Roma Bizâncio
domingo, 26 de abril de 2026
CIÊNCIA E IDEOLOGIA - 2
Schumpeter, 1948
Mas
existem em nossas mentes prevenções sobre o processo econômico que são muito
mais perigosas para o crescimento cumulativo do nosso conhecimento e para o
caráter científico dos nossos esforços analíticos, porque parecem estar além do
nosso controle, num sentido em que os juízos de valor e as alegações especiais
não estão. Embora em grande parte aliadas a estes, essas prevenções merecem ser
separadas e discutidas independentemente, e serão tratadas pelo nome de
Ideologias.
A
palavra ideologia era corrente na França no final do século XVIII e na primeira
década do século XIX e significava praticamente a mesma coisa que a filosofia
moral escocesa da mesma época e de épocas anteriores, ou que a nossa própria
ciência social, na mais ampla aceitação do termo... Napoleão conferiu-lhe um
significado pejorativo... Mais tarde, passou a ser usada, conforme frequente hoje,
para denotar sistemas de ideias, ou seja, de uma forma em que se perde a
distinção entre nossos juízos de valores e as ideologias. Não temos nada a ver
com esses ou quaisquer outros significados, exceto aquele que pode ser mais
facilmente introduzido por referência ao "materialismo histórico" de
Marx e Engels. De acordo com essa doutrina, a história é determinada pela
evolução autônoma da estrutura de produção: a organização social e política, as
religiões, a moral, as artes e as ciências são meras "superestruturas
ideológicas", geradas pelo processo econômico.
Não
precisamos nem podemos entrar nos méritos e deméritos dessa concepção em si, da
qual apenas uma característica é relevante para o nosso propósito — e a sua
escolha, nesse contexto, obedece a um critério prático: facilita o debate. Essa
característica é aquela que, por meio de várias transformações, se desenvolveu
na sociologia da ciência do tipo associado aos nomes de Max Scheler e Karl
Mannheim. Até meados do século XIX, aproximadamente, a evolução da
"ciência" era vista como um processo puramente intelectual — como uma
sequência de explorações do universo empiricamente dado ou, como também podemos
dizer, como um processo de filiação de descobertas ou ideias analíticas que
prosseguia, embora sem dúvida influenciando a história social e sendo influenciada
por ela de muitas maneiras, segundo uma lei própria.
Mannheim
foi o primeiro a transformar essa relação de interdependência entre a
"ciência" e outros ramos da história social em uma relação de
dependência da primeira em relação aos dados objetivos da estrutura social e,
em particular, à posição social dos cientistas, que determina sua visão da
realidade e, portanto, o que eles veem dela e como a veem.
Esse
tipo de relativismo — que, obviamente, não deve ser confundido com qualquer
outro tipo de relativismo —, se levado rigorosamente às suas consequências
lógicas, representa uma nova filosofia da ciência e uma nova definição de
verdade científica. Mesmo na matemática e na lógica, e ainda mais na física, a
escolha dos problemas e das abordagens a eles por parte do cientista, e
consequentemente o padrão do pensamento científico de uma época, torna-se
socialmente condicionada – que é precisamente o que queremos dizer quando
falamos de ideologia científica em vez da percepção cada vez mais perfeita das
verdades científicas objetivas [ou seja, levanta a questão dos condicionamentos
sociais de nossas conclusões, o que não impossibilita, por isso, o esforço na
busca de resultados mais precisos, tão importantes quanto a sua aceitação geral]...
Poucos
negarão, contudo, que nos casos da lógica, da matemática e da física a
influência do viés ideológico não se estende além da escolha dos problemas e
das abordagens, ou seja, que a interpretação sociológica não questiona, pelo
menos nos últimos dois ou três séculos, a "verdade objetiva" das
descobertas. Essa "verdade objetiva" pode ser, e está sendo,
questionada por outros motivos, mas não que uma determinada proposição é
verdadeira ou falsa em função da posição social dos homens que a formularam. Em
certa medida, essa situação favorável pode ser explicada pelo fato de que a
lógica, a matemática, a física e outras áreas lidam com experiências que, em
grande parte, não sofrem influência da posição
social do observador e são praticamente invariáveis à
mudança histórica: para um capitalista e um proletário, uma pedra caindo parece a mesma
coisa.
As
ciências sociais não compartilham dessa vantagem. É possível, ou assim parece, contestar suas
conclusões não apenas por todos os motivos pelos
quais as proposições de todas as ciências podem ser contestadas, mas também
pelo adicional de que elas não podem transmitir mais do que as afiliações de
classe de um autor e que, sem referência a tais afiliações de classe, não há
espaço para as categorias de verdadeiro ou falso, portanto, para a própria
concepção de "avanço científico". Doravante, adotamos que o termo
Ideologia ou Viés Ideológico se aplica apenas a esse estado real ou suposto das
coisas, e nosso problema é determinar até que ponto o viés ideológico é ou foi
um fator no desenvolvimento daquilo que se poderia chamar de “economia
científica”.
Ao
reconhecer o elemento ideológico, é possível ir a extremos muito diferentes. Há
alguns autores que, de fato, negaram a existência, em economia, de algo como
uma acumulação de fatos "corretamente" observados e proposições
"verdadeiras". Mas igualmente pequena é a minoria que negaria
completamente a influência do viés ideológico. A maioria dos economistas
situa-se entre esses extremos: estão dispostos a admitir sua presença,
embora, como Marx, o encontrem apenas nos outros e nunca em si mesmos; mas
não admitem que seja uma maldição inescapável e que vicie a economia em sua
essência.
É
precisamente essa posição intermediária que levanta o nosso problema. Pois as
ideologias não são simplesmente mentiras; são afirmações verdadeiras
sobre o que um homem pensa que vê. Assim como o cavaleiro medieval se via
como desejava se ver, e assim como o burocrata moderno faz o mesmo, e assim
como ambos falharam e falham em perceber tudo o que possa ser alegado contra a
sua autoimagem como defensores dos fracos e inocentes e promotores do bem
comum, também todo outro grupo social desenvolve uma ideologia protetora que,
no mínimo, é sincera. Por hipótese, não temos consciência de nossas
racionalizações — como, então, é possível reconhecê-las e nos proteger delas?
Mas
permitam-me repetir antes de prosseguir: estou falando da ciência, enquanto técnica que produz os resultados que, juntamente com juízos de valor ou
preferências, geram recomendações, sejam estas individuais ou sistemas
delas — como os sistemas do mercantilismo, do liberalismo e assim por diante.
Não falo desses juízos de valor e dessas recomendações em si.
Concordo
plenamente com aqueles que sustentam que juízos sobre valores últimos — sobre
o Bem Comum, por exemplo — estão além do alcance do cientista,
exceto como objetos de estudo histórico, uma vez que são ideológicos por natureza e que
o conceito de progresso científico só pode ser aplicado a eles na medida em que
os meios para os implementar sejam aperfeiçoados. Compartilho da convicção de
que não faz sentido dizer que o mundo das ideias do liberalismo burguês é
"superior", em qualquer sentido relevante, ao mundo das ideias da
Idade Média, ou o mundo das ideias do socialismo ao do liberalismo burguês. Na
verdade, acredito que não há outra razão, além da preferência pessoal, para
afirmar que nossas políticas são mais bem fundamentadas e sábias do que as dos
Tudores, dos Stuarts ou de Carlos Magno [tanto umas, as nossas, como outras, as
dos antigos, são absolutamente adequadas ao tempo em que foram formuladas; se
tentássemos aplicar as regras do liberalismo econômico atual nas condições
objetivas da Idade Média, o resultado seria um grande desastre]
Primeiro,
a percepção de um conjunto de fenômenos relacionados é um ato pré-científico.
Ela precisa ser realizada para que nossas mentes tenham algo sobre o que
trabalhar cientificamente — para indicar um objeto de pesquisa —, mas não é
científica em si mesma. Embora pré-científica, não é pré-analítica. Não
consiste simplesmente em perceber fatos por meio de um ou mais sentidos. Esses
fatos precisam ser reconhecidos como tendo algum significado ou relevância que
justifique nosso interesse neles, e precisam ser reconhecidos como relacionados — para podermos separá-los de outros —, o que envolve algum trabalho
analítico por parte de nossa imaginação ou senso comum. Essa mistura de
percepções e análise pré-científica será chamada de Visão ou Intuição do
pesquisador. Na prática, é claro, raramente partimos do zero, de modo que o
ato pré-científico da visão não é inteiramente nosso. Partimos do trabalho de
nossos predecessores ou contemporâneos, ou então das ideias que circulam no
imaginário popular. Nesse caso, nossa visão também conterá pelo menos alguns
dos resultados de análises científicas anteriores. Portanto, esse composto nos
é fornecido e já existia antes mesmo de iniciarmos nosso trabalho científico.
Segundo,
se identifiquei com a "construção de modelos" a análise científica
que opera sobre o material oferecido pela visão, devo acrescentar de imediato
que pretendo atribuir ao termo "modelo" um significado muito amplo. O
modelo econômico explícito de nossos dias e seus análogos em outras ciências
são, naturalmente, produto de estágios avançados do esforço científico.
Essencialmente, porém, eles não fazem nada que não esteja presente nas formas
mais primitivas de esforço analítico, que, portanto, também podem ser
consideradas como tendo produzido, com cada pesquisador individual, modelos
primitivos, fragmentários e ineficientes. Esse trabalho consiste em selecionar
certos fatos em detrimento de outros, em defini-los com precisão, rotulando-os;
mas também em acumular mais fatos não apenas para complementar, mas também, em
parte, para substituir aqueles originalmente selecionados, em formular e
aprimorar as relações percebidas — em suma, em pesquisas "factuais" e
"teóricas" que se desenrolam em uma cadeia interminável de trocas, em
que os fatos sugerem novos instrumentos analíticos (teorias) e estes, por sua
vez, nos conduzem ao reconhecimento de novos fatos. Isso é verdade tanto para
um relato histórico quanto para a racionalização da equação de
Schrödinger, embora, em qualquer caso específico, a tarefa de apuração de fatos
ou a tarefa de afinar a análise possa predominar num momento, encobrindo a
outra. Professores podem tentar esclarecer isso para seus alunos falando sobre
indução e dedução, chegando até mesmo a contrapor uma à outra, criando, assim,
problemas espúrios. O essencial, seja qual for a nossa interpretação, é a
"troca incessante" entre o conceito claro e a conclusão coerente, por
um lado, e o novo fato e o tratamento de sua variabilidade, por outro.
Agora,
assim que realizarmos o milagre de saber o que não podemos saber, ou seja, a
existência do viés ideológico em nós mesmos e nos outros, podemos rastreá-lo
até uma fonte simples [Schumpeter adorava fazer ironias com jogos de palavras].
Essa fonte [da ideologia] reside na visão inicial dos fenômenos que
propomos submeter ao tratamento científico, mas o seu tratamento, em si,
está sob controle objetivo, no sentido de que é sempre possível estabelecer se
uma dada afirmação, em referência a um dado estado de conhecimento, é
comprovável, refutável ou nenhuma das duas. É claro que isso não exclui o erro
honesto ou a falsificação desonesta. Não exclui delírios de diversos tipos. Mas
permite a exclusão daquele tipo específico de delírio que chamamos de ideologia
[no sentido de um juízo de valor independente dos fatos], porque o teste
envolvido é indiferente a qualquer ideologia [ou deveria sê-lo].
(Continua).
quarta-feira, 22 de abril de 2026
segunda-feira, 20 de abril de 2026
POR QUE ALGUNS BRITÂNICOS NÃO GOSTAM DE DONALD TRUMP?
Nate White, um escritor inglês
Algumas coisas me vêm à mente. Trump carece de certas qualidades que os britânicos tradicionalmente prezam. Por exemplo, ele não tem classe, charme, frieza, credibilidade, compaixão, sagacidade, calor humano, sabedoria, sutileza, sensibilidade, autoconsciência, humildade, honra ou elegância — todas qualidades, curiosamente, com as quais seu antecessor, o Sr. Obama, foi generosamente agraciado.
Portanto, para nós, o forte contraste expõe as limitações de Trump constrangedoramente. Além disso, gostamos de rir. E, embora Trump costume ser ridículo, ele nunca disse nada irônico, espirituoso ou sequer remotamente engraçado — nunca, jamais. Não digo isso retoricamente, quero dizer literalmente: nunca, jamais. E esse fato é particularmente perturbador para a sensibilidade britânica — para nós, a falta de humor é quase desumana. Mas em Trump, isso é um fato. Ele sequer parece entender o que é uma piada — para ele, piada é um comentário grosseiro, um insulto ignorante, um ato casual de crueldade.
Trump é um troll. E, como todos os trolls, ele nunca é engraçado e nunca ri; ele apenas se vangloria ou zomba. Assustadoramente, ele não só fala insultos grosseiros e sem graça, como realmente pensa dessa forma. Sua mente é um algoritmo simples, como o de um robô, repleto de preconceitos mesquinhos e maldade impulsiva. Nunca há nenhuma camada subjacente de ironia, complexidade, nuance ou profundidade. É tudo superficial. Alguns americanos podem ver isso como algo refrescantemente franco, direto. Bem, nós não. Vemos isso como a ausência de um mundo interior, de alma.
Na Grã-Bretanha, tradicionalmente nos aliamos a Davi, não a Golias. Todos os nossos heróis são azarões corajosos: Robin Hood, Dick Whittington, Oliver Twist [o próprio Churchill estava completamente desacreditado no Partido Conservador às vésperas da 2ª Guerra]. Trump não é corajoso nem um azarão. Ele é exatamente o oposto disso. Ele nem sequer é um riquinho mimado ou um magnata ganancioso. É mais como uma enorme e gordurosa lesma branca. Um Jabba the Hutt [o vilão de Guerra nas Estrelas] do privilégio.
E pior, ele é aquilo que os britânicos consideram imperdoável: um valentão. Exceto quando está entre valentões; aí, de repente, ele se transforma numa adolescente deslumbrada [como aconteceu com Vladimir Putin]. Há regras não ditas para essas coisas — as regras de Queensberry [lorde inglês que criou as regras do boxe] da decência básica — e ele quebra todas elas. Ele ataca quem está em posição inferior — algo que um cavalheiro jamais faria — e cada golpe que ele desfere visa as partes baixas. Ele gosta particularmente de chutar os vulneráveis ou indefesos — e os chuta quando já estão no chão.
Portanto, o fato de uma minoria significativa — talvez um terço — dos americanos observar o que ele faz, ouvir o que ele diz, e depois pensar “Ele parece ser do meu tipo” é motivo de certa confusão e não pouca angústia para os britânicos, uma vez que os americanos, em geral, são considerados mais gentis do que nós, e na maioria das vezes o são.
Não é preciso ser um especialista em detalhes para notar algumas falhas nesse homem. Este último ponto é o que mais confunde e consterna os britânicos, e outras pessoas também; seus defeitos são praticamente impossíveis de ignorar. Afinal, é impossível ler um único tweet dele, ou ouvi-lo falar uma ou duas frases, sem se deparar com um abismo. Ele transforma a falta de tato em arte; é um Picasso da mesquinhez; um Shakespeare de merda. Seus defeitos são fractais: até mesmo suas falhas têm falhas, e assim por diante, ao infinito [como os fractais].
Deus sabe que sempre houve pessoas estúpidas no mundo, e muitas pessoas desagradáveis também. Mas raramente a estupidez foi tão desagradável, ou a maldade tão estúpida. Ele faz Nixon parecer confiável e George W. Bush inteligente. Aliás, se Frankenstein decidisse criar um monstro feito inteiramente só de defeitos humanos, ele criaria um Trump. E um Dr. Frankenstein arrependido arrancaria tufos enormes de cabelo e gritaria em agonia: “Meu Deus… o que… eu… criei?”
Se ser um idiota fosse um programa de TV, Trump seria a série completa.
domingo, 19 de abril de 2026
Há
cem anos, os economistas estavam muito mais satisfeitos com seu desempenho do
que estão hoje. Mas afirmo que, se essa complacência pode ser justificada, e digo que há
muito mais motivos para complacência hoje do que havia naquela época, ou mesmo
há um quarto de século... E se isso é verdade para o nosso domínio dos fatos,
deve ser verdade também para todos os campos aplicados que, para seu avanço,
dependem principalmente da apuração de fatos. Devo insistir, um pouco contido, na afirmação
de que nossa capacidade de análise cresceu em paralelo com nosso acervo de
fatos. Um novo conjunto de métodos estatísticos emergiu, em certa medida por
nossos próprios esforços, que certamente terá tanta importância para nós quanto
para todas as ciências, como a biologia ou a psicologia experimental, cujos
fenômenos são expressos em termos de distribuições de frequência.
Em
resposta a esse desenvolvimento e em consonância com ele, mas de forma independente, nosso próprio conjunto de ferramentas analíticas foi
enormemente enriquecido: a teoria econômica, no sentido instrumental do termo —
que não significa o ensino dos fins últimos das políticas públicas nem
hipóteses explicativas, mas simplesmente a soma total de nossos métodos de
lidar com os fatos — cresceu tanto quanto Marshall e Pareto previram. Se isso
não é mais amplamente reconhecido e se é de bom tom entre economistas — principalmente
em público — emitir julgamentos depreciativos sobre o estado de nossa ciência,
isso se deve a uma série de causas que, embora conhecidas, costumam se repetir: um terreno onde estruturas antigas estão sendo demolidas e novas
erguidas não é algo esteticamente agradável; além disso, de forma bastante
desencorajadora, as novas estruturas estão sendo desacreditadas por tentativas
prematuras de aplicação utilitarista; finalmente, a área de construção se
expande tanto que impossibilita ao trabalhador individual
compreender tudo o que acontece além do seu pequeno setor.
Seria,
de fato, difícil apresentar de forma sistemática, como Smith, Mills e
Marshall conseguiram fazer com maior ou menor sucesso, um tratado abrangente
que demonstrasse alguma unidade e obtivesse aprovação quase universal. Assim,
embora os trabalhadores de cada setor não estejam de todo insatisfeitos com o
seu próprio desempenho, é bastante provável que desaprovem a maneira como os outros setores executam suas tarefas, ou mesmo que neguem que essas
outras tarefas mereçam qualquer atenção... Muitos tipos de mente são
necessários para construir a estrutura do conhecimento humano, tipos que nunca
se entendem completamente. A ciência é técnica e, quanto mais se desenvolve,
mais completamente escapa à compreensão não só do público em geral, mas também...
do próprio pesquisador.
Isso
ocorre mais ou menos em todos os lugares, embora uma maior uniformidade na
formação e uma maior disciplina no trabalho possam, na física, reduzir o
tumulto a algo semelhante à ordem. Como todos sabem, porém, existe entre nós
outra fonte de confusão e outra barreira ao progresso: a maioria de nós, não
contente com sua tarefa científica, cede ao chamado do dever público e ao
desejo de servir ao país e à sua época, trazendo consigo para o trabalho seus
valores individuais, suas crenças e sua visão política — toda a sua
personalidade moral, até suas ambições espirituais.
Não
pretendo discutir sobre juízos de valor ou sobre a defesa de
interesses de grupo. Pelo contrário, é essencial para o meu propósito enfatizar
que, em si, a prática científica não exige que nos despojemos de nossos juízos
de valor ou que renunciemos à vocação de defensor de algum interesse
específico. Investigar fatos ou desenvolver ferramentas para fazê-lo é uma
coisa; avaliá-los de um ponto de vista moral ou cultural é, logicamente, outra
coisa, e as duas não precisam entrar em conflito. Da mesma forma, o defensor de
um determinado interesse pode, ainda assim, realizar um trabalho analítico
honesto, e a motivação de provar um ponto em defesa do interesse ao qual deve
lealdade não prova, por si só, nada a favor ou contra esse trabalho analítico:
em outras palavras, defender uma causa não implica mentir ou distorcer fatos ou inferências para servirem a um
ideal ou interesse. Mas tal conduta má não é necessariamente inerente ao
argumento de um pesquisador a partir de suas "premissas axiológicas"
ou à defesa delas em si. Abundam exemplos em que economistas estabeleceram proposições
cujas implicações não lhes causavam qualquer simpatia. Para citar um único
exemplo: estabelecer a consistência lógica das condições (equações) que
descrevem uma economia socialista parecerá à maioria das pessoas equivalente a
ganhar um ponto para o socialismo; mas isso foi estabelecido por Enrico Barone,
um homem que... não simpatizava com os ideais socialistas.
(continua)
TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 8
O
Processo Científico: Visão e Regras de Procedimento.
Estamos
agora prontos para dar o segundo passo em nossa investigação sobre os perigos
do viés ideológico, ou seja, para perguntar até que ponto ele ameaça a validade
dos resultados naquele campo mais restrito que descrevemos como Análise
Econômica. Alguns leitores podem até pensar que não há um segundo passo a ser
dado: uma vez que já renunciamos, como condicionados ideologicamente, a todos
os sistemas de economia política, e uma vez que, além disso, reconhecemos como
ideologias os conjuntos de opiniões sobre assuntos econômicos menos
completamente sistematizados que, em qualquer tempo e lugar, “flutuam na mente
do público”, parece que, de fato, admitimos tudo o que havia para admitir. E
aqueles leitores, em particular, cujo principal interesse reside na história
das ideias que moldam as pessoas... associadas a políticas ou a concepções
sobre o que deve ser considerado justo ou desejável na gestão de assuntos
econômicos, e cujo interesse no desenvolvimento da análise econômica técnica é
apenas secundário, provavelmente admitirão que nosso conjunto de ferramentas
pode estar tão distante da influência de ideologias quanto as técnicas de
qualquer outra ciência. Infelizmente, não podemos presumir isso. Analisemos,
portanto, o próprio processo científico para identificar onde elementos
ideológicos podem se infiltrar e quais são os nossos meios de reconhecê-los e,
talvez, eliminá-los.
Na
prática, todos nós iniciamos nossas pesquisas a partir do trabalho de nossos
antecessores, ou seja, raramente começamos do zero. Mas suponhamos que
começássemos do zero... para sermos capazes de formular quaisquer problemas,
primeiro precisaríamos visualizar um conjunto distinto de fenômenos coerentes...
Em outras palavras, o esforço analítico é necessariamente precedido por um ato
cognitivo pré-analítico que fornece a matéria-prima para o esforço analítico.
Neste livro, esse ato cognitivo pré-analítico será chamado de Visão. É
interessante notar que esse tipo de visão não só deve preceder historicamente o
surgimento do esforço analítico em qualquer campo, como também pode reaparecer
na história de toda ciência estabelecida sempre que alguém nos ensina a ver as
coisas sob uma perspectiva cuja origem não se encontra nos fatos, métodos e
resultados do estado preexistente da ciência.
Ilustremos
isso com um exemplo de nossa época. Críticos e admiradores da contribuição
científica do falecido Lord Keynes concordarão que sua Teoria Geral do Emprego,
do Juro e da Moeda (1936) foi o grande sucesso da década de 1930 e dominou o trabalho analítico por, no mínimo, uma década após sua publicação. A Teoria
Geral apresentou um aparato analítico que o autor resumiu no Capítulo 18. Se
seguirmos sua exposição passo a passo (ver especialmente pp. 249–54),
observamos que esse aparato foi concebido para dar expressão conveniente a
certos fatos do “mundo em que vivemos” — embora, como o próprio Keynes
enfatizou, esses fatos sejam atribuídos às suas tabelas fundamentais (propensão
a consumir, atitude em relação à liquidez e eficiência marginal do capital)
como características especiais e não como propriedades “logicamente
necessárias”.
Esse
padrão analítico será discutido posteriormente, onde também será demonstrado
que as características especiais em questão são características do capitalismo
inglês em declínio, vistas do ponto de vista de um intelectual inglês. Não há
dúvidas de que foram estabelecidas por pesquisas factuais anteriores. Elas são
“plausivelmente atribuídas ao nosso mundo [inglês], com base em nosso
conhecimento geral da natureza humana contemporânea” (p. 250). Este não é o
lugar para discutir os méritos ou deméritos dessa concepção. O que importa aqui
e agora é que se trata de uma concepção ou visão, em nosso sentido, e que
antecedeu todos os esforços analíticos de Keynes. O processo se destaca, neste
caso, com uma clareza insuperável porque podemos ler uma formulação da visão,
ainda analiticamente desarmada, em algumas páginas brilhantes de As
Consequências Econômicas da Paz (1919), de Keynes. No que diz respeito a essa
linha de atuação... todo o período entre 1919 e 1936 foi gasto em tentativas,
primeiro malsucedidas, depois cada vez mais bem-sucedidas, de implementar a
visão particular do processo econômico de nossa época que estava fixada na
mente de Keynes, no máximo, em 1919 [ou seja, essa visão não pode deixar de
apresentar condicionamentos sociais, logo algum nível de ideologia]...
O
esforço analítico começa quando concebemos nossa visão do conjunto de fenômenos
que despertou nosso interesse, independentemente de esse conjunto estar em solo
virgem ou em terras já cultivadas. A primeira tarefa é verbalizar ou conceituar
essa visão de forma que seus elementos ocupem seus lugares, com nomes que
facilitem o reconhecimento e a manipulação, em um esquema ou representação mais
ou menos ordenada. Mas ao fazer isso, nós nos impomos, quase automaticamente,
duas tarefas: por um lado, reunimos mais fatos além daqueles já percebidos e
aprendemos a desconfiar de outros que figuravam na visão original; por outro
lado, o próprio trabalho de construir o esquema ou a imagem adicionará novas
relações e conceitos ao conjunto original e, em geral, também eliminará outros.
O
trabalho factual e o trabalho “teórico”, em uma relação interminável de troca e
contribuição, naturalmente testando-se mutuamente e propondo novas tarefas um
para o outro, eventualmente produzirão modelos científicos, os produtos
conjuntos provisórios de sua interação com os elementos sobreviventes da visão
original, aos quais serão aplicados padrões cada vez mais rigorosos de
consistência e adequação... Agora, deve ficar perfeitamente claro que há uma
ampla porta de entrada para a ideologia nesse processo. Na verdade, ela entra
logo no início, no ato cognitivo pré-analítico do qual temos falado. O trabalho
analítico começa com o material fornecido por nossa visão das coisas, e essa
visão é ideológica quase por definição.
Ela
incorpora a imagem das coisas como as vemos, e sempre que houver qualquer
motivo possível para desejar vê-las sob uma determinada perspectiva em vez de
outra, a maneira como as vemos dificilmente pode ser distinguida da maneira
como desejamos vê-las. Quanto mais honesta e ingênua for nossa visão, mais
perigosa ela será para o eventual surgimento de algo que possa ser considerado
de validade geral. A inferência para as ciências sociais é óbvia, e nem mesmo é
verdade que aquele que odeia um sistema social formará uma visão objetivamente
mais correta dele do que aquele que o ama. Pois o amor distorce, de fato, mas o
ódio distorce ainda mais. Nosso único consolo reside no fato de que há um
grande número de fenômenos que não afetam nossas emoções de uma forma ou de
outra e que, portanto, parecem muito semelhantes para inúmeros indivíduos.
Mas
também observamos que as regras de procedimento que aplicamos em nosso trabalho
analítico são quase tão isentas de influência ideológica quanto a visão está
sujeita a ela. Lealdade apaixonada e ódio apaixonado podem, de fato, interferir
nessas regras. Em si mesmas, essas regras, muitas das quais, aliás, nos são
impostas pela prática científica em campos pouco ou nada afetados pela
ideologia, são bastante eficazes em expor o mau uso. E, o que é igualmente
importante, elas tendem a eliminar o erro condicionado ideologicamente das
visões a partir das quais partimos. Essa é a sua virtude particular, e elas o
fazem automática e independentemente dos desejos do pesquisador. Os novos
fatos que ele é obrigado a acumular se impõem ao seu esquema mental. Os novos
conceitos e relações, que alguém mais formulará se ele não o fizer, devem
verificar suas ideologias ou então destruí-las. E se esse processo for
permitido se desenvolver completamente, certamente não nos protegerá do
surgimento de novas ideologias, mas, no fim, eliminará o erro das existentes.
É
verdade que, em economia, e ainda mais em outras ciências sociais, essa esfera
do estritamente comprovável é limitada, pois sempre existem áreas periféricas
que são questões de experiência e impressão pessoal, das quais é praticamente
impossível erradicar completamente a ideologia, ou mesmo a desonestidade
consciente. O consolo que podemos obter com nosso argumento, portanto, nunca é
completo [o máximo que se pode fazer é controlar a ideologia].
[traduzido de History of Economic Analysis]
Infelizmente
Schumpeter não concluiu esse ponto antes de morrer, e boa parte da
reconstituição provável desse trecho está comprometida e incompleta. Pegamos
apenas as partes que ajudem a perceber melhor o que ele defendeu a respeito.
domingo, 12 de abril de 2026
TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 7
Diferença
entre História da Análise Econômica, História dos Sistemas de Economia Política
e História do Pensamento Econômico
....
Por
sistema de economia política, entendo uma exposição de um conjunto abrangente
de políticas econômicas que seu autor defende com base em certos princípios
unificadores (normativos), como os princípios do liberalismo econômico, do
socialismo e assim por diante. Tais sistemas se enquadram em nosso escopo na
medida em que contenham trabalho genuinamente analítico. Por exemplo, A Riqueza
das Nações, de A. Smith, foi, de fato, em sua intenção, um sistema de economia
política no sentido definido acima e, como tal, não nos interessa. Nos
interessa ainda mais pelo fato de que os princípios e receitas políticas de A.
Smith — sua defesa cautelosa do livre comércio e outros — são apenas a capa de
uma grande conquista analítica [feita antes de Smith].
Em
outras palavras, não estamos tão interessados no
que ele argumentou, mas em como ele argumentou e quais ferramentas de análise utilizou para fazê-lo. Seus princípios e receitas políticas (incluindo a ideologia — revelando juízos de valor) eram, sem dúvida, o que mais importava para ele e
para seus leitores e, além disso, o que explica principalmente o sucesso de sua
obra junto ao público e sua posição de destaque na história do pensamento
humano. Mas estou disposto a descartá-los como meras formulações da ideologia
de sua época e país, sem validade para qualquer outra.
O
mesmo se aplica ao que definimos como Pensamento Econômico, ou seja, a soma
total de todas as opiniões e desejos relativos a assuntos econômicos,
especialmente no que diz respeito às políticas públicas que os influenciam, e
que, em qualquer tempo e lugar, circulam na mente pública.
Ora,
a mente pública nunca é algo indiferenciado ou homogêneo, mas sim o resultado
da divisão da comunidade correspondente em grupos e classes de naturezas
diversas. Em outras palavras, a mente pública reflete, de forma mais ou menos
traiçoeira... a estrutura de classes da sociedade correspondente e as
mentalidades ou atitudes de grupo que nela se formam. Como essas mentalidades
de grupo têm diferentes oportunidades de se afirmar e, principalmente, de
deixar suas marcas na literatura que chega ao conhecimento das gerações
posteriores, surgem questões de interpretação que são sempre difíceis de
resolver.
...
Uma coisa é lidar com políticos, outra com os lojistas, agricultores e
operários que são “representados” por esses políticos. E isso pode ser
formulado em sistemas de economia política por escritores que pertencem, ou se
vinculam, a setores específicos. Por outro lado, pode tangenciar, ou se
sobrepor a, trabalhos analíticos, como frequentemente ocorre em tratados
escritos por membros da burguesia comercial ou industrial. Na medida em que
isso acontece, será nossa tarefa, naturalmente, selecionar, da melhor maneira
possível, as interpretações analíticas dentre as verbalizações comuns dos humores
da época que não estejam relacionadas ao esforço para aprimorar nosso aparato
conceitual e, portanto, não nos interessam.
É
claro que jamais negligenciaremos o ambiente geral do pensamento econômico no
qual, em diferentes épocas, os analistas desenvolveram seu trabalho. Mas esses
ambientes e suas transformações históricas nunca são nosso principal objeto de
interesse. Eles surgem como influências favoráveis ou
inibidoras sobre o trabalho analítico,
que permanecerá o protagonista
ao longo de nossa análise.
Ao tentarmos desvincular o trabalho analítico
de seu contexto popular, mesmo que este exerça incessantemente sua influência, faremos uma descoberta que é
conveniente ressaltar de imediato.
O
desenvolvimento do trabalho analítico, por mais perturbado que tenha sido pelos
interesses e atitudes do mercado, apresenta uma característica totalmente
ausente do desenvolvimento histórico do pensamento econômico em nosso sentido,
bem como da sucessão histórica dos sistemas de economia política. Essa
característica pode ser melhor ilustrada por um exemplo: desde os primórdios
até os dias de hoje, os economistas analíticos têm se interessado, em maior ou
menor grau, pela análise do fenômeno que chamamos de preço competitivo. Quando
o estudante moderno se depara com o fenômeno em um nível avançado de seus
estudos, por exemplo, nos livros de Hicks ou Samuelson, ele é apresentado a uma
série de conceitos e problemas que podem lhe parecer difíceis a princípio, e
certamente seriam completamente incompreensíveis para um autor como John Stuart
Mill. Mas o estudante também descobrirá em breve que um novo aparato apresenta
e resolve problemas para os quais os autores mais antigos teriam dificilmente encontrado respostas, mesmo que os conhecessem. Isso define, de maneira sensata
e, em todo caso, perfeitamente inequívoca, em que sentido houve "progresso
científico" entre Mill e Samuelson.
Ora, nossa capacidade de falar em progresso nesse caso se deve, obviamente, ao fato de existir um padrão amplamente aceito, restrito a um grupo de profissionais, que nos permite organizar diferentes teorias de preço competitivo em uma série em que cada membro pode ser considerado superior ao anterior [o nível (de complexidade ou precisão) da análise mais aceita em uma época tende a ser superado pelo nível da análise mais aceita que lhe segue]. Observamos ainda que essa sequência está associada ao passar do tempo, no sentido de que a teoria posterior dos preços competitivos quase sempre ocupa posição superior na escala de perfeição analítica: quando isso não ocorre, é possível atribuir esse fato a influências extra-analíticas perturbadoras. Mas, embora seja possível falar em progresso analítico e impossível negar os fatos que essa palavra denota, nada corresponde a isso no campo do pensamento econômico ou mesmo em qualquer conjunto histórico de sistemas de economia política.
Por exemplo, não faria
sentido falar de uma superioridade das ideias de Carlos Magno sobre política
econômica, reveladas por suas ações legislativas e administrativas, sobre as
ideias econômicas, digamos, do Rei Hamurabi; ou dos princípios gerais de
política revelados pelas proclamações dos reis Stuart sobre as de Carlos Magno;
ou das declarações de política que precedem às vezes as leis do Congresso sobre
essas proclamações Stuart. É claro que podemos simpatizar com alguns dos
interesses favorecidos em um desses casos em vez dos interesses favorecidos em
outros e, nesse sentido, organizar esses documentos também em uma escala de
preferência. Mas o lugar de qualquer corrente de pensamento econômico em tal
conjunto variaria de acordo com os nossos julgamentos de valores, e quanto ao
resto, ficaremos com nossa preferência emocional ou estética pelos diversos
esquemas de vida que encontram expressão nesses documentos. Situação semelhante a como se nos perguntassem se o melhor pintor seria Gauguin ou Ticiano. A única
resposta sensata para tal pergunta é que ela não tem sentido. E o mesmo se
aplica, naturalmente, a todos os sistemas de economia política, se excluirmos
deles as excelências ou deficiências técnicas.
Podemos,
de fato, preferir o mundo do socialismo ditatorial moderno ao mundo de Adam
Smith, ou vice-versa, mas qualquer preferência desse tipo se enquadra na mesma
categoria de avaliação subjetiva... Em outras palavras, não há significado
objetivo para o termo progresso em questões econômicas ou de qualquer outra
política, porque não existe um padrão válido para comparações. Seria supérfluo
acrescentar que esse argumento parece esclarecer satisfatoriamente as
diferenças entre os historiadores da economia sobre esse ponto. Alguns deles
pensam em análise técnica e em um domínio crescente dos fatos; estes estão
absolutamente certos ao falar do progresso científico em nossa área. Outros
falam das mudanças de humor, elas próprias produto das mudanças nas condições
sociais, que produzem mudanças de opinião sobre políticas e desejos; estes
estão absolutamente certos ao negar que exista algo como progresso em nossa
área. Qualquer um dos grupos pode errar ao ignorar que existe um aspecto do
pensamento humano sobre assuntos econômicos além daquele que estão considerando
exclusivamente [talvez ele esteja se referindo aqui à questão da afetividade, das
preferências, que é incomensurável e que subjaz a toda atividade mental].
[traduzido de History of Economic Analysis]
segunda-feira, 6 de abril de 2026
TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 6
A HISTÓRIA DA ECONOMIA É UMA HISTÓRIA DE
IDEOLOGIAS?
A natureza histórica ou
‘evolutiva’ do processo econômico limita inquestionavelmente o alcance dos
conceitos e das relações gerais entre eles (‘leis econômicas’) que os
economistas podem formular. De fato, não faz sentido negar, a priori, como já
foi feito algumas vezes, que tais conceitos ou relações não podem sequer ser
formulados. Em particular, não é necessário que os conceitos que usamos no
estudo de grupos sociais sejam familiares aos próprios membros desses grupos:
se é fato que o conceito de renda não era familiar às pessoas da Idade Média
antes do século XIV não é motivo para não usá-lo em uma análise de sua
economia. Mas é verdade também que as “leis econômicas” são muito menos
estáveis do que as “leis” de qualquer ciência física, que elas funcionam de
maneira diferente em diferentes condições institucionais e que a negligência
desse fato foi responsável por muitas aberrações. Também é verdade que, quando
tentamos interpretar atitudes humanas, especialmente atitudes de pessoas muito
distantes de nós no tempo ou na cultura, arriscamos compreendê-las
mal, não apenas se substituirmos grosseiramente nossas próprias atitudes pelas
delas, mas também se fizermos o possível para penetrar no funcionamento de suas
mentes. Tudo isso se agrava consideravelmente pelo fato de o próprio observador
ser produto de um determinado ambiente social — e de sua posição específica
nesse ambiente — que o condiciona a enxergar certas coisas em detrimento de
outras, e a vê-las sob uma determinada perspectiva. E não é só isso: fatores
ambientais podem até mesmo dotar o observador de um desejo subconsciente de ver
as coisas sob uma certa ótica. Isso nos leva ao problema do viés ideológico na
análise econômica.
A psicologia e a
psicoterapia modernas nos familiarizaram com um hábito mental que chamamos de
racionalização. Esse hábito consiste em nos confortar e impressionar os outros,
criando uma imagem de nós mesmos, de nossas motivações, de nossos amigos, de nossos
inimigos, de nossa vocação, de nossa igreja, de nosso país, que pode ter mais a
ver com o que gostaríamos que fossem do que com o que realmente são. O
concorrente que é mais bem-sucedido do que nós, provavelmente deve seu sucesso
a artimanhas que desprezamos. É bem provável que o líder de um partido que não
é o nosso seja um charlatão... E assim por diante. A importância desse hábito
para a saúde e a felicidade da mente normal é óbvia, assim como a importância
de um diagnóstico correto de suas manifestações verbais.
O conceito de ideologia
marxista
Meio século antes de que a
importância desse fenômeno fosse plenamente reconhecida e utilizada
profissionalmente [já havia o uso pejorativo feito por Napoleão I], Marx e
Engels o descobriram e usaram essa descoberta em suas críticas à economia
“burguesa” de sua época. Marx percebeu que as ideias ou sistemas de ideias dos
homens não são, como a historiografia ainda tende a assumir acriticamente, os
principais motores do processo histórico, mas formam uma “superestrutura” sobre
fatores mais fundamentais...
Marx percebeu ainda que as
ideias ou sistemas de ideias que prevalecem em qualquer momento e em qualquer
grupo social, na medida em que contêm proposições sobre fatos e inferências a
partir de fatos, serão provavelmente viciados exatamente pelas mesmas razões
que também viciam as teorias de um homem sobre seu próprio comportamento
individual. Ou seja, as ideias das pessoas tendem a glorificar os interesses e
as ações das classes que estão em posição de se afirmar e, portanto, tendem a
desenhar ou insinuar imagens delas que podem estar seriamente em desacordo com
a verdade [que, por alguma razão misteriosa, só Marx e Engels conseguiam ver no
seu tempo].
Assim, os cavaleiros
medievais se imaginavam como protetores dos fracos e defensores da fé cristã,
enquanto seu comportamento real, além de outros fatores que produziram e
mantiveram a estrutura social de seu mundo, certamente parecerá muito
diferente para um observador de outra época e mesmo de outra classe no seu
tempo. Marx chamou esses sistemas de ideias de ideologias. E sua tese era que
grande parte da economia de sua época nada mais era do que a expressão da ideologia
da burguesia industrial e comercial.
O valor dessa grande
contribuição para nossa compreensão dos processos históricos e do significado
das ciências sociais é prejudicado, mas não destruído, por três falhas, que
convém observar de imediato.
Primeiro, embora Marx
estivesse tão atento ao caráter ideológico de sistemas de ideias com os quais
não simpatizava, ele era completamente cego aos elementos ideológicos presentes
nos seus próprios — A meu ver, este é o ponto essencial das racionalizações:
elas fornecem uma espécie de autodefesa para nossos organismos psíquicos e
tornam suportáveis muitas vidas que não vingariam sem elas. Mas o princípio
de interpretação envolvido em seu conceito de ideologia é perfeitamente geral
[e pode ser estudado cientificamente]. Obviamente, não podemos dizer que em
todo lugar há ideologia e que somente nós nos apoiamos na rocha da verdade
absoluta [como fazem os marxistas e aqueles que querem censurar politicamente
as redes sociais]. As ideologias trabalhistas não são melhores nem piores do
que quaisquer outras.
Em segundo lugar, a análise
marxista dos sistemas ideológicos de pensamento os reduz a emulsões de
interesses de classe, que por sua vez são definidos em termos exclusivamente
econômicos. Segundo Marx, as ideologias da sociedade capitalista são, para dizer
de forma grosseira, glorificações dos interesses daquilo que ele denominou
classe capitalista, cujos interesses giram em torno da busca por lucros
pecuniários. Ideologias que não glorificam o comportamento do homem capitalista
nos negócios, mas algo mais, por exemplo, o caráter e o comportamento nacional,
devem, portanto, ser sempre redutíveis, ainda que indiretamente, aos interesses
econômicos da classe dominante. Isso, porém, não está implícito no cerne do conceito
de ideologia, mas constitui uma teoria adicional e muito duvidosa. O próprio
princípio implica apenas duas coisas: que as ideologias são superestruturas
erguidas sobre, e produzidas pelas realidades da estrutura social objetiva
abaixo delas; e que elas tendem a refletir essas realidades de maneira
caracteristicamente tendenciosa. Se essas realidades podem ser completamente
descritas em termos puramente econômicos, é outra questão. Sem entrar nesse
mérito aqui, registramos apenas o fato de que atribuiremos um significado muito
mais amplo ao conceito de Influência Ideológica. A posição social é, sem
dúvida, um fator poderoso na formação de nossas mentes. Mas isso não significa
que nossas mentes sejam moldadas exclusivamente pelos elementos econômicos
inerentes à nossa posição de classe ou que, mesmo que isso ocorra, sejam
moldadas exclusivamente por um interesse de classe ou grupo bem definido [Nem
todos os burgueses, proletários, ou membros de uma classe que o valha, pensam da
mesma maneira; isso é um reducionismo atroz!].
Em terceiro lugar, Marx, e
especialmente a maioria de seus seguidores, presumiram com muita facilidade que
declarações que demonstram influência ideológica são, por si só, condenáveis
[menos a sua, que é a verdade absoluta]. Mas é fundamental enfatizar que, assim
como as racionalizações individuais, as ideologias não são mentiras... não são
necessariamente errôneas. É grande a tentação de aproveitar a oportunidade para
descartar de uma só vez todo um conjunto de proposições de que não gostamos,
simplesmente chamando-o de ideologia. Esse artifício é, sem dúvida, muito
eficaz, tão eficaz quanto os ataques às motivações pessoais de um oponente.
Mas, logicamente, é inadmissível.
Como já foi apontado, a
explicação, por mais correta que seja, das razões pelas quais um homem diz o
que diz, nada nos informa sobre se é verdade ou mentira. Da mesma forma,
declarações que procedem de uma base ideológica são passíveis de suspeita, mas
ainda podem ser perfeitamente válidas. Tanto Galileu quanto seus oponentes
podem ter sido influenciados por ideologias. Isso não nos impede de dizer que
ele estava "certo". Mas que justificativa lógica temos para afirmar
isso? Existe alguma maneira de localizar, reconhecer e, possivelmente, eliminar
os elementos ideologicamente viciados na análise econômica? E o que restará
após essa eliminação? Entende-se que nossas respostas, embora ilustradas por
exemplos, serão, por ora, provisórias, e que a validade, ou não, dos princípios
que estou prestes a formular só poderá ser avaliada por sua aplicação neste
livro na sua totalidade. Mas, antes de iniciarmos essa tarefa, precisamos esclarecer
uma questão preliminar.
Infelizmente, temos que
bloquear uma saída de emergência pela qual alguns dos mais fervorosos
defensores da doutrina de que... toda a ciência, é viciada por ilusões
ideológicas, tentaram escapar da conclusão aparentemente inevitável sobre a
possibilidade da "verdade científica". O professor K. Mannheim
ensinava que, embora a ilusão ideológica seja o destino comum da humanidade,
existem, no entanto, "inteligências independentes", flutuando
livremente no espaço, que gozam do privilégio de estarem isentas desse destino.
De forma um pouco mais realista, todos são vítimas da ilusão ideológica, exceto
o intelectual radical moderno que se ergue, de fato, sobre a rocha da verdade,
o juiz imparcial de todas as coisas humanas. Ora, se há algo que se possa
considerar óbvio neste campo, é o fato de que esse intelectual nada mais é do
que um amontoado de preconceitos que, na maioria dos casos, são sustentados com
toda a força de uma convicção sincera. Mas, além disso, não podemos seguir
Mannheim pela escada de incêndio, pois aceitamos plenamente a doutrina da
onipresença do viés ideológico e, portanto, não conseguimos enxergar na crença
de alguns grupos nada além de uma parte particularmente perversa de seu próprio
sistema de ilusões. Agora, voltemos à nossa tarefa.
Primeiro, o viés ideológico,
conforme definido acima por nossa versão modificada da definição marxista,
obviamente não é o único perigo que ameaça a análise econômica. Em particular,
há outros dois que devem ser mencionados especificamente porque são facilmente
confundidos com o viés ideológico. Um deles é a possível manipulação de fatos
ou de regras processuais por advogados peticionários [profissional
especializado em escrever petições, nem sempre muito fieis aos fatos, antes de
o advogado entrar em ação]. Tudo o que tínhamos a dizer sobre isso já foi dito:
aqui, apenas desejo alertar o leitor de que uma argumentação justificadora não
é o mesmo que análise ideologicamente viciada.
Outro perigo decorre do
hábito inveterado dos economistas de emitir juízos de valor sobre os processos
que observam. Os juízos de valor de um economista muitas vezes revelam sua
ideologia, mas não a definem: é possível emitir juízos de valor com base em fatos
irrefutavelmente estabelecidos e nas relações entre eles, e é possível
abster-se de emitir qualquer juízo de valor com base em fatos vistos sob uma
ótica ideologicamente distorcida. Não discutiremos o problema dos juízos de
valor aqui...
Notas
Adequação
conceitual
Sociólogos
como Max Weber, que defendem o método interpretativo dos estados ou mudanças
sociais — isto é, que acreditam que nossa principal ou única tarefa é tentar
entender o que as coisas significavam para as pessoas em cada momento — podem
facilmente chegar à conclusão de que o uso de quaisquer conceitos desconhecidos
para as pessoas em estudo implica o erro de presumir que suas mentes
funcionavam exatamente como as nossas. Ora, esse erro pode estar presente, mas
não necessariamente: usar um conceito que tem significado para nós, mas não
para as pessoas que observamos, é uma coisa; postular que o conceito também
tinha significado para estas últimas é outra bem diferente. Não precisamos recorrer
a tribos primitivas para ilustrar isso: se, em termos de nossos próprios
conceitos, formularmos as condições para maximizar os lucros, não precisamos
presumir que o próprio empresário utilize esses conceitos; nossa
"teoria" é perfeitamente válida mesmo que saibamos que ele não a
utiliza [o que invalida esses conceitos, numa abordagem pretensamente
científica, é a sua conotação moral, que transcende a natureza do conceito em
si, exceto aqueles que pressupõem um julgamento moral prévio, como os de
“exploração”, “exploradores”, “oprimidos”, mais apropriados a pregadores
religiosos].
Racionalização
O
termo “racionalização”, no sentido explicado a seguir, deve ser
cuidadosamente distinguido de outros significados da mesma palavra, especialmente
destes dois: (1) Às vezes, falamos de racionalização quando nos referimos a uma
ação que visa aprimorar algo, por exemplo, uma empresa industrial, para estar em conformidade com os padrões aprovados por consultores especializados.
(2) Em trabalhos de pesquisa, às vezes falamos de racionalização quando nos
referimos à tentativa de vincular um conjunto de descobertas empíricas a algum
princípio teórico que as explique. Assim, dizemos que racionalizamos o
comportamento empresarial observado pelo princípio da maximização do lucro.
Esses significados não têm relação alguma com o significado em discussão [um
mecanismo de defesa freudiano].
Burocracia
e ideologia
Alguns
grupos, como as burocracias, são mais propensos a essa ideologia [marxista],
que, entre outras coisas, envolve a negação claramente ideológica de qualquer
interesse [ideológico] em seu grupo ou, pelo menos, de sua influência [da
ideologia] sobre as políticas que eles próprios criam ou ajudam a moldar. Isso
pode ser usado como um primeiro exemplo da influência das ideologias sobre a
análise [negando-a, esses burocratas a confirmam]. Pois essa ideologia das
burocracias é um fator importante no hábito pouco científico dos economistas de
usar uma teoria claramente ideológica do Estado, que eleva este último a uma
agência sobre-humana para o bem público e negligencia os fatos sobre as
realidades da administração pública que a ciência política moderna proporciona.
[Traduzido de History of Economic Analysis]