CIÊNCIA E IDEOLOGIA - 2
Schumpeter, 1948
Mas
existem em nossas mentes prevenções sobre o processo econômico que são muito
mais perigosas para o crescimento cumulativo do nosso conhecimento e para o
caráter científico dos nossos esforços analíticos, porque parecem estar além do
nosso controle, num sentido em que os juízos de valor e as alegações especiais
não estão. Embora em grande parte aliadas a estes, essas prevenções merecem ser
separadas e discutidas independentemente, e serão tratadas pelo nome de
Ideologias.
A
palavra ideologia era corrente na França no final do século XVIII e na primeira
década do século XIX e significava praticamente a mesma coisa que a filosofia
moral escocesa da mesma época e de épocas anteriores, ou que a nossa própria
ciência social, na mais ampla aceitação do termo... Napoleão conferiu-lhe um
significado pejorativo... Mais tarde, passou a ser usada, conforme frequente hoje,
para denotar sistemas de ideias, ou seja, de uma forma em que se perde a
distinção entre nossos juízos de valores e as ideologias. Não temos nada a ver
com esses ou quaisquer outros significados, exceto aquele que pode ser mais
facilmente introduzido por referência ao "materialismo histórico" de
Marx e Engels. De acordo com essa doutrina, a história é determinada pela
evolução autônoma da estrutura de produção: a organização social e política, as
religiões, a moral, as artes e as ciências são meras "superestruturas
ideológicas", geradas pelo processo econômico.
Não
precisamos nem podemos entrar nos méritos e deméritos dessa concepção em si, da
qual apenas uma característica é relevante para o nosso propósito — e a sua
escolha, nesse contexto, obedece a um critério prático: facilita o debate. Essa
característica é aquela que, por meio de várias transformações, se desenvolveu
na sociologia da ciência do tipo associado aos nomes de Max Scheler e Karl
Mannheim. Até meados do século XIX, aproximadamente, a evolução da
"ciência" era vista como um processo puramente intelectual — como uma
sequência de explorações do universo empiricamente dado ou, como também podemos
dizer, como um processo de filiação de descobertas ou ideias analíticas que
prosseguia, embora sem dúvida influenciando a história social e sendo influenciada
por ela de muitas maneiras, segundo uma lei própria.
Mannheim
foi o primeiro a transformar essa relação de interdependência entre a
"ciência" e outros ramos da história social em uma relação de
dependência da primeira em relação aos dados objetivos da estrutura social e,
em particular, à posição social dos cientistas, que determina sua visão da
realidade e, portanto, o que eles veem dela e como a veem.
Esse
tipo de relativismo — que, obviamente, não deve ser confundido com qualquer
outro tipo de relativismo —, se levado rigorosamente às suas consequências
lógicas, representa uma nova filosofia da ciência e uma nova definição de
verdade científica. Mesmo na matemática e na lógica, e ainda mais na física, a
escolha dos problemas e das abordagens a eles por parte do cientista, e
consequentemente o padrão do pensamento científico de uma época, torna-se
socialmente condicionada – que é precisamente o que queremos dizer quando
falamos de ideologia científica em vez da percepção cada vez mais perfeita das
verdades científicas objetivas [ou seja, levanta a questão dos condicionamentos
sociais de nossas conclusões, o que não impossibilita, por isso, o esforço na
busca de resultados mais precisos, tão importantes quanto a sua aceitação geral]...
Poucos
negarão, contudo, que nos casos da lógica, da matemática e da física a
influência do viés ideológico não se estende além da escolha dos problemas e
das abordagens, ou seja, que a interpretação sociológica não questiona, pelo
menos nos últimos dois ou três séculos, a "verdade objetiva" das
descobertas. Essa "verdade objetiva" pode ser, e está sendo,
questionada por outros motivos, mas não que uma determinada proposição é
verdadeira ou falsa em função da posição social dos homens que a formularam. Em
certa medida, essa situação favorável pode ser explicada pelo fato de que a
lógica, a matemática, a física e outras áreas lidam com experiências que, em
grande parte, não sofrem influência da posição
social do observador e são praticamente invariáveis à
mudança histórica: para um capitalista e um proletário, uma pedra caindo parece a mesma
coisa.
As
ciências sociais não compartilham dessa vantagem. É possível, ou assim parece, contestar suas
conclusões não apenas por todos os motivos pelos
quais as proposições de todas as ciências podem ser contestadas, mas também
pelo adicional de que elas não podem transmitir mais do que as afiliações de
classe de um autor e que, sem referência a tais afiliações de classe, não há
espaço para as categorias de verdadeiro ou falso, portanto, para a própria
concepção de "avanço científico". Doravante, adotamos que o termo
Ideologia ou Viés Ideológico se aplica apenas a esse estado real ou suposto das
coisas, e nosso problema é determinar até que ponto o viés ideológico é ou foi
um fator no desenvolvimento daquilo que se poderia chamar de “economia
científica”.
Ao
reconhecer o elemento ideológico, é possível ir a extremos muito diferentes. Há
alguns autores que, de fato, negaram a existência, em economia, de algo como
uma acumulação de fatos "corretamente" observados e proposições
"verdadeiras". Mas igualmente pequena é a minoria que negaria
completamente a influência do viés ideológico. A maioria dos economistas
situa-se entre esses extremos: estão dispostos a admitir sua presença,
embora, como Marx, o encontrem apenas nos outros e nunca em si mesmos; mas
não admitem que seja uma maldição inescapável e que vicie a economia em sua
essência.
É
precisamente essa posição intermediária que levanta o nosso problema. Pois as
ideologias não são simplesmente mentiras; são afirmações verdadeiras
sobre o que um homem pensa que vê. Assim como o cavaleiro medieval se via
como desejava se ver, e assim como o burocrata moderno faz o mesmo, e assim
como ambos falharam e falham em perceber tudo o que possa ser alegado contra a
sua autoimagem como defensores dos fracos e inocentes e promotores do bem
comum, também todo outro grupo social desenvolve uma ideologia protetora que,
no mínimo, é sincera. Por hipótese, não temos consciência de nossas
racionalizações — como, então, é possível reconhecê-las e nos proteger delas?
Mas
permitam-me repetir antes de prosseguir: estou falando da ciência, enquanto técnica que produz os resultados que, juntamente com juízos de valor ou
preferências, geram recomendações, sejam estas individuais ou sistemas
delas — como os sistemas do mercantilismo, do liberalismo e assim por diante.
Não falo desses juízos de valor e dessas recomendações em si.
Concordo
plenamente com aqueles que sustentam que juízos sobre valores últimos — sobre
o Bem Comum, por exemplo — estão além do alcance do cientista,
exceto como objetos de estudo histórico, uma vez que são ideológicos por natureza e que
o conceito de progresso científico só pode ser aplicado a eles na medida em que
os meios para os implementar sejam aperfeiçoados. Compartilho da convicção de
que não faz sentido dizer que o mundo das ideias do liberalismo burguês é
"superior", em qualquer sentido relevante, ao mundo das ideias da
Idade Média, ou o mundo das ideias do socialismo ao do liberalismo burguês. Na
verdade, acredito que não há outra razão, além da preferência pessoal, para
afirmar que nossas políticas são mais bem fundamentadas e sábias do que as dos
Tudores, dos Stuarts ou de Carlos Magno [tanto umas, as nossas, como outras, as
dos antigos, são absolutamente adequadas ao tempo em que foram formuladas; se
tentássemos aplicar as regras do liberalismo econômico atual nas condições
objetivas da Idade Média, o resultado seria um grande desastre]
Primeiro,
a percepção de um conjunto de fenômenos relacionados é um ato pré-científico.
Ela precisa ser realizada para que nossas mentes tenham algo sobre o que
trabalhar cientificamente — para indicar um objeto de pesquisa —, mas não é
científica em si mesma. Embora pré-científica, não é pré-analítica. Não
consiste simplesmente em perceber fatos por meio de um ou mais sentidos. Esses
fatos precisam ser reconhecidos como tendo algum significado ou relevância que
justifique nosso interesse neles, e precisam ser reconhecidos como relacionados — para podermos separá-los de outros —, o que envolve algum trabalho
analítico por parte de nossa imaginação ou senso comum. Essa mistura de
percepções e análise pré-científica será chamada de Visão ou Intuição do
pesquisador. Na prática, é claro, raramente partimos do zero, de modo que o
ato pré-científico da visão não é inteiramente nosso. Partimos do trabalho de
nossos predecessores ou contemporâneos, ou então das ideias que circulam no
imaginário popular. Nesse caso, nossa visão também conterá pelo menos alguns
dos resultados de análises científicas anteriores. Portanto, esse composto nos
é fornecido e já existia antes mesmo de iniciarmos nosso trabalho científico.
Segundo,
se identifiquei com a "construção de modelos" a análise científica
que opera sobre o material oferecido pela visão, devo acrescentar de imediato
que pretendo atribuir ao termo "modelo" um significado muito amplo. O
modelo econômico explícito de nossos dias e seus análogos em outras ciências
são, naturalmente, produto de estágios avançados do esforço científico.
Essencialmente, porém, eles não fazem nada que não esteja presente nas formas
mais primitivas de esforço analítico, que, portanto, também podem ser
consideradas como tendo produzido, com cada pesquisador individual, modelos
primitivos, fragmentários e ineficientes. Esse trabalho consiste em selecionar
certos fatos em detrimento de outros, em defini-los com precisão, rotulando-os;
mas também em acumular mais fatos não apenas para complementar, mas também, em
parte, para substituir aqueles originalmente selecionados, em formular e
aprimorar as relações percebidas — em suma, em pesquisas "factuais" e
"teóricas" que se desenrolam em uma cadeia interminável de trocas, em
que os fatos sugerem novos instrumentos analíticos (teorias) e estes, por sua
vez, nos conduzem ao reconhecimento de novos fatos. Isso é verdade tanto para
um relato histórico quanto para a racionalização da equação de
Schrödinger, embora, em qualquer caso específico, a tarefa de apuração de fatos
ou a tarefa de afinar a análise possa predominar num momento, encobrindo a
outra. Professores podem tentar esclarecer isso para seus alunos falando sobre
indução e dedução, chegando até mesmo a contrapor uma à outra, criando, assim,
problemas espúrios. O essencial, seja qual for a nossa interpretação, é a
"troca incessante" entre o conceito claro e a conclusão coerente, por
um lado, e o novo fato e o tratamento de sua variabilidade, por outro.
Agora,
assim que realizarmos o milagre de saber o que não podemos saber, ou seja, a
existência do viés ideológico em nós mesmos e nos outros, podemos rastreá-lo
até uma fonte simples [Schumpeter adorava fazer ironias com jogos de palavras].
Essa fonte [da ideologia] reside na visão inicial dos fenômenos que
propomos submeter ao tratamento científico, mas o seu tratamento, em si,
está sob controle objetivo, no sentido de que é sempre possível estabelecer se
uma dada afirmação, em referência a um dado estado de conhecimento, é
comprovável, refutável ou nenhuma das duas. É claro que isso não exclui o erro
honesto ou a falsificação desonesta. Não exclui delírios de diversos tipos. Mas
permite a exclusão daquele tipo específico de delírio que chamamos de ideologia
[no sentido de um juízo de valor independente dos fatos], porque o teste
envolvido é indiferente a qualquer ideologia [ou deveria sê-lo].
(Continua).
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