domingo, 3 de maio de 2026

 


CIÊNCIA E IDEOLOGIA - 3 

Schumpeter, 1948

A visão original do pesquisador, por outro lado, não está sujeita a esse controle [a análise será feita no resultado final da pesquisa]. Ali, os elementos que passarão pelos testes de análise são, por definição, indistinguíveis daqueles que não passarão ou — como também podemos dizer, já que admitimos que as ideologias podem conter até 100% de verdade comprovável — a visão original é ideológica por natureza e pode conter qualquer quantidade de ilusões atribuíveis à posição social do indivíduo, à maneira como ele quer se ver, ou ver sua classe ou grupo, e os oponentes de sua própria classe ou grupo. Isso deve ser estendido até mesmo às peculiaridades de sua perspectiva que estão relacionadas a seus gostos e condições pessoais e não têm conotação de grupo.

Pode ser útil reformular nosso problema antes de discutirmos exemplos. Uma vez que a fonte da ideologia é nossa visão pré e extracientífica do processo econômico e do que é causal ou teleologicamente importante nele, e uma vez que normalmente essa visão é submetida a tratamento científico, sendo verificada ou destruída pela análise e, em ambos os casos, deveria desaparecer enquanto ideologia, até que ponto, então, ela não desaparece como deveria? Até que ponto ela se mantém diante da acumulação de evidências contrárias? E até que ponto ela vicia nosso próprio procedimento analítico, de modo que, no final, ainda ficamos com conhecimento prejudicado por ela?

Desde o início, fica claro que existe um vasto campo da economia no qual o risco de viciação ideológica é tão pequeno quanto na física. Uma série temporal de investimento bruto na indústria manufatureira pode ser boa ou ruim, mas, normalmente, qualquer um pode descobrir se é uma ou outra dessas coisas… Questões como essas podem não ser as mais fascinantes ou mais urgentes, mas constituem a maior parte do que é especificamente científico em nosso trabalho. E o são, pela lógica, embora nem sempre sejam neutras em relação à ideologia.

Além disso, o seu âmbito se amplia à medida que nossa compreensão do trabalho analítico melhora. Houve um tempo em que os economistas pensavam que ganhavam ou perdiam pontos se lutassem pela teoria da quantidade de trabalho [mais fácil de ser quantificada, matematizada] e se opusessem à teoria da utilidade marginal do valor. Pode-se demonstrar que, no que diz respeito a questões ideologicamente relevantes, isso faz pouca diferença… Ouso dizer que ainda há quem encontre algo incongruente com sua visão — de Walras — da análise da produtividade marginal. Contudo, pode-se demonstrar que o aparato puramente formal desta última é compatível com qualquer visão da realidade econômica que alguém tenha ou já teve.

Busquemos agora elementos ideológicos em três das estruturas mais influentes do pensamento econômico: as obras de Adam Smith, de Marx e de Keynes. No caso de Adam Smith, o interessante não é a ausência, mas sim a inofensividade de qualquer viés ideológico. Não me refiro à sua sabedoria prática, limitada ao seu tempo e país, sobre laissez-faire, livre comércio, colônias e afins, pois as preferências e recomendações políticas de um indivíduo estão completamente fora do campo das minhas observações, ou melhor, só entram nesse campo na medida em que a análise factual e teórica apresentada em seu apoio o faz. Refiro-me exclusivamente à sua própria obra analítica — apenas aos seus indicativos, não aos seus imperativos [O que ele sugere como possível ou adequado, mas não o que ele sugere como norma ou lei].

Isso acertado, a primeira questão que surge é que tipo de ideologia devemos atribuir a ele. Partindo do princípio marxista, analisaremos sua posição social, de Adam Smith, ou seja, suas afiliações de classe pessoais e ancestrais, além da conotação de classe das influências que podem ter contribuído para formar a sua visão de mundo. Ele era um homo academicus que se tornou funcionário público. Seu círculo social era mais ou menos semelhante: sua família, nem pobre nem rica, mantinha um certo nível de educação e pertencia a um grupo conhecido na Escócia de sua época. Acima de tudo, não pertencia à classe empresarial. Sua visão geral sobre as questões sociais e econômicas reproduzia esses dados com perfeição.

Ele observava o processo econômico de seu tempo com um olhar frio e crítico e instintivamente buscava explicações mecânicas em vez de pessoais — como a divisão do trabalho. Sua atitude em relação aos latifundiários e às classes capitalistas era a de um observador externo, e ele deixou bem claro que considerava o latifundiário (o latifundiário “preguiçoso” que colhe onde não plantou) como desnecessário, e o capitalista (que contrata “pessoas trabalhadoras” e lhes fornece sustento, matéria-prima e ferramentas) como um mal necessário. Essa última necessidade estava enraizada na virtude da parcimônia, cujo elogio evidentemente emanava do fundo de sua alma escocesa [os escoceses têm fama, entre os anglófonos, de serem sovinas]. Sua simpatia se voltava inteiramente para o trabalhador que “veste a todos e anda em farrapos”. Some-se a isso o desgosto que ele sentia… pela ineficiência da burocracia inglesa e pela corrupção dos políticos, e temos praticamente toda a sua visão ideológica.

Embora eu não possa me deter em demonstrar o quanto isso explica o quadro que ele traçou, devo enfatizar que o outro componente dessa visão, a filosofia da lei natural que ele absorveu em seus anos de formação, produto de homens com condicionamento semelhante, influenciou o pano de fundo ideológico a partir do qual ele escreveu de maneira similar — liberdade natural de ação, o direito natural do trabalhador a todo o produto da indústria, racionalismo individualista e assim por diante, tudo isso lhe foi ensinado antes que suas faculdades críticas estivessem desenvolvidas, mas dificilmente havia necessidade de ensiná-lo essas coisas, pois elas lhe eram “naturais”, inerentes ao seu ambiente. Mas — e este é o ponto realmente interessante — toda essa ideologia, por mais fortemente arraigada que fosse, na verdade não prejudicou muito suas realizações científicas… Recebemos dele ensinamentos factuais e analíticos sólidos que, sem dúvida, permanecem atuais, mas não são passíveis de objeção quanto a viés ideológico — há alguns floreios semifilosóficos de natureza ideológica, mas podem ser removidos sem prejuízo de seu argumento científico.

A análise que sustenta suas conclusões qualificadas sobre o livre-comércio não se baseia… na proposição de que, por natureza, o homem é livre para comprar ou vender onde bem entender. A afirmação de que a produção (total) é a remuneração natural do trabalho aparece, mas não se faz uso analítico dela — em todos os momentos, a ideologia se perde em frases e, no restante, recua diante da pesquisa científica. Em parte, pelo menos, esse foi o mérito do homem: ele era, acima de tudo, responsável; e seu senso comum sóbrio e talvez um tanto seco lhe conferia respeito pelos fatos e pela lógica. Em parte, foi sorte: pouco importa se sua análise tiver que ser abandonada como a psicologia que pretendia ser, contanto que, ao mesmo tempo, deva ser mantida como um esquema lógico do comportamento econômico — em uma análise mais aprofundada, o homo economicus… revela-se um homem de palha bastante inofensivo [Como o seu similar no filme O mágico de Oz].

Marx foi o economista que descobriu a ideologia para nós e que compreendeu sua natureza… E isso representou um feito de primeira grandeza. Mas, por mais estranho que pareça, ele era completamente cego aos seus perigos, pelo menos no que lhe dizia respeito. Somente as outras pessoas, os economistas burgueses e os socialistas utópicos, foram vítimas da ideologia [Ele não concebia a si próprio como produto de uma ideologia; por alguma razão, era imune ao “mal” que contaminava todos os outros homens, e ele nunca explicou a causa ou o mecanismo de sua “imunidade”]. Ao mesmo tempo, o caráter ideológico de suas premissas e o viés ideológico de sua argumentação são evidentes em todos os lugares. Até mesmo alguns de seus seguidores (Mehring, por exemplo) reconheceram isso. E não é difícil descrever sua ideologia. Ele era um radical burguês que havia rompido com o radicalismo burguês. Foi formado pela filosofia alemã e não se considerava um economista profissional até o final da década de 1840. Mas, a essa altura, ou seja, antes de iniciar seu trabalho analítico sério, sua visão do processo capitalista já estava consolidada e seu trabalho científico visava implementá-la, não corrigi-la [o que o torna uma vítima particularmente afetada pela ideologia]. Mas não era nada original dele… e pode ser rastreado até diversos escritores do século XVIII, como Linguet. A história concebida como a luta entre classes definidas como privilegiados e desfavorecidos, com a exploração de umas pelas outras, a riqueza crescente entre os privilegiados e a miséria e degradação crescentes entre os desfavorecidos, caminhando com inexorável necessidade para uma explosão espetacular, essa era a visão então concebida com energia apaixonada e a ser elaborada, como se trabalha uma matéria-prima, por meio das ferramentas científicas de seu tempo. Essa visão implica uma série de afirmações que não resistirão ao teste dos controles analíticos.

De fato, à medida que seu trabalho analítico amadurecia, Marx não apenas elaborou muitas análises científicas neutras em relação a essa visão, mas também algumas que não se harmonizavam com ela — por exemplo, ele superou as teorias de crise baseadas no subconsumo e na superprodução, que inicialmente parecia ter aceitado e cujos vestígios permaneceram em seus escritos. Outros resultados de sua análise foram introduzidos por meio do artifício de manter a afirmação ideológica original como uma lei “absoluta” (isto é, abstrata), ao mesmo tempo em que admitia a existência de forças contrárias que explicavam os fenômenos divergentes na vida real. Algumas partes da visão, por fim, refugiaram-se em uma fraseologia injuriosa que não afeta os elementos científicos de um argumento.

Por exemplo, certa ou errada, sua teoria da exploração da mais-valia era uma análise teórica genuína. Mas todas as frases elogiosas sobre exploração poderiam ter sido igualmente aplicadas a outras teorias, incluindo a de Böhm-Bawerk: imagine Böhm-Bawerk na pele de Marx, o que poderia ter sido mais fácil para ele do que derramar os frascos de sua ira sobre a prática infernal de roubar o trabalho por meio da dedução de um desconto temporal de sua produção? Contudo, alguns elementos de sua visão original, que eram insustentáveis — como a crescente miséria das massas, que as incitaria à revolução final — eram, ao mesmo tempo, indispensáveis ​​para ele. Estavam intimamente ligados ao significado mais profundo de sua mensagem, enraizados demais no próprio sentido de sua vida, para serem descartados [eram raízes ideológicas]. Além disso, eram eles que atraíam seus seguidores e despertavam sua fervorosa lealdade. Eram eles que explicavam o efeito organizador — o efeito criador do partido — daquilo que, sem eles, teria sido insosso e sem vida [mas, decerto, científico]. Assim, testemunhamos neste caso a vitória da ideologia sobre a análise: todas as consequências de uma visão que se transforma em credo social e, com isso, torna a análise estéril.

A visão de Keynes — a fonte de tudo o que foi e é definitivamente identificado como Keynesianismo — apareceu pela primeira vez em alguns parágrafos ponderados na introdução de As Consequências da Paz (1920). Esses parágrafos criaram o estagnacionismo moderno — sentimentos estagnacionistas já haviam sido expressos, em intervalos, por muitos economistas antes, desde Britannia Languens (1680) — e indicam suas características essenciais: as características de uma sociedade capitalista madura e arteriosclerótica que tenta poupar mais do que suas oportunidades de investimento, decrescentes, conseguem absorver. Essa visão nunca mais desapareceu — temos outro vislumbre dela no tratado sobre Reforma Monetária e em outros lugares, mas, como outros problemas absorveram a atenção de Keynes durante a década de 1920, ela não foi implementada analiticamente até muito mais tarde. D. H. Robertson, em sua Política bancária e o nível de preços apresentou alguns trabalhos que equivaliam a uma implementação parcial da ideia de poupança abortiva. Mas, para Keynes, essa ideia permaneceu um tema secundário, mesmo no Tratado sobre a Moeda. Talvez tenha sido o choque provocado pela crise mundial que definitivamente rompeu os laços que o impediam de se expressar plenamente. Certamente, foi o choque provocado pela crise mundial que criou o público receptivo a uma mensagem desse tipo.

Mais uma vez, foi a ideologia — a visão do capitalismo em decadência que enxergava a causa da decadência em uma dentre a grande variedade de características da sociedade contemporânea — que convenceu e prevaleceu, e não a implementação analítica do livro de 1936 que, por si só e sem a proteção encontrada na ampla aceitação da ideologia, teria sofrido muito mais com as críticas que lhe foram dirigidas quase imediatamente. Ainda assim, o aparato conceitual era obra não apenas de uma mente brilhante, mas também de uma mente madura…

Ao longo da década de 1920, Keynes foi e se considerava um marshalliano e, embora mais tarde tenha renunciado dramaticamente à sua lealdade, jamais se desviou da linha marshalliana, além do necessário para defender seu ponto de vista. Ele continuou sendo o que havia se tornado em 1914, um mestre da arte teórica, e assim conseguiu revestir sua visão com uma armadura que impediu a muitos de seus seguidores de enxergar o elemento ideológico. É claro que isso agora acelera a absorção da contribuição de Keynes pela corrente atual de trabalho analítico. Não há princípios realmente novos a serem assimilados.

A ideologia do equilíbrio de subemprego e da não-gastança — um termo mais adequado do que poupança — é facilmente vista como incorporada em algumas premissas restritivas que enfatizam certos fatos (reais ou supostos). Com essas premissas, cada um pode lidar com elas como achar melhor e, quanto ao resto, pode seguir seu próprio caminho. Isso reduz as controvérsias keynesianas ao nível da ciência técnica. Sem apoio institucional, o “credo” se dissipou juntamente com a situação que o tornara convincente. Até mesmo os McCullochs mais firmes de hoje estão sujeitos a se desviarem para uma dessas posições, sobre as quais é difícil dizer se envolvem renúncia, reinterpretação ou incompreensão da mensagem original.

John McCulloch foi o principal representante do pensamento ricardiano na Inglaterra — Schumpeter abominava Ricardo. E já que se falou em mais-valia, vejam esse problema que ele nos deixou: Suponha que um barril de vinho novo, que custou £ 50, seja colocado em uma adega e que, ao final de doze meses, valha £ 55. A questão é: os £ 5 de valor adicional, atribuídos ao vinho, devem ser considerados uma compensação pelo tempo em que o capital de £ 50 esteve imobilizado, ou devem ser considerados o valor do trabalho adicional efetivamente empregado na produção do vinho? (traduzido da Wikipedia em inglês — John Ramsay McCulloch)

Böhm-Bawerk, que foi professor de Schumpeter, disse dele:  nenhum membro da escola inglesa foi tão infeliz em sua abordagem do assunto ou prestou um desserviço tão grande à teoria dos juros quanto McCulloch (idem).

Tomemos, por exemplo, a teoria da poupança, que aparece num contexto mais amplo no sistema keynesiano, mas que também poderia, factual e teoricamente, ser tratada isoladamente. Desde a época de Turgot e Smith… até a época de Keynes, todas as principais proposições sobre sua natureza e efeitos foram, por lenta acumulação, reunidas de modo que, à luz da maior quantidade de dados que dispomos hoje, deveria haver pouco espaço para divergências de opinião. Seria fácil elaborar uma análise resumida que a grande maioria dos economistas profissionais aceitaria como um consenso. Mas existem, e sempre existiu, discursos elogiosos ou mordazes sobre o assunto que, auxiliados por artifícios terminológicos, como a confusão entre poupança e não-gasto, conseguiram produzir um antagonismo simulado entre os autores que escrevem sobre o tema.

Diferenças doutrinárias muito enfatizadas, para as quais não há base factual ou analítica, sempre indicam, embora por si só não provem, a presença de viés ideológico de um lado ou de ambos… Outro exemplo de ideologia setorial desse tipo é a atitude de muitos, senão da maioria dos economistas, em relação a tudo que esteja de alguma forma ligado ao monopólio (oligopólio) e à fixação cooperativa de preços (conluio). Essa atitude não mudou desde Aristóteles e Molina, embora tenha adquirido um significado parcialmente novo sob as condições da indústria moderna. Agora, como naquela época, a maioria dos economistas concordaria com o ditado de Molina: monopolium est injustum et rei publicae injuriosum. Mas não é esse juízo de valor relevante para o meu argumento — pode-se detestar as grandes empresas modernas exatamente como se pode detestar muitas outras características da civilização moderna — mas sim a análise que o precede e a influência ideológica que essa análise exerce.

Qualquer pessoa que tenha lido os Princípios de Marshall, e ainda mais qualquer pessoa que tenha lido também sua obra Indústria e Comércio, deve saber que, entre os inúmeros padrões abrangidos por esses termos, muitos beneficiam a eficiência econômica e os interesses dos consumidores. Análises mais modernas permitem demonstrar com ainda mais clareza que nenhuma afirmação abrangente ou incondicional pode ser verdadeira para todos; e que os meros fatos relativos ao tamanho da empresa, à venda exclusiva por um único fornecedor, à discriminação e à formação cooperativa de preços são, por si só, insuficientes para afirmar que o desempenho resultante é inferior ao que se poderia esperar em um cenário de concorrência perfeita, nas condições alcançáveis ​​sob essa mesma concorrência em outras palavras, a análise econômica não oferece nenhum fundamento para a “indiscriminada quebra de monopólios” e que tal fundamento deve ser buscado nas circunstâncias particulares de cada caso individual.

No entanto, muitos economistas apoiam essa “indiscriminada quebra de monopólios”, e o ponto interessante é que os entusiastas do sistema de livre iniciativa são particularmente proeminentes entre eles [como uma forma de concessão aos marxistas, para quem os únicos monopólios tolerados são o do partido (o partido deles) e o do Estado (controlado por eles)]. A ideologia desses economistas [liberais envergonhados] é a de que a economia capitalista cumpriria suas funções sociais admiravelmente bem se não fosse o monstro do monopólio ou oligopólio, que lança uma sombra sobre um cenário que, de outra forma, seria brilhante. Nenhum argumento é válido quanto ao desempenho das grandes empresas, quanto à inevitabilidade de seu surgimento, quanto aos custos sociais envolvidos na destruição das estruturas existentes, quanto à futilidade do ideal sagrado da concorrência perfeita — tampouco suscita outra resposta que não seja a mais óbvia e sincera indignação [pois, cientificamente falando, não há nada que possa ser dito].

Mesmo ampliados dessa forma, nossos exemplos, embora ilustrem bem o que é ideologia, são bastante inadequados para nos dar uma ideia da extensão de sua influência. Essa influência se manifesta com mais força na história econômica, que exibe com tanta clareza os traços de premissas ideológicas… — o tema do papel a ser atribuído ao desenvolvimento econômico pela iniciativa de governos… em geral, os historiadores econômicos têm sistematicamente superestimado ou subestimado a importância dessa iniciativa de uma maneira que aponta inequivocamente para convicções pré-científicas. Até mesmo a inferência estatística perde a objetividade que, em uma boa lógica, deveria caracterizá-la sempre que questões ideologicamente relevantes estão em jogo.

E algumas das áreas sociológicas, psicológicas, antropológicas e biológicas que banham nossas costas estão tão contaminadas por vieses ideológicos que, ao observar o estado das coisas em partes desses campos, o economista pode, por vezes, encontrar algum consolo. Se tivéssemos tempo, poderíamos observar o mesmo fenômeno em todos os lugares: a cristalização das ideologias, sua transformação em credos que, por ora, são impermeáveis ​​a qualquer argumento; a descoberta de defensores cujas próprias almas se entregam à luta por elas.

Há pouco consolo em postular, como já foi feito algumas vezes, a existência de mentes desapegadas que sejam imunes ao viés ideológico e, por hipótese, capazes de superá-lo. Essas mentes podem de fato existir e, na verdade, é fácil perceber que certos grupos sociais estão mais distantes do que outros das esferas da vida social em que as ideologias adquirem vigor adicional em conflitos econômicos ou políticos [no meio universitário, por exemplo]. Mas, embora possam estar relativamente livres das ideologias dos profissionais da área, desenvolvem ideologias próprias, não menos distorcidas.

Há maior conforto na observação de que nenhuma ideologia econômica dura para sempre e que, com uma probabilidade que se aproxima da certeza, eventualmente superaremos cada uma delas. Isso decorre não apenas do fato de que os padrões sociais mudam e, portanto, toda ideologia econômica está fadada a desaparecer, mas também da relação que a ideologia mantém com aquele ato cognitivo pré-científico que chamamos de cosmovisão.

Como esse ato induz à busca e análise de fatos, e como estas tendem a destruir tudo o que não resiste aos seus testes, nenhuma ideologia econômica poderia sobreviver indefinidamente, mesmo em um mundo social estático. Com o passar do tempo e o aperfeiçoamento desses testes, eles realizam seu trabalho com mais rapidez e eficácia [embora, devamos notar que, em alguns grupos, determinadas ideologias, nascidas como hipóteses ou especulação filosófica, se cristalizam de tal maneira que, no seu limite, viram uma religião, completamente impermeável aos fatos e ao desenvolvimento científico, inclusive se colocando como científicas e promotoras da ciência. Não devemos subestimar a capacidade de autoengano de um ser humano].

Mas isso ainda nos leva ao resultado de que alguma ideologia sempre estará presente e, portanto, estou convencido de que assim será. Mas isso não é uma desgraça. É pertinente lembrar outro aspecto da relação entre ideologia e visão. Esse ato cognitivo pré-científico, o qual é a fonte de nossas ideologias, é também o pré-requisito para nosso trabalho científico. Nenhuma nova abordagem em qualquer ciência é possível sem ele. Através dele, adquirimos novo material para nossos empreendimentos científicos e algo para formular, defender e atacar. Nosso acervo de fatos e ferramentas cresce e se renova nesse processo. E assim, embora prossigamos lentamente por causa de nossas ideologias, talvez não prosseguíssemos de forma alguma sem elas.


Nota

Esclarecendo

A conduta inadequada consiste em “distorcer fatos ou a lógica para favorecer um ideal ou um interesse”, independentemente de o autor declarar sua preferência pela causa que defende ou não. Independentemente disso, pode ser uma boa prática exigir que todos declarem explicitamente suas “premissas axiológicas” ou o interesse pelo qual pretendem argumentar, sempre que não forem óbvias. Mas este é um requisito adicional que não deve ser confundido com o nosso.

(FIM)

domingo, 26 de abril de 2026

 


A RECEITA DE EMAGRECIMENTO DE TALLULAH BANKHEAD.

Tallulah Bankhead foi uma importante diva do cinema dos anos 30 e 40, uma atriz acima da média, com uma personalidade superexagerada, que adorava quebrar regras e alimentar o estereótipo da menina malvada, com um humor afiado e certeiro. Mas, no final, caiu vítima de si mesma, por não perceber que o mundo desconexo do seu humor era o retrato fiel da realidade, para a qual não se preparou. Não suportou o personagem que criou para si mesma e morreu decadente, não sem antes nos deixar pérolas cheias de sabedoria e humor. Certa vez, ela disse:
"Só me alimento quando estou com o estômago cheio". 
Assim, a pessoa não sente vontade de comer muito e engordar.
Antes que algum censor dê um chilique, faça de conta que o que ele tem na mão direita é só um lápis bem apontado.
"A única coisa que lamento do meu passado é a sua duração. Se eu tivesse que viver tudo de novo, cometeria os mesmos erros, só que mais cedo."
É uma forma de dizer uma coisa certíssima: "todos nós nascemos condenados a morrer e a errar". É uma grande bobagem, uma insensatez, culpar-se por erros do passado, como se tudo estivesse sob o seu controle. Contente-se apenas em não cometê-los de novo e conter a memória deles. 
Disney se baseou nela para o personagem Cruela dos 101 dálmatas.

 

CIÊNCIA E IDEOLOGIA - 2 

Schumpeter, 1948

Mas existem em nossas mentes prevenções sobre o processo econômico que são muito mais perigosas para o crescimento cumulativo do nosso conhecimento e para o caráter científico dos nossos esforços analíticos, porque parecem estar além do nosso controle, num sentido em que os juízos de valor e as alegações especiais não estão. Embora em grande parte aliadas a estes, essas prevenções merecem ser separadas e discutidas independentemente, e serão tratadas pelo nome de Ideologias.

A palavra ideologia era corrente na França no final do século XVIII e na primeira década do século XIX e significava praticamente a mesma coisa que a filosofia moral escocesa da mesma época e de épocas anteriores, ou que a nossa própria ciência social, na mais ampla aceitação do termo... Napoleão conferiu-lhe um significado pejorativo... Mais tarde, passou a ser usada, conforme frequente hoje, para denotar sistemas de ideias, ou seja, de uma forma em que se perde a distinção entre nossos juízos de valores e as ideologias. Não temos nada a ver com esses ou quaisquer outros significados, exceto aquele que pode ser mais facilmente introduzido por referência ao "materialismo histórico" de Marx e Engels. De acordo com essa doutrina, a história é determinada pela evolução autônoma da estrutura de produção: a organização social e política, as religiões, a moral, as artes e as ciências são meras "superestruturas ideológicas", geradas pelo processo econômico.

Não precisamos nem podemos entrar nos méritos e deméritos dessa concepção em si, da qual apenas uma característica é relevante para o nosso propósito — e a sua escolha, nesse contexto, obedece a um critério prático: facilita o debate. Essa característica é aquela que, por meio de várias transformações, se desenvolveu na sociologia da ciência do tipo associado aos nomes de Max Scheler e Karl Mannheim. Até meados do século XIX, aproximadamente, a evolução da "ciência" era vista como um processo puramente intelectual — como uma sequência de explorações do universo empiricamente dado ou, como também podemos dizer, como um processo de filiação de descobertas ou ideias analíticas que prosseguia, embora sem dúvida influenciando a história social e sendo influenciada por ela de muitas maneiras, segundo uma lei própria.

Mannheim foi o primeiro a transformar essa relação de interdependência entre a "ciência" e outros ramos da história social em uma relação de dependência da primeira em relação aos dados objetivos da estrutura social e, em particular, à posição social dos cientistas, que determina sua visão da realidade e, portanto, o que eles veem dela e como a veem.

Esse tipo de relativismo — que, obviamente, não deve ser confundido com qualquer outro tipo de relativismo —, se levado rigorosamente às suas consequências lógicas, representa uma nova filosofia da ciência e uma nova definição de verdade científica. Mesmo na matemática e na lógica, e ainda mais na física, a escolha dos problemas e das abordagens a eles por parte do cientista, e consequentemente o padrão do pensamento científico de uma época, torna-se socialmente condicionada – que é precisamente o que queremos dizer quando falamos de ideologia científica em vez da percepção cada vez mais perfeita das verdades científicas objetivas [ou seja, levanta a questão dos condicionamentos sociais de nossas conclusões, o que não impossibilita, por isso, o esforço na busca de resultados mais precisos, tão importantes quanto a sua aceitação geral]...

Poucos negarão, contudo, que nos casos da lógica, da matemática e da física a influência do viés ideológico não se estende além da escolha dos problemas e das abordagens, ou seja, que a interpretação sociológica não questiona, pelo menos nos últimos dois ou três séculos, a "verdade objetiva" das descobertas. Essa "verdade objetiva" pode ser, e está sendo, questionada por outros motivos, mas não que uma determinada proposição é verdadeira ou falsa em função da posição social dos homens que a formularam. Em certa medida, essa situação favorável pode ser explicada pelo fato de que a lógica, a matemática, a física e outras áreas lidam com experiências que, em grande parte, não sofrem influência da posição social do observador e são praticamente invariáveis ​​à mudança histórica: para um capitalista e um proletário, uma pedra caindo parece a mesma coisa.

As ciências sociais não compartilham dessa vantagem. É possível, ou assim parece, contestar suas conclusões não apenas por todos os motivos pelos quais as proposições de todas as ciências podem ser contestadas, mas também pelo adicional de que elas não podem transmitir mais do que as afiliações de classe de um autor e que, sem referência a tais afiliações de classe, não há espaço para as categorias de verdadeiro ou falso, portanto, para a própria concepção de "avanço científico". Doravante, adotamos que o termo Ideologia ou Viés Ideológico se aplica apenas a esse estado real ou suposto das coisas, e nosso problema é determinar até que ponto o viés ideológico é ou foi um fator no desenvolvimento daquilo que se poderia chamar de “economia científica”.

Ao reconhecer o elemento ideológico, é possível ir a extremos muito diferentes. Há alguns autores que, de fato, negaram a existência, em economia, de algo como uma acumulação de fatos "corretamente" observados e proposições "verdadeiras". Mas igualmente pequena é a minoria que negaria completamente a influência do viés ideológico. A maioria dos economistas situa-se entre esses extremos: estão dispostos a admitir sua presença, embora, como Marx, o encontrem apenas nos outros e nunca em si mesmos; mas não admitem que seja uma maldição inescapável e que vicie a economia em sua essência.

É precisamente essa posição intermediária que levanta o nosso problema. Pois as ideologias não são simplesmente mentiras; são afirmações verdadeiras sobre o que um homem pensa que vê. Assim como o cavaleiro medieval se via como desejava se ver, e assim como o burocrata moderno faz o mesmo, e assim como ambos falharam e falham em perceber tudo o que possa ser alegado contra a sua autoimagem como defensores dos fracos e inocentes e promotores do bem comum, também todo outro grupo social desenvolve uma ideologia protetora que, no mínimo, é sincera. Por hipótese, não temos consciência de nossas racionalizações — como, então, é possível reconhecê-las e nos proteger delas?

Mas permitam-me repetir antes de prosseguir: estou falando da ciência, enquanto técnica que produz os resultados que, juntamente com juízos de valor ou preferências, geram recomendações, sejam estas individuais ou sistemas delas — como os sistemas do mercantilismo, do liberalismo e assim por diante. Não falo desses juízos de valor e dessas recomendações em si.

Concordo plenamente com aqueles que sustentam que juízos sobre valores últimossobre o Bem Comum, por exemploestão além do alcance do cientista, exceto como objetos de estudo histórico, uma vez que são ideológicos por natureza e que o conceito de progresso científico só pode ser aplicado a eles na medida em que os meios para os implementar sejam aperfeiçoados. Compartilho da convicção de que não faz sentido dizer que o mundo das ideias do liberalismo burguês é "superior", em qualquer sentido relevante, ao mundo das ideias da Idade Média, ou o mundo das ideias do socialismo ao do liberalismo burguês. Na verdade, acredito que não há outra razão, além da preferência pessoal, para afirmar que nossas políticas são mais bem fundamentadas e sábias do que as dos Tudores, dos Stuarts ou de Carlos Magno [tanto umas, as nossas, como outras, as dos antigos, são absolutamente adequadas ao tempo em que foram formuladas; se tentássemos aplicar as regras do liberalismo econômico atual nas condições objetivas da Idade Média, o resultado seria um grande desastre]

Primeiro, a percepção de um conjunto de fenômenos relacionados é um ato pré-científico. Ela precisa ser realizada para que nossas mentes tenham algo sobre o que trabalhar cientificamente — para indicar um objeto de pesquisa —, mas não é científica em si mesma. Embora pré-científica, não é pré-analítica. Não consiste simplesmente em perceber fatos por meio de um ou mais sentidos. Esses fatos precisam ser reconhecidos como tendo algum significado ou relevância que justifique nosso interesse neles, e precisam ser reconhecidos como relacionados — para podermos separá-los de outros —, o que envolve algum trabalho analítico por parte de nossa imaginação ou senso comum. Essa mistura de percepções e análise pré-científica será chamada de Visão ou Intuição do pesquisador. Na prática, é claro, raramente partimos do zero, de modo que o ato pré-científico da visão não é inteiramente nosso. Partimos do trabalho de nossos predecessores ou contemporâneos, ou então das ideias que circulam no imaginário popular. Nesse caso, nossa visão também conterá pelo menos alguns dos resultados de análises científicas anteriores. Portanto, esse composto nos é fornecido e já existia antes mesmo de iniciarmos nosso trabalho científico.

Segundo, se identifiquei com a "construção de modelos" a análise científica que opera sobre o material oferecido pela visão, devo acrescentar de imediato que pretendo atribuir ao termo "modelo" um significado muito amplo. O modelo econômico explícito de nossos dias e seus análogos em outras ciências são, naturalmente, produto de estágios avançados do esforço científico. Essencialmente, porém, eles não fazem nada que não esteja presente nas formas mais primitivas de esforço analítico, que, portanto, também podem ser consideradas como tendo produzido, com cada pesquisador individual, modelos primitivos, fragmentários e ineficientes. Esse trabalho consiste em selecionar certos fatos em detrimento de outros, em defini-los com precisão, rotulando-os; mas também em acumular mais fatos não apenas para complementar, mas também, em parte, para substituir aqueles originalmente selecionados, em formular e aprimorar as relações percebidas — em suma, em pesquisas "factuais" e "teóricas" que se desenrolam em uma cadeia interminável de trocas, em que os fatos sugerem novos instrumentos analíticos (teorias) e estes, por sua vez, nos conduzem ao reconhecimento de novos fatos. Isso é verdade tanto para um relato histórico quanto para a racionalização da equação de Schrödinger, embora, em qualquer caso específico, a tarefa de apuração de fatos ou a tarefa de afinar a análise possa predominar num momento, encobrindo a outra. Professores podem tentar esclarecer isso para seus alunos falando sobre indução e dedução, chegando até mesmo a contrapor uma à outra, criando, assim, problemas espúrios. O essencial, seja qual for a nossa interpretação, é a "troca incessante" entre o conceito claro e a conclusão coerente, por um lado, e o novo fato e o tratamento de sua variabilidade, por outro.

Agora, assim que realizarmos o milagre de saber o que não podemos saber, ou seja, a existência do viés ideológico em nós mesmos e nos outros, podemos rastreá-lo até uma fonte simples [Schumpeter adorava fazer ironias com jogos de palavras]. Essa fonte [da ideologia] reside na visão inicial dos fenômenos que propomos submeter ao tratamento científico, mas o seu tratamento, em si, está sob controle objetivo, no sentido de que é sempre possível estabelecer se uma dada afirmação, em referência a um dado estado de conhecimento, é comprovável, refutável ou nenhuma das duas. É claro que isso não exclui o erro honesto ou a falsificação desonesta. Não exclui delírios de diversos tipos. Mas permite a exclusão daquele tipo específico de delírio que chamamos de ideologia [no sentido de um juízo de valor independente dos fatos], porque o teste envolvido é indiferente a qualquer ideologia [ou deveria sê-lo]. 

(Continua).


quarta-feira, 22 de abril de 2026

 


OLHAR PENETRANTE
Certa noite, no camarim do teatro, Miss Pope, discorrendo com todo o entusiasmo de sua juventude sobre o gênio de David Garrick - velho ator inglês - e seus belos traços, exclamou: — "Que olhar ele tinha! Parecia que podia atravessar uma tábua de madeira." Disse Ralph Wewitzer - outro afamado ator inglês - "E você não se sentia incomodada?"

segunda-feira, 20 de abril de 2026

 

POR QUE ALGUNS BRITÂNICOS NÃO GOSTAM DE DONALD TRUMP?

Nate White, um escritor inglês

Algumas coisas me vêm à mente. Trump carece de certas qualidades que os britânicos tradicionalmente prezam. Por exemplo, ele não tem classe, charme, frieza, credibilidade, compaixão, sagacidade, calor humano, sabedoria, sutileza, sensibilidade, autoconsciência, humildade, honra ou elegância — todas qualidades, curiosamente, com as quais seu antecessor, o Sr. Obama, foi generosamente agraciado.

Portanto, para nós, o forte contraste expõe as limitações de Trump constrangedoramente. Além disso, gostamos de rir. E, embora Trump costume ser ridículo, ele nunca disse nada irônico, espirituoso ou sequer remotamente engraçado — nunca, jamais. Não digo isso retoricamente, quero dizer literalmente: nunca, jamais. E esse fato é particularmente perturbador para a sensibilidade britânica — para nós, a falta de humor é quase desumana. Mas em Trump, isso é um fato. Ele sequer parece entender o que é uma piada — para ele, piada é um comentário grosseiro, um insulto ignorante, um ato casual de crueldade.

Trump é um troll. E, como todos os trolls, ele nunca é engraçado e nunca ri; ele apenas se vangloria ou zomba. Assustadoramente, ele não só fala insultos grosseiros e sem graça, como realmente pensa dessa forma. Sua mente é um algoritmo simples, como o de um robô, repleto de preconceitos mesquinhos e maldade impulsiva. Nunca há nenhuma camada subjacente de ironia, complexidade, nuance ou profundidade. É tudo superficial. Alguns americanos podem ver isso como algo refrescantemente franco, direto. Bem, nós não. Vemos isso como a ausência de um mundo interior, de alma.

Na Grã-Bretanha, tradicionalmente nos aliamos a Davi, não a Golias. Todos os nossos heróis são azarões corajosos: Robin Hood, Dick Whittington, Oliver Twist [o próprio Churchill estava completamente desacreditado no Partido Conservador às vésperas da 2ª Guerra]. Trump não é corajoso nem um azarão. Ele é exatamente o oposto disso. Ele nem sequer é um riquinho mimado ou um magnata ganancioso. É mais como uma enorme e gordurosa lesma branca. Um Jabba the Hutt [o vilão de Guerra nas Estrelas] do privilégio.

E pior, ele é aquilo que os britânicos consideram imperdoável: um valentão. Exceto quando está entre valentões; aí, de repente, ele se transforma numa adolescente deslumbrada [como aconteceu com Vladimir Putin]. Há regras não ditas para essas coisas — as regras de Queensberry [lorde inglês que criou as regras do boxe] da decência básica — e ele quebra todas elas. Ele ataca quem está em posição inferior — algo que um cavalheiro jamais faria — e cada golpe que ele desfere visa as partes baixas. Ele gosta particularmente de chutar os vulneráveis ​​ou indefesos — e os chuta quando já estão no chão.

Portanto, o fato de uma minoria significativa — talvez um terço — dos americanos observar o que ele faz, ouvir o que ele diz, e depois pensar “Ele parece ser do meu tipo” é motivo de certa confusão e não pouca angústia para os britânicos, uma vez que os americanos, em geral, são considerados mais gentis do que nós, e na maioria das vezes o são.

Não é preciso ser um especialista em detalhes para notar algumas falhas nesse homem. Este último ponto é o que mais confunde e consterna os britânicos, e outras pessoas também; seus defeitos são praticamente impossíveis de ignorar. Afinal, é impossível ler um único tweet dele, ou ouvi-lo falar uma ou duas frases, sem se deparar com um abismo. Ele transforma a falta de tato em arte; é um Picasso da mesquinhez; um Shakespeare de merda. Seus defeitos são fractais: até mesmo suas falhas têm falhas, e assim por diante, ao infinito [como os fractais].

Deus sabe que sempre houve pessoas estúpidas no mundo, e muitas pessoas desagradáveis ​​também. Mas raramente a estupidez foi tão desagradável, ou a maldade tão estúpida. Ele faz Nixon parecer confiável e George W. Bush inteligente. Aliás, se Frankenstein decidisse criar um monstro feito inteiramente só de defeitos humanos, ele criaria um Trump. E um Dr. Frankenstein arrependido arrancaria tufos enormes de cabelo e gritaria em agonia: “Meu Deus… o que… eu… criei?”

Se ser um idiota fosse um programa de TV, Trump seria a série completa.

domingo, 19 de abril de 2026


CIÊNCIA E IDEOLOGIA - 1

Já que estamos falando de ideologia, traduzi, abaixo, o texto de uma conferência dada por Schumpeter para a Associação dos Economistas Americanos, em 1948, publicada na The American Economic Review, em março de 1949. Posteriormente, retomaremos a History of Economic Analysis.

Há cem anos, os economistas estavam muito mais satisfeitos com seu desempenho do que estão hoje. Mas afirmo que, se essa complacência pode ser justificada, e digo que há muito mais motivos para complacência hoje do que havia naquela época, ou mesmo há um quarto de século... E se isso é verdade para o nosso domínio dos fatos, deve ser verdade também para todos os campos aplicados que, para seu avanço, dependem principalmente da apuração de fatos. Devo insistir, um pouco contido, na afirmação de que nossa capacidade de análise cresceu em paralelo com nosso acervo de fatos. Um novo conjunto de métodos estatísticos emergiu, em certa medida por nossos próprios esforços, que certamente terá tanta importância para nós quanto para todas as ciências, como a biologia ou a psicologia experimental, cujos fenômenos são expressos em termos de distribuições de frequência.

Em resposta a esse desenvolvimento e em consonância com ele, mas de forma independente, nosso próprio conjunto de ferramentas analíticas foi enormemente enriquecido: a teoria econômica, no sentido instrumental do termo — que não significa o ensino dos fins últimos das políticas públicas nem hipóteses explicativas, mas simplesmente a soma total de nossos métodos de lidar com os fatos — cresceu tanto quanto Marshall e Pareto previram. Se isso não é mais amplamente reconhecido e se é de bom tom entre economistas — principalmente em público — emitir julgamentos depreciativos sobre o estado de nossa ciência, isso se deve a uma série de causas que, embora conhecidas, costumam se repetir: um terreno onde estruturas antigas estão sendo demolidas e novas erguidas não é algo esteticamente agradável; além disso, de forma bastante desencorajadora, as novas estruturas estão sendo desacreditadas por tentativas prematuras de aplicação utilitarista; finalmente, a área de construção se expande tanto que impossibilita ao trabalhador individual compreender tudo o que acontece além do seu pequeno setor.

Seria, de fato, difícil apresentar de forma sistemática, como Smith, Mills e Marshall conseguiram fazer com maior ou menor sucesso, um tratado abrangente que demonstrasse alguma unidade e obtivesse aprovação quase universal. Assim, embora os trabalhadores de cada setor não estejam de todo insatisfeitos com o seu próprio desempenho, é bastante provável que desaprovem a maneira como os outros setores executam suas tarefas, ou mesmo que neguem que essas outras tarefas mereçam qualquer atenção... Muitos tipos de mente são necessários para construir a estrutura do conhecimento humano, tipos que nunca se entendem completamente. A ciência é técnica e, quanto mais se desenvolve, mais completamente escapa à compreensão não só do público em geral, mas também... do próprio pesquisador.

Isso ocorre mais ou menos em todos os lugares, embora uma maior uniformidade na formação e uma maior disciplina no trabalho possam, na física, reduzir o tumulto a algo semelhante à ordem. Como todos sabem, porém, existe entre nós outra fonte de confusão e outra barreira ao progresso: a maioria de nós, não contente com sua tarefa científica, cede ao chamado do dever público e ao desejo de servir ao país e à sua época, trazendo consigo para o trabalho seus valores individuais, suas crenças e sua visão política — toda a sua personalidade moral, até suas ambições espirituais.

Não pretendo discutir sobre juízos de valor ou sobre a defesa de interesses de grupo. Pelo contrário, é essencial para o meu propósito enfatizar que, em si, a prática científica não exige que nos despojemos de nossos juízos de valor ou que renunciemos à vocação de defensor de algum interesse específico. Investigar fatos ou desenvolver ferramentas para fazê-lo é uma coisa; avaliá-los de um ponto de vista moral ou cultural é, logicamente, outra coisa, e as duas não precisam entrar em conflito. Da mesma forma, o defensor de um determinado interesse pode, ainda assim, realizar um trabalho analítico honesto, e a motivação de provar um ponto em defesa do interesse ao qual deve lealdade não prova, por si só, nada a favor ou contra esse trabalho analítico: em outras palavras, defender uma causa não implica mentir ou  distorcer fatos ou inferências para servirem a um ideal ou interesse. Mas tal conduta má não é necessariamente inerente ao argumento de um pesquisador a partir de suas "premissas axiológicas" ou à defesa delas em si. Abundam exemplos em que economistas estabeleceram proposições cujas implicações não lhes causavam qualquer simpatia. Para citar um único exemplo: estabelecer a consistência lógica das condições (equações) que descrevem uma economia socialista parecerá à maioria das pessoas equivalente a ganhar um ponto para o socialismo; mas isso foi estabelecido por Enrico Barone, um homem que... não simpatizava com os ideais socialistas.

(continua)


 

TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 8

O Processo Científico: Visão e Regras de Procedimento.

Estamos agora prontos para dar o segundo passo em nossa investigação sobre os perigos do viés ideológico, ou seja, para perguntar até que ponto ele ameaça a validade dos resultados naquele campo mais restrito que descrevemos como Análise Econômica. Alguns leitores podem até pensar que não há um segundo passo a ser dado: uma vez que já renunciamos, como condicionados ideologicamente, a todos os sistemas de economia política, e uma vez que, além disso, reconhecemos como ideologias os conjuntos de opiniões sobre assuntos econômicos menos completamente sistematizados que, em qualquer tempo e lugar, “flutuam na mente do público”, parece que, de fato, admitimos tudo o que havia para admitir. E aqueles leitores, em particular, cujo principal interesse reside na história das ideias que moldam as pessoas... associadas a políticas ou a concepções sobre o que deve ser considerado justo ou desejável na gestão de assuntos econômicos, e cujo interesse no desenvolvimento da análise econômica técnica é apenas secundário, provavelmente admitirão que nosso conjunto de ferramentas pode estar tão distante da influência de ideologias quanto as técnicas de qualquer outra ciência. Infelizmente, não podemos presumir isso. Analisemos, portanto, o próprio processo científico para identificar onde elementos ideológicos podem se infiltrar e quais são os nossos meios de reconhecê-los e, talvez, eliminá-los.

Na prática, todos nós iniciamos nossas pesquisas a partir do trabalho de nossos antecessores, ou seja, raramente começamos do zero. Mas suponhamos que começássemos do zero... para sermos capazes de formular quaisquer problemas, primeiro precisaríamos visualizar um conjunto distinto de fenômenos coerentes... Em outras palavras, o esforço analítico é necessariamente precedido por um ato cognitivo pré-analítico que fornece a matéria-prima para o esforço analítico. Neste livro, esse ato cognitivo pré-analítico será chamado de Visão. É interessante notar que esse tipo de visão não só deve preceder historicamente o surgimento do esforço analítico em qualquer campo, como também pode reaparecer na história de toda ciência estabelecida sempre que alguém nos ensina a ver as coisas sob uma perspectiva cuja origem não se encontra nos fatos, métodos e resultados do estado preexistente da ciência.

Ilustremos isso com um exemplo de nossa época. Críticos e admiradores da contribuição científica do falecido Lord Keynes concordarão que sua Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda (1936) foi o grande sucesso da década de 1930 e dominou o trabalho analítico por, no mínimo, uma década após sua publicação. A Teoria Geral apresentou um aparato analítico que o autor resumiu no Capítulo 18. Se seguirmos sua exposição passo a passo (ver especialmente pp. 249–54), observamos que esse aparato foi concebido para dar expressão conveniente a certos fatos do “mundo em que vivemos” — embora, como o próprio Keynes enfatizou, esses fatos sejam atribuídos às suas tabelas fundamentais (propensão a consumir, atitude em relação à liquidez e eficiência marginal do capital) como características especiais e não como propriedades “logicamente necessárias”.

Esse padrão analítico será discutido posteriormente, onde também será demonstrado que as características especiais em questão são características do capitalismo inglês em declínio, vistas do ponto de vista de um intelectual inglês. Não há dúvidas de que foram estabelecidas por pesquisas factuais anteriores. Elas são “plausivelmente atribuídas ao nosso mundo [inglês], com base em nosso conhecimento geral da natureza humana contemporânea” (p. 250). Este não é o lugar para discutir os méritos ou deméritos dessa concepção. O que importa aqui e agora é que se trata de uma concepção ou visão, em nosso sentido, e que antecedeu todos os esforços analíticos de Keynes. O processo se destaca, neste caso, com uma clareza insuperável porque podemos ler uma formulação da visão, ainda analiticamente desarmada, em algumas páginas brilhantes de As Consequências Econômicas da Paz (1919), de Keynes. No que diz respeito a essa linha de atuação... todo o período entre 1919 e 1936 foi gasto em tentativas, primeiro malsucedidas, depois cada vez mais bem-sucedidas, de implementar a visão particular do processo econômico de nossa época que estava fixada na mente de Keynes, no máximo, em 1919 [ou seja, essa visão não pode deixar de apresentar condicionamentos sociais, logo algum nível de ideologia]...

O esforço analítico começa quando concebemos nossa visão do conjunto de fenômenos que despertou nosso interesse, independentemente de esse conjunto estar em solo virgem ou em terras já cultivadas. A primeira tarefa é verbalizar ou conceituar essa visão de forma que seus elementos ocupem seus lugares, com nomes que facilitem o reconhecimento e a manipulação, em um esquema ou representação mais ou menos ordenada. Mas ao fazer isso, nós nos impomos, quase automaticamente, duas tarefas: por um lado, reunimos mais fatos além daqueles já percebidos e aprendemos a desconfiar de outros que figuravam na visão original; por outro lado, o próprio trabalho de construir o esquema ou a imagem adicionará novas relações e conceitos ao conjunto original e, em geral, também eliminará outros.

O trabalho factual e o trabalho “teórico”, em uma relação interminável de troca e contribuição, naturalmente testando-se mutuamente e propondo novas tarefas um para o outro, eventualmente produzirão modelos científicos, os produtos conjuntos provisórios de sua interação com os elementos sobreviventes da visão original, aos quais serão aplicados padrões cada vez mais rigorosos de consistência e adequação... Agora, deve ficar perfeitamente claro que há uma ampla porta de entrada para a ideologia nesse processo. Na verdade, ela entra logo no início, no ato cognitivo pré-analítico do qual temos falado. O trabalho analítico começa com o material fornecido por nossa visão das coisas, e essa visão é ideológica quase por definição.

Ela incorpora a imagem das coisas como as vemos, e sempre que houver qualquer motivo possível para desejar vê-las sob uma determinada perspectiva em vez de outra, a maneira como as vemos dificilmente pode ser distinguida da maneira como desejamos vê-las. Quanto mais honesta e ingênua for nossa visão, mais perigosa ela será para o eventual surgimento de algo que possa ser considerado de validade geral. A inferência para as ciências sociais é óbvia, e nem mesmo é verdade que aquele que odeia um sistema social formará uma visão objetivamente mais correta dele do que aquele que o ama. Pois o amor distorce, de fato, mas o ódio distorce ainda mais. Nosso único consolo reside no fato de que há um grande número de fenômenos que não afetam nossas emoções de uma forma ou de outra e que, portanto, parecem muito semelhantes para inúmeros indivíduos.

Mas também observamos que as regras de procedimento que aplicamos em nosso trabalho analítico são quase tão isentas de influência ideológica quanto a visão está sujeita a ela. Lealdade apaixonada e ódio apaixonado podem, de fato, interferir nessas regras. Em si mesmas, essas regras, muitas das quais, aliás, nos são impostas pela prática científica em campos pouco ou nada afetados pela ideologia, são bastante eficazes em expor o mau uso. E, o que é igualmente importante, elas tendem a eliminar o erro condicionado ideologicamente das visões a partir das quais partimos. Essa é a sua virtude particular, e elas o fazem automática e independentemente dos desejos do pesquisador. Os novos fatos que ele é obrigado a acumular se impõem ao seu esquema mental. Os novos conceitos e relações, que alguém mais formulará se ele não o fizer, devem verificar suas ideologias ou então destruí-las. E se esse processo for permitido se desenvolver completamente, certamente não nos protegerá do surgimento de novas ideologias, mas, no fim, eliminará o erro das existentes.

É verdade que, em economia, e ainda mais em outras ciências sociais, essa esfera do estritamente comprovável é limitada, pois sempre existem áreas periféricas que são questões de experiência e impressão pessoal, das quais é praticamente impossível erradicar completamente a ideologia, ou mesmo a desonestidade consciente. O consolo que podemos obter com nosso argumento, portanto, nunca é completo [o máximo que se pode fazer é controlar a ideologia].

[traduzido de History of Economic Analysis]

Infelizmente Schumpeter não concluiu esse ponto antes de morrer, e boa parte da reconstituição provável desse trecho está comprometida e incompleta. Pegamos apenas as partes que ajudem a perceber melhor o que ele defendeu a respeito.

domingo, 12 de abril de 2026

 

TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 7

Diferença entre História da Análise Econômica, História dos Sistemas de Economia Política e História do Pensamento Econômico

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Por sistema de economia política, entendo uma exposição de um conjunto abrangente de políticas econômicas que seu autor defende com base em certos princípios unificadores (normativos), como os princípios do liberalismo econômico, do socialismo e assim por diante. Tais sistemas se enquadram em nosso escopo na medida em que contenham trabalho genuinamente analítico. Por exemplo, A Riqueza das Nações, de A. Smith, foi, de fato, em sua intenção, um sistema de economia política no sentido definido acima e, como tal, não nos interessa. Nos interessa ainda mais pelo fato de que os princípios e receitas políticas de A. Smith — sua defesa cautelosa do livre comércio e outros — são apenas a capa de uma grande conquista analítica [feita antes de Smith].

Em outras palavras, não estamos tão interessados ​​no que ele argumentou, mas em como ele argumentou e quais ferramentas de análise utilizou para fazê-lo. Seus princípios e receitas políticas (incluindo a ideologia revelando juízos de valor) eram, sem dúvida, o que mais importava para ele e para seus leitores e, além disso, o que explica principalmente o sucesso de sua obra junto ao público e sua posição de destaque na história do pensamento humano. Mas estou disposto a descartá-los como meras formulações da ideologia de sua época e país, sem validade para qualquer outra.

O mesmo se aplica ao que definimos como Pensamento Econômico, ou seja, a soma total de todas as opiniões e desejos relativos a assuntos econômicos, especialmente no que diz respeito às políticas públicas que os influenciam, e que, em qualquer tempo e lugar, circulam na mente pública.

Ora, a mente pública nunca é algo indiferenciado ou homogêneo, mas sim o resultado da divisão da comunidade correspondente em grupos e classes de naturezas diversas. Em outras palavras, a mente pública reflete, de forma mais ou menos traiçoeira... a estrutura de classes da sociedade correspondente e as mentalidades ou atitudes de grupo que nela se formam. Como essas mentalidades de grupo têm diferentes oportunidades de se afirmar e, principalmente, de deixar suas marcas na literatura que chega ao conhecimento das gerações posteriores, surgem questões de interpretação que são sempre difíceis de resolver.

... Uma coisa é lidar com políticos, outra com os lojistas, agricultores e operários que são “representados” por esses políticos. E isso pode ser formulado em sistemas de economia política por escritores que pertencem, ou se vinculam, a setores específicos. Por outro lado, pode tangenciar, ou se sobrepor a, trabalhos analíticos, como frequentemente ocorre em tratados escritos por membros da burguesia comercial ou industrial. Na medida em que isso acontece, será nossa tarefa, naturalmente, selecionar, da melhor maneira possível, as interpretações analíticas dentre as verbalizações comuns dos humores da época que não estejam relacionadas ao esforço para aprimorar nosso aparato conceitual e, portanto, não nos interessam.

É claro que jamais negligenciaremos o ambiente geral do pensamento econômico no qual, em diferentes épocas, os analistas desenvolveram seu trabalho. Mas esses ambientes e suas transformações históricas nunca são nosso principal objeto de interesse. Eles surgem como influências favoráveis ​​ou inibidoras sobre o trabalho analítico, que permanecerá o protagonista ao longo de nossa análise. Ao tentarmos desvincular o trabalho analítico de seu contexto popular, mesmo que este exerça incessantemente sua influência, faremos uma descoberta que é conveniente ressaltar de imediato.

O desenvolvimento do trabalho analítico, por mais perturbado que tenha sido pelos interesses e atitudes do mercado, apresenta uma característica totalmente ausente do desenvolvimento histórico do pensamento econômico em nosso sentido, bem como da sucessão histórica dos sistemas de economia política. Essa característica pode ser melhor ilustrada por um exemplo: desde os primórdios até os dias de hoje, os economistas analíticos têm se interessado, em maior ou menor grau, pela análise do fenômeno que chamamos de preço competitivo. Quando o estudante moderno se depara com o fenômeno em um nível avançado de seus estudos, por exemplo, nos livros de Hicks ou Samuelson, ele é apresentado a uma série de conceitos e problemas que podem lhe parecer difíceis a princípio, e certamente seriam completamente incompreensíveis para um autor como John Stuart Mill. Mas o estudante também descobrirá em breve que um novo aparato apresenta e resolve problemas para os quais os autores mais antigos teriam dificilmente encontrado respostas, mesmo que os conhecessem. Isso define, de maneira sensata e, em todo caso, perfeitamente inequívoca, em que sentido houve "progresso científico" entre Mill e Samuelson.

Ora, nossa capacidade de falar em progresso nesse caso se deve, obviamente, ao fato de existir um padrão amplamente aceito, restrito a um grupo de profissionais, que nos permite organizar diferentes teorias de preço competitivo em uma série em que cada membro pode ser considerado superior ao anterior [o nível (de complexidade ou precisão) da análise mais aceita em uma época tende a ser superado pelo nível da análise mais aceita que lhe segue]. Observamos ainda que essa sequência está associada ao passar do tempo, no sentido de que a teoria posterior dos preços competitivos quase sempre ocupa posição superior na escala de perfeição analítica: quando isso não ocorre, é possível atribuir esse fato a influências extra-analíticas perturbadoras. Mas, embora seja possível falar em progresso analítico e impossível negar os fatos que essa palavra denota, nada corresponde a isso no campo do pensamento econômico ou mesmo em qualquer conjunto histórico de sistemas de economia política. 

Por exemplo, não faria sentido falar de uma superioridade das ideias de Carlos Magno sobre política econômica, reveladas por suas ações legislativas e administrativas, sobre as ideias econômicas, digamos, do Rei Hamurabi; ou dos princípios gerais de política revelados pelas proclamações dos reis Stuart sobre as de Carlos Magno; ou das declarações de política que precedem às vezes as leis do Congresso sobre essas proclamações Stuart. É claro que podemos simpatizar com alguns dos interesses favorecidos em um desses casos em vez dos interesses favorecidos em outros e, nesse sentido, organizar esses documentos também em uma escala de preferência. Mas o lugar de qualquer corrente de pensamento econômico em tal conjunto variaria de acordo com os nossos julgamentos de valores, e quanto ao resto, ficaremos com nossa preferência emocional ou estética pelos diversos esquemas de vida que encontram expressão nesses documentos. Situação semelhante a como se nos perguntassem se o melhor pintor seria Gauguin ou Ticiano. A única resposta sensata para tal pergunta é que ela não tem sentido. E o mesmo se aplica, naturalmente, a todos os sistemas de economia política, se excluirmos deles as excelências ou deficiências técnicas.

Podemos, de fato, preferir o mundo do socialismo ditatorial moderno ao mundo de Adam Smith, ou vice-versa, mas qualquer preferência desse tipo se enquadra na mesma categoria de avaliação subjetiva... Em outras palavras, não há significado objetivo para o termo progresso em questões econômicas ou de qualquer outra política, porque não existe um padrão válido para comparações. Seria supérfluo acrescentar que esse argumento parece esclarecer satisfatoriamente as diferenças entre os historiadores da economia sobre esse ponto. Alguns deles pensam em análise técnica e em um domínio crescente dos fatos; estes estão absolutamente certos ao falar do progresso científico em nossa área. Outros falam das mudanças de humor, elas próprias produto das mudanças nas condições sociais, que produzem mudanças de opinião sobre políticas e desejos; estes estão absolutamente certos ao negar que exista algo como progresso em nossa área. Qualquer um dos grupos pode errar ao ignorar que existe um aspecto do pensamento humano sobre assuntos econômicos além daquele que estão considerando exclusivamente [talvez ele esteja se referindo aqui à questão da afetividade, das preferências, que é incomensurável e que subjaz a toda atividade mental].

[traduzido de History of Economic Analysis]

segunda-feira, 6 de abril de 2026

TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 6

A HISTÓRIA DA ECONOMIA É UMA HISTÓRIA DE IDEOLOGIAS?

A natureza histórica ou ‘evolutiva’ do processo econômico limita inquestionavelmente o alcance dos conceitos e das relações gerais entre eles (‘leis econômicas’) que os economistas podem formular. De fato, não faz sentido negar, a priori, como já foi feito algumas vezes, que tais conceitos ou relações não podem sequer ser formulados. Em particular, não é necessário que os conceitos que usamos no estudo de grupos sociais sejam familiares aos próprios membros desses grupos: se é fato que o conceito de renda não era familiar às pessoas da Idade Média antes do século XIV não é motivo para não usá-lo em uma análise de sua economia. Mas é verdade também que as “leis econômicas” são muito menos estáveis ​​do que as “leis” de qualquer ciência física, que elas funcionam de maneira diferente em diferentes condições institucionais e que a negligência desse fato foi responsável por muitas aberrações. Também é verdade que, quando tentamos interpretar atitudes humanas, especialmente atitudes de pessoas muito distantes de nós no tempo ou na cultura, arriscamos compreendê-las mal, não apenas se substituirmos grosseiramente nossas próprias atitudes pelas delas, mas também se fizermos o possível para penetrar no funcionamento de suas mentes. Tudo isso se agrava consideravelmente pelo fato de o próprio observador ser produto de um determinado ambiente social — e de sua posição específica nesse ambiente — que o condiciona a enxergar certas coisas em detrimento de outras, e a vê-las sob uma determinada perspectiva. E não é só isso: fatores ambientais podem até mesmo dotar o observador de um desejo subconsciente de ver as coisas sob uma certa ótica. Isso nos leva ao problema do viés ideológico na análise econômica.

A psicologia e a psicoterapia modernas nos familiarizaram com um hábito mental que chamamos de racionalização. Esse hábito consiste em nos confortar e impressionar os outros, criando uma imagem de nós mesmos, de nossas motivações, de nossos amigos, de nossos inimigos, de nossa vocação, de nossa igreja, de nosso país, que pode ter mais a ver com o que gostaríamos que fossem do que com o que realmente são. O concorrente que é mais bem-sucedido do que nós, provavelmente deve seu sucesso a artimanhas que desprezamos. É bem provável que o líder de um partido que não é o nosso seja um charlatão... E assim por diante. A importância desse hábito para a saúde e a felicidade da mente normal é óbvia, assim como a importância de um diagnóstico correto de suas manifestações verbais.

O conceito de ideologia marxista

Meio século antes de que a importância desse fenômeno fosse plenamente reconhecida e utilizada profissionalmente [já havia o uso pejorativo feito por Napoleão I], Marx e Engels o descobriram e usaram essa descoberta em suas críticas à economia “burguesa” de sua época. Marx percebeu que as ideias ou sistemas de ideias dos homens não são, como a historiografia ainda tende a assumir acriticamente, os principais motores do processo histórico, mas formam uma “superestrutura” sobre fatores mais fundamentais...

Marx percebeu ainda que as ideias ou sistemas de ideias que prevalecem em qualquer momento e em qualquer grupo social, na medida em que contêm proposições sobre fatos e inferências a partir de fatos, serão provavelmente viciados exatamente pelas mesmas razões que também viciam as teorias de um homem sobre seu próprio comportamento individual. Ou seja, as ideias das pessoas tendem a glorificar os interesses e as ações das classes que estão em posição de se afirmar e, portanto, tendem a desenhar ou insinuar imagens delas que podem estar seriamente em desacordo com a verdade [que, por alguma razão misteriosa, só Marx e Engels conseguiam ver no seu tempo].

Assim, os cavaleiros medievais se imaginavam como protetores dos fracos e defensores da fé cristã, enquanto seu comportamento real, além de outros fatores que produziram e mantiveram a estrutura social de seu mundo, certamente parecerá muito diferente para um observador de outra época e mesmo de outra classe no seu tempo. Marx chamou esses sistemas de ideias de ideologias. E sua tese era que grande parte da economia de sua época nada mais era do que a expressão da ideologia da burguesia industrial e comercial.

O valor dessa grande contribuição para nossa compreensão dos processos históricos e do significado das ciências sociais é prejudicado, mas não destruído, por três falhas, que convém observar de imediato.

Primeiro, embora Marx estivesse tão atento ao caráter ideológico de sistemas de ideias com os quais não simpatizava, ele era completamente cego aos elementos ideológicos presentes nos seus próprios — A meu ver, este é o ponto essencial das racionalizações: elas fornecem uma espécie de autodefesa para nossos organismos psíquicos e tornam suportáveis ​​muitas vidas que não vingariam sem elas. Mas o princípio de interpretação envolvido em seu conceito de ideologia é perfeitamente geral [e pode ser estudado cientificamente]. Obviamente, não podemos dizer que em todo lugar há ideologia e que somente nós nos apoiamos na rocha da verdade absoluta [como fazem os marxistas e aqueles que querem censurar politicamente as redes sociais]. As ideologias trabalhistas não são melhores nem piores do que quaisquer outras.

Em segundo lugar, a análise marxista dos sistemas ideológicos de pensamento os reduz a emulsões de interesses de classe, que por sua vez são definidos em termos exclusivamente econômicos. Segundo Marx, as ideologias da sociedade capitalista são, para dizer de forma grosseira, glorificações dos interesses daquilo que ele denominou classe capitalista, cujos interesses giram em torno da busca por lucros pecuniários. Ideologias que não glorificam o comportamento do homem capitalista nos negócios, mas algo mais, por exemplo, o caráter e o comportamento nacional, devem, portanto, ser sempre redutíveis, ainda que indiretamente, aos interesses econômicos da classe dominante. Isso, porém, não está implícito no cerne do conceito de ideologia, mas constitui uma teoria adicional e muito duvidosa. O próprio princípio implica apenas duas coisas: que as ideologias são superestruturas erguidas sobre, e produzidas pelas realidades da estrutura social objetiva abaixo delas; e que elas tendem a refletir essas realidades de maneira caracteristicamente tendenciosa. Se essas realidades podem ser completamente descritas em termos puramente econômicos, é outra questão. Sem entrar nesse mérito aqui, registramos apenas o fato de que atribuiremos um significado muito mais amplo ao conceito de Influência Ideológica. A posição social é, sem dúvida, um fator poderoso na formação de nossas mentes. Mas isso não significa que nossas mentes sejam moldadas exclusivamente pelos elementos econômicos inerentes à nossa posição de classe ou que, mesmo que isso ocorra, sejam moldadas exclusivamente por um interesse de classe ou grupo bem definido [Nem todos os burgueses, proletários, ou membros de uma classe que o valha, pensam da mesma maneira; isso é um reducionismo atroz!].

Em terceiro lugar, Marx, e especialmente a maioria de seus seguidores, presumiram com muita facilidade que declarações que demonstram influência ideológica são, por si só, condenáveis [menos a sua, que é a verdade absoluta]. Mas é fundamental enfatizar que, assim como as racionalizações individuais, as ideologias não são mentiras... não são necessariamente errôneas. É grande a tentação de aproveitar a oportunidade para descartar de uma só vez todo um conjunto de proposições de que não gostamos, simplesmente chamando-o de ideologia. Esse artifício é, sem dúvida, muito eficaz, tão eficaz quanto os ataques às motivações pessoais de um oponente. Mas, logicamente, é inadmissível.

Como já foi apontado, a explicação, por mais correta que seja, das razões pelas quais um homem diz o que diz, nada nos informa sobre se é verdade ou mentira. Da mesma forma, declarações que procedem de uma base ideológica são passíveis de suspeita, mas ainda podem ser perfeitamente válidas. Tanto Galileu quanto seus oponentes podem ter sido influenciados por ideologias. Isso não nos impede de dizer que ele estava "certo". Mas que justificativa lógica temos para afirmar isso? Existe alguma maneira de localizar, reconhecer e, possivelmente, eliminar os elementos ideologicamente viciados na análise econômica? E o que restará após essa eliminação? Entende-se que nossas respostas, embora ilustradas por exemplos, serão, por ora, provisórias, e que a validade, ou não, dos princípios que estou prestes a formular só poderá ser avaliada por sua aplicação neste livro na sua totalidade. Mas, antes de iniciarmos essa tarefa, precisamos esclarecer uma questão preliminar.

Infelizmente, temos que bloquear uma saída de emergência pela qual alguns dos mais fervorosos defensores da doutrina de que... toda a ciência, é viciada por ilusões ideológicas, tentaram escapar da conclusão aparentemente inevitável sobre a possibilidade da "verdade científica". O professor K. Mannheim ensinava que, embora a ilusão ideológica seja o destino comum da humanidade, existem, no entanto, "inteligências independentes", flutuando livremente no espaço, que gozam do privilégio de estarem isentas desse destino. De forma um pouco mais realista, todos são vítimas da ilusão ideológica, exceto o intelectual radical moderno que se ergue, de fato, sobre a rocha da verdade, o juiz imparcial de todas as coisas humanas. Ora, se há algo que se possa considerar óbvio neste campo, é o fato de que esse intelectual nada mais é do que um amontoado de preconceitos que, na maioria dos casos, são sustentados com toda a força de uma convicção sincera. Mas, além disso, não podemos seguir Mannheim pela escada de incêndio, pois aceitamos plenamente a doutrina da onipresença do viés ideológico e, portanto, não conseguimos enxergar na crença de alguns grupos nada além de uma parte particularmente perversa de seu próprio sistema de ilusões. Agora, voltemos à nossa tarefa.

Primeiro, o viés ideológico, conforme definido acima por nossa versão modificada da definição marxista, obviamente não é o único perigo que ameaça a análise econômica. Em particular, há outros dois que devem ser mencionados especificamente porque são facilmente confundidos com o viés ideológico. Um deles é a possível manipulação de fatos ou de regras processuais por advogados peticionários [profissional especializado em escrever petições, nem sempre muito fieis aos fatos, antes de o advogado entrar em ação]. Tudo o que tínhamos a dizer sobre isso já foi dito: aqui, apenas desejo alertar o leitor de que uma argumentação justificadora não é o mesmo que análise ideologicamente viciada.

Outro perigo decorre do hábito inveterado dos economistas de emitir juízos de valor sobre os processos que observam. Os juízos de valor de um economista muitas vezes revelam sua ideologia, mas não a definem: é possível emitir juízos de valor com base em fatos irrefutavelmente estabelecidos e nas relações entre eles, e é possível abster-se de emitir qualquer juízo de valor com base em fatos vistos sob uma ótica ideologicamente distorcida. Não discutiremos o problema dos juízos de valor aqui...

 

 

Notas

Adequação conceitual

Sociólogos como Max Weber, que defendem o método interpretativo dos estados ou mudanças sociais — isto é, que acreditam que nossa principal ou única tarefa é tentar entender o que as coisas significavam para as pessoas em cada momento — podem facilmente chegar à conclusão de que o uso de quaisquer conceitos desconhecidos para as pessoas em estudo implica o erro de presumir que suas mentes funcionavam exatamente como as nossas. Ora, esse erro pode estar presente, mas não necessariamente: usar um conceito que tem significado para nós, mas não para as pessoas que observamos, é uma coisa; postular que o conceito também tinha significado para estas últimas é outra bem diferente. Não precisamos recorrer a tribos primitivas para ilustrar isso: se, em termos de nossos próprios conceitos, formularmos as condições para maximizar os lucros, não precisamos presumir que o próprio empresário utilize esses conceitos; nossa "teoria" é perfeitamente válida mesmo que saibamos que ele não a utiliza [o que invalida esses conceitos, numa abordagem pretensamente científica, é a sua conotação moral, que transcende a natureza do conceito em si, exceto aqueles que pressupõem um julgamento moral prévio, como os de “exploração”, “exploradores”, “oprimidos”, mais apropriados a pregadores religiosos].

Racionalização

O termo “racionalização”, no sentido explicado a seguir, deve ser cuidadosamente distinguido de outros significados da mesma palavra, especialmente destes dois: (1) Às vezes, falamos de racionalização quando nos referimos a uma ação que visa aprimorar algo, por exemplo, uma empresa industrial, para estar em conformidade com os padrões aprovados por consultores especializados. (2) Em trabalhos de pesquisa, às vezes falamos de racionalização quando nos referimos à tentativa de vincular um conjunto de descobertas empíricas a algum princípio teórico que as explique. Assim, dizemos que racionalizamos o comportamento empresarial observado pelo princípio da maximização do lucro. Esses significados não têm relação alguma com o significado em discussão [um mecanismo de defesa freudiano].

Burocracia e ideologia

Alguns grupos, como as burocracias, são mais propensos a essa ideologia [marxista], que, entre outras coisas, envolve a negação claramente ideológica de qualquer interesse [ideológico] em seu grupo ou, pelo menos, de sua influência [da ideologia] sobre as políticas que eles próprios criam ou ajudam a moldar. Isso pode ser usado como um primeiro exemplo da influência das ideologias sobre a análise [negando-a, esses burocratas a confirmam]. Pois essa ideologia das burocracias é um fator importante no hábito pouco científico dos economistas de usar uma teoria claramente ideológica do Estado, que eleva este último a uma agência sobre-humana para o bem público e negligencia os fatos sobre as realidades da administração pública que a ciência política moderna proporciona.

[Traduzido de History of Economic Analysis]