segunda-feira, 14 de setembro de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 40

Enquanto isso, no coração das trevas...

Dois homens conversavam em uma saleta de um imponente edifício público, quando outro chega e pergunta:

— Viram o jornal hoje?

— Já, e até mais do que isso, temos um telegrama dele anunciando a partida de Queimadas, com a maioria das munições e víveres já transportados em segurança para Monte Santo.

— A que distância está Monte Santo de Canudos?

— Cerca de 119 km, em menos de uma semana, ele estará dentro de Canudos.

— No último telegrama, ele dispensou o concurso de 300 soldados do 16º para ficar só com 100, para não atrasar a marcha.

— Mas o que ele quer com essa pressa toda?

— Diz que teme que os conselheiristas fujam, ao saberem de seu avanço, e que o Conselheiro fugiu de Canudos.

— Minhas fontes garantem que não é esse o caso e acham difícil que ele não saiba disso.

— Isso tudo é lorota! O que ele quer está bem à vista: terminar rapidamente com Canudos, tornar-se herói nacional e vir nos criar problemas, como sempre tem feito, desde que se opôs à continuidade do ínclito Marechal. Se não for algo maior!

— Ele sempre se comportou como um traidor de sua classe. Não pensa como nós.
É um Zé-ninguém que alcançou uma certa fama e agora se acha dono do mundo. E agora quer se interpor entre nós e os mais altos interesses nacionais.

— Vocês não lhe recomendaram uma missão somente prospectiva, de vigilância e contenção, para garantir o isolamento de Canudos, e só atacar quando ordenado?

— Sim, nós o fizemos, longa, continuada e encarecidamente. A missão dele era somente se certificar, por meio de batidas pela região do São Francisco, de que Canudos não receberia ajuda de agentes traidores da restauração.

— Fizemos de tudo, os nossos interesses são comuns, mas, você sabe, ele sempre foi indisciplinado e cheio de iniciativas. Ele só escuta o seu instinto. E o pior é que obtém bons resultados com isso.

— Nesse caso, nós estamos com um sério problema.

— Canudos é tão frágil como Viana o pinta.

— Comparada com a força de César, sim.

Todos se calam por um instante.

— Você falou antes de “algo maior”. Como assim?

— Vocês não veem, Canudos se tornou um assunto nacional, está nas primeiras páginas dos jornais. Agora, imaginem se ele consegue levar a pobre Canudos de roldão e voltar.

— Vira presidente!

— Até ditador, se quiser, corrige outro, justo o que ele impediu o marechal de se tornar, para a desgraça do Brasil.

— Ele nunca mostrou interesse em política. 

— Poder e dinheiro: é isso que todos querem, inclusive os que posam de desinteressados. Quando ele vir as multidões delirando mais uma vez ao seu redor, talvez reflita se não está na hora de tentar voos mais altos. Ele não rejeita desafios.

— Tudo pelo qual lutamos está ameaçado. O próprio legado do Marechal está em perigo.

Pausa:

— Moreira César não deve atacar Canudos, até que ordenemos; se atacar, não poderá vencer; se vencer, não deve sobreviver.

Silêncio.

— Avisem ao nosso contato na Bahia.

Ao longo de fevereiro, enquanto Moreira César avança pelo sertão, começa a ganhar corpo na imprensa carioca, em especial no O Paiz, a notícia de que forças estrangeiras, comandadas pelo Conde D'Eu, estariam abastecendo Canudos com homens, armas e treinamento. Essas notícias absurdas, em espíritos ignorantes, tiveram dois efeitos: primeiro, criaram um clima de histeria contra Canudos e qualquer simpatizante da monarquia; segundo, preparavam a população para ser ainda mais manipulada quando chegasse a notícia do fracasso da 3ª Expedição e a morte do coronel. Preparou também a brutal violência da 4ª Expedição, ampliada pela forte resistência dos canudenses.

Começaram a surgir boatos, fortalecidos pelos exageros de Febrônio de Brito, com seus milhares de jagunços-canibais atacando numa fúria cega. Isso tudo ajudou, posteriormente, a turbinar outro delírio: o Conselheiro não era um 'fanático bronco', mas um gênio do mal a serviço de estrangeiros e, mais tarde ainda, um revolucionário socialista.

A 'grande imprensa' exultava, reproduzindo tais absurdos. Quanto mais inverossímil era o boato, maiores eram as vendas. As pessoas estavam, como hoje, sedentas por escândalos e absurdos.

O principal foco da trama era o Vale do Jequitinhonha mineiro, onde os supostos monarquistas embarcam armas e munições pelo São Francisco, tudo minuciosamente relatado na primeira página, como no artigo O CASO DO CONSELHEIRO, em destaque no O Paiz, de 20 de fevereiro de 1897. Quem, naquela época, conhecesse as distâncias envolvidas no trajeto ali descrito, que atravessava metade de Minas e quase toda a Bahia, nas condições da época, diria logo: “Isso é um embuste!” As notícias eram seguidas por chamadas urgentes e espalhafatosas:

“O caso de Antônio Conselheiro é uma nova forma de reação monárquica, e o governo da República precisa, desde já, libertar-se de condescendências perigosas e reprimir com pujança [severidade].”

A edição de 24 de fevereiro de 1897 do Gazeta de Notícias diz que o Chefe de Polícia de Minas Gerais, Dr. Aureliano Magalhães, teria recebido um telegrama do seu colega do Rio, alertando-o de um carregamento de munições para Canudos, em Sete Lagoas. E daí segue outra trama rocambolesca, com correrias, tiros e prisões… e posterior desmentido.

A impressão que passa é que havia gente infiltrada nas redações e entre as fontes dos jornais, inventando toda sorte de notícias falsas e maluquices. Mas com que objetivo?

1º — Isso criaria uma cortina de fumaça para ofuscar os problemas econômicos advindos da péssima administração de Vitorino e até os preparativos para um golpe.

2º — Criando um pânico, deixaria as pessoas mais propensas a aceitar o golpe em favor de um presidente mais “enérgico”, em substituição ao “Taciturno do Itamarati”. Ficou confuso? Quem, além de Rui Barbosa, criaria um apelido desses para Prudente de Morais?

3º — Eles, estranhamente, 'profetizaram' a derrocada da 3ª Expedição, pois nessa época apareceram nos grandes jornais do Rio de Janeiro avisos misteriosos, alertando que a vida de Moreira César corria perigo. Quem seriam esses profetas?

Vejam essa notícia.

Consta que o comandante do Distrito Militar [em Salvador] telegrafou ao ministro da Guerra desmentindo o perverso boato que aí [no Rio] circulou de ter sido o coronel Moreira César vítima de uma cilada dos conselheiristas”.  (Gazeta de Notícias, 20 de fevereiro de 1897, p. 1).

No dia 23 de fevereiro, o jornal federalista catarinense, O Estado, p.1, traz notícia análoga:

 VINDO DA BAHIA — Conferenciou com o ministro da Guerra o tenente-coronel Tarcílio da Fonseca, chegado da Bahia. Disse ele ao ministro achar insuficientes as forças comandadas pelo coronel Moreira César para bater os fanáticos.”

Vejam esses trechos de matérias de O Paiz, de 9 de março de 1897.

“No dia 2… era enviado ao nosso mestre Quintino Bocaiuva um despacho telegráfico de Barra do Itapemirim, avisando-o de que os empreiteiros da restauração [os monarquistas] tinham feito seguir com o bravo soldado o assassino que devia suprimi-lo.”

Segundo Bocaiúva, esse telegrama era de um tal Joaquim Câncio, um correligionário, e o teor do telegrama era o seguinte:

Barra do Itapemirim, 2 de março — Quintino Bocaiúva — Ouvidor 63 — Rio — Mestre, parece que tramou-se aí o assassinato de Moreira César e seguiu com ele para a Bahia encarregado da infame empreitada, pago pelos restauradores, isso apreendi de viajantes do comércio do Rio.

A impressão que passa na publicação desse telegrama, logo que chegou ao Rio a notícia da morte de Moreira César, é que O Paiz de Quintino Bocaiuva, um florianista impenitente, está querendo encobrir alguém, em função das circunstâncias misteriosas da morte de César. O Paiz, ao mesmo tempo em que explica o fracasso da 3ª Expedição, tenta jogar a culpa em cima do fantasma da  “restauração”, inclusive para estimular a fúria das manifestações de rua na Capital Federal. Contra os monarquistas e o presidente da república.

Será possível que a derrota e a morte de Moreira César foram decididas antecipadamente no Rio de Janeiro? Vejam essa última notícia do jornal Cidade do Rio de 11 de março de 1897.

SERVIÇO ESPECIAL

Bahia 8

Fala-se que se mandou para Canudos gente que o conhecia [a Moreira César, pois os conselheiristas não o conheciam] com arma de grande alcance, para o ferir durante o combate.

No dia 2 do corrente [março], pessoa qualificada afirmava que a expedição seria mal-sucedida e Moreira Cesar morto”.

Muita gente sabia e noticiava, antecipadamente, o que ia acontecer com Moreira César. Um país de profetas infalíveis ou de conspiradores linguarudos?

Eduardo Simões

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

 


A CARA DO BRASIL

Eduardo Simões

Dizem que Lao Tsé já nasceu velho. Que dizer de um povo que nasce senil?

Quando eu era jovem escolar, me ensinaram, na escola, que ainda não existia um brasileiro típico, exemplar, a partir do qual pudéssemos entender o país ou nós mesmos. Éramos um povo ainda em gestação. Como ficamos tão caducos, tão rápido?

De fato, a face do país espelha cada vez mais a face de seu governante mais querido, aquele que os brasileiros, de livre e espontânea vontade, escolheram para pregar todos os pregos na tampa de seu caixão. Os últimos acontecimentos revelaram, mais do que tudo, o resultado de nossa escolha.

Somos um povo velho, exaurido, sem nem termos alcançado a maturidade, o nosso auge biológico ou político, já sem ânimo para procurar algo novo para escapar da enrascada em que nos metemos, enquanto nos enganamos, multiplicando declarações e rituais, como no próximo julgamento do STF, que não mudarão a nossa infeliz realidade, mas nos darão a sensação, conforme o gosto de uma célebre economista, de que algo substantivo está sendo feito e que, em breve, teremos resultados.

Somos superficiais. Não nos preocupamos em aprofundar as opiniões que nós, ou os outros, temos sobre nós mesmos, e muito menos em procurar fatos que corroborem ou neguem nossas crenças. Todo superficial é um displicente, e vice-versa.

Somos também profundamente oportunistas, no sentido ruim, e mal agradecidos. Adoramos atribuir aos nossos antepassados, sem qualquer conhecimento de causa — odiamos a HISTÓRIA, principalmente a nossa —, os crimes que adoramos cometer, e contra eles voltamos nossa ira 'justiceira', por meio de discursos raivosos e atos de vandalismo contra a sua memória ou os seus sinais em nossos espaços públicos. Mas também adoramos usufruir da herança que eles nos deixaram.

Não são esse presidente e sua turma aqueles que mais alçam voz para condenar os “crimes” dos antigos, em especial aqueles que mais fizeram para que o Brasil se tornasse o gigante que é hoje, com uma língua e uma religião únicas, vindos de Portugal, integrado ao mais bem-sucedido sistema econômico de todos os tempos: o capitalismo ocidental oriundo da Europa branca, que eles tanto odeiam!

Como pode esse presidente e sua turma falarem com tanta empáfia da reforma do Conselho de Segurança da ONU, para incluir o Brasil, ou privar o povo do país de acordos benéficos a um povo tão pobre, a pretexto de soberania ou reconhecimento de nossa força, de nosso tamanho e prosperidade advinda de riquezas naturais? Riquezas naturais descobertas e integradas ao mercado internacional por quem? Tirem os portugueses e seus descendentes de nossa História e vejamos o que sobra.

Querer exibir-se como um governante poderoso para o mundo, como o atual presidente faz, escorando-se em uma grandeza conquistada por 'escravocratas', 'genocidas', 'patriarcas misóginos', 'preconceituosos', 'intolerantes', etc., é, por acaso, diferente dos patifes e canalhas que saem por aí exibindo riqueza e munificência, usando o dinheiro roubado de velhos pobres no Brasil? Inclusive aquele que vive em um condomínio de luxo na Espanha, familiar próximo desse 'ídolo nacional', o mesmo que, como a virgem pura em um lupanar, permanece inocente, sem saber de nada e sem se contaminar com o comportamento pornográfico dos que ele se faz cercar?

TIREM ESSE HOMEM DO PODER! AONDE ELE VAI ATRAI BANDIDOS! Talvez haja outro pior ou igual para pôr no seu lugar.

Há muito tempo que desistimos de cuidar — dá trabalho! — desse país, de nossa história, de nossa sociedade, de nossa justiça, de nossa república, de nossas cidades, de nossos velhos, mulheres e crianças, de nosso futuro, embora não nos falte quem queira nos mostrar como um modelo para o mundo se cuidar melhor. Não por hipocrisia, embora isso não nos falte, mas por completa incapacidade, ou preguiça (?), de se descolar do mundo de fantasia em que vive, para encarar a realidade de si mesmo e do entorno, que essa fantasia criou, à revelia da realidade.

Em vez do “SOU BRASILEIRO, NÃO DESISTO NUNCA”, melhor, talvez, seria: "SOU BRASILEIRO, NEM TENTO".

O que faremos quando chegar a hora de prestar contas de nossas ações delirantes, algumas inconscientes, e seus crimes bem reais?


quinta-feira, 10 de setembro de 2026

TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 27


Justi: o Estado de Bem-Estar Social

Johann Heinrich Gottlob von Justi (1717–71) foi professor durante uma parte da sua vida e administrador de empresas públicas durante a outra. Seu conhecimento abrangia toda a filosofia do direito natural de sua época e da anterior, mas foi enriquecido pela experiência prática de tal forma que a sua teoria raramente combinava com aquela. É claro que devemos conceder ao professor uma dose razoável de trivialidades ponderosas, e também considerar sua maneira de chegar a conclusões de senso comum por um caminho tortuoso que passa por filosofias políticas questionáveis. Um exemplo ilustrará este último ponto: a liberdade é absoluta em virtude do direito natural; só que, como o professor demonstrou eruditamente em algum lugar, ela consiste na liberdade de obedecer às leis e às decisões da burocracia; mas esta última, conforme ensinada por Justi, é tão razoável que, no final das contas, chegamos ao resultado que será apresentado no texto... Nosso esboço no texto baseia-se em Fundamentos do Poder e Bem-Estar dos Estados ou Apresentação Abrangente da Ciência da Política Pública, 2 vols., 1760–61). Estamos interessados ​​apenas no primeiro volume. O segundo contém, no espírito dessa ciência, dissertações sobre religião, ciência, governo da casa privada, virtudes cívicas, bombeiros, seguros — dos quais Justi era um fervoroso defensor —, regulamentação do vestuário e assuntos semelhantes...

O tema da investigação de Justi é o que os historiadores alemães chamam de Estado de Bem-Estar Social em sua individualidade histórica e em todos os outros aspectos. Ou seja, ele abordou os problemas econômicos sob a perspectiva de um governo que assume a responsabilidade pelas condições morais e econômicas da vida — assim como os governos modernos fazem —, em particular pelo emprego e sustento de todos, pela melhoria dos métodos e da organização da produção, pelo fornecimento suficiente de matérias-primas e alimentos, e assim por diante, abrangendo uma longa lista de tópicos que incluem o embelezamento das cidades, o seguro contra incêndios, a educação, o saneamento básico e muito mais. Agricultura, manufatura, comércio, dinheiro, sistema bancário — tudo entra em discussão sob esse ponto de vista.

Mas, tendo assim depositado sua fé em um princípio de planejamento público abrangente, ele, assim como Seckendorff e a maioria dos autores entre esses dois, não chegou às conclusões práticas que esse princípio poderia nos levar a esperar. Pelo contrário, ele não era de modo algum cego à lógica inerente aos fenômenos econômicos e não desejava substituí-la por decretos governamentais. A fixação de preços, por exemplo, era uma medida à qual o governo tinha o direito e o dever de recorrer para fins específicos em circunstâncias particulares, mas deveria ser evitada ao máximo. Ele criticou Mirabeau por ensinar, entre outras “doutrinas falsas, absurdas e monstruosas”, que a redução das taxas de juros depende da vontade do governo, quando na verdade “nada está tão pouco sujeito a ela”. Tampouco era cego ao potencial da livre iniciativa, que observava com distanciamento, mas sem hostilidade. De fato, apesar de aprovar a regulamentação governamental, chegando ao ponto de admitir a conveniência de impor a produção de certos bens por decreto governamental, ele afirmou como princípio geral que tudo o que a indústria e o comércio realmente precisavam era de liberdade e segurança

Embora não recomendasse a liquidação das corporações de artesãos — porque elas existiam e poderiam muito bem ser usadas para desempenhar algumas funções administrativas que ele considerava úteis —, ele as via como um incômodo e aconselhava os governos a não serem rigorosos com os estrangeiros. E, embora defendesse que altas taxas de proteção e até mesmo proibições de importação, além da obrigatoriedade de compra de produtos nacionais, poderiam, “às vezes”, ser de interesse público, ele declarava ser sua opinião que “em geral” não deveria haver nenhum impedimento às importações além de uma taxa ad valorem de 10.

Muitos outros exemplos poderiam ser citados daquilo que, para os liberais do século XIX, significava simplesmente uma inconsistência desonrosa, que eles tendiam a atribuir ao fato de Justi ter vivido em uma época de transição... Mas, se analisarmos mais atentamente os casos específicos em que ele aplicou seu princípio de planejamento, algo muito diferente se apresenta. Ele enxergava o argumento prático em favor do laissez-faire com a mesma clareza que A. Smith, e sua burocracia, embora orientasse e auxiliasse quando necessário, estava sempre pronta a se autoexcluir quando nenhuma orientação ou auxílio fosse necessário. A diferença é que ele percebia com muito mais clareza do que Smith todos os obstáculos que impediam seu funcionamento conforme o planejado. Além disso, ele se preocupava muito mais do que Smith com os problemas práticos da ação governamental diante das vicissitudes de curto prazo de sua época e país, e com as dificuldades específicas nas quais a iniciativa privada falha ou teria falhado sob as condições da indústria alemã de sua época.

Seu laissez-faire era um laissez-faire acrescido de vigilância; sua economia de livre iniciativa, uma máquina logicamente automática, mas sujeita a avarias e contratempos que o governo deveria estar pronto para consertar. Por exemplo, ele aceitava como certo que a introdução de máquinas que economizassem mão de obra causaria desemprego; mas isso não era um argumento contra a mecanização da produção, porque, como seria inevitável, o seu governo encontraria empregos igualmente bons para os desempregados. Isso não é inconsistência, mas bom senso. E, para nós, que tendemos a concordar muito mais com ele do que com A. Smith, sua visão de política econômica pode parecer um laissez-faire sem bobagens

Mas dois exemplos espanhóis mostram ainda melhor do que Justi o quanto as melhores mentes daquela época conheciam sua “economia aplicada”: refiro-me a Campomanes e Jovellanos, que ascenderam à proeminência na era de reformas de Carlos III. Eles eram reformadores práticos na linha do liberalismo econômico e não se preocupavam nem contribuíam para o progresso da análise. Mas entendiam o processo econômico melhor do que muitos teóricos. E, considerando a data do Discurso de Campomanes (1774), não deixa de ser interessante observar o quão pouco, ou nada, ele tinha a aprender com A Riqueza das Nações — em ambos, os princípios do liberalismo econômico são expostos, mas criteriosamente temperados por considerações práticas.

Este livro abrange, resumidamente, grande parte da economia continental dos séculos XVII e XVIII. O leitor deve perceber, no entanto, que, embora em termos de perspicácia e utilidade prática não fosse inferior a A Riqueza das Nações, também era, com a exceção que será mencionada adiante, completamente superado por este último em termos de rigor analítico. A obra de Justi exemplifica essa fraqueza tão claramente quanto exemplifica esses méritos. Afirmei que ele não era cego à lógica inerente aos fenômenos econômicos. Mas isso era mera intuição pré-científica. Ele não fez nada para mostrar como eles se interligam e como se determinam mutuamente, justo onde a economia científica começa. Ele não estava atento à necessidade de provar proposições — por exemplo, sua proposição de que a mecanização cria desemprego — ou de usar quaisquer ferramentas que não estivessem ao alcance do leigo. Seus argumentos eram os argumentos do senso comum sem instrução; foi somente quando argumentou contra outro autor que ele tentou fazer uma análise, mas, quando a fazia, ocasionalmente cometia erros graves...

França e Inglaterra.

A economia não era ensinada, como disciplina distinta, até depois da revolução [de 1688]. A literatura francesa de cunho sistemático, muito menos volumosa, ascendeu no século XVIII a um nível muito superior ao da alemã. Já que reservamos seus expoentes... para discussão no próximo capítulo, podemos nos contentar com os cinco nomes a seguir: Forbonnais, Melon, Mirabeau, Graslin e Condillac. Forbonnais, que poderia ser comparado a Justi ou Sonnenfels, é o protótipo do economista “útil” ou “sólido” que goza da aprovação pública. Nenhum historiador jamais o elogiará; pois o historiador interessado apenas nas políticas que um homem apoiava ou combatia não ficará satisfeito e o considerará um eclético sem originalidade; e o historiador que busca contribuições para o nosso aparato analítico também ficará insatisfeito, pois não as encontrará...

Notavelmente inferior a Forbonnais nesses aspectos, e apenas um pouco superior a ele em proficiência analítica, Melon teve um destino um pouco melhor nas mãos de críticos posteriores...

O velho Mirabeau é conhecido principalmente como o líder, sucedendo a Quesnay, do grupo fisiocrata, mas ele já havia se estabelecido antes disso com uma obra que pode ser chamada de tratado sistemático sobre todos os problemas da economia aplicada, escrita a partir de um ponto de vista muito pessoal... Seu mérito analítico é insignificante, tanto quanto maior foi o seu sucesso [um ótimo marqueteiro de si mesmo].

A reputação de Graslin nunca foi a que deveria ter sido, pois ele enfatizou tanto a crítica aos fisiocratas — que, na verdade, é a melhor já oferecida — que seus leitores tenderam a negligenciar sua contribuição positiva. De fato, seu Ensaio Analítico apresenta os contornos de uma teoria abrangente da riqueza como uma teoria da renda total, em vez da renda líquida de todas as despesas dos produtores, incluindo salários — uma melhoria considerável, considerando o papel que esta última desempenharia posteriormente. Além disso, ele estava à frente de seus contemporâneos em termos de perspicácia para o problema da incidência da tributação.

Por fim, a obra de Condillac não merece, de fato, os elogios de W.S. Jevons, que a chamou de “original e profunda”, e de H.D. Macleod, que a considerou “infinitamente superior à de A. Smith”. Os elogios são amplamente justificados pelo entusiasmo desses dois autores pelo que acreditavam ser uma formulação inicial de sua própria teoria do valor. Mas não havia nada de original nisso...

A Inglaterra

Era ainda mais imune à “sistemicidade” do que a França. Exceto por A Riqueza das Nações, há apenas um livro estritamente sistemático a mencionar, mas este é de importância primordial: os Princípios de Steuart. A obra foi intencionalmente e laboriosamente sistemática: o que ele queria era consolidar o conhecimento factual e analítico de sua época em uma “ciência regular”, ou seja, ele almejava claramente o mesmo objetivo de A. Smith. A comparação com A Riqueza das Nações é dificultada por dois fatos. Em primeiro lugar, a obra de Steuart não surfou, como a de Smith, na onda de uma política única e simples que conquistava rapidamente a opinião pública. Pelo contrário, ele agrupou tudo o que realmente interessa ao público em torno da figura antiquada de um estadista patriota imaginário que, em infinita sabedoria, observa o processo econômico, pronto para intervir em prol do interesse nacional, uma concepção que lembra a de Justi, muito em desacordo com o humor inglês. Em segundo lugar, ao examinar (como o leitor deve fazer) os cinco livros nos quais a obra está dividida — População, Comércio e Indústria, Dinheiro e Moedas, Crédito e Dívidas e Impostos —, não se pode deixar de notar o número de pontos que indicam mais originalidade e reflexão mais profunda do que em A Riqueza das Nações; mas também o número de erros evidentes e formulações infelizes. Nas teorias de população, preços, dinheiro e tributação, Steuart foi muito além da superfície tranquila sobre a qual A. Smith navegou com sucesso. É difícil separar o joio do trigo, na obra de Steuart, ou mesmo, em alguns casos, saber se há algum trigo ali.

 

O Alto Nível da Contribuição Italiana.

Mas as honras no campo da produção de sistemas pré-smithianos devem ser atribuídas aos italianos do século XVIII. Em intenção, escopo e planejamento, suas obras se inseriam na tradição ilustrada pelos exemplos de Carafa e Justi; eram sistemas de Economia Política no sentido da economia do bem-estar — o antigo Bem Público escolástico e a Felicidade especificamente utilitarista convergindo em seu conceito de bem-estar (felicità pubblica). Mas, enquanto em zelo pela busca de fatos e na compreensão de problemas práticos não eram inferiores aos alemães, eram superiores à maioria de seus contemporâneos espanhóis, ingleses e franceses em poder analítico e realizações. A maioria deles eram professores e funcionários públicos e escreviam do ponto de vista de professores e funcionários públicos. 

O regionalismo da vida italiana os divide em grupos. Mas consigo discernir apenas duas “escolas” no sentido estrito do termo, que implica tanto contato pessoal quanto similaridade de doutrina devido à influência mútua: a napolitana e a milanesa. Genovesi e Palmieri representam o primeiro grupo; outros 11 membros, em especial a sua estrela mais brilhante, Galiani, serão apresentados mais tarde. As figuras representativas da escola milanesa são Verri e Beccaria. Aproveitamos, porém, esta oportunidade para apresentar outro que se destaca, Ortes, o Veneziano.

O conde Pietro Verri (1728–97), um oficial da administração austríaca em Milão... Aqui, basta mencionar duas de suas muitas publicações: os Elementi del commercio (1760), que o consagraram, e as Meditazioni sull’economia politica (1771). Ele tinha uma concepção clara, ainda que pouco desenvolvida, de equilíbrio econômico, baseada, em última instância, no “cálculo do prazer e da dor” (ele antecipou a expressão de Jevons) e, nesse aspecto, estava mais acima do que abaixo de A. Smith. É importante enfatizar seu foco em fatos. Ele não apenas realizou pesquisas históricas importantes (Memórias Históricas, publicada postumamente), mas também foi um verdadeiro econometrista — por exemplo, foi um dos primeiros economistas a elaborar um balanço de pagamentos —, ou seja, sabia como entrelaçar a apuração de fatos e a teoria em um tecido coerente: o problema metodológico que intrigou gerações posteriores de economistas, ele próprio resolveu com sucesso...

A principal contribuição de Giammaria Ortes (1713–90) para a sua fama reside na sua teoria malthusiana da população. O seu empreendimento sistemático sempre se destacará na história das teorias que consideram o consumo como o fator limitante da produção total e que, a partir dessa premissa, derivam seu diagnóstico econômico — essa é outra ligação entre ele e Malthus. Nesse aspecto, como em outros, sua obra é certamente original, no sentido de que não segue a linha principal do pensamento econômico. Mas pouco mais se pode dizer a seu favor. Críticos e historiadores, por um lado, ficaram intrigados com ela e, por outro, concordaram com seu ataque à “confusão mercantilista” entre dinheiro e riqueza e com suas ideias sobre livre-comércio.

Cesare Bonesana, Marquês de Beccaria (1738–94), era milanês e fruto da educação jesuíta. É mais conhecido como jurista, e suas reflexões sobre direito penal gozam de justa fama internacional... O governo austríaco (Príncipe Kaunitz) o nomeou para uma cátedra de economia em Milão, fundada para esse fim (1768). Após apenas dois anos no cargo, trocou a cátedra por um emprego na administração milanesa... Participou, e em alguns casos iniciou, as reformas da época, escrevendo prolificamente inúmeros relatórios e memorandos — sobre armazenamento de grãos, política monetária, sistema métrico, população e outros assuntos... Entre outras atividades, foi cofundador e colaborador do periódico Il caffè, inspirado no Spectator inglês... Além disso, parece ter sido um matemático competente. A maior parte de seus escritos econômicos consiste em relatórios governamentais. O único trabalho de raciocínio econômico que ele próprio publicou (em Il caffè, 1764) foi um ensaio sobre contrabando, que apresenta dois aspectos interessantes: primeiro, o tratamento algébrico do problema e, segundo, o dispositivo analítico contido na questão que ele tornou fundamental para sua teoria pura do contrabando: dada a proporção das mercadorias contrabandeadas que, em média, serão apreendidas pelas autoridades, qual é a quantidade total que os contrabandistas devem movimentar para não obterem nem lucro nem prejuízo? Isso representa a descoberta da ideia que fundamenta a moderna análise de variedade de indiferença.

Nota da IA Google

1. O que significa “Variedade de Indiferença”?
  • Quando um consumidor escolhe entre apenas dois bens, suas preferências de igual satisfação formam uma curva de indiferença em um plano bidimensional. 
  • Quando a análise envolve três ou mais bens, o espaço geométrico passa a ser uma superfície ou um espaço multidimensional. Na matemática moderna, esse conjunto de pontos multidimensionais no qual o nível de utilidade (satisfação) permanece constante é chamado de variedade de indiferença
  • Portanto, a “análise de indiferença-variedade” nada mais é do que o estudo do comportamento do consumidor utilizando funções matemáticas multidimensionais para mapear suas escolhas. 
2. A Origem Histórica e a Análise "Moderna"
Embora as curvas de indiferença tenham sido formalizadas e popularizadas no final do século XIX e início do século XX por economistas como Francis Y. Edgeworth, Vilfredo Pareto e, posteriormente, John Hicks e Paul Samuelson, a semente dessa lógica é muito mais antiga. 
Schumpeter aponta que a lógica subjacente a essa análise foi “descoberta” pioneiramente pelo filósofo e economista italiano Cesare Beccaria no século XVIII (por volta de 1769–1770). Ao formular uma teoria matemática sobre o contrabando, Beccaria tentou calcular o ponto exato no qual o risco de apreensão alfandegária neutralizava o ganho do contrabandista, criando um ponto de “indiferença” (equilíbrio) entre o risco e o retorno. 
Essa abordagem de isolar variáveis para encontrar pontos de equivalência e otimização sob restrições deu origem ao que hoje chamamos de microeconomia moderna.
3. Pilares da Análise de Indiferença Moderna.
Na microeconomia contemporânea, essa análise baseia-se em premissas fundamentais sobre o comportamento humano:
  • Utilidade Ordinal: O consumidor não precisa quantificar numericamente a satisfação (“eu gosto de A exatamente 10 vezes mais que B”), mas apenas ordenar e ranquear suas preferências (“eu prefiro a cesta A à cesta B, ou sou indiferente entre elas”). 
  • Taxa Marginal de Substituição (TMS): Mede a quantidade de um bem que o consumidor está disposto a abrir mão para obter uma unidade adicional de outro bem, mantendo o mesmo nível de bem-estar (o que dita a inclinação da variedade de indiferença). 
  • Maximização Restrita: O consumidor tenta atingir a variedade (ou curva) de indiferença mais alta possível, limitada pela sua restrição orçamentária (o dinheiro disponível para gastar). [O leitor, se tiver mais interesse nesse assunto, existem sites muito didáticos a respeito].


Beccaria é o A. Smith italiano. A semelhança entre os dois homens e suas realizações é realmente impressionante. Há até mesmo alguma semelhança em suas origens sociais e locais de residência. Há semelhanças em suas vidas, embora Beccaria fosse muito mais servidor público do que A. Smith, que ocupou apenas um cargo subordinado sem possibilidades criativas... Nenhum dos dois era meramente um economista... Figuras esplêndidas, ambos. Mas, após 1770, Beccaria, quase certamente mais dotado de dons naturais, dedicou ao serviço público do “Estado” milanês o que A. Smith reservou para a humanidade. Os Elementos de Beccaria, após definir o tema da economia da mesma forma normativa que A. Smith na introdução ao Quarto Livro de A Riqueza das Nações, começam com considerações sobre a evolução da tecnologia, a divisão do trabalho e a população (cujo aumento ele considerava função do aumento dos meios de subsistência). Como princípio da ação econômica, já sabemos, ele abraçou sem reservas a doutrina utilitarista do egoísmo hedonista, que ele próprio tanto contribuiu para desenvolver e que, mais tarde, se revelou uma aliada tão incômoda para a economia. A segunda e a terceira partes das aulas tratam da agricultura e das manufaturas, e a quarta, sobre comércio, torna-se o repositório da teoria do valor e do preço: escambo, moeda, concorrência, juros, câmbio, bancos, crédito e crédito público sucedem-se numa sequência tão sugestiva da prática dos livros didáticos do século XIX quanto a própria estrutura da obra na totalidade. 

Em detalhe, o argumento de Beccaria — particularmente no que diz respeito às teorias de custo e de capital — nem sempre é isento de falhas ou logicamente rigoroso. Mas todos os problemas essenciais são vistos, e vistos coordenadamente... A influência fisiocrata é evidente, mas não muito profunda. Seria Beccaria o maior economista dos dois? Se julgarmos pelas suas obras, tal como as temos diante de nós, certamente que sim. Mas fazê-lo não seria justo para com ambos. Não se trata apenas de termos de considerar a prioridade e também o fato de os anos entre 1770 e 1776 terem sido muito significativos na evolução das ideias econômicas; muito mais importante é o fato de A Riqueza das Nações ser o resultado maduro de uma vida de trabalho, enquanto os Elementos são notas de aula que o autor se recusou a publicar. No que diz respeito ao desempenho subjetivo, não se deve compará-lo com A Riqueza das Nações, mas sim com a parte econômica das palestras de A. Smith em Glasgow — em que Beccaria venceria com folga — ou então A Riqueza das Nações deve ser comparada com o que poderíamos imaginar que Beccaria teria feito com suas palestras se tivesse emigrado para Kirkcaldy e dedicado mais seis anos a elas, em vez de se imergir nos problemas do Estado milanês. O fato de a principal causa da diferença que percebemos residir na quantidade de trabalho investido é, em todo caso, uma pista importante para o segredo do sucesso de A. Smith.

 


A COMPANHIA DOS MERCADORES AVENTUREIROS NO REINADO DE ELIZABETH I - 4

[trechos traduzidos de artigo de George Unwin]

Os Mercadores Aventureiros e as Finanças Nacionais.

Até a recente publicação da grande obra do Dr. W. R. Scott sobre as Sociedades Anônimas Inglesas, o relato de Gresham sobre suas próprias façanhas era amplamente aceito, com poucas análises críticas. Contudo, certamente, esse relato é passível de críticas. O documento consta de cartas escritas pelo agente financeiro e corretor oficial da Coroa, com o objetivo de revisar e justificar a sua gestão em negócios anteriores e recomendar seus futuros serviços ao seu augusto empregador [autopropaganda]. Mesmo supondo que nossa alta consideração pelo caráter do autor nos levasse a aceitar os detalhes comerciais de tal registro, ainda assim poderia acontecer que as opiniões ali expressas, quanto ao significado mais amplo e profundo dos eventos relatados, exigissem alguma correção à luz dos fatos subsequentes.

Tampouco pode haver nada excessivamente odioso ou cético em uma crítica que extrai seus principais dados da copiosa correspondência do próprio Gresham. Uma breve olhada nessa correspondência basta para refutar uma das suposições do Dr. Hagedom — a de que Gresham gozava igualmente da confiança dos Aventureiros e do Governo, e que o Governo e a Companhia jogavam em benefício um do outro. Independentemente da posição que Gresham ocupasse anteriormente na Companhia, deixou certamente de ter responsabilidades sobre os seus assuntos após se tornar agente financeiro da Coroa, e os seus grandes planos para extorquir empréstimos dos mercadores e para aumentar o câmbio foram necessariamente concebidos em segredo, além de encontrarem forte resistência por parte dos Aventureiros, geraram um profundo ressentimento em seguida. Dois excertos de uma das cartas de Gresham o provam. Ele escreve a Cecil, em março de 1559, recomendando a repetição do plano que havia utilizado na época de Eduardo VI. 

Para o pagamento das dívidas da Rainha, diz ele, e para manter o câmbio: “Sua Majestade, a Rainha, não tem outra alternativa senão recorrer aos seus Mercadores Aventureiros. Sei muito bem que eles se manterão firmes nessa questão, devido a esse novo imposto [sobre tecidos], bem como pelas 20.000 libras que Sua Alteza lhes deve. Contudo, considerando a importância disso para o crédito de Sua Majestade, ela terá que recorrer aos seus Mercadores.” 

E, ao final da carta, ele descreve assim seus feitos anteriores: “A taxa de câmbio na época do Rei Eduardo (quando iniciei essa prática) era de apenas 16 xelins. Não a aumentei para 23 xelins e paguei todas as suas dívidas após 20 e 22 xelins? Com ​​isso, o preço da lã caiu de 26 xelins e 8 pence para 16 xelins, e o dos tecidos de 60 libras o pacote para 40 e 36 libras o pacote, juntamente com todas as outras mercadorias nossas e estrangeiras; com isso, vários fabricantes de tecidos deixaram de produzir tecidos e lãs. Com isso, ninguém foi afetado, exceto os comerciantes, para servir aos interesses do Príncipe.

Gresham, é verdade, argumenta que os comerciantes se beneficiariam a longo prazo; mas, mesmo supondo que seu argumento seja sólido, isso ofereceria pouco consolo aos comerciantes e fabricantes de tecidos que sofriam com a falência naquele momento. Os fatos, portanto, não corroboram a hipótese de que o governo e os mercadores tenham se beneficiado mutuamente.

O mesmo se aplica à hipótese de que os planos anteriores de Gresham tenham sido tão bem-sucedidos do ponto de vista financeiro, como o próprio autor sugere em suas cartas a Elizabeth e Cecil. Os esquemas de Gresham para recuperar a situação financeira da Coroa em 1551-2 incluíam diversos itens que ele posteriormente não se atreve a mencionar. Além do monopólio que o governo concederia aos Aventureiros por razões financeiras da Coroa, Gresham propôs outros monopólios pelos mesmos motivos. O monopólio do chumbo — ou seja, o fornecimento de chumbo em larga escala — era operado pelo próprio Gresham, que também receberia, em nome do governo, o monopólio das trocas cambiais. Em poucos meses, ambos os planos ruíram. Em outubro de 1552, Northumberland escreveu a Cecil, instando-o a reconsiderar a conveniência de manter o monopólio do chumbo: “Pois não tenho dúvidas de que o clamor e a exclamação crescem e podem gerar mais perigo do que se pode ver agora… o que me faz lamentar ter tido a infelicidade de me intrometer nisso... Pois os assuntos dos príncipes, especialmente no que diz respeito ao governo dos reinos, e as atividades dos mercadores são de naturezas distintas; portanto, embora estejam repletos de artifícios com aparência de lucro, devem ser ponderados em relação às outras consequências.”

O monopólio do chumbo foi, consequentemente, abandonado; e, ao mesmo tempo, as bolsas de valores foram novamente abertas. Mas isso não representava toda a extensão do fracasso de Gresham. Para tornar a Companhia dos Aventureiros mais suscetível à manipulação financeira, ele havia proposto limitar o número de seus membros. Um projeto de lei foi apresentado ao Parlamento para autorizar isto; mas os comerciantes excluídos angariaram fundos e suscitaram uma oposição tão grande que o projeto de lei foi rejeitado [isso, e uma infinidade de outros exemplos, mostra que mesmo entre os grupos burgueses mais fechados havia, e ainda há, disputas tremendas, que invalidam a tese de um grupo fechado em torno de um projeto específico de exploração de outras classes, também consideradas monolíticas, que justifiquem minimamente o conceito de lutas de classes, no sentido marxista do termo]  A tão alardeada façanha de Gresham em 1553 — o aumento da taxa de câmbio por meio de um empréstimo forçado dos Aventureiros — foi, portanto, o único remanescente salvo do naufrágio de muitos outros planos; e por essa razão, muito alardeado pelo grande estrategista.

Mas o que representou esse sucesso? Aqui chegamos à difícil questão das bolsas de valores e, antes de podermos explicar seu pleno significado para a história comercial do século XVI, teremos que ampliar o alcance de nossa investigação. Mas o aspecto mais simples da bolsa de valores é tão completamente obscurecido pela linguagem de Gresham que será bom esclarecê-lo de antemão. Gresham fala de a taxa de câmbio ter caído de 32 xelins para 13 xelins e 4 pence, e nos diz que ele próprio a aumentou de 16 xelins para 23 xelins. O que significam essas grandes mudanças? Um paralelo moderno pode esclarecer as coisas.

Se uma moeda soberana inglesa contém exatamente a mesma quantidade de ouro que vale vinte e cinco francos na França, a relação entre a moeda soberana e vinte e cinco francos é chamada de “paridade do câmbio da casa da moeda”. Você pode receber um centavo a mais ou um centavo a menos do que vinte e cinco francos pela sua moeda soberana, conforme a taxa de câmbio na França seja favorável ou desfavorável à Inglaterra; mas, em tempos normais, a taxa de câmbio não se desviará mais do que isso na paridade da casa da moeda. No século XVI, o desvio da taxa de câmbio em relação à paridade da casa da moeda era, geralmente, muito maior do que um centavo e poderia, em casos extremos, chegar a um xelim para mais ou para menos.

Como, então, explicar a queda na taxa de câmbio inglesa em Antuérpia de 325 para 135 xelins e 4 pence, que, segundo Gresham, ocorreu durante os reinados de Henrique VIII e Eduardo VI? A resposta é simples. A queda na taxa de câmbio deveu-se principalmente a uma alteração na própria cunhagem, consequência da desvalorização da moeda inglesa. O próprio Gresham admite isso. Ele explica a queda de 265,8 pence para 135,4 pence pela redução pela metade da quantidade de prata no xelim inglês, de seis onças de prata pura para três onças de prata pura [os reis roubavam, na cara dura, uma parte do metal precioso de que a moeda era cunhada, para seus gastos pessoais]. Mas, tendo que explicar a queda anterior da taxa de câmbio de 32 xelins para 26 xelins e 8 pence, ele prefere atribuir isso ao excesso de negociações, que ele quer que o governo impeça. Na verdade, toda a queda de 32 xelins para 13 xelins e 4 pence pode ser totalmente explicada pela mesma causa, ou seja, uma alteração no processo de cunhagem.

Nota do tradutor

Esse era o terrível processo de “quebra da moeda”, comum praticamente em todos os reinos da Europa no início da Era Moderna, que funcionava da seguinte maneira;

a) Um decreto real mandava recolher determinada moeda, feita de metal precioso (prata ou ouro), disponível entre a população do reino, proibindo a sua circulação.

b) Recolhidas essas moedas, o rei as fundia e retirava uma generosa porção delas, a ser recolhida ao seu cofre particular (para pagar algum empreendimento do seu interesse, como os custos de uma guerra, de um tratado de paz, de um palácio para a amante, etc.).

c) À prata ou ouro restante, ele adicionava a mesma quantidade de um metal mais barato, como cobre, e mandava fundi-los na fabricação da mesma quantidade de moedas anteriores, com o mesmo valor de face, como quando a moeda era de ouro ou prata puros.

Resultado:

Se a prata e o ouro eram usados para pagar compromissos no exterior, a reposição do estoque original de ouro e prata era feita por um incentivo insano à exportação, que podia gerar falta de produtos no país e o seu respectivo encarecimento.

Se fosse para o pelo rei fazer mais despesas dentro do país, a circulação de uma maior quantidade de moedas faria o preço aumentar. Aqueles que tinham de pagar contas no exterior — grandes comerciantes — ficavam em maus lençóis, pois precisavam usar uma maior quantidade de moeda desvalorizada para pagar pelo mesmo produto.

Num caso ou noutro, haveria aumento de preços no interior desse sistema, com dificuldades para o conjunto da população.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

 



A HORA DA COLHEITA


Eduardo Simões


Certa vez, em São Paulo, num dia de eleição, encontrei um colega, professor de física, num posto de gasolina. Eu estava indo votar e ele voltando da votação. Ele, após saber para onde eu estava indo, disse:

— Quando cheguei lá [na seção eleitoral], disse para mim mesmo: ‘essa política está uma palhaçada; aí votei no palhaço’.

“Não faça isso!”, disse eu, de uma forma tão convicta e sincera que ele, que estava agitado, talvez em dúvida sobre a merda que fez, estacou e me olhou arregalado. Disse-lhe, então, que aquilo só servia para piorar a situação, que nós precisávamos votar certo, pelo menos para não agravar... a palhaçada — e, naquela época, ainda tínhamos muita gente boa para votar.

Entretanto, o somatório das pessoas que pensavam como meu colega era muito grande, e o palhaço se elegeu com uma votação consagradora no maior e mais próspero colégio eleitoral do Brasil, para fazer absolutamente nada, pelo país, que mereça um registro, em 16 anos de mandato. Para não dizer que ele não fez nada de notável, ele pediu licença no momento em que a polícia estava pronta para pegar o seu suplente, por corrupção, que, na vaga do ‘palhaço’, entrou no paraíso incólume daquela excrecência do Antigo Regime, chamado foro privilegiado. Escapou!

Mais tarde veio um estilista sem estilo, um desbocado, que, embora culto, era emocionalmente um incapaz, só para protagonizar cenas deprimentes. Que dizer de Brasília, onde o povo negou um fim de carreira decente a um dos mais conceituados políticos da república, Cristovão Buarque, para eleger uma nulidade inexperiente, para um mandato absolutamente apagado? A multiplicação das bizarrices foi dando ao Poder Legislativo, a Casa do Povo, o mais importante Poder da República, um aspecto não de circo, não de mambembe, mas de circo fuleiro, de circo esculhambado, repleto de ‘idiotas’ fingindo-se de ‘palhaços’ e ratazanas infectas da pior espécie. 

E assim, graças às iniciativas desastrosas de Ulysses Guimarães e daqueles que, no passado, se apresentavam como lutadores contra o arbítrio, mas que, ao final, ignorando as lições de sua longa vida, decerto por cabular as aulas mais importantes, nos entregaram, via Constituição, uma república completamente fantasiosa — lembro de uma capa da revista VEJA, de 1988, que mostrava os deputados, que elaboravam a Constituição, de pé, no plenário, e uma chamada em letras garrafais dizendo: “De Costas Para o Futuro”, sem falar do livro de Roberto Campos, o eterno profeta desprezado pelos brasileiros, cujo título é: “Uma constituição contra o Brasil”. ELE ESTAVA CERTO!

Essa Constituição maluca parte do princípio de que o maior inimigo da democracia e da prosperidade é o Estado, que essa mesma Constituição organiza! Trata o sistema que ela própria criou como o suspeito número um. É, enfim, um Estado fruto da paranoia e do oportunismo da esquerda e da idiotia dos centristas e liberais envergonhados. E o resultado aí está. Numa ordem em que ninguém tem autoridade, todos se arrogam autoridade, e o que se tem é o aumento da injustiça, da pobreza e, agora, da anarquia.

O mais bizarro dessa... eu não consigo não dizer a palavra 'esculhambação', gerada pelo STF, é que os seus membros passaram a última década arrogando poderes para si, enquanto os retiravam dos outros, constituindo-se em uma espécie de Olimpo do Poder. Um colegiado de autocratas ou divindades monocráticas, impermeáveis ao coletivo fora da ideologia que as impregna, encadeadas umas às outras por acordos e práticas obscuras e não exatamente lícitas ou inocentes. Pisotearam a lei que, supostamente, punha freios a possíveis desmandos de seus membros, perfeitamente previsível num universo de quatro dimensões e pouco mais de uma centena de elementos químicos constitutivos. O resultado é que o país encontra-se hoje, de fato, em flagrante anarquia, no sentido mais etimológico possível desse termo. A FALTA DE LEI VEM DA CASA DAS LEIS.

Depois da última decisão do ex-ministro do presidente Lula, Flávio Dino, atropelando desrespeitosamente o presidente do SUPREMO, a única pergunta, desesperada, que cabe fazer é: AFINAL, QUEM ESTÁ NO COMANDO?

Os brasileiros, como sempre, infelizmente, não quiseram levar seu país a sério. Foram atrás de circo, talvez por temerem ou se sentirem impotentes para construir uma potência, ou só pelo prazer infantil da desordem, como no recreio de uma pré-escola, sem pensar em mais nada nem ninguém. Eu gostaria de rever, hoje, o meu colega de física e perguntar-lhe:

— E aí, está satisfeito com a herança que você vai deixar para a sua filha?

O que deveria ser um circo de palhaços está se transformando em um salão de velório, com vocação para cemitério.

O que assistimos hoje no SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL são quadrilhas de menores delinquentes disputando a posse, por uma mera questão de prestígio, de um terreno baldio.

 

terça-feira, 8 de setembro de 2026


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 39


O Passageiro da Agonia II

Tal como nas tratativas para encaminhar a administração e as eleições em Santa Catarina, Moreira César, longe de agir discricionariamente, busca a opinião de terceiros. Também se vê, pelo texto, sua predisposição moderada e absolutamente legal em relação aos canudenses: ele quer somente prendê-los.

Sem aguardar mais notícias de Salvador, vai se abastecendo regularmente das notícias locais e de sua habilidade em conseguir as informações de que precisava. Ele parte na manhã de 17 de fevereiro de Queimadas e chega no dia seguinte a Monte Santo, a última base de apoio para as operações, a 119 km de Canudos.

Ao longo de todo esse deslocamento, as notícias que chegaram ao público por meio da imprensa e das autoridades sobre a atuação de Moreira César foram de viva admiração e grandes elogios.

“As forças sob o seu comando respeitaram, em sua passagem, as pessoas e a propriedade; houve, é verdade, aqui em Queimadas, o pequeno estrago de uma cerca e de uma porta; mas, a pedido daquele bravo militar, o Dr. Félix Gaspar, Chefe de Segurança [polícia], indenizou os danos causados. Citado por Oleone Fontes.”

Um telegrama mandado da Bahia, por um jornalista do Gazeta de Notícias, no dia 15, e publicado no dia seguinte, informa como era saudável a relação de suas tropas com a população.

“Sabe-se que em Queimadas muitos cidadãos têm fornecido animais à força pública, fazendo tudo com a melhor vontade.”

Oleone Fontes, no Treme-terra, p. 71, diz que há em Santa Luzia uma história antiga de que Moreira César, em seu breve desembarque, perguntou pelo coronel José Martins Leitão, e como não o encontrou, disse em voz alta que, após acabar com Canudos, viria acertar as contas com ele. Por causa dessa ameaça, Leitão cercou-se de jagunços e ordenou que os habitantes do lugar fugissem. Vejam o que diz o restante do telegrama acima: “O coronel Leitão tem fornecido grande número de carroças e condutores, a força está em ótimas condições.”

Um telegrama de O Paiz, no dia 14 de fevereiro, diz que:

Em Queimadas continua a reinar a melhor ordem e disciplina entre as tropas que ali se acham. A população mostra-se confiante e satisfeita pela energia do bravo comandante da coluna. O coronel Moreira César está satisfeito com o pessoal da estrada [de ferro].

Outros telegramas e avisos do jornal O Paiz, de 16 de fevereiro, vão na mesma toada.

“Continuam a seguir diariamente [para Queimadas] víveres e munição” [mostrando o quanto a expedição estava bem organizada e abastecida].

Os tabaréus, confiantes, vêm por si procurar as cargas para conduzir [todos querem colaborar].

Telegrama de 16 de fevereiro, do governador ao presidente em exercício, Manuel Vitorino, publicado na Gazeta de Notícias de 17 de fevereiro de 1897.

“Coronel Moreira César partirá amanhã… tudo na melhor ordem. As autoridades por onde tem transitado força tem felicitado o governo do Estado, pedindo de transmitir a mesma felicitação ao governo da União pela ordem e disciplina com que se portam e respeito às propriedades e habitantes… Saudações. — Luiz Viana.”

O mesmo Luís Viana, em uma entrevista publicada em 7 de agosto de 1897, pelo Gazeta de Notícias, ao jornalista Favila Nunes, diz:

“A diferença entre os auxílios prestados ao Coronel Moreira César e ao Major Febrônio consistia… que, enquanto o Major Febrônio afastava de si os elementos que lhe podiam ser úteis naquela região, o Coronel Moreira César congregava-os em torno de si, tratando a todos os proprietários com cordura e atenções, deixando no espírito de todos o maior pesar pelo seu desastre e a maior simpatia pela sua pessoa.” (Walnice N. Galvão, No calor da hora: A Guerra de Canudos nos jornais (p. 192). Cepe Editora. Edição do Kindle).

Em Queimadas, foram deixadas “150 praças, das quais 80 eram muito crianças e outras enfermasque mal podiam suportar o peso da carabina e do equipamento,” disse o Major Rafael Augusto, em nota do livro de Manuel Benício, O rei dos jagunços, p. 153. Essa observação será aproveitada e distorcida em Os Sertões, abaixo citado pelo general Epaminondas Ferraz:

“Faz-se dono do batalhão que comandava; deu-lhe um pessoal que ultrapassava, de muito, o número regulamentar de praças, entre as quais — em manifesta violação da lei — dezenas de crianças que não podiam carregar armas; e, imperando incondicionalmente, organizou o melhor corpo do exército.” [Afinal, foi bom ou foi ruim? Vejam como o texto de Cunha é ambíguo, contraditório e enganador].

Uma história, contada pelo major Rafael Augusto, em Manuel Benício, diz que o marechal Costallat ia fazer uma visita ao 7º, e César diz a ele, Augusto, para manter os soldados-crianças trancados em uma sala, para que o marechal não as visse, posto ser ilegal engajar pessoas abaixo de 18 anos (8).

Ele, Augusto, por sua conta, passou a recomendação para o alferes Poli Coelho, que esqueceu de cumprir a ordem. Nesse relato, surgido após a morte de César, Augusto utilizava-se de terceiros para livrar a sua pele, enquanto apresentava o seu comandante como desonesto ou mentiroso. O marechal Costallat viu as crianças, mas, segundo Augusto, limitou-se a dizer “Ora!”

Se a reação foi essa, para que, então, todo esse cuidado? 

Mas vejamos.

1º — Não esqueçamos que o exército, nessa época, era ao mesmo tempo uma instituição militar, correcional, educativa e social. Esses jovens precocemente engajados eram pobres, e isso seria um bom modo de eles sobreviverem e auxiliarem a família, longe dos crimes. O Exército era o que a escola pública é hoje: tapa-buraco das deficiências do Estado.

2º — Ao dizer que Moreira Cesar fez isso, num episódio banal e fácil de ser inventado, Augusto reforça a imagem ruim do seu chefe, que o beneficiava, e o blindava de cobranças embaraçosas.

3º — Essa invenção é uma idiotice, pois o nome e a data de nascimento dos soldados constavam no livro de registro das ordens do dia do batalhão. Bastava o marechal conferir os registros. Para que todo esse cuidado, se estava tudo escrito em um livro público?

4º — Augusto, maliciosamente, transfere toda a responsabilidade para o alferes Poli Coelho, que morreu logo no início dos combates da 3ª expedição. Mortos não se defendem.

5º — Ao deixar os mais franzinos em Queimadas, o coronel mostra que é uma pessoa que cuida dos que estão sob sua responsabilidade. Engajou-os para que recebessem um salário e fizessem trabalhos de rotina necessários, enquanto os preparava para a vida, mas evitou envolver os mais fracos em uma situação de perigo real. Isso não é um ato de compaixão e generosidade? 

Discorrendo sobre essa questão, o general Ferraz diz:

“Não verificamos se o fato de haver voluntários com 16 anos [além de um sobrinho de César, Fernando, com menos de 16] — o que de fato constatamos nas páginas das ordens do dia do batalhão — era, na época, manifesta violação da lei. Damos como certa a afirmativa de Euclides.”

Que pena, general! Porque Euclides estava muito errado.

1º — Ferraz esclarece que era de conhecimento público a idade “ilegal” de alguns recrutas. Por que isso não dava ensejo a uma investigação ou um demérito no prontuário do coronel? Creio que a resposta a isso ameaçava as crenças já consolidadas do general.

2º — Euclides da Cunha às vezes abusa! Ele, decerto, sabia que a lei 2.556, de 26 de setembro de 1874, complementada pelo decreto 5.881, de 27 de fevereiro de 1875, que discorriam sobre as condições de alistamento no exército, determinavam que a idade mínima seria de 19 ou 18 anos — vi ambas em fontes diferentes. Mas ele também sabia que, em virtude da grande resistência que setores da sociedade opuseram a essa lei, gerando motins no Norte, os “Rasga-listas”, ela se tornou, desde a promulgação, letra morta. Foi substituída por uma nova ‘lei do sorteio’, em 1908, que só foi efetivada para valer em 1916. Euclides oscila entre a desinformação e a má-fé.

Outra fonte que mostra a forte impressão deixada por ele no povo baiano é o relato de um jornalista do Jornal do Comércio do Rio, que viajou para Queimadas com o marechal Bittencourt, na 4ª Expedição. Ele chegou em 8 de setembro, mas o artigo só foi publicado em 6 de outubro de 1897, onde ele faz uma comparação entre a  3ª e a 4ª Expedição.

Ele começa dizendo que já conhecia a fama de Queimadas como centro de um florescente comércio sertanejo, mas que ao vê-la, decepcionou-se. “Sente-se… a impressão de uma cidade morta… uma praça de guerra desorganizada.”

Há alguns meses, o general Arthur Oscar a transformara em um ponto de apoio, deixando-a sob o comando do controvertido coronel Campelo França, que desorganizou a retaguarda de tal maneira que a alguns pareceu proposital. No mínimo, facilitava a corrupção. 

O repórter reconhece que a guerra “tem suas inconveniências”, mas também lembra que as cidades que não estão diretamente no front tendem a experimentar uma certa prosperidade, pelo movimento das tropas, que estimula o comércio local. Mas não foi isso que aconteceu em Queimadas, com a chegada da 4ª Expedição. “Queimadas aniquilou-se; o comércio ficou reduzido a bibocas… as famílias fugiram.”

Os batalhões da 4ª expedição chegaram “cometendo despropósitos e desatinos”, tratando os moradores como se fossem “jagunços”, e até como responsáveis pelos “reveses das expedições anteriores”. Atemorizada, a população fugiu, e as famílias que ficaram foram obrigadas a ceder, patrioticamente [destacado no original], as suas modestas habitações aos militares — e quando Bittencourt chegou, teve que ficar uma semana, procurando barracas para abrigar o seu estado maior e as suas tropas, por conta da desorganização.

O mesmo não aconteceu com a expedição César, cuja tropa se mostrou muito disciplinada, como era o estilo do coronel.

“Sabe-se que aquele militar aqui esteve alguns dias… nada lhe faltou… não só nenhum habitante se retirara da cidade, mas também que os catingueiros a procuravam mais amiúde, concorrendo às feiras com maior frequência… Assim, a expedição César encontrou facilidades… homem inteligente e disciplinador, hábil e jeitoso, conseguira ele todos os fins… inspirando… a mais plena confiança no seio da família sertaneja.”

Exatamente do mesmo modo como os jornais de Desterro/Florianópolis e o general Ferraz disseram que ele aconteceu em Santa Catarina. A colossal recepção que ele experimentava sempre que saía em público com sua tropa no Rio de Janeiro, também apontam nessa direção.

“O seu primeiro cuidado foi este… procurava ele incutir no ânimo das populações… a confiança nas forças, tornando saliente o espírito de disciplina… o que mais tarde testemunharão os tabaréus, enchendo-se de simpatia pela tropa, a quem procuravam prestar serviços.”

O jornalista então comenta o expediente dos soldados da 4ª Expedição de retirar estacas das cercas dos sertanejos para fazer fogo para assar ou cozinhar algo para comer: “a estaca que se tira à cerca do pobre roceiro pode dar lugar à perda de uma safra inteira.” Devido à invasão do gado criado solto. Esses incidentes levaram vários sitiantes e agricultores a pegar em armas contra o exército.

No jornal Diário de Notícias, de Salvador, na sua edição de 21 de agosto de 1897, lê-se:

“Chega-me a notícia de que as forças que têm acampado nesta praça de guerra queimaram as cercas dos pastos com grande prejuízo para os animais de carga, e maior ainda para os proprietários dos mesmos pastos, os quais são todos concordes em dizer que as forças do pranteado Coronel Moreira César tudo respeitaram, não se sentindo a falta nem de uma galinha [meu destaque].” (Galvão, Walnice Nogueira. No calor da hora: A Guerra de Canudos nos jornais (p. 157). Cepe Editora, Kindle).

Como já acontecera com catarinenses e cariocas, os baianos também estavam encantados com Moreira César e o exemplar 7º Batalhão de Infantaria. Mas estava na hora de tomar a estrada para Canudos e cumprir a sua missão.

Enquanto avançava em seu cavalo, seguido pelo seu estado-maior e uma longa coluna de infantes, com o esquadrão de cavalaria nas laterais ou flancos, rumo a Monte Santo, sob o sol abrasador, ele deve ter pensado muito em tudo aquilo. Era um homem realista, que cultuava a Deus, os valores aprendidos no Exército Brasileiro e a realidade. Ele jamais permitiria que alguém morresse em seu lugar nem negociaria, por dinheiro ou pelo medo, os valores que considerava sagrados.

A sua angústia só aumentava…

Eduardo Simões