sábado, 1 de agosto de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA - 34

Rescaldo: a misoginia?      

Eram duros os conselhos de conduta do Conselheiro, em especial os que diziam respeito às mulheres, pois, segundo Câmara (1993), “obrigava as mulheres a cortar o cabelo e queimar objetos de luxo.” Segundo ainda Vilanova, no Memorial de Vilanova de Nertan Macedo, “ele não falava com fêmeas", embora elas ajudassem, com sua presença, a sustentar a fama das suas aglomerações, enquanto pereciam aos montes da saraivada de partos a que, por razões diversas, tinham de se submeter. Segundo uma crença antiga, era pelo parto que a mulher se redimia do pecado de Eva e aumentava seu status social, tornando-se senhora de homens: os seus filhos.

Outra notícia, dessa vez constante de uma biografia publicada no jornal O Paiz, de 4 de fevereiro de 1897, corrobora as informações acima.

"Convém ponderar que Antônio é, na realidade, um executor sincero das teorias que prega. No quarto habitado por ele, jamais penetram mulheres, e quando tem de falar a estas… fá-lo de costas e rapidamente."

No Jornal de Notícias, de Salvador, em 4 de agosto de 1897, Lelis Piedade publicou o seguinte:

"Existem poucos homens com o... Conselheiro, que não sai mais à latada para as ladainhas das 6 horas da tarde, conservando-se quase sempre dentro de um quarto, tornando-se invisível… para as mulheres, pelo menos."

Havia uma exceção: as beatas, mulheres de certa idade, em geral viúvas, que vestiam hábito e o serviam em suas necessidades domésticas, morando em um aposento ao lado do seu, em Canudos.

No jornal A Notícia, nos dias 14 e 15 de setembro de 1897, M. Figueiredo faz um levantamento sucinto do comportamento do Conselheiro, que confirma a sua misoginia. "Pouco conversa com os seus mais íntimos e, quando fala, conserva os olhos baixos, dizendo monossilabicamente, guardando sempre certa distância do interlocutor. As mulheres raras vezes logram vê-lo, sendo mais raro ainda dirigir-lhe a palavra."

As meninas deveriam ficar sob o controle severo dos pais e da comunidade, diz Robert Levine. Isso desempenhava, no antigo universo patriarcal, uma espécie de controle de qualidade, para a hora de o pai ceder a sua filha ao filho de outro patriarca, com quem acertou casamento. Isso não quer dizer que os noivos eram vistos como “objetos” permutáveis, mas antes o quanto eles temiam a instabilidade social provocada pela irrupção de novos hábitos e das novas gerações. "Garotas adolescentes acusadas de flertar eram severamente punidas" (O sertão prometido — o massacre de Canudos, trad. Monica Dantas, Edusp, São Paulo, 1995, p. 231).

Fica mais provável a história que diz que a rixa entre Conselheiro e o juiz Leoni começou quando um conselheirista deu uma surra na amante do juiz, por seu “mau” comportamento, na feira; o que pode estar ligado a um comportamento ousado, uma roupa menor ou excesso de maquiagem.

O pouco apreço pela mulher fica evidente num episódio da guerra narrado por Euclides da Cunha: os soldados invadem uma casa e encontram um homem que duas mulheres, uma adulta e outra adolescente, agarravam, procurando contê-lo — provavelmente mãe e filha. À vista dos soldados, porém, o homem se liberta das duas com brutalidade e acerta mortalmente um soldado, sendo massacrado pelos outros. Ao morrer, o ignóbil diz: "Pelo menos levei um!"

O soldado que morrera ali, diante de seus companheiros, era provavelmente amigo destes, visto que faz parte do treinamento das tropas criar fortes laços entre os soldados, e o seu matador agora está morto. Quem sobrou para eles descontarem o que ainda resta da enorme frustração pela sua morte? 

Nos últimos dias do cerco de Canudos, uma mulher capturada pelos soldados informou que, no arraial, as mães e as crianças não estavam mais recebendo comida; esta era só para aqueles que faziam fogo (atiravam). No dia 3 de outubro, quando, após negociações, se rendeu uma grande leva de canudenses, a grande maioria era de mulheres e crianças, cuja característica mais notável eram seus corpos esqueléticos, sua extrema pobreza e a sujeira de seus trajes, confirmando o relato da prisioneira. Negava-se-lhes comida, e entregavam-nas ao inimigo! Vimos, em ensaio anterior, que a rendição das mulheres era recomendada pelo próprio Conselheiro.

E os que faziam fogo continuaram a fazê-lo após a rendição das mulheres, aumentando a raiva e a frustração dos soldados — doidos para voltar, com seus amigos, para suas famílias — e que fatalmente iriam dirigi-las contra as prisioneiras, que sofreram abusos inacreditáveis, segundo os testemunhos dos sobreviventes.

Mas se o Conselheiro era implacável com os maus hábitos das mulheres, a recíproca não era verdadeira quando se tratava dos homens. Defensor do celibato eclesiástico, ele fazia vista grossa quando o padre Sabino ia presidir os sacramentos em Canudos, uma vez que este era pai de dez filhos, e da mesma forma os tinha o padre Agripino, de Itapicuru, seu amigo. (Robert Levine, O sertão prometido — o massacre de Canudos, trad. Mônica Dantas, Edusp, São Paulo, 1995).

Além da moral severa, havia a expectativa apocalíptica com que encarava as mudanças da época e o enfraquecimento dos valores tradicionais, vistos como um sintoma de 'fim dos tempos', de onde a necessidade de se submeter a sofrimentos auto infligidos de grande severidade. ‘O mundo é mau!’ Assim pregavam os missionários da Igreja, conforme instruções vindas de Roma, e, nessa linha, judeus, maçons, protestantes e republicanos eram todos ‘filhos do demônio’ (Levine, 1995, p. 280). Conselheiro nada corrigiu a essa doutrina, portanto ele era, religiosamente falando, intolerante e antissemita.

Segundo Levine, Conselheiro, embora "clemente", trazia às pessoas um Deus absoluto, rígido e exigente, uma figura remota que só redimia em troca de muitas dores corporais e humilhação — à imagem de seu pai. A sua vida expressava esse lado severo, penitencial: vivia de esmola e dava o que sobrava, não tinha residência fixa e dormia no chão.

A visão de um Conselheiro manso e bondoso deve ser matizada pela época e pelo tipo de espiritualidade que ele introjetou por meio da Missão Abreviada. Conversando com algumas mulheres que haviam morado em Canudos, o jornalista baiano Lelis Piedade, do Jornal de Notícias, de 6 de setembro de 1897, no livro de Walnice Galvão, colheu o seguinte relato: "perguntei como o Conselheiro… conseguiu levar gente para si… Me responderam que o Conselheiro seduzia maridos e amantes, dizendo-lhes que, quem não os acompanhasse, os gafanhotos e uns pentes de ferro manejados por um cão preto lhes arrancariam as peles da cabeça aos pés."

Exagero à parte, isso se amolda à informação dada em outro parágrafo de que a maior iniciativa de ir morar em Canudos partia dos homens, de mentalidade mais aventureira e romântica, do que das mulheres, mais práticas e objetivas. Afinal, eram elas que cuidavam das crianças e costumavam pensar nelas antes de se atirar em uma aventura, e que o Conselheiro também recorria ao medo e à manipulação psicológica para alcançar o coração dos seus seguidores. 

No contexto do sertão e do catolicismo popular daquela época, alimentados pela teologia penitencial e apocalíptica, além de memórias da escravidão, as ameaças e os terrores eram praticamente inevitáveis. O resto é idealização ou fantasia que, por mais generosa que seja, não muda o caráter das duras relações de dominação, hierarquia e medo nas comunidades que o Conselheiro fundou, e em todas as outras.

A imagem dele, pintada pelo jornal O Rabudo, de 22 de novembro de 1874, com um camisolão azul todo sujo, com uma vasta cabeleira desgrenhada, sebosa, com uma espantosa multidão de bichos (piolhos), à qual acrescento: com fortíssimo odor de suor antigo, além do cheiro nauseabundo de outras secreções, é a que mais se aproxima da realidade, por ser assim que qualquer um fica quando se submete às condições em que ele vivia. Isso não é xingamento, é a natureza.

Para complicar, havia ainda as injunções políticas e econômicas interferindo nessa compreensão de mundo realizada em condições tão difíceis. Alguns padres aceitavam que ele pregasse, outros o proibiam. Os padres que o proibiam arranjavam uma encrenca com os comerciantes, que desejavam a sua presença, porque ela aumentava as vendas. Em Itapicuru, principal domínio de Jeremoabo, que era do Partido Conservador, o vigário, Padre Agripino da Silva Borges, senador estadual, ex-Partido Liberal, vivia convidando o Conselheiro para pregar, irritando o delegado, que era aliado do barão.

O padre Agripino era um amigo sincero, ou só o usava para espicaçar o barão?

Uma coisa tornava Canudos muito atraente aos comerciantes, e lhe rendeu apoio dessa classe, além do desejo de muitos em se mudar para lá: em Canudos, não se cobravam impostos.

Outra coisa que ajudou a criar fortes laços com a população foi o fato de ele aceitar ser padrinho de batismo de todas as crianças cujos pais o solicitavam, dando-lhes o prestígio da sua proximidade e intercessão religiosa. O batismo, nos sertões dos 1800, gerava entre pais e padrinhos uma relação recíproca de fidelidade e aliança que ia até a morte, como se ambos tivessem se tornado parentes de sangue. Nunca faltou gente para ajudar Canudos contra o Exército, apesar dos riscos.

Eduardo Simões

 

NOSSAS CRIANÇAS NOS SALVARÃO DE NÓS MESMOS?

Eduardo Simões

Minha filha e seu esposo estiveram recentemente nos EUA e voltaram impressionados, e muito bem impressionados, com uma coisa. Nas proximidades de todo restaurante ou balcão de venda de bebida, havia cartazes bem visíveis dizendo: ‘a partir daqui, criança (menor de tal idade) não pode passar’. Justo quando se dirigiam a uma agradável varanda externa de um restaurante, com sua filhinha pequena. Mudaram de programa.

Ninguém é louco de descumprir uma lei dessas... nos Estados Unidos, pois alguém certamente ligará para a polícia e o dono do bar, se não puder enxotar o infrator, não o servirá, para não se tornar cúmplice. Lá, a polícia, mesmo com suas falhas, é uma instituição respeitada e o povo ‘chama polícia’, enquanto aqui, um afamado compositor, muito querido pelo nosso Judiciário, aconselha há mais de 50 anos: ‘chame ladrão, chame ladrão, chame ladrão!’

Enquanto isso acontece nos EUA eu penso no quanto de vezes que eu já vi crianças entrando em bares e restaurantes para comprar bebida para seu pai ou algum adulto, que não quis se dar ao trabalho de não corromper seu filho. Menor bêbado? Já vi até em festa de escola ou de Igreja. Mas penso também em 2017, quando um 'artista' fez uma apresentação completamente nu, em um renomado museu, e vários pais levaram seus filhos e os incentivaram a interagir com o 'pelado'.

O deputado Kim Kataguiri protestou contra esse ato desarrazoado e deseducativo e uma violência contra a natureza das crianças; e, por causa disso, sofreu uma campanha de críticas encarniçadas por parte de alguns jornalistas e renomados artistas, falando em favor da liberdade de expressão, do enaltecimento da arte, etc. Embora fique difícil para alguém normal discernir o porquê de alguém, por autoproclamar-se artista, poder fazer coisas que outros, pela lei, não podem, ou ainda porque a nudez é proibida num espaço público e em outro, igualmente público, é autorizada. No embalo desse esculacho, o TJ-Rio autorizou que crianças, acompanhadas pelos pais, frequentassem uma exposição de pornografia em um museu da cidade. Uma professora chegou a levar sua turma de alunos.

Se perguntar não ofende, eu pergunto: quem dá um tiro de verdade em alguém dentro de um museu ou num palco de teatro, é um artista ou um criminoso? Se ele alegar que é um 'artista', isso servirá como atenuante? A gente começa a duvidar.

Se os nossos pais cuidam adequadamente de seus filhos, por que temos tantos menores cometendo crimes, e crimes dos mais graves, inclusive na recente profusão de estupros coletivos perpetrados por menores? Se não cuidam, por que o estado deixa que esses pais levem suas crianças a lugares inadequados ao seu nível de entendimento e maturidade emocional? Será que, para a justiça, as crianças não passam de objetos nas mãos de seus pais, e para compensar isso, faz os professores prestarem contas minuciosas aos alunos, e não aos seus responsáveis, como se as crianças fossem cidadãos de 'primeira classe',  e os professores meras babás diplomadas?

A contraparte também aparece: velhotes sexagenários ou mais, casados e com filhos, aparecem de repente nas primeiras páginas da imprensa e dos sites informativos, envolvidos em infames episódios de exploração sexual de adolescentes e crianças. E assim fecha-se o ciclo, a começar pela infância, de um 'espetáculo pornográfico' a outro, com o aval do nosso Judiciário, criaremos uma geração de velhos pedófilos.

Enquanto isso, a grande massa da população ainda pensante do país, cada vez menos numerosa, preocupa-se com a nossa estagnação econômica e a nossa incapacidade de sair da armadilha da renda média. Ora, para sair dessa armadilha, o único caminho conhecido é o que nós sempre nos recusamos a tomar: cuidar do ser humano, desde a infância, para o bem de seus familiares e amigos, de sua comunidade e do estado. Os americanos sempre fizeram isso e continuam fazendo, enquanto nós persistimos na senda errada que tomamos, sustentados pelas justificativas mais vazias e sem sentido, usando inclusive da proeminência da arte para corromper nossas crianças.

Querer que a criança se torne um adulto produtivo com um alto nível de eficiência profissional e social, interagindo cooperativamente com o seu meio, começa por garantir que as crianças tenham oportunidade a uma infância saudável, sem violência, sem pornografia, sem abandono e sem superproteção, mas cuidada por todos, pois antes de qualquer pessoa se tornar um produtor, ela precisa acreditar que é um ser humano, e que merece respeito e proteção compatíveis com a sua idade, o seu discernimento e a sua estrutura emocional.