TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 2
A economia é uma ciência?
A
resposta à pergunta que inicia esta seção depende, naturalmente, do que
entendemos por "ciência". Assim, tanto na linguagem cotidiana quanto
no jargão acadêmico — particularmente em países francófonos e anglófonos — o
termo é frequentemente usado para designar a física matemática. Evidentemente,
isso exclui todas as ciências sociais e também a economia. Tampouco a economia na sua totalidade é uma ciência se considerarmos só o uso de métodos semelhantes aos da
física matemática como a característica definidora (definiens) da ciência.
Nesse caso, apenas uma pequena parte da economia é "científica".
Novamente, se definirmos ciência segundo o lema "Ciência é Medição",
então a economia é científica em algumas de suas partes e não em outras. Não
deve haver qualquer preocupação com relação a "posição" ou
"dignidade" nesse sentido: chamar um campo de ciência não deve ser um
elogio nem o contrário [muito menos um critério universal absoluto como o faz
certas correntes marxistas, que não têm a menor ideia do que seja a CIÊNCIA, ou
conhecimento científico].
Para
os nossos propósitos, sugere-se uma definição bastante ampla, a saber: ciência
é qualquer tipo de conhecimento que tenha sido objeto de esforços conscientes
para aprimorá-lo. Tais esforços produzem hábitos mentais — métodos ou
“técnicas” — e um domínio dos fatos descobertos por essas técnicas, que estão
além do alcance dos hábitos mentais e do conhecimento factual da vida
cotidiana. Portanto, podemos também adotar a definição praticamente
equivalente: ciência é qualquer campo do conhecimento que tenha desenvolvido
técnicas especializadas de busca de fatos e de interpretação ou inferência
(análise).
Finalmente,
se desejarmos enfatizar os aspectos sociológicos, podemos formular ainda outra
definição, que também é praticamente equivalente às outras duas: ciência é
qualquer campo do conhecimento no qual existam pessoas, os chamados
pesquisadores, cientistas ou acadêmicos, que se dedicam à tarefa de aprimorar o
conjunto existente de fatos e métodos e que, nesse processo, adquirem um
domínio de ambos que as diferencia do “leigo” e, eventualmente, também do mero
“praticante”. Muitas outras definições seriam igualmente válidas. Aqui estão
duas definições que acrescento sem maiores explicações: (1) ciência é senso
comum refinado; (2) ciência é conhecimento aplicado. Como a economia utiliza
técnicas que não são comuns ao público em geral, e como existem economistas
para cultivá-las, a economia é obviamente uma ciência dentro do nosso
significado do termo. Parece lógico concluir que escrever a história dessas
técnicas é uma tarefa perfeitamente simples, sobre a qual não deveria haver
dúvidas ou receios. Infelizmente... Vários obstáculos terão que ser removidos
antes que possamos ter certeza do nosso terreno — o mais sério deles carrega o
rótulo de Ideologia...
Agora,
apresentarei alguns comentários sobre nossa definição de ciência.
Primeiramente, devemos abordar o que o leitor presumivelmente considera uma
objeção fatal. Sendo a ciência um conhecimento moldado por ferramentas, ou
seja, definida pelo critério do uso de técnicas especiais, parece que
deveríamos incluir, por exemplo, a magia praticada por uma tribo primitiva se
ela utiliza técnicas que não são geralmente acessíveis, além de desenvolvidas
e transmitidas dentro de um círculo de magos profissionais. E, claro,
deveríamos incluí-la por princípio. Isso porque a magia, e práticas que, no
aspecto relevante, não diferem fundamentalmente da magia, às vezes se aproximam
do que o homem moderno reconhece como procedimento científico por passos
imperceptíveis: a astrologia era companheira da astronomia até o início do
século XVII. Há, no entanto, outra razão ainda mais convincente. A exclusão de
qualquer tipo de conhecimento moldado por ferramentas equivaleria a declarar
nossos próprios padrões como absolutamente válidos para todos os tempos e
lugares. Mas isso não podemos fazer.
Na
prática, de fato, não temos escolha a não ser interpretar e avaliar cada
fragmento do conhecimento técnico, passado e presente, à luz de nossos padrões,
já que não temos outros. Eles são os resultados de um desenvolvimento de mais
de seis séculos, durante os quais o domínio dos procedimentos ou técnicas
cientificamente admissíveis foi cada vez mais restringido, no sentido de que
cada vez mais procedimentos ou técnicas foram descartados como inadmissíveis.
Referimo-nos a esse domínio criticamente restrito apenas quando falamos de
ciência ‘moderna’, ‘empírica’ ou ‘positiva’. Suas regras de procedimento
diferem em diferentes áreas da ciência e, como já vimos acima, nunca estão
isentas de dúvida. De forma geral, no entanto, elas podem ser descritas por
duas características salientes: reduzem os fatos que somos convidados a aceitar
com base em fundamentos científicos à categoria mais restrita de ‘fatos
verificáveis por observação ou experimento’; e reduzem o leque
de métodos admissíveis à “inferência lógica a partir de fatos verificáveis”.
Doravante, adotaremos esse ponto de vista da ciência empírica, pelo menos na
medida em que seus princípios sejam reconhecidos na economia.
Mas,
ao fazê-lo, devemos ter em mente o seguinte: embora interpretemos doutrinas a
partir desse ponto de vista, não reivindicamos nenhuma validade “absoluta” para
elas; e embora, raciocinando a partir desse ponto de vista, possamos descrever
quaisquer proposições ou métodos como inválidos — sempre, é claro, levando em
consideração as condições históricas em que foram formulados —, não as excluímos
de forma definitiva do âmbito do pensamento científico no nosso sentido
original (mais amplo) da palavra ou, para dizer de outra forma, negar-lhes o
caráter científico — que deve ser avaliado, se for o caso, de acordo com os
padrões ‘profissionais’ de cada época e lugar. [Como alguns fazem hoje,
declarando tal ou tal abordagem como pseudociência].
Em
segundo lugar, nossa definição original (“conhecimento adquirido por meio de
ferramentas”) indica a razão pela qual, em geral, é impossível datar — mesmo
por décadas — as origens, quanto mais a “fundação”, de uma ciência,
distinguindo-a das origens de um método específico ou da fundação de uma
“escola”. Assim como as ciências crescem por meio de um lento acréscimo, quando esses acréscimos surgem, eles também emergem por lentos acréscimos, diferenciando-se
gradualmente, sob a influência de condições ambientais e pessoais favoráveis e
inibidoras, sob o seu pano de fundo de senso comum e, às vezes, também, dos acréscimos
em outras ciências.
A
pesquisa sobre o passado, esclarecendo essas condições, pode reduzir, e de fato
reduz, o intervalo de tempo dentro do qual é, em cada caso, igualmente
justificável afirmar ou negar a existência de um corpo específico de
conhecimento científico. Mas nenhuma quantidade de pesquisa pode eliminar
completamente uma zona de dúvida ampliada pela equação pessoal do
historiador. No que diz respeito à economia, apenas preconceitos ou ignorância
podem explicar afirmações como a de que A. Smith, F. Quesnay, Sir William Petty
ou qualquer outro "fundou" essa ciência, ou que o historiador deveria
começar seu relato com um deles. Mas é preciso admitir que a economia constitui
um caso particularmente difícil, porque o conhecimento de senso comum, nesse campo,
vai muito além do conhecimento científico que conseguimos alcançar, em
comparação com quase qualquer outro campo.
O
conhecimento leigo de que colheitas abundantes estão associadas a preços baixos
de alimentos ou que a divisão do trabalho aumenta a eficiência do processo
produtivo é obviamente pré-científico, e é absurdo apontar tais afirmações em
escritos antigos como se incorporassem descobertas. O aparato primitivo da
teoria da oferta e da demanda é científico. Mas a conquista científica é tão
modesta, e o senso comum e o conhecimento científico são logicamente tão
próximos nesse caso, que qualquer afirmação sobre o ponto preciso em que um se
transformou no outro deve, necessariamente, permanecer arbitrária.
Em
terceiro lugar, nossa definição nada implica sobre os motivos que impulsionam
os homens a se esforçarem para aprimorar o conhecimento existente em qualquer
área. Retornaremos a esse assunto em outro contexto. Por ora, observamos apenas
que o caráter científico de uma determinada análise é independente do motivo
pelo qual ela é realizada. Por exemplo, a pesquisa bacteriológica é pesquisa
científica e não faz diferença para seus procedimentos se o pesquisador a
realiza com um propósito médico ou qualquer outro. Da mesma forma, se um
economista investiga as práticas de especulação por métodos que atendem aos
padrões científicos de sua época e contexto, os resultados farão parte do
acervo científico do conhecimento econômico, independentemente de ele desejar
usá-los para recomendar legislação regulatória, para defender a especulação
contra tal legislação ou simplesmente para satisfazer sua curiosidade
intelectual. A menos que ele permita que seu propósito distorça seus fatos ou
seu raciocínio, não há razão para nos recusarmos a aceitar seus resultados ou
negarmos seu caráter científico sob a alegação de que desaprovamos seu
propósito. Isso implica que quaisquer argumentos de caráter científico
produzidos por "defensores especiais" — sejam eles pagos ou não por
produzi-los — são para nós tão bons ou ruins quanto os de "filósofos
imparciais", se é que esta última espécie de fato existe. Lembre-se: ocasionalmente,
pode ser interessante perguntar por que um homem diz o que diz; mas, seja qual
for a resposta, ela não nos diz nada sobre se o que ele diz é verdadeiro ou
falso. Não damos crédito ao artifício barato da guerra política
[ideológica]... de argumentar sobre uma proposição atacando ou exaltando os
motivos do homem que a patrocina ou o interesse a favor ou contra o qual a
proposição parece falar [isso é dar um caráter moral à análise econômica e
determinar que só é verdadeira a análise moralmente correta, de acordo com os
valores de quem a julga (= ultrapersonalização da análise científica) o que é um
absurdo lógico e a essência da anticiência, posto que a natureza é amoral) algo
muito comum entre os pensadores marxistas].
Notas
A
ausência de absolutos no conhecimento científico
A melhor maneira de nos convencermos disso é observar que nossas regras de procedimento são, e presumivelmente sempre serão, sujeitas a controvérsias e em constante mudança. Considere, por exemplo, o seguinte caso. Ninguém provou que todo número par pode ser expresso como a soma de dois números primos, embora nenhum número par que não possa ser expresso dessa forma tenha sido descoberto até agora. Suponha agora que essa proposição leve, algum dia, a uma contradição com outra proposição que concordamos em aceitar. Disso se seguiria que existe um número par que não é a soma de dois primos? Matemáticos "clássicos" responderiam que sim, matemáticos "intuicionistas" (como Kronecker e Brouwer) responderiam que não; ou seja, os primeiros admitem e os últimos se recusam a admitir a validade do que se chama de provas indiretas de teoremas de existência, amplamente utilizadas em diversas áreas, inclusive na economia pura. Evidentemente, a mera possibilidade de tal divergência de opiniões sobre o que constitui uma prova válida basta para demonstrar, entre outras coisas, que nossas próprias regras não podem ser aceitas como a palavra final sobre o procedimento científico.
A
origem do pensamento científico ocidental
Esta
estimativa refere-se apenas à Civilização Ocidental e, além disso, leva em
conta os desenvolvimentos gregos somente na medida em que entraram no
pensamento científico da Europa Ocidental a partir do século XIII, como uma
herança, mas não os desenvolvimentos em si. Como ponto de referência,
escolhemos a Suma Teológica de São Tomás de Aquino, que exclui a revelação das
philosophicae disciplinae, isto é, de todas as ciências, exceto a teologia
sobrenatural (sacra doctrina; a teologia natural é uma das philosophicae
disciplinae). Este foi o primeiro e mais importante passo na crítica
metodológica dado na Europa após o colapso do mundo greco-romano. Será mostrado
adiante como a exclusão da revelação de todas as ciências, exceto as sacra
doctrina, foi combinada por São Tomás com a exclusão, nessas ciências, do apelo
à autoridade como um método científico admissível.
[Podemos,
neste ponto, colocar uma interessante definição de conhecimento científico
originado das discussões sobre o pensamento do epistemólogo suíço Jean Piaget,
feitas pelo professor Lauro O. Lima: o conhecimento científico é um
conhecimento construído historicamente, pactuado ou negociado a partir de
certas premissas, que nunca são uma construção pessoal, e mesmo a pessoa que
atinge altos rangos na comunidade acadêmica só os atinge a partir de uma
composição ou acordo com essa comunidade].
[O prof. Lauro O. Lima tinha uma interessante definição de ciências: “Um cemitério de ideias”].
A
importância da linguagem especializada
Permitam-me
acrescentar de imediato que, dentro de tais grupos de pesquisadores, certamente
se desenvolverá uma linguagem especializada que se tornará cada vez mais
incompreensível para o público leigo. Esse artifício para economizar esforço
poderia até ser usado como critério para reconhecer a presença de uma ciência,
não fosse o fato de que, muitas vezes, ele é adotado somente muito tempo após uma ciência, em nosso sentido, ter atingido um tamanho respeitável, sob a
pressão do intolerável inconveniente de usar conceitos da vida cotidiana que
servem apenas de forma inadequada aos propósitos da análise. Os economistas, em
particular, para grande prejuízo da sua área, têm atribuído uma importância
excessiva a serem compreendidos pelo público em geral, enquanto esse público,
ainda hoje, demonstra um ressentimento igualmente irracional em relação a
qualquer tentativa de adotar um comportamento mais racional [logo, para ficar
no nível do público é preciso mesclar o discurso científico de uma boa dose de
irracionalidade, que seria, em sentido amplo e guardadas as devidas proporções,
o oposto do que a ciência procura].
(Traduzido de History of Economic Analysis, de Joseph Alois Schumpeter)
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