TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 6
A HISTÓRIA DA ECONOMIA É UMA HISTÓRIA DE
IDEOLOGIAS?
A natureza histórica ou
‘evolutiva’ do processo econômico limita inquestionavelmente o alcance dos
conceitos e das relações gerais entre eles (‘leis econômicas’) que os
economistas podem formular. De fato, não faz sentido negar, a priori, como já
foi feito algumas vezes, que tais conceitos ou relações não podem sequer ser
formulados. Em particular, não é necessário que os conceitos que usamos no
estudo de grupos sociais sejam familiares aos próprios membros desses grupos:
se é fato que o conceito de renda não era familiar às pessoas da Idade Média
antes do século XIV não é motivo para não usá-lo em uma análise de sua
economia. Mas é verdade também que as “leis econômicas” são muito menos
estáveis do que as “leis” de qualquer ciência física, que elas funcionam de
maneira diferente em diferentes condições institucionais e que a negligência
desse fato foi responsável por muitas aberrações. Também é verdade que, quando
tentamos interpretar atitudes humanas, especialmente atitudes de pessoas muito
distantes de nós no tempo ou na cultura, arriscamos compreendê-las
mal, não apenas se substituirmos grosseiramente nossas próprias atitudes pelas
delas, mas também se fizermos o possível para penetrar no funcionamento de suas
mentes. Tudo isso se agrava consideravelmente pelo fato de o próprio observador
ser produto de um determinado ambiente social — e de sua posição específica
nesse ambiente — que o condiciona a enxergar certas coisas em detrimento de
outras, e a vê-las sob uma determinada perspectiva. E não é só isso: fatores
ambientais podem até mesmo dotar o observador de um desejo subconsciente de ver
as coisas sob uma certa ótica. Isso nos leva ao problema do viés ideológico na
análise econômica.
A psicologia e a
psicoterapia modernas nos familiarizaram com um hábito mental que chamamos de
racionalização. Esse hábito consiste em nos confortar e impressionar os outros,
criando uma imagem de nós mesmos, de nossas motivações, de nossos amigos, de nossos
inimigos, de nossa vocação, de nossa igreja, de nosso país, que pode ter mais a
ver com o que gostaríamos que fossem do que com o que realmente são. O
concorrente que é mais bem-sucedido do que nós, provavelmente deve seu sucesso
a artimanhas que desprezamos. É bem provável que o líder de um partido que não
é o nosso seja um charlatão... E assim por diante. A importância desse hábito
para a saúde e a felicidade da mente normal é óbvia, assim como a importância
de um diagnóstico correto de suas manifestações verbais.
O conceito de ideologia
marxista
Meio século antes de que a
importância desse fenômeno fosse plenamente reconhecida e utilizada
profissionalmente [já havia o uso pejorativo feito por Napoleão I], Marx e
Engels o descobriram e usaram essa descoberta em suas críticas à economia
“burguesa” de sua época. Marx percebeu que as ideias ou sistemas de ideias dos
homens não são, como a historiografia ainda tende a assumir acriticamente, os
principais motores do processo histórico, mas formam uma “superestrutura” sobre
fatores mais fundamentais...
Marx percebeu ainda que as
ideias ou sistemas de ideias que prevalecem em qualquer momento e em qualquer
grupo social, na medida em que contêm proposições sobre fatos e inferências a
partir de fatos, serão provavelmente viciados exatamente pelas mesmas razões
que também viciam as teorias de um homem sobre seu próprio comportamento
individual. Ou seja, as ideias das pessoas tendem a glorificar os interesses e
as ações das classes que estão em posição de se afirmar e, portanto, tendem a
desenhar ou insinuar imagens delas que podem estar seriamente em desacordo com
a verdade [que, por alguma razão misteriosa, só Marx e Engels conseguiam ver no
seu tempo].
Assim, os cavaleiros
medievais se imaginavam como protetores dos fracos e defensores da fé cristã,
enquanto seu comportamento real, além de outros fatores que produziram e
mantiveram a estrutura social de seu mundo, certamente parecerá muito
diferente para um observador de outra época e mesmo de outra classe no seu
tempo. Marx chamou esses sistemas de ideias de ideologias. E sua tese era que
grande parte da economia de sua época nada mais era do que a expressão da ideologia
da burguesia industrial e comercial.
O valor dessa grande
contribuição para nossa compreensão dos processos históricos e do significado
das ciências sociais é prejudicado, mas não destruído, por três falhas, que
convém observar de imediato.
Primeiro, embora Marx
estivesse tão atento ao caráter ideológico de sistemas de ideias com os quais
não simpatizava, ele era completamente cego aos elementos ideológicos presentes
nos seus próprios — A meu ver, este é o ponto essencial das racionalizações:
elas fornecem uma espécie de autodefesa para nossos organismos psíquicos e
tornam suportáveis muitas vidas que não vingariam sem elas. Mas o princípio
de interpretação envolvido em seu conceito de ideologia é perfeitamente geral
[e pode ser estudado cientificamente]. Obviamente, não podemos dizer que em
todo lugar há ideologia e que somente nós nos apoiamos na rocha da verdade
absoluta [como fazem os marxistas e aqueles que querem censurar politicamente
as redes sociais]. As ideologias trabalhistas não são melhores nem piores do
que quaisquer outras.
Em segundo lugar, a análise
marxista dos sistemas ideológicos de pensamento os reduz a emulsões de
interesses de classe, que por sua vez são definidos em termos exclusivamente
econômicos. Segundo Marx, as ideologias da sociedade capitalista são, para dizer
de forma grosseira, glorificações dos interesses daquilo que ele denominou
classe capitalista, cujos interesses giram em torno da busca por lucros
pecuniários. Ideologias que não glorificam o comportamento do homem capitalista
nos negócios, mas algo mais, por exemplo, o caráter e o comportamento nacional,
devem, portanto, ser sempre redutíveis, ainda que indiretamente, aos interesses
econômicos da classe dominante. Isso, porém, não está implícito no cerne do conceito
de ideologia, mas constitui uma teoria adicional e muito duvidosa. O próprio
princípio implica apenas duas coisas: que as ideologias são superestruturas
erguidas sobre, e produzidas pelas realidades da estrutura social objetiva
abaixo delas; e que elas tendem a refletir essas realidades de maneira
caracteristicamente tendenciosa. Se essas realidades podem ser completamente
descritas em termos puramente econômicos, é outra questão. Sem entrar nesse
mérito aqui, registramos apenas o fato de que atribuiremos um significado muito
mais amplo ao conceito de Influência Ideológica. A posição social é, sem
dúvida, um fator poderoso na formação de nossas mentes. Mas isso não significa
que nossas mentes sejam moldadas exclusivamente pelos elementos econômicos
inerentes à nossa posição de classe ou que, mesmo que isso ocorra, sejam
moldadas exclusivamente por um interesse de classe ou grupo bem definido [Nem
todos os burgueses, proletários, ou membros de uma classe que o valha, pensam da
mesma maneira; isso é um reducionismo atroz!].
Em terceiro lugar, Marx, e
especialmente a maioria de seus seguidores, presumiram com muita facilidade que
declarações que demonstram influência ideológica são, por si só, condenáveis
[menos a sua, que é a verdade absoluta]. Mas é fundamental enfatizar que, assim
como as racionalizações individuais, as ideologias não são mentiras... não são
necessariamente errôneas. É grande a tentação de aproveitar a oportunidade para
descartar de uma só vez todo um conjunto de proposições de que não gostamos,
simplesmente chamando-o de ideologia. Esse artifício é, sem dúvida, muito
eficaz, tão eficaz quanto os ataques às motivações pessoais de um oponente.
Mas, logicamente, é inadmissível.
Como já foi apontado, a
explicação, por mais correta que seja, das razões pelas quais um homem diz o
que diz, nada nos informa sobre se é verdade ou mentira. Da mesma forma,
declarações que procedem de uma base ideológica são passíveis de suspeita, mas
ainda podem ser perfeitamente válidas. Tanto Galileu quanto seus oponentes
podem ter sido influenciados por ideologias. Isso não nos impede de dizer que
ele estava "certo". Mas que justificativa lógica temos para afirmar
isso? Existe alguma maneira de localizar, reconhecer e, possivelmente, eliminar
os elementos ideologicamente viciados na análise econômica? E o que restará
após essa eliminação? Entende-se que nossas respostas, embora ilustradas por
exemplos, serão, por ora, provisórias, e que a validade, ou não, dos princípios
que estou prestes a formular só poderá ser avaliada por sua aplicação neste
livro na sua totalidade. Mas, antes de iniciarmos essa tarefa, precisamos esclarecer
uma questão preliminar.
Infelizmente, temos que
bloquear uma saída de emergência pela qual alguns dos mais fervorosos
defensores da doutrina de que... toda a ciência, é viciada por ilusões
ideológicas, tentaram escapar da conclusão aparentemente inevitável sobre a
possibilidade da "verdade científica". O professor K. Mannheim
ensinava que, embora a ilusão ideológica seja o destino comum da humanidade,
existem, no entanto, "inteligências independentes", flutuando
livremente no espaço, que gozam do privilégio de estarem isentas desse destino.
De forma um pouco mais realista, todos são vítimas da ilusão ideológica, exceto
o intelectual radical moderno que se ergue, de fato, sobre a rocha da verdade,
o juiz imparcial de todas as coisas humanas. Ora, se há algo que se possa
considerar óbvio neste campo, é o fato de que esse intelectual nada mais é do
que um amontoado de preconceitos que, na maioria dos casos, são sustentados com
toda a força de uma convicção sincera. Mas, além disso, não podemos seguir
Mannheim pela escada de incêndio, pois aceitamos plenamente a doutrina da
onipresença do viés ideológico e, portanto, não conseguimos enxergar na crença
de alguns grupos nada além de uma parte particularmente perversa de seu próprio
sistema de ilusões. Agora, voltemos à nossa tarefa.
Primeiro, o viés ideológico,
conforme definido acima por nossa versão modificada da definição marxista,
obviamente não é o único perigo que ameaça a análise econômica. Em particular,
há outros dois que devem ser mencionados especificamente porque são facilmente
confundidos com o viés ideológico. Um deles é a possível manipulação de fatos
ou de regras processuais por advogados peticionários [profissional
especializado em escrever petições, nem sempre muito fieis aos fatos, antes de
o advogado entrar em ação]. Tudo o que tínhamos a dizer sobre isso já foi dito:
aqui, apenas desejo alertar o leitor de que uma argumentação justificadora não
é o mesmo que análise ideologicamente viciada.
Outro perigo decorre do
hábito inveterado dos economistas de emitir juízos de valor sobre os processos
que observam. Os juízos de valor de um economista muitas vezes revelam sua
ideologia, mas não a definem: é possível emitir juízos de valor com base em fatos
irrefutavelmente estabelecidos e nas relações entre eles, e é possível
abster-se de emitir qualquer juízo de valor com base em fatos vistos sob uma
ótica ideologicamente distorcida. Não discutiremos o problema dos juízos de
valor aqui...
Notas
Adequação
conceitual
Sociólogos
como Max Weber, que defendem o método interpretativo dos estados ou mudanças
sociais — isto é, que acreditam que nossa principal ou única tarefa é tentar
entender o que as coisas significavam para as pessoas em cada momento — podem
facilmente chegar à conclusão de que o uso de quaisquer conceitos desconhecidos
para as pessoas em estudo implica o erro de presumir que suas mentes
funcionavam exatamente como as nossas. Ora, esse erro pode estar presente, mas
não necessariamente: usar um conceito que tem significado para nós, mas não
para as pessoas que observamos, é uma coisa; postular que o conceito também
tinha significado para estas últimas é outra bem diferente. Não precisamos recorrer
a tribos primitivas para ilustrar isso: se, em termos de nossos próprios
conceitos, formularmos as condições para maximizar os lucros, não precisamos
presumir que o próprio empresário utilize esses conceitos; nossa
"teoria" é perfeitamente válida mesmo que saibamos que ele não a
utiliza [o que invalida esses conceitos, numa abordagem pretensamente
científica, é a sua conotação moral, que transcende a natureza do conceito em
si, exceto aqueles que pressupõem um julgamento moral prévio, como os de
“exploração”, “exploradores”, “oprimidos”, mais apropriados a pregadores
religiosos].
Racionalização
O
termo “racionalização”, no sentido explicado a seguir, deve ser
cuidadosamente distinguido de outros significados da mesma palavra, especialmente
destes dois: (1) Às vezes, falamos de racionalização quando nos referimos a uma
ação que visa aprimorar algo, por exemplo, uma empresa industrial, para estar em conformidade com os padrões aprovados por consultores especializados.
(2) Em trabalhos de pesquisa, às vezes falamos de racionalização quando nos
referimos à tentativa de vincular um conjunto de descobertas empíricas a algum
princípio teórico que as explique. Assim, dizemos que racionalizamos o
comportamento empresarial observado pelo princípio da maximização do lucro.
Esses significados não têm relação alguma com o significado em discussão [um
mecanismo de defesa freudiano].
Burocracia
e ideologia
Alguns
grupos, como as burocracias, são mais propensos a essa ideologia [marxista],
que, entre outras coisas, envolve a negação claramente ideológica de qualquer
interesse [ideológico] em seu grupo ou, pelo menos, de sua influência [da
ideologia] sobre as políticas que eles próprios criam ou ajudam a moldar. Isso
pode ser usado como um primeiro exemplo da influência das ideologias sobre a
análise [negando-a, esses burocratas a confirmam]. Pois essa ideologia das
burocracias é um fator importante no hábito pouco científico dos economistas de
usar uma teoria claramente ideológica do Estado, que eleva este último a uma
agência sobre-humana para o bem público e negligencia os fatos sobre as
realidades da administração pública que a ciência política moderna proporciona.
[Traduzido de History of Economic Analysis]