O PECADO IMPERDOÁVEL
Eduardo Simões
Um dos mais preocupantes alertas que Jesus Cristo deixou
para os seus seguidores, e os outros, todos comparados a ovelhas, era a
possibilidade de um pastor preguiçoso ou despreparado tomar conta do rebanho,
expondo-o ao ataque de predadores. Estes, aproveitando-se da inépcia dos
pastores, esfolarão o rebanho sem piedade.
Essa possibilidade praticamente desapareceu no regime
democrático, no qual as ovelhas, agora transformadas, nominalmente, em CIDADÃOS
LIVRES E CONSCIENTES, aptos, pela idade, a eleger e controlar as ações de seu
próprio pastor, prevenindo-se até dos bons pastores que, porventura, se
corrompam na caminhada. O melhor dos mundos, o mundo perfeito, que nem Jesus
Cristo imaginou!
E se as ovelhas PERDEREM A CAPACIDADE DE DIFERENCIAR OS
PASTORES DOS LOBOS?
Uma das maiores vitórias do regime autoritário-militar que
vigorou por 20 anos no Brasil foi a sua capacidade de extirpar, pela raiz, a
capacidade de resistência do povo brasileiro, no seu legítimo direito de
garantir o atendimento dos interesses da coletividade, para além do estreito
círculo familiar. Aliás, os militares, percebendo a oposição que a força das
relações familiares colocava contra os seus desígnios repressivos — a luta
contra os desmandos do regime veio antes de familiares condoídos da brutalidade
da repressão, que de projetos ideológicos claros e divergentes dos militares —
atacaram-na nas suas raízes.
Aos poucos, a coesão da antiga família brasileira, inclusive
aquela que saiu às ruas na ‘Marcha da Família, com Deus pela Liberdade’,
começou a ser corroída por dentro, seja por razões políticas circunstanciais,
manter o poder dos militares, seja por alguma razão estratégica maior: a
criação de um regime autoritário, de matiz positivista, sustentável. O projeto
inicial dos militares republicanos de 1889, com algumas atualizações.
Ao mesmo tempo em que se vivia uma forte repressão política,
ocorria uma grande liberalização nos costumes: as revistas masculinas como
Playboy, Hustler, sem falar das nacionais Ele e Ela, Status, etc., a princípio
envoltas em plástico opaco, começaram a tornar público e, de certa forma,
‘natural’ a aproximação dos sexos baseada apenas no prazer. Ao mesmo tempo se
esvaziava a antiga relação homem-mulher, voltada para o casamento, sede de
afetos duradouros e irracionais, que fazia pais e mães direitistas lutarem por
todos os meios para que seus filhos, esquerdistas, não fossem massacrados nas
entranhas do regime. O caso do arquiconservador Nelson Rodrigues, um escritor
que discorria sobre temas sexuais considerados tabu pela sociedade, é exemplar.
Calou fundo vê-lo, idoso, já muito famoso, tentar se ajoelhar em um dos mais
famosos programas de TV da época, para pedir compaixão dos militares pelo seu
filho preso, como guerrilheiro do MR-8. Eu vi! Essa família precisava ser
destruída.
Mas, enquanto o povo era convidado a liberalizar suas
relações sexuais, familiares etc. naquela filosofia ‘viva e deixe viver’, na
alta sociedade, o grupo mais próximo ao regime, continuava-se a resolver pelo
jeito antigo, à bala, as desavenças e infidelidades entre homens e mulheres.
Preservava-a a tese da legítima defesa da honra...
Paralelo a isso, outros ‘avanços’ começaram a ocorrer:
produtos importados, em especial bebidas, guloseimas, eletrodomésticos, etc.
começaram a aparecer em profusão; o estilo de cinema chamado pornochanchada
deslanchou e virou epidemia nacional, até serem liberados produções com sexo
explícito em 1980. Com a pornochanchada apareceram também películas baratas
eivadas de uma filosofia rala, tipo nihilismo de botequim, que procurava
convencer o espectador que o mundo era uma droga, que não valia a pena tentar
melhorá-lo, e nesse aspecto podemos dizer que houve uma aliança entre a
esquerda, extrema ou não, com a extrema direita a inculcar nas pessoas comuns
que a família tradicional era apenas um abismo de hipocrisia e de
comportamentos antinaturais, etc.
No final, eles venceram. A mensagem principal do regime era:
“viva a sua vida, goze as delícias do milagre brasileiro e não se meta naquilo
que não é problema seu”, e cabia até uma ameaça: “ou sofrerá as consequências”.
Após tanta repressão e perseguição pelos mais variados meios, e ataques à raiz
dos problemas, os militares foram quebrando a tradicional solidariedade intra e
interfamiliar, que criava grandes conjuntos de clãs e oligarquias ligadas pelo
parentesco e a simpatia automática que os membros desfrutavam entre si — alguns
grupos familiares promoviam encontros ou congressos anuais, anunciados nas
mídias — até o indivíduo ficar irremediavelmente só. Era só ele e o seu
acusador ou o seu torturador, este com uma nutrida retaguarda; afinal, a
solidariedade entre os membros das Forças Armadas foi não só preservada como
também mais reforçada por meio de punições severas aos traidores e inúmeras
vantagens adquiridas à custa do Tesouro Nacional. Neles ninguém tocava, sem uma
reação do conjunto.
Mas isso não é um movimento unilateral, só dos militares
para o povo ou a grande massa do povo, pois este também é culpado por ter
desistido — afinal, o dito não é que os brasileiros não desistem nunca? — e ter
entrado no 'esquema' dos militares para também gozar vantagens. Muita gente foi
fraca e se deixou comprar.
Os valores abstratos morreram, a inteligência definhou, pela
violência ou pela força de ideologias burras, impermeáveis à realidade. O que
importa agora é cada um cuidar de si, muitas vezes às custas até dos parentes e
familiares mais próximos. Mas, num ambiente desses e com uma disposição dessas,
quem vai aprender, a distinguir o amigo do inimigo, se o seu bem-estar
individual é o único critério de ação? Seria perda de tempo.
O homem-mau só pensa no seu bem-estar; ele é para si mesmo a
única medida de todas as coisas, portanto não lhe interessa saber, nem ele tem
ferramentas mentais para guiá-lo nessa busca, quem é bom e quem não é. Mesmo se
alguém for bom para ele, ele o usará enquanto for conveniente e depois o
descartará. Ele está estruturalmente incapacitado para discernir a diferença
entre o bem e o mal.
Bem diferente é o homem-bom, que desde o início sabe que a
sua opção pessoal sofre constante ataque daqueles que não suportam o seu modo
de agir, que contesta, pelo simples fato de existir o egoísmo do homem-mau. O
homem-bom precisa conhecer. Conhecer a si mesmo, para entender as suas
potencialidades e evitar o que pode lhe fazer mal, mas também conhecer o mundo
e os outros homens para ajudá-los, porque o fato de ser bom faz com que se
preocupe com o destino dos outros, também porque ele sabe que a maldade crescente
do mundo é uma ameaça ao seu estilo de vida e às suas opções morais.
Assim, não é de admirar que, mesmo após a saraivada de
escândalos de um lado e de outro, e mesmo a ausência dos dois principais
candidatos à presidência nessa eleição, num completo desrespeito aos eleitores,
eles continuem liderando com folga a disputa presidencial, um deles com já 80
anos, falando bobagens, e o outro sem experiência administrativa, ou suposto
conteúdo no cérebro. Só faltam uivar! Outros candidatos com muito menos
suspeitas e vida política impecável não são sequer considerados, e não é a primeira
vez que isso acontece.
E isso nos leva a outra questão grave. Certa vez, quando o
“homem-Deus” pregava sua mensagem e fazia grandes sinais, os seus inimigos
diziam que o bem que ele fazia, fazia-o por força do mal que estava nele e que
ele corporificava na sua pessoa. Nesse momento, ele fala do PECADO IMPERDOÁVEL,
fruto de uma confusão ontológica entre o bem e o mal, que leva à incapacidade
de discernir o que é bom do que é mal, por excesso de convivência com o mal e
desinteresse pelos outros.
Não é isso que nos acontece agora?
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