hathaway comenta seu temor em relação aos ‘povos do mar’, algo formidável, pois esse termo, utilizado nesse contexto, só foi criado em 1855, pelo egiptólogo francês Emanuel Rougé. Que dizer da consciência de Ulisses de estar vivendo na ‘Idade do Bronze’, um conceito criado apenas em 1836, por Christian Tomsen? Isso é o que dá em utilizar erudição como penduricalhos em uma história malfeita.

Os lestrigões, assim como os ciclopes, eram primitivos, gigantescos e canibais, representavam forças antigas e instintivas que só sabiam se impor pela força. No filme, os lestrigões aparecem vestidos em armaduras renascentistas! Estavam milhares de anos à frente dos gregos. Tudo pelo suspense, pelo efeito visual e a violência gratuita.

Circe, no original, é uma mulher sedutora e perigosa. A ‘femme fatale’ dos franceses, um risco real aos navegantes incautos. Ela pode transformar o seu caminhãozinho de alguns numa Ferrari, para destruí-lo no momento seguinte, num momento de fúria, justificada ou não. Mas isso seria evocar antigas imagens de mulheres, mulheres reais, mas não politicamente corretas, e desviaria muito do objetivo central do filme: mostrar, por meio de toda aquela ‘jornada do herói’, a domesticação final de Ulisses, e assim Circe aparece como uma megera incapaz de suscitar sentimento que não seja piedade, aversão e medo. Ela é fatal; mas está na cara, e quem se mete com ela está solicitando um castigo, pois a mulher de verdade jamais mente ou seduz.

Ulisses, no original, é um personagem intenso, com a mente aguçada — da mesma forma que Aquiles na Ilíada — que, apesar de ter feito de tudo para não ir à guerra, depois que foi, adaptou-se bem e se tornou um dos combatentes mais insignes. O clima de perigo, guerra, companheirismo, novidades em terras estranhas aflorou de sua aventurosa evolução pessoal. Após a guerra em Tróia, ele, aparentemente, estava dividido entre voltar para a rotina do lar ou aproveitar a oportunidade para conhecer novas gentes e lugares, como se 10 anos de estresse e violência tivessem reacendido nele o desejo juvenil de experimentar o mundo. Até que ponto todos os obstáculos que aparecem para ele são reais, ainda que mitológicos, ou apenas representações mentais de sua dificuldade em tomar o caminho de casa, para a rotina? Talvez não o quisesse, pelo menos num primeiro momento.

Mas suponhamos, com o filme, que ele, traumatizado pela violência da guerra e os constantes perigos do mar, acabasse por perder a memória ou tomado de um tal medo das águas que resolvesse se estabelecer no primeiro lugar aprazível, com a companhia agradável que encontrasse. Já vimos que com a Circe de Nolan, ao contrário da original, ele não encontraria nem uma coisa nem outra, embora no original ele tenha um filho com ela, já com Calipso a coisa foi diferente. E como foi!

Segundo o original, ela o acolhe após um naufrágio e fica apaixonada por ele. Encantada com a sua inteligência e as suas histórias, cobre-o de agrados, esperando que ele fique como seu companheiro. Ulisses, que nada podia fazer, já que Netuno lhe impedia a partida, ficou e tornou-se pai de dois filhos de Calipso, mas sempre ansiando o retorno a Ítaca, enquanto ela tenta por todos os meios demovê-lo desses pensamentos. 

Em vão. Eu, sinceramente, nunca vi um casal mais burocrático, mais absurdo e sem sentido que o Ulisses e Calipso de Nolan. São absolutamente frios, comedidos. Ela, bela e com uma saia curta, andava pelas areias de uma praia paradisíaca e ele, que não sabia se um dia voltaria para casa, preocupado apenas em juntar madeira velha. Pareciam um casal de herdeiros de um casamento de conveniência ou membros de um reality show, só esperando aquilo acabar para irem para suas casas e seus respectivos cônjuges. Para que essa cena?

A impressão que passa é que o autor ficou muito temeroso de ser acusado e cancelado, por estimular os homens a pularem a cerca, traindo suas esposas, e por isso fez essa relação a mais asséptica possível. Nunca passaram de bons amigos — quiçá vitorianos. As belíssimas e mortais sereias, ao invés de aparecerem em toda a sua exuberância, justo para capturar os incautos, parecem extensões móveis dos aglomerados de rochas sombrias onde repousam, e Ulisses, ao ouvi-las, parece estar sentindo uma dor fora do comum. Se o canto da sereia produz tanto mal-estar, por que os homens querem se aproximar delas? Esse episódio também mostrou, de uma maneira insólita, o quanto Ulisses se arriscava por uma boa aventura ou um novo conhecimento. Às vezes, ele é ele mesmo.

Por fim, a mensagem final. Ulisses, sentado numa escadaria, fingindo-se veterano — é curioso que ninguém se lembre da voz dele — diz a Penélope que ficara chocado com a brutalidade da guerra de Troia e que essas histórias de invasões de ‘povos do mar’ tinham muito a ver com as incursões dos próprios gregos contra os outros povos, e de uma certa forma eles também eram responsáveis por essas instabilidades e notícias ruins, como, hoje em dia, os únicos culpados pelo que acontece no mundo são os homens brancos. Mesmo considerando que os gregos de Nolan não são tão brancos assim: perguntem a Helena de Menelau.

Afinal, aparece uma justificativa nova e verossímil para essas aventuras e para o fato de Ulisses ter ficado tanto tempo sem voltar para casa: Ulisses era um neurótico de guerra! E mais, ele entendeu definitivamente a  esterilidade da guerra, desse meio de fazer política e daí por diante seria, além de um negociador astuto, que ele já era, um convicto pacifista. Um mundo novo se abre… Ledo engano!

Na cena seguinte, ele tranca todos os pretendentes de Penélope no salão de festa e jantar do seu castelo e começa a massacrá-los, mesmo após ter dito que se contentaria em matar um só deles! Alguém bebeu ou comeu alguma coisa estragada nesse filme! Mas enquanto esse absurdo acontecia no salão de festa e jantar, um homem sozinho a enfrentar dezenas de outros — o número de pretendentes oscila em torno de 50 —, no andar de cima outro absurdo acontecia. Um mero servo doméstico do vilão enfrenta, de igual para igual, o filho de Ulisses. Um especialista em serviços caseiros encara com naturalidade e até perigo um jovem da nobreza militar treinado pelos melhores espadachins da época.

Depois disso, cheguei a temer que, de uma hora para outra, Ulisses começasse a dar golpes com a borda da mão, a fazer furos na parede com socos e dar pulos desmesurados, fazendo piruetas como naqueles filmes de kung fu classe B... menos. Para não falar daqueles gritinhos à la Bruce Lee: Iááááá! Iiiiiiiii! Grááá! Au! Au! Nada mais me espantaria, nem o fato de o homem que fez um pungente discurso pacifista contra a destruição de uma cidade, por causa do rapto de uma mulher, ser o mesmo que fez um horroroso banho de sangue no principal aposento público de seu castelo, por causa da insolência de uns poucos, e quiçá um só. Afinal, eles saquearam a sua despensa e os seus rebanhos, e desejaram casar com a sua mulher. Menelau não estava mais justificado?

Enfim, nada nesse filme faz sentido ou é percebido nesse filme, exceto o desejo do diretor em anunciar ao mundo o quanto é submisso à visão de uma parcela pequena e pouco culta de certos movimentos identitários. Nolan criou um herói masculino patético, desfibrado, contraditório, que dá as mais vis demonstrações de fraqueza, por não saber como estar numa posição de força. Matt Damon fica pequenino diante de Anne Hathaway em todos os sentidos. O Ulisses de Nolan abusa da violência gratuita para mostrar que ainda é relevante na história.

Para mim, a única coisa realmente criativa nesse filme foi  a coluna de vértebras colocada no penacho de Agamemnon, uma vez que nunca deveria estar ali nem foi criação de Christopher Nolan.


COLONIALISMO: AS IMPRECISÕES DA CASA DA HISTÓRIA EUROPEIA.

14 de maio de 2026

Élodie Messezant

[do site liberal francês contrepoints.org]

De 17 de abril de 2026 a 14 de março de 2027, a Casa da História Europeia apresenta a exposição temporária Pós-colonial, que explora “os efeitos duradouros que a colonização e seu fim tiveram na Europa nos últimos 70 anos”. A mostra reúne mais de 195 objetos e documentos históricos sobre o colonialismo, do século XII aos dias atuais, relatos pessoais e obras de arte. Para Constanze Itzel, diretora do museu, o objetivo é demonstrar a importância do legado colonial europeu, mas também “corrigir os desequilíbrios existentes nas narrativas sobre o passado do continente”.

A intenção é perfeitamente legítima: a história colonial, que suscita tanto debate, merece ser estudada. Mas, numa análise mais atenta, a exposição vai além da análise histórica: oferece uma interpretação altamente tendenciosa do passado europeu e dissemina inúmeras imprecisões, por exemplo, no que diz respeito às supostas ligações entre capitalismo e colonialismo. Incorre também numa simplificação excessiva quanto à exploração dos recursos naturais pelos regimes coloniais. Mais grave ainda, sugere claramente que o racismo estrutural ainda existe na Europa. Este viés ideológico levanta sérias questões, tendo em conta o financiamento europeu do museu.

Capitalismo e colonialismo

Pode-se ler, por exemplo, que “capitalismo e colonialismo andam de mãos dadas”, uma afirmação ilustrada pelo fato de que os impérios holandês e britânico se desenvolveram por meio de empresas privadas, “autorizadas a travar guerras em busca de lucro”. A ideia de que capitalismo e colonialismo estão ligados é, na verdade, uma tese clássica da tradição marxista, notavelmente retomada por Lenin em “Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo” (1917). No entanto, ela se baseia em uma confusão entre capitalismo liberal e capitalismo de compadrio [que acontecia, por exemplo, no mercantilismo]: o primeiro se baseia no livre comércio, o segundo no intervencionismo estatal. Contudo, o imperialismo está intrinsecamente ligado a uma vontade política de controlar o comércio. Já em 1776, o economista Adam Smith se opôs ao colonialismo por razões morais (violação do princípio da não agressão), mas também por razões econômicas, visto que o mercantilismo é antiliberal por natureza (monopólio da metrópole, somente as companhias privilegiadas eram autorizadas a comercializar, etc.).

Quanto à “busca pelo lucro”, o impacto econômico do colonialismo foi estudado por historiadores como Paul Bairoch e Jacques Marseille, e a realidade é muito mais complexa do que aparenta. Em *O Terceiro Mundo em Impasse* (1971), por exemplo, Paul Bairoch conclui que não houve “benefício macroeconômico real para os diversos países que possuíam um império colonial”. Para Jacques Marseille, é difícil elaborar uma avaliação econômica abrangente da colonização. Em * Império Colonial e Capitalismo Francês: História de um Divórcio * (1984), ele se concentra na Argélia e distingue dois períodos. No primeiro período (1880–1930), o mercado colonial contribuiu para os “setores que então impulsionavam o crescimento”, mas no segundo período (1930–1960), garantiu a sobrevivência artificial “desses setores agora em declínio” em detrimento do “surgimento de novos setores”. Jacques Marseille acredita que a rentabilidade não é fácil de determinar, uma vez que as exportações podem, num caso, representar um “custo adicional” e, noutro, “cobrir custos fixos”.

Exploração de recursos naturais

Outra ideia errada é a de que os regimes coloniais se enriqueceram “saqueando os recursos humanos e naturais de suas colônias”, como petróleo, urânio e cobre. Isso é verdade no caso do cobre: ​​sua exploração em territórios como Katanga, sob a colonização belga (através da Union Minière du Haut Katanga ), gerou lucros significativos para empresas e investidores europeus. Essas receitas contribuíram para a riqueza de grupos privados e, indiretamente, para as potências coloniais.

Em relação ao petróleo, é preciso fazer uma distinção importante. Em áreas como o Irã e o Iraque, as potências europeias (notadamente por meio da Companhia Anglo-Persa de Petróleo ) se beneficiaram de concessões extremamente favoráveis ​​desde o início do século XX, o que contribuiu para seu poderio energético e industrial. No entanto, tratava-se de um controle indireto (concessões) e não de exploração colonial clássica (soberania e administração territorial), e os estados produtores gradualmente retomaram o controle entre as décadas de 1950 e 1970 [aproveitando-se da estrutura herdada e da tecnologia gerada nos países europeus]. Quanto ao urânio, a afirmação não se sustenta: a exploração, por exemplo, no Níger, começou por volta da década de 1970 com empresas como a Areva, portanto, após a independência. Assim, é difícil apresentar esse recurso como um fator determinante do enriquecimento dos impérios coloniais, uma vez que estes já haviam desaparecido.

Diversos historiadores econômicos apontaram que a industrialização europeia dependia inicialmente de recursos domésticos, como o carvão. No início do século XX, o comércio europeu de carvão representava 80% das exportações globais (com o Reino Unido na liderança). Em *Mitos e Paradoxos da História Econômica * (1994), Paul Bairoch observou que, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, os países desenvolvidos eram 95% autossuficientes em matérias-primas.

Racismo estrutural na Europa?

Por fim, a exposição dá um passo além ao afirmar que as instituições europeias de hoje tratam os cidadãos de forma diferente com base em sua origem ou aparência física. Ela evoca um racismo estrutural presente na educação, no emprego, na habitação, na saúde e até mesmo na polícia, herdado diretamente do passado colonial. Por exemplo, afirma que o racismo está presente em todas as fases da vida social, “desde a mais tenra idade”, com “segregação” na educação, uma “disparidade salarial por motivos de raça” e desigualdades estruturais na saúde, na habitação, no policiamento e na política. O colonialismo e a escravidão assumiram outras formas: “Nem o colonialismo nem a escravidão simplesmente deixaram de existir. Pelo contrário, deram origem ao trabalho por contrato, ao neocolonialismo e a inúmeras desigualdades persistentes.”

Que a discriminação existe na Europa, como em outros lugares, é difícil negar. Mas falar em “racismo estrutural” exige demonstrar que as desigualdades observadas resultam principalmente do próprio funcionamento das instituições, independentemente de outras variáveis. Comecemos pelo direito: os Estados europeus contemporâneos baseiam-se em princípios de igualdade perante a lei, consagrados tanto ao nível nacional como europeu. Esses princípios são acompanhados por mecanismos eficazes de reparação. Portanto, não existem obstáculos legais, nem distinções, entre cidadãos com base em critérios racistas. Na realidade, as desigualdades que possam existir entre indivíduos na educação, no emprego ou nas condições de vida são em grande parte explicadas por fatores socioeconômicos (nível de escolaridade, capital cultural, dinâmica territorial, etc.). A tese da discriminação sistêmica, portanto, não deriva de uma abordagem científica, mas sim ativista. Além disso, é aceita no âmbito do movimento pós-moderno, que se caracteriza pela rejeição da ideia de verdade e objetividade: para os seus defensores, qualquer disparidade é considerada uma prova em si mesma, independentemente de qualquer relação causal [o que é uma loucura!].

Uma exposição financiada pelo contribuinte europeu.

Para além dos debates históricos que suscita, esta exposição levanta uma questão mais ampla: a utilização de fundos públicos europeus para promover uma visão particular da história e da identidade do continente. A questão não se centra, claramente, no estudo do colonialismo, nem no reconhecimento da história colonial da Europa — o que é essencial —, mas sim na oferta de uma interpretação unidimensional do presente. O Parlamento Europeu, que financia a Casa da História Europeia com 9 milhões de euros anualmente, participa, assim, na guerra cultural contra a Europa, à custa de todos os contribuintes.