Rescaldo: a misoginia?
Eram duros os conselhos
de conduta do Conselheiro, em especial os que diziam respeito às mulheres,
pois, segundo Câmara (1993), “obrigava as mulheres a cortar o cabelo e
queimar objetos de luxo.” Segundo ainda Vilanova, no Memorial de Vilanova
de Nertan Macedo, “ele não falava com fêmeas", embora elas
ajudassem, com sua presença, a sustentar a fama das suas aglomerações, enquanto
pereciam aos montes da saraivada de partos a que, por razões diversas, tinham
de se submeter. Segundo uma crença antiga, era pelo parto que a mulher se
redimia do pecado de Eva e aumentava seu status social, tornando-se senhora de
homens: os seus filhos.
Outra notícia, dessa
vez constante de uma biografia publicada no jornal O Paiz, de 4 de fevereiro de
1897, corrobora as informações acima.
"Convém ponderar
que Antônio é, na realidade, um executor sincero das teorias que prega. No
quarto habitado por ele, jamais penetram mulheres, e quando tem de falar a
estas… fá-lo de costas e rapidamente."
No Jornal de Notícias,
de Salvador, em 4 de agosto de 1897, Lelis Piedade publicou o seguinte:
"Existem poucos
homens com o... Conselheiro, que não sai mais à latada para as ladainhas das 6
horas da tarde, conservando-se quase sempre dentro de um quarto, tornando-se
invisível… para as mulheres, pelo menos."
Havia uma exceção: as
beatas, mulheres de certa idade, em geral viúvas, que vestiam hábito e o
serviam em suas necessidades domésticas, morando em um aposento ao lado do seu,
em Canudos.
No jornal A Notícia,
nos dias 14 e 15 de setembro de 1897, M. Figueiredo faz um levantamento sucinto
do comportamento do Conselheiro, que confirma a sua misoginia. "Pouco
conversa com os seus mais íntimos e, quando fala, conserva os olhos baixos,
dizendo monossilabicamente, guardando sempre certa distância do interlocutor.
As mulheres raras vezes logram vê-lo, sendo mais raro ainda dirigir-lhe a
palavra."
As meninas deveriam
ficar sob o controle severo dos pais e da comunidade, diz Robert Levine. Isso
desempenhava, no antigo universo patriarcal, uma espécie de controle de
qualidade, para a hora de o pai ceder a sua filha ao filho de outro patriarca,
com quem acertou casamento. Isso não quer dizer que os noivos eram vistos como
“objetos” permutáveis, mas antes o quanto eles temiam a instabilidade social
provocada pela irrupção de novos hábitos e das novas gerações. "Garotas
adolescentes acusadas de flertar eram severamente punidas" (O
sertão prometido — o massacre de Canudos, trad. Monica Dantas, Edusp, São
Paulo, 1995, p. 231).
Fica mais provável a
história que diz que a rixa entre Conselheiro e o juiz Leoni começou quando um
conselheirista deu uma surra na amante do juiz, por seu “mau” comportamento, na
feira; o que pode estar ligado a um comportamento ousado, uma roupa menor ou
excesso de maquiagem.
O pouco apreço pela
mulher fica evidente num episódio da guerra narrado por Euclides da Cunha: os
soldados invadem uma casa e encontram um homem que duas mulheres, uma adulta e
outra adolescente, agarravam, procurando contê-lo — provavelmente mãe e filha.
À vista dos soldados, porém, o homem se liberta das duas com brutalidade e
acerta mortalmente um soldado, sendo massacrado pelos outros. Ao morrer, o
ignóbil diz: "Pelo menos levei um!"
O soldado que morrera
ali, diante de seus companheiros, era provavelmente amigo destes, visto que faz
parte do treinamento das tropas criar fortes laços entre os soldados, e o seu
matador agora está morto. Quem sobrou para eles descontarem o que ainda resta
da enorme frustração pela sua morte?
Nos últimos dias do
cerco de Canudos, uma mulher capturada pelos soldados informou que, no arraial,
as mães e as crianças não estavam mais recebendo comida; esta era só para
aqueles que faziam fogo (atiravam). No dia 3 de outubro, quando, após
negociações, se rendeu uma grande leva de canudenses, a grande maioria era de
mulheres e crianças, cuja característica mais notável eram seus corpos
esqueléticos, sua extrema pobreza e a sujeira de seus trajes, confirmando o
relato da prisioneira. Negava-se-lhes comida, e entregavam-nas ao inimigo!
Vimos, em ensaio anterior, que a rendição das mulheres era recomendada pelo
próprio Conselheiro.
E os que faziam fogo
continuaram a fazê-lo após a rendição das mulheres, aumentando a raiva e a
frustração dos soldados — doidos para voltar, com seus amigos, para suas
famílias — e que fatalmente iriam dirigi-las contra as prisioneiras, que
sofreram abusos inacreditáveis, segundo os testemunhos dos sobreviventes.
Mas se o Conselheiro
era implacável com os maus hábitos das mulheres, a recíproca não era verdadeira
quando se tratava dos homens. Defensor do celibato eclesiástico, ele fazia
vista grossa quando o padre Sabino ia presidir os sacramentos em Canudos, uma vez
que este era pai de dez filhos, e da mesma forma os tinha o padre Agripino, de
Itapicuru, seu amigo. (Robert Levine, O sertão prometido — o massacre de
Canudos, trad. Mônica Dantas, Edusp, São Paulo, 1995).
Além da moral severa,
havia a expectativa apocalíptica com que encarava as mudanças da época e o
enfraquecimento dos valores tradicionais, vistos como um sintoma de 'fim dos
tempos', de onde a necessidade de se submeter a sofrimentos auto infligidos de
grande severidade. ‘O mundo é mau!’ Assim pregavam os missionários da Igreja,
conforme instruções vindas de Roma, e, nessa linha, judeus, maçons,
protestantes e republicanos eram todos ‘filhos do demônio’ (Levine, 1995, p.
280). Conselheiro nada corrigiu a essa doutrina, portanto ele era,
religiosamente falando, intolerante e antissemita.
Segundo Levine,
Conselheiro, embora "clemente", trazia às pessoas um Deus absoluto,
rígido e exigente, uma figura remota que só redimia em troca de muitas dores
corporais e humilhação — à imagem de seu pai. A sua vida expressava esse lado
severo, penitencial: vivia de esmola e dava o que sobrava, não tinha residência
fixa e dormia no chão.
A visão de um
Conselheiro manso e bondoso deve ser matizada pela época e pelo tipo de
espiritualidade que ele introjetou por meio da Missão Abreviada. Conversando
com algumas mulheres que haviam morado em Canudos, o jornalista baiano Lelis
Piedade, do Jornal de Notícias, de 6 de setembro de 1897, no livro de Walnice
Galvão, colheu o seguinte relato: "perguntei como o Conselheiro…
conseguiu levar gente para si… Me responderam que o Conselheiro seduzia maridos
e amantes, dizendo-lhes que, quem não os acompanhasse, os gafanhotos e uns
pentes de ferro manejados por um cão preto lhes arrancariam as peles da cabeça
aos pés."
Exagero à parte, isso
se amolda à informação dada em outro parágrafo de que a maior iniciativa de ir
morar em Canudos partia dos homens, de mentalidade mais aventureira e
romântica, do que das mulheres, mais práticas e objetivas. Afinal, eram elas
que cuidavam das crianças e costumavam pensar nelas antes de se atirar em uma
aventura, e que o Conselheiro também recorria ao medo e à manipulação
psicológica para alcançar o coração dos seus seguidores.
No contexto do sertão e
do catolicismo popular daquela época, alimentados pela teologia penitencial e
apocalíptica, além de memórias da escravidão, as ameaças e os terrores eram
praticamente inevitáveis. O resto é idealização ou fantasia que, por mais generosa
que seja, não muda o caráter das duras relações de dominação, hierarquia e medo
nas comunidades que o Conselheiro fundou, e em todas as outras.
A imagem dele, pintada
pelo jornal O Rabudo, de 22 de novembro de 1874, com um camisolão azul todo
sujo, com uma vasta cabeleira desgrenhada, sebosa, com uma espantosa multidão
de bichos (piolhos), à qual acrescento: com fortíssimo odor de suor antigo, além
do cheiro nauseabundo de outras secreções, é a que mais se aproxima da
realidade, por ser assim que qualquer um fica quando se submete às condições em
que ele vivia. Isso não é xingamento, é a natureza.
Para complicar, havia
ainda as injunções políticas e econômicas interferindo nessa compreensão de
mundo realizada em condições tão difíceis. Alguns padres aceitavam que ele
pregasse, outros o proibiam. Os padres que o proibiam arranjavam uma encrenca
com os comerciantes, que desejavam a sua presença, porque ela aumentava as
vendas. Em Itapicuru, principal domínio de Jeremoabo, que era do Partido
Conservador, o vigário, Padre Agripino da Silva Borges, senador estadual,
ex-Partido Liberal, vivia convidando o Conselheiro para pregar, irritando o
delegado, que era aliado do barão.
O padre Agripino era um
amigo sincero, ou só o usava para espicaçar o barão?
Uma coisa tornava
Canudos muito atraente aos comerciantes, e lhe rendeu apoio dessa classe, além
do desejo de muitos em se mudar para lá: em Canudos, não se cobravam impostos.
Outra coisa que ajudou
a criar fortes laços com a população foi o fato de ele aceitar ser padrinho de
batismo de todas as crianças cujos pais o solicitavam, dando-lhes o prestígio
da sua proximidade e intercessão religiosa. O batismo, nos sertões dos 1800,
gerava entre pais e padrinhos uma relação recíproca de fidelidade e aliança que
ia até a morte, como se ambos tivessem se tornado parentes de sangue. Nunca
faltou gente para ajudar Canudos contra o Exército, apesar dos riscos.