sábado, 5 de setembro de 2026

 


A PROFECIA DE PITIRIM SOROKIN

Eduardo Simões

Pitirim Sorokin era um autêntico revolucionário russo, e por isso foi preso e perseguido tanto pela polícia tsarista como pelos comunistas, que ele, por ser inteligente e ter bons valores, detestava. Lenin, sanguinário que era, o prendeu por fazer oposição ao regime e o condenou à morte na década de 20. Posteriormente, comutou a pena de morte de Sorokin para exílio, com a fina flor da intelectualidade russa, que não tinha medo de pensar e se opôs às barbaridades do novo regime. Sorokin fugiu para os Estados Unidos e se naturalizou em 1930.

No seu novo país, Sorokin se tornou um dos mais reconhecidos sociólogos e, com Talcott Parsons, fundou o Departamento de Sociologia da Universidade de Harvard. Em 1947, escreveu o livro "Sociedade, cultura e personalidade, sua estrutura e dinâmica um sistema de sociologia geral", editado no Brasil pela Editora Globo, de Porto Alegre, em 1968, em dois volumes, traduzidos pelo prof. João Baptista Coelho de Aguiar e Leonel Vallandro.

Sorokin tem ‘sacadas’ geniais na sociologia, mas é um autor muito prolixo e obsessivo, que vai até os mínimos detalhes, deixando tudo muito bem explicado, o que é ruim para quem tem preguiça de ler. A sua tradução usa um vocabulário antigo e, às vezes, inadequado, senão proibido para os dias de hoje, mas quem conseguir superar o desconforto do vocabulário, fruto da nossa inconstância e gosto por modismos, e focar no sentido do texto, se impressionará com a sua profundidade e projeções futuristas impressionantes.

No primeiro volume, a partir da página 348, ele faz uma análise dos partidos políticos impressionantemente atual, apesar de seus quase oitenta anos, ou mais. Eis alguns trechos:

“Nos países que possuem vida partidária desenvolvida, nenhum indivíduo consegue escapar completamente de sua influência. Essa influência dos partidos é... considerada a principal origem dos defeitos... das democracias modernas.

O indivíduo, proclamado valor supremo e soberano independente do estado, em redor do qual devem girar todas as relações da vida pública... se tornou uma unidade tão pouco importante como era no início [quando não havia democracia]. A democracia moderna move-se dentro de um trágico círculo. A outorga de direitos às massas torna imperativa a necessidade de organizações para pôr em execução o processo eleitoral... Os partidos passam a ser os intermediários entre os eleitores e o Estado, apoderando-se gradualmente de todo o mecanismo das eleições e decidindo sobre os resultados destas [não é isso que vemos no Brasil de hoje, em que, na prática, dois movimentos políticos dividem entre si as chances de vitória?]... Além disso, o partido, suprimindo a independência de pensamento e só permitindo poucas críticas, converte-se numa espécie de seita fanática, onde os dogmas fossilizados substituem o pensamento vivo criador [como acontece com bolsonaristas e petistas, sempre a repetir palavras de ordem sem apresentar um único projeto para o país].

A atual forma de organização partidária conduz também à escolha de mediocridades e hipócritas para seus dirigentes [precisa comentário?]. Não sendo tolerada a independência de pensamento, os indivíduos de espírito criador, corajosos, honestos... evitam associar-se ao partido... [pois] se ingressam, formam uma minoria... dominada por homens de segunda ou terceira categoria, que modelam o partido... e que falam pelos votantes. Constitui-se então uma oligarquia de mediocridades... no esforço de obter tantos votos quanto possível, os partidos prometem ao povo “rios de leite...” os programas que se propõem a satisfazer múltiplos interesses, muitas vezes contraditórios entre si, permanecem vagos, indefinidos e obscuros em vários pontos impossíveis de serem executados. A autêntica vontade das massas... a opinião pública, continuam tão ignoradas depois como antes das eleições [durante as eleições são só promessas que não serão cumpridas, porque são inviáveis — não passam de delírios, alucinações, ou porque nunca foi propósito dos candidatos cumpri-las]... Daí a indiferença pelas questões políticas e o definhamento do espírito criador das massas. Manifesta-se então... uma falsa lealdade. Os cidadãos não se interessam pelas desordens que ocorrem na vida pública, porque elas são sancionadas pelo partido; em suma... o partido suprime a individualidade. Diante do partido, o indivíduo é uma quantidade desprezível... Em lugar de educar o indivíduo para a liberdade, o partido adestra os homens na subserviência. ‘A vida dentro do partido é uma ampla escola de obediência servil. As lições recebidas pelos cidadãos são lições de covardia e pusilanimidade. Quanto mais organizado for, tanto mais desmoralizados serão seus membros e tanto mais baixo o nível de sua vida social’ [não é isso que nos mostram os partidos nazista, fascista e comunista?].

.....

Mesmo os partidos abertos tornam-se grupos completamente fechados quando se trata de distribuir os despojos entre os seus membros. Os simples votantes do partido, tão ‘carinhosamente recebidos’ nessa condição, não têm a menor chance de participar da distribuição das posições, privilégios, sinecuras e benefícios do partido vitorioso, depois da eleição ou da revolução violenta.”

[No entanto, ainda há esperança; afinal, nem de longe os partidos incorporam sequer uma considerável minoria dos cidadãos de um país, uma vez que o objetivo é se apossar das grandes vantagens de ser governo, as quais são para muito poucos].

O partido, diferentemente do estado, da família e de outros grupos, não toma parte direta na formação do caráter do homem [se fosse assim, a humanidade estaria perdida], pois o indivíduo só se filia a ele quando já é maduro. Em geral, não é o partido que seleciona e prepara o indivíduo, mas é este... que escolhe o partido de acordo com suas inclinações.”

É impressionante que o texto acima tenha sido escrito há 80 anos, com base em observações que têm mais de 100 anos! A sua atualidade é desconcertante e é uma grande pena que o pensamento de Sorokin não tenha deixado nenhuma marca no Brasil, nem tenha encontrado aqui alguém que o aprimorasse e atualizasse a sua apresentação.

Quanto à questão dos partidos, creio que há um círculo vicioso. O povo desencantado e/ou corrompido vota em políticos ruins. Os partidos, vendo o sucesso dos políticos ruins, com suas estratégias desonestas de vitória, investem mais nos indivíduos que as usam. Há uma relação, por assim dizer, 'dialética' entre os maus partidos e a ignorância política das massas. Estas dão as diretrizes erradas para os maus partidos, e estes as agravam com os seus candidatos, alimentando a desonestidade, a mediocridade e a corrupção geral.

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