terça-feira, 2 de junho de 2026


    O CORONEL MOREIRA CÉSAR E 

               CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 20


RIO DE JANEIRO

Rumo ao Vaza-barris

            João Maurício Wanderley, o Barão de Cotegipe, da Bahia, se notabilizou, no tempo do Império, de duas maneiras: a primeira, por lutar contra a Lei Áurea, imaginando o prejuízo que esta causaria à economia e a imprevisão sobre as dificuldades que os ex-escravos teriam em se integrar à sociedade; a segunda, por suas profecias sobre o final do Império e início da República.

Em setembro de 1884, numa reunião em sua casa, na presença de dois amigos, ele falou:

— “A Princesa não há de subir ao trono e, se subir, terá chegado a vez da República, que deverá ser feita por nós, conservadores; porque, se o for pelos liberais, desunidos e desorientados como estão, não serão capazes de manter a integridade deste colosso, a qual vale mais que a sua forma de governo… As constituições não se fazem olhando para o exterior do país” [como o fez Rui Barbosa, em 1891].

Um dos amigos falou que talvez a República não esperasse a filha do imperador.

— “É possível, mas será um desastre; porque, se a República esperar o romper do dia e sair à rua ao cair da noite [talvez no sentido de “após o fim da noite”, como de fato aconteceu], depois de tatear algum tempo nas trevas, dará com tudo isto em Vaza-Barris…” (1) (p. 36)

O processo de republicanização do Brasil, entretanto, ao contrário do que queria Cotegipe, foi dominado por liberais como Rui Barbosa, Floriano Peixoto, Silveira Martins, chefes dos federalistas gaúchos, etc. Rui fez-nos uma Constituição, no molde da americana. No Rio Grande do Sul, Floriano afiançou a ditadura do republicano histórico Júlio de Castilhos, contra o seu ex-colega liberal Gaspar Silveira Martins, desencadeando uma das mais selvagens guerras civis da nossa história.

Na Bahia não foi diferente, pois Rui, aproveitando-se de sua influência no governo Deodoro, mexeu os pauzinhos para garantir as melhores colocações para seus antigos correligionários liberais. A Bahia, como o Rio 
Grande, virou um caos! E, no final, veio Canudos. Luiz Viana e seu preposto: Joaquim José Rodrigues Lima, sem falar de César Zama, eram todos liberais!

Por que será que era tão importante aos republicanos aplicar o golpe ao anoitecer, e não esperar o amanhecer? Tenho uma teoria a esse respeito, mas só vou falar no final.

Cotegipe, pelo visto, conhecia profundamente o Brasil e os brasileiros, uma habilidade perdida pelos nossos políticos, e mais uma vez profetizou, dessa vez na companhia de Antônio da Silva Jardim, o Silva Jardim, o republicano mais 'socialista' da época, ainda assim capaz de dialogar com quem pensava diferente. Encontraram-se num dia frio e cinzento no Hotel das Paineiras, no Rio de Janeiro, onde Cotegipe convalescia, em 13 de fevereiro de 1889. Disse Cotegipe, quando Jardim lhe provocou, perguntando sobre a chegada da República:

 

— “Não se apresse a correr para ela, que ela está correndo para nós. O meu Ministério caiu por uma conspiração de Palácio [a Princesa Isabel e o Conde D’Eu queriam a abolição já]; o meu sucessor há de cair na lama das ruas, e o sucessor do meu sucessor cairá na ponta das baionetas e, talvez, com ele, a Monarquia. Os nossos ministérios duram pouco e, portanto, V. não terá muito que esperar (idem, p. 37).

 O gabinete Cotegipe, conservador, foi sucedido pelo gabinete conservador-moderado de João Alfredo Correia de Oliveira, que promoveu a Abolição e foi embora sem deixar rastro. Acabou na poeira do esquecimento. Depois veio o gabinete liberal de Afonso Celso de Assis Figueiredo, o Visconde de Ouro Preto, durante o qual se deu o golpe de 15 de novembro. Como previsto.

A República começou, portanto, cercada pelos liberais, como ele tanto temia, e o único conservador que teve papel predominante, o marechal Deodoro, já não estava funcionando muito bem. Dizem que ele nunca funcionou.

Na sessão de 12 de maio de 1888, a última em que se discutiu sobre a Lei Áurea, Cotegipe tomou a palavra e pôs-se a profetizar: “A verdade é que há de haver uma perturbação enorme no país durante muitos anos, o que não verei, talvez, mas aqueles a quem Deus conceder mais vida, ou que forem mais moços, a presenciarão” (2) (Anais do Senado, p. 36).

Em 1889 houve a queda do império; em 1890 houve a maior crise financeira da história do Brasil, o Encilhamento; em 1893 houve o início da Revolta Federalista e da Armada, que durou dois anos; em 1896 estourou a guerra em Canudos, que durou quase um ano. Foram de sete a oito anos de conflitos e confusão, com muito sangue derramado.

No dia 12 de maio ele fez uma impressionante profecia durante os debates finais para a aprovação da Lei Áurea, onde voltou a lembrar a necessidade de formação de sociedades beneficentes, como era a compreensão da época, para preparar os ex-escravizados paras prosperarem na sociedade nacional, e desfiou a sibila que havia nele.

— “Senhores, a grande transformação se aproxima; a cerração negra [a estagnação econômica, política e social do Império] desaparece, rejeitada pela força irresistível dos acontecimentos que operam as mutações do tempo no seio da história, e por esses espaços imensos… entrarão os fachos deslumbrantes de um novo sol, e o oxigênio poderoso da civilização americana purifica essa atmosfera saturada de emanações cadavéricas; é uma ressurreição; é um passado de volta ao abismo de onde caiu [há erros ortográficos nesse texto, talvez o certo seja “saiu”]; é uma … era nova que começa; de todos os pontos de nossas fronteiras… os ventos nos trazem ideias vivificadoras… a liberdade religiosa; a regularização da legislação em todos os seus ramos; a difusão do ensino e universidade do voto a desenfeudação da propriedade; a federação dos Estados-Unidos Brasileiros…” (Estrepitosos aplausos prolongados).

— “Tudo isto precisamos, e o faremos, apesar da Coroa e contra a Coroa, se ela se opuser, porque já nos devemos convencer de que não é possível amalgamar a liberdade com o absolutismo: são duas coisas que se excluem. (Aplausos prolongados). Isto que era impossível antes da abolição, hoje torna-se inevitável. Estas são as nossas reformas… que hão de modelar os novos partidos políticos, de cujas evoluções dependem as nossas futuras instituições, que não podem ter outro princípio senão o da mais ampla liberdade no estilo americano. (Aplausos e vivas.)”

— “Entendo que grandes males vão surgir desta medida; convém que sejam quanto antes tomadas providências em benefício não só da lavoura, como dos que vão ser libertados. Chamo também a atenção do país e do governo para as tendências, que já aparecem, e, ao final, pedirei a Deus, do mais íntimo do meu coração, que afaste de nós todos os males que eu prevejo [E que, infelizmente, aconteceram].”

(Idem, p. 36–37).

Quem conhece a barbárie que tomou conta do país na década de 1890 sente um arrepio ao ler essas palavras e se pergunta: “Como ele sabia?”

Eduardo Simões