quinta-feira, 8 de outubro de 2026

 

TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 29

A teoria rudimentar do equilíbrio do Capítulo 7, de longe a melhor parte da teoria econômica produzida por A. Smith, aponta para Say e, por meio deste, para Walras. Os desenvolvimentos puramente teóricos do século XIX consistem, em grande medida, em melhorias a essa teoria. O preço de mercado, definido em termos de demanda e oferta de curto prazo, é tratado como flutuando em torno de um preço “natural” — o preço “necessário” de J.S. Mill, o preço “normal” de A. Marshall —, o qual é o preço suficiente para cobrir “o valor do aluguel, dos salários e do lucro que devem ser pagos para trazer” ao mercado a quantidade de cada mercadoria “que atenderá à demanda efetiva”: a demanda efetiva a esse preço.

Não existe uma teoria sobre o preço de monopólio além da frase falsa e sem sentido de que “o preço de monopólio é sempre o mais alto que se pode obter”, enquanto “o preço da livre concorrência… é o mais baixo que se pode aceitar” a longo prazo — um teorema importante, embora Smith pareça não ter percebido a necessidade de demonstrá-lo. Os capítulos 8 a 11 completam o argumento autossuficiente do primeiro livro, cujas linhas gerais, embora ocultas pela exuberante folhagem de fatos ilustrativos que degeneram muitas vezes em digressões, não são desprovidas de beleza literária.

Estes capítulos, resumindo e coordenando, transmitiram a teoria da distribuição do século XVIII aos economistas do século XIX, que acharam muito mais fácil partir deles porque a própria flexibilidade das doutrinas de Adam Smith convidava ao desenvolvimento em linhas muito diferentes: as próprias fraquezas de Smith ajudavam a qualificá-lo para o seu tipo de liderança. Basta chamar a atenção do leitor para os seguintes pontos. O capítulo 8, sobre salários, contém não apenas os rudimentos das teorias do fundo salarial (p. 61) e do mínimo de subsistência (pp. 71, 76), que podem ter sido derivadas de Turgot e dos fisiocratas e foram amplamente exploradas pelos sucessores de A. Smith.

O capítulo 9, sobre lucro, oferece muitos pontos sobre os fatores que determinam a taxa de lucro (por exemplo, na p. 83), especialmente em relação aos salários, mas não aborda o problema fundamental. Primeiramente, ele sancionou definitivamente e contribuiu para a vitória da tendência doutrinária que prevaleceria na economia do século XIX, particularmente na Inglaterra: o lucro, tratado como a renda básica da classe capitalista, é (substancialmente) o retorno do uso comercial de bens físicos (incluindo os meios de subsistência do trabalho) que essa classe fornece; e os juros sobre empréstimos são simplesmente um derivado disso. Exceto no caso dos meros credores (“homens ricos”), não há função distintiva dos empresários — embora Smith fale do “empreendedor” — ou industriais, que, deixando de lado a “inspeção e direção”, são fundamentalmente capitalistas ou patrões que “colocam pessoas industriosas para trabalhar” e se apropriam de parte do produto de “seu trabalho” (cap. 6).

As implicações marxistas disso, que Smith faz questão de sublinhar, são óbvias. No entanto, não se pode dizer que Adam Smith defendia uma teoria da exploração do lucro, embora se possa dizer que ele a sugeriu. Pois ele também enfatizou o elemento de risco e falou sobre os empregadores adiantarem “todo o estoque de materiais e salários” (p. 42), o que aponta numa direção completamente diferente. Além disso, ninguém que valorizasse tanto a importância social da poupança quanto A. Smith pode reclamar se ele for associado a ideias da teoria da abstinência. Ao tratar das diferenças “Dos salários e Lucros nos Diferentes Empregos de Trabalho e Estoque” (cap. 10), Smith, deleitando-se com fatos e argumentos bastante banais, superou Cantillon e conseguiu criar um capítulo padrão dos livros didáticos do século XIX. O capítulo 11, “Da Renda da Terra” — em que Smith e  praticamente todos os economistas ingleses até Marshall restringiram o conceito de renda à terra e às minas — é inchado por uma gigantesca digressão… Se os vastos materiais e as quase inúmeras dissertações sobre pontos específicos forem resumidos, um mosaico de ideias emerge, em que alguns elementos se destacam:

Primeiro, partindo de sua teoria do custo do valor, Smith chega — equivocadamente — à conclusão de que o fenômeno da renda só pode ser atribuído a um “monopólio” da terra (p. 131), dando início, assim, a uma ideia que encontraria adeptos repetidamente e que ainda não se extinguiu. Em segundo lugar, encontramos (p. 132) a afirmação de que, enquanto “salários e lucros altos ou baixos são as causas de preços altos ou baixos, a renda alta ou baixa é o efeito disso”, o que se encaixa mal na teoria do monopólio e aponta na direção ricardiana: a chamada teoria ricardiana da renda pode ter surgido de um esforço para organizar logicamente a confusão smithiana. E, em terceiro lugar, há até mesmo uma sugestão que poderia ter levado um discípulo a organizar essa confusão por meio de uma teoria da produtividade. Tudo isso se mistura com outras ideias, boas e ruins, como a velha ideia, tão persistente quanto inútil, de que a produção de alimentos ocupa uma posição única ao criar a sua própria demanda, já que as pessoas se multiplicam à medida que ela se expande — ideias que entram e saem de cena como o séquito de Falstaff em Henrique IV.

Nota da IA Google

As multidões que entram e saem de cena ao redor de Sir John Falstaff nas peças Henrique IV (Partes 1 e 2) de William Shakespeare representam o submundo dinâmico, popular e caótico da Londres taverneira (Eastcheap), que contrasta diretamente com a rigidez austera e solene da corte real.

O séquito de Falstaff é formado por marginais, taverneiros, prostitutas (como a estalajadeira Quickly [‘Rapidinha’]), soldados corruptos e capangas fúteis como Bardolfo e Pistola.

 

Mesmo antes de o leitor chegar às digressões sobre o valor da prata e sobre a relação entre os valores da prata e do ouro, o capítulo contribui muito para a teoria monetária de Smith, que, no entanto, não pode ser totalmente compreendida sem a leitura da obra completa (veja especialmente o capítulo 2 do segundo livro e a importante Digressão sobre Bancos de Depósito no capítulo 3 do quarto). Mais dois pontos devem ser acrescentados: ao final da digressão sobre a prata, Smith tenta demonstrar por que, em geral, o preço — o preço real — dos produtos agrícolas aumentará em consequência Do Progresso e do Melhoramento  e, em uma digressão adicional, que o preço real dos produtos manufaturados cairá. 

De certa forma, isso prenuncia a doutrina do século XIX sobre os rendimentos decrescentes na agricultura e os rendimentos crescentes na indústria, para a qual ele pode ter se encaminhado cautelosamente e que poderia ter sido extraída de suas páginas. Além disso, ele chegou à conclusão ricardiana, embora ela não se decorra convincentemente de seu argumento confuso, de que os proprietários de terras se beneficiam diretamente no processo, tanto porque o valor real dos produtos da terra aumenta quanto porque recebem uma parcela relativa maior desses produtos; e, adicionalmente, indiretamente, devido à queda do preço real dos produtos manufaturados. Os trabalhadores também se beneficiam porque seus salários aumentam e os preços de parte das mercadorias que compram caem. Mas a terceira classe, os “comerciantes e mestres fabricantes”, sofre, porque, como disse A. Smith, a taxa de juros tende a ser baixa nos países ricos e alta nos países pobres, de modo que os interesses dessa classe conflitam tanto com os interesses das outras duas quanto com o “interesse geral da sociedade”.

O segundo livro apresenta a teoria do capital, da poupança e do investimento que, por mais transformada que tenha sido pelo desenvolvimento e pela crítica, permaneceu a base de praticamente todos os trabalhos posteriores. Certamente parece uma nova ala adicionada a uma estrutura antiga. Apesar da frágil tentativa feita na introdução de vinculá-lo ao primeiro livro por meio de outro apelo pouco convincente à “divisão do trabalho”, não há razão para crer que qualquer parte essencial dele tenha sido escrita ou planejada antes da estadia de A. Smith na França. A influência fisiocrática é muito mais claramente reconhecível do que em qualquer parte do primeiro livro.

Esta afirmação, no entanto, não deve ser mal interpretada. Smith não tinha o hábito de aceitar passivamente tudo que via e ouvia; antes, o fazia com discernimento, criticava vigorosamente e chegava a uma concepção própria. É por isso que mencionei apenas a influência fisiocrática, e não também a influência de Turgot... O senso comum do escocês se ofendeu com a afirmação de Quesnay de que apenas o trabalho agrícola (e extrativo) era produtivo. De Turgot, ele poderia ter aprendido a dar de ombros diante dessa extravagância e a seguir em frente com uma reverência elegante. Mas isso não era o seu jeito. Ele levava as coisas muito a sério, literalmente. Ele precisava embarcar em uma refutação ponderada. Mas, em suas meditações sobre o assunto, pode ter-lhe ocorrido que havia algo de relevante na distinção entre trabalho produtivo e improdutivo. E assim, elaborou sua própria interpretação e substituiu a de Quesnay. Em certo sentido, foi-lhe sugerida por Quesnay, mas também foi ideia sua.

Nota de Schumpeter

Talvez seja melhor declarar que tanto a abordagem desajeitada e inconsistente de A. Smith quanto a controvérsia do século XIX sobre essa distinção obscureceram desnecessariamente seu significado. Trabalhadores produtivos reproduzem o valor do capital que os emprega com lucro; trabalhadores improdutivos vendem seus serviços ou produzem algo que não gera lucro. Isso pode ser considerado o embrião da teoria da mais-valia de Marx. O próprio Smith deve assumir a culpa por esse significado, uma vez que não o destacou em meio a todas as irrelevâncias às quais ele o associou. De outro ponto de vista, porém correlato, a distinção se dá entre o trabalho que produz e o trabalho que não produz, algo a ser vendido para completar a transação: quando um empregado doméstico vende seus serviços ao empregador e recebe o pagamento descontado da renda deste, não há mais nenhuma etapa no processo; se o mesmo homem conseguir emprego em uma fábrica de calçados, ele será pago com capital próprio e o processo no qual seu trabalho faz parte não será concluído até que os calçados encontrem um comprador.

O Capítulo 1 do segundo livro distingue do restante a parte do estoque total de bens de um homem — e da sociedade — que deve ser chamada de capital (não apenas bens físicos, visto que “as habilidades adquiridas e úteis de todos os habitantes” constituem capital); introduz os conceitos de capital fixo e capital circulante; e classifica os bens que se enquadram em ambas as categorias, incluindo no capital circulante o dinheiro, mas não os meios de subsistência dos trabalhadores produtivos, embora o argumento de Smith exija, e de fato implique, a inclusão destes últimos.

O extenso Capítulo 2 contém a maior parte da teoria monetária de A. Smith. É muito superior ao Capítulo 4 do primeiro livro e resulta certamente de uma fase tardia dos trabalhos de A. Smith. Não apresenta nenhuma influência fisiocrática — toda influência reconhecível é inglesa.

O Capítulo 3 (que introduz a distinção entre trabalho produtivo e improdutivo), com sua enorme ênfase na propensão à poupança como a verdadeira criadora de capital físico (“A parcimônia, e não a diligência, é a causa imediata do aumento do capital”; “todo pródigo deve ser um inimigo público, e todo homem frugal um benfeitor público”), marca a vitória, por mais de 150 anos, de uma teoria pró-poupança. “O que é poupado anualmente é consumido com a mesma regularidade que o que é gasto anualmente, e quase no mesmo período; mas é consumido por um conjunto diferente de pessoas,” especialmente trabalhadores produtivos cujos salários e empregos estão, portanto, positivamente relacionados à taxa de poupança, a qual é identificada ou, pelo menos, equiparada à taxa de crescimento do capital, isto é, do investimento. Neste capítulo, receita significa lucro mais renda, exatamente como em Marx.

O Capítulo 4 aborda o problema dos juros. Visto que, como indicado acima, o lucro é tratado como o fenômeno fundamental e isso é dado como certo aqui, os juros decorrem simplesmente do fato de que o dinheiro sempre encontra demanda com um prêmio motivado pela expectativa de lucros. Smith, assim como todos os seus sucessores até tempos recentes, simplesmente não via dificuldade em explicar os juros em si: a diferença entre ele e seus sucessores do século XIX era apenas que ele também não via muitos problemas no lucro empresarial, enquanto, com o passar do tempo, um número crescente destes últimos começou a se preocupar com isso. Há, portanto, apenas três pontos a mencionar: primeiro, sua explicação pouco convincente da tendência da taxa de juros de cair devido ao aumento da competição entre capitais crescentes; em segundo lugar, seu argumento vigoroso, e bem-sucedido por 150 anos, contra as teorias monetárias do juro que tentam explicar essa tendência pelo aumento da quantidade de metais monetários; em terceiro lugar, seu argumento moderado e criterioso sobre os máximos legais, que provocou um ataque totalmente injustificado de Bentham.

Antes do final do século, A Riqueza das Nações já havia alcançado nove edições em inglês... Smith tornou-se o professor... dos professores. O pensamento da maioria deles, incluindo Ricardo, partiu dele e, na maioria dos casos, nunca o ultrapassou. Por meio século ou mais, aproximadamente até o início da trajetória dos Princípios de J.S. Mill (1848), Adam Smith forneceu a maior parte das ideias do economista médio. Na Inglaterra, os Princípios de Ricardo (1817) representaram um sério obstáculo. Mas, fora da Inglaterra, a maioria dos economistas não estava à altura de Ricardo, e Smith continuou a exercer grande influência.

OS QUASE-SISTEMAS

A maioria dos quase-sistemas eram programas de desenvolvimento industrial e comercial. Seus autores recomendavam ou combatiam políticas adequadas ou prejudiciais a esses programas e raciocinavam em termos de problemas individuais. Suas ideias, porém, não eram assistemáticas no sentido de que careciam de coerência. Eles sabiam como relacionar um problema a outro e reduzi-los a princípios unificadores — princípios analíticos, não meramente princípios de política.

Nesta seção, nos limitaremos a uma seleção de autores do século XVII, todos os quais serão mencionados novamente no texto. As honras dessa literatura — para o século XVII — pertencem a empresários e funcionários públicos ingleses, mas a lista é encabeçada por um italiano, Serra. A este homem deve-se, creio eu, atribuir-lhe o mérito de ter sido o primeiro a compor um tratado científico, embora assistemático, sobre Princípios e Política Econômica. Seu principal mérito não reside em ter explicado a saída de ouro e prata do Reino de Nápoles pelo estado da balança de pagamentos, mas sim no fato de não ter parado por aí, prosseguindo com a explicação desta última por meio de uma análise geral das condições que determinam o estado de um organismo econômico. Essencialmente, o tratado aborda os fatores dos quais depende a abundância não de dinheiro, mas de mercadorias — recursos naturais, qualidade da população, desenvolvimento da indústria e do comércio, eficiência do governo —, implicando que, se o processo econômico na totalidade funcionar adequadamente, o elemento monetário se regularizará por si só, sem nenhuma intervenção específica.

Nota da Wikipedia em italiano.

Antonio Serra... merece «o mérito de ter composto o primeiro tratado científico, embora não sistemático, sobre os princípios e a política econômica». Ele também é considerado o primeiro a ter escrito uma obra sobre política econômica, sobre mercantilismo.

Pouco se sabe sobre sua vida: em 1613, Serra foi preso nas prisões do Vicariato de Nápoles, talvez por sua participação na conspiração arquitetada por Tommaso Campanella para libertar a Calábria do domínio espanhol, porém mais provavelmente sob a acusação de falsificação de dinheiro.

Enquanto estava na prisão, compôs o Breve Tratado sobre as Causas que Podem Fazer com que Reinos Abundem em Ouro e Prata Onde Não Há Minas e dedicou-o ao vice-rei, a quem já conhecera e cuja ajuda esperava. Em 6 de setembro de 1617, conseguiu ser recebido pelo novo vice-rei para propor um programa de reformas úteis ao Reino, mas a reunião foi infrutífera e ele voltou às prisões do Vicariato, onde provavelmente morreu.

Como as condições financeiras do Reino de Nápoles eram muito graves no início do século XVII (o tesouro público estava esgotado e a carga tributária era tão pesada que muitos deixavam a cidade), Marc'Antonio De Santis ( Discorsi , 1605) propôs limitar a exportação de dinheiro e baixar as taxas de câmbio com os mercados estrangeiros. A controvérsia com De Santis está na base do Breve Trattato de Antonio Serra, que demonstra com exemplos retirados da história antiga e contemporânea a inutilidade e o dano desses supostos remédios e, a partir disso, aproveita para explicar as verdadeiras causas da prosperidade das nações.

Serra analisa as causas da escassez de moeda no Reino de Nápoles e os fatores que poderiam revertê-la. Ele foi o primeiro a analisar e compreender plenamente o conceito de balança comercial, tanto para bens visíveis quanto invisíveis (serviços e movimentos de capital). Explicou como a escassez de moeda no Reino era causada pelo déficit na balança de pagamentos. Com base em suas análises, rejeitou a ideia, mais difundida na época, de que a escassez de moeda se devia à taxa de câmbio. A solução para o problema era a promoção ativa das exportações. A obra... é inovadora para a época...

Foi o abade Ferdinando Galiani (1728–1787) quem redescobriu a obra, elogiando-a... no seu famoso tratado Della Moneta. "Quem ler este tratado", escreve, "certamente ficará surpreso e admirado ao ver como, em um século de total ignorância da ciência econômica, seu autor... julgou acertadamente as causas de nossos males e os únicos remédios eficazes." Galiani compara Serra a Jean-François Melon e John Locke , considerando-o superior a eles por ter vivido muitos anos antes, em uma era de ignorância da ciência econômica. 

 

Durante várias décadas, não houve nada semelhante em lugar nenhum. Mas, na segunda metade do século, testemunhamos uma rica safra de obras de tipo similar na Inglaterra, cujo título padrão era ‘Discurso sobre o Comércio’. Gradualmente, seus autores descobriram por si mesmos fragmentos da lógica inerente ao processo econômico, coisas que poderiam ter aprendido facilmente com os escolásticos e seus sucessores, que se tornariam a justificativa das doutrinas do liberalismo laissez-faire.

Um marco nesse caminho foi o Discurso de Child. Essa obra notável foi e é geralmente descartada como um dos muitos escritos “mercantilistas” — o que foi e (em certa medida) ainda é, suficiente para impedir que muitos historiadores vejam qualquer mérito nela. Mas, independentemente disso, deve-se reconhecer que este Discurso aborda os problemas práticos de sua época — emprego, salários, dinheiro, trocas, exportações e importações, etc. — à luz de "leis" claramente delineadas do mecanismo dos mercados capitalistas; embora não explicitamente elaborada, a ferramenta que chamamos de teoria do equilíbrio está, por assim dizer, presente nos bastidores.

Em cada um desses casos, vemos maior ou menor consciência da existência de um aparato analítico que funciona essencialmente da mesma maneira, independentemente do problema prático para o qual ele foi criado, e maior ou menor disposição e capacidade de usá-lo. Para nós, isso é o que importa: gostar ou não das recomendações práticas que os autores supostamente decorrem de sua análise é totalmente irrelevante... A maioria desses discursos... consistia meramente em programas motivados para o desenvolvimento industrial e comercial da Inglaterra... Por ora, basta mencionar os tratados do superestimado Mun, de Cary e Petyt.

Não que houvesse falta de unidade entre eles na questão política... mas faltava trabalho analítico, e os erros de raciocínio eram abundantes. [John] Cary, por exemplo, além de discutir cuidadosamente as condições e possibilidades do comércio inglês com cada país estrangeiro, com a Irlanda e com as colônias (a parte mais valiosa do tratado), também se preocupa com monopólios (isto é, os monopólios das grandes companhias comerciais), as causas e soluções para o desemprego, a cunhagem de moedas, o crédito e muitos outros assuntos, até chegar ao problema de como tornar as empregadas domésticas “mais ordeiras e governáveis ​​do que são agora” (por pressão de sua senhora?). Mas toda tentativa que ele faz de levar a análise além do óbvio é um fracasso... No entanto, há muita perspicácia em tudo isso — perspicácia, nacionalismo restrito e brutalidade ingênua (compare, por exemplo, seu entusiasmo pelo comércio de escravos, a “mina de prata” da Inglaterra, ou suas opiniões sobre o tratamento a ser dado à Irlanda).

Nos Países Baixos, por exemplo, os escritos de Graswinckel e de la Court... [que] muitos historiadores os colocarão acima de seus contemporâneos ingleses por conta de suas visões “liberais” sobre o comércio nacional e internacional, interferência governamental, corporações medievais e assim por diante. Mas as coisas mudam; e quase ninguém aprende por antecipação. E assim, um homem que, em 1651, reconheceu a função econômica da "antecipação" e da especulação, como Graswinckel, sabia algo que poderia ter sido apresentado como uma descoberta em 1751 — não que realmente o fosse —, embora fosse um lugar-comum em 1851 e soe completamente errado agora.

Os escritos alemães do século XVII deste gênero, além de adotarem, obviamente, uma visão diferente em relação às políticas, não estavam neste nível, mas havia muitos do tipo de Cary ou melhores. Nos contentaremos com um representante austríaco, o conhecido Hornigk. Seu livro é mais um programa para uma política de fomento ao desenvolvimento econômico, escrito desta vez para um país pobre, perpetuamente ameaçado pelos turcos e carente tanto dos recursos quanto das possibilidades que haviam na Inglaterra.

A semelhança das recomendações de Hornigk com as dos seus contemporâneos ingleses é impressionante: terras improdutivas e outros recursos não utilizados devem ser explorados; a eficiência do trabalho deve ser aumentada por meio de melhor treinamento; a indústria nacional deve ser auxiliada, entre outras coisas, direcionando a demanda dos consumidores para seus produtos; As exportações de produtos manufaturados e as importações de matérias-primas necessárias deveriam ser favorecidas, restringindo-se as exportações destas últimas e as importações das primeiras; o comércio deveria ser equilibrado bilateralmente com cada país estrangeiro individualmente; e assim por diante — tudo ou quase tudo isso faz muito sentido e é bastante interessante como monumento ao pensamento de um burocrata inteligente, que poderia ser bem reforçado por uma análise.

Quanto aos Estados Unidos, não há registros de esforços sistemáticos nesse sentido antes do século XIX. Isso é o que se espera, considerando as condições ambientais que dificilmente produziriam demanda ou oferta de tratados gerais. Mas a discussão sobre problemas práticos da época era ativa mesmo nos tempos coloniais, e, no século XVIII, abundam relatórios, panfletos e tratados, especialmente sobre questões de papel-moeda, cunhagem, crédito, comércio e política fiscal. E algumas dessas práticas correspondem à nossa ideia de “quase-sistemas”. Aqui estão três exemplos que o leitor americano é aconselhado a pesquisar por si mesmo.

Primeiro, Hamilton e o seu Relatório sobre as manufaturas (1791), embora sem dúvida concebido como uma descrição com um programa de ação, é realmente “economia aplicada” em seu melhor nível e revela com bastante clareza os elementos essenciais da estrutura analítica que seria explicitada por D. Raymond e F. List, e que, por sua vez, remete ao trabalho de autores como Child e Davenant. Em segundo lugar, a obra de Coxe se aproxima de um tratado sistemático. Em terceiro lugar, os diversos tratados de Benjamin Franklin (1706–90) sobre temas econômicos apresentam material suficiente para nos permitir reconstruir seu sistema — no aspecto prático, substancialmente do tipo laissez-faire — embora haja pouco a elogiar em termos de virtudes puramente analíticas.


quarta-feira, 7 de outubro de 2026

 


O juiz ALEXANDRE DE MORAES está soltando ou arrefecendo a perseguição aos bolsonaristas numa rapidez impressionante. A eleição equivaleu-lhe a uma pancada na cabeça, agravada pelo fato de ela estar desprotegida. A sua cúpula espelhada já não reflete todo o poder e arrogância de antes de 4 de outubro.

Ou seja, aqueles ou aquilo que no passado eram vítimas de processos excepcionais, absolutamente ilegais e infames, a pretexto de representarem um perigo EXTREMO e IMEDIATO à nossa democracia e ao Estado de Direito, DE REPENTE deixaram de sê-lo. Ou seja: eles, os juízes do SUPREMO, faziam ou sabiam que estavam fazendo coisas muito erradas.

No SUPREMO é assim: cada um cuida do seu capim.

No SUPREMO é assim: quem não é covarde, ou é bobo ou agiu tarde.

É difícil ainda dizer se a FESTA DE ARROMBA do SUPREMO, que já dura 4 anos, acabou, mas com certeza será necessário trocar a chave do cofre da nação.

Lembram de ALCOLUMBRE, antes do 1.º turno, falando grosso com Lula e afirmando categoricamente que a escala 6x1 só seria votada depois do 2.º. turno? Mudou da água para a cachaça de quinta. Agora defende a aprovação acelerada dela, em prol dos trabalhadores, e só Deus sabe dos horrores que vamos ter que assistir nos debates do Senado. Ele sabe que só a eleição de Lula pode salvá-lo do mais completo esquecimento e insignificância com que a natureza o dotou.

Flávio Bolsonaro não falou, e decerto não vai falar, sobre o terrível aperto econômico que nós obrigatoriamente teremos que enfrentar em 2027, em função das loucuras feitas pelo presidente Lula, mesmo porque, se falar, o povo não votará nele. Sem falar que ele nunca teve bem claro o que dizer ao povo, exceto quando ofereceu seu cargo de pretendente ao trono pelo melhor preço, ou quando negociava com Vorcaro.

Mermão para presidente; e perca até os dentes.

Essa eleição mostrou que o Brasil é como um homem de 2 metros e 200 quilos, de pé num parapeito todo trincado de cobertura abandonada, ameaçando pular. Você vai segurá-lo no braço?

A gente aqui no Brasil quase não sente a passagem das estações. Isso deve ser uma compensação pelos incômodos, constrangimentos e desatinos que experimentamos a cada eleição.

Se Flavio for eleito, veremos se ele é um homem de família ou se deixará o seu irmão, sozinho, no processo do banco Master.

Pelo nível de proximidade e troca de favor, dá para cravar que Daniel Vorcaro será o primeiro indultado num possível governo Bolsonaro.

A eleição de Flávio vai-nos permitir, pelo menos, salvar o motor do transatlântico BRASIL, porque o resto vai se perder todo. Agora, o que nós vamos fazer, no meio de um mar profundo, segurando um motor de várias toneladas, para manter o nariz acima do nível d'água?


terça-feira, 6 de outubro de 2026

 


A COMPANHIA DOS MERCADORES AVENTUREIROS NO REINADO DE ELIZABETH I - 6

[trechos traduzidos de artigo de George Unwin]

Da perspectiva tranquila de nossa época, pensamos que entendemos as leis que regiam esse fluxo de metais preciosos. De fato, dentro de um único século da época de Gresham, o Parlamento já havia percebido a futilidade de tentar controlar o fluxo de metais preciosos por meio de legislação. A Lei de 1663, que revoga as restrições que, apesar da evasão contínua, haviam dificultado o comércio exterior durante séculos, repudia a doutrina bullionista da maneira mais enfática. “A experiência demonstra”, diz a seção nove desse Estatuto, “que dinheiro e metais preciosos são levados em maior abundância aos lugares que oferecem liberdade para a exportação deles”.

Levei vocês até meados do século XVII para podermos ver os fatos do século XVI em retrospectiva. Desse ponto de vista, a futilidade das restrições bullionistas fica clara. Observamos o fluxo de ouro e prata — apesar das rígidas regulamentações — saindo da Espanha e de Portugal, onde o nível de metais preciosos é mais alto e, consequentemente, os preços também são mais altos, buscando irresistivelmente países como a Inglaterra, onde o nível de preços é mais baixo, embora tenda, no caminho, a passar por portos que, como Gênova e Amsterdã, que, ao permitirem total liberdade de exportação, forneciam os melhores mercados comuns e centros de distribuição.

Havia, no entanto, grandes obstáculos ao livre fluxo. O custo do frete era muito maior naquela época; os riscos de naufrágio e pirataria eram muito maiores; e as despesas para burlar as restrições legais constituíam um pesado encargo no transporte de metais preciosos. Por essas razões, poderia persistir, apesar de um fluxo contínuo de metais preciosos, uma diferença considerável de nível entre dois países vizinhos e, consequentemente, uma variação semelhante no valor da moeda e em seu poder de compra. É fácil entender como a manipulação dessas flutuações cambiais internacionais levaria ao desenvolvimento de uma classe de cambistas profissionais e como as suas operações se transformariam gradualmente em uma forma de atividade bancária.

Entre os italianos, a combinação de câmbio e atividade bancária provavelmente já estava bem estabelecida antes do final do século XIII e era bastante comum em toda a Europa no final do século XV. O câmbio internacional fornecia, tanto ao potencial investidor quanto ao potencial tomador de empréstimo, o melhor meio de burlar as leis de usura. Sob o disfarce das operações cambiais, o banqueiro internacional, em um caso, estaria recebendo um depósito e, em outro, concedendo um adiantamento. E dessa forma, no início do século XVI, havia se desenvolvido um sistema de crédito internacional, pelo qual o capital excedente de um país podia ser investido no comércio ou na indústria de outro.

Um relato contemporâneo mostra-nos como o comércio exterior, tanto dos Mercadores de Lã quanto dos Aventureiros, estava se expandindo pelo sistema de crédito e bancário. Visto que os Mercadores de Lã exportavam constantemente mercadorias para as mesmas partes do continente, e os Mercadores Aventureiros importavam mercadorias das mesmas regiões, por que não deveriam, por meio de acordos mútuos com letras de câmbio, economizar as despesas de importação de metais preciosos e lastro, obter um bom lucro com a taxa de câmbio e garantir uma rotatividade muito mais rápida de seus respectivos capitais? Mal essa nova relação comercial havia sido estabelecida, o capital e o espírito empreendedor dos Mercadores Aventureiros começaram a fluir para o comércio de exportação de lã dos Mercadores de Lã, destruindo seu caráter exclusivo e limitado. 

Agentes foram enviados para percorrer o país em busca de mais lã. Proprietários de terras e agricultores, tendo descoberto que a criação de ovelhas para produção de lã seria lucrativa, começaram a criá-las em terras que o arrendatário não havia originalmente destinado a esse fim. Dessa forma, teve início a era inicial dos cercamentos. Ora, se o capital dos Aventureiros estava transbordando para o comércio de lã, pode-se inferir que ele se expandia dentro de sua esfera original — a do comércio de exportação de tecidos. E disso o autor do tratado mencionado acima fornece ampla evidência, embora esteja analisando os fatos de um ponto de vista muito diferente:

“A proliferação de tantos mercadores em Londres, filhos de homens pobres, tem sido uma destruição maravilhosa para todo o reino... Assim, há cerca de cinquenta anos, esses jovens mercadores começaram a aumentar em número, comprando tantos tecidos de fabricantes de tecidos a prazo (isto é, a crédito) e vendendo-os na Flandres a preços baixos para pagar seus credores, que em pouco tempo destruíram o preço dos tecidos de lã, fazendo com que todos os antigos mercadores deixassem de comprar e vender tecidos [a queda dos preços, pelo volume da oferta, reduzia os lucros]... Dessa forma, os ricos e antigos mercadores... vendo o preço dos tecidos e os problemas de rotina da compra e venda de mercadorias, para maior comodidade e menos trabalho... ocupam seu dinheiro com câmbio, obtendo lucro tanto interno quanto externo, o que é pura usura.”

Em outras palavras, a rápida expansão da fabricação de tecidos deu origem a uma nova e mais ativa classe de intermediários que buscavam mercados para os produtos no exterior [para aproveitar a onda]. O capital com que trabalhavam provinha de duas fontes. Os fabricantes de tecidos lhes concediam crédito pelos tecidos, ou seja, recebiam pagamentos em letras de câmbio e notas promissórias, enquanto os ricos comerciantes tradicionais, agora banqueiros, faziam adiantamentos por meio da bolsa de valores, equivalentes ao nosso moderno desconto de letras de câmbio. Os comerciantes alemães do Steelyard, que adquiriram o direito de negociar diretamente com os fabricantes de tecidos ingleses do entorno de Londres, desempenharam um papel importante na expansão do comércio de exportação e serviram, como os Mercadores Aventureiros, como elos em um crescente sistema de crédito internacional.

O centro do sistema era Antuérpia, onde os Mercadores Aventureiros e os mercadores hanseáticos se encontravam em terreno neutro. A atração que os levava para lá residia no fato de Antuérpia combinar um mercado internacional de tecidos com um mercado monetário internacional. Não era apenas a Manchester, [por causa da indústria], mas a Londres do século XVI, [grande centro financeiro ‘mundial’]. Sua posição era sem precedentes. As grandes feiras medievais haviam sido centros temporários de finanças internacionais, e a maioria das formas de crédito comercial e de atividade bancária ali se popularizaram pela primeira vez. Antuérpia estava destinada a se tornar o primeiro mercado monetário permanente, o primeiro centro bancário, na história da Europa moderna. 

A origem desse desenvolvimento foi a mesma já indicada no caso da Inglaterra. Os “ricos e antigos mercadores” do sul da Alemanha, que haviam feito fortuna no comércio, na mineração e na indústria têxtil, e que, como a maioria dos mercadores medievais, haviam combinado anteriormente o empréstimo de dinheiro com o comércio, começaram a se especializar em serviços bancários e financeiros.

O novo fluxo de metais preciosos proveniente da América forneceu amplo material para suas operações, e as dinastias rivais da Europa, que haviam começado a pensar em termos de continentes e a tomar empréstimos milionários, lhes forneceram seus principais clientes. Mas não com seus melhores clientes, nem com seus negócios mais sólidos ou lucrativos. Os dois maiores Estados — e os dois maiores devedores da Europa — França e Espanha, faliram logo após meados do século XVI, e a Inglaterra estava em situação parecida. 

Durante os primeiros anos do reinado de Elizabeth, os grandes banqueiros que mais emprestaram a Filipe estavam em colapso em todas as frentes. As finanças estatais estavam arruinando o mercado monetário de Antuérpia. Sua única chance de um futuro próspero residia na manutenção e no desenvolvimento do sistema de crédito mercantil privado, sobre o qual o comércio internacional da época se baseava em grande parte [os estados não eram confiáveis]. E é nos efeitos sobre esse sistema que as façanhas de Gresham em relação ao câmbio encontram seu verdadeiro significado.

A dependência das finanças nacionais e das maiores formas de indústria e comércio do crédito internacional... também foi um fator importante no desenvolvimento econômico da Europa no século XVI... A diferença, a este respeito, entre a nossa época e as anteriores é tripla. Consiste, em primeiro lugar, no grau de dependência, que aumentou consideravelmente a cada século; em segundo lugar, no reconhecimento dessa dependência e consequente respeito pelo crédito internacional; e, em terceiro lugar, na apreciação inteligente das condições que tornam o crédito internacional possível. Os ambiciosos planos de Eduardo III dependiam do crédito internacional, mas, na sua falta de respeito por ele, destruiu imprudentemente, uma após a outra, as bases de crédito sobre as quais se apoiavam as suas próprias campanhas militares, mas também a indústria e o comércio do seu povo.

Os ministros de Elizabeth tinham um respeito genuíno pelo crédito, e entre eles Gresham. O tema constante das suas cartas de Antuérpia é a necessidade de manter a boa reputação da Rainha junto dos magnatas das finanças internacionais. Ele se vangloria do fato de o crédito dela ser melhor do que o de Filipe ou do rei francês, e é unicamente com o propósito de o manter que recomenda os empréstimos forçados dos Aventureiros [à rainha]. Mas ele reconhece claramente que a elasticidade desse recurso final depende do pagamento pontual. Se a Rainha pagar seus mercadores regularmente, poderá contar com eles, em qualquer dificuldade, para um empréstimo de 40.000 ou 50.000 libras. Na verdade, não é tanto o respeito pelo crédito, mas sim a apreciação inteligente das condições essenciais em que ele se baseia, que falta a Gresham, assim como aos mais sábios de seus contemporâneos. 

Para o especialista em moeda, como Gerard Malynes, a única troca natural e equitativa era aquela ao par da casa da moeda, onça por onça, ou seja, dos metais preciosos, menos uma comissão fixa para o cambista, que deveria ser um funcionário do Estado. As flutuações da taxa oferecida pelo cambista privado representavam, em sua opinião, um ganho fraudulento, e esse ganho, além disso, vinha geralmente acompanhado do pagamento e recebimento de juros, uma transação igualmente imoral. Ora, independentemente das tolices que Gresham pudesse ter dito aos menos iniciados, assim como as artimanhas que ele pudesse ter tentado para monopolizar a bolsa, ele tinha plena consciência de que tanto as trocas quanto o recebimento de juros eram incidentes necessários e normais do comércio.

“Os mercadores não podem ficar sem câmbio e re-câmbio, assim como os navios no mar não podem ficar sem água”, dissera o pai de Gresham, Richard Gresham, a Thomas Cromwell, quando foi proposto, em 1538, restringir as trocas. E, de maneira semelhante, Thomas Gresham exorta Cecil, em 1560, a nunca consentir com a proibição da bolsa [pelo governo, para impedir a livre negociação de metais preciosos], pois isso faria com que todo o ouro e a prata finos fossem transportados para fora do reino... Em suma, as trocas seriam toleradas enquanto permanecessem a taxas favoráveis ​​à Inglaterra, como acontecia naquele momento, devido inteiramente, segundo Sir Thomas Gresham, aos seus próprios esforços [e se nós ainda estamos sobre a Terra é por méritos dele e não da lei da gravidade].

Estamos agora preparados para considerar o efeito das façanhas de Gresham em relação aos Mercadores Aventureiros à luz da ciência, desprovidas da aura romântica com que ele as envolveu. Gresham aconselhou o governo a contrair um empréstimo forçado junto aos Aventureiros. O governo devia grandes somas a banqueiros em Antuérpia sob a forma de empréstimos de curto prazo, que tinham de ser renovados anualmente ou com maior frequência. Como as fontes de crédito falhavam, os banqueiros não conseguiam ou não queriam renovar os empréstimos, e o governo foi obrigado a procurar outros credores para honrar os seus compromissos. As vítimas mais convenientes de um empréstimo forçado eram os Mercadores Aventureiros. Duas vezes por ano, eles faziam um grande carregamento para Antuérpia, que às vezes era avaliado em até £ 300.000, [300 mil libras]. Enquanto estavam de posse de todo esse dinheiro, o que seria mais natural do que serem solicitados [obrigados] a emprestar um décimo dele ao seu soberano em dificuldades?

E, como nenhuma pressão forte poderia ser exercida sobre eles quando estavam em solo estrangeiro, poderia ser considerado conveniente apreender o carregamento antes de sua partida e exigir uma promessa antes de liberá-lo. Medidas coercitivas desse tipo, no entanto, são registradas apenas em duas ocasiões — em 1553 e novamente em 1559 —, enquanto empréstimos obtidos por negociação e pressão moral eram quase uma característica regular das finanças governamentais no período entre 1553 e 1661, e os Mercadores de Lã também foram requisitados, assim como os Aventureiros, embora por quantias menores. Mas o artifício especial de Gresham consistia na conexão do empréstimo com as trocas.

O dinheiro emprestado seria usado para pagar dívidas externas; e, quanto maior a taxa de câmbio de Londres em Antuérpia, menos o governo teria que pagar lá [a moeda inglesa valia mais em Antuérpia do que em Londres]. A chegada da frota de tecidos dos Aventureiros elevou a taxa de câmbio, causando uma demanda por letras de câmbio da Inglaterra para pagar pelos tecidos. Gresham propôs que o governo se beneficiasse com a alta da taxa de câmbio ao pagar sua dívida. A Rainha deveria dizer aos Aventureiros: “Vocês prometeram me emprestar 30.000 libras aqui em Londres. Mas, em breve, vocês serão obrigados a transferir mais de 30.000 libras de Antuérpia para Londres a, digamos, 25 xelins flamengos por libra (uma taxa de câmbio muito alta na época). Em vez de desperdiçar o dinheiro com a alta da taxa de câmbio, vocês o usarão para pagar meus credores. Para cada 25 xelins flamengos que vocês me pagarem em Antuérpia, eu lhes devo 20 xelins em Londres”.

Além da disposição dos mercadores em emprestar o dinheiro, a justiça desta oferta depende de dois pontos. Pressupõe, primeiro, que os mercadores teriam sido obrigados, a menos que pagassem a dívida do governo, a enviar seu dinheiro para a Inglaterra; e, segundo, que a alta taxa de câmbio prevista seria alcançada. Mas nenhuma dessas suposições era verdadeira. Cabia aos mercadores adaptar suas transações a uma elevação momentânea da taxa de câmbio, para não sofrerem prejuízos com ela. Além disso, Gresham e a Rainha invariavelmente tentavam basear o acordo em uma taxa de câmbio muito mais alta do que se poderia razoavelmente esperar, ou do que, de fato, foi posteriormente constatada.

Apenas uma vez, porém, que eu saiba — por ocasião da primeira apreensão forçada — eles conseguiram que a taxa de câmbio prevista fosse aceita como base do acordo. Em todas as outras ocasiões, os Mercadores Aventureiros, embora tenham concordado com o empréstimo, precisaram insistir em uma taxa de câmbio realmente vigente. A façanha de Gresham, portanto, quando reduzida às suas reais proporções, resume-se a isto: numa época em que o crédito internacional estava em crise, ele garantiu, por meio de forte pressão, uma série de empréstimos forçados de fontes nacionais, e o primeiro deles foi obtido à força, em condições extremamente desfavoráveis.

Mas podemos fazer as perguntas simples: será que isso realmente restaurou o crédito da Rainha? E qual foi o efeito dessa política sobre o comércio? O último dos empréstimos concedidos pelos Aventureiros e pelos Mercadores de Lã foi feito em agosto de 1561, no valor de £ 30.000. Os Aventureiros fizeram o adiantamento com a maior relutância, salientando que £ 10.000 do último empréstimo ainda estavam pendentes. 

Mas, quando chegou o outono seguinte, todo o empréstimo de 1561 ainda permanecia em aberto. Agora, segundo Gresham, há dúvidas sobre o crédito da Rainha. Os recursos do mercado internacional também estavam esgotados. A grande firma Fugger respondeu a uma solicitação de Gresham de que teria sido melhor investir seu dinheiro. “Esses homens do dinheiro”, disse Sir Thomas, “têm medo de negociar mais com a Rainha do que com o resto do mundo em guerra.” No outono seguinte, ficamos sabendo que os Fugger suspenderam temporariamente os pagamentos e que outra grande empresa está pagando 10 xelins por libra. Foi nesses anos, de 1561 a 1563, que o crédito da Rainha atingiu seu ponto mais baixo, obrigando-a a recorrer ao seu próprio capital. Terras da Coroa foram vendidas no valor de £ 170.000.

Os empréstimos forçados de Gresham podem ter, em tese, evitado a falência. Certamente não restauraram o crédito da Rainha; pelo contrário, secaram sua última fonte restante. Se perguntarmos quais foram as consequências da política financeira de Gresham para o comércio exterior inglês, nos deparamos... a enumerar brevemente algumas delas. A primeira é a suspensão do comércio hanseático. Gresham cogitou sua exclusão completa e desencadeou ações que, no fim, produziram esse resultado. A segunda consequência foi a limitação do número de membros da Companhia dos Mercadores Aventureiros. O efeito combinado dessas duas consequências foi transformar a parte central do comércio exterior inglês em uma via muito estreita para facilitar a manipulação governamental. Mas uma terceira consequência, menos óbvia, é talvez ainda mais importante. Ao interferir nas trocas cambiais, seja por suspensão temporária ou por manipulação violenta, Gresham estava, inconscientemente, freando, desastrosamente, a vida e o crescimento de uma nova agência, da qual dependia toda a expansão futura da indústria e do comércio: o setor bancário e o crédito internacional.

 


A MAIOR DIFERENÇA ENTRE O BOLSONARISMO E O LULOPETISMO É QUE ESTE ACREDITA QUE PODE COMPRAR TUDO, A COMEÇAR PELA HONRA, E AQUELE, QUE PODE VENDER TUDO, A COMEÇAR PELA HONRA.

OS QUATRO MAIS VOTADOS DO PRIMEIRO TURNO DESSAS ELEIÇÕES SÃO A MELHOR PROVA QUE O CASO BRASILEIRO É IRREVERSÍVEL E TERMINAL.

UM JOVEM CHEIO DE SEGREDOS CABELUDOS, UM VELHO COM INCONTINÊNCIA VERBAL, UM SENHOR LOTADO DE PSIQUIATRIA E UM JOVEM PRECISANDO, URGENTEMENTE, DE TRATAMENTO. FOI O QUE SOBROU.

AINDA RESTA UMA ESPERANÇA PARA OS QUE PERDERAM: AS DECISÕES INJUSTIFICÁVEIS DO JUDICIÁRIO BRASILEIRO.

TUDO O QUE CRIAMOS EM 1988 PARA EXPANDIR E GARANTIR A DEMOCRACIA E O ESTADO DE DIREITO ESTÃO DESTRUINDO INAPELAVELMENTE A DEMOCRACIA E O ESTADO DE DIREITO.

DE QUE ADIANTA ESTADO DE DIREITO SE A JUSTIÇA É TORTA?

O 3º E DECISIVO TURNO DAS ELEIÇÕES VAI ACONTECER NO INTERIOR DE UM PRÉDIO DO JUDICIÁRIO; PROIBIDA A PRESENÇA DE ELEITORES.

A PRESENÇA DA JUSTIÇA ELEITORAL TORNA QUALQUER ELEIÇÃO EM ÁREA DE FACÇÃO CONTROLADA PELO CRIME ORGANIZADO, NO MÍNIMO, MAIS COERENTE QUE A OFICIAL. 

O BRASILEIRO FOI DORMIR EM BERÇO ESPLÊNDIDO, MAS VAI ACORDAR NA TERRA BATIDA.

OS BRASILEIROS ESTÃO COMO ALTO-FALANTE DE AEROPORTO: SÓ CHAMANDO O PRÓXIMO VOO.

UM PAÍS DESESPERADO POR MÃO DE OBRA ESPECIALIZADA CONTABILIZA MAIS DE UM MILHÃO DE ELEITORES NO EXTERIOR. NÃO HÁ MELHOR INDÍCIO DA GRAVÍSSIMA CRISE EM QUE ESTAMOS MERGULHADOS.

GAROTINHO VAI DESISTIR DE APELAR E AJUDAR A ELEGER O PRÓXIMO GOVERNADOR DO RIO DE JANEIRO: NÃO É MARAVILHOSO TER ALGUÉM NO PODER LHE DEVENDO UM FAVOR TÃO GRANDE?

O POVO BRASILEIRO NÃO ENGOLE SAPO! ELE É O SAPO COZINHANDO EM FOGO LENTO NUMA PANELA, E JÁ QUASE PRONTO PARA O CONSUMO.

NO BRASIL DO LULOPETISMO A REGRA É UMA SÓ. GASTE TUDO, QUE O MUNDO ESTÁ PARA ACABAR; AFINAL, AQUELE JÁ TEM MAIS DE OITENTA ANOS.

QUE DECADÊNCIA! OS JOVENS QUE NOS ANOS 70 ESTAVAM CANTANDO: “NÃO CONFIE EM NINGUÉM COM MAIS DE 30 ANOS”; HOJE PÕE TODAS AS SUAS ESPERANÇAS NUM CARA COM MAIS DE 80, QUE NÃO DIZ, NEM FAZ, COISA COM COISA. ENVELHECERAM PIOR QUE OS VELHOS A QUEM CRITICAVAM NA JUVENTUDE. 

O NÚMERO DE FLÁVIO É 22. VAI FALTAR LAGOA PARA TANTO "PATO".

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 42

O deserto das almas

É pouco provável que os jornais noticiassem a presença de gente infiltrada na coluna, com disposição e meios para matar Moreira César, sem que ele, na Bahia, não o soubesse. Ao contrário, esses boatos também alarmaram outros oficiais, seus amigos, que, certamente, mantinham Moreira César atualizado.

 Ele já percebera a obediência forçada de alguns com quem tinha de trabalhar, e que seriam, mais tarde, os primeiros a linchar a sua memória. Ele não era tolo. Sua carreira fulgurante deixava isso claro, mas ele também sabia que era somente uma peça no perigoso xadrez que se jogava à sua volta, cuja decisão final passava ao largo de suas considerações. Eram as regras do jogo e ele devia se submeter. Mas até que ponto se submeteria para salvar a sua própria vida?

Ele também sabia que o maior perigo que lhe espreitava não vinha de Canudos.

Mas ele não ficou passivo e aproveitou o tempo que tinha para exercer pressão contrária: “o risco que corre o pau, corre o machado”, sempre buscando atrair oficiais resistentes, ou somente para seguir a sabedoria que diz: “Mantenha seus amigos por perto, e seus inimigos mais perto ainda”, mas em si mesmo já estava definitivamente acertado: aconteça o que acontecer, ele faria a coisa certa, e não mudaria as suas decisões livremente tomadas e pesadas, por temor do que pudesse lhe acontecer.

Em certa ocasião, às vésperas do ataque a Canudos, quando discutia com seu estado-maior quais seriam as melhores opções, ele vira-se para Rafael Augusto e pergunta-lhe de supetão.    

— O que é que você acha que devemos fazer, major?

Ele responde:

— Eu alteraria a ordem de marcha para garantir um avanço mais cauteloso; montaria um novo acampamento em um lugar seguro. Creio que Angico poderia ser esse lugar. E me fortificaria aí, para ver se as condições são propícias. Dividiria a coluna em duas, ficando uma a descansar pelas próximas 24 horas, enquanto a outra testaria as defesas de Canudos. Se a coluna enviada regressasse com boas novas, efetuaria um longo e pesado bombardeio sobre Canudos e investiria com a coluna descansada, ficando a outra na reserva para alguma emergência. Mas, se o reconhecimento mostrasse que as chances de vitória eram duvidosas, me retiraria para Monte Santo e solicitaria reforço.

Essa observação, tirada do relatório de Rafael Augusto, constante em uma nota de O rei dos jagunços, de Benício, merece alguns reparos:

a) Dividir a coluna em duas de 600 homens e só atacar com uma era repetir Febrônio de Brito, que os canudenses já haviam encarado.

b) Isso enfraqueceria pela metade o poder de choque devastador do conjunto. Se você pode garantir uma vantagem de dois para um, por que iria para o um a um?

c) Todos esses movimentos cautelosos, obviamente, só teriam um único resultado: dar tempo aos canudenses para preparar suas defesas, conhecer os pontos fracos da tropa, criar novas dificuldades, etc. Ou Rafael Augusto era muito incompetente, ou estava ligado a grupos interessados em fazer Canudos mais perigosa do que era… Ou os dois!

d) Isso faria a campanha se arrastar, gastando mais tempo, recursos e vidas, sem nenhuma vantagem, justo o que Moreira César não queria, em função de acontecimentos políticos previstos para o Rio de Janeiro (11).

Moreira César olhou para ele, desapontado; deu um sorriso murcho e passou para outro assunto, tendo a certeza de que não podia contar com ele. Augusto, no seu relato, jurou que o coronel fez um gesto explícito de aprovação, mas que, depois, fez justo o contrário do que ele recomendara — o que é estranho, pois no trecho do ‘ataque de epilepsia’ ele deu a entender que tinha o coronel em suas mãos! Ou a percepção de Rafael Augusto o enganou, ou é mais uma tentativa fantasiosa de mostrar o coronel como desequilibrado.

É curiosa a semelhança entre a proposta de Rafael Augusto e a recomendação feita a Moreira César pela trinca florianista Vitorino, Argolo e Costallat, conforme mostrado na edição de 10 de março de 1897 do jornal Gazeta de Notícias, página 2, no artigo chamado EXPEDIÇÃO MOREIRA CÉSAR, quando a expedição já havia malogrado. 

Neste artigo, parte-se do pressuposto de que em Canudos havia um grande exército bem treinado e bem armado.

“Várias conferências houveram entre o ilustre morto e o governo, combinando-se não atacar Canudos, fazer guerrilhas, tomar todos os pontos de comunicação… entre os conselheiristas e seus auxiliares, estreitando o cerco até poder a força, com consciência, dar batalha com vantagem.

Para isso, o governo autorizou o coronel Moreira César a requisitar, quando entendesse, a força que julgasse necessária dos estados do Piauí, Pernambuco, Paraíba, Ceará, Alagoas e Sergipe, por isso mesmo que o mesmo coronel Moreira César lembrara ser conveniente não desfalcar os corpos de exército aqui estacionados, pois estava convencido de tramarem os monarquistas contra as instituições republicanas [nas cidades principais].

Assim prevenido, partiu para a Bahia… mas o que ali se deu não se sabe… ali chegado, todas as suas apreensões desvaneceram-se, ele já não acreditava no grande número de fanáticos [e que de fato não havia], e o que é mais, o seu maior receio era não encontrar em Canudos com quem bater-se.

O boato da retirada de Conselheiro foi transmitido em telegrama para os jornais daqui… ele [M. César] … telegrafara ao governo… dizendo: 'o que mais me aflige é a ideia de não encontrar mais em Canudos os inimigos da República'”

1º — Pelo visto, o conteúdo das conversas intermináveis com Argolo e Costallat, com o navio prestes a partir, era que ele ficasse circundando o arraial, como um pateta.

2º — É curioso como essa proposta repete o mesmo padrão observado no incidente a bordo do Itaipú. O objetivo é desmoralizá-lo e/ou mantê-lo longe.

3º — A resposta de Rafael Augusto mostra claramente que ele estava afinado com o alto-comando florianista do Rio de Janeiro.

4º — A proposta de ele solicitar tropas aos estados do Nordeste é ridícula, pois o tempo que ele gastaria fazendo a requisição, esperando as tropas se armarem, treinarem e serem remetidas faria dele objeto de piadas no país. 

5º — Isso tudo mostra que o objetivo da 3ª Expedição era tirá-lo do Rio de Janeiro e mantê-lo fora o máximo possível.

6º — Quanto ao fato de ele acreditar que o principal foco do ataque dos monarquistas seria as grandes cidades, sendo Canudos somente uma distração, ou foi uma lenda posta em sua boca após sua morte, ou foi uma forma de ele enganar os florianistas, fingindo estar 'caindo' nas suas enganações, enquanto ganhava tempo para se informar da verdade por outros canais.

Enquanto isso, em Canudos, os boatos também fervilhavam. Na Gazeta de 28 de fevereiro, saem algumas informações sobre o que lá ocorreu depois da expedição Febrônio de Brito: a) desertores treinam os jagunços; b) eles pegaram algumas Comblains jogadas no mato e cerca de oito caixas de munição da expedição Febrônio, mas também alguns animais dispararam e foram para dentro de Canudos; c) Conselheiro está sendo informado dos preparativos da próxima expedição, e que “corria em Canudos que a força legal estava sob o comando de Tamarindo; depois, soube Conselheiro não ser o comandante Tamarindo, mas um oficial conhecido como Corta-Pescoço.”

É óbvio que só poderia ser esse nome e não ‘corta-cabeças’, como muita gente, sem pensar, diz:

1º — Foi esse o método de execução utilizado na revolta Federalista, e não a decapitação.

2º — O termo ‘corta-cabeças’ choca mais, atrai mais curiosidade e vende mais, mas está fora da nossa realidade cultural e do que aconteceu em Canudos. Os dois jornais da época que li — um do Rio, outro de Florianópolis — dizem ‘corta-pescoço’.

3º — Isso também mostra que os conselheiristas não sabiam quem era Moreira César.

4º — O termo ‘Treme-terra’, tão caro a Oleone Fontes, nunca é citado em fonte original, nem faz parte da tradição nordestina. Sabemos que na Grande Guerra Platina os regimentos gaúchos punham-se apelidos para realçar sua combatividade, logo aplicá-lo a Moreira César é de uma imprecisão atroz, pois os gaúchos, inclusive o 12º B.I., o “Treme-terra”, só fizeram sua aparição em Canudos na 4ª Expedição.

Prudente de Morais estava próximo à janela, numa cadeira de balanço, absorto em contemplar uma jabuticaba fora de época. Era mirrada, mas algo chamou a sua atenção sobre ela. Após observá-lo um pouco, Adelaide chegou de mansinho, por trás da cadeira e, quase sussurrando, diz:

— Devo começar a me preocupar?

— O quê?

— Meu marido está falando com uma jabuticaba; não prefere conversar comigo?

Ele sorriu levemente. Fez um gesto para ela sentar-se na cama enquanto ele se virava para ela.

— A forma da jabuticaba é esférica, e a esfera é considerada por alguns filósofos como a forma geométrica perfeita; o seu começo e o seu fim são iguais e absolutamente indiscerníveis. Ela é o símbolo da harmonia, da equidistância que todo governante deve ter na aplicação da justiça e no equilíbrio de suas ações.

— Isso é belo, mas não sei se é prático. O que o levou a essa reflexão.

— Eu sou o presidente do Brasil, mas parece que não tenho me comportado à altura, em especial com os que estão mais próximos de mim e a quem devo tanto, além da minha família. O último telegrama que Bernardino me enviou fez-me refletir se tenho sido um bom presidente e um bom amigo, ou se, para exercer essa posição de poder e prestígio, tenho utilizado meus amigos como degraus. Ele não suporta mais a convivência com aquela gente e tem toda razão.

Tomando fôlego.

— Até onde posso pedir que ele se sacrifique por mim, além do que já se sacrificou, a fim de que eu não só recupere a minha saúde, mas também continue presidente, como se ele também não estivesse sacrificando a sua saúde, a sua família e os seus ouvidos, só para me manter nesse cargo, do qual ele extrai tão pouco prestígio, enquanto eu o usufruo plenamente. Não é justo. Deveria ser o oposto, já que tenho mais regalias; logo, a maior disposição para o sacrifício deveria ser minha, e não ficar aqui me recuperando à custa da saúde de meus amigos.

Ela percebeu logo o rumo que a conversa estava tomando. Ficou triste e preocupada, mas não sabia como contradizê-lo.

— Já encrenquei um amigo, a quem trouxe para o Rio para proteger a República e, de tabela, o meu mandato, e o abandonei. Agora ele está distante, enfrentando algo que ninguém consegue dizer exatamente o que é, em meio a tanto boato. Só Deus sabe os perigos que enfrenta, e, embora não exista ninguém mais preparado do que ele para esse tipo de situação, sinto que ao trazê-lo para o Rio, para proteger a integridade do meu governo, eu acabei expondo-o a isso…

Ela fez um gesto para que ele se calasse.

— Nunca diga isso. Você o trouxe para proteger a República, que você acredita ser o melhor sistema para esse país. Essa sempre foi a sua meta, e uma das coisas que o fazem admirável para mim e para os seus filhos. Quis o destino que o seu bem-estar naquele momento coincidisse com o bem-estar da República, mas foi só coincidência!

— Que seja, mas agora basta de fazer os outros se sacrificarem por mim. Está na hora de eu assumir aquilo pelo qual lutei, e que não posso deixar ser tirado de mim, assim fácil. Vamos para o Rio!

— Adianta eu dizer não?

Ele limitou-se a sorrir e disse:

— Bem que a minha mãe me disse que eu era um homem de sorte por casar com você. Disse ele, tentando animá-la.

— E a minha, para eu não me meter com advogados. Olha o que arrumei. Mas você tem certeza?

— Sim, pois até recebi ontem uma cartinha do Glicério. 

Ela, que ia abrir o guarda-roupas, estacou, arregalou os olhos e perguntou.

— O que foi que ele disse?

— Nada demais — respondeu ele, displicente — disse que está aborrecido com Vitorino e que está ansioso por minha volta. Até perguntou quando será.

Ela como que recebeu uma poderosa descarga elétrica. Arregalou os olhos e disse quase gritando:

— NÃO RESPONDA, QUE ISSO É UMA ARMADILHA! — disse quase histérica. Vamos para o Rio imediatamente, apresse-se, homem, que vou mandar o Francisco comprar nossas passagens no primeiro trem.

— Mas… 

— Vamos, não fique aí parado, homem, como um dois de paus… Ah, desculpe-me. Estou me deixando contaminar por todo esse clima de conspiração. Mas vamos, não percamos tempo.

— Segundo Bernardino, é importante, caso queiramos voltar ao Rio, não fazer alvoroço, não sermos vistos, diz ele, pelo fato de existirem unidades do Exército comandadas por oficiais que podem se prestar a uma ação mais radical, como deter-me no Arsenal.

— E agora?

— Soube por Bernardino que os que estarão de serviço hoje no Arsenal são legalistas. Hoje é o melhor dia. Mas eu tenho outro trunfo. Depois que tomarmos o barco em Magé, pedirei ao Francisco para esperar um tempo e mandar um telegrama ao Arsenal, anunciando a minha chegada. Não lhes dará tempo de preparar alguma surpresa.

E assim aconteceu. O trem de Teresópolis parou em Magé, ele pegou um navio no píer da Piedade e de lá partiu com destino ao Rio de Janeiro. Após esperar um tempo, Francisco telegrafou para o Arsenal de Guerra, anunciando a chegada do presidente.  

Foi uma surpresa no Arsenal de Guerra. Os soldados corriam para vestir o uniforme de gala e formar fileiras minimamente apresentáveis para o ilustre personagem e sua família. Dispensando os rituais, Prudente e Adelaide dirigiram-se, apressados, ao fiacre que um dos soldados fizera parar. Prudente abre a porta para Adelaide, enquanto diz:

— Rápido para o Palácio do Catete!

O cocheiro hesitou um pouco.

— Ah, o Palácio do Doutor Vitorino! Diz em voz alta.

— Mas é muita audácia! Diz Adelaide lá de dentro, elevando a voz.

Prudente entra fazendo sinal para ela com a mão para que baixasse o tom de voz.

— Shhh, já é Quaresma!

Na entrada do Catete, havia uma sentinela tão largada como o resto do prédio nessa época do ano, Quaresma, em que ninguém aparecia. Entediada pela falta de movimento, o cabo telegrafista pegou um agasalho e, após enrolá-lo, à guisa de travesseiro, estendeu-o sobre o braço de um pequeno sofá no corredor, e pôs-se a roncar como um bugio enamorado, curtindo a ressaca do dia anterior. Prudente o achou lá, todo babado, com as pernas abertas em compasso.

Prudente deu-lhe um sacolejo no seu braço: “Sentinela!”.

Como esta resistisse, dizendo coisas desconexas, aumentou o volume da voz e a força do sacolejo.

—SENTINELA!

Ele acordou e, se esforçando para abrir os olhos, viu a imagem borrada de um homem alto de barbas grisalhas. Veio-lhe de imediato um pensamento: “Conheço esse tipo de algum lugar!” Deu um pulo de onde estava e já batendo continência.

— Cabo Lira, sentinela, em que posso ajudar?

Prudente estava com pouca paciência.

— LEVE-ME AO MEU GABINETE, AGORA, ESTEJA ONDE ESTIVER!!! 

— Mas se nem o senhor sabe onde é, como é que eu vou saber?      

— Meu Deus! O DO PRESIDENTE! Rápido!

— Ah, sim… Mas, espere, ele não está aqui hoje… O senhor vai ter que passar outro dia?

O tom de voz mais elevado de Prudente chamou a atenção dos poucos funcionários presentes e deu início a um certo corre-corre no palácio. Alguém, que passava por perto, tocou no ombro do cabo, dizendo ao seu ouvido:

— Leve-o, logo!

— Esse também é presidente?

— Ele ééé o presidente, leva. Diz a pessoa, quase empurrando-o.

Prudente entra na sala, senta-se no birô, e escreve um breve bilhete, assina-o, sela-o com o sinete presidencial, e diz à sentinela:

— Entregue-me isso ao vice-presidente, quanto antes.

“Lá se foi o meu sossego!” Pensou o cabo.

Manuel Vitorino acabara de almoçar na residência presidencial do Palácio das Laranjeiras; acompanhava-o o seu secretário particular. Estava contente e relaxado, degustando um de seus indefectíveis charutos cubanos. Ofereceu-os ao secretário, que os recusou, e pôs-se a soltar generosas baforadas, pensando na sua penosa infância e em seu pobre pai, um humilde marceneiro português. Agora ele era presidente da república, muito mais do que o velho português imaginara. Pensou nisso e emocionou-se, mas logo afastou esses pensamentos depressivos, e como o rico da Bíblia dizia para si mesmo: “Tudo te vai bem.” Estava cheio de autoconfiança. “Nem precisei fazer muito esforço! A natureza o fez por mim!”

Nesse instante, um mordomo entra com o bilhete de Prudente, em uma bela bandeja de prata. Ele o toma admirado.

— Mas quem está brincando com o meu sinete presidencial? Ah, se eu pegar esse infeliz…

Quando abriu o bilhete e leu o escrito, e, principalmente, quem o assinara, seus olhos se arregalaram, a boca se abriu, e ele nem percebeu que o charuto caiu entre suas pernas.

— RÁPIDO, ME TRAGA O TELEFONE!

O mordomo saiu apressado.

— Senhor, o charuto no bilú. Diz o secretário, apontando preocupado.

Ele se dá conta e levanta num pulo.

— Meus documentos!

O secretário pega uma jarra de cristal na mesa, cheia de água.

— NÃO! Grita, Vitorino.

Chuáááá!

Nesse momento, Glicério entra apressado na sala, já dizendo: “Vocês já souberam da última?” … Todos param e se entreolham. Glicério rompe o silêncio:

— Eu ia perguntar se você tinha se mijado com a notícia, mas, pelo visto, choveu aqui dentro.

Eduardo Simões