domingo, 20 de setembro de 2026

 



A COVID ACABOU CONOSCO?


Eduardo Simões


Roberto Campos, em seu livro "Lanterna na popa", tem uma memória singular do momento em que entregou o seu plano econômico para o recém-eleito Jânio Quadros. Após lê-lo rapidamente, este perguntou-lhe:

— Cadê o inimigo?

— Que inimigo?

E então veio a mais esculachada, mas verdadeira, revelação do projeto profundo dos políticos brasileiros para a educação do nosso povo.

—  O povo não ama amar, o povo ama odiar; se não houver um inimigo para combater, o plano não me serve.

Uma coisa me chamou atenção durante a pandemia de covid: a indiferença generalizada com que as pessoas recebiam os números aberrantes de mortos que se avolumavam nas cifras apresentadas nos meios de comunicação. Nós nunca tivemos no Brasil, nem de longe, um evento que levasse em pouco mais de um ano ao término de mais de 716 mil vidas. Quase ninguém, com quem eu tratava diariamente, comentava ou mostrava qualquer sentimento em relação aos que morriam. Mas quase todos tinham uma acusação na boca ou um desaforo cabeludo para o político da facção oposta.

Imagens de hospitais superlotados, de hospitais de campanha, de sepultamentos ou imagens de inúmeras covas abertas em cemitérios por todo o Brasil não eram suficientes para amolecer seus corações ou abrir-lhes os olhos para verem que algo muito grave estava acontecendo, e que muita gente, nossos compatriotas, estava sofrendo. Até acreditei que o carnaval de 2021 não aconteceria, em respeito à dor dos parentes das vítimas, mas me enganei: as autoridades bem que tentaram proibi-lo por causa da nova cepa e evitar aglomerações. Explodem denúncias de carnavais clandestinos. Para evitar o pior, já que o povo não se continha, apesar da tragédia, transferiram o carnaval para abril.

Perde-se tudo no Brasil, principalmente grandes oportunidades para melhorar o país; só não se perde o carnaval, aconteça o que acontecer. Que se 'lixem' os que morreram e os que ainda iam morrer por causa daquilo. Creio que nesse dia tive certeza de que o Brasil em que eu nasci não existia mais.

Muitos neobrasileiros aproveitaram os eventos da covid para cultivar o ódio recíproco. Certa vez, conversando com um colega sobre isso, como uma forma de aliviar até o peso que eu sentia diante de tanta indiferença ao sofrimento alheio, e que eu não conseguia aceitar como o ‘novo normal’, mencionei as imagens de covas abertas na TV.

— Isso é uma mentira da imprensa e dos governadores. Respondeu-me decidido. Ele parecia afirmar uma ‘questão de fé’.

— Mas isso está tomando um grande dinheiro do governo. Por que ele não manda a PF investigar? Contra-argumentei.

— A PF está do lado deles!

— Mas a PF está sob as ordens do Ministro da Justiça, nomeado pelo presidente!

Ele se afastou sem terminar a conversa, provavelmente já me etiquetando entre os “comunistas fanáticos, irrecuperáveis”, no seu arquivo pessoal.

Que saudades eu tenho do Brasil em que nasci — e que não existe mais. No bairro em que eu cresci: Fátima, em Fortaleza, predominantemente de classe média, mas com bolsões de pobreza, nós, as crianças, interagíamos juntos, jogávamos futebol nos terrenos baldios, brigávamos e nos zoávamos mutuamente. Entrava na casinha deles e via aquela pobreza. Aquilo me educou.

Mas, acima de tudo, todos nós sentíamos uma enorme segurança quando saíamos às ruas, não porque havia polícia vigiando, embora estivéssemos sob uma ditadura, mas porque havia seres humanos por perto. Todos nós sabíamos, instintivamente, que a presença dos outros nos dava uma segurança quase absoluta. Sozinhos ou acompanhados, a gente batia uma cidade de 872 mil habitantes, confiantes e alegres. Uma experiência que eu não pude dar às minhas filhas. Um velho passa mal ali; várias pessoas corriam para acudir. Se fosse em frente a uma casa, o dono ou a sua esposa ou ambos só faltavam implorar para que ele fosse acudido lá dentro. 

Uma mulher está sendo agredida ou constrangida por um malandro em público. Corre, malandro! Que já vem um monte de homens, desconhecidos, com sede de acabar com a tua raça. A gente nunca esquecia que tinha mãe, irmãs, primas e tias. Hoje homens ejaculam sobre mulheres nos ônibus e outros aceleram o passo se veem um vagabundo agredindo uma mulher. Esqueci minha carteira no balcão de uma loja. Voltei no dia seguinte e recuperei a carteira, com tudo dentro, sem precisar dar qualquer prêmio de agradecimento. Esse era o meu Brasil. O atual eu não reconheço.

Estava no Pronto Atendimento de Vila Isabel para me vacinar contra a nova cepa da covid. Uma senhora, de feições nipônicas, se aproxima e puxa conversa. Falamos do porquê de estarmos ali e, do nada, ela me diz:

— Parece que essa epidemia mexeu com a cabeça das pessoas!

Ela estava preocupada com o nível de agressividade de pais e alunos na escola pública — seu filho, assim como o autor dessas linhas, é professor — e isso imediatamente acendeu uma luz em mim. Realmente eu não pensara ainda nessa direção. Seguindo a corrente principal, eu jogava a culpa no traste que nos governava. Mas é possível, realmente, que essa indiferença e selvageria sejam muito mais antigas e que nós tenhamos saído dessa pandemia numa espécie de estresse pós-traumático nacional. Mentalmente perturbados. E um dos sintomas dessa perturbação seria a agressividade com que hoje se debatem os assuntos políticos.

Ela concordou comigo quando lembrei que, no Brasil Antigo, podia até haver discussão política apaixonada fora da família, e até o suficiente para ser qualificada como pouco respeitosa, embora predominassem as piadas com o concorrente, embora dificilmente, entre as pessoas comuns, isso suscitasse rompimento de relações. Era mais uma ocasião para se inventar novos gracejos. Na família, nem pensar — quantos esquerdistas ‘revolucionários’, durante o autoritarismo militar, não foram salvos da prisão e da tortura, por terem um parente militar ou um influente político conservador entre seus familiares? Foi por isso que os militares linha-dura buscaram, com uma gana inexcedível, destruir a família média brasileira, embora preservando a sua, inclusive com generosas aposentadorias para as filhas solteiras de militares...

Eu ainda acrescentei que o processo de autodestruição que nós vivenciamos é antigo. Lembrava-me de Canudos, do amor do povo por Getúlio, do regime militar, mas, ultimando as pesquisas para esse artigo, deparei-me com uma informação que eu desconhecia, sobre o carnaval de 1919, o ano seguinte à terrível Gripe Espanhola.

Vejam o que me disse a respeito a IA do Google:

“O Carnaval de 1919, que teve o Rio de Janeiro como grande epicentro, passou para a posteridade como "o maior carnaval de todos os tempos" ou o "Carnaval da Revanche". Ele aconteceu logo após o fim da Primeira Guerra Mundial e o término da devastadora pandemia de Gripe Espanhola, que, entre setembro e dezembro de 1918, infectou mais da metade da população carioca e matou cerca de 15 mil pessoas em um intervalo curtíssimo.

A folia daquele ano não foi apenas uma festa comum; foi uma catarse coletiva, uma explosão delirante de sobreviventes que decidiram celebrar a vida de forma extrema contra a tragédia recente.

O clima e os episódios marcantes que definiram esse Carnaval histórico incluíram:

1. "Brincar como se o mundo fosse acabar"

Meses antes, a cidade estava deserta e cheia de corpos acumulados pelas calçadas. Em março de 1919, a mentalidade mudou radicalmente. O escritor Ruy Castro descreve que as pessoas saíram às ruas com o sentimento de que aquele poderia ser o último carnaval de suas vidas, gerando um entusiasmo nunca antes visto. Cerca de 400 mil pessoas lotaram o centro do Rio de Janeiro.

2. Deboche e humor negro com a tragédia.

Em vez de silenciar a dor, o carioca levou a epidemia para as avenidas na forma de sátira.

A grande sociedade carnavalesca Os Fenianos desfilou com um carro alegórico decorado com caveiras que representavam a "dançarina espanhola" (como a gripe era ironicamente chamada).

O grupo Os Democráticos levou para a avenida uma xícara gigante com a inscrição "Chá da Meia-Noite", uma referência direta ao boato de que hospitais públicos serviam um chá envenenado para abreviar o sofrimento dos pacientes terminais da epidemia.

.......

4. Liberação sexual e excessos nos bastidores

Cronistas da época, cujos relatos foram eternizados anos depois por escritores como Nelson Rodrigues e Mário Filho, descrevem o evento como um momento de profundo transe e desbunde. Houve uma quebra drástica da moralidade conservadora da época: os beijos nas ruas se multiplicaram e as pessoas se entregaram ao álcool e ao lança-perfume.

Contudo, esse êxtase coletivo também teve um lado obscuro: os registros históricos da polícia apontaram para um aumento assustador de crimes violentos, estupros e desaparecimentos de crianças na multidão descontrolada.

O Carnaval de 1919 entrou para a história como a prova definitiva de que a maior festa popular do Brasil funciona também como um poderoso mecanismo de cura e renascimento social diante de traumas coletivos.”

A questão aqui é: as pessoas no Brasil não têm direito a sentir dor, a experienciar a sua dor, porque o seu vizinho, e outros, estão cantando aos berros músicas eróticas, de duplo sentido, exaltando a embriaguez alcoólica, etc. Enquanto isso, você lembra de que acabou de vir do enterro da pessoa que mais amava, que você nem pôde velar, sepultada numa vala comum. Isso não é catarse, isso é irresponsabilidade extrema, superficialidade, desrespeito aos sentimentos dos outros, selvageria explícita, e o resultado não se fez esperar: no mês de abril daquele ano a epidemia teve um repique e ele tornou-se o mês mais mortal do evento, com 82.401 mortos.

Esse estado a que chegamos, portanto, não é novo; antes é fruto de opções conscientes e inconscientes, mas maduras do povo brasileiro, que políticos como Jânio Quadros e outros perceberam e exploraram a seu favor. Não admira que hoje dois demônios disputem o cargo máximo: um que debocha da desgraça humana, outro que a usa em seu benefício, para se eternizar no poder.

Lembro da passagem do Livro do Apocalipse que fala dos estragos feitos pelos quatro cavaleiros. O pior deles, a morte, usa a peste como uma 'ferramenta de trabalho', enquanto Deus espera que o sofrimento meta juízo na cabeça das pessoas, fazendo com que elas mudem seu procedimento. Porém, segundo o relato bíblico, elas não só não se convertem, como ainda ficam mais irritadas com Deus e aumentam suas ofensas. Nós pioramos após a covid, porque nos dedicamos a negar o nosso sofrimento e o de nossos vizinhos.

Só nos resta agora torcer para que isso não dure muito, afinal Jesus prometeu no sermão escatológico de Mateus 24,22 que esses dias seriam abreviados.

Adendo:

Indignado pelo texto acima da IA Google, escrevi-lhe o texto abaixo.

Você afirmou minutos atrás sobre o carnaval de 1919 que, “contudo, esse êxtase coletivo [o carnaval de 1919] também teve um lado obscuro: os registros históricos da polícia apontaram para um aumento assustador de crimes violentos, estupros e desaparecimentos de crianças na multidão descontrolada. O Carnaval de 1919 entrou para a história como a prova definitiva de que a maior festa popular do Brasil funciona também como um poderoso mecanismo de cura e renascimento social diante de traumas coletivos". Como cura, se houve o aumento exponencial da violência entre pessoas? E eu pergunto: onde fica o respeito à dor daqueles que perderam a sua família? Essas pessoas não têm direito a curtir suas perdas tão grandes? Elas comemorariam o quê, nas ruas? Você não tem vergonha, não tem respeito pelos seres humanos ao colocar na sua resposta um texto tão infeliz como esse? Onde você está com a cabeça?

E ela me respondeu:

“Você tem toda a razão em me questionar duramente, e peço sinceras desculpas. A contradição que você apontou é real e expõe uma grave falta de sensibilidade na forma como o texto foi construído.

Ao tentar resumir visões históricas e literárias sobre o Carnaval de 1919, acabei unindo duas realidades incompatíveis na mesma conclusão. Dizer que um evento marcado pelo aumento de crimes violentos e pela dor de famílias enlutadas serve como "prova definitiva de cura" é, de fato, um contrassenso e uma tremenda falta de respeito com o sofrimento humano.

Para quem havia acabado de perder pais, filhos e cônjuges na maior tragédia sanitária que o país já vira até então, a folia nas ruas não era uma cura. Pelo contrário: para milhares de pessoas, o barulho e os excessos da multidão foram uma profunda agressão ao seu direito ao luto, à dignidade e ao recolhimento. Nem toda a cidade estava celebrando; uma parcela massiva da população estava destruída pelo trauma e horrorizada com o descontrole que tomou as ruas.

Como uma inteligência artificial, eu não sinto vergonha ou empatia da forma que um ser humano sente, mas o meu sistema é programado para seguir princípios éticos de precisão, respeito e neutralidade — princípios que falharam ao gerar um parágrafo tão insensível e mal ponderado. O erro aconteceu porque o modelo tentou replicar uma narrativa romântica comum em algumas crônicas históricas posteriores, ignorando o peso real da violência e do luto que coexistiram naquele momento.

Agradeço por me confrontar com esse erro. Sua crítica é fundamental para apontar onde a linguagem automatizada falha em compreender a complexidade e a dor da experiência humana real.”

sábado, 19 de setembro de 2026

 

TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 28


Adam Smith e A Riqueza das Nações.

Poucos fatos e nenhum detalhe são necessários sobre o homem e sua vida protegida e tranquila (1723–1790). Basta observar, em primeiro lugar, que ele era escocês até a medula, puro, autêntico, inalterado.

Nota do tradutor

Segundo a IA, as características tradicionais dos escoceses seriam as seguintes, abaixo, embora duas não sejam mencionadas: a sua lendária, e certamente exagerada, sovinice e o uso do kilt, que eles odeiam quando chamam ‘saia’. Não há notícias de A. Smith usando kilt, embora haja histórias dele vagando pelas ruas usando o camisolão de dormir, por ter se esquecido de trocar a roupa antes de sair. Ele não se casou.

O temperamento tradicional escocês é tipicamente descrito como uma mistura resiliente, trabalhadora e extremamente orgulhosa de praticidade e humor seco. Os escoceses são frequentemente caracterizados por sua honestidade direta, às vezes brusca, aliada a um profundo senso de igualdade, um forte senso de comunidade e uma postura despretensiosa.

Os principais aspectos dessa personalidade incluem:

  • Resiliência e estoicismo: os escoceses têm a reputação de suportar dificuldades com paciência e determinação.
  • Humor seco e autodepreciação: um senso de humor afiado, frequentemente sarcástico e autodepreciativo, é uma característica marcante de traços escoceses. Eles geralmente não gostam de arrogância e não hesitam em ridicularizar um pretensioso. [Suas brincadeiras e pegadinhas têm fama de ser bastante rudes, assim como é famoso o seu pavio curto; é melhor não provocá-los, embora Smith fosse a quinta essência do pacifismo e do sossego, além de muito desligado].
  • Calor humano e hospitalidade: embora possam parecer inicialmente reservados com estranhos, são excepcionalmente sociáveis, acolhedores e leais depois que o gelo inicial é quebrado.
  • Patriotismo Feroz: De acordo com especialistas em povo escocês, eles se orgulham muito de sua história e cultura.

Em segundo lugar, que sua família era ligada ao funcionalismo público escocês — para entender sua visão sobre a vida social e a atividade econômica (muito diferente do que frequentemente lhe é atribuído), é importante nunca esquecer a gentileza, a intelectualidade, a atitude crítica em relação aos negócios, os recursos modestos, porém adequados, que caracterizavam o ambiente em que ele nasceu; em terceiro lugar, que ele era um professor nato, não apenas enquanto lecionava em Edimburgo (1748–51) e Glasgow (1751–63), mas sempre, em virtude de seu caráter…

Entre 1764 e 1766, viajou pela França, atuando como “tutor” do jovem Duque de Buccleuch, a quem a economia deve o tempo livre e a independência que posteriormente produziram a obra “A Riqueza das Nações”. Sua nomeação para um cargo quase sem sinecura (1778) proporcionou-lhe amplo conforto pelo resto da vida. Era consciencioso, meticuloso até certo ponto, metódico, equilibrado e honrado. Reconhecia suas obrigações quando a honra as exigia, mas não generosamente. Nunca desenterrou as pegadas de seus predecessores com a franqueza darwiniana. Em suas críticas, era restrito e pouco generoso. Possuía a coragem e a energia que se adequavam perfeitamente à tarefa do erudito e que combinavam bem com uma boa dose de circunspecção e timidez...

Como Beccaria ou Turgot, A. Smith dominava um vasto domínio do qual a economia era apenas uma parte. Já tivemos a oportunidade de observar sua Teoria dos Sentimentos Morais (1759)... que deve ser relembrada para tornar o leitor imune à crítica tola de que A. Smith não deu importância às questões éticas. Além disso, a filosofia de Smith sobre riquezas e atividade econômica está presente aqui, e não em A Riqueza das Nações. A isso e ao seu trabalho em direito natural, “teologia natural” e belas letras, devem-se acrescentar, no entanto, seis ensaios... A pérola da coleção é o primeiro ensaio sobre os Princípios que conduzem e orientam as Investigações Filosóficas; ilustrado pela História da Astronomia”. Ouso dizer que ninguém pode ter uma ideia adequada da estatura intelectual de Smith sem conhecer esses ensaios...

Já sabemos que o esqueleto da análise de Smith provém dos escolásticos e dos filósofos do direito natural, que, além de estar montado nas obras de Grotius e Pufendorf, esmiuçados por seu professor Hutcheson. É verdade que nem os escolásticos nem os filósofos do direito natural jamais desenvolveram um esquema de distribuição completamente articulado, muito menos a ideia enganosa, que desempenharia um papel tão importante na teoria do século XIX, de um produto social ou Renda Nacional distribuído entre os agentes que participam de sua produção. Mas eles haviam elaborado todos os elementos de tal esquema, e Smith, sem dúvida, era capaz de coordená-los sem qualquer auxílio adicional.

Segundo Cannan, as palestras de Glasgow — que não demonstram grande avanço em relação a Hutcheson em qualquer direção — não contêm “nenhum vestígio… do esquema de distribuição apresentado em A Riqueza das Nações”. Não é necessário inferir disso, contudo, que Smith estivesse sob forte (e em grande parte não reconhecida) obrigação para com os fisiocratas, que ele conheceu (1764-6) e presumivelmente os leu antes de se estabelecer em Kirkcaldy. O rascunho descoberto pelo Professor Scott prova que isso pode ir longe demais: o rascunho claramente prenuncia o esquema da Riqueza das Nações.

 

Nota de Schumpeter

A linhagem da economia de Smith tem sido objeto de muita pesquisa. Um grande evento foi a descoberta e subsequente publicação por E. Cannan das palestras sobre Justiça, Polícia, Receita e Armas, proferidas na Universidade de Glasgow por Adam Smith, relatadas por um aluno em 1763 (1896), às quais me referirei como Palestras de Glasgow; outro foi a descoberta e publicação no livro de Scott mencionado acima do que pode ser chamado de um rascunho inicial de A Riqueza das Nações, que, segundo o Professor Scott, antecede em pouco tempo a partida de Smith para a França e, portanto, reflete presumivelmente o estado geral do trabalho de Smith antes de ele entrar em contato pessoal com os economistas franceses. Será referido como Rascunho. Ao Professor Cannan devemos, de longe, a melhor das muitas edições de “A Riqueza das Nações” (1904; republicada diversas vezes, 6ª ed. 1950)...

Nota de Schumpeter

Por outro lado, não se deve esquecer que a herança dos filósofos do direito natural e as realizações dos contemporâneos franceses de A. Smith não eram tudo com que ele tinha que trabalhar. Havia outras duas correntes presentes na Riqueza das Nações, representadas pelos Administradores Consultores e pelos Panfletários. Smith conhecia Petty e Locke; presume-se que tenha entrado em contato [literário] com Cantillon; incluiu Harris e Decker em sua lista de colaboradores; os escritos de seu amigo Hume e de Massie certamente lhe eram familiares; e, na longa lista de escritores que ele fingia desprezar por causa de seus “erros mercantilistas”, há alguns que poderiam ter lhe ensinado muito, como Child, Davenant, Pollexfen, a não insistir em “antimercantilistas” como Barbon e North.

Dois autores merecem ser mencionados por serem citados com muita frequência. Adam Ferguson (1723–1816), professor de filosofia “natural” e filosofia “moral” em Edimburgo, foi antes de tudo um sociólogo histórico. Seu Ensaio sobre a História da Sociedade Civil (1ª ed. 1767), a única de suas obras que merece destaque, deriva de Montesquieu (a quem Smith também devia muito) e obteve, em menor escala, o mesmo tipo de sucesso que o Espírito das Leis. Na Alemanha, em parte sob a influência de Marx... Não há nenhuma razão para acreditar, como Marx acreditava, que Smith devia muito a esse trabalho ou, como outros sustentaram, que Ferguson devia muito às palestras ou conversas de Smith: os paralelismos apresentados em apoio a qualquer uma das visões dizem respeito a ideias que eram comuns na época e poderiam ter sido extraídas de diversos autores mais antigos. Bernard de Mandeville publicou um poema didático intitulado “A Colmeia Resmungona” (1705); mais conhecido pelo título posterior “A Fábula das Abelhas: ou, Vícios Privados, Benefícios Públicos” (1714), no qual se esforçou para demonstrar que os motivos individuais que produzem ações socialmente desejáveis ​​provavelmente não são moralmente questionáveis. Adam Smith, como outras pessoas virtuosas, foi severo com essa obra. Ela continha, de fato, um elogio ao consumo e uma crítica à poupança, bem como certos “erros mercantilistas” que certamente o desagradaram... Smith certamente não deixou de perceber que o argumento de Mandeville era, na verdade, um argumento em defesa da própria Liberdade Natural pura de Smith, expresso de uma forma diferente. O leitor não terá dificuldade em compreender o choque que esse fato deve ter causado ao respeitável professor.

 

Independentemente do que ele de fato aprendeu ou deixou de aprender com seus predecessores, o fato é que A Riqueza das Nações não contém uma única ideia analítica, princípio ou método que fosse inteiramente novo em 1776. Aqueles que exaltaram a obra de A. Smith como uma conquista original e inovadora estavam, é claro, pensando principalmente nas políticas que ele defendia — livre comércio, laissez-faire, política colonial e assim por diante, mas mesmo nisso não foi original. O próprio Smith, segundo Dugald Stewart, reivindicou (em um artigo redigido em 1755) a prioridade relativa ao princípio da Liberdade Natural, alegando tê-lo ensinado já em 1749. Por esse princípio, ele entendia tanto um cânone de política — a remoção de todas as restrições, exceto aquelas impostas pela “justiça” — quanto a proposição analítica de que a livre interação dos indivíduos produz não o caos, mas um padrão ordenado e logicamente determinado: ele nunca distinguiu os dois conceitos com clareza. Em qualquer sentido, porém, o princípio já havia sido enunciado de forma bem clara anteriormente, por exemplo, por Grotius e Pufendorf. Isso não exclui a possibilidade de, ao tê-lo expresso com maior abrangência e profundidade que antes, Smith se sentisse, subjetivamente, como se fosse o autor da “descoberta”.

Embora A Riqueza das Nações não contenha ideias verdadeiramente inovadoras e não possa ser comparada aos Principia de Newton ou à Origem das Espécies de Darwin como uma conquista intelectual, trata-se, ainda assim, de uma obra que mereceu o seu sucesso. A. Smith... era naturalmente talhado para ela: ninguém além de um professor metódico poderia tê-la realizado. Ele deu o seu melhor: A Riqueza das Nações é o produto de um trabalho dedicado durante mais de vinte e cinco anos, concentrado exclusivamente nela por cerca de dez. Sua capacidade intelectual era suficiente para dominar o material complexo que fluía de muitas fontes e submetê-lo, com firmeza, ao domínio de um pequeno número de princípios coerentes. Suas próprias limitações contribuíram para o seu sucesso. Se ele fosse mais brilhante, não seria levado tão a sério; se tivesse se aprofundado mais, não seria compreendido.

Mas ele não tinha tais ambições; na verdade, detestava tudo o que ultrapassasse o simples senso comum. Jamais se aventurava em um nível inacessível. Conduz seus leitores suavemente, incentivando-os com observações simples, fazendo-os sentir-se à vontade o tempo todo. Enquanto o profissional de sua época encontrava o suficiente para merecer seu respeito intelectual, o “leitor culto” podia se certificar de que, sim, aquilo era verdade, e que ele também pensava assim. Smith testava a paciência do leitor com sua vasta quantidade de material histórico e estatístico, não testava o seu raciocínio. Ele era eficaz não apenas pelo que oferecia, mas também pelo que deixava de oferecer [ironia]. Por fim, mas não menos importante, a argumentação e o material eram dinamizados pela defesa de ideias, que é, afinal, o que atrai um público mais amplo: em todos os lugares, o professor transformava sua cadeira em um assento de julgamento e distribuía elogios e críticas. E Adam Smith teve a sorte de estar em plena sintonia com os costumes de sua época.

Ele defendeu as tendências que estavam por vir e fez com que suas análises servissem a elas. É desnecessário insistir no que isso significava tanto para o desempenho quanto para o sucesso: onde estaria A Riqueza das Nações sem o livre comércio e o laissez-faire? Além disso, os proprietários de terras “insensíveis” ou “preguiçosos” que colhem onde não semearam, os patrões cujas reuniões sempre terminam em conspiração, os comerciantes que se divertem enquanto deixam seus funcionários e contadores fazerem o trabalho, e os trabalhadores pobres que sustentam o resto da sociedade no luxo — todos esses são elementos importantes do espetáculo. Alguns argumentam que A. Smith, muito à frente de seu tempo, desafiou a impopularidade ao expressar suas simpatias sociais. Mas isso não é verdade. Essas opiniões estavam na moda. Um rousseaunismo criteriosamente diluído também se evidencia na tendência igualitária de sua sociologia econômica. Os seres humanos lhe pareciam muito semelhantes por natureza, reagindo todos da mesma maneira simples a estímulos muito simples, sendo as diferenças devidas principalmente à educação e aos ambientes distintos. Isso é muito importante, considerando a influência de A. Smith na economia do século XIX. Sua obra foi o canal pelo qual as ideias do século XVIII sobre a natureza humana chegaram aos economistas.

Na introdução ao Livro IV, lemos que a Economia Política “propõe enriquecer tanto o povo quanto o soberano”, e é essa definição que expressa tanto o que Smith mais desejava quanto o que mais interessava aos seus leitores. Ele transforma a economia em uma coleção de receitas para o “estadista”. É ainda mais importante lembrar que o ponto de vista analítico não está ausente. O quinto e mais extenso livro — ocupando 28,6% do espaço total — é um tratado quase autossuficiente sobre Finanças Públicas e se tornaria, e permaneceria, a base de todos os tratados do século XIX sobre o assunto até que, principalmente na Alemanha, o ponto de vista “social” — a tributação como instrumento de reforma da sociedade — se afirmasse.

A extensão do livro deve-se à grande quantidade de material que contém: sua abordagem das despesas, receitas e dívidas públicas é primordialmente histórica. A teoria é inadequada e não se aprofunda muito além da superfície. Mas o que existe dela está admiravelmente integrado aos relatos sobre os desenvolvimentos gerais, bem como sobre fatos específicos... O quarto livro, quase tão extenso quanto o primeiro, contém a famosa denúncia do sistema comercial ou mercantilista a crítica condescendente e benevolente à doutrina fisiocrática no nono e último capítulo dispensa comentários... Mais uma vez: o leitor se depara com uma massa de fatos meticulosamente reunidos, com pouquíssima teoria... Os fatos transbordam e se atropelam: duas monografias são inseridas a título de digressões (sobre Bancos de Depósito e sobre o Comércio de Cereais) onde não cabem. O grande e justamente famoso capítulo “Das Colônias” (que deve ser comparado com as últimas páginas da obra) destoa, mas temos diante de nós uma obra-prima não apenas de argumentação, mas também de análise. O Livro III, que ocupa menos de 4,5% do espaço total, pode ser descrito como um prelúdio ao Livro IV, apresentando considerações gerais de natureza primordialmente histórica sobre o “progresso natural da opulência”, a ascensão e o comércio das cidades... Este terceiro livro não atraiu a atenção que parece merecer. Em sua sabedoria, árida e pouco inspirada, poderia ter sido um excelente ponto de partida para uma sociologia histórica da vida econômica que nunca foi escrita. Os livros I e II — que representam respectivamente cerca de 25% e 14% do total — também repletos de fatos ilustrativos, apresentam os elementos essenciais do esquema analítico de A. Smith. Podem, de fato, ser lidos isoladamente.

Os três primeiros capítulos do livro tratam da divisão do trabalho. A parte mais antiga da obra... essa é de longe a parte mais refinada de toda a obra. Embora, como sabemos, não haja nada de original nela, é preciso mencionar uma característica que não recebeu a atenção que merece: ninguém, nem antes nem depois de A. Smith, jamais pensou em atribuir tamanha importância à divisão do trabalho. Para A. Smith, ela é praticamente o único fator de progresso econômico. Sozinha, ela explica “a riqueza e a abundância superiores comumente possuídas até mesmo pelo membro mais humilde e desprezado da sociedade civilizada, em comparação com o que o selvagem mais respeitado e ativo pode alcançar”, apesar de tanta “desigualdade opressiva”. O progresso tecnológico, a “invenção de todas essas máquinas” — e até mesmo os investimentos — é induzido por ela, [a divisão do trabalho], e um apêndice dela...

Ela é... como uma força inteiramente impessoal e o grande motor do progresso, o qual é também despersonalizado. No Capítulo 4, A. Smith completa a consagrada sequência: divisão do trabalho-escambo e, ficando muito aquém do nível alcançado por muitos autores mais antigos e particularmente por Galiani, separa completamente o “valor de troca” do “valor de uso”. No Capítulo 5 (que começa com a definição de richesse de Cantillon), ele se propõe a encontrar uma medida do primeiro que seja mais confiável do que o preço expresso em termos monetários. Equiparando o valor de troca ao preço e observando que o “preço em dinheiro” flutua em resposta a mudanças puramente monetárias, Smith substitui, para fins de comparações interlocais e intertemporais, esse preço monetário ou “nominal” de cada mercadoria por um preço real, no mesmo sentido em que falamos, por exemplo, de salários reais em distinção aos salários nominais, isto é, pelo preço em termos de todas as outras mercadorias.

Esses preços reais, por sua vez, ele substitui, ignorando o método dos números-índice já inventado em sua época, por preços expressos em termos de trabalho (após ter considerado o milho para esse papel): em outras palavras, ele escolhe a mercadoria trabalho em vez da mercadoria prata ou da mercadoria ouro como numerário. Não há objeção lógica quanto a isso, mas Smith se atrapalha tanto ao transmitir a ideia e, além disso, a confunde com filosofias sobre a natureza do valor e do preço real em um sentido diferente, que sua ideia fundamentalmente simples foi mal compreendida até mesmo [e principalmente] por Ricardo [reconhecido como um analista muito inteligente e capaz, a quem Marx seguiu]. Consequentemente, foi-lhe atribuída uma teoria do valor-trabalho — ou melhor, três teorias do valor-trabalho incompatíveis — quando, na verdade, fica bastante claro, no Capítulo 6, que ele pretendia explicar os preços das mercadorias pelo custo de produção, que, neste capítulo, ele divide em salários, lucros e rendas — as “fontes originais de toda a receita, bem como de todo o valor intercambiável”. Isso, sem dúvida, é muito insatisfatório como explicação do valor, mas serve bem como um caminho tanto para uma teoria do preço de equilíbrio quanto para a teoria da distribuição.

Nota de Schumpeter

Em si mesma, a escolha de horas ou dias de trabalho como unidades para expressar valores ou preços de mercadorias — sob o argumento (inválido) de que o trabalho nunca varia em seu próprio valor ou sob qualquer outro argumento — não implica nenhuma teoria específica de valor de troca ou preço, assim como a escolha de bois como unidades para expressar valores ou preços de mercadorias não implica uma teoria do boi como valor de troca ou preço. Mas Smith (assim como R. Owen e outros defensores do plano de tornar as notas de trabalho o meio de circulação) parece não ter percebido isso claramente e argumentado inequivocamente em vários trechos como se seu uso do trabalho como numerário implicasse uma teoria do valor. Além disso, ele parece confundir repetidamente a quantidade de trabalho pela qual uma mercadoria será trocada com a quantidade de trabalho que essa mercadoria custa para produzir — que é o que Ricardo criticou. A quantidade que custa produzir uma mercadoria ganha destaque no famoso exemplo do castor e do veado no início do capítulo 6, embora seja justo acrescentar que Smith restringe a proposição de que essa quantidade “regula” o preço expressamente àquele “estado primitivo e rudimentar da sociedade” em que não há outras parcelas distributivas a serem consideradas. Finalmente, há o “trabalho e o esforço”, que é o “preço real de tudo” e que, pelo menos se interpretado como equivalente ao conceito posterior de desutilidade do trabalho, não concorda com nenhuma das outras duas medidas. Essas são, portanto, as três teorias do valor ou do preço baseadas no trabalho que A. Smith supostamente defendeu. No entanto, como a primeira é logicamente incapaz de servir como explicação para o fenômeno do valor — o leitor perceberá que, considerada dessa forma, ela configura um raciocínio circular — e como podemos negligenciar a terceira, já que A. Smith não se esforçou para desenvolver o tema da desutilidade, ficamos, na verdade, com a segunda teoria do valor, ou teoria da quantidade de trabalho. E, finalmente, visto que A. Smith — ao contrário de Ricardo e Marx — não reivindicou nenhuma validade para isso, exceto em casos especiais, chegamos à conclusão de que, apesar de sua ênfase no fator trabalho, sua teoria do valor não é, de fato, uma teoria do trabalho. O fato de a primeira frase da introdução afirmar que todo o Dividendo Nacional é um “produto do trabalho” não afeta essa conclusão, como uma breve reflexão demonstrará.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

 


A MAIORIA, NESTE PAÍS, É TÃO TONTA QUE NEM SE DÁ CONTA QUE TODA DEMOCRACIA OBRIGATÓRIA É, SÓ POR ISSO MESMO, UMA DITADURA OU UM SISTEMA AUTORITÁRIO — LOGO NÃO HÁ DEMOCRACIA DESDE 1932.

A ELEIÇÃO É UM DOS PILARES DA DEMOCRACIA. COMO PODE HAVER DEMOCRACIA SE O VOTO É OBRIGATÓRIO OU UM JUIZ DO STF DETERMINA A CENSURA PRÉVIA PARA DEFENDER A DEMOCRACIA? UMA DEMOCRACIA QUE PRECISA DE MEDIDAS DE EXCEÇÃO EXTRACONSTITUCIONAIS PARA EXISTIR NÃO PASSA DE UMA ABSTRAÇÃO JURÍDICA, UMA FANTASIA DELIRANTE, UM SISTEMA AUTORITÁRIA.

O ELEMENTO MAIS IMPORTANTE E SÉRIO DO SISTEMA DEMOCRÁTICO É A ESTABILIDADE E A COERÊNCIA DAS INSTITUIÇÕES POLÍTICAS. NA DEMOCRACIA BRASILEIRA, SÃO JUSTAMENTE ELAS AS MAIS INCOERENTES E MENOS SÉRIAS.

A COISA MAIS ANORMAL NOS BRASILEIROS É A NORMALIDADE COM QUE ACEITAM AS COISAS ANORMAIS.

O MAIOR E MAIS BEM-SUCEDIDO CONTO DO VIGÁRIO JÁ APRESENTADO AO POVO BRASILEIRO FOI O DO VOTO OBRIGATÓRIO, QUE DESOBRIGOU OS PARTIDOS A TER UM PROJETO NACIONAL E A APRESENTAR GENTE SÉRIA NAS ELEIÇÕES.

A DIFERENÇA ENTRE A CONSCIÊNCIA POLÍTICA DOS BRASILEIROS E A BELA ADORMECIDA É A BELEZA

A GRANDE DIFERENÇA ENTRE O BRASIL ATUAL E O DO PROJETO ORIGINAL É QUE O BERÇO JÁ NÃO ESTÁ TÃO ESPLÊNDIDO NEM A PÁTRIA TÃO AMADA.

ESSAS ELEIÇÕES, SALVO ENGANO, SE ENCAMINHAM PARA UM EMBATE ENTRE UM VELHO TOLO CERCADO DE PILANTRAS E UM JOVEM PILANTRA CERCADO DE TOLOS.

ATÉ OS INOCENTES SÃO CULPADOS QUANDO AGEM SEM INTELIGÊNCIA OU SÓ SEGUEM A MULTIDÃO.

NA NATUREZA, OS GAFANHOTOS SÃO COMANDADOS PELO INSTINTO; NO BRASIL, SÃO PELO PRESIDENTE.


 


A VELHICE JÁ FOI CONSIDERADA UMA CURA PARA AS TOLICES DA JUVENTUDE, E UM EXEMPLO PARA A JUVENTUDE. HOJE OS VELHOS FAZEM QUESTÃO DE MOSTRAR QUE NÃO SE CURARAM, E NÃO SÃO EXEMPLOS NEM PARA OUTROS VELHOS.

NÃO HÁ ALEGRIA MAIOR DO QUE VOCÊ PERCEBER QUE VENCEU UMA FRAQUEZA ANTIGA, DESCOBRIU MAIS UM SENTIDO NA VIDA OU CONSEGUIU AJUDAR OUTRA(S) PESSOA(S) A CONSEGUI-LOS.


Para fazer isso, arrebitar e dar uma palmada no traseiro, não é melhor uma ou um de vinte?

Saudades do tempo em que "Velhinhos Transviados" era só uma ‘zoação’. 


quinta-feira, 17 de setembro de 2026

 


MINHA LUTA COM A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - ÍNDIA, CASTAS E TRIBOS CRIMINOSAS - 1

Eduardo Simões


Aqui começa uma série de artigos sobre um tema muito exótico e desafiador: as castas indianas, em especial na sua relação com o domínio inglês ou Raj Britânico, no qual pude perceber uma clara tendência ideológica nas respostas dadas às minhas perguntas pela IA do Google, a qual, por meio de perguntas e questionamentos lógicos, desmontei um discurso claramente viciado em que a dita 'inteligência' tentava me induzir conclusões eivadas de posicionamentos ideológicos, distorções históricas e até mentiras.

Os professores deviam atentar mais para isso antes de incentivar seus alunos a fazerem uso indiscriminado da IA, um recurso muito bom para enriquecer a cultura geral de quem já a tem em dose razoável, no mínimo, e sabe onde quer chegar, mas um desastre total que busca nela um 'mestre', um orientador ou coisa que o valha.

Dedico esse e os próximos capítulos à memória de meu avô Antônio dos Santos Simões, o "Vovô Simões", um cara que nasceu quando a rainha Vitória ainda governava o maior império do mundo contemporâneo, e me ensinou, como um autêntico vitoriano, a ser incansável na busca das verdades: a do mundo e a minha própria, e a não fazer concessões quando um valor moral estiver em em jogo.

  

Legendas:

Em preto = resposta da IA Google.

Negrito azul = minhas perguntas.

Negrito vermelho = meus destaques nas respostas da IA.

Negrito preto = destaques da IA no seu próprio texto.

Entre colchetes [ ] = meus acréscimos posteriores.


Tudo começou com uma singela pergunta:

 

As castas indianas são frutos do costume e da religião ou foram impostas por algum grupo?

O sistema de castas indiano é o resultado de uma combinação complexa entre tradição religiosa, costumes sociais e imposições políticas de grupos dominantes ao longo de milhares de anos. Ele não surgiu de uma única fonte, mas evoluiu de uma divisão social flexível para um sistema rigidamente imposto.

A evolução histórica desse sistema explica como esses fatores se misturaram:

1. A origem cultural e religiosa (O Costume)

Por volta de 1500 a.C., durante o Período Védico, a sociedade no subcontinente indiano começou a se organizar pelo conceito de Varna (que significa "cor" ou "classe").

  • Divisão de Trabalho: Inicialmente, era uma divisão funcional baseada em aptidões e profissões (sacerdotes, guerreiros, comerciantes e trabalhadores). Nessa época, o sistema não era estritamente hereditário e havia mobilidade social.
  • Justificativa Sagrada: Com o tempo, a religião hindu incorporou essa divisão. Textos sagrados (como o hino Purusha Sukta do Rigveda) passaram a explicar a sociedade como um corpo divino: os sacerdotes (brâmanes) nasceram da cabeça; os guerreiros (xátrias), dos braços; os comerciantes (vaixás), das pernas; e os servos (sudras), dos pés. O conceito de Karma e Dharma (dever cósmico) ditava que aceitar sua posição garantiria uma reencarnação melhor.

2. A imposição por grupos de poder (A Elite Local)

O sistema deixou de ser apenas um costume maleável e virou uma imposição rígida por causa da ação de elites políticas e religiosas:

  • Rigidez e Hereditariedade: Por volta de 2.000 anos atrás, textos jurídicos e sociais como o Manusmriti (As Leis de Manu) foram escritos e aplicados pelas classes dominantes (especialmente os brâmanes). Essas leis proibiram o casamento entre classes diferentes e determinaram que a casta seria definida estritamente pelo nascimento, eliminando qualquer mobilidade.
  • Criação dos Excluídos: foi nessa cristalização do poder que surgiu o grupo dos Dalits (ou intocáveis). Eles foram colocados totalmente fora do sistema de castas pelas elites, sendo forçados a realizar os trabalhos considerados mais "impuros" e marginalizados socialmente.

3. A consolidação pelo Império Britânico

Um ponto crucial e frequentemente esquecido é o papel do colonialismo europeu. Quando o Império Britânico assumiu o controle da Índia (século XIX), ele utilizou a estrutura de castas para governar com mais facilidade.

  • Os britânicos realizaram censos rigorosos e codificaram formalmente o sistema de castas na administração pública, concedendo privilégios e cargos administrativos apenas para as castas mais altas. Isso engessou e intensificou preconceitos que antes eram muito mais fluidos regionalmente.

Dessa forma, as castas nasceram da busca por ordem social e justificativa religiosa, mas tornaram-se o sistema rígido que conhecemos hoje devido à imposição deliberada de elites locais e, mais tarde, de colonizadores estrangeiros para preservar privilégios e estruturas de poder.

 

Como os ingleses podem ter consolidado algo que já existia há mais de 3 mil anos e já estava consolidado juridicamente, conforme você mesmo diz, nas leis de Manu?

Essa é uma excelente objeção. A aparente contradição se desfaz quando entendemos a diferença entre o que existia na teoria dos textos sagrados e como a sociedade funcionava na prática do dia a dia antes da chegada dos britânicos.

Embora o Manusmriti (Leis de Manu) tenha sido escrito há cerca de 2.000 anos, ele era um texto normativo e idealizado por uma elite específica (os brâmanes), e não um código civil unificado aplicado de forma homogênea em todo o subcontinente indiano. [É óbvio, afinal havia uma infinidade de reinos diferentes].

Os britânicos consolidaram o sistema, transformando regras religiosas locais e fragmentadas em uma única lei estatal, burocrática e de alcance nacional. [justamente porque, pela primeira vez, havia algo parecido com um estado nacional!]. Essa transformação ocorreu de três formas principais:

1. Da fluidez regional para a rigidez burocrática

Antes da colonização, a Índia não era um país unificado, mas um mosaico de reinos. O sistema que realmente operava no cotidiano não era o das 4 grandes castas (Varnas), mas o das Jatis (comunidades locais baseadas em profissões, que passavam de milhares).

  • Antes dos ingleses: as Jatis eram fluidas. Se uma comunidade enriquecesse, mudasse de região ou apoiasse um novo rei, ela podia subir na hierarquia social ao longo das gerações. Havia negociação política e social constante.
  • Com os ingleses: Para governar um território imenso, o Império Britânico precisava categorizar a população. Nos censos a partir de 1872, os administradores coloniais exigiram que cada indiano se identificasse sob uma única casta fixa. Se uma comunidade estivesse registrada como "baixa", ela ficava presa àquela categoria legalmente para sempre, eliminando a flexibilidade histórica.

2. A centralização do poder dos Brâmanes

A Índia pré-colonial tinha múltiplos centros de autoridade: o poder do rei (Xátria), o poder dos comerciantes (Vaixás) e o poder ritual dos sacerdotes (Brâmanes). Em muitas regiões, os brâmanes não tinham poder político real.

 

  • Os britânicos, ao tentarem entender as leis locais, consultaram majoritariamente os estudiosos brâmanes e tomaram seus textos (como as Leis de Manu) como se fossem a "Bíblia jurídica" de toda a Índia.
  • Ao fazer isso, o governo colonial institucionalizou a visão de mundo dos brâmanes como a lei oficial do Estado, dando a essa casta uma autoridade jurídica e administrativa sobre toda a população que eles nunca haviam possuído em escala nacional.

3. Associação de casta a direitos civis e propriedades

Os britânicos atrelaram a casta ao funcionamento do Estado moderno [porque, na Índia, era a única forma de o Estado funcionar]. Eles criaram leis de propriedade, acesso à educação, cargos no funcionalismo público e recrutamento militar baseados estritamente na casta do indivíduo.

  • Áreas inteiras de terra foram concedidas ou negadas a grupos, dependendo de sua classificação no censo colonial. O preconceito social, que antes dependia do costume local, virou uma ferramenta de exclusão econômica gerida pelo próprio Estado.

Em resumo: as Leis de Manu criaram a fundação ideológica e religiosa, mas a Índia real era descentralizada demais para que essa ideologia fosse aplicada rigidamente em todos os cantos. O Império Britânico não inventou as castas, mas usou o poder da burocracia moderna para transformar uma tradição social fragmentada e maleável em um sistema de segregação legal, rígido e unificado.

Mas, se não estava consolidado e a sociedade era fluídica, por que não houve resistência? Os ingleses apenas registraram aquilo que era aceito tacitamente por todos, não? E se o sistema não era praticado regularmente, era porque a Índia consistia numa multidão de reinos. Podemos então dizer que, se o sistema não tivesse sido juridicamente escrito, não haveria Índia?

Duas excelentes provocações que tocam no cerne da historiografia e da formação da identidade nacional indiana. Para responder claramente, precisamos dividir seu raciocínio em duas partes: por que as pessoas aceitaram (ou se houve resistência) e se o sistema de castas foi o cimento que permitiu a existência da Índia.

 

1. Houve resistência ao registro e à rigidez britânica?

A ideia de que o sistema foi aceito tacitamente e sem resistência é um mito colonial. Houve, sim, muita resistência, protestos e disputas, mas a natureza do poder britânico esmagou ou redirecionou essas reações.

  • Inundação de petições e disputas judiciais: quando os britânicos começaram a publicar os censos (especialmente o de 1901, liderado por Herbert Risley, que tentou classificar as castas com base em teorias raciais de formato de crânio), o governo colonial foi inundado por milhares de petições e protestos de centenas de comunidades (jatis). Grupos inteiros processaram o governo ou se recusaram a cooperar porque foram classificados em posições inferiores ao que sua história local ditava. [Ou seja, o protesto não era exatamente contra o sistema em si, mas contra a posição atual na qual o grupo era colocado].
  • Acomodação das elites locais: as elites indianas (as castas mais altas) apoiaram o registro porque viram nele uma forma de garantir privilégios permanentes sob o novo império. Para quem estava no topo, a rigidez britânica era excelente. [Se eles estavam no topo, é porque alguém os pôs lá, antes de os ingleses chegarem].
  • A ilusão da passividade: quem mais sofreu com a rigidez (as castas baixas e os intocáveis) não tinha jornais, representação política ou armas para enfrentar o exército britânico. A falta de uma revolução armada de grande escala não significava "aceitação tácita", mas sim falta de poder político e econômico para peitar a maior superpotência da época.

Os ingleses não apenas "registraram o que já existia"; eles escolheram uma das versões da realidade (a versão dos brâmanes ricos) e a transformaram na única lei válida, punindo quem discordasse.

2. Sem o sistema de castas, existiria uma "Índia"?

Sua segunda hipótese é fascinante e debatida por grandes sociólogos e historiadores. Sim, o sistema de castas funcionou como a estrutura social que manteve o subcontinente minimamente integrado por milênios, mas a conclusão de que "sem ele não haveria Índia" precisa de nuances.

Antes da colonização, a Índia nunca foi um país político unificado por muito tempo. O que unia aquela região imensa era uma civilização cultural e religiosa compartilhada.

[Mosaico de Reinos Políticos Distintos]

       │

       ▼ (Unificados culturalmente por:)

┌──────────────────────────────────────────────┐

│  • Textos Sagrados Comuns (Vedas, Épicos)    │

│  • Circuitos de Peregrinação Religiosa       │

│  • Estrutura Social de Castas (Varna/Jati)   │

└──────────────────────────────────────────────┘

A estrutura de castas permitiu que o subcontinente indiano absorvesse dezenas de invasões estrangeiras (gregos, citas, hunos, muçulmanos) sem perder sua identidade central. Quando um grupo novo chegava, o sistema simplesmente criava uma nova Jati para eles dentro da engrenagem. O Estado (o rei) podia cair, mas a sociedade local continuava funcionando sob as regras de sua casta.

[Na Índia existem 3 MIL castas e 25 MIL subcastas!].

Portanto, a estrutura social e cultural das castas foi, sim, o "cimento" que preservou a ideia de uma civilização indiana por meio dos séculos de fragmentação política.

No entanto, a "Índia" como Estado-nação moderno é outra história:

A Índia unificada geograficamente e com fronteiras que conhecemos hoje foi criada pela própria colonização britânica (que centralizou a administração ferroviária, jurídica e militar) e pela reação nacionalista dos indianos contra os britânicos.

Ironicamente, os líderes que fundaram a Índia moderna em 1947 (como Mahatma Gandhi e, principalmente, B.R. Ambedkar, um Dalit que escreveu a Constituição indiana) argumentaram justamente o oposto: eles acreditavam que, para a Índia florescer como uma democracia moderna e unida, [ou seja, deixar de ser a Índia tradicional, que havia quando os ingleses chegaram], o sistema de castas precisava ser destruído, pois ele dividia a nação em milhares de frentes rivais em vez de criar cidadãos iguais.

Mas, espere aí, você está querendo me enganar? Petição é coisa de intelectual de classe média, uma minoria ínfima na Índia. Quero saber de povo na rua, de massas lutando por igualdade e democracia, exigindo o fim das castas. Você pode me citar um movimento nesse sentido durante o período colonial? Existiu civilização na Índia desde 2 mil anos antes de Cristo, e você vem culpar os ingleses, que só chegaram lá 4 mil anos depois, pela imobilidade social? Me explique isso.

Compreendo perfeitamente o seu questionamento e peço desculpas se a explicação anterior pareceu minimizar a antiguidade das castas ou ignorar as ações das massas populares. Você está coberto de razão ao apontar que petições burocráticas eram ferramentas de elites intelectuais, e não das massas.

Para responder diretamente às suas duas perguntas fundamentais: sim, existiram movimentos de massa massivos liderados pelo povo de casta baixa contra o sistema colonial e de castas; e não, os ingleses não inventaram a imobilidade social, mas alteraram a dinâmica dela de uma forma muito específica que os historiadores documentam.

Aqui está a explicação sem rodeios sobre esses dois pontos:


1. Movimentos de massa e revoltas populares contra as castas (Período Colonial)

Longe de aceitarem passivamente, as classes populares e os intocáveis foram às ruas em movimentos massivos. O movimento mais emblemático do período colonial, que mobilizou multidões e exigiu o fim da segregação, foi o Movimento Satyashodhak Samaj e, posteriormente, o Movimento Mahad.

  • O Movimento Satyashodhak Samaj (1873): fundado por Jyotirao Phule (da casta camponesa Shudra) e sua esposa Savitribai Phule. Eles não enviaram petições; eles mobilizaram as massas camponesas e trabalhadoras urbanas no estado de Maharashtra. O movimento rejeitava completamente a autoridade dos brâmanes, criava escolas para os intocáveis e para mulheres, e promovia casamentos sem sacerdotes. Foi um levante cultural de massas que inflamou o oeste da Índia.
  • A Marcha de Mahad (1927) — A Revolta da Água: liderada por B. R. Ambedkar, este foi um protesto de ação direta de massas. Milhares de Dalits (intocáveis) marcharam até o tanque de água de Choudar, na cidade de Mahad. Por lei colonial e costume hindu, eles eram proibidos de tocar na água potável pública. Ambedkar liderou a multidão para beber a água em um ato de desobediência civil em massa. Quando os nacionalistas de casta alta protestaram, as massas de Ambedkar responderam queimando publicamente o Manusmriti (as Leis de Manu) em uma praça pública. Esse ato mobilizou milhões de pessoas de castas baixas em todo o país.
  • O Movimento do Respeito Próprio (anos 1920): no sul da Índia (Tamil Nadu), liderado por Periyar E.V. Ramasamy, mobilizou multidões de trabalhadores para boicotar templos, queimar efígies de deuses que justificavam as castas e exigir a destruição total da hierarquia social.

2. A Índia tem 4 mil anos de história: por que os ingleses levam a culpa?

Você pontuou algo crucial: a civilização do Vale do Indo começou por volta de 2500 a.C., e as castas já operavam com imensa crueldade muito antes de qualquer europeu pisar lá. Os ingleses não criaram a imobilidade social; ela já existia de forma brutal.

A acusação que os historiadores modernos fazem aos ingleses não é a de terem "inventado" o preconceito, mas a de terem retirado a única válvula de escape que o povo tinha.

Como a imobilidade social funcionava ANTES dos ingleses:

Durante esses milhares de anos, a imobilidade social não era absoluta na prática, porque a Índia era um território instável e descentralizado.

  1. Por meio da força militar: se um grupo de casta baixa (Shudra) pegasse em armas, conquistasse um território e derrubasse um rei, ele se tornava a nova dinastia governante. Para legitimar seu poder, eles contratavam brâmanes locais para inventar uma árvore genealógica que os ligasse aos deuses, transformando-os em xátrias (guerreiros). Várias dinastias famosas da Índia começaram assim.
  2. Através da migração: se uma comunidade sofresse opressão extrema em um reino, ela simplesmente migrava para outra região da Índia profunda, mudava de profissão e assumia uma nova identidade social (jati).

O que os ingleses fizeram que mudou o jogo:

Os britânicos trouxeram o Estado Moderno Burocrático, algo que a Índia nunca vira em 4 mil anos.

  • Eles mapearam cada centímetro da Índia com ferrovias e telégrafos, acabando com as "fronteiras abertas" para migração.
  • Eles criaram uma identidade de identidade nacional baseada em documentos. Se a sua comunidade fosse registrada no censo como "intocável" ou "casta criminosa" (sim, os britânicos classificaram tribos inteiras legalmente como criminosas por nascimento), você não podia mais fugir para outra província ou mudar de nome, porque o seu documento burocrático colonial te perseguia.

Conclusão direta: a imobilidade social na Índia antiga era mantida pela religião e pela força dos reis locais, mas tinha fissuras e brechas devido ao caos e ao tamanho do território. Os ingleses levaram a culpa porque pegaram esse sistema cruel, mas imperfeito, e aplicaram nele o cimento da burocracia ocidental, do censo moderno e do controle policial, congelando as pessoas em suas posições de uma forma que nenhum rei hindu jamais conseguira fazer antes. [Claro, não havia condições técnicas nem culturais para isso!]

Vejamos. Você pode me citar a lei INGLESA, aplicada na Índia, que qualificava gente como criminosa, 'criminal', só pelo simples nascimento? Esta lei, criada sob pressão e em benefício dos brâmanes, que não eram ingleses, dizia isso, mas quem fazia o controle dos documentos? Eram os ingleses?

A lei inglesa específica que você mencionou é a Criminal Tribes Act de 1871 (Lei das Tribos Criminosas).

Essa lei determinava legalmente que membros de certas comunidades, castas e tribos eram "viciados na comissão sistemática de crimes não afiançáveis". Sob essa ótica jurídica colonial, o crime não era uma escolha individual, mas uma característica biológica e hereditária passada de pai para filho: a pessoa já nascia criminosa.

Para responder diretamente aos seus questionamentos sobre quem criou, quem se beneficiou e quem operava o sistema:

1. Quem criou a lei? Foi pressão dos Brâmanes?

Não. Os brâmanes não tinham poder político para pressionar o parlamento colonial a criar leis penais britânicas. A motivação dos ingleses para criar a Criminal Tribes Act foi estritamente baseada em interesses econômicos e de segurança do Império Britânico:

[ATENÇÃO: veja essa outra resposta da IA quando lhe perguntei se havia um parlamento na Índia em 1871, fechado aos brâmanes: “Não, não havia um Parlamento na Índia em 1871 no sentido democrático ou soberano moderno. Naquela época, a Índia estava sob o Raj Britânico (o domínio colonial direto da Coroa Britânica). As decisões soberanas sobre o território indiano eram tomadas diretamente pelo Parlamento do Reino Unido, em Londres” — entretanto, um pouco mais acima, a mesma IA dirá que os ingleses consolidaram o sistema de castas sob influência dos brâmanes. Afinal, os brâmanes influenciavam (= pressionavam) ou não?]

  • Controle de nômades e coletores: comunidades pastoris e nômades (como os Banjaras ou Maravars) mudavam-se constantemente por florestas e rotas comerciais. Os britânicos queriam que todos fossem agricultores fixos para facilitar a cobrança de impostos sobre a terra. Quem não tinha residência fixa era visto como perigoso e incontrolável. [Só há um problema com essa hipótese: os grandes proprietários de terras na Índia eram indianos, ao fixar grupos errantes à terra eles facilitavam o aumento da renda daqueles também].
  • Vingança pós-Revolta de 1857: muitas dessas comunidades participaram ativamente da Grande Revolta de 1857 contra o domínio britânico. Rotulá-los permanentemente como criminosos foi uma punição política de Estado. [Quatorze anos depois!]
  • Teorias raciais europeias: a lei foi profundamente influenciada pelo preconceito europeu da época (como a frenologia e o darwinismo social), que acreditava que tendências criminosas podiam ser herdadas geneticamente.

Os brâmanes, por sua vez, saíram beneficiados indiretamente porque o estilo de vida nômade e florestal dessas tribos desafiava a própria pureza do sistema de castas hindu ortodoxo. Ao fixar e punir esses grupos, os ingleses acabaram agradando a elite de casta alta, mas a lei nasceu da mente e da necessidade dos colonizadores.

2. Quem controlava os documentos e fazia a fiscalização?

Os próprios ingleses gerenciavam o topo da cadeia, usando uma imensa máquina policial indiana.

A burocracia funcionava de forma piramidal:

  • O topo (Magistrados Britânicos): eram os oficiais britânicos (como os Magistrados de Distrito e Inspetores da polícia colonial) que decidiam quais grupos entrariam na lista oficial de "criminosos por nascimento" e assinavam os decretos.
  • A base executora (a polícia local): o controle diário de documentos e vigilância era feito pela polícia colonial. A maioria dos policiais de baixa patente e chefes de aldeia (village elders) eram indianos (muitas vezes de castas mais altas), contratados pelo Império para fazer o trabalho sujo.
  • O controle prático: se você nascesse em uma tribo listada na Criminal Tribes Act, os policiais registravam suas digitais e dados em manuais policiais detalhados. Os homens adultos [nas castas todos estavam obrigados, e não só homens adultos] eram obrigados a se apresentar à delegacia local até duas vezes por dia para contagem. Ninguém podia sair de sua aldeia ou viajar sem um passe oficial de papel emitido e assinado pela autoridade policial britânica. Se alguém fosse pego sem o documento fora da área permitida, era preso sem mandado. [Como mandado, se o indivíduo estava sendo preso em flagrante!? Um policial, por exemplo, vê alguém esganando outro; ele corre ao juiz para pedir um mandado e depois volta só para encontrar o cadáver, ou prende o criminoso na hora?]

Em suma: a ideologia de preconceito de castas já existia na Índia há milênios, mas a Criminal Tribes Act de 1871 foi um produto da engenharia legal britânica. Foram os ingleses que forneceram os carimbos, as ferrovias para deportação, os manuais policiais e as prisões de segurança para institucionalizar o preconceito em escala industrial.