ECONOMIA E SOCIOLOGIA
... Ao escrever história
econômica, há afirmações que não deveriam ser acrescentadas a menos que
devidamente fundamentadas por argumentos próprios da teoria econômica: um
exemplo disso é a afirmação que vincula o grande desenvolvimento econômico da
Inglaterra, da década de 1840 até o final do século XIX, à revogação das Leis
do Milho e de praticamente todos os outros tipos de protecionismo. Os esquemas
da teoria econômica derivam da história econômica dos arcabouços institucionais
nos quais devem funcionar, sendo que somente ela pode nos dizer que tipo de
sociedade existia, ou existe, à qual os esquemas teóricos devem se aplicar.
Contudo, não é apenas a
história econômica que presta esse serviço à teoria econômica. É fácil perceber
que, ao introduzirmos a instituição da propriedade privada, do livre contrato
ou de uma maior ou menor regulamentação governamental, estamos introduzindo
fatos sociais que não são simplesmente história econômica, mas sim uma espécie
de história econômica generalizada, tipificada ou estilizada. E isso se aplica
ainda mais às formas gerais de comportamento humano que assumimos, seja em
geral ou para certas situações sociais. Todo livro didático de economia que não
se limite ao ensino de técnicas no sentido mais restrito do termo, deve ter uma
introdução institucional que pertence à sociologia, e não à história econômica
propriamente dita.
Inspirando-nos na prática
alemã, consideraremos útil, portanto, introduzir um quarto campo fundamental
para complementar os outros três, embora o trabalho positivo neste campo também
nos leve além da mera análise econômica: o campo que chamaremos de Sociologia
Econômica (Wirtschaftssoziologie). Para usar uma expressão feliz: a análise
econômica lida com as questões de como as pessoas se comportam em qualquer
momento e quais os efeitos econômicos que produzem ao se comportarem dessa
maneira; a sociologia econômica lida com a questão de como elas chegaram a se
comportar da maneira como se comportam.
Se definirmos comportamento
humano de forma suficientemente ampla para incluir não apenas ações, motivos e
propensões, mas também as instituições sociais relevantes para o comportamento
econômico, como governo, herança de propriedade, contratos e assim por diante,
essa definição nos diz tudo o que precisamos...
Sociologia e Economia
Após o dito no
capítulo anterior sobre a importância fundamental da história — e de todas as
ciências e ramos da ciência que este termo abrange... é evidente que não
podemos nos dar ao luxo... de negligenciar os desenvolvimentos da sociologia.
Usaremos este termo no sentido estrito em que denota uma única ciência, embora
longe de ser homogênea, a saber, a análise geral de fenômenos sociais como
sociedade, grupo, classe, relações de grupo, liderança e similares. E usaremos
o termo neste sentido ao longo de todo o texto para desenvolvimentos que
antecedem em séculos a introdução da palavra. Em um sentido mais amplo, a totalidade
de muitas áreas de ciências sociais sobrepostas e
descoordenadas — termo que preferimos e que inclui, entre outras coisas, nossa
própria economia, jurisprudência, hierologia, “ciência política”, ecologia e
ética e estética descritivas (no sentido da sociologia dos padrões de
comportamento moral e da arte)...
A proximidade de algumas
dessas relações foi reconhecida pela criação do "campo fundamental"
da Sociologia Econômica, no qual nem economistas nem sociólogos conseguem ir
muito longe sem se depararem com conflitos. Mas isso não significa que a cooperação
entre os dois grupos tenha sido particularmente estreita ou fértil; ou que
qualquer um deles teria se dado melhor se tivesse havido mais cooperação.
Quanto ao primeiro ponto, trata-se do fato de que, desde o século XVIII, ambos
os grupos têm se distanciado progressivamente, até que hoje o economista e o
sociólogo mais tradicionais pouco sabem e se importam com o trabalho um do
outro, preferindo usar, respectivamente, uma sociologia e uma economia
primitivas a aceitar os resultados profissionais um do outro — uma situação que
não foi e não é melhorada pela vituperação mútua.
Já no segundo ponto, não
é de forma alguma certo que uma cooperação mais estreita, tão frequentemente
clamada por leigos que esperam grandes resultados da "fertilização
cruzada" com uma certeza inquestionável em relação à competência profissional,
teria sido uma bênção sem ressalvas. Pois certamente não teria trazido ganhos
líquidos, porque haveria alguma perda daquela eficiência que resulta da
especialização estrita. Isso vale até mesmo para a divisão da economia e da
sociologia (em sentido amplo) em departamentos que se desenvolveram no que são,
para todos os efeitos e propósitos, ciências semi-independentes. É
precisamente por isso que preferimos falar de ciências sociais em vez de
sociologia em sentido amplo. Como observou certa vez um eminente economista, a
fertilização cruzada pode facilmente resultar em esterilização cruzada. Isso
não afeta o que foi dito sobre a necessidade de acompanhar, ao menos de forma
fragmentária, os desenvolvimentos de todos os "campos vizinhos" neste
livro...
Lógica e psicologia
Estamos particularmente
interessados em lógica e psicologia. A primeira merece nossa atenção porque
os economistas deram uma contribuição considerável a ela, mas especialmente por
sua propensão a dogmatizar e a discutir sobre "método": os economistas
que apreciam esse passatempo tendem a ser influenciados pelos escritos dos
lógicos de sua época, que, portanto, embora mais aparentemente do que
realmente, exercem alguma influência, legítima ou não, sobre nosso trabalho. No
que diz respeito à psicologia, há a visão que surgiu primeiro no século XVIII
e, portanto, tem sido defendida intermitentemente, de que a economia, como
outras ciências sociais, lida com o comportamento humano.
A psicologia é realmente a
base a partir da qual qualquer ciência social deve partir e em termos da qual
toda explicação fundamental deve se basear. Essa visão, que foi defendida com a
mesma veemência com que foi atacada, denominaremos Psicologismo. Na verdade,
porém, os economistas nunca permitiram que suas análises fossem influenciadas
pelos psicólogos profissionais de sua época, mas sempre formularam para si
mesmos as suposições sobre processos psíquicos que consideraram convenientes.
Por um lado, notaremos esse fato ocasionalmente com surpresa, pois existem
problemas na análise econômica que poderiam ser atacados com vantagem por
métodos elaborados por psicólogos. Por outro lado, devemos evitar uma ilusão
muito comum. Se usarmos uma suposição cujo conteúdo parece pertencer a um campo
específico, isso não significa necessariamente que estamos invadindo esse
campo. Por exemplo, a chamada lei dos rendimentos decrescentes da terra
refere-se ao que poderia ser chamado de fato físico. Mas, como já foi apontado,
isso não significa que, ao formular essa suposição, estamos entrando no campo
da física. Da mesma forma, quando afirmo a suposição de que, à medida que como
pedaços sucessivos de pão, meu desejo por mais pedaços diminui, pode-se dizer
que estou afirmando um fato psíquico. Mas, ao fazer isso, não estou tomando
emprestado nada da psicologia profissional, seja bom ou ruim; estou
simplesmente formulando o que acredito ser um fato da experiência comum. Se nos
colocarmos nessa posição, descobriremos que há muito menos psicologia nas
proposições econômicas do que se poderia pensar à primeira vista.
Falar de leis psicológicas,
como a lei keynesiana da propensão a consumir, é um abuso flagrante, porque
essa prática sugere a justificativa de nossas suposições, que, na verdade, não
existem. No entanto, é necessário ocasionalmente observar os desenvolvimentos
no campo da psicologia profissional, e essa necessidade surge, embora com menos
frequência, também em relação a várias outras ciências. Por ora, limitemo-nos a
mencionar a biologia como exemplo. Existe, ou existiu, algo como o darwinismo
social e econômico. Se quisermos avaliar esse fenômeno, é importante
certificarmo-nos do que Charles Darwin realmente disse e dos métodos e
materiais que o levaram a dizê-lo.
[traduzido de History of Economic Analysis]
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