domingo, 19 de abril de 2026


CIÊNCIA E IDEOLOGIA - 1

Já que estamos falando de ideologia, traduzi, abaixo, o texto de uma conferência dada por Schumpeter para a Associação dos Economistas Americanos, em 1948, publicada na The American Economic Review, em março de 1949. Posteriormente, retomaremos a History of Economic Analysis.

Há cem anos, os economistas estavam muito mais satisfeitos com seu desempenho do que estão hoje. Mas afirmo que, se essa complacência pode ser justificada, e digo que há muito mais motivos para complacência hoje do que havia naquela época, ou mesmo há um quarto de século... E se isso é verdade para o nosso domínio dos fatos, deve ser verdade também para todos os campos aplicados que, para seu avanço, dependem principalmente da apuração de fatos. Devo insistir, um pouco contido, na afirmação de que nossa capacidade de análise cresceu em paralelo com nosso acervo de fatos. Um novo conjunto de métodos estatísticos emergiu, em certa medida por nossos próprios esforços, que certamente terá tanta importância para nós quanto para todas as ciências, como a biologia ou a psicologia experimental, cujos fenômenos são expressos em termos de distribuições de frequência.

Em resposta a esse desenvolvimento e em consonância com ele, mas de forma independente, nosso próprio conjunto de ferramentas analíticas foi enormemente enriquecido: a teoria econômica, no sentido instrumental do termo — que não significa o ensino dos fins últimos das políticas públicas nem hipóteses explicativas, mas simplesmente a soma total de nossos métodos de lidar com os fatos — cresceu tanto quanto Marshall e Pareto previram. Se isso não é mais amplamente reconhecido e se é de bom tom entre economistas — principalmente em público — emitir julgamentos depreciativos sobre o estado de nossa ciência, isso se deve a uma série de causas que, embora conhecidas, costumam se repetir: um terreno onde estruturas antigas estão sendo demolidas e novas erguidas não é algo esteticamente agradável; além disso, de forma bastante desencorajadora, as novas estruturas estão sendo desacreditadas por tentativas prematuras de aplicação utilitarista; finalmente, a área de construção se expande tanto que impossibilita ao trabalhador individual compreender tudo o que acontece além do seu pequeno setor.

Seria, de fato, difícil apresentar de forma sistemática, como Smith, Mills e Marshall conseguiram fazer com maior ou menor sucesso, um tratado abrangente que demonstrasse alguma unidade e obtivesse aprovação quase universal. Assim, embora os trabalhadores de cada setor não estejam de todo insatisfeitos com o seu próprio desempenho, é bastante provável que desaprovem a maneira como os outros setores executam suas tarefas, ou mesmo que neguem que essas outras tarefas mereçam qualquer atenção... Muitos tipos de mente são necessários para construir a estrutura do conhecimento humano, tipos que nunca se entendem completamente. A ciência é técnica e, quanto mais se desenvolve, mais completamente escapa à compreensão não só do público em geral, mas também... do próprio pesquisador.

Isso ocorre mais ou menos em todos os lugares, embora uma maior uniformidade na formação e uma maior disciplina no trabalho possam, na física, reduzir o tumulto a algo semelhante à ordem. Como todos sabem, porém, existe entre nós outra fonte de confusão e outra barreira ao progresso: a maioria de nós, não contente com sua tarefa científica, cede ao chamado do dever público e ao desejo de servir ao país e à sua época, trazendo consigo para o trabalho seus valores individuais, suas crenças e sua visão política — toda a sua personalidade moral, até suas ambições espirituais.

Não pretendo discutir sobre juízos de valor ou sobre a defesa de interesses de grupo. Pelo contrário, é essencial para o meu propósito enfatizar que, em si, a prática científica não exige que nos despojemos de nossos juízos de valor ou que renunciemos à vocação de defensor de algum interesse específico. Investigar fatos ou desenvolver ferramentas para fazê-lo é uma coisa; avaliá-los de um ponto de vista moral ou cultural é, logicamente, outra coisa, e as duas não precisam entrar em conflito. Da mesma forma, o defensor de um determinado interesse pode, ainda assim, realizar um trabalho analítico honesto, e a motivação de provar um ponto em defesa do interesse ao qual deve lealdade não prova, por si só, nada a favor ou contra esse trabalho analítico: em outras palavras, defender uma causa não implica mentir ou  distorcer fatos ou inferências para servirem a um ideal ou interesse. Mas tal conduta má não é necessariamente inerente ao argumento de um pesquisador a partir de suas "premissas axiológicas" ou à defesa delas em si. Abundam exemplos em que economistas estabeleceram proposições cujas implicações não lhes causavam qualquer simpatia. Para citar um único exemplo: estabelecer a consistência lógica das condições (equações) que descrevem uma economia socialista parecerá à maioria das pessoas equivalente a ganhar um ponto para o socialismo; mas isso foi estabelecido por Enrico Barone, um homem que... não simpatizava com os ideais socialistas.

(continua)


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