quinta-feira, 3 de setembro de 2026

 



O PECADO IMPERDOÁVEL

Eduardo Simões

Um dos mais preocupantes alertas que Jesus Cristo deixou para os seus seguidores, e os outros, todos comparados a ovelhas, era a possibilidade de um pastor preguiçoso ou despreparado tomar conta do rebanho, expondo-o ao ataque de predadores. Estes, aproveitando-se da inépcia dos pastores, esfolarão o rebanho sem piedade.

Essa possibilidade praticamente desapareceu no regime democrático, no qual as ovelhas, agora transformadas, nominalmente, em CIDADÃOS LIVRES E CONSCIENTES, aptos, pela idade, a eleger e controlar as ações de seu próprio pastor, prevenindo-se até dos bons pastores que, porventura, se corrompam na caminhada. O melhor dos mundos, o mundo perfeito, que nem Jesus Cristo imaginou!

E se as ovelhas PERDEREM A CAPACIDADE DE DIFERENCIAR OS PASTORES DOS LOBOS?

Uma das maiores vitórias do regime autoritário-militar que vigorou por 20 anos no Brasil foi a sua capacidade de extirpar, pela raiz, a capacidade de resistência do povo brasileiro, no seu legítimo direito de garantir o atendimento dos interesses da coletividade, para além do estreito círculo familiar. Aliás, os militares, percebendo a oposição que a força das relações familiares colocava contra os seus desígnios repressivos — a luta contra os desmandos do regime veio antes de familiares condoídos da brutalidade da repressão, que de projetos ideológicos claros e divergentes dos militares — atacaram-na nas suas raízes.

Aos poucos, a coesão da antiga família brasileira, inclusive aquela que saiu às ruas na ‘Marcha da Família, com Deus pela Liberdade’, começou a ser corroída por dentro, seja por razões políticas circunstanciais, manter o poder dos militares, seja por alguma razão estratégica maior: a criação de um regime autoritário, de matiz positivista, sustentável. O projeto inicial dos militares republicanos de 1889, com algumas atualizações. 

Ao mesmo tempo em que se vivia uma forte repressão política, ocorria uma grande liberalização nos costumes: as revistas masculinas como Playboy, Hustler, sem falar das nacionais Ele e Ela, Status, etc., a princípio envoltas em plástico opaco, começaram a tornar público e, de certa forma, ‘natural’ a aproximação dos sexos baseada apenas no prazer. Ao mesmo tempo se esvaziava a antiga relação homem-mulher, voltada para o casamento, sede de afetos duradouros e irracionais, que fazia pais e mães direitistas lutarem por todos os meios para que seus filhos, esquerdistas, não fossem massacrados nas entranhas do regime. O caso do arquiconservador Nelson Rodrigues, um escritor que discorria sobre temas sexuais considerados tabu pela sociedade, é exemplar. Calou fundo vê-lo, idoso, já muito famoso, tentar se ajoelhar em um dos mais famosos programas de TV da época, para pedir compaixão dos militares pelo seu filho preso, como guerrilheiro do MR-8. Eu vi! Essa família precisava ser destruída.

Mas, enquanto o povo era convidado a liberalizar suas relações sexuais, familiares etc. naquela filosofia ‘viva e deixe viver’, na alta sociedade, o grupo mais próximo ao regime, continuava-se a resolver pelo jeito antigo, à bala, as desavenças e infidelidades entre homens e mulheres. Preservava-a a tese da legítima defesa da honra...

Paralelo a isso, outros ‘avanços’ começaram a ocorrer: produtos importados, em especial bebidas, guloseimas, eletrodomésticos, etc. começaram a aparecer em profusão; o estilo de cinema chamado pornochanchada deslanchou e virou epidemia nacional, até serem liberados produções com sexo explícito em 1980. Com a pornochanchada apareceram também películas baratas eivadas de uma filosofia rala, tipo nihilismo de botequim, que procurava convencer o espectador que o mundo era uma droga, que não valia a pena tentar melhorá-lo, e nesse aspecto podemos dizer que houve uma aliança entre a esquerda, extrema ou não, com a extrema direita a inculcar nas pessoas comuns que a família tradicional era apenas um abismo de hipocrisia e de comportamentos antinaturais, etc.

No final, eles venceram. A mensagem principal do regime era: “viva a sua vida, goze as delícias do milagre brasileiro e não se meta naquilo que não é problema seu”, e cabia até uma ameaça: “ou sofrerá as consequências”. Após tanta repressão e perseguição pelos mais variados meios, e ataques à raiz dos problemas, os militares foram quebrando a tradicional solidariedade intra e interfamiliar, que criava grandes conjuntos de clãs e oligarquias ligadas pelo parentesco e a simpatia automática que os membros desfrutavam entre si — alguns grupos familiares promoviam encontros ou congressos anuais, anunciados nas mídias — até o indivíduo ficar irremediavelmente só. Era só ele e o seu acusador ou o seu torturador, este com uma nutrida retaguarda; afinal, a solidariedade entre os membros das Forças Armadas foi não só preservada como também mais reforçada por meio de punições severas aos traidores e inúmeras vantagens adquiridas à custa do Tesouro Nacional. Neles ninguém tocava, sem uma reação do conjunto.

Mas isso não é um movimento unilateral, só dos militares para o povo ou a grande massa do povo, pois este também é culpado por ter desistido — afinal, o dito não é que os brasileiros não desistem nunca? — e ter entrado no 'esquema' dos militares para também gozar vantagens. Muita gente foi fraca e se deixou comprar.

Os valores abstratos morreram, a inteligência definhou, pela violência ou pela força de ideologias burras, impermeáveis à realidade. O que importa agora é cada um cuidar de si, muitas vezes às custas até dos parentes e familiares mais próximos. Mas, num ambiente desses e com uma disposição dessas, quem vai aprender, a distinguir o amigo do inimigo, se o seu bem-estar individual é o único critério de ação? Seria perda de tempo.

O homem-mau só pensa no seu bem-estar; ele é para si mesmo a única medida de todas as coisas, portanto não lhe interessa saber, nem ele tem ferramentas mentais para guiá-lo nessa busca, quem é bom e quem não é. Mesmo se alguém for bom para ele, ele o usará enquanto for conveniente e depois o descartará. Ele está estruturalmente incapacitado para discernir a diferença entre o bem e o mal.

Bem diferente é o homem-bom, que desde o início sabe que a sua opção pessoal sofre constante ataque daqueles que não suportam o seu modo de agir, que contesta, pelo simples fato de existir o egoísmo do homem-mau. O homem-bom precisa conhecer. Conhecer a si mesmo, para entender as suas potencialidades e evitar o que pode lhe fazer mal, mas também conhecer o mundo e os outros homens para ajudá-los, porque o fato de ser bom faz com que se preocupe com o destino dos outros, também porque ele sabe que a maldade crescente do mundo é uma ameaça ao seu estilo de vida e às suas opções morais.

Assim, não é de admirar que, mesmo após a saraivada de escândalos de um lado e de outro, e mesmo a ausência dos dois principais candidatos à presidência nessa eleição, num completo desrespeito aos eleitores, eles continuem liderando com folga a disputa presidencial, um deles com já 80 anos, falando bobagens, e o outro sem experiência administrativa, ou suposto conteúdo no cérebro. Só faltam uivar! Outros candidatos com muito menos suspeitas e vida política impecável não são sequer considerados, e não é a primeira vez que isso acontece.

E isso nos leva a outra questão grave. Certa vez, quando o “homem-Deus” pregava sua mensagem e fazia grandes sinais, os seus inimigos diziam que o bem que ele fazia, fazia-o por força do mal que estava nele e que ele corporificava na sua pessoa. Nesse momento, ele fala do PECADO IMPERDOÁVEL, fruto de uma confusão ontológica entre o bem e o mal, que leva à incapacidade de discernir o que é bom do que é mal, por excesso de convivência com o mal e desinteresse pelos outros.

Não é isso que nos acontece agora?


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