sexta-feira, 10 de julho de 2026

 

TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 22

Interesse Próprio, Bem Comum e Utilitarismo.

Sabemos que tanto o Interesse Próprio quanto o Bem Comum eram conceitos antigos. Mas, por volta de meados do século XVIII, afirmaram-se com nova energia, não apenas na ética, mas em todo o campo do pensamento social. Em particular, eram, ou supunha-se que fossem, os princípios básicos e unificadores de todas as ciências sociais, praticamente os únicos que a “razão” havia defendido. Helvétius (1715–71) comparou o papel do princípio do interesse próprio no mundo social ao papel da lei da gravitação no mundo físico. Até mesmo o grande Beccaria [jurista italiano] chegou ao ponto de afirmar que o homem é totalmente egoísta e egocêntrico e não se preocupa em nada com o bem de nenhum outro homem (ou com o bem comum).

Deve-se observar mais uma vez que esse interesse próprio individual era orientado pela expectativa racional de prazer e dor individuais, que, por sua vez, deve ser definida em um sentido estritamente hedonista. É verdade que os autores do século XVIII acrescentaram qualificações e reconheceram prazeres que geralmente não são classificados como hedonistas, como os prazeres da malevolência, da aquisição de poder e até mesmo da crença e prática religiosa. Consequentemente, os defensores dessa doutrina obtiveram certo sucesso em sua tentativa de resgatá-la da acusação que se fez de o comportamento humano girar em torno de bifes [ou coisas aparentemente pequenas, irrelevantes].

Mas esse sucesso — além do fato de não abordar todas as outras objeções que podem ser levantadas contra qualquer teoria que enfatize excessivamente a racionalidade no comportamento — foi mais aparente do que real. Pois, se formos muito além das gratificações mais grosseiras dos apetites mais simples, chegamos perigosamente perto de identificar a expectativa de “prazer” com todos os motivos possíveis, até mesmo com o sofrimento intencional da dor, e então, é claro, a doutrina se torna uma tautologia vazia. Pior ainda, se dermos demasiada margem a tais “prazeres” que podem advir do esforço, da vitória, da crueldade e similares, podemos obter uma imagem do comportamento humano e da sociedade totalmente diferente daquela que esses homens de fato idealizaram [eles idealizavam uma sociedade livre de preconceito, de maldade, liberdade completa, tudo de bom!]. Assim, se quisermos chegar à mesma conclusão que eles chegaram a partir de suas ideias sobre prazer e dor, não temos outra escolha senão adotar uma definição desta última que, de fato, permita alguma liberdade para ir além de simples bifes, embora apenas uma liberdade limitada; ou seja, não temos outra escolha senão adotar uma teoria do comportamento que diverge dos fatos mais óbvios [noutras palavras: a definição básica nos leva a um impasse, a um beco sem saída]. Por que, então, ela foi tão prontamente adotada por tantas mentes brilhantes?

Aparentemente, esses cérebros pertenciam a reformadores práticos que lutavam contra um estado de coisas historicamente estabelecido que lhes parecia “irracional”. Em tal luta, a simplicidade e até mesmo a trivialidade são as principais virtudes de um argumento, e as filosofias pragmáticas são a melhor resposta a um sistema de direitos e deveres sacralizados de forma supramundana [a moral cristã]. Apenas pregavam tolices iguais às que todos estamos habituados a pregar, inclusive quando tem gente olhando.

Vimos acima como o bem comum ou a conveniência social dos doutores escolásticos foi moldado particularmente pelos defensores da razão do século XVIII. Vamos repetir e reformular. Os prazeres e as dores de cada indivíduo são considerados quantidades mensuráveis, capazes de serem somadas (algebricamente) em uma quantidade chamada felicidade individual (felicità). Essas “felicidades” individuais são novamente somadas em um total social, todas com o mesmo peso: “todos valem um, ninguém vale mais do que um”. Finalmente, esse total social é substituído ou identificado com o bem comum ou o bem-estar da sociedade, que é assim reduzido a sensações individuais de prazer ou dor, as únicas realidades últimas.

Isso nos leva ao princípio normativo do Utilitarismo, a saber, a Maior Felicidade do Maior Número, o qual é principalmente associado ao nome de Bentham. Se a ideia era de origem antiga e se desenvolveu tão lentamente a ponto de desafiar a datação, o próprio slogan pode ser datado com mais precisão: até onde sei, ele aparece primeiro em Hutcheson (op. cit. 1725), depois em Beccaria (op. cit. 1764, la massima felicità divisa nel maggior numero); em seguida, em Priestley (op. cit. 1768), a quem Bentham atribui o mérito do que para ele era uma “verdade sagrada”. Hume não possui o slogan, mas deve ser incluído nesta série mesmo assim.

O utilitarismo de Bentham (muito influente na Inglaterra).

O ponto essencial a compreender é que o utilitarismo nada mais era do que outro sistema de leis naturais. Isso se verifica não apenas no sentido de que os utilitaristas foram os sucessores históricos dos filósofos do direito natural do século XVII; nem apenas no sentido de que o sistema utilitarista se desenvolveu a partir do sistema dos filósofos, o que, embora evidente, pode ser comprovado em detalhes pela história da ética, por um lado, e pela história do conceito de bem comum, por outro; mas também no sentido muito mais significativo de que, em abordagem, metodologia e natureza de seus resultados, o utilitarismo foi, de fato, outro, o último, sistema de leis naturais.

O programa de derivar, à luz da razão, “leis” sobre o homem na sociedade a partir de uma natureza humana muito estável e altamente simplificada se encaixa aos utilitaristas tão bem quanto aos filósofos ou aos escolásticos. Assim como os sistemas dos filósofos ou dos escolásticos, o utilitarismo apresenta um apelo triplo. Primeiro, era uma filosofia de vida, exibindo um esquema de “valores últimos”. É aqui que devemos buscar a origem da impressão inerradicável de que o utilitarismo, especialmente o de Bentham, era algo novo e fundamentalmente antagônico aos sistemas mais antigos. Mas, como o leitor já deve saber, a diferença não era grande no que diz respeito à filosofia das atividades cotidianas. Para a esfera do estábulo, do celeiro, da loja e do mercado, os doutores escolásticos eram suficientemente utilitaristas. A verdadeira diferença residia no fato de que os médicos restringiam o ponto de vista utilitarista à atividade puramente utilitária, onde ela é (não totalmente) adequada, enquanto os utilitaristas reduziam todo o universo de valores humanos ao mesmo esquema, descartando, por ser contrário à razão, tudo o que realmente importa ao homem. Assim, eles merecem, de fato, o crédito de terem criado algo novo na literatura, se não considerarmos a contribuição de Epicuro, algo como a mais superficial de todas as filosofias de vida concebíveis, que se encontra, de fato, em posição de antagonismo irreconciliável com as demais que lhe disputam o título.

Em segundo lugar, o utilitarismo era um sistema normativo com forte viés jurídico. Era, como o sistema escolástico, um sistema de imperativos morais, por um lado, e de princípios legislativos, por outro. Bentham considerava-se primordialmente um moralista e legislador, e foi como critério de legislação boa e má” que o princípio da maior felicidade para o maior número adquiriu para ele importância primordial. Observe-se, mais uma vez, o elemento igualitário presente nele, que era tão essencial quanto o elemento da felicidade. E esses dois aspectos, juntamente com a crença não apenas de que qualquer indivíduo era muito semelhante a qualquer outro, mas também de que cada indivíduo era matéria indefinida e maleável, com poucas ou nenhuma característica inata própria, produziram o princípio político fundamental do benthamismo: educar as pessoas e deixá-las votar livremente, e todo o resto se resolverá por si só. [Isso está presente no discurso de muita gente douta, hoje, no Brasil].

Mas, em terceiro lugar, assim como a lei natural dos filósofos e escolásticos, o utilitarismo também era um sistema abrangente de ciências sociais, incorporando um método uniforme de análise. E esse aspecto é separável dos outros dois, da mesma forma que o trabalho analítico dos escolásticos e dos filósofos é separável do restante de seu pensamento. Em outras palavras, é logicamente possível desprezar o utilitarismo, por completo, tanto como filosofia de vida quanto como programa político, e ainda assim aceitá-lo, como motor de análise, em todos ou alguns dos ramos das ciências sociais. Mas, apesar de o utilitarismo não ser muito valioso como ferramenta de análise, muitos economistas não hesitaram em declarar que ele é fundamental para a teoria econômica. Como Jevons.

Nota de Schumpeter

Antes de Bentham, o catálogo de moralistas utilitaristas não coincide exatamente com o catálogo de legisladores utilitaristas. Bentham imprimiu suas preferências pessoais a um grupo de seguidores — os Radicais Filosóficos já mencionados — e a forte coesão desse grupo explica um programa definido (em essência, o laissez-faire combinado com o sufrágio universal) e a impressão de que esse programa decorria inexoravelmente de premissas analíticas. Mas em outras épocas e países, os benthamitas poderiam ter sido conservadores — Hume o era, e a maioria dos utilitaristas italianos também — ou então socialistas. Não há nada de surpreendente nisso, desde que se perceba que a preferência desempenha um papel tão importante na formulação de conclusões sobre políticas práticas que submete quase qualquer estrutura analítica aos seus ditames [para os menos avisados, vemos aqui uma interessante discussão sobre o perigo da influência da ‘ideologia’ no trabalho final do pesquisador]. Um homem pode aceitar integralmente a obra analítica de Marx e, ainda assim, ser conservador na prática. [Entenda-se esse interesse de Schumpeter por Bentham devido à grande aceitação que o seu pensamento teve nas culturas anglófonas; o que não é o caso no Brasil, onde ele é um ilustre desconhecido pela grande maioria].

 

É um erro comum entre leigos, filósofos e historiadores do pensamento prestar um respeito exagerado a tudo o que se apresenta como um princípio fundamental. Na verdade, as pessoas nem sempre utilizam, tanto no trabalho científico quanto nas questões práticas da vida, os princípios fundamentais aos quais professam fidelidade. Sendo o utilitarismo um conjunto de tais princípios fundamentais, devemos, portanto, indagar em cada caso qual papel lhe foi permitido desempenhar. No que diz respeito à economia, podemos, contudo, apresentar respostas gerais para quatro tipos de casos.

Primeiro, as hipóteses utilitaristas são completamente inúteis em questões de interpretação da história ou em questões que afetam as forças motrizes da história econômica.

Segundo, as hipóteses utilitaristas são ainda piores em todos os problemas que envolvem questões de esquemas reais de motivação, por exemplo, em um problema como os efeitos econômicos da herança.

Terceiro, as hipóteses utilitaristas são, na verdade, fundamentais para aquela parte da teoria econômica que geralmente se denomina Economia do Bem-Estar — herdeira das teorias italianas do século XVIII sobre a felicidade pública. Adotamos essas hipóteses habitualmente ao discutir problemas como os efeitos das “transferências de riqueza dos relativamente ricos para os relativamente pobres”. E é precisamente por isso que as proposições da economia do bem-estar nunca convencem ninguém que já não esteja convencido de antemão, independentemente de qualquer argumento. Pois, embora haja, certamente, um aspecto desses problemas para o qual a abordagem utilitarista seja apropriada, esse aspecto evidentemente não é o único: provamos muito pouco quando demonstramos que transferir o dinheiro de um homem rico para um homem pobre aumenta o bem-estar no sentido utilitarista. [Os comunistas fizeram isso e a única coisa que cresceu foi a Infelicidade Pública e o Mal Estar Social].

Em quarto lugar, no campo da teoria econômica, no sentido mais estrito do termo, as hipóteses utilitaristas são desnecessárias, mas inofensivas. Por exemplo, podemos enunciar e discutir as propriedades do equilíbrio econômico sem introduzi-las. Mas, se as introduzirmos, os resultados não são materialmente afetados, portanto, não são prejudicados. Isso nos permite salvar grande parte da análise econômica que, à primeira vista, parece irremediavelmente viciada por preconceitos utilitaristas.

[Considerando a importância que o utilitarismo teve na evolução da cultura inglesa e americana, além da época em que isso foi escrito, esse texto deve ter sido uma ‘tijolada’ nas principais correntes da cultura universitária americana, e mesmo na grande sociedade. Se Trump fosse o presidente naquela época, talvez o deportasse como um imigrante ilegal ou por atividade antiamericana].


quinta-feira, 9 de julho de 2026

 

A COMPANHIA DOS MERCADORES AVENTUREIROS NO REINADO DE ELIZABETH I - 1

[Trechos de The Merchant Adventurers’ Company in the Reign of Elizabeth de George Unwin, em STUDIES IN ECONOMIC HISTORY: THE COLLECTED PAPERS OF GEORGE UNWIN, Frank Cass  & Co. LTD. — Londres e Augustus M. Kelley — Nova York, 1966, p. 133-221].

 

O Lugar dos Mercadores Aventureiros na História Inglesa ao longo do reinado de Elizabeth.

A Companhia dos Mercadores Aventureiros forneceu o único canal autorizado para a maior e mais lucrativa parte do comércio exterior da Inglaterra. Ela detinha o monopólio do comércio realizado por súditos ingleses com os Países Baixos e a Alemanha, em virtude do qual controlava não apenas a importação da maioria dos artigos de fabricação estrangeira usados ​​na Inglaterra, mas também a exportação da principal manufatura da Inglaterra seus tecidos de lã. O exercício desse grande privilégio comercial acarretava um grau correspondente de influência sobre as atividades econômicas do país. Determinava o fluxo de capital que fertilizava os setores da indústria nacional. Com esses poderes e privilégios, e, de fato, como a principal justificativa para a posse deles, a Companhia dos Mercadores Aventureiros desempenhava funções fiscais da maior magnitude e importância. Ela fornecia o principal órgão para a tributação do comércio exterior.

Em certos períodos, a Companhia adiantava dinheiro ao Governo com a garantia dessa tributação e servia como mecanismo para o reembolso das grandes somas que o Governo havia tomado emprestado de financistas internacionais. Em suma, a Companhia desempenhou o papel — involuntariamente e, de fato, sob coação — que o Banco da Inglaterra, um século depois, assumiu como sua atividade principal. Diante desses fatos inegáveis, fica suficientemente claro que não podemos esperar obter qualquer compreensão adequada da história econômica elizabetana, seja do ponto de vista do comércio, da indústria ou das finanças, sem um estudo cuidadoso da Companhia dos Mercadores Aventureiros.

A importância dos Mercadores Aventureiros é discutida… Tem-se afirmado sobre eles (quase inteiramente em bases teóricas) que foram os protagonistas de um grande conflito internacional, os instrumentos de uma política visionária, por meio da qual a supremacia comercial e industrial de seu país pelos séculos vindouros foi estabelecida. “Ao auxílio efetivo dos Aventureiros”, diz o Dr. Lingelbach, “deve-se em grande medida o sucesso da política comercial dos primeiros Tudor. Eles conquistaram o comércio inglês dos estrangeiros e lançaram para os ingleses as bases para sua posterior supremacia comercial… Foi por meio da Sociedade dos Aventureiros que Gresham conseguiu restaurar o crédito financeiro do reino e reverter a taxa de câmbio a favor da Inglaterra em um período extremamente crítico.”

Mais tarde, ao falar sobre a luta da Companhia dos Aventureiros contra a Liga Hanseática, o Dr. Lingelbach afirma: “Os rivais [os Mercadores de Lã e a Liga Hanseática] representavam não apenas os interesses de organizações comerciais; eram os expoentes de grandes interesses nacionais e representantes de civilizações rivais, tanto políticas quanto industriais. Foi uma luta entre os representantes da organização medieval e do sistema federativo da Liga Hanseática, por um lado, e os expoentes do crescente nacionalismo e da monarquia centralizada, por outro. […] Mesmo antes do reinado de Elizabeth, quando a luta finalmente terminou, os mercadores ingleses, apoiados pela política firme dos primeiros Tudor, já haviam enfraquecido seriamente a posição da Liga Hanseática na Inglaterra. Mas os Aventureiros não cessaram a guerra com seu sucesso em casa. Eles invadiram o próprio território da Liga Hanseática, a convite de uma das principais cidades hanseáticas. […] A recepção da Companhia em Hamburgo tornou-se a cunha que contribuiu significativamente para a ruptura da Liga das Cidades Hanseáticas.”

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De todos os Estados europeus do século XVI, a Inglaterra, segundo ele, foi a que adotou a política econômica mais consistente. Nesse aspecto, foi favorecida por suas condições naturais e seu desenvolvimento político. Seu caráter insular e a unidade das alfândegas tornaram viável um controle mais rigoroso do comércio exterior do que era possível nos Estados continentais. A expansão da manufatura têxtil, que o governo havia fomentado por todos os meios à sua disposição, tornou a conquista de mercados estrangeiros uma necessidade primordial da política inglesa, e na Companhia dos Mercadores Aventureiros encontrava-se um instrumento quase perfeito para essa política. Os artesãos têxteis das cidades alemãs eram impedidos, pelo alto custo de vida e pelas regulamentações de suas guildas, de competir com a mão de obra rural inglesa. Os comerciantes e financistas do sul da Alemanha preocupavam-se mais com seus lucros comerciais do que com a prosperidade industrial de seu país. Não havia um Estado poderoso na Alemanha para proteger os artesãos, para obrigar os interesses mercantis conflitantes a se subordinarem ao bem maior da comunidade e para manter os privilégios consagrados pelo tempo dos comerciantes alemães em países estrangeiros. Se necessário, pelas armas.

Não é de admirar, portanto, que a Inglaterra de Elizabeth, embora ainda muito inferior à Alemanha em todas as artes industriais, na técnica do comércio e no poder do capital acumulado, tenha sido capaz, pelo gênio de seus estadistas, de usar a força irresistível de um povo unido para seguir uma política tão resoluta e implacável quanto sutil e visionária, para romper as tímidas e vacilantes defesas da Liga Hanseática e de lançar os alicerces de sua supremacia econômica sobre as ruínas do comércio e da indústria alemãs… [A Companhia era] o centro natural no qual as demais atividades econômicas — comerciais, industriais, financeiras — se articulavam como uma espécie de órgão vivo, através do qual essas atividades eram sintetizadas com sucesso.

Cabe a nós, como estudiosos da história, examinar com espírito crítico as premissas em que essas mudanças se baseiam. Em primeiro lugar, partimos do pressuposto da existência de uma ligação, uma estreita interação, entre a administração financeira do governo de Elizabeth, a organização e expansão do comércio e o desenvolvimento da indústria nacional; e partimos ainda do pressuposto de que essa tríplice ligação encontra seu foco natural na Companhia dos Mercadores Aventureiros. 

A segunda suposição é muito mais ampla e questionável. Tem-se assumido como certo que as interações entre finanças públicas, comércio e indústria eram dirigidas de cima para baixo pelo governo, segundo uma política consciente, ponderada e consistente, concebida e adotada no interesse do povo. E resta uma terceira suposição, de longe a maior das três, que, pela sua própria amplitude, deveria despertar o espírito crítico do historiador científico. É a de que esta política de Elizabeth, ou de seus estadistas, não só foi bem-sucedida na época, como também, pelos resultados permanentes que alcançou, tem sido um dos principais fatores do progresso nacional desde então.

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Passando, então, à primeira parte da minha tarefa — estabelecer e ilustrar a posição dos Mercadores Aventureiros como um elo entre a administração financeira do Estado, por um lado, e o conjunto da indústria e do comércio nacional, por outro — não posso expressar melhor a natureza dessa relação do que dizendo que a Companhia dos Mercadores Aventureiros constituía um pilar da produção têxtil. Ou seja, em meados do século XVI, eles passaram a ocupar a mesma posição privilegiada e exclusiva, no que diz respeito à exportação de tecidos, que a Companhia dos Mercadores de Lã ocupara por quase exatamente dois séculos no que diz respeito ao monopólio da exportação de lã. Essa posição, aliás, os Mercadores de Lã ainda ocupavam. Mas a importância do comércio de exportação de lã vinha diminuindo constantemente há cerca de um século, enquanto, durante o mesmo período, a importância da exportação de tecidos havia aumentado proporcionalmente. O imposto de exportação sobre a lã foi, ao longo da Baixa Idade Média, um dos principais recursos fiscais do governo.

Nota do tradutor

A partir daqui, o autor, George Unwin, trabalhará com o conceito muito conhecido na realidade inglesa da Idade Média e Moderna de ‘staple’ e ‘stapler’, que, embora literalmente signifique ‘grampo’ e ‘grampeador’, referindo-se àqueles períodos, dependendo do contexto, pode ter uma significação muito rica e diversificada comercialmente falando. Eis o que diz sobre o conceito a Wikipedia em inglês:

Nos documentos latinos medievais, a expressão comum para 'staple' é 'stabile emporium', um mercado fixo, onde tais mercadorias tinham que ser trazidas; daí a suposta derivação de 'staple' para 'stabile' [estável].”

Mas a palavra é corrente em vários significados afins nas línguas germânicas, armazém; estação, um ponto de parada, geralmente uma cidade ou mercado onde certas mercadorias eram trazidas à venda, e daí chamadas de 'mercadorias básicas'. A ideia original, portanto, parece ser mais um marco [sinal] ou plataforma elevada acessada por degraus e preparada para uma venda conveniente de mercadorias.

Segundo John Weever, um antiquário do século XVI, a cidade staple [staple town] é “um lugar para o qual, por autoridade e privilégio do príncipe, lã, peles de animais, vinho, milho ou grãos e outras mercadorias exóticas ou estrangeiras são transferidas, transportadas ou levadas para serem vendidas”.

O Staple: “era um sistema estabelecido pelos governos para designar cidades ou portos específicos onde determinadas mercadorias deviam ser comercializadas ou exportadas, servindo como centros regulamentados de comércio e tributação que facilitavam o controle sobre o comércio, a receita e os padrões de qualidade. Era particularmente comum na Europa medieval” [Ou seja, era um termo que designava ao mesmo tempo: a) um tipo de política comercial externa baseada essencialmente no monopólio, b) cidades e portos específicos onde essa política era efetivada, c) um escritório de representação comercial estrangeira (= entreposto ou feitoria), d) um grupo de mercadorias cujo comércio o estado tinha interesse em controlar, ‘produtos básicos’ — poderíamos dizer produtos ou commodities estratégicas].

“Era uma instituição fundamental na Inglaterra medieval que designava cidades para a exportação ultramarina de produtos essenciais como a lã, permitindo à Coroa monitorar e regular o comércio exterior e arrecadar taxas alfandegárias de forma eficiente. Era parte de um sistema geral de Staples [entrepostos] utilizado no comércio medieval.

Nas cidades designadas, muitas vezes referidas como cidades de produtos básicos ou “ Portos de Produtos Básicos”, os comerciantes credenciados eram obrigados a submeter as suas mercadorias à inspeção e a pagar uma taxa, como o subsídio da lã, à Coroa, sobre as mercadorias para exportação para o continente europeu. Estes comerciantes viriam mais tarde a organizar-se como Mercadores do Staple ou de Lã, o produto mais comercializado da Inglaterra.

The Company of Merchants of the Staple of England (Companhia dos Mercadores de Lã — ou Produtos Básicos — da Inglaterra) é uma empresa incorporada por Carta Régia em 1319, talvez a corporação mercantil mais antiga da Inglaterra, que negociava lã, peles, chumbo e estanho e controlava a exportação de lã para o continente durante o final da Idade Média. A Companhia dos Mercadores de Lã pode, talvez, traçar sua ancestralidade até as Guildas de Mercadores, já em 1248, ou até mesmo antes (o seu endereço atual é https://merchantstaplers.co.uk/).

O sistema inglês de staples, surgido em 1314, permaneceu em vigor por quase dois séculos, embora sua importância tenha diminuído à medida que as exportações de tecidos acabados substituíram as exportações de lã bruta. Com a queda de Calais para os franceses, em 1558, a produção de tecidos básicos voltou a ser concentrada em Bruges. A partir de 1617, as exportações de lã foram completamente interrompidas, e apenas os tecidos básicos para consumo interno permaneceram na Inglaterra.

Porto de staple ultramarinos

Sob o regime do Staple, o porto designado era frequentemente ultramarino. Foi em Dordrecht em 1338 e em Bruges em 1343 [Holanda e Bélgica respectivamente]. Por um período após 1353, portos do Staple foram estabelecidos na Inglaterra, sob o Estatuto do Staple [assinado em outubro de 1353].

No entanto, a partir de 1363 [durante a Guerra dos Cem Anos], Calais foi designada o principal porto para exportação de lã e couro. Toda a lã vendida no exterior era levada primeiro para Calais, sob controle inglês. Calais era chamada de “o Porto Principal”. O comércio era dominado pelos Mercadores de Staples que, a partir de 1363, haviam recebido o direito exclusivo de comercializar lã bruta em Calais.” (Wikipedia em inglês).

Como vemos, ‘staple’ pode significar: a política de monopólio ou controle do comércio externo por parte do governo; o tablado de madeira sobre o qual ficavam as mercadorias amostra a serem negociadas; comércio de lã; a cidade onde se realizavam essas operações, também chamadas de entrepostos ou feitorias; monopólio comercial; matéria-prima ou produtos básicos, aqueles que eram economicamente significativos para o comércio externo inglês. Nessa tradução, vou utilizá-lo mais no sentido de monopólio comercial, entreposto ou produtos básicos — de certa forma, o termo ‘produto básico’ significaria hoje ‘produto estratégico’.

Em 1557, a taxa de exportação de tecidos foi revista e consideravelmente aumentada, com o objetivo de torná-la uma fonte de receita igualmente satisfatória. Foi nessa época, entre 1553 e 1564, que a Companhia dos Mercadores Aventureiros alcançou uma posição oficial e exclusiva como principal exportadora de tecidos. Informalmente, ela era reconhecida como o principal exportador, e se essa fama não se tornou generalizada foi para evitar confundir os Aventureiros com a Companhia dos Comerciantes de Lã, que ainda exercia seus antigos direitos e privilégios, embora muitos de seus membros tivessem considerado necessário transferir seus negócios de exportação para o comércio de tecidos.

Na realidade, porém, a organização dos Aventureiros adquiriu, na época da ascensão de Elizabeth, o monopólio dos produtos básicos. Ela havia destronado os Mercadores de Lã de sua posição central de preeminência fiscal e comercial, e suas relações com o governo e com a indústria nacional eram, em essência, as mesmas que as relações anteriores dos Mercadores de Lã. Pelo que foi dito, creio ser desejável abordarmos o estudo da Companhia dos Mercadores Aventureiros por meio de uma breve análise da história anterior da Companhia dos Mercadores de Lã, sobretudo porque os assuntos das duas companhias sempre estiveram vitalmente relacionados, por cooperação ou hostilidade, e porque parece provável que ambas tenham surgido, em princípio, de uma raiz comum.


quarta-feira, 8 de julho de 2026



DANE-SE, DONALD TRUMP!

Eduardo Simões

Causou-me admiração a derrota dos Estados Unidos para a Bélgica na Copa do Mundo, uma vez que até aquele momento a Bélgica se mostrava um time apático e burocrático, uma sombra da grande geração de Courtois e De Bruyne. Os Estados Unidos, por seu lado, vinham numa pegada vigorosa, com um time de chegada, perigoso, diante do qual seria bom não facilitar.

Não que a Bélgica não pudesse vencer os Estados Unidos, mas goleá-lo, como o fez, é de fato estranho, para dizer o mínimo, e creio que para isso contribuiu, e muito, a intervenção desastrada de Donald Trump.

Trump é um líder populista, nascido em berço de ouro, longe do povo de seu país, e como todo líder populista, ele quer se apresentar como salvador da pátria para a sua gente. Só que a base psicológica para se alimentar o mito do salvador da pátria é a crença, não só, de que o líder é uma pessoa especial, como os liderados são uns idiotas, ou na melhor das hipóteses, criancinhas precisando da mão firme de um 'papai'.

É verdade que em alguns continentes, nos países mais pobres invariavelmente dominados por governantes autoritários, muita gente, talvez até a maioria, se sinta confortável nessa condição, mas não sei se com os americanos a coisa funcione assim.

Velho leitor que sou da civilização americana, desde os célebres enlatados da minha infância como Rintintin, Caravana, O homem do rifle, etc., vi os americanos ao longo de 7 décadas passar a imagem de um povo forte, vigoroso, autossuficiente, cheio de iniciativa, cioso de suas liberdades, etc. Mas, de uma maneira muito especial, eles procuravam deixar a marca de que eram um povo que respeitava as regras… exceto quando se tratava dos nativos locais — mas até isso eles reviram, de sorte que hoje somos nós que temos confrontos violentos com os nossos nativos, enquanto lá reina, aparentemente, a paz e o respeito mútuo.

O fundamento moral inarredável, que sustenta o sistema capitalista, é o respeito das partes ao que foi acertado no contrato. Ora, quando Trump intervém de fora para mudar as regras em favor de sua seleção, ele comete dois erros imperdoáveis na cultura americana:

a) Ele rompe o contrato acertado entre todas as seleções, cumprido com mais ou menos acertos nos últimos 96 anos.

b) Ele passa para o conjunto da nação e para o mundo a seguinte mensagem: vejam como nossa seleção é fraquinha. Eu tenho que intervir para eles não passarem vexame.

É verdade que existem muitas seleções por aí onde o importante é ganhar, seja como for, onde os jogadores se sujeitam aos mais abjetos papelões e fingimentos, dramatizando bizarras bufonarias ao simular faltas. Todos conhecem o passado do Neymar, inclusive naquele célebre jogo com a Sérvia, onde ele, após levar um esbarrão de um jogador adversário, rolou tanto que por pouco não foi parar no vestiário. Teu passado te condena. Que dizer da goleada argentina contra o Peru, na Copa de 78?

Com a sua atitude, Trump envergonhou profundamente a seleção de seu país. E se há uma coisa que o americano médio, ao contrário de outros, O-DEI-A profundamente é ser tratado como um coitadinho. Ele prefere ser tratado como inimigo. Não suportariam avançar na Copa e ler, sabendo ser correto, em todos os jornais, que, se o seu presidente não tivesse dado uma “mãozinha” aos ‘coitadinhos’, eles não teriam seguido em frente.

A apatia da defesa americana nos gols, o erro grotesco do goleiro no terceiro gol, reforçado pelo erro do zagueiro no quarto, que jogou a bola nos pés do atacante e ficou, com os outros, vendo o belga avançar, se posicionar para o chute e fazer o gol. Isso, para mim, é inexplicável! Não diria para um time que quer ganhar, mas pelo menos competir. Para mim, está claro que eles entregaram o jogo.

E a humilhação? A humilhação já acontecera na intervenção de seu anômalo presidente. De um jeito ou de outro, eles sairiam humilhados, mas não foram cúmplices de um desrespeito tão grosseiro às regras do jogo. Não seriam campeões em 2026 como os argentinos o foram em 1978, e se esse foi realmente o caso, então temos razão para acalentar grandes esperanças, para os Estados Unidos da América e para o mundo.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

 

O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA - 30

Uma hipótese diferente

Conhecemos o isolamento e o descaso a que foram entregues as populações do interior do Brasil ao longo do Período Colonial. Havia leis e decretos severos restringindo a ida de colonos portugueses para o interior, e a causa disso estava originalmente ligada ao projeto de garantir as rotas marítimas para o Extremo Oriente, contando somente com os colonos portugueses e seus aliados indígenas.

Era, portanto, fundamental mantê-los próximos ao litoral, para o reabastecimento dos navios e como força de dissuasão a invasores. Posteriormente, com a perda do Oriente, as proibições de internamento das populações foram mantidas, mas com menos severidade, pois agora se tratava de impedir o desvio das riquezas da colônia, por uma questão fiscal. Era preciso um controle estrito do fluxo de gente e mercadorias, afinal, o Estado português já estava gastando por conta do que ia encontrar.

No semiárido, porém, a fusão da cultura portuguesa com a indígena, turbinada pela chegada de africanos e seus descendentes, fugidos da escravidão dos engenhos em busca de locais culturalmente protegidos. Esse movimento, e outros, criaram uma 'civilização do semiárido', com suas peculiaridades, graças ao esquecimento a que foi relegada, ante a aparente falta de recursos naturais que atendessem ao extrativismo argentário luso, ou outra atividade rentável, que compensasse os custos de montar uma estrutura estatal na região.

Semifeudal e semicapitalista, o semiárido aprendeu a viver à revelia do Estado, recorrendo a ele supletivamente. Mas, sem este para mediar os conflitos da vida em comunidade, impor um direito, o que sobra é o poder do chefe de família, que pouco difere do dos chefes nativos, que era também o da memória dos afrodescendentes. As três culturas se entrelaçaram e, abandonadas pelos agentes do Estado, voltaram-se para os desafios da sobrevivência e os símbolos culturais dela decorrentes, num meio climático muito desafiador para os recursos da época. Uma sociedade de ritmo mais 'lento' tentando se adaptar aos lampejos de mudanças que, de tempos em tempos, a atingiam.

Isso, aparentemente, explica algumas características da antiga sociedade sertaneja, na qual as relações familiares, de matiz patriarcal, são fortemente cercadas de símbolos socialmente impostos, porque cumprem uma função ideológica, explicativa sobre o sentido do mundo, fortemente hierarquizada e belicosa. O conceito abstrato de honra, subjetivamente definido, era causa de conflitos tão inesperados quanto sangrentos, até que o ofendido sentisse a sua honra plenamente 'lavada'. Nesses conflitos, quem definia se o objetivo fora alcançado, em geral, era o que sobrevivia — há até um dito de Gustavo Barroso que expressa bem a mentalidade reinante: No semiárido, o homem que não se vinga está moralmente morto.

Esse foi, em parte, o caso de Vicente Mendes Maciel, o pai, e de Antônio Vicente Mendes Maciel, enquanto este não fugirá ao embate como na sua versão anterior de humilde negociante, advogado ou professor, mas perecerá matando a quem se lhe opõe, ainda que pelas mãos de outros.

As grandes famílias, como nas tribos e nos feudos, eram centros de poder, criando suas próprias leis, obrigando tanto o Estado português como o imperial a se submeterem a elas — o livro de Billy Jaines Chandler, Os Feitosas e o sertão dos Inhamuns, faz observações interessantes a esse respeito. Como nos feudos, essas famílias viviam brigando por territórios que as protegeriam economicamente: terras agricultáveis e fontes d'água perenes — o termo feudo, aqui, é utilizado somente no sentido analógico e não conceitual.

A vida tendia a ser curta, violenta, repetitiva, com baixo consumo — sem qualquer sentido pejorativo ou negativo —, mas, para uma grande maioria, isso era natural, fruto do pecado de Adão e Eva. Os de fora viam isso como fruto de uma mentalidade 'fatalista', 'retrógrada', mas era justamente ela que ajudava a manter a estabilidade mental de muita gente ante os impactos da dureza das relações humanas e com a natureza. A mortalidade e a natalidade eram altas e a expectativa de vida, baixa.

O grande problema no sertão era a chegada de uma seca, que, de tempos em tempos, em um ritmo quase previsível, revolucionava a vida de todos e interrompia a estagnação na qual as mentes se vissem, porventura, tentadas a permanecer.

Mas até ela tinha o seu lado positivo, pois eliminava o excedente de vivos, que o homem nordestino fazia com tanto gosto, às custas da saúde e até da vida de suas companheiras, o que ele também atribuía à Vontade Divina. O excesso de nascimentos também compensava os que pereciam por causas diversas, inclusive as secas anteriores. A seca também desorganizava, momentaneamente, o espaço social, ou impunha uma reacomodação das estruturas vigentes ao nível dos médios e pequenos proprietários. Mas, tudo bem, a seca já estava incorporada ao pecado do homem e à onipotência divina.

A sensação de autonomia duramente conquistada nos períodos de abandono foi fortemente chacoalhada pela imposição da República e de uma nova política econômica, conduzida por uma elite mais dinâmica, interessada em explorar o potencial econômico das áreas mais letárgicas do país. Desenvolveu-se um sistema mais abrangente de impostos em moeda, para financiar uma estrutura de serviços públicos mais ampla e profissional e investimentos na produção, que a desordem e a corrupção transformaram em carestia e conflitos sociais.

Pegas de surpresa, as elites sertanejas, que tinham um pé no mundo moderno e outro no sertão, procuraram se adaptar, aumentando as exigências sobre a mão de obra. No tempo do Império, a voracidade dos barões era em parte mitigada pelo poder da Igreja Católica, incrustada na estrutura de Estado ou nas casas senhoriais, mas, com a separação da Igreja do Estado, a tendência foi de uma piora das relações. Uma sensação de que no passado era melhor, quando havia mais 'liberdade' ou menos Estado, o que, nesse caso, quer dizer menos impostos e obrigações políticas, enraíza-se no imaginário de muitas pessoas. Os sertanejos mais pobres estão tão isolados quanto antes, mas agora sofrem exigências por parte dos coronéis e agentes públicos, que precisam arrecadar mais impostos e mais votos nas eleições.

Essa desorientação existencial vai encontrar uma válvula de escape na pessoa do estranho pregador, que, por meio do discurso religioso apocalíptico e da vida despojada, se tornará o porta-voz daquela população, um sinal maravilhoso de que o modo de vida tradicional é o certo. Isso os fará sustentar e fortalecer as iniciativas do pregador, num processo de retroalimentação mútua. O sertão dos mais pobres e dos mais ‘conservadores’ — no sentido etimológico do termo — reencontrava, no Conselheiro, a sua identidade mais profunda e a sua força para exigir das autoridades republicanas e dos coronéis a sua cota de respeito e até independência.

Enquanto o sertão da Bahia pegava fogo, a temperatura política no Rio de Janeiro estourava os termômetros.

Um ninho estranho

Pouco depois que assumiu o governo, em 11 de novembro de 1896, Manuel Vitorino convoca uma reunião com o ministério de Prudente, acompanhado de alguns de seus apoiadores florianistas, entre os quais Francisco Glicério. Pretextando a necessidade de dar uma nova dinâmica ao governo, que estava “muito paralisado”, eles chegaram à conclusão de que era hora de cobrar do presidente, pelo bem da república e de sua saúde, a sua patriótica renúncia do cargo” — o autor dessa sugestão teria sido o deputado gaúcho florianista Ramiro Barcellos.

Que felicidade para o nosso país ter sempre tantos políticos pensando nele! 

Bernardino de Campos, amigo de Prudente e seu olheiro no Itamarati, propõe, para evitar a deposição do presidente, uma reforma ministerial completa, para o ministério ficar com a cara da nova administração. Ele manobrou com tanta habilidade que conseguiu até se tornar ministro de Vitorino, na pasta da Fazenda, sempre levando a Prudente as últimas sobre as tramas daquele.

O florianismo passa a ter uma forte presença no Governo Federal, em especial na ala militar, na qual o general Francisco de Paula Argolo, homem de confiança de Floriano, substituiu o general Dionísio Cerqueira, da ala profissional, no Ministério da Guerra. Isso feito, Argolo, como era a regra, nomeia o também florianista marechal Bibiano Costallat Ajudante-General do Exército. Os dois postos mais importantes do Exército estão nas mãos deles.

Vitorino se deslumbra e adquire o Palácio do Catete, que, dado como garantia de um empréstimo, fora incorporado ao patrimônio do Banco da República, comprando-o por 3 mil contos de réis — algo em torno de 200 milhões de reais. Em seguida, faz-lhe uma reforma suntuosa e o inaugura com uma festa monumental.

Ele também fez grandes promessas à população e aos financistas estrangeiros, e segue confiando que Prudente, embora ainda vivo,  não escape de uma longa convalescença. Os fatos lhe dão esperanças. Iria repetir as mesmas manobras do velho marechal.

Mas ninguém deve menosprezar um caipira de Piracicaba, que conhece o segredo da jabuticaba!

Segundo o historiador Antonio Barreto do Amaral, em seu livro Prudente de Moraes — uma vida marcada, IHGSP, São Paulo, 1971, Prudente era tão ligado a essa fruta que isolou uma área do seu quintal para plantar jabuticaba, com muro e portão de cadeado, cuja chave só ele tinha, e não deixava ninguém entrar. Crianças só entravam acompanhadas por um adulto, e só ele determinava quando as jabuticabas podiam ser colhidas. Ele não só escapou da operação como começou a se recuperar a olhos vistos.

Cuide das suas jabuticabas, que elas cuidarão de você.

A percepção de que Prudente se recuperava deixava um certo “fino cavalheiro”, como o jornal O Jacobino qualificava Manuel Vitorino, temeroso de seu futuro. Talvez fosse necessário apelar para recursos mais drásticos, mas como fazê-lo com o coronel Moreira César e o 7º B.I. vigilantes no morro de Santo Antônio? Em meio a essa preocupação, ele recebeu a notícia do fracasso da expedição Febrônio de Brito, que causou impacto e chamou a atenção até nos jornais do Rio. Canudos agora era visível.

De repente, Vitorino viu uma oportunidade! Chamou o ajudante de ordens e escreveu rapidamente um bilhete. Pôs num envelope, lacrou-o e disse:

— Rápido, entregue isso ao Ministro da Guerra!

Começou então a rascunhar um longo telegrama para Luís Viana, na Bahia.

Vitorino teve a clareza de que Canudos seria um ótimo pretexto para tirar Moreira César do Rio de Janeiro, mandando-o em missão oficial ao interior da Bahia, para enfrentar uma misteriosa comunidade sertaneja, e isso o deleitava profundamente.

Mas retirar uma tropa de elite famosa do Rio de Janeiro para mandá-la ao interior da Bahia, por causa de um pequeno arraial, precisava de uma boa justificativa; e a tradicional tática florianista calhava: transformar uma paupérrima comunidade agropastoril em um perigoso núcleo internacional de “conspiração restauradora-monarquista”. O 'esquisitão' que a dominava não era monarquista confesso? Jornais para espalhar boatos não faltavam! Nunca faltaram.

Começa uma rumorosa troca de telegramas entre Vitorino e Luiz Viana, para informar a este da decisão do governo federal e fazer com que ele engolisse o fato consumado, pois, segundo o seu filho, não agradava a Luís Viana o nome de Moreira César.

Só nos resta especular a causa disso, partindo do princípio de que a Luís Viana interessava, acima de tudo, ficar no controle da expedição, para poder utilizá-la politicamente como quisesse, retardando a solução definitiva do caso, para angústia dos gonçalvistas.

1º — Ele sabia que Moreira César, um homem que ele conhecia, dificilmente se deixaria conduzir. Seria difícil enrolá-lo, enquanto o tempo passava, sem falar que ele já havia sido governador em Santa Catarina. E se ele resolvesse ser governador de um estado maior?

2º — Havia um clube militar na Bahia, florianista e hostil a Viana, e que fatalmente tentaria se aproximar de César para conquistá-lo, pois nem todos sabiam que ele, embora tivesse apoiado Floriano em 91, não era simpático aos objetivos e métodos do florianismo. Nessa época, correu em Salvador um boato de que ele, após destruir Canudos, destituiria Viana e se tornaria governador do estado. Talvez o objetivo desse boato fosse criar problemas tanto para Viana quanto para César, pois reforçava a ideia de que ele era um desequilibrado, ou talvez fosse ainda uma tentativa de cooptá-lo, oferecendo-lhe a governadoria do estado, mantendo-o longe do Rio de Janeiro.

3º — Moreira César ajudara indiretamente Luís Viana a chegar ao poder, ao auxiliar na derrubada de Gonçalves, e muita mágoa ficou do lado contrário, que se pôs a trabalhar ativamente para desmerecer César, espalhando que ele vinha promover um 'banho de sangue' na Bahia, e é possível que tenham sido eles que espalharam entre os canudenses o apelido de 'corta-pescoço'.

4º — A presença de tropas do Rio de Janeiro e Minas, o 16º B.I., para resolver um problema baiano não deixava de ferir os brios locais, já atingidos na passagem da monarquia para a república. Ia sobrar para a popularidade de Viana.

Vitorino não lhe deixou alternativas…

Deixo agora uma opinião pessoal sobre Luís Viana, com base no que aprendi em minhas leituras. Ele surge no ambiente republicano secundando o golpe de Floriano contra os governadores impostos por Deodoro, formando, gradualmente, uma poderosa corrente política.

Isso, porém, não quer dizer que ele estivesse fechado com as manobras e os interesses da corrente florianista, como César Zama. Viana tinha um projeto próprio, não hesitando em aproveitar-se das vantagens ora de um lado, ora do outro. Nesse sentido, era um político típico. Sem qualquer demérito nisso, a princípio.

Sua autonomia diante dos florianistas vai aparecer no seu empenho em favor da eleição ao Senado Federal de Rui Barbosa, inimigo de Floriano. Quando Viana fez esse movimento, provocou a inimizade de Zama, que também disputava o cargo. Zama passará, agora, a atacar desabridamente os dois.

A minha impressão é que ele utilizou o fenômeno de Canudos para atingir os seus desafetos políticos, deixando a coisa se arrastar e crescer. Canudos ameaçava Gonçalves; logo servia aos seus interesses.

Ele, certamente, não queria o massacre daquela gente, seja por razões pessoais, seja porque, politicamente falando, pegaria mal, como de fato pegou, mas ele também não ponderou as  consequências de seus atos. Longe disso. Tudo não passou de um cálculo político, e desde o início muito arriscado. Ele não percebeu a profundidade da força psicossocial que Canudos acumulava, e que a solução para o desafio que representava ficava mais difícil a cada dia em que se postergava uma solução institucional. E ele continuou empurrando com a barriga, até a situação sair de controle.

Depois de tudo, diante do fim brutal da comunidade, quando nada se encontrou que confirmasse a teoria de um levante monarquista, restou-lhe o silêncio sobre o assunto. Silêncio que se observa nos principais envolvidos nessa monstruosidade. Nada ficou de seus documentos nem na sua memória, e assim ele se furtou de mentir, ou revelar verdades incômodas, deixando a nação no vácuo. Mas ele também tem responsabilidade, uma responsabilidade com dolo eventual, por essa horrível mortandade.

Canudos, após ser tratada durante mais de um século como um episódio de combustão espontânea, tornou-se um centro alucinante de novas teorias anti-históricas, derivadas da preguiça ou da incapacidade de entender o seu significado, causada por uma especialização precoce, uma queda na cultura geral, no reducionismo de ocasião ou na mera reversão de símbolos, criando novas gerações de campeões morais, sem méritos ou sem coerência, fabricados em ritmo de aventura, como se isso, por si só, magicamente, resolvesse os enormes questionamentos que surgem desse trágico acontecimento.

Isso pode ser fruto também de um movimento instintivo de defesa e proteção, de nossa permanente imaturidade, porque olhar em profundidade para Canudos significa olhar em profundidade para aquilo que nós já fizemos e que ainda podemos fazer, e que não nos orgulha nem um pouco. Porém, só não erra quem permanece bebê, deitado em um berço que já nem é tão esplêndido assim.

No final, o tumor social gerado pela indiferença e oportunismo político de muitos estourou nas suas mãos. Luís Viana pagou o preço. Quase nada, se comparado ao pago por aquela gente, utilizada como peão num jogo de xadrez sem regras… A comunidade, por ter menos recursos, pagou mais caro.

Aumentar a grandiosidade da festa não deterá o afundamento já iniciado do Titanic dos sertões. Por falar em navio, Viana falecerá glamourosamente a bordo de um, a caminho da Europa, em julho de 1920.

Eduardo Simões.


 


NEM VÁRZEA NEM LIGA. QUEM LIGA?

Eduardo Simões

“Brasil está vazio na tarde de domingo, né?

Olha o sambão, aqui é o país do futebol”

Era uma grande excitação, nos áureos e sombrios tempos da Ditadura Militar, quando inadvertidamente, talvez até por preguiça, jogávamos na lata do lixo o melhor de nós mesmos, idealizando, no silêncio e na morte de muitos, democracia e prosperidade para todos. 

Tínhamos um estilo musical tipicamente popular brasileiro, o samba, e outro para a classe média branca e intelectualizada, a bossa nova, que, como o ritmo anterior, conquistava o mundo e caía nas graças de americanos e europeus. Era a nossa vez.

Nada, porém, nos definia melhor do que a seleção de futebol, que disputava de igual para igual com seleções de países muito mais poderosos e vencia com sobras. Robert Kennedy, uma das personalidades mais importantes da época, premido pelos compromissos, fez questão de ir ao banheiro do Maracanã, para conhecer pessoalmente o nosso Pelé, saído às pressas do banho, ainda coberto de sabão. Se duvida, eis a foto no dia 21 de novembro de 1965.

Se a bossa nova era da classe média e o samba era do povo, o futebol era de todos, espelhado na face multiétnica de nossos craques. Já que éramos analfabetos (a taxa em 1960 era de 40%) e pouco dados à leitura, e, portanto, nunca consideramos a nossa história como uma marca de identidade, agora havia algo que aparentemente cobria essa lacuna e não dava muito trabalho, pelo contrário, que era o amor pelo futebol — mesmo sem considerar que são 22 suando em campo, e dezenas de milhares, assistindo dispersos nas arquibancadas, imaginando que se estivessem em campo fariam melhor.

Mas, tirando essas idiossincrasias, o futebol mostrava bem a idealização que fazíamos de nós mesmos: fisicamente vigorosos, colaborativos, unidos e igualitários (indiferentes a preconceitos de raça, fortuna, religião), respeitadores das regras, respeitosos, criativos, flexíveis, solidários, etc. Apesar de todas essas qualidades não aparecerem com muita frequência no dia a dia, elas bem que eram um esboço generoso do que poderíamos ser, se não desistíssemos tão fácil ou se vivêssemos um pouco mais atentos. Essa era realmente a nossa identidade.

O que nós não consideramos é que essa identidade não nascia com a gente, como muitos supuseram e insistiram, talvez por preguiça, mas de uma lenta e penosa vida de desafios que começava nas várzeas de riachos das periferias e terrenos baldios nas cidades brasileiras, onde se jogava futebol com qualquer coisa minimamente redonda. Faziam-se bolas com jornais, meias, bexiga de bichos diversos, etc.

A várzea era mágica! Vivíamos numa época de grande inocência e segurança, os meninos que se dirigiam para lá em grande número sabiam que iam se divertir. Ninguém pensava em sequestros, alguém puxando faca ou revólver para resolver uma pendência, adultos circulando para abusar das crianças etc. A impressão que tínhamos é que todos os adultos cuidavam de todas as crianças.

Ali havia um esboço de ‘democracia racial’ e ‘social’. Ninguém queria saber se o garoto era branco ou negro, rico ou pobre, feio ou bonito. O que importava era o quanto sabia jogar futebol. Uma meritocracia exigente, perfeita. E as histórias que se contavam, cada uma mais engraçada que a outra, sobre lances acontecidos no campo ou fora dele. As peladas em dia de chuva, quando as mães vinham nos catar com cabo de vassoura na mão, por causa do perigo dos raios. Uma coisa, porém, faltava ou era rara nessas peladas: as garotas, e à medida que sentimos a necessidade de estar mais perto delas, nos afastamos para os salões de danças e bailes, exceto os que estavam vocacionados a se tornarem craques, ou fracassarem tentando.

Pensando nas garotas, nessas peladas aprendíamos tanto a ganhar como a perder, aprendizado que levamos para a vida, como quando uma garota não queria mais continuar o namoro. Vida que segue, toca a bola para frente, que outra aparece. Hoje vemos jovens e adultos reagindo com violência, numa frequência absurda para alguém da minha geração, a um dos fatos mais corriqueiros da vida. E a jovem sofre um fim bárbaro!

A partir dos anos 70, o crescimento urbano acelerado e o desenvolvimento de projetos imobiliários nos subúrbios, com a redução acelerada de terrenos baldios nos bairros mais centrais. Enquanto isso, nos subúrbios, as áreas de várzea foram isoladas pela violência de facções do crime organizado e começavam a tornar perigosa a sua frequência. A resistência coletiva à agressão contra as crianças foi quebrada pelo reinado das drogas.

Nos jornais, muitos comentavam, eu os li, sobre o fim dos terrenos baldios e campos de várzea, e o prejuízo para o futebol brasileiro. Burocratas e tecnocratas responderam com a construção de quadras de futebol de salão, que não é a mesma coisa, em praças do subúrbio, com pouco efeito além de se tornarem pontos de venda de drogas. Jogar futebol tornou-se uma coisa imprópria para menores.

Paralelamente, à medida que aumentava a escolarização das crianças e a carga horária das escolas, sem a respectiva melhora da qualidade de ensino, as crianças ficaram com menos tempo livre. A escola se tornou uma prisão que as mantinha longe dos perigos do mundo real, que as autoridades não queriam ou não sabiam enfrentar. Sem falar que um campo de futebol association, pelo seu tamanho, ainda é um luxo indisponível para muitas escolas, embora o material usado tenha melhorado muito.

O espaço asséptico, obrigatório, autoritário, inclusive quando enseja, pelo paternalismo, a desmoralização dos professores para fins políticos, não é, pelos seus métodos, propício a estimular a convivência pacífica entre os alunos e a resolução racional e madura de seus conflitos. Estes, inclusive, se agudizaram pelo contato, em espaços densamente frequentados, com grupos de bairros diferentes dominados por diferentes facções, deixando meninos e meninas muito estressados. As brigas de torcidas nas competições escolares ficaram tão sérias que, em alguns municípios, as escolas se abstêm de competições interescolares ou fazem competições sem torcida.

No Estado de São Paulo, houve um grande investimento para criar quadras cobertas em todas as escolas, com um detalhe faltando: a arquibancada da torcida. Quem quisesse ver o jogo teria que ficar de pé fora da quadra, protegido por tela de arame, mas exposto ao sol. Quem fez esse projeto e quem o aprovou não teve infância e juventude. O que motiva, ou desmotiva, mais um atleta é a exaltação ou a hostilidade do público presente. E o quanto isso educa para a vida? Como os meninos e meninas vão aprender isso jogando em quadras à prova de torcidas?

Uma alternativa aos grandes campeonatos de futebol de várzea do passado seria, como nos Estados Unidos, além de outros detalhes, a criação de ligas de futebol e outros esportes nos diversos níveis de escolaridade: liga do ensino médio, liga universitária, até chegar aos clubes, aproveitando toda a força educadora do esporte, criando 'craques' que serão modelo dentro e fora do campo, e não esses que usam do sucesso que seu talento natural lhe deu para se envolverem em casos  escabrosos e até crimes. 

Para o menino ou menina de talento, restam as escolinhas dos clubes. Mas, sendo um clube uma empresa, e muitas vezes de sócios estrangeiros, se tornam cada vez mais uma fábrica de talentos para times europeus, criando jogadores que, apesar de nascidos no Brasil, nunca jogaram em um time aqui. É o caso do futebolista Paulo Vitor Barreto de Souza, que, levado para a Itália aos 13 anos, fez toda a sua carreira, até se aposentar em 2020 naquele país. 

Precisamos nos resignar ao fato de que não somos mais, e por responsabilidade nossa, o 'país do futebol'. Não será mais isso que nos identificará para o mundo e para nós mesmos, além do país, ou do povo, que adora alianças com ditaduras. Destruímos ou deixamos destruir as bases daquilo que nos unificava e distinguia. Daqui para frente seremos apenas uma potência mediana nesse esporte, com tendência a nos tornarmos menos ainda. 


sábado, 4 de julho de 2026

 


Um escravo chinês em 1900. Aos seus pés, a carga que deve carregar.

O QUESTIONAMENTO MAIS ABSURDO E TONTO QUE EU JÁ VI.

Eduardo Simões

 A jornalista Vilma Gryzinski, da Veja, fez um artigo muito interessante sobre o impacto, em alguns, da chamada “remada viking” no mundial de futebol chamado: “Está a Noruega moralmente certa ao celebrar, com seleção, herança viking?” na qual comenta a reação que está causando em alguns setores, como o representado pelo jornalista inglês Gavin Mortimer, da revista inglesa The Espectator, criada em 1828.

Para Mortimer, segundo Grysinski, essa escolha norueguesa, que está para a copa de 2026 o que a ola mexicana está para a de 1986, deveria ser repudiada por causa das desgraças que os navegadores vikings trouxeram aos povos europeus de seu tempo: roubos, saques, destruição, genocídio (?), escravização, etc. Ele inclusive aponta, como um dado comprometedor, o fato de 1 milhão de ingleses ter genes escandinavos — é nisso que dá a pessoa 'matar' aulas de matemática, estatística e lógica.

Primeiro: 1 milhão em 60 milhões corresponde a pouco mais de 1% da população. Considerando que levas e mais levas de nórdicos vieram à Inglaterra em 250 anos, isso é muito pouco e pode nos apontar noutra direção: ingleses ‘puros’ massacraram muitos nórdicos, logo os atuais descendem de genocidas.

Segundo: como desvincular essa abordagem de Mortimer daquelas que são típicas dos piores racistas?

Terceiro: o número bruto aponta tanto para violência sexual como para trocas consensuais, a não ser que o sr. Mortimer tenha descoberto um modo científico de determinar pelo mapa genético de uma população ou um indivíduo, se os emparelhamentos sexuais foram consensuais ou não. Se não for esse o caso, ele estará apenas expressando receios neuróticos sobre a sua origem, e somos obrigados a tranquilizá-lo dizendo que não é porque alguém imagina ter uma origem suspeita, que os outros o são.

Quarto: ele apresenta, como modelo, os hispânicos nos EUA, por não fazerem a 'remada de Colombo', como que envergonhados pelo que os europeus fizeram na América. Nós, entretanto, respondemos: os hispânicos não fazem a ‘remada de Colombo' porque os navios de Colombo não tinham remos, como os dos vikings. São de OUTRA ÉPOCA. E essa expressão quase diz tudo, pois não abarca o  complexo de inferioridade dos latino-americanos, que se deixam influenciar facilmente por qualquer idiotice que dizem sobre suas origens. Por isso são pobres e dominados, e continuarão sendo, se não mudarem.

Há algum tempo, um completo energúmeno pôs fogo numa estátua de Borba Gato, na entrada de São Bernardo do Campo, em São Paulo. Muitos intelectuais e jornalistas levantaram-se aplaudindo, uma vez que, para eles, os bandeirantes eram gente má que roubava, matava e escravizava nativos. Uma jornalista, com muito sentimento, chamou o personagem representado na estátua vandalizada de ‘escravagista’, enquanto outros o apodaram de ‘genocida’. Mas nesse sentido ele é exatamente igual aos sobas africanos que capturavam gente do seu 'continente' ou da sua 'raça' — os dois conceitos não existiam para os africanos daquela época — para vender aos europeus, sem falar dos muitos que eles matavam, por não quererem se submeter. Havia ainda os que pereciam na marcha até o fortim onde seriam vendidos. E assim eram os cristãos em relação aos islâmicos e vice-versa, eslavos em relação aos povos asiáticos e vice-versa, chineses hans em relação aos não-hans. 

Mas se todos praticavam escravidão, violência, estupro, genocídio legalmente naquela ÉPOCA, eles não podem ser condenados agora por um crime que não cometeram no tempo em que eram vivos, e que, mortos, já não o podem cometer. Querer julgá-los a partir de critérios morais ou legais contemporâneos é o cúmulo da insensatez. O que temos de fazer é combater essas práticas hoje, que são, com justiça, declaradas ilegais, a partir de uma compreensão contemporânea das relações humanas, que podem mudar e coisas que hoje são comuns, naturais, talvez se tornem escandalosas no futuro. Como dizia um poeta (Cazuza): “O tempo não para, não para não, não para!”

O nosso caso é realmente excepcional, pois enquanto aplaudimos a destruição de monumentos a nossos ‘cruéis’ antepassados, aplaudimos entusiastas a aliança com países que até recentemente admitiam e praticavam a escravidão, como a China. Vejam o que diz a Wikipedia em inglês no verbete SLAVERY IN CHINA:

“O sistema Laogai na China, abreviação de Laodong Gaizao (ou "Reeducação pelo Trabalho"), foi estabelecido sob a liderança de Mao Tsé-Tung, intitulado “Instruções para a Eliminação Completa de Contrarrevolucionários Ocultos”, na década de 1950, e continua a funcionar de várias formas até hoje. Ele serve como um mecanismo para o Partido Comunista Chinês suprimir a dissidência e impor a conformidade ideológica. Prisioneiros políticos, incluindo aqueles que se opõem às políticas governamentais ou praticam religiões proibidas, são submetidos a trabalhos forçados, muitas vezes sem julgamento ou acusações formais. Esses indivíduos suportam condições de trabalho extenuantes, coerção psicológica e abuso físico, tudo com o objetivo de quebrar sua resistência e incutir lealdade ao partido. Apesar das alegações oficiais de reforma, o sistema Laogai persiste sob nomes diferentes, continuando a explorar prisioneiros para ganho econômico."

A diferença é que não é escravidão privada, mas estatal, tão cruel ou talvez pior do que aquela, pois não conhece a piedade eventual de um senhor mais humano. Dizer que ela é melhor ou justificada por ser, TEORICAMENTE, feita em benefício da sociedade é um imenso aleijão moral, um absurdo, uma idiotice.

Tudo o que temos devemos aos nossos antepassados, e um dia seremos também antepassados para outras pessoas. Mas existem, infelizmente, pessoas fracassadas ou desnaturadas o bastante para condenar em bloco todos os seus antepassados e os de outros. 

Os povos que são gratos aos seus antepassados e à sua história, como os noruegueses, alcançam os píncaros do progresso e da democracia, enquanto os outros acabam como a União Soviética, Cuba, Camboja, Albânia, etc. A China de Mao não existe mais, a moderna ainda não se consolidou e ainda preserva sementes do passado. 

Quem amaldiçoa e repudia seus antepassados é por eles amaldiçoado e repudiado, e da mesma forma que um testador pode excluir alguém de uma herança, doando-a em vida, nossos antepassados podem tirar-nos a nossa, que por acaso é o próprio Brasil. Todos falam mal dos bandeirantes, mas ninguém quer abrir mão da herança que eles deixaram, apesar de supostamente baseada numa infinidade de crimes graves, imprescritíveis, porque ela nos faz poderosos diante de outros povos. Até quando?

Dois pontos de reflexão:

Um ditado antigo: Deus começa por tirar o juízo daqueles que querem se perder. Não será por isso que vamos pela terceira vez disputar entre Lula e Bolsonaro? 

Uma verdade: devemos aos nossos antepassados, independentemente de seu caráter, de seus crimes ou méritos, o que há de mais sublime e superior em nós mesmos: a nossa humanidade.


 

TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 21

Interesse Próprio, Bem Comum e Utilitarismo.

Sabemos que tanto o Interesse Próprio quanto o Bem Comum eram conceitos antigos. Mas, por volta de meados do século XVIII, afirmaram-se com nova energia, não apenas na ética, mas em todo o campo do pensamento social. Em particular, eram, ou supunha-se que fossem, os princípios básicos e unificadores de todas as ciências sociais, praticamente os únicos que a “razão” havia defendido. Helvétius (1715–71) comparou o papel do princípio do interesse próprio no mundo social ao papel da lei da gravitação no mundo físico. Até mesmo o grande Beccaria [jurista italiano] chegou ao ponto de afirmar que o homem é totalmente egoísta e egocêntrico e não se preocupa em nada com o bem de nenhum outro homem (ou com o bem comum).

Deve-se observar mais uma vez que esse interesse próprio individual era orientado pela expectativa racional de prazer e dor individuais, que, por sua vez, deve ser definida em um sentido estritamente hedonista. É verdade que os autores do século XVIII acrescentaram qualificações e reconheceram prazeres que geralmente não são classificados como hedonistas, como os prazeres da malevolência, da aquisição de poder e até mesmo da crença e prática religiosa. Consequentemente, os defensores dessa doutrina obtiveram certo sucesso em sua tentativa de resgatá-la da acusação que se fez de o comportamento humano girar em torno de bifes [ou coisas aparentemente pequenas, irrelevantes].

Mas esse sucesso — além do fato de não abordar todas as outras objeções que podem ser levantadas contra qualquer teoria que enfatize excessivamente a racionalidade no comportamento — foi mais aparente do que real. Pois, se formos muito além das gratificações mais grosseiras dos apetites mais simples, chegamos perigosamente perto de identificar a expectativa de “prazer” com todos os motivos possíveis, até mesmo com o sofrimento intencional da dor, e então, é claro, a doutrina se torna uma tautologia vazia. Pior ainda, se dermos demasiada margem a tais “prazeres” que podem advir do esforço, da vitória, da crueldade e similares, podemos obter uma imagem do comportamento humano e da sociedade totalmente diferente daquela que esses homens de fato idealizaram [eles idealizavam uma sociedade livre de preconceito, de maldade, liberdade completa, tudo de bom!]. Assim, se quisermos chegar à mesma conclusão que eles chegaram a partir de suas ideias sobre prazer e dor, não temos outra escolha senão adotar uma definição desta última que, de fato, permita alguma liberdade para ir além de simples bifes, embora apenas uma liberdade limitada; ou seja, não temos outra escolha senão adotar uma teoria do comportamento que diverge dos fatos mais óbvios [noutras palavras: a definição básica nos leva a um impasse, a um beco sem saída]. Por que, então, ela foi tão prontamente adotada por tantas mentes brilhantes?

Ao que parece, esses cérebros pertenciam a reformadores práticos que lutavam contra um estado de coisas historicamente estabelecido que lhes parecia “irracional”. Em tal luta, a simplicidade e até mesmo a trivialidade são as principais virtudes de um argumento, e as filosofias pragmáticas são a melhor resposta a um sistema de direitos e deveres sacralizados de forma supramundana [a moral cristã]. Apenas pregavam tolices iguais às que todos estamos habituados a pregar, inclusive quando tem gente olhando.

Vimos acima como o bem comum ou a conveniência social dos doutores escolásticos foi moldado particularmente pelos defensores da razão do século XVIII. Vamos repetir e reformular. Os prazeres e as dores de cada indivíduo são considerados quantidades mensuráveis, capazes de serem somadas (algebricamente) em uma quantidade chamada felicidade individual (felicità). Essas “felicidades” individuais são novamente somadas em um total social, todas com o mesmo peso: “todos valem um, ninguém vale mais do que um”. Finalmente, esse total social é substituído ou identificado com o bem comum ou o bem-estar da sociedade, que é assim reduzido a sensações individuais de prazer ou dor, as únicas realidades últimas.

Isso nos leva ao princípio normativo do Utilitarismo, a saber, a Maior Felicidade do Maior Número, o qual é principalmente associado, em reconhecimento à sua ardente defesa, cuidadosa elaboração e ampla aplicação, ao nome de Bentham. Se a ideia era de origem antiga e se desenvolveu tão lentamente a ponto de desafiar a datação, o próprio slogan pode ser datado com mais precisão: até onde sei, ele aparece primeiro em Hutcheson (op. cit. 1725), depois em Beccaria (op. cit. 1764, la massima felicità divisa nel maggior numero); em seguida, em Priestley (op. cit. 1768), a quem Bentham atribui o mérito do que para ele era uma “verdade sagrada”. Hume não possui o slogan, mas deve ser incluído nesta série mesmo assim.

O utilitarismo de Bentham (muito influente na Inglaterra).

O ponto essencial a compreender é que o utilitarismo nada mais era do que outro sistema de leis naturais. Isso se verifica não apenas no sentido de que os utilitaristas foram os sucessores históricos dos filósofos do direito natural do século XVII; nem apenas no sentido de que o sistema utilitarista se desenvolveu a partir do sistema dos filósofos, o que, embora evidente, pode ser comprovado em detalhes pela história da ética, por um lado, e pela história do conceito de bem comum, por outro; mas também no sentido muito mais significativo de que, em abordagem, metodologia e natureza de seus resultados, o utilitarismo foi, de fato, outro, o último, sistema de leis naturais.

O programa de derivar, à luz da razão, “leis” sobre o homem na sociedade a partir de uma natureza humana muito estável e altamente simplificada se encaixa aos utilitaristas tão bem quanto aos filósofos ou aos escolásticos. Assim como os sistemas dos filósofos ou dos escolásticos, o utilitarismo apresenta um apelo triplo. Primeiro, era uma filosofia de vida, exibindo um esquema de “valores últimos”. É aqui que devemos buscar a origem da impressão inerradicável de que o utilitarismo, especialmente o de Bentham, era algo novo e fundamentalmente antagônico aos sistemas mais antigos. Mas, como o leitor já deve saber, a diferença não era grande no que diz respeito à filosofia das atividades cotidianas. Para a esfera do estábulo, do celeiro, da loja e do mercado, os doutores escolásticos eram suficientemente utilitaristas. A verdadeira diferença residia no fato de que os médicos restringiam o ponto de vista utilitarista à atividade puramente utilitária, onde ela é (não totalmente) adequada, enquanto os utilitaristas reduziam todo o universo de valores humanos ao mesmo esquema, descartando, por ser contrário à razão, tudo o que realmente importa ao homem. Assim, eles merecem, de fato, o crédito de terem criado algo novo na literatura, se não considerarmos a contribuição de Epicuro, algo como a mais superficial de todas as filosofias de vida concebíveis, que se encontra, de fato, em posição de antagonismo irreconciliável com as demais que lhe disputam o título.

Em segundo lugar, o utilitarismo era um sistema normativo com forte viés jurídico. Era, como o sistema escolástico, um sistema de imperativos morais, por um lado, e de princípios legislativos, por outro. Bentham considerava-se primordialmente um moralista e legislador, e foi como critério de legislação boa e má” que o princípio da maior felicidade para o maior número adquiriu para ele importância primordial. Observe-se, mais uma vez, o elemento igualitário presente nele, que era tão essencial quanto o elemento da felicidade. E esses dois aspectos, juntamente com a crença não apenas de que qualquer indivíduo era muito semelhante a qualquer outro, mas também de que cada indivíduo era matéria indefinida e maleável, com poucas ou nenhuma característica inata própria, produziram o princípio político fundamental do benthamismo: educar as pessoas e deixá-las votar livremente, e todo o resto se resolverá por si só. [Isso está presente no discurso de muita gente douta, hoje, no Brasil].

Mas, em terceiro lugar, assim como a lei natural dos filósofos e escolásticos, o utilitarismo também era um sistema abrangente de ciências sociais, incorporando um método uniforme de análise. E esse aspecto é separável dos outros dois, da mesma forma que o trabalho analítico dos escolásticos e dos filósofos é separável do restante de seu pensamento. Em outras palavras, é logicamente possível desprezar o utilitarismo, por completo, tanto como filosofia de vida quanto como programa político, e ainda assim aceitá-lo, como motor de análise, em todos ou alguns dos ramos das ciências sociais. Mas, apesar de o utilitarismo não ser muito valioso como ferramenta de análise, muitos economistas não hesitaram em declarar que ele é fundamental para a teoria econômica. Como Jevons.

Nota de Schumpeter

Antes de Bentham, o catálogo de moralistas utilitaristas não coincide exatamente com o catálogo de legisladores utilitaristas. Bentham imprimiu suas preferências pessoais a um grupo de seguidores — os Radicais Filosóficos já mencionados — e a forte coesão desse grupo explica um programa definido (em essência, o laissez-faire combinado com o sufrágio universal) e a impressão de que esse programa decorria inexoravelmente de premissas analíticas. Mas em outras épocas e países, os benthamitas poderiam ter sido conservadores — Hume o era, e a maioria dos utilitaristas italianos também — ou então socialistas. Não há nada de surpreendente nisso, desde que se perceba que a preferência desempenha um papel tão importante na formulação de conclusões sobre políticas práticas que submete quase qualquer estrutura analítica aos seus ditames [para os menos avisados, vemos aqui uma interessante discussão sobre o perigo da influência da ‘ideologia’ no trabalho final do pesquisador]. Um homem pode aceitar integralmente a obra analítica de Marx e, ainda assim, ser conservador na prática. [Entenda-se esse interesse de Schumpeter por Bentham devido à grande aceitação que o seu pensamento teve nas culturas anglófonas; o que não é o caso no Brasil, onde ele é um ilustre desconhecido pela grande maioria da população].

 

É um erro comum entre leigos, filósofos e historiadores do pensamento prestar um respeito exagerado a tudo o que se apresenta como um princípio fundamental. Na verdade, as pessoas nem sempre utilizam, tanto no trabalho científico quanto nas questões práticas da vida, os princípios fundamentais aos quais professam fidelidade. Sendo o utilitarismo um conjunto de tais princípios fundamentais, devemos, portanto, indagar em cada caso qual papel lhe foi permitido desempenhar. No que diz respeito à economia, podemos, contudo, apresentar respostas gerais para quatro tipos de casos.

Primeiro, as hipóteses utilitaristas são completamente inúteis em questões de interpretação da história ou em questões que afetam as forças motrizes da história econômica.

Segundo, as hipóteses utilitaristas são ainda piores em todos os problemas que envolvem questões de esquemas reais de motivação, por exemplo, em um problema como os efeitos econômicos da herança.

Terceiro, as hipóteses utilitaristas são, na verdade, fundamentais para aquela parte da teoria econômica que geralmente se denomina Economia do Bem-Estar — herdeira das teorias italianas do século XVIII sobre a felicidade pública. Adotamos essas hipóteses habitualmente ao discutir problemas como os efeitos das “transferências de riqueza dos relativamente ricos para os relativamente pobres”. E é precisamente por isso que as proposições da economia do bem-estar nunca convencem ninguém que já não esteja convencido de antemão, independentemente de qualquer argumento. Pois, embora haja, certamente, um aspecto desses problemas para o qual a abordagem utilitarista seja apropriada, esse aspecto evidentemente não é o único: provamos muito pouco quando demonstramos que transferir o dinheiro de um homem rico para um homem pobre aumenta o bem-estar no sentido utilitarista. [Os comunistas fizeram isso e a única coisa que cresceu foi a Infelicidade Pública e o Mal Estar Social].

Em quarto lugar, no campo da teoria econômica, no sentido mais estrito do termo, as hipóteses utilitaristas são desnecessárias, mas inofensivas. Por exemplo, podemos enunciar e discutir as propriedades do equilíbrio econômico sem introduzi-las. Mas, se as introduzirmos, os resultados não são materialmente afetados, portanto, não são prejudicados. Isso nos permite salvar grande parte da análise econômica que, à primeira vista, parece irremediavelmente viciada por preconceitos utilitaristas.

[Considerando a importância que o utilitarismo teve na evolução da cultura inglesa e americana, além da época em que isso foi escrito, esse texto deve ter sido uma ‘tijolada’ nas principais correntes da cultura universitária americana, e mesmo na grande sociedade. Se fosse hoje, provavelmente Trump o deportaria como um imigrante secretamente ilegal ou por atividade antiamericana].