domingo, 26 de abril de 2026

 

CIÊNCIA E IDEOLOGIA - 2 

Schumpeter, 1948

Mas existem em nossas mentes prevenções sobre o processo econômico que são muito mais perigosas para o crescimento cumulativo do nosso conhecimento e para o caráter científico dos nossos esforços analíticos, porque parecem estar além do nosso controle, num sentido em que os juízos de valor e as alegações especiais não estão. Embora em grande parte aliadas a estes, essas prevenções merecem ser separadas e discutidas independentemente, e serão tratadas pelo nome de Ideologias.

A palavra ideologia era corrente na França no final do século XVIII e na primeira década do século XIX e significava praticamente a mesma coisa que a filosofia moral escocesa da mesma época e de épocas anteriores, ou que a nossa própria ciência social, na mais ampla aceitação do termo... Napoleão conferiu-lhe um significado pejorativo... Mais tarde, passou a ser usada, conforme frequente hoje, para denotar sistemas de ideias, ou seja, de uma forma em que se perde a distinção entre nossos juízos de valores e as ideologias. Não temos nada a ver com esses ou quaisquer outros significados, exceto aquele que pode ser mais facilmente introduzido por referência ao "materialismo histórico" de Marx e Engels. De acordo com essa doutrina, a história é determinada pela evolução autônoma da estrutura de produção: a organização social e política, as religiões, a moral, as artes e as ciências são meras "superestruturas ideológicas", geradas pelo processo econômico.

Não precisamos nem podemos entrar nos méritos e deméritos dessa concepção em si, da qual apenas uma característica é relevante para o nosso propósito — e a sua escolha, nesse contexto, obedece a um critério prático: facilita o debate. Essa característica é aquela que, por meio de várias transformações, se desenvolveu na sociologia da ciência do tipo associado aos nomes de Max Scheler e Karl Mannheim. Até meados do século XIX, aproximadamente, a evolução da "ciência" era vista como um processo puramente intelectual — como uma sequência de explorações do universo empiricamente dado ou, como também podemos dizer, como um processo de filiação de descobertas ou ideias analíticas que prosseguia, embora sem dúvida influenciando a história social e sendo influenciada por ela de muitas maneiras, segundo uma lei própria.

Mannheim foi o primeiro a transformar essa relação de interdependência entre a "ciência" e outros ramos da história social em uma relação de dependência da primeira em relação aos dados objetivos da estrutura social e, em particular, à posição social dos cientistas, que determina sua visão da realidade e, portanto, o que eles veem dela e como a veem.

Esse tipo de relativismo — que, obviamente, não deve ser confundido com qualquer outro tipo de relativismo —, se levado rigorosamente às suas consequências lógicas, representa uma nova filosofia da ciência e uma nova definição de verdade científica. Mesmo na matemática e na lógica, e ainda mais na física, a escolha dos problemas e das abordagens a eles por parte do cientista, e consequentemente o padrão do pensamento científico de uma época, torna-se socialmente condicionada – que é precisamente o que queremos dizer quando falamos de ideologia científica em vez da percepção cada vez mais perfeita das verdades científicas objetivas [ou seja, levanta a questão dos condicionamentos sociais de nossas conclusões, o que não impossibilita, por isso, o esforço na busca de resultados mais precisos, tão importantes quanto a sua aceitação geral]...

Poucos negarão, contudo, que nos casos da lógica, da matemática e da física a influência do viés ideológico não se estende além da escolha dos problemas e das abordagens, ou seja, que a interpretação sociológica não questiona, pelo menos nos últimos dois ou três séculos, a "verdade objetiva" das descobertas. Essa "verdade objetiva" pode ser, e está sendo, questionada por outros motivos, mas não que uma determinada proposição é verdadeira ou falsa em função da posição social dos homens que a formularam. Em certa medida, essa situação favorável pode ser explicada pelo fato de que a lógica, a matemática, a física e outras áreas lidam com experiências que, em grande parte, não sofrem influência da posição social do observador e são praticamente invariáveis ​​à mudança histórica: para um capitalista e um proletário, uma pedra caindo parece a mesma coisa.

As ciências sociais não compartilham dessa vantagem. É possível, ou assim parece, contestar suas conclusões não apenas por todos os motivos pelos quais as proposições de todas as ciências podem ser contestadas, mas também pelo adicional de que elas não podem transmitir mais do que as afiliações de classe de um autor e que, sem referência a tais afiliações de classe, não há espaço para as categorias de verdadeiro ou falso, portanto, para a própria concepção de "avanço científico". Doravante, adotamos que o termo Ideologia ou Viés Ideológico se aplica apenas a esse estado real ou suposto das coisas, e nosso problema é determinar até que ponto o viés ideológico é ou foi um fator no desenvolvimento daquilo que se poderia chamar de “economia científica”.

Ao reconhecer o elemento ideológico, é possível ir a extremos muito diferentes. Há alguns autores que, de fato, negaram a existência, em economia, de algo como uma acumulação de fatos "corretamente" observados e proposições "verdadeiras". Mas igualmente pequena é a minoria que negaria completamente a influência do viés ideológico. A maioria dos economistas situa-se entre esses extremos: estão dispostos a admitir sua presença, embora, como Marx, o encontrem apenas nos outros e nunca em si mesmos; mas não admitem que seja uma maldição inescapável e que vicie a economia em sua essência.

É precisamente essa posição intermediária que levanta o nosso problema. Pois as ideologias não são simplesmente mentiras; são afirmações verdadeiras sobre o que um homem pensa que vê. Assim como o cavaleiro medieval se via como desejava se ver, e assim como o burocrata moderno faz o mesmo, e assim como ambos falharam e falham em perceber tudo o que possa ser alegado contra a sua autoimagem como defensores dos fracos e inocentes e promotores do bem comum, também todo outro grupo social desenvolve uma ideologia protetora que, no mínimo, é sincera. Por hipótese, não temos consciência de nossas racionalizações — como, então, é possível reconhecê-las e nos proteger delas?

Mas permitam-me repetir antes de prosseguir: estou falando da ciência, enquanto técnica que produz os resultados que, juntamente com juízos de valor ou preferências, geram recomendações, sejam estas individuais ou sistemas delas — como os sistemas do mercantilismo, do liberalismo e assim por diante. Não falo desses juízos de valor e dessas recomendações em si.

Concordo plenamente com aqueles que sustentam que juízos sobre valores últimossobre o Bem Comum, por exemploestão além do alcance do cientista, exceto como objetos de estudo histórico, uma vez que são ideológicos por natureza e que o conceito de progresso científico só pode ser aplicado a eles na medida em que os meios para os implementar sejam aperfeiçoados. Compartilho da convicção de que não faz sentido dizer que o mundo das ideias do liberalismo burguês é "superior", em qualquer sentido relevante, ao mundo das ideias da Idade Média, ou o mundo das ideias do socialismo ao do liberalismo burguês. Na verdade, acredito que não há outra razão, além da preferência pessoal, para afirmar que nossas políticas são mais bem fundamentadas e sábias do que as dos Tudores, dos Stuarts ou de Carlos Magno [tanto umas, as nossas, como outras, as dos antigos, são absolutamente adequadas ao tempo em que foram formuladas; se tentássemos aplicar as regras do liberalismo econômico atual nas condições objetivas da Idade Média, o resultado seria um grande desastre]

Primeiro, a percepção de um conjunto de fenômenos relacionados é um ato pré-científico. Ela precisa ser realizada para que nossas mentes tenham algo sobre o que trabalhar cientificamente — para indicar um objeto de pesquisa —, mas não é científica em si mesma. Embora pré-científica, não é pré-analítica. Não consiste simplesmente em perceber fatos por meio de um ou mais sentidos. Esses fatos precisam ser reconhecidos como tendo algum significado ou relevância que justifique nosso interesse neles, e precisam ser reconhecidos como relacionados — para podermos separá-los de outros —, o que envolve algum trabalho analítico por parte de nossa imaginação ou senso comum. Essa mistura de percepções e análise pré-científica será chamada de Visão ou Intuição do pesquisador. Na prática, é claro, raramente partimos do zero, de modo que o ato pré-científico da visão não é inteiramente nosso. Partimos do trabalho de nossos predecessores ou contemporâneos, ou então das ideias que circulam no imaginário popular. Nesse caso, nossa visão também conterá pelo menos alguns dos resultados de análises científicas anteriores. Portanto, esse composto nos é fornecido e já existia antes mesmo de iniciarmos nosso trabalho científico.

Segundo, se identifiquei com a "construção de modelos" a análise científica que opera sobre o material oferecido pela visão, devo acrescentar de imediato que pretendo atribuir ao termo "modelo" um significado muito amplo. O modelo econômico explícito de nossos dias e seus análogos em outras ciências são, naturalmente, produto de estágios avançados do esforço científico. Essencialmente, porém, eles não fazem nada que não esteja presente nas formas mais primitivas de esforço analítico, que, portanto, também podem ser consideradas como tendo produzido, com cada pesquisador individual, modelos primitivos, fragmentários e ineficientes. Esse trabalho consiste em selecionar certos fatos em detrimento de outros, em defini-los com precisão, rotulando-os; mas também em acumular mais fatos não apenas para complementar, mas também, em parte, para substituir aqueles originalmente selecionados, em formular e aprimorar as relações percebidas — em suma, em pesquisas "factuais" e "teóricas" que se desenrolam em uma cadeia interminável de trocas, em que os fatos sugerem novos instrumentos analíticos (teorias) e estes, por sua vez, nos conduzem ao reconhecimento de novos fatos. Isso é verdade tanto para um relato histórico quanto para a racionalização da equação de Schrödinger, embora, em qualquer caso específico, a tarefa de apuração de fatos ou a tarefa de afinar a análise possa predominar num momento, encobrindo a outra. Professores podem tentar esclarecer isso para seus alunos falando sobre indução e dedução, chegando até mesmo a contrapor uma à outra, criando, assim, problemas espúrios. O essencial, seja qual for a nossa interpretação, é a "troca incessante" entre o conceito claro e a conclusão coerente, por um lado, e o novo fato e o tratamento de sua variabilidade, por outro.

Agora, assim que realizarmos o milagre de saber o que não podemos saber, ou seja, a existência do viés ideológico em nós mesmos e nos outros, podemos rastreá-lo até uma fonte simples [Schumpeter adorava fazer ironias com jogos de palavras]. Essa fonte [da ideologia] reside na visão inicial dos fenômenos que propomos submeter ao tratamento científico, mas o seu tratamento, em si, está sob controle objetivo, no sentido de que é sempre possível estabelecer se uma dada afirmação, em referência a um dado estado de conhecimento, é comprovável, refutável ou nenhuma das duas. É claro que isso não exclui o erro honesto ou a falsificação desonesta. Não exclui delírios de diversos tipos. Mas permite a exclusão daquele tipo específico de delírio que chamamos de ideologia [no sentido de um juízo de valor independente dos fatos], porque o teste envolvido é indiferente a qualquer ideologia [ou deveria sê-lo]. 

(Continua).


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