domingo, 22 de março de 2026

 


TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 2

A economia é uma ciência?

A resposta à pergunta que inicia esta seção depende, naturalmente, do que entendemos por "ciência". Assim, tanto na linguagem cotidiana quanto no jargão acadêmico — particularmente em países francófonos e anglófonos — o termo é frequentemente usado para designar a física matemática. Evidentemente, isso exclui todas as ciências sociais e também a economia. Tampouco a economia na sua totalidade é uma ciência se considerarmos só o uso de métodos semelhantes aos da física matemática como a característica definidora (definiens) da ciência. Nesse caso, apenas uma pequena parte da economia é "científica". Novamente, se definirmos ciência segundo o lema "Ciência é Medição", então a economia é científica em algumas de suas partes e não em outras. Não deve haver qualquer preocupação com relação a "posição" ou "dignidade" nesse sentido: chamar um campo de ciência não deve ser um elogio nem o contrário [muito menos um critério universal absoluto como o faz certas correntes marxistas, que não têm a menor ideia do que seja a CIÊNCIA, ou conhecimento científico].

Para os nossos propósitos, sugere-se uma definição bastante ampla, a saber: ciência é qualquer tipo de conhecimento que tenha sido objeto de esforços conscientes para aprimorá-lo. Tais esforços produzem hábitos mentais — métodos ou “técnicas” — e um domínio dos fatos descobertos por essas técnicas, que estão além do alcance dos hábitos mentais e do conhecimento factual da vida cotidiana. Portanto, podemos também adotar a definição praticamente equivalente: ciência é qualquer campo do conhecimento que tenha desenvolvido técnicas especializadas de busca de fatos e de interpretação ou inferência (análise).

Finalmente, se desejarmos enfatizar os aspectos sociológicos, podemos formular ainda outra definição, que também é praticamente equivalente às outras duas: ciência é qualquer campo do conhecimento no qual existam pessoas, os chamados pesquisadores, cientistas ou acadêmicos, que se dedicam à tarefa de aprimorar o conjunto existente de fatos e métodos e que, nesse processo, adquirem um domínio de ambos que as diferencia do “leigo” e, eventualmente, também do mero “praticante”. Muitas outras definições seriam igualmente válidas. Aqui estão duas definições que acrescento sem maiores explicações: (1) ciência é senso comum refinado; (2) ciência é conhecimento aplicado. Como a economia utiliza técnicas que não são comuns ao público em geral, e como existem economistas para cultivá-las, a economia é obviamente uma ciência dentro do nosso significado do termo. Parece lógico concluir que escrever a história dessas técnicas é uma tarefa perfeitamente simples, sobre a qual não deveria haver dúvidas ou receios. Infelizmente... Vários obstáculos terão que ser removidos antes que possamos ter certeza do nosso terreno — o mais sério deles carrega o rótulo de Ideologia...

Agora, apresentarei alguns comentários sobre nossa definição de ciência. Primeiramente, devemos abordar o que o leitor presumivelmente considera uma objeção fatal. Sendo a ciência um conhecimento moldado por ferramentas, ou seja, definida pelo critério do uso de técnicas especiais, parece que deveríamos incluir, por exemplo, a magia praticada por uma tribo primitiva se ela utiliza técnicas que não são geralmente acessíveis, além de desenvolvidas e transmitidas dentro de um círculo de magos profissionais. E, claro, deveríamos incluí-la por princípio. Isso porque a magia, e práticas que, no aspecto relevante, não diferem fundamentalmente da magia, às vezes se aproximam do que o homem moderno reconhece como procedimento científico por passos imperceptíveis: a astrologia era companheira da astronomia até o início do século XVII. Há, no entanto, outra razão ainda mais convincente. A exclusão de qualquer tipo de conhecimento moldado por ferramentas equivaleria a declarar nossos próprios padrões como absolutamente válidos para todos os tempos e lugares. Mas isso não podemos fazer.

Na prática, de fato, não temos escolha a não ser interpretar e avaliar cada fragmento do conhecimento técnico, passado e presente, à luz de nossos padrões, já que não temos outros. Eles são os resultados de um desenvolvimento de mais de seis séculos, durante os quais o domínio dos procedimentos ou técnicas cientificamente admissíveis foi cada vez mais restringido, no sentido de que cada vez mais procedimentos ou técnicas foram descartados como inadmissíveis. Referimo-nos a esse domínio criticamente restrito apenas quando falamos de ciência ‘moderna’, ‘empírica’ ou ‘positiva’. Suas regras de procedimento diferem em diferentes áreas da ciência e, como já vimos acima, nunca estão isentas de dúvida. De forma geral, no entanto, elas podem ser descritas por duas características salientes: reduzem os fatos que somos convidados a aceitar com base em fundamentos científicos à categoria mais restrita de ‘fatos verificáveis ​​por observação ou experimento’; e reduzem o leque de métodos admissíveis à “inferência lógica a partir de fatos verificáveis”. Doravante, adotaremos esse ponto de vista da ciência empírica, pelo menos na medida em que seus princípios sejam reconhecidos na economia.

Mas, ao fazê-lo, devemos ter em mente o seguinte: embora interpretemos doutrinas a partir desse ponto de vista, não reivindicamos nenhuma validade “absoluta” para elas; e embora, raciocinando a partir desse ponto de vista, possamos descrever quaisquer proposições ou métodos como inválidos — sempre, é claro, levando em consideração as condições históricas em que foram formulados —, não as excluímos de forma definitiva do âmbito do pensamento científico no nosso sentido original (mais amplo) da palavra ou, para dizer de outra forma, negar-lhes o caráter científico — que deve ser avaliado, se for o caso, de acordo com os padrões ‘profissionais’ de cada época e lugar. [Como alguns fazem hoje, declarando tal ou tal abordagem como pseudociência].

Em segundo lugar, nossa definição original (“conhecimento adquirido por meio de ferramentas”) indica a razão pela qual, em geral, é impossível datar — mesmo por décadas — as origens, quanto mais a “fundação”, de uma ciência, distinguindo-a das origens de um método específico ou da fundação de uma “escola”. Assim como as ciências crescem por meio de um lento acréscimo, quando esses acréscimos surgem, eles também emergem por lentos acréscimos, diferenciando-se gradualmente, sob a influência de condições ambientais e pessoais favoráveis ​​e inibidoras, sob o seu pano de fundo de senso comum e, às vezes, também, dos acréscimos em outras ciências.

A pesquisa sobre o passado, esclarecendo essas condições, pode reduzir, e de fato reduz, o intervalo de tempo dentro do qual é, em cada caso, igualmente justificável afirmar ou negar a existência de um corpo específico de conhecimento científico. Mas nenhuma quantidade de pesquisa pode eliminar completamente uma zona de dúvida ampliada pela equação pessoal do historiador. No que diz respeito à economia, apenas preconceitos ou ignorância podem explicar afirmações como a de que A. Smith, F. Quesnay, Sir William Petty ou qualquer outro "fundou" essa ciência, ou que o historiador deveria começar seu relato com um deles. Mas é preciso admitir que a economia constitui um caso particularmente difícil, porque o conhecimento de senso comum, nesse campo, vai muito além do conhecimento científico que conseguimos alcançar, em comparação com quase qualquer outro campo.

O conhecimento leigo de que colheitas abundantes estão associadas a preços baixos de alimentos ou que a divisão do trabalho aumenta a eficiência do processo produtivo é obviamente pré-científico, e é absurdo apontar tais afirmações em escritos antigos como se incorporassem descobertas. O aparato primitivo da teoria da oferta e da demanda é científico. Mas a conquista científica é tão modesta, e o senso comum e o conhecimento científico são logicamente tão próximos nesse caso, que qualquer afirmação sobre o ponto preciso em que um se transformou no outro deve, necessariamente, permanecer arbitrária.

Em terceiro lugar, nossa definição nada implica sobre os motivos que impulsionam os homens a se esforçarem para aprimorar o conhecimento existente em qualquer área. Retornaremos a esse assunto em outro contexto. Por ora, observamos apenas que o caráter científico de uma determinada análise é independente do motivo pelo qual ela é realizada. Por exemplo, a pesquisa bacteriológica é pesquisa científica e não faz diferença para seus procedimentos se o pesquisador a realiza com um propósito médico ou qualquer outro. Da mesma forma, se um economista investiga as práticas de especulação por métodos que atendem aos padrões científicos de sua época e contexto, os resultados farão parte do acervo científico do conhecimento econômico, independentemente de ele desejar usá-los para recomendar legislação regulatória, para defender a especulação contra tal legislação ou simplesmente para satisfazer sua curiosidade intelectual. A menos que ele permita que seu propósito distorça seus fatos ou seu raciocínio, não há razão para nos recusarmos a aceitar seus resultados ou negarmos seu caráter científico sob a alegação de que desaprovamos seu propósito. Isso implica que quaisquer argumentos de caráter científico produzidos por "defensores especiais" — sejam eles pagos ou não por produzi-los — são para nós tão bons ou ruins quanto os de "filósofos imparciais", se é que esta última espécie de fato existe. Lembre-se: ocasionalmente, pode ser interessante perguntar por que um homem diz o que diz; mas, seja qual for a resposta, ela não nos diz nada sobre se o que ele diz é verdadeiro ou falso. Não damos crédito ao artifício barato da guerra política [ideológica]... de argumentar sobre uma proposição atacando ou exaltando os motivos do homem que a patrocina ou o interesse a favor ou contra o qual a proposição parece falar [isso é dar um caráter moral à análise econômica e determinar que só é verdadeira a análise moralmente correta, de acordo com os valores de quem a julga (= ultrapersonalização da análise científica) o que é um absurdo lógico e a essência da anticiência, posto que a natureza é amoral) algo muito comum entre os pensadores marxistas].

Notas

A ausência de absolutos no conhecimento científico

A melhor maneira de nos convencermos disso é observar que nossas regras de procedimento são, e presumivelmente sempre serão, sujeitas a controvérsias e em constante mudança. Considere, por exemplo, o seguinte caso. Ninguém provou que todo número par pode ser expresso como a soma de dois números primos, embora nenhum número par que não possa ser expresso dessa forma tenha sido descoberto até agora. Suponha agora que essa proposição leve, algum dia, a uma contradição com outra proposição que concordamos em aceitar. Disso se seguiria que existe um número par que não é a soma de dois primos? Matemáticos "clássicos" responderiam que sim, matemáticos "intuicionistas" (como Kronecker e Brouwer) responderiam que não; ou seja, os primeiros admitem e os últimos se recusam a admitir a validade do que se chama de provas indiretas de teoremas de existência, amplamente utilizadas em diversas áreas, inclusive na economia pura. Evidentemente, a mera possibilidade de tal divergência de opiniões sobre o que constitui uma prova válida basta para demonstrar, entre outras coisas, que nossas próprias regras não podem ser aceitas como a palavra final sobre o procedimento científico.

A origem do pensamento científico ocidental

Esta estimativa refere-se apenas à Civilização Ocidental e, além disso, leva em conta os desenvolvimentos gregos somente na medida em que entraram no pensamento científico da Europa Ocidental a partir do século XIII, como uma herança, mas não os desenvolvimentos em si. Como ponto de referência, escolhemos a Suma Teológica de São Tomás de Aquino, que exclui a revelação das philosophicae disciplinae, isto é, de todas as ciências, exceto a teologia sobrenatural (sacra doctrina; a teologia natural é uma das philosophicae disciplinae). Este foi o primeiro e mais importante passo na crítica metodológica dado na Europa após o colapso do mundo greco-romano. Será mostrado adiante como a exclusão da revelação de todas as ciências, exceto as sacra doctrina, foi combinada por São Tomás com a exclusão, nessas ciências, do apelo à autoridade como um método científico admissível.

[Podemos, neste ponto, colocar uma interessante definição de conhecimento científico originado das discussões sobre o pensamento do epistemólogo suíço Jean Piaget, feitas pelo professor Lauro O. Lima: o conhecimento científico é um conhecimento construído historicamente, pactuado ou negociado a partir de certas premissas, que nunca são uma construção pessoal, e mesmo a pessoa que atinge altos rangos na comunidade acadêmica só os atinge a partir de uma composição ou acordo com essa comunidade].

[O prof. Lauro O. Lima tinha uma interessante definição de ciências: “Um cemitério de ideias”].

A importância da linguagem especializada

Permitam-me acrescentar de imediato que, dentro de tais grupos de pesquisadores, certamente se desenvolverá uma linguagem especializada que se tornará cada vez mais incompreensível para o público leigo. Esse artifício para economizar esforço poderia até ser usado como critério para reconhecer a presença de uma ciência, não fosse o fato de que, muitas vezes, ele é adotado somente muito tempo após uma ciência, em nosso sentido, ter atingido um tamanho respeitável, sob a pressão do intolerável inconveniente de usar conceitos da vida cotidiana que servem apenas de forma inadequada aos propósitos da análise. Os economistas, em particular, para grande prejuízo da sua área, têm atribuído uma importância excessiva a serem compreendidos pelo público em geral, enquanto esse público, ainda hoje, demonstra um ressentimento igualmente irracional em relação a qualquer tentativa de adotar um comportamento mais racional [logo, para ficar no nível do público é preciso mesclar o discurso científico de uma boa dose de irracionalidade, que seria, em sentido amplo e guardadas as devidas proporções, o oposto do que a ciência procura].

(Traduzido de History of Economic Analysis, de Joseph Alois Schumpeter)


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