Eduardo Simões
Minha filha e seu esposo estiveram
recentemente nos EUA e voltaram impressionados, e muito bem impressionados, com
uma coisa. Nas proximidades de todo restaurante ou balcão de venda de bebida,
havia cartazes bem visíveis dizendo: ‘a partir daqui, criança (menor de tal
idade) não pode passar’. Justo quando se dirigiam a uma agradável varanda
externa de um restaurante, com sua filhinha pequena. Mudaram de programa.
Ninguém é louco de descumprir uma
lei dessas... nos Estados Unidos, pois alguém certamente ligará para a polícia
e o dono do bar, se não puder enxotar o infrator, não o servirá, para não se
tornar cúmplice. Lá, a polícia, mesmo com suas falhas, é uma instituição
respeitada e o povo ‘chama polícia’, enquanto aqui, um afamado compositor,
muito querido pelo nosso Judiciário, aconselha há mais de 50 anos: ‘chame
ladrão, chame ladrão, chame ladrão!’
Enquanto isso acontece nos EUA eu
penso no quanto de vezes que eu já vi crianças entrando em bares e restaurantes
para comprar bebida para seu pai ou algum adulto, que não quis se dar ao trabalho
de não corromper seu filho. Menor bêbado? Já vi até em festa de escola ou de
Igreja. Mas penso também em 2017, quando um 'artista' fez uma apresentação
completamente nu, em um renomado museu, e vários pais levaram seus filhos e os
incentivaram a interagir com o 'pelado'.
O deputado Kim Kataguiri protestou
contra esse ato desarrazoado e deseducativo e uma violência contra a natureza
das crianças; e, por causa disso, sofreu uma campanha de críticas encarniçadas
por parte de alguns jornalistas e renomados artistas, falando em favor da
liberdade de expressão, do enaltecimento da arte, etc. Embora fique difícil
para alguém normal discernir o porquê de alguém, por autoproclamar-se artista,
poder fazer coisas que outros, pela lei, não podem, ou ainda porque a nudez é
proibida num espaço público e em outro, igualmente público, é autorizada. No
embalo desse esculacho, o TJ-Rio autorizou que crianças, acompanhadas pelos
pais, frequentassem uma exposição de pornografia em um museu da cidade. Uma
professora chegou a levar sua turma de alunos.
Se perguntar não ofende, eu
pergunto: quem dá um tiro de verdade em alguém dentro de um museu ou num palco
de teatro, é um artista ou um criminoso? Se ele alegar que é um 'artista', isso
servirá como atenuante? A gente começa a duvidar.
Se os nossos pais cuidam
adequadamente de seus filhos, por que temos tantos menores cometendo crimes, e
crimes dos mais graves, inclusive na recente profusão de estupros coletivos
perpetrados por menores? Se não cuidam, por que o estado deixa que esses pais
levem suas crianças a lugares inadequados ao seu nível de entendimento e
maturidade emocional? Será que, para a justiça, as crianças não passam de
objetos nas mãos de seus pais, e para compensar isso, faz os professores
prestarem contas minuciosas aos alunos, e não aos seus responsáveis, como se as
crianças fossem cidadãos de 'primeira classe', e os professores meras
babás diplomadas?
A contraparte também aparece:
velhotes sexagenários ou mais, casados e com filhos, aparecem de repente nas
primeiras páginas da imprensa e dos sites informativos, envolvidos em infames
episódios de exploração sexual de adolescentes e crianças. E assim fecha-se o
ciclo, a começar pela infância, de um 'espetáculo pornográfico' a outro, com o
aval do nosso Judiciário, criaremos uma geração de velhos pedófilos.
Enquanto isso, a grande massa da
população ainda pensante do país, cada vez menos numerosa, preocupa-se com a
nossa estagnação econômica e a nossa incapacidade de sair da armadilha da renda
média. Ora, para sair dessa armadilha, o único caminho conhecido é o que nós
sempre nos recusamos a tomar: cuidar do ser humano, desde a infância, para o
bem de seus familiares e amigos, de sua comunidade e do estado. Os americanos
sempre fizeram isso e continuam fazendo, enquanto nós persistimos na senda
errada que tomamos, sustentados pelas justificativas mais vazias e sem sentido,
usando inclusive da proeminência da arte para corromper nossas crianças.
Querer que a criança se torne um
adulto produtivo com um alto nível de eficiência profissional e social,
interagindo cooperativamente com o seu meio, começa por garantir que as
crianças tenham oportunidade a uma infância saudável, sem violência, sem pornografia,
sem abandono e sem superproteção, mas cuidada por todos, pois antes de qualquer
pessoa se tornar um produtor, ela precisa acreditar que é um ser humano, e que
merece respeito e proteção compatíveis com a sua idade, o seu discernimento e a
sua estrutura emocional.
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