quinta-feira, 14 de maio de 2026

 


TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 12

FEUDALISMO E ESCOLÁSTICA

A vida de São Tomás de Aquino transcorreu no auge da civilização feudal. Este termo sugere a ideia de um tipo específico de sociedade guerreira, ou seja, uma sociedade dominada por uma camada guerreira organizada, segundo o princípio da vassalagem, em uma hierarquia de senhores feudais e cavaleiros. Do ponto de vista dessa hierarquia de guerreiros, a antiga distinção entre homens livres e homens não livres havia perdido muito de seu significado. O que importava não era se um homem era livre ou não, mas se era um cavaleiro ou não. Mesmo o Imperador do Sacro Império Romano-Germânico — para utilizar a expressão oficial — que era teoricamente reconhecido como o senhor feudal de toda a Cristandade, era, antes de tudo, um cavaleiro e se considerava tal; e até mesmo o homem não livre se tornava um cavaleiro assim que conseguisse um cavalo e armas e aprendesse a usá-los — o que, a princípio, era uma tarefa muito simples, embora na época de São Tomás tivesse se tornado uma ocupação altamente especializada.

Essa classe guerreira desfrutava de poder e prestígio inigualáveis ​​e, portanto, imprimiu a marca de seu próprio padrão cultural na civilização da época feudal. A base econômica dessa pirâmide social consistia nos camponeses dependentes e nos artesãos senhoriais, cujo trabalho sustentava os guerreiros. Assim, parece que estamos diante do que à primeira vista se assemelha a uma unidade estrutural, no sentido que a expressão “pirâmide social” de fato pretende transmitir. Mas essa imagem é bastante irrealista. As sociedades, com a possível exceção de tribos primitivas e do socialismo pleno, nunca são unidades estruturais, e metade dos problemas que apresentam decorre do fato de não o serem. A sociedade da época feudal não pode ser descrita em termos de cavaleiros e camponeses, assim como a sociedade da época capitalista não pode ser descrita em termos de capitalistas e proletários.

A indústria, o comércio e as finanças romanas não foram destruídos em todos os lugares, e mesmo onde foram destruídos ou onde nunca existiram, e, com eles, classes de caráter burguês, se desenvolveram ou se reergueram antes da época de São Tomás. Em muitos lugares, essas classes haviam superado a estrutura da organização feudal e, auxiliadas pelo fato de que uma cidade bem fortificada era normalmente inexpugnável às artes da guerra dos cavaleiros, desafiaram com sucesso o domínio dos senhores feudais — o exemplo mais notório sendo a resistência vitoriosa das cidades da Lombardia. Como realidade histórica, portanto, o feudalismo significa a simbiose de dois sistemas sociais essencialmente diferentes e em grande parte, mas não totalmente, antagônicos.

Mas havia outro fator de origem e caráter não feudal que a classe guerreira não conseguiu absorver ou conquistar: a Igreja Católica Romana. Não podemos entrar em uma discussão sobre as relações extremamente complexas da Igreja medieval com os poderes feudais. O ponto essencial a compreender é que a Igreja não era simplesmente um órgão da sociedade feudal, mas um organismo distinto dessa sociedade, que sempre se manteve como uma força por direito próprio.

Por mais estreitamente aliada ou dependente dos reis e senhores feudais que por vezes esteja, por mais perto que tenha chegado da derrota e de ser subjugada ao serviço da classe guerreira, ela nunca renunciou à sua própria autoridade e nunca se tornou instrumento dessa ou de qualquer outra classe. Visto que a Igreja sempre foi capaz não só de se afirmar, mas também de travar guerras vitoriosas contra os poderes feudais, esse fato deveria ser óbvio demais para exigir uma declaração explícita, não fosse o fato de uma historiografia, inspirada por uma versão popularesca da sociologia marxista, criar a impressão de que o pensamento medieval era uma mera ideologia de uma classe guerreira latifundiária, verbalizada por seus capelães. Essa impressão seria errônea não apenas do ponto de vista daqueles que se recusam a aceitar a sociologia das ideias marxista. Mas também do ponto de vista do próprio Marx, pois mesmo que optássemos por interpretar o sistema de pensamento católico como uma ideologia, ele ainda permaneceria a ideologia do clero, não fundida com a ideologia da classe guerreira.

É importante ter isso em mente devido ao monopólio praticamente completo do saber que a Igreja Católica desfrutou até o Renascimento. Esse monopólio devia-se principalmente à autoridade espiritual da Igreja. Mas foi grandemente reforçado pelas condições daquela época, em que não havia espaço nem segurança para estudiosos profissionais, exceto dentro de um convento. Consequentemente, quase todos os “intelectuais” daquele tempo eram monges ou frades. Consideremos brevemente algumas implicações disso.

Todos aqueles monges e frades falavam o mesmo latim não clássico; assistiam à mesma missa onde quer que fossem; recebiam uma educação idêntica em todos os países; professavam o mesmo sistema de crenças fundamentais; e todos reconheciam a suprema autoridade do Papa, que era essencialmente internacional: seu país era a Cristandade, seu Estado era a Igreja. Mas não era só isso. Sua influência internacionalizante foi fortalecida pelo fato de a própria sociedade feudal ser internacional. Não apenas a autoridade do Papa, mas também a do Imperador, era internacional em princípio e, em diferentes graus, na prática.

O antigo Império Romano e o de Carlos Magno não eram meras reminiscências. As pessoas estavam familiarizadas com a ideia de um superestado temporal, bem como de um superestado espiritual. As divisões nacionais não significavam para elas o que passaram a significar durante o século XVI; nada em toda a gama de ideias políticas de Dante é tão marcante quanto a completa ausência da perspectiva nacionalista. O resultado foi o surgimento de uma civilização essencialmente internacional e de uma república internacional de intelectuais que era apenas uma realidade viva. São Tomás era italiano e João Duns Scotus era escocês, mas ambos lecionaram em Paris e Colônia sem enfrentar as dificuldades que teriam enfrentado na era dos aviões.

De fato, tanto em princípio quanto na prática, praticamente todos que desejassem podiam ingressar em uma ordem monástica e também se juntar às fileiras do clero secular. Mas a ascensão dentro da Igreja era aberta a todos apenas em princípio, já que as pretensões dos membros de famílias da classe guerreira absorviam, na realidade, a maior parte dos bispados e abadias. Contudo, o homem sem conexões nunca foi totalmente excluído das mais altas dignidades, nem mesmo das mais elevadas; e ele não era impedido de se tornar uma figura-chave na formulação de ideias e políticas. O clero regular (os monges) e os frades forneciam, por assim dizer, o quadro geral da Igreja. Nos mosteiros, homens de todas as classes se encontravam em igualdade de condições, e o ambiente intelectual era frequentemente carregado de radicalismo social e político.

Mas como se pode atribuir uma atitude mental radical — e, portanto, também crítica — a um grupo social cujos membros eram obrigados a obedecer aos ditames de uma autoridade suprema e absoluta? Esse aparente paradoxo é facilmente resolvido. As vidas e a fé dos monges e frades estavam, de fato, sujeitas a uma autoridade que era, em teoria, absoluta, e que proferia verdades imutáveis. Mas, além da esfera da disciplina e da crença religiosa fundamental — além das questões de fé —, essa autoridade não se propunha a dirigir seus pensamentos, nem a prescrever resultados. Em particular, não tinha, em geral, qualquer motivo para fazê-lo no âmbito do pensamento político e econômico, logo na ordem temporal de coisas… As ordens monásticas eram instrumentos importantes da autoridade papal, mas isso não as impedia de considerar as instituições temporais como obras humanas historicamente mutáveis.

Longe de mim desejar menosprezar a importância dos ideais e preceitos cristãos em si. Mas não precisamos invocá-los para perceber que a subordinação monástica à autoridade em matéria de fé e disciplina era compatível com ampla liberdade de opinião em todos os outros assuntos. Devemos ir ainda mais longe. A posição sociológica dos monges — fora, por assim dizer, da estrutura de classes — não apenas lhes conferia uma atitude de crítica distanciada em relação a muitas coisas; havia também um poder por trás deles que podia proteger essa liberdade. No que diz respeito ao tratamento de problemas políticos e econômicos, o intelectual clerical daquela época não estava mais, mas menos exposto à interferência da autoridade política e de “grupos de pressão” do que o intelectual laico de épocas posteriores. A acusação de que a aceitação inquestionável da autoridade eclesiástica invalidava o raciocínio desses estudiosos monásticos de um ponto de vista científico, mostra-se infundada.

Contudo, ainda precisamos considerar uma forma particular dessa acusação. A natureza analítica de seu raciocínio tem sido frequentemente negada sob o argumento de que seus argumentos só poderiam ser argumentos de autoridade: sujeitos à autoridade do Papa, como estavam, não lhes restava outro método para estabelecer ou refutar uma proposição senão invocar autoridades literárias reconhecidas por essa autoridade suprema. Mas isso não é verdade. A questão pode ser esclarecida com uma referência a São Tomás de Aquino. Ele ensinava, de fato, que a autoridade era de importância decisiva em assuntos relacionados à Revelação — ou seja, a autoridade daqueles a quem as revelações haviam sido feitas —, mas também ensinava que em todo o resto (e isso inclui, é claro, todo o campo da economia) qualquer argumento baseado em autoridade era “extremamente fraco” (Summa I, quaest. I, art. 8, ad secundum).

Nas escolas fundadas a partir do século VII por senhores temporais e espirituais, eram os clérigos que ensinavam os fragmentos da ciência greco-romana, bem como teologia e doutrinas filosóficas próprias — grandes mestres como Abelardo atraíam alunos e, ocasionalmente, causavam muitos problemas às autoridades controladoras. Em alguns casos, a partir dessas escolas, desenvolveram-se, nos séculos XII e XIII, as “universidades” autônomas — associações incorporadas de professores, como em Paris, ou de estudantes, como em Bolonha, que logo se agruparam em “faculdades” de teologia, filosofia, direito e medicina.

Inicialmente, príncipes e bispos não tinham nada a ver com elas, além do implícito na concessão de privilégios corporativos e na supervisão religiosa. Consequentemente, as universidades gozavam de grande liberdade e independência; davam mais espaço ao professor individual do que as universidades mecanizadas de hoje; eram um ponto de encontro de todas as classes sociais; e essencialmente internacionais. Mas, a partir do século XIV, as fundações governamentais tornaram-se cada vez mais frequentes. Os governos também assumiram o controle de instituições anteriormente independentes. Eventualmente, isso mudou tudo. A influência governamental não só permitiu a afirmação de objetivos puramente utilitários, mas também a restrição da liberdade, particularmente em questões de doutrina política. Mas, precisamente por causa do poder que estava por trás dos professores do clero, as universidades mantiveram-se relativamente bem até a cisão religiosa do século XVI.


 

 TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 11

A CONTRIBUIÇÃO DOS ROMANOS

Consideremos agora a contribuição dos romanos. A doutrina de que a necessidade prática — e não o fascínio da aventura intelectual — é o principal motor do empreendimento científico pode ser posta à prova no caso da Roma antiga. Mesmo nos primórdios, quando Roma era essencialmente uma comunidade de camponeses, havia problemas econômicos de suma importância que produziam violentas lutas de classes. Na época da Primeira Guerra Púnica, importantes interesses comerciais já haviam se desenvolvido. No final da República, o comércio, o dinheiro e as finanças, a administração colonial, a situação precária da agricultura italiana, o abastecimento alimentar da capital, o crescimento dos latifúndios, o trabalho escravo e assim por diante, tudo isso representava problemas que, em uma estrutura política artificial criada pela conquista militar e todas as consequências da guerra incessante, poderiam ter empregado uma legião de economistas.

Mesmo auge das realizações culturais, quando muitas dessas dificuldades já chamavam a atenção, quando a paz, a tranquilidade e a prosperidade reinaram, temporariamente, no vasto reino, seus governantes capazes e a galáxia de generais e administradores brilhantes ao seu redor poderiam ter se beneficiado de um conselho de especialistas. No entanto, não havia nada disso — nada além de ocasionais lamentos sobre a balança comercial desfavorável do império ou sobre a perda da Itália causada pelos latifúndios.

Esta frase — os latifúndios perderam a Itália — foi de Plínio, o Velho (23-79). O próprio fato de ele não ter visto nada além do óbvio, e em particular de não ter percebido que os latifúndios eram tanto consequência quanto causa desse declínio, demonstra por si só que tipo de economia era considerada adequada por um romano muito capaz e altamente civilizado.

A GRANDE LACUNA

O Império Oriental sobreviveu ao Ocidental por mais mil anos, sustentado pela burocracia mais interessante e bem-sucedida que o mundo já viu. Muitos dos homens que moldaram as políticas nos gabinetes dos imperadores bizantinos pertenciam à nata intelectual de sua época. Eles lidavam com uma série de problemas legais, monetários, comerciais, agrários e fiscais. Não podemos deixar de pensar que eles devem ter filosofado sobre esses assuntos. Se o fizeram, porém, os resultados se perderam. Nenhum raciocínio que precisasse ser mencionado aqui foi preservado. Nos estados germânicos do Ocidente, problemas semelhantes surgiram mesmo antes da época de Carlos Magno, e sabemos razoavelmente bem, por meio de fontes literárias e documentos, como eles lidaram com eles.

Mas o vasto império de Carlos Magno apresentava problemas de administração interna e relações econômicas internacionais que eram desconhecidos para qualquer governante germânico anterior. A sabedoria prática, no entanto, não inferior à de qualquer outra época, é tudo o que suas medidas refletem. Os historiadores e filósofos que adornavam sua corte abordaram questões econômicas incidentalmente, quando o fizeram. No que diz respeito ao nosso assunto, podemos avançar com segurança mais de 500 anos até a época de São Tomás de Aquino (1225–74), cuja Suma Teológica é na história do pensamento o que a torre sudoeste da Catedral de Chartres é na história da arquitetura.

A torre sudoeste da Catedral de Chartres (conhecida como “Agulha Velha” ou Clocher Vieux) é considerada uma obra-prima românica de 105 metros que sobreviveu ao incêndio de 1194. A torre proporciona um contraste estrutural com a torre gótica noroeste posterior. Construída por volta de 1140–1160, serve como pedra angular da fachada da catedral, estabelecendo a transição do local da arquitetura românica para a gótica e servindo como um importante e duradouro marco para os peregrinos.

By Jörg Bittner Unna - Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=35816015
A torre sudoeste é a da direita e representa uma transição do estilo românico para o gótico. Os “ilustrados” revolucionários franceses de 1789 cogitaram dinamitá-la, sendo dissuadidos pelo arquiteto responsável pela dinamitação, que chamou a atenção sobre a enorme quantidade de entulho que ia gerar. Só por isso, esse Patrimônio Mundial da Humanidade foi salvo do “progresso” e das pessoas mais "esclarecidas".


quarta-feira, 13 de maio de 2026

 

O CORONEL MOREIRA CÉSAR E 

CANUDOS DEVEM MORRER

A PROFECIA DO BARÃO DE COTEGIPE — 13


O senhor governador ou um senhor governador?

        Nas páginas 296 e 297 de Os Sertões, Euclides da Cunha diz: “Em 1893, já coronel, porque galgara velozmente três postos em dois anos… o Marechal Floriano Peixoto destacou-o armado de poderes discricionários, para Santa Catarina, como uma barreira à conflagração que se reanimara”.

       O primeiro a observar é que conseguir três patentes no Exército em somente dois anos, sem fortuna ou ‘pistolão’, é indício de uma organização completamente desmoralizada ou de uma capacidade pessoal acima da média. Moreira César era um exemplo de dedicação profissional.

      O segunda é que Euclides da Cunha adultera os fatos. O único estado do Brasil que Floriano não controlou e cujo governador agia discricionariamente foi o Rio Grande do Sul de Júlio de Castilhos. Por que ele iria enviar um oficial, com uma ascensão profissional meteórica e popularidade crescente, com poderes discricionários em um estado estratégico, no meio de uma revolta contra a sua autoridade e vizinho ao Rio Grande do Sul, já com um governador já autônomo demais?

        Na nomeação assinada por Floriano Peixoto em 19 de abril de 94, ele faz uma longa introdução sobre a situação calamitosa de Santa Catarina, para, no parágrafo final, dizer:

[O vice-presidente da República] “Resolve nomear o coronel do Exército Antônio Moreira César para exercer as funções de governador provisório do Estado de Santa Catarina” (23).

Seguem local, data e assinatura e... Nada mais. É notável que Floriano, embora prolixo em descrever as dificuldades do estado, não destaque nenhuma qualidade ou recomendação pessoal ao seu enviado, para facilitar a sua atuação. 

     A afirmação de Euclides é negada também no jornal desterrense Republica, de 12 de julho de 1894, numa coluna chamada sintomaticamente ORDENS DO RIO: “O Ministério da Marinha, em 11 de junho último, declarou à capitania do porto deste estado que deve mandar recolher presos os remadores que serviram com os revoltosos e já se apresentaram…”

        Logo, ele era acompanhado de perto e prestava contas ao Rio de Janeiro em casos que envolviam a segurança e o combate aos revolucionários. 

        O general Epaminondas Ferraz encontrou nos arquivos de Moreira César vários documentos, em geral telegramas que ele recebeu ou enviou a Floriano, que mostram que o controle do Rio sobre sua administração era minucioso:  “Nº 175 — … — Do Palácio do Desterro — Marechal Floriano Peixoto — Presidente da República — Alfândega tem poucos empregados em vista demissões. Devo apresentar proposta? Coronel César” (24).

        O telegrama seguinte mostra o quanto a declaração de Cunha é leviana: “Nº 186… Lugar procurador seccional vago e sendo urgente nomeação proponho o bacharel… Saúdo-vos Coronel César” (p 24).

No alto do telegrama, ele escreveu a lápis: “Dr. H [Hercílio] Luz o que diz?” A resposta de Hercílio, também escrita a lápis, diz: “Não conheço o bacharel indicado. O candidato combinado… é o bacharel… cunhado do… O Dr…. tem pedido (ilegível) neste sentido (idem).”

      Ele solicita a Floriano e a Hercílio Luz, que naquele momento era somente o candidato da situação ao governo do Estado, autorização para nomear um funcionário, e isso lhe é negado, em função de compromissos políticos assumidos por Luz. Onde está o poder discricionário?

        Nas eleições em Santa Catarina, que ele convoca, organiza e dá posse aos vencedores, também consulta a Floriano: “Nº 105… Estado em condições proceder eleições. Peço vossa opinião. Preciso avisar interior…"

     Pelo teor dos telegramas, pode-se pensar que Moreira César não passava de um “pau-mandado” nas mãos de Floriano, mas isso também é errado, pois ele era movido por valores éticos, para os quais não fazia concessões. Por isso, embora tenha cedido às injunções políticas na questão do procurador acima, no caso seguinte ele encarou dois figurões.

        O ministro da Indústria, Viação e Obras Públicas, o general de brigada Bibiano Costalatt, colaborador próximo de Floriano, mandou-lhe um pedido (ordem?) para reintegrar um funcionário dos telégrafos. Moreira César respondeu ao secretário de Costalatt: “Nº 144… Major Dr. Porto Carrero… Causou má impressão reintegração Dr.[nome] lugar chefe distrito telegráfico. Com esse ato será de justiça voltarem todos os outros que saíram do telégrafo. A manterem o ato será conveniente que não venha para este estado [meu destaque] (p. 25).”

        Ele está se opondo a uma decisão política e imoral de um general próximo de Floriano. O telegrama deve ter causado um reboliço no Rio, pois o telegrama seguinte será dirigido ao próprio Floriano, que, aparentemente, quis saber a razão da atitude de Moreira César.

Ele respondeu: “Nº 259… Dr [nome] gozou passagens bordo esquadra revolucionáriaPediu e obteve licença governo revolucionário, foi promovido a major, cumprimentou o governo provisório em sua instalação, pediu dispensa major dizendo desejar servir como simples cidadão [para o caso de uma reviravolta na guerra], felicitou por telegrama ministro governo revolucionário. Em melhores condições que ele estão todos empregados telégrafos que foram demitidos visto que imitaram o chefe... Fui seu companheiro Escola Militar mas não se pejou [no original “queixou”] a pedir-me documento sua justificação. Saudações coronel César” (Ferraz, p 26).

Se Moreira César cedesse, ficaria desmoralizado. Ele não o permitiu, mas, ao não ceder, ganhou inimigos poderosos no exército e na política.

Como esse telegrama era datado de 28 de setembro de 1897, e ele passou a governadoria do estado a Hercílio Luz no dia anterior, em meio a aplausos e agradecimentos do Congresso de Santa Catarina (25). Floriano, Costalatt e Hercílio fizeram como entenderam.

E o seu comportamento na questão dos costumes? Deixou os soldados cometerem toda sorte de crimes e violências típicas de uma ocupação militar, que Duarte Schutell descreveu com tintas tão carregadas? 

Baseado em documentos oficiais, o general Epaminondas Ferraz enumera as seguintes ações do governador:

1º — Dois alferes que fizeram um tumulto nas ruas, após uma bebedeira: 30 dias de prisão com sentinela à vista.

2º — Um capitão e um alferes vistos dançando e confraternizando exageradamente num baile público, com mulheres “afamadas”: 25 dias recolhidos em Tubarão, prestando serviço ao Estado-Maior.

3º — Um alferes que causou graves alterações na ordem pública e tranquilidade da cidade: 25 dias de prisão e depois dispensa. Perdeu o posto (demérito para sua carreira e perda financeira).

4º — Mesma pena dada a outro alferes que, embriagado, saiu quebrando vidraças pela cidade.

5º — Trinta dias de cadeia para outro alferes que resolveu bancar o valentão na casa de uma meretriz.

        6º — A outro alferes que, se sentindo “dono do pedaço”, resolveu se acercar de uma respeitável senhora casada: 25 dias de prisão, com sentinela à vista. “Cabra safado, respeito é bom e eu gosto”.

        7º — Pune severamente praças que não batem continência para os policiais do Corpo de Segurança, a polícia ostensiva catarinense, feita por gente da terra, para que aqueles se lembrem de que estavam ali a serviço do povo brasileiro local (26).

Pergunto ao leitor: cabe na cabeça de alguém que um comandante, que vai a ponto de desgastar a sua liderança com os seus soldados, para garantir o respeito e o sossego de pessoas comuns, de meretrícios, saia fuzilando aleatoriamente pessoas prestigiosas, a troco de nada, como dizem Euclides e Schutell?

Há relatos de soldados que não pertenciam ao seu batalhão, que, após servir sob suas ordens por algum tempo, solicitavam transferência para o 7º, como aconteceu com o alferes que comandou o rebocador Audaz e o alferes Poli Coelho, gaúcho, que perecerá em Canudos. O nome disso é admiração, dedicação, lealdade. Um psicopata não provoca esses arrebatamentos.

Ao final de sua administração, Moreira César ainda permanece por dois anos em Santa Catarina, recebendo um tratamento de homem benemérito, amado por seus soldados e respeitado até pelos federalistas, que divulgam seus deslocamentos: “Chegou ontem de Paranaguá o sr. coronel Antônio Moreira César, que foi recebido a bordo do ‘Aymoré’ pela oficialidade da guarnição, tocando na ponte de desembarque a banda de música do 7º Batalhão de Infantaria.” (O Estado, 12 de maio de 1896).

Vejam essa nota federalista, na ocasião em que uma esquadrilha naval argentina visitou Desterro:  “Ontem pela manhã, o senhor Comandante da divisão argentina, acompanhado de seu ajudante de ordens, visitou o quartel do 7º batalhão de infantaria de linha, onde foi gentilmente recebido pelo seu ilustre Comandante [Moreira César] e oficiais (idem; 16 de setembro de 1896).”

 

Está documentado que Moreira César deixou o estado de Santa Catarina em meio a grandes manifestações de carinho e reconhecimento pelo seu trabalho. O seu comportamento íntegro, correto, também foi observado pelos “coronéis” do sertão da Bahia, conforme relata Walnice Galvão em seu livro No calor da hora e matérias em jornais.

Que ele era um homem culto e esclarecido, nos informa essa iniciativa tomada assim que as contas do Estado começaram a se normalizar, graças à sua administração. Jornal República de 7 de julho: “O sr. Coronel autorizou o cidadão inspetor do Tesouro a mandar proceder aos concertos de que necessita o teatro Álvaro de Carvalho, despendendo-se 2:000$000 [dois contos de réis, equivalente mais ou menos a uns 300 mil reais, hoje], conforme orçamento feito.”

Um momento marcante na imprensa local foi quando chegou a Florianópolis a notícia da morte de Moreira César. O Estado tratou-a burocraticamente, procurando ser objetivo na apresentação dos fatos. Já o República aproveitou para fazer a apoteose do coronel, em matérias de 1ª página, normalmente chamadas de EXPEDIÇÃO A CANUDOS. Na edição de 10 de março de 1897, num artigo muito borrado, quase ilegível, tiramos essa vibrante declaração:

“[Será] dispersa a multidão que trucidou César, Tamarindo e outros a cuja memória a nossa folha presta agora sentida homenagem.”

Segue-se então uma lista de condolências enviadas ao governador Hercílio Luz, vindas de várias partes do estado.

“Itajaí, 8 – Inexprimível pesar… causa a notícia de terem morrido os coronéis Moreira César, Tamarindo… outros oficiais e praças. Sinceros pêsames. São imensas perdas que sofre o Exército Brasileiro em holocausto à pátria e à república… a memória dos que assim morreram viverá perenemente, como poderoso estímulo e edificante ensinamento(?)…

Brusque, 8 – Dolorosa notícia morte bravo coronel César enluta alma republicana. Pêsames à pátria pelo passamento grande homem…

Araranguá, 10 — É um verdadeiro desastre morte coronel Moreira César e derrota forças Bahia

Tijucas, 10 — Associo-me àqueles que sentem do fundo d’alma morte coronel César certo de que a República perdeu um dos seus melhores defensores”.

No dia 13 de março, há um editorial particularmente tocante, cujo título é CORONEL MOREIRA CÉSAR.

“Há contradições sublimes no destino dos grandes homens: morrer para eles é — começar a viver.

Enquanto a pátria se cobre de luto, eles se cobrem de glória… assistindo ao seu espírito a apoteose da vida que deixam, aureolada pela gratidão dos povos.

Um desses homens foi o bravo coronel Moreira César, vulto heroico que acaba de sucumbir, regando com o seu sangue o solo da pátria em defesa da causa pública...

A vida do ilustre oficial… foi uma verdadeira epopeia, e, por isso, o seu nome tornou-se respeitado e cercado de largo prestígio…

Neste estado, como governador militar, durante cinco meses, deixou traços luminosos... tais foram os serviços prestados com acrisolado patriotismo e sincera abnegação, de modo a conquistar a estima e a admiração do povo catarinense.

Foi ele que conseguiu, ... hastear... o pavilhão da liberdade... restabelecendo a ordem e o sossego sociais...

Foi nessa data memorável que... caiu no apogeu da glória o vulto grandioso de Moreira César.” 

        Em 14 de março, o República traz trechos do Gazeta de Notícias, do Rio, sobre o fim da 3ª Expedição, do qual selecionamos a seguinte parte:

A tragédia de agora, e que envolve, além das forças regulares... uma personalidade que era o orgulho de sua classe, o coronel Moreira César...

        Em 4 de abril, outro emocionante testemunho editorial da excelente fama do coronel em terras catarinenses aparece sob o título MOREIRA CÉSAR — esse trecho está muito borrado, exigindo grande esforço de leitura.

Enquanto o seu espírito descansa nas regiões do infinito... Saudamos a sua memória e prestamos-lhe as homenagens de que se tornou digno...

À mão da morte, fechando-lhe os olhos, porém, o Panteão dos homens ilustres abriu-lhe as portas para guardar a sua memória como uma relíquia...

Morreu como viveu — honesto, probidoso, disciplinador, valente até a bravura e justiceiro, traços que constituirão a página de luz na história brasileira, no julgamento de seus atos traduzidos pelo alto valor e pela imaculada reputação que lhe deram um lugar entre as glórias nacionais.

        Em 8 de abril, deu para salvar esses trechos de um artigo sobre o coronel, todos publicados na primeira página, sob o título MOREIRA CÉSAR.

Fechou-se o ciclo de vida de um ilustre brasileiro…

Desapareceu na escuridão do túmulo, porém, não morreu, porque — morrer pela pátria é viver, e ele viverá sempre no acontecimento que perpetuou e na lembrança de todos os que amam a liberdade, como base da democracia, como símbolo da igualdade e fraternidade.

As suas últimas palavras… foram: “Adeus república”."

        Etc.

        Todo mundo sabia que o coronel Antônio Moreira César estava massacrando o povo de Santa Catarina, menos o povo de Santa Catarina, que sempre o homenageava, com uma gratidão incomum, como na alvorada em que a banda de música do Corpo de Segurança tocou para ele, na comemoração de um 15 de novembro, em 1895 ou 1896.

Hoje, jovens vestem-se com roupas tingidas como de sangue e vão pelas ruas de Florianópolis, simulando um massacre que não houve. São livres para fantasiar. Prefiro os fatos apresentados pela imprensa catarinense da época.

Como diz o poeta paraibano Augusto dos Anjos: “O beijo é a véspera do escarro, / A mão que afaga é a mesma que apedreja”.

        Assim são os seres humanos.

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E 

CANUDOS DEVEM MORRER

A PROFECIA DO BARÃO DE COTEGIPE — 12 


         O brinquedo preferido do marechal

Na repressão à revolta federalista no Sul, quebrou-se um padrão em Santa Catarina. Ele é o único estado que não tem corpos de vítimas de massacres para apresentar.

No Paraná, houve o massacre do Barão do Serro Azul e seus companheiros, no km 65 da estrada de ferro Curitiba-Paranaguá, quando se deslocavam para esse porto, a pretexto de pegar um navio que os conduziria ao julgamento no Rio, sem falar nos fuzilados no cemitério de Curitiba. O comandante do 5º Distrito Militar, o general Francisco Raimundo Ewerton Quadros, ficou exposto nesse episódio, pois, quando o irmão do barão, florianista, foi indagar a Floriano o que acontecera, este lhe mostrou um suposto telegrama, que passara ao general, ordenando-lhe que mandasse os prisioneiros ao Rio — mas ninguém foi punido.

No Rio Grande do Sul, os massacres se produziram à luz do dia, em catadupas de sangue e violências bizarras. O governador, Júlio de Castilhos, chamou a atenção de Floriano, encantado com o seu estilo implacável, e lhe deu toda ajuda para exterminar os seus rivais, a quem acusava de ‘monarquistas’ e ‘restauradores’, para enganar a opinião pública e justificar o seu extermínio. 

Coisa notável! Nesses dois estados, em que houve provas claras de massacres, nenhum dos supostos responsáveis, Quadros no Paraná e Castilho no RS, foi punido, nem por Floriano nem pela posteridade. Floriano indicará Quadros ao STF, mas o Senado, que ainda prezava por sua credibilidade, recusou-o. Quadros foi, posteriormente, promovido a marechal, enquanto Castilho continuou como senhor do RS e teve os seus discípulos governando ou influindo na política gaúcha até o final do regime militar, em 1985.

O castilhismo representou uma clara ruptura com o verniz liberal que vigia no país, sob um substrato marcadamente autoritário, defendendo a intervenção do Estado na economia e na vida dos indivíduos, em nome de um ideal difuso de “virtude”, que todo mundo devia seguir, mas que ninguém sabia direito o que significava, nem quem determinava o que era ser virtuoso ou não. Diz Ricardo Vélez:

“Enquanto para o pensamento liberal o bem público resultava da preservação dos interesses dos indivíduos, que abrangiam basicamente a propriedade privada e a liberdade de intercâmbio, bem como as chamadas liberdades civis, para Castilhos o bem público ultrapassava os limites dos interesses materiais dos indivíduos, para tornar-se impessoal e espiritual. O bem público se dá na sociedade moralizada por um Estado forte, que impõe o desinteresse individual em benefício do bem-estar da coletividade. Nessa conjuntura, o interesse pessoal é... imoralidade (citado na Wikipedia em português, Castilhismo).”

No Paraná e no Rio Grande do Sul, grandes massacres foram perpetrados, sem que se achasse neles qualquer digital de Floriano. Mas, no caso de Santa Catarina, com a iniciativa do coronel em mandar os prisioneiros para o Rio, as digitais de Floriano ficaram expostas, embora os brasileiros não as quisessem, e ainda não queiram, ver.

A melhor solução, para Floriano, era eliminar os seus adversários lá onde criavam problemas, deixando-o com as mãos limpas, como no caso do sargento Silvino, fuzilado, por sua ordem, em Pernambuco. Em Santa Catarina, não aconteceu assim, e a solução foi ocultar a chegada deles ao Rio e fazê-los desaparecer o mais rápido possível, jogando as famílias de um lado para o outro, até a coisa esfriar. Para isso, os florianistas contavam com um exército de aliados, muito bem posicionado.

Silveira Peixoto, em seu livro A tormenta que Prudente de Morais venceu (19), diz que os jacobinos e outros florianistas radicais haviam se infiltrado no funcionalismo público, aparelhando as instituições de estado: “as repartições públicas foram minuciosamente vasculhadas. Não somente os suspeitos, mas também os menos entusiastas foram todos substituídos por florianistas ardorosos. Sem qualquer respeito às leis, à vitaliciedade, aos direitos adquiridos, à capacidade, à eficiência.”

A mesma coisa aconteceu nas forças armadas, com a lealdade irrestrita ao florianismo exaltado se tornando o único critério para “promoções, demissões e reformas”, com um agravante: “Adiantamentos de soldo [à guisa de empréstimo]. É imenso o número de oficiais de todas as patentes contemplados com esses adiantamentos, alguns bem avultados.”

Utiliza-se do dinheiro público, em meio a uma enorme crise financeira, para garantir a lealdade dos militares.

No ‘reinado’ de Floriano, criou-se um poder paralelo, formado por simpatizantes, que, graças a uma intensa cooptação, tentava transformar o exército numa milícia florianista. Serão importantes membros desse poder paralelo que comandarão o combate final a Canudos e o atentado contra o presidente.

Um homem, entre outros menos conhecidos, recusou-se a participar dessa trama: Moreira César. Por causa disso, ele não só não recebeu nenhuma promoção como teve o seu corpo abandonado aos animais carniceiros — como os federalistas no Rio Grande —, além de ter a sua memória difamada pelos pósteros, por crimes que não cometeu.

      O jornalista e historiador Tobias do Rego Monteiro, do Jornal do Comércio, contemporâneo desses fatos, revela em seu livro, O presidente Campos Sales na Europa (20), uma faceta surpreendente do ‘Marechal de Ferro’, que era o uso de emissários particulares para dar ‘ordens especiais’, quando queria omitir sua participação.

        Diz Monteiro: “Quando [Floriano] precisava dar ordens para se cumprirem longe, ele não escrevia, mandava um emissário. Não deixava documento da sua ação. A um oficial… o Sr. Alfredo Vidal, deu de viva voz instruções reservadíssimas para serem transmitidas ao Major Faria. Ao terminar, disse-lhe: “Repita”. O oficial repetiu. Então ele ajuntou… “Quando acabar de dar esse recado, esqueça-o.”

No meio da Várzea, em Porto Alegre… onde não se enxergava vivalma… o fiel emissário reproduziu tudo quanto ouvira. Passados alguns minutos, o major perguntou-lhe se Floriano empregara realmente certa palavra… Ele respondeu que não sabia. O interlocutor estranhou… O oficial redarguiu: “O marechal recomendou-me esquecer esse recado, apenas o desse.” E não houve meio de fazê-lo proferir uma palavra mais.”

Noutras palavras, Floriano criou uma espécie de correio paralelo, um “telefone sem fio”, por meio do qual mandava mensagens que, por sua natureza, não deveriam se tornar públicas, enquanto cultivava a fachada de ‘consolidador’ da República e da legalidade. É possível que Floriano tenha utilizado esse método com Moreira César, mas este, aparentemente, não atendeu à chamada.

     Floriano sabia quem tinha pela frente — Euclides não se enganou quando disse que ele discerniu corretamente a Moreira César, e vice-versa —, e, por isso, tentou removê-lo para fora do Brasil, com um convite para cuidar da segurança de uma embaixada no exterior. Daí nasceu um diálogo que, segundo o marechal Dantas Barreto, existiu, e que mostra muito da inteligência e perspicácia de ambos em ler a motivação do outro, sem que nenhum dos dois tenha se colocado abertamente, e que, no entanto, ficou bem claro, para os dois, o que um e o outro queriam (21).

        À medida que se aproximava o fim do mandato de Floriano, surgiu uma dúvida: ele entregaria o cargo para o sucessor? Em duas ocasiões, ele já atrasara a data das eleições e fez o que pode, do seu jeito, para não transferir a faixa presidencial; e, no final, não a transferiu; deixou para outro. Prudente de Morais, eleito em 1º de março de 1894, só assumirá em 15 de novembro.

        Edgar Carone, em seu A República Velha II A evolução política (1889–1930) (22), diz que nesse momento se formaram ao redor de Floriano — alimentados por seu comportamento ambíguo e dissimulado, um teatro de negativas verbais públicas, teatrais, contraditadas por atos ou silêncios reveladores — grupos de oficiais, obcecados com a ‘corrupção dos civis’, e civis convictos, os positivistas e oportunistas de sempre, insistindo que Floriano ignorasse o resultado das eleições e impusesse uma ditadura militar.   

        Floriano então começa a fazer sondagens no meio militar, buscando apoio para um golpe. Mas encontrou em alguns chefes, em especial Moreira César, que já adquirira certa popularidade, uma muralha intransponível.

        Diz Edgar Carone: “Vencida a revolta da Marinha, ter-se-ia tramado com as maiores cautelas o golpe de estado para entregar a ditadura a Floriano. As condições de saúde deste e a oposição encontrada por parte de alguns florianistas radicais, como o próprio Coronel Moreira César [meu destaque], fizeram abortar o plano (p. 147).”

        Carone é um bom historiador e um profissional sério, mas, seduzido pelo euclidianismo, nem percebe a terrível contradição em que cai: como pode o coronel Moreira César ser “florianista radical” e se opor a um plano de golpe em favor de Floriano, para beneficiar um civil que o marechal detestava particularmente? Moreira Cesar foi a favor de Floriano em 23 de setembro de 1891, como Prudente e os paulistas também o foram, para evitar os riscos de guerra civil que um confronto eleitoral podia trazer, motivado pelo autoritarismo dos principais candidatos, sem falar do estresse nas relações do Exército com a Marinha. Era um “beco sem saída”. 

        Muito importante é o testemunho pessoal do jornalista Tobias Monteiro, um dos mais conceituados e bem informados do país, testemunha ocular desses eventos.

“Eleito Prudente de Morais… começou a revelar-se entre militares da intimidade de Floriano a mais franca hostilidade à transmissão do poder [como das outras vezes, ele não aparece nas articulações, das quais será o principal beneficiário]… A República não podia dispensar a sua tutela; algo faltava ainda para “consolidá-la”Para chegar-se a tal fim, seria preciso derrubar os governos dos Estados em que ele se apoiara [e indicara], com quem não contava [agora] para a nova empresa, e recorrer às oposições. Chamavam-se a conciliábulos vários políticos graduados, alguns deles saídos da cadeia. [Para dar o seu novo golpe, Floriano iria depor alguns governadores que ele mesmo nomeara, em 23 de novembro, e que agora se opunham à sua permanência, fazendo acordos com ex-governadores deodoristas, que ele antes depusera, alguns, inclusive, ainda presos, mas que concordavam com a ditadura]… A parte sincera e destemida da gente que combatera o caudilhismo de Custódio de Melo estaria pronta a quebrar o seu ídolo, se tão depressa o visse deformado. Moreira César [meu destaque] e Pedro Alves [coronel]… pronunciaram-se desde logo contra a insensata pretensão (idem, p. 47).”

Prudente assume, enquanto Floriano se enfurna em casa, sem querer conversa, e aí começa a conspirar e a lançar apelos incendiários a seus simpatizantes, em especial jovens cadetes  fanatizados, curtindo à sombra, como era do seu temperamento, o seu ódio e sentimento de autopiedade, como uma vítima da ‘ingratidão humana’. Isso degenerou em um intenso sentimento de vingança, que ele legou, vívido, aos seus seguidores.

Eduardo Simões

terça-feira, 12 de maio de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E 

CANUDOS DEVEM MORRER

A PROFECIA DO BARÃO DE COTEGIPE — 11

Ao desamparo das leis

Verdade indiscutível: Moreira César nunca sofreu punição por qualquer suposto crime cometido em Santa Catarina. Como se explica isso? Dirijo essa pergunta principalmente aos autores militares, que primam em acusá-lo dos piores crimes, enquanto poupam escrupulosamente Floriano Peixoto e os seus generais.

Nesse quesito, até o badalado José Maria Bello, em sua História da República 1889–1954, chega ao cúmulo de dizer: “Floriano, parece, tivera de intervir diretamente, algumas vezes [junto a Moreira César], para evitar novas crueldades (12).”

Pelo que se deduz de Bello, o temível Floriano Peixoto, o Marechal de Ferro, que esmagou todos que se interpuseram aos seus objetivos, temeu e tremeu diante do pequenino coronel paulista!

Outro autor que resvalou para o absurdo, ao tentar explicar as consequências desse ‘massacre', foi Jorge Caldeira, que, em seu livro História da riqueza do Brasil (13), se deixou levar pela correnteza e acabou na vala comum.

Na página 346 de seu livro, ele chega a associar César a crimes que ele não cometeu, reproduzindo Cunha, que sugere ligação de César aos massacres e degolas havidos no Rio Grande do Sul, intocado por ele nesse período, e, eventualmente, no Paraná. 

“Ganhou fama assim descrita por seu biógrafo [Oleone Fontes, no Treme-terra a República e Canudos]: A bestialidade humana não ficará circunscrita aos fuzilamentos do quilômetro 65 da ferrovia Curitiba-Paranaguá, nas fortalezas de Santa Cruz de Anhatomirim… A bestialidade… de certos caudilhos… fez com que chafurdassem no gozo da prática… de expor carótidas e vísceras humanas ao ar livre (p. 346).”

É necessário corrigir Caldeira, pois essa sugestão de Euclides da Cunha sobre a ação de César no Rio Grande não é confirmada por documentos. Se Caldeira tivesse lido Fontes com cuidado, teria visto que, nesse parágrafo, ele faz uma acusação genérica contra a Revolta Federalista, sem incluir necessariamente a Moreira César. Embora, às vezes, pareça que Caldeira, no afã de confirmar antigas lendas, confunda-as na apresentação de fatos históricos. Já o costume de expor restos humanos como troféu de guerra foi mais comum nos combates fronteiriços dos pampas gaúchos.

A explicação que ele dá para a permanência de Moreira César em Santa Catarina, após a posse de Prudente de Morais, é, no mínimo, exótica: “Prudente de Morais não [o] removeu… deixou-o ali para ser cobrado pelos parentes das vítimas, para olhar de frente os fantasmas dos mortos que produzira. Respondeu com silêncio, sempre se recusando a dar explicações (p. 346).”

Caldeira nem percebe que a sua afirmação coloca em xeque a honorabilidade do político que ele muito admira: Prudente de Morais, porque, se este sabia que César era culpado, tinha a obrigação funcional, e o poder, de puni-lo. Se não o fez, prevaricou. Mas, se o deixou lá, arriscando-se a sofrer a vingança de algum dos parentes das vítimas, então ele é um maluco irresponsável.

Já vimos que Moreira César estava impossibilitado de cometer crimes em Anhatomirim, porque a fortaleza era uma área sob jurisdição federal, mas será que não havia uma legislação que punisse militares por crimes tão graves, como fuzilar oficiais superiores sem julgamento? A resposta é SIM, havia, e isso desde o século XVII. Em Portugal e no Brasil.

O órgão destinado a julgar oficiais infratores era o Conselho de Guerra, um tribunal especial, criado em Portugal, em 15 de dezembro de 1643, pelo chamado Regimento do Conselho de Guerra, de D. João IV, logo após o fim da União Ibérica.

Os procedimentos cotidianos no Exército Português, tanto na metrópole como nas possessões ultramarinas, eram fortemente marcados por rituais que exibiam os valores predominantes da sociedade portuguesa da época, fortemente aristocrática, com posições sociais e gradações de títulos bem definidos e estanques, que deviam ser rigorosamente respeitados.  

Logo, a posição de cada membro na organização militar era bem marcada por títulos ou patentes, sempre respeitando o critério do favor real e da antiguidade. No caso do Conselho de Guerra luso, essa gradação aparecia no aspecto, na qualidade e na posição das cadeiras que eram utilizadas pelos conselheiros do rei durante os trabalhos (14). O Conselho de Guerra, como o nome já diz, é sempre um colegiado.

No Regimento de 20 de fevereiro de 1708, emitido por Dom João V para reformar o exército português, as penas variavam segundo a patente. O capítulo LXXVII deixava a situação bem explícita:

“Proibiu, sob pena de vida [morte] a todos os oficiais de suas tropas o tirar pistola ou espada contra os seus coronéis ou comandantes… e que os soldados que contra os seus oficiais tirassem pistola ou espada teriam a mesma pena” (15).

O Alvará de 7 de maio de 1710, no artigo 7º, reforça: “Todo o oficial ou soldado que não obedecer ao seu superior em tudo o que pertence ao meu serviço e à boa disciplina será castigado com a mesma pena de morte natural [enforcamento].”

No artigo 8º… “Todo o oficial que quiser dar ou ofender com qualquer arma ao seu oficial superior, seja qualquer que for o pretexto, incorrerá na mesma pena de morte natural.”

Noutras palavras: bastava opor-se violentamente às ordens ou à pessoa de um oficial para o inferior ser punido com pena de morte.

As práticas mais severas do Exército Real Português foram abrandadas pelos Regulamentos do Conde Lippe, Frederico Guilherme Ernesto de Eschaumburgo-Lippe — um militar prussiano que reformou o exército português, no governo de Pombal, no Regimento de 17 de fevereiro de 1763. Mas ele não deixou de reforçar o aspecto hierárquico das patentes junto às tropas (16).

Esse é o substrato secular da legislação militar portuguesa, que influenciou a formação do nosso exército, tão vertical e aristocrático como o português. Porém, com a nossa independência, criou-se aqui uma legislação esparsa, circunstancial e confusa (17) que orientou os procedimentos dos militares brasileiros, inclusive em situações de guerra. O Brasil republicano tinha uma legislação nessa área: o Código Penal da Armada, conforme Decreto nº 18 de 7 de março de 1891, que estabelecia as seguintes condições para aplicação de pena de morte na Armada, ou Marinha:

“Art. 40 – O condenado à morte será fuzilado.

Art. 41 – A pena de morte proferida em última instância, por um tribunal reunido em territórios ou águas ocupadas militarmente, será executada independentemente de recurso de graça, salvo quando o Governo Federal determinar o contrário.”

Ou seja, a pena de morte será sempre decidida por um órgão colegiado e com possibilidades de recurso a uma instância superior ou ao Presidente da República.

Mas essa instância superior tem características específicas, que podem ser vistas no Decreto 149, de 18 de julho de 1893, assinado por Floriano Peixoto e pelo Marechal Antônio Eneas Gustavo Galvão, que criava o Supremo Tribunal Militar, composto por 15 juízes militares (8 do Exército e 7 da Marinha) e três juízes togados, todos nomeados pelo presidente da República. Havia quórum mínimo para o tribunal funcionar:

“Art. 7º Para conhecimento e decisão dos processos criminais, o Supremo Tribunal Militar só funcionará com a presença de sete de seus membros, pelo menos, dos quais cinco generais e dois juízes togados.

Art. 8º Nos casos em que possa ser aplicada a pena de 30 anos de prisão, o tribunal só funcionará achando-se presentes os três juízes togados e cinco membros militares.”

A patente mínima para alguém participar de tribunal com tal poder é de general, e até os elementos civis que dele participem deverão ter cumprido certas etapas ou qualificação na sua carreira. Mas, em todas as instâncias, a questão da patente mínima sobreleva-se evidentemente, desautorizando qualquer oficial a julgar outro de patente superior. 

            Havia, portanto, uma legislação antiga e consolidada o suficiente para levar o coronel Moreira César às barras de um tribunal militar, por crimes gravíssimos em Anhatomirim, se tais crimes tivessem realmente existido, e quem não tomou providências prevaricou gravemente. Moreira César conhecia muito de legislação militar.

Em um dos papéis em seu arquivo, foi encontrada a seguinte nota escrita por ele: “Não havendo neste estado [Santa Catarina] um tribunal militar a que se submetessem os presos políticos… atento ao disposto nos decretos 1.681 e 1.685, de 28 de fevereiro e 4 de março do corrente ano (1894)… Tomei a deliberação de remetê-los àquela fortaleza [Anhatomirim ou Araçatuba em SC]… até que a partida de algum navio de guerra… me permitisse enviá-los a essa capital (Rio), a fim de serem julgados, como com muitos sucedeu (18).”

Segundo a legislação corrente e os decretos circunstanciais de Floriano, estavam claramente especificadas as condições em que se fariam os julgamentos dos presos em áreas de conflito, e nenhuma das condições necessárias existia em Desterro.

Por que ele cometeria esses crimes? Os presos não lhe ofereciam risco. Os federalistas estavam em fuga, e ele não tinha, nem nunca teve, projeto político em mente, muito menos ali, onde era desconhecido. Dizer, como diz Euclides, que ele matou por mero prazer é negar a realidade óbvia de que ele não poderia ter agido assim e saído ileso. Ele não tinha fortuna, família poderosa ou amigos influentes para abafar seus crimes. Ele era um órfão de família pobre! As elites catarinenses podiam acabar com ele, num estalar de dedos.

           No entanto, a lenda maluca de Anhatomirim vingou e se espalhou, sendo comum ver até historiadores militares se apressando para jogar esses crimes na conta de Moreira Cesar, crimes que beneficiavam essencialmente Floriano e o seu projeto de ditadura.

Que os federalistas o odiassem é compreensível, pois, segundo o jornal República, durante a retirada de Gumercindo Saraiva do Paraná, empurrado pelos paulistas, uma das alternativas para ele evitar confronto com os gaúchos era tomar um desvio para o oeste e seguir para a Argentina. Moreira César se antecipou, fechando-lhe a passagem em Blumenau.

Com essa rota fechada, ele foi obrigado a ir para o sul, esborroando-se contra as tropas de Pinheiro Machado em Carovi, onde pereceu. Logo, Moreira César tinha culpa nessa morte. Mas e o exército, por que se colocou tão decididamente contra ele e aceitou tão fácil a versão de Euclides da Cunha?

Eduardo Simões


 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E 

CANUDOS DEVEM MORRER

A PROFECIA DO BARÃO DE COTEGIPE — 10


Alguns pontos a esclarecer

Lendo o República, de Desterro, sabe-se que o barco de guerra é um cruzador, como o Jornal do Comércio assinalou. Entretanto, na marinha, só existia um cruzador de nome Parnahyba, que bateu quilha em 24 de janeiro de 1878 e foi descomissionado em 3 de outubro de 1900, e não havia nenhum de nome Parahyba. Ou houve erro de impressão ou a informação foi alterada de propósito, para dificultar a busca dos desaparecidos.

É possível, também, que os prisioneiros tenham sido transferidos, no meio do caminho, para o vapor Parahyba, pois havia um navio mercante com esse nome, fosse por razões operacionais, fosse para dificultar o rastreamento.

Se alguém pegar o Almanak do Exército de 1896, verá na página 5 da segunda parte, referente ao pessoal da ativa, que o marechal Manuel Lobo D’Eça, Barão de Batovi, é dado como “destino ignorado”. Entretanto, nesse mesmo Almanak, no final, em página não numerada, referente às correções da segunda parte, aparece o seguinte anexo: “Manuel… D’Eça. Fal. A 25 de abril de 1894, comunicado pelo Auditor de Guerra da Capital Federal a 22 Jan.1896” [reprodução literal].

          Sem nenhuma outra informação.

Isso não quer dizer que o auditor militar tenha algo a ver com o acobertamento ou adulteração do seu falecimento, e propositalmente apresentou essa versão da morte do marechal, sem citar local e circunstância do falecimento. Ele provavelmente pesquisou em arquivos, onde encontrou esse dado na pasta do marechal. Quem elaborou esse relato? Quem o pôs lá? Jamais saberemos, mas sabemos que testemunhos e fortes evidências o afastam de Anhatormirim, assim como aos outros “fuzilados”, e que o marechal Lobo D’Eça foi visto vivo, no Rio de Janeiro, cinco dias depois de oficialmente morto…

          Mas há outras considerações:

Primeiro: no dia 25, Moreira César mal acabara de chegar, estando somente há 3 dias no governo, sem conhecer ninguém em Santa Catarina. Não faz sentido ele sair fuzilando aleatoriamente, sem julgamento ou ordem prévia, arriscando matar alguém importante e destruir sua carreira.

Segundo: se Moreira César quisesse criar questão, e até processar o Almanak por uma informação caluniosa, não haveria elementos para isso, pois a informação é muito vaga e nada afirma de concreto sobre a morte do barão.

A armadilha estava se fechando sobre ele.

Mais tarde, no “Guia Militar para o ano de 1898(referente aos anos de 1893, 1894, 1895, 1896, 1897)” (Imprensa Nacional, Rio de Janeiro, 1897), em dois volumes, sob os cuidados do capitão de artilharia José Feliciano Lobo Viana, dedicado a dois florianistas ferrenhos: o general de divisão Dr. Bibiano Sergio Macedo da Fontoura Costalatt e o general de brigada Francisco de Paula Argolo. No volume 1, a sessão de “Falecidos em 1894”, na página 290, se abre justamente com o Marechal Manuel de Almeida da Gama Lobo D’Eça, Barão de Batovi. Entre parênteses, o local da morte (Santa Cath.).

Mais uma vez, nada se diz sobre o contexto e a causa de sua morte. Aparecia, afinal, algo que, começava a incriminar Moreira Cesar, convenientemente apresentado após a sua morte.

E como os catarinenses, em especial os desterrenses, julgavam o seu governo? No auge de seu mandato como governador, apareceu um editorial do jornal República, de 22 de maio de 1894, que diz:

“REORGANIZAÇÃO DO ESTADO

Quando a demagogia… converteu esse estado pela violência e pela anarquia… devemos nos regozijar pela orientação que o distinto governador, coronel Moreira César, vai dando aos negócios públicos, imprimindo-lhes uma direção inteligente e eficaz que tem por objetivo a reorganização completa e eficaz e definitiva do mesmo estado…

Foi assim que restabeleceu a Constituição [estadual] promulgada em 1891

E, felizmente, para o nosso estado, acha-se à frente do governo um cidadão que, por meio da economia sistematizada e inteligente, procura… reabilitar as nossas finanças, não obstante as dificuldades oriundas do estado precário [em que estava]… o cofre do tesouro, cujo dinheiro… foi gasto desordenadamente… [pelos federalistas].

Tão acertado procedimento do primeiro magistrado do estado teve, sobretudo, por fim, evitar que houvesse solução de continuidade na gestão dos negócios públicos que cumpre atender, confiado aos seus justos critérios e reconhecido patriotismo”.

Quem se der ao trabalho de ler o texto completo desse editorial, verá que ele contraria absolutamente tudo o que diz Schutell. 

Note-se que, além dos elogios generosos que o editorial faz ao coronel Moreira César, ele também se refere a medidas punitivas que o coronel tomou contra a anarquia federalista. Se atentarmos à data do artigo, 22 de maio, veremos que já passara o grosso das supostas execuções em Anhatomirim. E o jornal não faz nenhuma menção a elas, seja justificando ou negando. Simplesmente porque elas nunca existiram, ou tiveram outro autor.

Mas ao ler o livro de Raul Oliveira Rodrigues, Um militar contra o militarismo — a vida de Saldanha da Gama, Cruzeiro, Rio de Janeiro, 1959, vemos que a prática de fuzilamentos clandestinos era típica da polícia de Floriano, no Rio de Janeiro, durante a Revolta da Armada, sendo esta uma das causas da entrada de Saldanha na revolta.

“No Rio, os presos eram levados de mãos atadas pelas costas, e assim fuzilados, nos fundos da Casa de Correção” (p. 174).

“Era a ilha das Cobras… onde se acumulavam os sentenciados pela Justiça Militar… ali retiravam, diariamente, grupos de marinheiros aprisionados, para serem entregues à polícia, que os fuzilava” (p. 199).

Dessa prática há vários testemunhos.

        Em circunstâncias análogas, cinco marujos suspeitos de simpatia pela Revolta da Armada, um deles, Antônio Ignacio Quatis, entre 14 e 16 anos, foram fuzilados no arsenal de Imbiribeira, no Recife, em 1893, e logo após eles, o sargento Silvino, líder da revolta na fortaleza de Santa Cruz, em 19 de janeiro de 1892.

Nessa ocasião, segundo uma tradição, indagado, de Pernambuco, sobre o que fazer com o sargento, Floriano teria respondido: Fuzilem-no sem formalidades. Essa frase é verossímil, embora eu não a tenha visto em nenhum documento insuspeito.

Eduardo Simões