TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 7
Diferença
entre História da Análise Econômica, História dos Sistemas de Economia Política
e História do Pensamento Econômico
....
Por
sistema de economia política, entendo uma exposição de um conjunto abrangente
de políticas econômicas que seu autor defende com base em certos princípios
unificadores (normativos), como os princípios do liberalismo econômico, do
socialismo e assim por diante. Tais sistemas se enquadram em nosso escopo na
medida em que contenham trabalho genuinamente analítico. Por exemplo, A Riqueza
das Nações, de A. Smith, foi, de fato, em sua intenção, um sistema de economia
política no sentido definido acima e, como tal, não nos interessa. Nos
interessa ainda mais pelo fato de que os princípios e receitas políticas de A.
Smith — sua defesa cautelosa do livre comércio e outros — são apenas a capa de
uma grande conquista analítica [feita antes de Smith].
Em
outras palavras, não estamos tão interessados no
que ele argumentou, mas em como ele argumentou e quais ferramentas de análise utilizou para fazê-lo. Seus princípios e receitas políticas (incluindo a ideologia — revelando juízos de valor) eram, sem dúvida, o que mais importava para ele e
para seus leitores e, além disso, o que explica principalmente o sucesso de sua
obra junto ao público e sua posição de destaque na história do pensamento
humano. Mas estou disposto a descartá-los como meras formulações da ideologia
de sua época e país, sem validade para qualquer outra.
O
mesmo se aplica ao que definimos como Pensamento Econômico, ou seja, a soma
total de todas as opiniões e desejos relativos a assuntos econômicos,
especialmente no que diz respeito às políticas públicas que os influenciam, e
que, em qualquer tempo e lugar, circulam na mente pública.
Ora,
a mente pública nunca é algo indiferenciado ou homogêneo, mas sim o resultado
da divisão da comunidade correspondente em grupos e classes de naturezas
diversas. Em outras palavras, a mente pública reflete, de forma mais ou menos
traiçoeira... a estrutura de classes da sociedade correspondente e as
mentalidades ou atitudes de grupo que nela se formam. Como essas mentalidades
de grupo têm diferentes oportunidades de se afirmar e, principalmente, de
deixar suas marcas na literatura que chega ao conhecimento das gerações
posteriores, surgem questões de interpretação que são sempre difíceis de
resolver.
...
Uma coisa é lidar com políticos, outra com os lojistas, agricultores e
operários que são “representados” por esses políticos. E isso pode ser
formulado em sistemas de economia política por escritores que pertencem, ou se
vinculam, a setores específicos. Por outro lado, pode tangenciar, ou se
sobrepor a, trabalhos analíticos, como frequentemente ocorre em tratados
escritos por membros da burguesia comercial ou industrial. Na medida em que
isso acontece, será nossa tarefa, naturalmente, selecionar, da melhor maneira
possível, as interpretações analíticas dentre as verbalizações comuns dos humores
da época que não estejam relacionadas ao esforço para aprimorar nosso aparato
conceitual e, portanto, não nos interessam.
É
claro que jamais negligenciaremos o ambiente geral do pensamento econômico no
qual, em diferentes épocas, os analistas desenvolveram seu trabalho. Mas esses
ambientes e suas transformações históricas nunca são nosso principal objeto de
interesse. Eles surgem como influências favoráveis ou
inibidoras sobre o trabalho analítico,
que permanecerá o protagonista
ao longo de nossa análise.
Ao tentarmos desvincular o trabalho analítico
de seu contexto popular, mesmo que este exerça incessantemente sua influência, faremos uma descoberta que é
conveniente ressaltar de imediato.
O
desenvolvimento do trabalho analítico, por mais perturbado que tenha sido pelos
interesses e atitudes do mercado, apresenta uma característica totalmente
ausente do desenvolvimento histórico do pensamento econômico em nosso sentido,
bem como da sucessão histórica dos sistemas de economia política. Essa
característica pode ser melhor ilustrada por um exemplo: desde os primórdios
até os dias de hoje, os economistas analíticos têm se interessado, em maior ou
menor grau, pela análise do fenômeno que chamamos de preço competitivo. Quando
o estudante moderno se depara com o fenômeno em um nível avançado de seus
estudos, por exemplo, nos livros de Hicks ou Samuelson, ele é apresentado a uma
série de conceitos e problemas que podem lhe parecer difíceis a princípio, e
certamente seriam completamente incompreensíveis para um autor como John Stuart
Mill. Mas o estudante também descobrirá em breve que um novo aparato apresenta
e resolve problemas para os quais os autores mais antigos teriam dificilmente encontrado respostas, mesmo que os conhecessem. Isso define, de maneira sensata
e, em todo caso, perfeitamente inequívoca, em que sentido houve "progresso
científico" entre Mill e Samuelson.
Ora,
nossa capacidade de falar em progresso nesse caso se deve, obviamente, ao fato
de existir um padrão amplamente aceito, restrito a um grupo de profissionais,
que nos permite organizar diferentes teorias de preço competitivo em uma série em
que cada membro pode ser considerado superior ao anterior [o nível (de
complexidade ou precisão) da análise mais aceita em uma época tende a ser
superado pelo nível da análise mais aceita que lhe segue]. Observamos ainda que
essa sequência está associada ao passar do tempo, no sentido de que a teoria
posterior dos preços competitivos quase sempre ocupa posição superior na escala
de perfeição analítica: quando isso não ocorre, é possível atribuir esse fato a
influências extra-analíticas perturbadoras. Mas, embora seja possível falar em
progresso analítico e impossível negar os fatos que essa palavra denota, nada
corresponde a isso no campo do pensamento econômico ou mesmo em qualquer
conjunto histórico de sistemas de economia política. Por exemplo, não faria
sentido falar de uma superioridade das ideias de Carlos Magno sobre política
econômica, reveladas por suas ações legislativas e administrativas, sobre as
ideias econômicas, digamos, do Rei Hamurabi; ou dos princípios gerais de
política revelados pelas proclamações dos reis Stuart sobre as de Carlos Magno;
ou das declarações de política que precedem às vezes as leis do Congresso sobre
essas proclamações Stuart. É claro que podemos simpatizar com alguns dos
interesses favorecidos em um desses casos em vez dos interesses favorecidos em
outros e, nesse sentido, organizar esses documentos também em uma escala de
preferência. Mas o lugar de qualquer corrente de pensamento econômico em tal
conjunto variaria de acordo com os nossos julgamentos de valores, e quanto ao
resto, ficaremos com nossa preferência emocional ou estética pelos diversos
esquemas de vida que encontram expressão nesses documentos. Situação semelhante a como se nos perguntassem se o melhor pintor seria Gauguin ou Ticiano. A única
resposta sensata para tal pergunta é que ela não tem sentido. E o mesmo se
aplica, naturalmente, a todos os sistemas de economia política, se excluirmos
deles as excelências ou deficiências técnicas.
Podemos,
de fato, preferir o mundo do socialismo ditatorial moderno ao mundo de Adam
Smith, ou vice-versa, mas qualquer preferência desse tipo se enquadra na mesma
categoria de avaliação subjetiva... Em outras palavras, não há significado
objetivo para o termo progresso em questões econômicas ou de qualquer outra
política, porque não existe um padrão válido para comparações. Seria supérfluo
acrescentar que esse argumento parece esclarecer satisfatoriamente as
diferenças entre os historiadores da economia sobre esse ponto. Alguns deles
pensam em análise técnica e em um domínio crescente dos fatos; estes estão
absolutamente certos ao falar do progresso científico em nossa área. Outros
falam das mudanças de humor, elas próprias produto das mudanças nas condições
sociais, que produzem mudanças de opinião sobre políticas e desejos; estes
estão absolutamente certos ao negar que exista algo como progresso em nossa
área. Qualquer um dos grupos pode errar ao ignorar que existe um aspecto do
pensamento humano sobre assuntos econômicos além daquele que estão considerando
exclusivamente [talvez ele esteja se referindo aqui à questão da afetividade, das
preferências, que é incomensurável e que subjaz a toda atividade mental].
[traduzido de History of Economic Analysis]
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