O CORONEL MOREIRA CÉSAR E
CANUDOS DEVEM MORRER
A PROFECIA DO BARÃO DE COTEGIPE — 8
O coronel encrencado: apareceu uma testemunha
Chama muito a atenção nos fuzilamentos em Anhatomirim a inexistência de testemunha ocular, de alguém com um mínimo de credibilidade, que tenha participado ou presenciado os fuzilamentos. Nenhum soldado ou civil que passou pela fortaleza nesse período jamais falou ou escreveu sobre esse assunto.
Infelizmente, para os defensores da inocência do coronel Moreira César, o pesquisador baiano Oleone Coelho Fontes, em seu livro O Treme-terra Moreira César, a república e Canudos (9), achou um relato do político sergipano Maurício Graco Cardoso — escrevia-se “Graccho” — que testemunhou ou participou de uma execução em Anhatomirim.
Segundo Fontes, Cardoso serviu na “guarnição federal de Santa Catarina e fez parte do pelotão encarregado de fuzilar inimigos da República… por ordem do coronel Moreira César”. Cabia a Graco a tarefa de comunicar ao coronel que o fuzilamento fora efetuado.
Entretanto, “uma vez que a informação ia ser feita oralmente”, Graco foi ao coronel, encontrando-o a saborear um almoço que, segundo Graco, de tão odorífero, ele o recordava muitos anos depois — só consigo imaginar algo muito estragado para dar tanta memória! Contudo, quando ele ia começar a dar a notícia, Moreira César o interrompe com um gesto, dando a entender que já sabia, e o dispensa.
Antes de tudo, precisamos mostrar o contexto que levou o sergipano Maurício Graco Cardoso a Anhatomirim, em Santa Catarina.
Ele era um cadete no Rio de Janeiro, filho de uma rica família, e seguiu para o Sul, no cruzador Niterói — que foi um dos navios que participaram do combate de 16 de abril de 1894, quando o encouraçado Aquidabã encalhou, perto de Anhatomirim, após ser torpedeado. Posteriormente, houve a tomada das fortalezas da ilha de Santa Catarina pela jovem infantaria da Escola Militar.
Graco escreveu um livro sobre o assunto, chamado “Acontecimentos da esquadra legal a bordo do cruzador Nictheroy, em 1894”. Como não consegui encontrá-lo, vou analisá-lo a partir daquilo que Fontes entendeu do texto de Graco.
1.º — Guarnição federal de Santa Catarina? Toda unidade do Exército e da Marinha é força federal. O 7º BI, provisoriamente sob outro comandante, já que o coronel era o governador, fazia parte da guarnição federal, e esse detalhe é importante.
2º — Fontes diz que ele fez parte do pelotão encarregado de fuzilar, mas depois diz que a sua função era avisar ao coronel o resultado da execução, como se o coronel vivesse da fortaleza de Anhatomirim, ou nela trabalhasse regularmente.
3º — Se ele estava atirando, não seria mais razoável que outro fosse avisar ao coronel? Então podemos deduzir que a informação inicial de Fontes é errada. Graco não participava dos pelotões de fuzilamento, mas só comunicava ao coronel o cumprimento da sentença, cuja execução Graco, quando muito, viu, se é que viu, pois podia estar numa saleta fazendo trabalho administrativo.
Mas vamos pensar um pouco.
a) O primeiro ponto a saber é que a fortaleza de Anhatomirim fica em uma pequena ilha de 0,28 km². As construções militares são muito próximas. A Casa do Comandante está em um lugar alto, que permite uma boa visão de toda a ilha, e essa ilha está a cerca de 20 quilômetros do centro de Desterro, na ilha de Santa Catarina.
b) Moreira César foi designado para governar Santa Catarina, para ser uma autoridade estadual. Por que ele não utilizaria a estrutura de governo que já existia no Palácio do Governo, em Desterro, para ficar em Anhatomirim, que não tinha a menor estrutura? Tampouco faria sentido ele ficar morando lá para ir atender em Desterro, voltando para “casa” para almoçar, se arriscando a ter que voltar para algum compromisso de última hora, uma vez que Anhatomirim não tinha a menor condição de receber autoridades com conforto.
c) A planta da fortaleza mostra um galpão comprido, onde os soldados se alojavam, e uma pequena estrutura, tipo bangalô, de dois andares, onde os oficiais se alojavam embaixo e o comandante em cima — suas medidas prováveis são 14,5 m × 14,5 m. As reuniões com secretários e autoridades teriam que ser feitas com alguns sentados nas camas dos oficiais ou ao ar livre. Sentados em cadeiras ou como caciques, na grama.
d) Se ele morava lá, por que o jornal República, de Desterro, anuncia, duas vezes, uma em maio e outra em junho de 1894, que ele fez visita à fortaleza da Santa Cruz? Por que o jornal faria da ida do governador à sua “casa” um evento social?
e) Se o coronel não morava em Anhatomirim, qual é o sentido de ter todo esse trabalho para informar o coronel e não utilizar um telégrafo, bandeiras ou um sinal de luz para alguém de confiança na outra ilha, Santa Catarina, avisar ao coronel?
f) Supondo que ele estivesse no Palácio do Governo, essa urgência em comunicar pessoalmente a notícia dá a entender que aquele “fuzilamento” era importante, além de ilegal e sigiloso. Por que enviariam um jovem cadete de 19 anos para uma missão tão séria?
f) Se era Graco Cardoso o designado para dar essa mensagem, quem se deu ao imenso trabalho de correr meia maratona mais veloz, só para dar a informação em primeiro lugar?
Nada do que Graco supostamente escreveu sobre isso faz o menor sentido. Parece, antes, o produto de uma severa confusão mental, ou foi Oleone Fontes que entendeu tudo errado.
Lembram-se de que Graco Cardoso fazia parte da “guarnição federal”.
Iniciada em 1739, Santa Cruz de Anhatomirim sempre fez parte ativa do sistema de defesa costeira do Brasil até 1955, quando foi abandonada pela Marinha. Parece que, ao longo do século XIX, houve um revezamento de jurisdição entre o Exército e a Marinha. Naquele momento em que a Marinha estava revoltada, compreende-se que Floriano não achasse prudente transferi-la para esta, o que só acontecerá em 1907.
Entende-se também, pela notícia do jornal República de 21 de abril de 1894, que diz que o tenente-coronel Joaquim Vieira de Aguiar estaria “reassumindo” o comando da fortaleza, com a expulsão dos federalistas, que era ele quem a comandava antes da revolta, e que passou a comandá-la em seguida. Há, portanto, um comando federal ativo e autônomo na fortaleza.
Mas há outra consideração relevante: por fazer parte ativa do sistema de defesa costeira do país entre 1744 e 1955, podemos dizer com absoluta certeza que a Fortaleza de Anhatomirim nunca esteve sob jurisdição da Província ou do Estado de Santa Catarina. Inclusive, agora, em 2026, ela se encontra sob a administração da Universidade Federal de Santa Catarina. Em 1894, Moreira César representava o poder estadual.
Portanto, Anhatomirim estava fora da jurisdição de Moreira César.
Ele poderia até fazer um acordo com o Ministério da Guerra para guardar nas prisões de Anhatomirim os prisioneiros do interesse de Floriano, uma vez que a precariedade das cadeias de Desterro não as recomendava. Mas isso é muito diferente de utilizar uma estrutura federal para cometer crimes graves, por mero capricho pessoal.
Se as pessoas mandadas para Anhatomirim acabaram fuziladas, a responsabilidade é toda de Floriano Peixoto, de seu ministro da Guerra na ocasião, general Bibiano Costalatt, e do tenente-coronel Joaquim Vieira de Aguiar, o comandante local, que ficaria muito encrencado se deixasse Moreira César dar ordens ilegais lá dentro.
Aproximadamente um mês, ou um pouco mais, após reassumir o comando da fortaleza, o tenente-coronel Joaquim Vieira de Aguiar solicitou transferência. Teria motivações particulares ou viu algo que não lhe agradou?
Que a mente do jovem Graco Cardoso era confusa e radical no culto do Marechal Floriano, mostra-nos esse artigo dele no jornal República de Desterro. O título é autocontraditório: ESPANQUEM-SE OS ÓDIOS. “O sol perfulgente que na manhã de 16 de abril espaireceu sobre as águas lutulentas do Estado de Santa Catarina a cantar ruidosamente as notas vivazes de uma alvorada rútila…
A luz de liberdade, de justiça que ressurgiu sobranceira dos escombros deixados pelos hunos que conveliram a derrocada do edifício pátrio… [o termo ‘huno’ nessa frase tem o sentido original de ‘desordeiro’, ‘saqueador’, etc.]
O momento de alucinação, o fraquejo que acabou de experimentar cérebros sem autonomia espiritual, almas desprovidas de vitalidade, passou… a aridez que cegou no coração daqueles as relvas do amor nativo…
Isso não quer dizer em absoluto que deixe de cair como clava esmagadora na cabeça dos verdadeiros antipatriotas, dos iconoclastas das grandes imagens dos templos de nossas liberdades… Implacável a destra da justiça, essa mulher que tem sempre o sorriso tão doce como o mel… e dardos para confundir e aniquilar os culpados.
Para bem longe, os ódios e os ressentimentos.
É inacreditável que haja ainda neste estado famílias, moças, federalistas. Famílias! Não cremos… impelir alguém a conduzir o guião do despotismo. Mães, irmãs, esposas, vós que sois as santas do lar… não manchastes as róseas mãos, mergulhando-as no sangue fratricida!
Moças, as vossas asas puras, imaculadas, como essas nuvenzinhas de verão, a passear no palco desmaiado de uma lua de prata… empreendei a obra santa da regeneração.
Espanquem-se os ódios…
Desterro, 2 de maio de 94 [publicada na edição do dia 3 de maio].”
Graco Cardoso, cheio de paz e amor, chama os federalistas de “hunos, cérebros sem autonomia espiritual, almas desprovidas de vitalidade (zumbis), coração cego, antipatriotas, iconoclastas, culpados, amantes do despotismo e fratricidas, descrentes da república.”
Realmente, não há ódio que sobreviva a tanto espancamento!
Eduardo Simões