domingo, 29 de março de 2026

 


TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 4

ECONOMIA E SOCIOLOGIA

... Ao escrever história econômica, há afirmações que não deveriam ser acrescentadas a menos que devidamente fundamentadas por argumentos próprios da teoria econômica: um exemplo disso é a afirmação que vincula o grande desenvolvimento econômico da Inglaterra, da década de 1840 até o final do século XIX, à revogação das Leis do Milho e de praticamente todos os outros tipos de protecionismo. Os esquemas da teoria econômica derivam da história econômica dos arcabouços institucionais nos quais devem funcionar, sendo que somente ela pode nos dizer que tipo de sociedade existia, ou existe, à qual os esquemas teóricos devem se aplicar.

Contudo, não é apenas a história econômica que presta esse serviço à teoria econômica. É fácil perceber que, ao introduzirmos a instituição da propriedade privada, do livre contrato ou de uma maior ou menor regulamentação governamental, estamos introduzindo fatos sociais que não são simplesmente história econômica, mas sim uma espécie de história econômica generalizada, tipificada ou estilizada. E isso se aplica ainda mais às formas gerais de comportamento humano que assumimos, seja em geral ou para certas situações sociais. Todo livro didático de economia que não se limite ao ensino de técnicas no sentido mais restrito do termo, deve ter uma introdução institucional que pertence à sociologia, e não à história econômica propriamente dita.

Inspirando-nos na prática alemã, consideraremos útil, portanto, introduzir um quarto campo fundamental para complementar os outros três, embora o trabalho positivo neste campo também nos leve além da mera análise econômica: o campo que chamaremos de Sociologia Econômica (Wirtschaftssoziologie). Para usar uma expressão feliz: a análise econômica lida com as questões de como as pessoas se comportam em qualquer momento e quais os efeitos econômicos que produzem ao se comportarem dessa maneira; a sociologia econômica lida com a questão de como elas chegaram a se comportar da maneira como se comportam.

Se definirmos comportamento humano de forma suficientemente ampla para incluir não apenas ações, motivos e propensões, mas também as instituições sociais relevantes para o comportamento econômico, como governo, herança de propriedade, contratos e assim por diante, essa definição nos diz tudo o que precisamos...

Sociologia e Economia

Após o dito no capítulo anterior sobre a importância fundamental da história — e de todas as ciências e ramos da ciência que este termo abrange... é evidente que não podemos nos dar ao luxo... de negligenciar os desenvolvimentos da sociologia. Usaremos este termo no sentido estrito em que denota uma única ciência, embora longe de ser homogênea, a saber, a análise geral de fenômenos sociais como sociedade, grupo, classe, relações de grupo, liderança e similares. E usaremos o termo neste sentido ao longo de todo o texto para desenvolvimentos que antecedem em séculos a introdução da palavra. Em um sentido mais amplo, a totalidade de muitas áreas de ciências sociais sobrepostas e descoordenadas — termo que preferimos e que inclui, entre outras coisas, nossa própria economia, jurisprudência, hierologia, “ciência política”, ecologia e ética e estética descritivas (no sentido da sociologia dos padrões de comportamento moral e da arte)...

A proximidade de algumas dessas relações foi reconhecida pela criação do "campo fundamental" da Sociologia Econômica, no qual nem economistas nem sociólogos conseguem ir muito longe sem se depararem com conflitos. Mas isso não significa que a cooperação entre os dois grupos tenha sido particularmente estreita ou fértil; ou que qualquer um deles teria se dado melhor se tivesse havido mais cooperação. Quanto ao primeiro ponto, trata-se do fato de que, desde o século XVIII, ambos os grupos têm se distanciado progressivamente, até que hoje o economista e o sociólogo mais tradicionais pouco sabem e se importam com o trabalho um do outro, preferindo usar, respectivamente, uma sociologia e uma economia primitivas a aceitar os resultados profissionais um do outro — uma situação que não foi e não é melhorada pela vituperação mútua.

Já no segundo ponto, não é de forma alguma certo que uma cooperação mais estreita, tão frequentemente clamada por leigos que esperam grandes resultados da "fertilização cruzada" com uma certeza inquestionável em relação à competência profissional, teria sido uma bênção sem ressalvas. Pois certamente não teria trazido ganhos líquidos, porque haveria alguma perda daquela eficiência que resulta da especialização estrita. Isso vale até mesmo para a divisão da economia e da sociologia (em sentido amplo) em departamentos que se desenvolveram no que são, para todos os efeitos e propósitos, ciências semi-independentes. É precisamente por isso que preferimos falar de ciências sociais em vez de sociologia em sentido amplo. Como observou certa vez um eminente economista, a fertilização cruzada pode facilmente resultar em esterilização cruzada. Isso não afeta o que foi dito sobre a necessidade de acompanhar, ao menos de forma fragmentária, os desenvolvimentos de todos os "campos vizinhos" neste livro...

Lógica e psicologia

Estamos particularmente interessados ​​em lógica e psicologia. A primeira merece nossa atenção porque os economistas deram uma contribuição considerável a ela, mas especialmente por sua propensão a dogmatizar e a discutir sobre "método": os economistas que apreciam esse passatempo tendem a ser influenciados pelos escritos dos lógicos de sua época, que, portanto, embora mais aparentemente do que realmente, exercem alguma influência, legítima ou não, sobre nosso trabalho. No que diz respeito à psicologia, há a visão que surgiu primeiro no século XVIII e, portanto, tem sido defendida intermitentemente, de que a economia, como outras ciências sociais, lida com o comportamento humano.

A psicologia é realmente a base a partir da qual qualquer ciência social deve partir e em termos da qual toda explicação fundamental deve se basear. Essa visão, que foi defendida com a mesma veemência com que foi atacada, denominaremos Psicologismo. Na verdade, porém, os economistas nunca permitiram que suas análises fossem influenciadas pelos psicólogos profissionais de sua época, mas sempre formularam para si mesmos as suposições sobre processos psíquicos que consideraram convenientes. Por um lado, notaremos esse fato ocasionalmente com surpresa, pois existem problemas na análise econômica que poderiam ser atacados com vantagem por métodos elaborados por psicólogos. Por outro lado, devemos evitar uma ilusão muito comum. Se usarmos uma suposição cujo conteúdo parece pertencer a um campo específico, isso não significa necessariamente que estamos invadindo esse campo. Por exemplo, a chamada lei dos rendimentos decrescentes da terra refere-se ao que poderia ser chamado de fato físico. Mas, como já foi apontado, isso não significa que, ao formular essa suposição, estamos entrando no campo da física. Da mesma forma, quando afirmo a suposição de que, à medida que como pedaços sucessivos de pão, meu desejo por mais pedaços diminui, pode-se dizer que estou afirmando um fato psíquico. Mas, ao fazer isso, não estou tomando emprestado nada da psicologia profissional, seja bom ou ruim; estou simplesmente formulando o que acredito ser um fato da experiência comum. Se nos colocarmos nessa posição, descobriremos que há muito menos psicologia nas proposições econômicas do que se poderia pensar à primeira vista.

Falar de leis psicológicas, como a lei keynesiana da propensão a consumir, é um abuso flagrante, porque essa prática sugere a justificativa de nossas suposições, que, na verdade, não existem. No entanto, é necessário ocasionalmente observar os desenvolvimentos no campo da psicologia profissional, e essa necessidade surge, embora com menos frequência, também em relação a várias outras ciências. Por ora, limitemo-nos a mencionar a biologia como exemplo. Existe, ou existiu, algo como o darwinismo social e econômico. Se quisermos avaliar esse fenômeno, é importante certificarmo-nos do que Charles Darwin realmente disse e dos métodos e materiais que o levaram a dizê-lo.

[traduzido de History of Economic Analysis]

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