terça-feira, 30 de junho de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA - 29

O que era Canudos?

Lendo alguns autores, Canudos parece um País das Maravilhas, meio El Dorado, meio Terra do Nunca, onde se vivia em paz, prosperidade, igualdade, democracia e socialismo, longe desse insensato mundo que costumamos chamar de realidade, como se a fantasia pudesse existir fora dos nossos sonhos.

Ultimamente, alguns estudiosos passaram a ver Canudos como um projeto “revolucionário”, construído conscientemente para afrontar a realidade injusta da sociedade rural brasileira do final do século XIX. Seus habitantes, revolucionários precoces, pressionavam as autoridades e donos de latifúndios por distribuição de terras. Isso era praticado em Canudos, onde as condições de vida eram melhores que nas fazendas do entorno; guiados por um homem de sensibilidade social, inteligência e iniciativa acima da média, destruído por um Estado a serviço de uma classe opressora.

Considerando o arranjo das edificações de Canudos, com as duas igrejas e cemitérios como as edificações mais destacadas, separadas e envoltas por espaços vazios, como praças, cercadas das casas da população privilegiada. Em volta delas espalhava-se uma enorme quantidade de casario irregular, no qual se abrigava a parcela pobre da população. A gente se vê remetido aos antigos centros cerimoniais na América Andina, na Mesoamérica e até na Anatólia, com duas diferenças: as obras de engenharia hidráulica e planejamento urbano desses centros antigos, que faltavam em Canudos. Sem falar que, enquanto os antigos centros eram ilhas de tecnologia de ponta na sua época, Canudos estava cercada de tecnologia mais avançada do que a que havia nela.

É preciso considerar que os centros cerimoniais eram, antes de tudo, pontos aglutinadores de populações dispersas, para as quais eram sinais de unidade, de identidade, a partir da resposta dada àquilo que sempre foi, e a arqueologia o comprova, a necessidade mais básica do ser humano: uma resposta para o sentido da vida neste mundo e no outro. Conselheiro, em Canudos, oferecia uma resposta muito incisiva e adequada à cultura sertaneja da época sobre isso.

Canudos era a manifestação da perplexidade dos sertanejos diante das mudanças do século, do seu abandono pelas autoridades constituídas, pela sociedade urbana brasileira em geral, e de sua dificuldade em decodificar e assimilar as regulamentações e as leis disfuncionais criadas nos centros políticos. Mas Canudos também representava o desejo do sertanejo de recuperar e/ou consolidar a sua identidade tradicional. A distância entre eles e a elite das cidades era tal que mesmo aquilo que era pensado, por essa elite, como uma vantagem para esse povo, se tornava desvantagem, como, por exemplo, as eleições e os direitos políticos.

Durante o Império, como as eleições eram acessíveis somente aos mais ricos, os grandes senhores de terras preocupavam-se apenas em cobrar produtividade de seus trabalhadores, além de braços para as eventuais lutas de vizinhos, de sorte que, na maior parte do tempo, eles eram deixados em paz.

Com a cidadania doada pelos republicanos, com a finalidade de promover a massa inerte da população, facultando as eleições a todos os homens que soubessem ler e escrever. Os fazendeiros, que, no passado, afirmavam o seu prestígio nas grandes festas de padroeiros e nos casamentos, afirmam-se agora pelo tamanho do séquito de eleitores que conseguem arrebanhar, numa amolação contínua, sem sentido e sem efeito. À exploração do burro de carga, juntava-se a humilhação do eleitor de cabresto, sem atenuar aquela.

Era no rito máximo dessa cidadania artificial que o sertanejo se sentia mais degradado, tratado como coisa sem vontade própria, com um poderoso a lhe dizer: “vote nesse”, “vote naquele”, “fale mal de X, porque é meu adversário”, “não fale mal de X, que agora é meu amigo”. Canudos foi um grito desesperado em busca de identidade e respeito, que a República não sabia dar porque não sabia lidar com essa gente, porque não a conhecia em absoluto, e no final a tratou da única forma para a qual estávamos culturalmente preparados: a violência extrema.

Eu não creio que em Canudos se vivia melhor que nas fazendas do entorno, afinal as terras de Canudos são de baixa produtividade, sem falar no testemunho daqueles que viram as casas em Canudos, como Horcades, Benício, Favilla Nunes, etc., que atestam a sua impressionante miséria. Além disso, as fazendas dos grandes proprietários ficavam nas melhores terras, bem abastecidas de água, onde podia-se plantar uma roça com resultados melhores.

Canudos, pelo tamanho, não era propriamente um arraial, embora a sua organização administrativa, fortemente personalista, lembrasse mais um arraial, e até uma aldeia. E, embora não fosse uma cidade na acepção completa do termo, já se observava nela alguma estratificação social, própria dela. Canudos era uma estrutura em transição, meio arraial, meio cidade, um centro cerimonial a caminho de se tornar cidade, um foco de civilização sertaneja, apartada do resto do país, que para eles não lhe fazia sentido.

Quando se quer falar sobre o seu tamanho, os estudiosos seguem Euclides da Cunha, que, por sua vez, segue automaticamente a contabilidade de Arthur Oscar, de cerca de 5.200 casas, “cuidadosamente contadas”. Calculando uma média razoável de 5 pessoas por casa, teríamos algo em torno de 25 mil habitantes — alguns autores especulam até 35 mil. Uma gigantesca e invisível metrópole numa das áreas mais inóspitas do semiárido.

O relatório de Oscar, entretanto, oferece dificuldades:

1º — A cidade foi submetida a um intenso bombardeio de artilharia, cuja intensidade deve ter sido considerável, revolvendo muitas casas, o que dificultava a contagem.

2º — Outro fator importante foi a pressa com que Arthur Oscar abandonou o local; e, a esse respeito, Marco Antonio Villa, em Canudos o povo da terra faz observações interessantes:

2.1 — Os combates acabaram no final da tarde (16:00h) do dia 5.

2.2 — Havia incêndios grassando no que sobrou e montes de cadáveres espalhados pelo solo.

2.3 — Na manhã seguinte, logo cedo, teve início a destruição completa do que sobrou. Não era mais possível fazer contagem.

A contagem, portanto, foi feita ao final do entardecer, em meio aos incêndios, após vários dias de duros combates, numa área que devia abranger vários quilômetros quadrados. Era humanamente impossível fazer o cômputo de um número tão grande de casas em tão pouco tempo, com pouca luminosidade e circunstâncias tão dramáticas. Lembra as atas eleitorais da época! Mas esse número enorme justificava, para a opinião pública, a dificuldade de um exército formidável em vencer uma gente tão pobre, enquanto ocultava a incompetência de um comandante. Num livro biográfico, que ouso dizer que foi um dos mais indecorosos que já li, o marechal Carlos Eugênio de Andrade Guimarães diz, sem apresentar nenhuma evidência, que seu irmão, Arthur, enfrentou cerca de dez mil homens armados (Arthur Oscar um soldado do império e da república, p. 121). Será que ele acreditava realmente nisso?

2.4 — Os números oficiais, finais, de Canudos são um abismo de contradição: 5.200 casas e 647 corpos de homens contados, contados pelo coronel Dantas Barreto. Muito pouco! Para uma cidade de 25 mil habitantes, toda centrada nas igrejas e mobilizada para a sua defesa. Essa foi uma das duas batalhas, durante a guerra, em que se contou, com certeza, mais de uma centena de mortos entre os canudenses, se o número apresentado pelo Tenente Ferreira não é um chute. Para onde foram os 25 mil habitantes?

As condições climáticas, pedológicas (relativas ao solo), culturais e tecnológicas impunham uma baixa produtividade e impediam que a localidade pudesse abrigar uma população muito grande. Nessa mesma compreensão, milita corretamente Marco Antônio Villa. Nem hoje, apesar do açude de Cocorobó, que impede a seca do Vaza-Barris, das modernas técnicas de fertilização do solo, irrigação e de transporte, etc., foi possível dar ao moderno município de Canudos uma população tão grande — a população em 2025 era quase 17 mil. Dizer que o Conselheiro, com os recursos do final do século XIX, conseguiu isso é um desvario.

O general Carlos Teles, um dos grandes nomes do exército na 4ª Expedição, escreveu algo a respeito no Jornal do Brasil, em 23 de agosto de 1897, ao mesmo tempo em que faz justiça a Moreira César:

“Que Canudos tem somente mil casas (ranchos) ou pouco mais e nunca quatro a cinco mil… Calculo, ao chegar ali a quarta expedição, o número de jagunços em seiscentos no máximo; … eles nunca possuíram balas explosivas [essa informação estava sendo espalhada pelo general Arthur Oscar]; … se não fosse a morte do Coronel Moreira César, Canudos teria sido tomado a 3 de março último.

Pelo número insignificante de armamentos e munições de guerra que então possuíam os jagunços; … O mal causado à quarta expedição foi com as armas e munições abandonadas pela do Coronel Moreira César e por outras anteriores: que calculo em duzentos, no máximo, o número de jagunços existentes em Canudos depois do assalto de 18 de julho findo; … não há ali fim restaurador nem mesmo influência de pessoa estranha nesse sentido; que em Canudos não existe nenhum estrangeiro.”

Um escândalo, portanto, que 600, ou um pouco mais de pobres sertanejos, paralisem um exército com milhares de homens, com armas modernas, canhões e os recursos do Tesouro Nacional. Quem o diz é um dos mais conceituados generais do exército brasileiro, que atuou no conflito.

Em seguida, ele passa a discorrer sobre as baixas da 4ª Expedição, quase repetindo o que disse Honório Vilanova, no livro de Nertan Macedo.

“Não é de admirar o grande número de baixas que teve a segunda coluna [da 4ª Expedição, comandada por Arthur Oscar] nos dias 25, 26 e 27 e... a 28 de junho, considerando-se que os jagunços combatiam em ótimas posições, bem entrincheirados e ocultos nas caatingas, de onde poucos homens bem armados e municiados podem pôr fora de combate centenas de valentes soldados… É certo que os cartuchos queimados não se enchem de novo, mas é também certo que podem ser substituídos por outros tomados aos comboios nas estradas [e isso aconteceu na 4ª Expedição]. Deem a Antônio Conselheiro cinco a dez mil jagunços, dois ou três milhões de tiros e intentos restauradores monarquistas… [como faziam os generais Arthur Oscar e Carlos Eugênio] … [Podem] adulterar a verdade para encarecer Canudos e alarmar o espírito público, a isso não me presto… Bahia, 21 de agosto de 1897” (Walnice Nogueira Galvão, No calor da hora: A Guerra de Canudos nos jornais, (p. 110–112). Cepe Editora. Edição do Kindle.

Ele denuncia claramente uma campanha de desinformação, que aparentemente era encaminhada pelo Comando da 4ª Expedição, com o qual ele rompeu, com o intuito de alarmar a população, gerando mais violência nas cidades e conseguir mais recursos para a guerra. Era uma questão política.

Num artigo do Jornal do Comércio, de 10 de agosto de 1897, Manuel Benício ironiza: “Os jagunços ou são poucos ou adotaram a tática de combater em grupos de cinco a dez. Os próprios assaltantes confessam isso.”

Benício, comentando os números apresentados por Carlos Teles, acima, faz um grande elogio a Moreira César:

“Para S. S. [General Carlos Telles], a terceira expedição teria liquidado Canudos, se não fora a desgraça da morte do distinto Moreira César de saudosa memória. Naquela ocasião, estavam os jagunços mal armados, e agora o estão bem, graças ao armamento e munições tomados àquela malfadada expedição (idem, idem).”

Posteriormente, em seu livro, Benício se unirá aos detratores de Moreira César. Por que ele fez isso se antes estava convencido da ‘saudosa memória’ do coronel? Foi convencido do oposto com o lançamento da parte de Cunha Mattos? Quis ‘apimentar’ a história e turbinar as vendas de seu romance? Foi obrigado a fazê-lo? Lendo os seus artigos no Jornal do Comércio e o seu livro, tem-se a impressão de que existem dois Manuel Benício.

Um relato jornalístico tenta explicar a multiplicação, ou a impressão de um grande número, de conselheiristas, no Jornal de Notícias, de Salvador, de 7 de agosto de 1897, que coincide com o que diz Vilanova em Nertan Macedo:

“Usam eles de uma astúcia em atirar contra os defensores da lei… armam uma trincheira, limitada, e, atirando de um ponto, correm logo para outro e outro” (citado por Walnice Galvão, No calor da hora, Kindle, p. 462).

Quem melhor fundamentou uma contagem sobre o número de casas e de habitantes em Canudos foi Manuel Benício no Jornal do Comércio do Rio, na edição de 12 de agosto de 1897. Diz ele:

Canudos, 18 de julho… Canudos. Tem no máximo duas mil casinholas… Cerca de duas horas estivemos a contá-las [ele e o correspondente do jornal A Notícia do Rio de Janeiro], do Alto da Favela, e não chegamos a mais de 1.200. São casebres sem portas, de parede de taipa [pintadas de vermelho e branco ou cinza]… com cobertura de folhas de icó emboçadas de barro.

Para fazer a vontade dos exasperados… darei a maior: 300 casebres… a eles que nunca tiveram a pachorra de contá-los como eu tive…

Não me convencerão nunca de que Canudos tem 4.000 casas e que estamos brigando com 3.000 jagunços. As casas não passam de dois mil, e aposto todo o ordenado que o jornal me quiser pagar… Dentro de Canudos, nos cinco grupos [de casas] que formam, são três de 200 — bairro cinzento — dois de 300 — bairro vermelho [a soma dá 1.200]. Em derredor de Canudos há outras casas, que não sobem a 200, e que não são metidas em conta… [porque] já foram incendiadas…

Em cada casarepartida com uma sala de três ou quatro metros, que serve também de cozinha, e em um quarto escuro, no máximo podiam habitar cinco pessoas… Visitei… 15 casas destas! Em uma delas encontrei: o capitão Laureano Roco… o alferes Jonas Napoleão… outro alferes [Galdino]… outro alferes que foi ajudante do coronel Flores [Thompson Flores, do 7º BI, morto precocemente]… Para esse casebre levei uma jaguncinha de nove anos, ferida em um pé. Era impossível estarmos ali, tão apertado era o recinto.

Cinco pessoas [por casa], vá!

Vamos dar [com exagero] … 1,5 criança por casa, e 1,5 mulher também por casa e 1,5 homem ainda por casa. Soma, 7.500 pessoas! 8.000, vá! [O número exato, considerando 1.500 casas, seria 6.750].”

Benício também calculou que a 4ª Expedição não enfrentou mais que mil conselheiristas, coincidindo perfeitamente com o número de corpos de homens contados entre as ruínas de Canudos após a sua queda: 647 (Walnice Galvão, No calor da hora…)

Prossegue Manuel Benício caracterizando os grupos humanos que as tropas encontraram na sua ida a Canudos:

Antônio Conselheiro divide-os em classes de sua confiança pessoal. Há a classe dos fanáticos… Esta cerca sempre ele… [gente de] sua maior confiança, armando-a a Mannlicher, etc. [Frei João Evangelista já a notara e calculou-a em uns 800].

Há a dos valentões, bandidos que vivem a explorar as estradas, saqueando, fazendo piquetes [não formavam a Guarda Católica], acoitados nos antros… dispersos [não moravam em Canudos], tiroteando as tropas… os soldados caçadores de bodes, e que fogem ao primeiro tiro certo que recebem.

É a pior jagunçada

Pode-se juntar a essa classe a dos pequenos lavradores e criadores da circunvizinhança… que defendem as suas propriedades atacadas pela força [o exército] para haver alimento a todo transe [comum na 4ª Expedição].

Há ainda os vagabundos, os trabalhadores, que vivem a caçar… a tomar serviços [avulsos], os quais voltam a Canudos, onde deixam as famílias… [Percorrendo] às vezes, vinte léguas de distância do arraial…

Alguns estão armados… [com] espingarda de caça, pica-paus [pequena espingarda carregada pela boca], clavinotes, etc. A duzentos metros não são muito temíveis [a Mannlicher, do exército, tinha o alcance de 500 m].

Agora as mulheres… no combate de 18 [de julho], dia em que muitas foram presas, mortas e outras se entregaram… Nos dias seguintes, magotes delas vieram se entregar, dizendo que, por ordem do Conselheiro” [as mulheres foram entregues à sanha daqueles que o Conselheiro tratava como demônios!].

Isso é uma versão requentada do episódio do Levita e a sua concubina (Jz 19) e de Lote, em Sodoma (Gn 19,8)? Ou é a versão conselheirista de 'mulheres e crianças primeiro'?

A lenda da prosperidade dos habitantes de Canudos veio da abundância de comida e objetos encontrada nas casas ocupadas pelos soldados de Moreira César. Tal confusão ocorre porque os soldados da 3ª Expedição invadiram as casas próximas das igrejas, que pertenciam à elite local: os comerciantes, os principais proprietários, os quase burocratas da Santa Companhia e assistentes próximos do Conselheiro.

Isso desmente o mito de uma sociedade igualitária, pois a maior parte da população, as 'classes produtoras', vivia numa pobreza espantosa, do ponto de vista de quem vivia em cidade, mas que era natural do semiárido. Os sertanejos não viam, nisso, motivo de vergonha ou sentimentos de inferioridade, pois eles não se viam pobres, e não concebiam um mundo diferente do seu, exceto como anarquia ou afastamento de Deus. Sua confiança e generosidade são muito puras, assim como o seu ressentimento e desejo de vingança, quando se sentem traídos ou ameaçados.

O militar e jornalista Favila Nunes fez o seguinte informe no Gazeta de Notícias, do Rio, em 5 de outubro de 1897:

“As portas [das casas] são tão pequenas que é preciso abaixar-se a cabeça para transpô-las; estendendo-se o braço para cima, toca-se quase a cumeeira; os caibros e ripas são seguros com cordas ou com cipós, as dobradiças das portas e microscópicas janelinhas são de sola [couro], na sua quase totalidade não têm reboco nem caiação, interna ou externa; é um aldeamento de barro, eis o que são as casas de Canudos” (Walnice Galvão, idem, p. 249).

O jornalista Favilla Nunes escreveu o seguinte, na edição de 1º de janeiro de 1898 do jornal Gazeta de Notícias, do Rio:

“Uma população enorme não tinha uma cadeira, uma mesa, uma só cama!… Os combatentes não souberam utilizar-se de quatro canhões Krupp 7,5 e não sabiam fazer uso da alça de mira das carabinas que nos tomaram [Como acertaram Moreira César a 400 metros?].

Viviam na mais absoluta miséria e morreram de fome e sede, sem ter… quem lhes fizesse um curativo.”

Entre as casas da elite se destacava a dos irmãos Vilanova, descrita no jornal A Notícia de 29 de setembro de 1897: “algumas constituem magníficas habitações cobertas com telhas francesas. A do célebre bandido Vilanova, por exemplo, é muito forte, não tendo até agora a artilharia conseguido destruí-la” (citado por Walnice Guerra, No calor da hora…, Kindle, p. 571).

Lelis Piedade, do Jornal de Notícias, também notou a imponência da casa.

“A casa de Vila Nova era uma trincheira fortíssima, bem armada, bem municiada (idem, idem, p. 540).”

Alvim Horcades, em seu livro Descrição de uma viagem a Canudos, de 1899, p. 179, fala que a casa onde morava o Conselheiro, que ele chamou de casa-trincheira, tinha paredes de pedra de mais de um metro de largura.

“Algumas [casas] havia que tinham espessas paredes, porém arranjadas [creio que ele quis dizer ‘arrancadas’] na ocasião da investida feita pela força, pois constavam elas de uma sólida estacada cheia de grandes pedras que impediam a perfuração por qualquer projétil [a casa dos Vila Nova era assim]. Dentre todas, menciono destacadamente 3 destas casinholas, que serviam de morada ao Santo Conselheiro e eram conhecidas pelo nome de Santuário; estas tinham paredes trincheiras (pois bem mereciam ser assim denominadas), que mediam pouco mais ou menos um metro e meio de sólidas pedras e onde o bandido-chefe colocara toda a sua santaria [imagens de santos].”

Noutras palavras. Assim como não faz sentido vê-los como pobres coitadinhos, por causa da ausência de objetos e serviços comuns em uma cidade grande, tampouco faz sentido propalar que havia em Canudos uma sociedade igualitária e próspera, a caminho do socialismo, conforme as expectativas, anseios e alucinações importadas do pensamento europeu do século XIX.

Eduardo Simões

 


Foto-síntese: 2 jogadores holandeses contra um africano, mas só um é branco — a Holanda é tradicionalmente um país de gente branca, com fama de ser historicamente racista.

A CRISE DEMOGRÁFICA CHEGOU AO FUTEBOL?

Eduardo Simões

É dia de zebra ou é dia de lógica?

Ontem, 29 de junho, a Alemanha foi eliminada nos pênaltis pelo modesto Paraguai e a Holanda pela sensação da copa de futebol, embora nada tradicional nesse esporte, Marrocos.

O que a biologia e a probabilidade matemática teriam a dizer sobre esses resultados tão surpreendentes, se descartarmos a princípio qualquer suposição de superioridade racial, considerando que a inteligência ou o físico, superiores, isolados um do outro, não são suficientes para garantir um resultado que está se tornando comum: nações pobres e sem tradição em determinados esportes começam a deslocar campeões tradicionais.

Não dá para negar que, em que pese o ‘amor’ ao futebol ser importante, o peso de uma boa estrutura de suporte é fundamental e nesse ponto os países da Europa, em especial a Alemanha, dão uma lição em qualquer seleção da África ou da América Latina. Mas há um fator que pode, até em condições mínimas adequadas, superar a vantagem das estruturas físicas: o talento.

Chamo de talento o conjunto de elementos biológicos e mentais, entre os quais coloco a autoconfiança ou a automotivação e a socialização, que, associados a fatores físicos como: capacidade de reação, de explosão muscular, capacidade de recuperação, etc., fazem o ‘craque’, o jogador diferenciado. Mas há um grande problema nisso. Esses fatores, que são orgânicos (= físicos e mentais), aparecem em indivíduos ‘escolhidos’ aleatoriamente pela natureza, em imensas amostragens. São fenômenos raros!

E o que acontece se as amostragens diminuem, pela redução drástica da oferta de indivíduos à sociedade, visível na queda do índice de fecundidade? Cai tanto a possibilidade de um craque como de jogadores talentosos, que possam dar suporte a esse craque em esportes coletivos. Aí a gente entende por que quase metade do elenco da Holanda é negro, e bem menos na Alemanha; embora neste caso, constituam a base da seleção principal e mais da metade do time: Rudiger, Tah, Musiala — o craque do time — Sané, Nmecha, Brown.

Vai ser muito difícil aparecer um jogador branco craque ou um time de bom nível na Holanda ou na Alemanha, onde há mais de 50 anos o índice de fecundidade é inferior à taxa de reposição, enquanto o Marrocos só agora enfrenta esse problema. O  Paraguai ainda consegue repor o que perde com alguma sobra (2,4).

Contra esses jogadores 'diferentes', nessas seleções, pode existir a pressão por serem, em geral, imigrantes ou filhos de algum. Será que isso não dificulta os contatos com os 'nativos' brancos, reduzindo a sua iniciativa, fundamental nos momentos difíceis? Qual será a reação da população local com Tah, que perdeu o pênalti decisivo, e com Kluiver, Summerville e Timber, da Holanda, que perderam seus pênaltis?

Se esse for o caso, a tendência é a África negra e a África do Norte e Ásia islamizadas se tornarem os próximos celeiros de craques — embora a África negra ainda precise melhorar muito na oferta de estruturas adequadas para os atletas prosperarem. As copas do futuro serão jogadas majoritariamente por árabes e negros, seja por seus países, seja por outros, com imensas multidões de africanos e asiáticos islamizados numa vibrante assistência. 

Ali junto, quase imperceptíveis, pequenos grupos de brancos, com cabelos mais brancos ainda, discretos, sentados nas arquibancadas, saudosos do tempo em que inventaram e ainda conseguiam jogar esse esporte. E outros.


segunda-feira, 29 de junho de 2026

 

O MAIOR HERÓI DESCONHECIDO DE CANUDOS

Eduardo Simões 

Há um personagem absolutamente insignificante na crise de Canudos — desconhecido até por Pedrão, um dos sobreviventes —, revelando muito da profunda distorção de valores que sempre existiu na nossa sociedade, que persiste até hoje, tanto que ninguém se preocupou em ressaltar a extrema importância humanitária de sua iniciativa, já nos últimos estertores da cidadela conselheirista: ANTONIO BEATINHO.

Esse personagem, completamente desconhecido, era provavelmente um ajudante ou um sub-beato no grupo mais íntimo de Antônio Conselheiro; talvez uma daquelas pessoas pacíficas e bondosas que a gente só nota em pequenas comunidades,  porque nas grandes a sua luz natural desaparece no excesso da luminosidade artificial de muitos outros. Só os que são da mesma natureza os percebem, enquanto a maioria só os descobre após suas mortes, e às vezes nem isso.  

A pequena luz de Beatinho virou sol no dia 1º de outubro, quando, após duros combates, estando ele encurralado com centenas de mulheres, crianças e velhos, que não queriam ou não podiam absolutamente lutar. Arriscando-se a tomar um tiro dos canudenses, que não queriam saber de rendição, ele achou um pequeno galho, talvez da estrutura de uma casa espatifada, e nele amarrou um trapo branco, e, por conta própria, foi parlamentar com os militares, após arrastar-se penosamente sob o monte de escombros a que ficara reduzida a cidade.

Ele foi levado à barraca onde estava o general João Barbosa, e para lá também foi o acadêmico de medicina Alvim Horcades, que testemunhou e reproduziu o diálogo a seguir, após Beatinho ser desamarrado e autorizado a falar com o general. 

 
.....

P. 82



P 85

Horcades complementa esse discurso com uma nota nº 23, onde deixa bem claro que fez um registro absolutamente fiel das palavras de Beatinho.
 
P 86
O final nós sabemos. Beatinho trouxe centenas de pessoas para o acampamento militar, onde todos os homens foram assassinados, inclusive Beatinho, assim como muitas mulheres e crianças, ou vendidas posteriormente para particulares, inclusive cafetinas em várias cidades.


P 87

No segundo parágrafo da página 85, Beatinho revela o principal móvel que fez ele, alguém tão insignificante, procurar por conta própria os militares: “está tudo [todos] metido em buracos e os meninos só vivem gritando, porque estão todos com fome e sede... morreu quase tudo, e eu hoje vendo que morria [as pessoas ao seu redor], resolvi apresentar-me... Se isso durar mais dias vosmeces matam todos”

Sim, ele se comoveu com a morte do seu povo, o sofrimento das pessoas nos buracos, a fome que grassava e, especialmente, o grito das crianças com fome. BEATINHO FOI O ÚNICO QUE SE PREOCUPOU COM O SOFRIMENTO DOS INOCENTES, EM ESPECIAL DAS CRIANÇAS, e só isso o torna, de longe, O MAIOR PERSONAGEM DE CANUDOS. Nenhum outro personagem, ao que se sabe, mostrou esse tipo de preocupação.

Conselheiro, até o fim, viveu alheado na sua loucura ou confusão mental, conferindo as obras nas igrejas, segundo Vilanova, copiando compulsivamente a Missão Abreviada, abrigado numa casa com paredes de pedra de mais de um metro de grossura, segundo Horcades. Quanto aos militares, nem se pode falar, em que pese o fato de que o “pior” deles, para os brasileiros que ignoram a sua história, Moreira César, tenha tido o cuidado de não disparar nenhum tiro sobre as casas onde estavam os moradores pacíficos. Todos os combates da 3ª Expedição foram ao redor das igrejas e nas casas próximas, as casas dos ricos locais, onde havia foco ativo de resistência.

NÃO É CURIOSO QUE O MAIS BIZARRO E CRUEL DE TODOS, QUE MATAVA POR COMPULSÃO OU PRAZER, TENHA SE PRIVADO DE DISPARAR SOBRE AS CASAS DO POVO POBRE DE CANUDOS? Inclusive, e Euclides da Cunha o diz, quando ele deu dois disparos de apresentação, antes de Canudos, ele mandou graduar os canhões para um alvo a meia légua, quando Canudos achava-se a uma légua.

Quiseram as circunstâncias que o mérito de Beatinho, porém, fosse superior!

Sintomaticamente, não sabemos nada sobre o seu rosto, embora saibamos que era alto e esguio, porque os vários autores que o descreveram, provavelmente por informação de terceiros, e pouco caso com descrições objetivas, o retratam de um jeito diferente, desde “mestiço”, passando por “pardo”, até cabelo “castanho claro” e “olhos azuis”.





TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 20

A Ciência da Natureza Humana: Psicologismo.

O único fato que precisa ser observado em matéria de teologia é que uma Teologia Natural, distinta da sacra doctrina [de São Tomás] — lembre-se de que essa distinção remonta ao século XIII — estabeleceu-se definitivamente como um campo separado da ciência social laica. Seu conteúdo propriamente teológico tendeu a se reduzir a um deísmo insípido [que evoluirá para um decidido materialismo filosófico no século seguinte, do qual Marx é um exemplo]. Mas mais interessante foi o desenvolvimento de uma sociologia da religião — uma teoria da origem e da prática social das ideias religiosas — cujos primeiros começos substanciais localizamos em Hobbes. O fato mais importante sobre o pensamento filosófico é o progresso vitorioso do empirismo ou sensualismo inglês — do ensinamento de Hobbes e Locke — o que é ainda mais notável porque, metodologicamente, não concorda muito com o racionalismo filosófico.

Isso, naturalmente, favoreceu enormemente o sucesso da psicologia associacionista. Façamos uma pausa para analisar três figuras que não só são de importância excepcional para nós, como também representam o espírito da época em seu auge: Condillac, Hume e Hartley. Os dois primeiros reencontraremos no papel de economistas simples. O terceiro aponta diretamente para a obra de James Mill. Nenhum dos três filosofou simplesmente por filosofar, mas sim com o objetivo de desenvolver a Ciência do Homem ou da Natureza Humana, que seria a base da ciência — ou das ciências — da sociedade: acima de tudo, eram metassociólogos ou antropólogos filosóficos. Sem dúvida, estavam convencidos de que tanto em objetivo quanto em método — o método “experimental”, para o qual invocaram a autoridade de Francis Bacon — seu trabalho representou um novo rumo, embora tanto em objetivo quanto em método, tenham sido claramente antecipados por Hobbes.

 

Condillac, Hume e Hartley foram certamente mais articulados; com um propósito mais claro, desenvolveram essa ciência da natureza humana de forma mais completa. A ideia dessa ciência em si, e o programa de derivar dela as proposições básicas das ciências sociais individuais, são a ideia e o programa dos filósofos do direito natural e, indiretamente, dos escolásticos. A afinidade se manifesta em muitos detalhes: por exemplo, os germes da psicologia associacionista encontram-se nos conceitos aristotélicos de similaridade e contiguidade e nos conceitos correspondentes da psicologia escolástica. Além disso, os métodos efetivamente utilizados pelos homens do século XVIII eram exatamente os mesmos que os de seus predecessores, e em particular não mais “experimentais”. Portanto, assim como expressamos um aspecto importante da obra dos filósofos do direito natural ao chamá-los de escolásticos laicos, podemos agora expressar um aspecto importante da obra dos Condillacs, Humes e Hartleys ao chamá-los de filósofos do direito natural do século XVIII. Dois pontos sobre essa ciência do homem são de especial interesse para nós.

Em primeiro lugar, a metassociologia (*) de Condillac, Hartley e Hume era essencialmente psicológica. E a sua psicologia associacionista era essencialmente introspectiva, ou seja, admitia a observação, pelo analista, dos seus próprios processos psíquicos como uma fonte válida de informação... Esses autores e a maioria dos seus contemporâneos acreditavam, evidentemente, que as considerações psicológicas explicariam não só os mecanismos psicológicos do comportamento individual e grupal, e as formas como os fatos sociais se refletem e são interpretados pelas mentes individuais ou coletivas, mas também os próprios fatos sociais. Não negariam, é claro, que para explicar qualquer evento, instituição ou processo real, também devemos considerar fatos não psicológicos. Mas não desenvolveram quaisquer teorias gerais sobre eles nem os admitiram na sua metassociologia: o único conjunto de conhecimento geral necessário em todos os ramos da ciência que têm algo a ver com ações ou atitudes humanas era a psicologia, e todos esses ramos da ciência nada mais eram do que psicologia aplicada.

Esta visão, contudo, não é a única possível. Podemos pensar que, além dos dados psicológicos, por exemplo, os fatos geográficos, tecnológicos e biológicos são muito mais importantes no trabalho prático de análise do que qualquer contribuição que uma ciência psicológica da natureza humana possa oferecer. Portanto, a metassociologia deveria ser construída a partir de materiais que não sejam psicológicos; e mesmo — o que era a opinião de Marx — que os processos sociais são regidos por uma lógica supraindividual própria, para cuja compreensão a psicologia dos indivíduos e dos grupos nada tem a contribuir, exceto quanto ao conhecimento de fenômenos superficiais. Independentemente de qual dessas duas visões sobre a natureza e o método das ciências sociais adotemos, jamais devemos esquecer que aquela defendida por nossos autores representativos não pode ser simplesmente tomada como certa. Para enfatizar isso, daremos a ela um rótulo distintivo: Psicologismo.

 

 

(*) Metassociologia é o ramo da epistemologia e da teoria social que reflete sobre a própria sociologia. Em vez de estudar o comportamento humano ou as instituições sociais, ela investiga a própria disciplina sociológica: seus métodos, conceitos, pressupostos filosóficos e a validade de suas teorias (IA google)

 

Em segundo lugar, a sociologia que se baseava nessa ciência do homem tendia a supervalorizar, assim como a de Aristóteles, o elemento da racionalidade no comportamento. É interessante notar, portanto, que as mentes mais brilhantes começaram a reagir contra isso. Por exemplo, enquanto o contrato social atingia o auge de sua popularidade com autores como Rousseau, Hume já o denunciava como uma construção completamente imaginária e, além disso, desnecessária. Além disso, ele disparou outro tiro contra um alvo semelhante quando escreveu a frase concisa: “Não é, portanto, a razão que guia a vida, mas o costume.” A maneira como essa ciência fundamental do homem — da natureza humana, do conhecimento humano e do comportamento humano — produziu todos os tipos de “leis naturais” pode ser melhor ilustrada pelo que pode ser descrito como a “estética natural” e a “ética natural” inglesas do século XVIII.

É claro que nem todas as especulações sobre estética e ética eram desdobramentos dessa ciência, mas estamos interessados ​​apenas naquelas que eram, porque estas apresentam análises altamente reveladoras por métodos que serviriam à análise econômica por mais de um século. A estética e a ética naturais eram, antes de tudo, estética e ética analíticas: embora o propósito normativo nunca tenha sido descartado, não lhe era permitido interferir na tarefa primordial de explicar o comportamento real. Essa perspectiva analítica já havia sido apresentada durante o século XVII, para a estética, por diversos escritores italianos e, para a ética, por Hobbes e Spinoza. Em segundo lugar, a tarefa analítica foi abordada no espírito do que foi definido acima como psicologismo: a psicologia não só deveria fornecer a abordagem para os fenômenos estéticos e éticos, mas também explicar tudo o que havia para explicar sobre eles. Em terceiro lugar, a psicologia efetivamente utilizada, embora nem sempre estritamente associacionista, era sempre a psicologia individual, introspectiva e do tipo mais primitivo, raramente envolvendo algo além de alguma hipótese simples sobre as reações da psique individual, da qual tudo o mais se deduzia.

Os valores estéticos e éticos foram, portanto, explicados de uma maneira que lembrava a forma como os economistas italianos e franceses do século XVIII, e a maioria dos economistas do século XIX, explicavam os valores econômicos. Esse procedimento foi chamado de empírico e, em certo sentido, o era, mas apenas no mesmo sentido em que, por exemplo, a teoria da utilidade marginal de Jevons-Menger-Walras o é. Não havia nada de “experimental” ou indutivo nisso e, na verdade, não era muito realista, apesar de todas as declarações programáticas, gritos de guerra e apelos a Francis Bacon.

 

Nota de Schumpeter

Baruch Spinoza (1632–77). As duas obras relevantes para o assunto em questão são sua Ética e seu Tractatus Politicus (ambas publicadas postumamente, em 1677). O programa puramente científico em questão é obscurecido pelo fato de que a ética de Spinoza acaba se fundindo a um sistema altamente metafísico. Mas ele enfatizou a necessidade de analisar as paixões humanas como elas são, em vez de pregar sobre elas. E já que esta é nossa única oportunidade de homenagear esse grande pensador, permitam-me citar aqui uma frase sua que, embora se refira à política e à ética, todo economista deveria conseguir dizer em seu leito de morte: ut ea quae ad hanc scientiam spectant, eadem animi libertate, qua res mathematicas solemus, inquirerem sedulo curavi (Procurei diligentemente tratar o assunto desta ciência com o mesmo distanciamento sereno ao qual estamos acostumados na matemática).

 

A estética, portanto, tendeu a se restringir, no que diz respeito a essa escola de pensamento, a uma análise das sensações prazerosas evocadas por uma obra de arte, relegando a psicologia do esforço criativo do artista a um segundo plano. Para ilustrar a analogia que nos interessa, compararemos o fato objetivo de uma obra de arte ser considerada bela em um determinado grupo social com o fato objetivo do preço de mercado. A teoria estética em questão explicará o primeiro fato por meio de valorações subjetivas dos membros do grupo, assim como a teoria econômica análoga explica o segundo fato por meio de valorações subjetivas dos indivíduos que participam de um mercado.

Em ambos os casos, a valoração subjetiva cria o valor objetivo — sabemos que isso era ensinado, no caso das mercadorias, pelos doutores escolásticos — e não o contrário: uma coisa é bela porque agrada, e não agrada porque é “objetivamente” bela. É claro que podemos prosseguir questionando por que certas coisas agradam a certas pessoas e podemos investigar as origens de nossas ideias sobre o belo. Mas, por mais que avancemos nesses e em outros problemas semelhantes, sempre nos movemos dentro do alcance de uma concepção particular do significado das coisas, mesmo que introduzamos, por hipótese especial, um “sentido” do belo. Diferentes autores se empenharam em diferentes graus de “subjetivação” da estética. Não obstante, foi essa subjetivação que constituiu a principal contribuição da escola em questão, e que, além disso, seus membros consideravam o elemento particularmente realista, “experimental” ou não especulativo nela presente [o que mostra uma certa confusão entre o ‘objetivo’ e o ‘subjetivo’]. Os principais autores ingleses a serem mencionados são Shaftesbury, Hutcheson, Hume e Alison.

O argumento anterior aplica-se plenamente também à ética, mas deve ser complementado, neste caso, por algumas considerações adicionais. No que diz respeito à ética analítica — análise da conduta real —, os pontos principais da história são rapidamente apresentados. Hobbes descreveu a conduta real por meio daquilo que ele supunha ser seu fator determinante: o egoísmo individual e hedonista. Isso pode ter lhe parecido o ápice do realismo, mas, na verdade, não passa de um postulado ou hipótese, e uma hipótese obviamente irrealista. Shaftesbury contestou essa teoria com outra hipótese, a hipótese do altruísmo: ele explicou que, para o homem que vive habitualmente em sociedade, é tão natural desenvolver sentimentos de compaixão e, portanto, valorizar o bem dos outros quanto desenvolver o interesse próprio e valorizar o seu próprio bem. Quanto a isso, ele sobrepôs ainda outra hipótese, também derivada da introspecção, segundo a qual os virtuosos experimentam prazer ao fazer o bem, independentemente de apreciarem os seus efeitos. Isso é o que se conhece especificamente como a teoria do senso moral de Shaftesbury... A posição de Shaftesbury foi sistematicamente elaborada por Hutcheson. E Hume, sob a influência dos três, criou o tipo moral do egoísta amável, tranquilo, humano e sóbrio amante do prazer, que resumia o tipo de pessoa que ele próprio era: nada de ascetismo ou qualquer outra virtude “monástica”... Que uma análise imparcial dessas virtudes monásticas pudesse, porventura, desenterrar a verdadeira chave para o fenômeno ético estava completamente além de seu alcance de visão. Abraham Tucker (1705–1774) postulou da mesma forma a satisfação dos desejos individuais como o objetivo final e o motivo universal da ação. Não creio estar errado em atribuir a opinião de Hume-Tucker também a Bentham, que sustentava que os únicos interesses que um indivíduo pode consultar são os seus próprios, mas acrescentou uma ressalva enfatizando o interesse próprio razoável ou esclarecido, que considera também os interesses, sentimentos e reações de outras pessoas. Os moralistas ingleses do século XVIII, contudo, não estavam mais dispostos a prescindir de um padrão normativo de conduta e julgamento do que qualquer outro moralista jamais esteve. Alguns se contentavam em recorrer a uma lei moral que os homens conhecem e aceitam intuitivamente... Até mesmo Locke apelou para tal intuição, embora isso tenha sido uma grave falha para um empirista. Mas soluções desse tipo jamais teriam servido para Hume ou Bentham. Para eles, tudo isso era metafísica vazia. Ao mesmo tempo, estavam bastante dispostos a transformar o seu egoísmo humanista em um ideal, ou seja, em converter suas teorias da conduta numa fonte de normas para a conduta [e assim se apresentarem como modelos universais ou profetas do futuro].

Vimos que Hume modelou o mundo moral à sua própria imagem. É evidente que, com deliciosa ingenuidade, ele aprovou completamente essa imagem: o esquema de suas próprias preferências era o esquema razoável. Por outro lado, a razão havia eliminado todos os valores suprapessoais [ou transcendentais, no sentido religioso], exceto o bem da sociedade. Mas, à luz dessa filosofia dos valores humanos, em que mais poderia consistir esse bem da sociedade senão na soma total de todas as satisfações que advêm a todos os indivíduos da realização de seus esquemas hedonistas de preferência? Se assim for, não teríamos descoberto, de uma só vez, a racionalidade dos valores sociais, a relação entre eles e os valores individuais, e também a única norma de moralidade que pode ser significativa? Respostas afirmativas a essas questões já haviam sido sugeridas no século XVII, especialmente pelo Bispo Cumberland [filósofo e bispo anglicano] e, menos distintamente, por Grotius, que não foi muito além do conceito de bem comum dos escolásticos.

 

Nota de Schumpeter

Essa tendência do filósofo social de exaltar seu próprio esquema de valores da vida como uma norma ética a partir da qual julgar os hábitos e gostos de todos os outros merece atenção, pois permeia toda a literatura econômica e explica grande parte dos juízos de valor dos economistas. Marshall, por exemplo, tinha uma concepção muito definida da Vida Nobre. Não é difícil constatar que essa concepção foi moldada segundo o modelo da vida típica de um professor de Cambridge [que era o caso de Marshall]. Gostos, atividades e níveis de conforto muito diferentes eram, na melhor das hipóteses, vistos com indulgência, mas sem jamais serem plenamente compreendidos. Quase não é preciso enfatizar a importância disso para a compreensão das atitudes dos economistas em relação aos mundos sociais em que vivem. [Os economistas se comportaria como crianças egocêntricas no sentido piagetiano do termo].

 

 

Os escritores do século XVIII, especialmente aqueles entre Hume e Bentham, elaboraram apenas o cânone fundamental da Ética Utilitarista: boa é toda ação que promove, má é toda ação que prejudica, o bem-estar social. Antes de considerarmos esse cânone em seus aspectos mais amplos, devemos dar uma olhada em uma obra de particular interesse para o economista, a de A. Smith. Sua contribuição deve, a meu ver, ser considerada muito superior a todas as outras. Primeiro, ele distinguiu, como Hutcheson, mas com mais clareza do que qualquer outro, entre a ética como teoria do comportamento e a ética como teoria dos julgamentos das pessoas sobre o comportamento, e concentrou-se resolutamente nesta última. Segundo, essa teoria do julgamento ético baseia-se em nossa capacidade de nos colocarmos, por assim dizer, no lugar do outro (‘simpatia’) e de compreendê-lo, sendo o julgamento de nossos próprios atos derivado de nossos princípios de julgamento dos outros. Terceiro, o natural é concebido como aquilo que é psicologicamente normal e não identificado com, mas distinguido, da regra ideal da razão. Quarto, a influência da utilidade sobre a aprovação estética e ética não é tratada simplesmente como um postulado, mas como um problema na prática real do julgamento. Quinto, o costume e a moda não são apenas reconhecidos como fatores relevantes, mas investigados sistematicamente. Os “Sistemas de Filosofia Moral”, ou seja, teorias diferentes da do próprio A. Smith, são alvo de críticas que, por vezes, são banais, mas, no geral, surpreendentemente bem-sucedidas (Parte VII). O planejamento e a execução são bastante semelhantes ao planejamento e à execução de A Riqueza das Nações. 

sábado, 27 de junho de 2026


A REPÚBLICA OPACA 

Eduardo Simões

A partir de 1898, o grupo paulista liderado por Campos Sales, Francisco Glicério, Bernardino de Campos e Rodrigues Alves começou a implementar aquilo que eles imaginaram ser a panaceia para resolver os conflitos personalistas, resultantes da falta de um projeto diretor no início da República. Esse personalismo ameaçava levar de roldão as instituições, o regime e o país juntos. Os sintomas mais graves foram a Revolta da Armada, a Revolta Federalista e a Guerra de Canudos.

Esse grupo, predominantemente paulista, focado em ganhos financeiros e econômicos de curto prazo, imaginou uma saída igualmente personalista, de matiz oligárquico-aristocrático, semelhante dos conchavos do Império. Mas enquanto aqueles ficavam restritos ao Paço Imperial, estes se espalhavam pelos casarões e eventuais palacetes dos grandes caciques da política nacional.

A ideia diretriz era a de que a política do país não passava, na verdade, de expressão dos desejos, necessidades, medos e aversões dos grandes chefes regionais, antigos barões do Império, e os novos barões do café paulistas e mineiros — os fluminenses estavam em franca decadência. Nesse sentido, o importante era fabricar acordos entre esses grandes chefes, sintomaticamente chamados de coronéis, hábito verbal herdado do turbulento início do regime, ainda que na consecução desse objetivo, ‘fabricar acordos’, fosse necessário sacrificar os mais sagrados princípios e valores.

Aliás, nada era sagrado nesse novo arranjo, muito menos a vontade do povo, expressa em eleições falsificadas ao bel-prazer da situação ou necessidades do momento, em nome da qual se cometiam todos os excessos e até crimes, sem que o povo o soubesse, sendo mantido estrategicamente na sua bestificação original. Como vemos, isso é antigo na nossa república.

Um dos momentos em que essa república opaca, nevoenta, ficava em transe era na escolha dos candidatos à sucessão presidencial, e a primeira nesse ‘novo tempo’, já nascido caduco, foi a sucessão de Rodrigues Alves, em 1906. Esse episódio é minuciosamente relatado por ele próprio e transcrito por Afonso Arinos de Melo Franco no seu livro Rodrigues Alves apogeu e declínio do presidencialismo — Volume II, José Olympio — EDUSP, Rio de Janeiro, 1973, p.524–556.

Para termos uma ideia do quanto esse terreno era obscuro e misterioso, vale a pena meditar nessas palavras de Arinos, no livro citado.

“A ausência de partidos nacionais e de autenticidade nas eleições... fazia com que as decisões sobre as candidaturas presidenciais fossem tomadas por detrás dos reposteiros oficiais”. Esse ‘detalhe’ existe até hoje. Não há eleições primárias nos partidos do Brasil. Quando ocorre uma múltipla intenção de concorrência, instala-se uma crise, como no caso de Aldo Rebelo e Joaquim Barbosa no Podemos, que acabou nos tribunais, ou quando Caiado, Ratinho Junior e Eduardo Leite, o dono do partido Gilberto Cassab, disse logo: “a liderança do partido [ou seja, ele próprio] decidirá!” Leite ficou ressentido, e ficará ainda mais se Caiado não performar bem. Nossa capacidade e teimosia em repetir os mesmos erros são impressionantes.

Grupos muito pequenos de políticos experientes... esboçavam acordos sempre anuláveis, assumiam compromissos sempre retratáveis, ou armavam-se reciprocamente ciladas nem sempre limpas... Quase tudo se processava em conversas reservadas, em cartas confidenciais, sondagens discretas. Esse sigilo fazia com que a imprensa [e os outros políticos] ficassem diante de combinações impenetráveis... e por isso mesmo veiculassem as mais infundadas versões [ninguém sabia nada]... Os manifestos solenes, as decisões convencionais eram simples ratificações das posições assentadas e dos compromissos assumidos... que nem chegavam a ser divulgados completamente” (p. 526].

Vejamos como foi a sucessão de Rodrigues Alves.

1º momento:

No início de agosto de 1904, no meio do mandato, ele fica sabendo por outros que Pinheiro Machado está arregimentando apoio à reeleição de Campos sales.

Pinheiro Machado é um político gaúcho florianista, militarista e autoritário, que deseja a todo custo impedir que São Paulo faça o 4º presidente seguido. Rodrigues Alves é herdeiro da mentalidade e das práticas do Império, um conservador ansioso por uma grande frente acima de tudo [como o MDB após o regime militar], da mesma forma que Campos Sales. Ele já tem um candidato do coração: Bernardino de Campos, do mesmo pensamento que ele.

Alves fica intrigado. Por que Pinheiro Machado, com seu discurso populista, iria lançar um candidato que saiu sob vaia geral? Pinheiro diz que é preciso ‘reparar a injustiça’. 

2º momento

Pinheiro se revela a Alves e diz ter certeza de que não pensou em magoá-lo, embora soubesse que Alves já urdia a candidatura de Bernardino.

3º momento

Alves fala a Pinheiro que já estava combinando a candidatura de Bernardino, e para isso contava com o apoio de Pernambuco. Pinheiro não liga.

4º momento

Campos Sales sabe dessa iniciativa e se entusiasma, e assume-se como candidato — se Alves apoia Bernardino, compra uma briga com Campos Sales. Em São Paulo, há uma forte oposição a Sales. Pinheiro consegue dividir os paulistas.

5º momento

Começa a se espalhar o boato de que Alves estaria contente com Campos Sales. O que não era verdade. Alves faz declarações dúbias para não desagradar um lado ou outro. Uma energia preciosa que deveria ser gasta com a política e a administração do país é gasta com essas pendengas eleitoreiras. Na metade do mandato.

6º momento

São Paulo ferve com grupos contra e a favor de Sales e Bernardino, que nesse momento estava na Europa. O time de Pinheiro foi perfeito.

7º momento

Jorge Tibiriçá, governador de São Paulo, preocupado com as perturbações no seu estado, começa a solicitar o posicionamento de Alves. Ele também simpatiza com Bernardino.

8º momento

Muito discretamente, Alves começa a trabalhar na seara paulista pelo nome de Bernardino, que é bem aceito em casa, depois que volta da Europa.

9º momento

Sondagens mostram que pequenos estados, menos Paraná, apoiam Bernardino. A Bahia quer Rui e o Rio Grande, Pinheiro. Minas e Rio ficam com São Paulo.

10º momento

A imprensa cooptada pelos florianistas (= Pinheiro) começa a mover intensa campanha contra Bernardino, com foco no pessoal, como são as campanhas até hoje (2026) — essa campanha foi tão eficiente que um pobre coitado escreveu recentemente um livro sobre 1897 dizendo que Bernardino de Campos era florianista, e da ala dos jacobinos (os mais radicais). Essa campanha esfria o apoio de Nilo Peçanha, no Rio, que pula fora, mas sem o dizer explicitamente.

11º momento

O grupo controlado por Pinheiro nomeia-se Coligação. Mais tarde, esse grupo se chamará Bloco.

12º momento

Pernambuco começa a sinalizar simpatia por Afonso Pena de Mina. Conservador, burocrata, sem carisma, com idade avançada e alguns problemas de saúde. Um típico político da velha escola. Não molha nem seca. Apesar da insistência de Alves, Rosa e Silva, de Pernambuco, não deixa claro. Vai esperar para que lado a canoa vira.

Afonso Arinos, que é mineiro, transcreveu no seu livro uma opinião de Rodrigues Alves sobre Afonso Pena: “Referiu-me o Gastão da Cunha (mineiro) que o Lafaiete [o conselheiro do Império Lafaiete Rodrigues Pereira] dizia que o Pena era uma fechadura velha, que abria para todos os lados com chave, prego, dedo, etc.” (p. 554)

13º momento

A turma de Minas, pró-Pena, tenta ganhar o apoio de Campos Sales.

14º momento

Alves tenta o apoio de Sales à candidatura de Bernardino, mas ele não se pronuncia. Pareceu aquela situação: não vai ser eu, mas também não vai o Bernardino. São Paulo continua dividido e sem candidato viável. Sales age como se tivesse rompido com Alves.

15º momento

Severino, da Bahia, apoia Sales, mas Pinheiro trabalha para esvaziar essa candidatura, dando força à crença de que ele lançou Sales apenas para dividir os paulistas.

16º momento

Rui Barbosa, o eterno perdido no espaço, lança a sua candidatura. Severino não gosta de Rui, mas também não aceita Bernardino. Alves perde estados importantes.

17º momento

O nacionalismo baiano vence e Severino passa a apoiar Rui, embora não se desse muito com ele.

18º momento

Pinheiro agradece a Alves a sua discrição na refrega. Alves lembra-lhe que esse era o seu dever institucional.

19º momento

Fica claro que Pinheiro não se interessa mais pela candidatura de Campos Sales, que teve que se segurar na brocha. Após ter feito o papel de cavalo de Troia para Pinheiro, Campos Sales, desolado e magoado, pensa em retirar a sua candidatura, mas fica aguardando até o último segundo.

20º momento

Pinheiro começa a fazer sondagens em Minas, onde, com o apoio do governador Bias Fortes, começa a turbinar a candidatura de Afonso Pena. Pinheiro quer a unanimidade de Minas. Os mineiros topam.

21º momento

Glicério avisa a Alves que ele acaba de perder Minas. A candidatura de Bernardino está perdida. Glicério tenta que ele retire o apoio de Bernardino e abrace Campos Sales. Alves se recusa a deixar Bernardino em maus lençóis — seria uma grande humilhação depois de tudo.

22º momento

Afonso Pena, tão quietinho, ficou ‘cheio de gás’ com a possibilidade de ser presidente. Arregaçou as mangas e foi para a arena. Alves sentiu como se Pena tivesse esquecido a velha parceria que ligava ambos e tivesse se atirado sem reservas nos braços de Pinheiro e da Coligação.

23º momento

Pena pressiona fortemente a Sales pelo apoio à sua candidatura e tenta, por meio dele, o apoio do presidente (Alves).

24º momento

Tibiriçá, governador de São Paulo, passa a ver viabilidade na campanha de Pena. Até deputados mineiros que não simpatizavam com Pena e queriam Bernardino começam a apoiá-lo.

25º momento

Alves descobre que os deputados mineiros pró-Bernardino estavam há tempos em tratativas com Pinheiro. Nem a oposição em Minas lhe restava mais.

26º momento

Pinheiro tenta conseguir, em vão, a desistência de Rui nesse primeiro momento, mas no seguinte ele concorda. A resistência a Rui é grande. Rosa e Silva (PE) diz: “Com Rui, nem para o céu.”

27º momento

Glicério, apesar das evidências em contrário, faz grande alarde da adesão dos paulistas à candidatura de Campos Sales.

28º momento

A Coligação se consolida com a presença de Rui Barbosa, dizendo que a Bahia foi decisiva.

29º momento

A Coligação se irrita com o apoio de São Paulo a Pena. Talvez quisessem isolar completamente o estado para melhor encurralá-lo. Vai saber!

30º momento

Foi escolhido um vice para Pena. Nilo Peçanha do Rio, inimigo figadal de Prudente de Morais e um dos florianistas mais ativos na capital. Se Pena estivesse atento, ficaria preocupado. Pernambuco começa a se movimentar contra Peçanha, mas Minas o resguarda.

31º momento

A Coligação lança um manifesto da candidatura de Pena, fazendo críticas veladas ao presidente. Alves, assim como Prudente, está politicamente isolado. Só lhe resta o apoio popular, que é grande.

32º momento

Afonso Pena vence a eleição presidencial de 1º de março de 1906, com 97,92% dos votos válidos, numa eleição bem esvaziada — ele teve metade dos votos dados a Rodrigues Alves.

33º momento

A Coligação da turma de Pinheiro Machado, agora chamada Bloco, fez um banquete em 12 de outubro de 1906 para comemorar o resultado das eleições e lançar as bases do novo governo. O orador foi Joaquim Murtinho. Porém, logo após o discurso, Rui Barbosa achegou-se a Pinheiro e lhe disse, indignado, que aquilo não era o que tinha sido combinado, seja lá o que eles tenham combinado.

Após exprimir ‘sua amarga e inconcebível surpresa’, Rui diz de entrada que não mais militava na Coligação. Acrescenta que não tinha o hábito de ser ‘amadrinhado’ a decisões de que não participara. Não sacrificaria ‘a consciência, a honra e o respeito’ a si mesmo” [desde que J.J. Seabra não estivesse no meio, é claro] (p.554). Rui demorou, mas no final percebeu que tinha sido usado.

Foi o ‘bafão’, ou o ‘bafafá’, como diziam os antigos, daquele dia, antes mesmo de começar o governo.

Entretanto, como sintoma daquilo que Arinos falava anteriormente: a completa obscuridade em que eram feitas essas manobras, o jornal Correio da Manhã, de 1º de março, editorado pelo baiano Leão Veloso, ataca vigorosamente a Rodrigues Alves, chamando-o de ‘mal agradecido’, em relação ao resultado das eleições que o frustraram completamente. ‘Dá a vitória da situação a Rui Barbosa, à sua ‘abnegação sem exemplo’. Pinheiro Machado representara apenas uma comédia. Prevalecera a vontade da Bahia” (556).

Os fatos, apontados minuciosamente nas anotações de Rodrigues Alves, diziam justo o contrário.

Porém, é possível que muita informação tenha se perdido nessa caminhada e que, inclusive, alguns momentos tenham uma interpretação bem diferente daquela que Alves dá, pois nesse caso, como em vários outros momentos capitais para o futuro da nação, não ficou nenhum documento.

É possível até que o Correio da Manhã esteja certo!