Há
cem anos, os economistas estavam muito mais satisfeitos com seu desempenho do
que estão hoje. Mas afirmo que, se essa complacência pode ser justificada, e digo que há
muito mais motivos para complacência hoje do que havia naquela época, ou mesmo
há um quarto de século... E se isso é verdade para o nosso domínio dos fatos,
deve ser verdade também para todos os campos aplicados que, para seu avanço,
dependem principalmente da apuração de fatos. Devo insistir, um pouco contido, na afirmação
de que nossa capacidade de análise cresceu em paralelo com nosso acervo de
fatos. Um novo conjunto de métodos estatísticos emergiu, em certa medida por
nossos próprios esforços, que certamente terá tanta importância para nós quanto
para todas as ciências, como a biologia ou a psicologia experimental, cujos
fenômenos são expressos em termos de distribuições de frequência.
Em
resposta a esse desenvolvimento e em consonância com ele, mas de forma independente, nosso próprio conjunto de ferramentas analíticas foi
enormemente enriquecido: a teoria econômica, no sentido instrumental do termo —
que não significa o ensino dos fins últimos das políticas públicas nem
hipóteses explicativas, mas simplesmente a soma total de nossos métodos de
lidar com os fatos — cresceu tanto quanto Marshall e Pareto previram. Se isso
não é mais amplamente reconhecido e se é de bom tom entre economistas — principalmente
em público — emitir julgamentos depreciativos sobre o estado de nossa ciência,
isso se deve a uma série de causas que, embora conhecidas, costumam se repetir: um terreno onde estruturas antigas estão sendo demolidas e novas
erguidas não é algo esteticamente agradável; além disso, de forma bastante
desencorajadora, as novas estruturas estão sendo desacreditadas por tentativas
prematuras de aplicação utilitarista; finalmente, a área de construção se
expande tanto que impossibilita ao trabalhador individual
compreender tudo o que acontece além do seu pequeno setor.
Seria,
de fato, difícil apresentar de forma sistemática, como Smith, Mills e
Marshall conseguiram fazer com maior ou menor sucesso, um tratado abrangente
que demonstrasse alguma unidade e obtivesse aprovação quase universal. Assim,
embora os trabalhadores de cada setor não estejam de todo insatisfeitos com o
seu próprio desempenho, é bastante provável que desaprovem a maneira como os outros setores executam suas tarefas, ou mesmo que neguem que essas
outras tarefas mereçam qualquer atenção... Muitos tipos de mente são
necessários para construir a estrutura do conhecimento humano, tipos que nunca
se entendem completamente. A ciência é técnica e, quanto mais se desenvolve,
mais completamente escapa à compreensão não só do público em geral, mas também...
do próprio pesquisador.
Isso
ocorre mais ou menos em todos os lugares, embora uma maior uniformidade na
formação e uma maior disciplina no trabalho possam, na física, reduzir o
tumulto a algo semelhante à ordem. Como todos sabem, porém, existe entre nós
outra fonte de confusão e outra barreira ao progresso: a maioria de nós, não
contente com sua tarefa científica, cede ao chamado do dever público e ao
desejo de servir ao país e à sua época, trazendo consigo para o trabalho seus
valores individuais, suas crenças e sua visão política — toda a sua
personalidade moral, até suas ambições espirituais.
Não
pretendo discutir sobre juízos de valor ou sobre a defesa de
interesses de grupo. Pelo contrário, é essencial para o meu propósito enfatizar
que, em si, a prática científica não exige que nos despojemos de nossos juízos
de valor ou que renunciemos à vocação de defensor de algum interesse
específico. Investigar fatos ou desenvolver ferramentas para fazê-lo é uma
coisa; avaliá-los de um ponto de vista moral ou cultural é, logicamente, outra
coisa, e as duas não precisam entrar em conflito. Da mesma forma, o defensor de
um determinado interesse pode, ainda assim, realizar um trabalho analítico
honesto, e a motivação de provar um ponto em defesa do interesse ao qual deve
lealdade não prova, por si só, nada a favor ou contra esse trabalho analítico:
em outras palavras, defender uma causa não implica mentir ou distorcer fatos ou inferências para servirem a um
ideal ou interesse. Mas tal conduta má não é necessariamente inerente ao
argumento de um pesquisador a partir de suas "premissas axiológicas"
ou à defesa delas em si. Abundam exemplos em que economistas estabeleceram proposições
cujas implicações não lhes causavam qualquer simpatia. Para citar um único
exemplo: estabelecer a consistência lógica das condições (equações) que
descrevem uma economia socialista parecerá à maioria das pessoas equivalente a
ganhar um ponto para o socialismo; mas isso foi estabelecido por Enrico Barone,
um homem que... não simpatizava com os ideais socialistas.
(continua)
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