O CORONEL MOREIRA CÉSAR E
CANUDOS DEVEM MORRER
A PROFECIA DO BARÃO DE COTEGIPE - 2
SANTA CATARINA
O contexto
Em 15 de novembro de 1889, o Brasil
sofreu um inesperado e inevitável golpe militar, chefiado pelo marechal Deodoro
da Fonseca, que mudou o nosso sistema de governo, após anos de estremecimentos
entre políticos e militares do Império, deslumbrados com a vitória na Guerra do
Paraguai — que chamo Grande Guerra Platina (1864–1870). Após o fim do
Império, uma série de mudanças tanto sociais como econômicas, além de outros
acontecimentos impactantes, se seguiram, sem que nenhum dos grupos no poder
soubesse exatamente o que fazer: os monarquistas, sobre como permanecer no
poder; militares e republicanos, sobre a República que queriam. Os
movimentos eram aleatórios, conduzidos por minorias, que se impunham, enquanto
o povo assistia a tudo, bestificado.
O grupo social e econômico mais
influente no Império, o dos grandes proprietários rurais escravocratas, estava
cansado da estagnação imperial, mas tentando acomodar seus interesses
econômicos de classe, e por isso, em geral, não discutia sobre a República nem
votava nos republicanos. Cada um esperava para ver quem tomava a iniciativa e,
com isso, tudo ficou para ser decidido na última hora, ou mesmo depois dela.
A participação do exército no golpe
da República expôs a intensa mobilização política entre os militares,
anteriormente desconhecida entre nós, embora a experiência latino-americana, em
geral, inspirasse preocupações.
Em 1890, durante o Governo
Provisório, o ministro da Fazenda, Rui Barbosa, dá prosseguimento à política de
crédito fácil — iniciada pelo Visconde de Ouro Preto —, redirecionando-a para o
setor industrial, mas que, em virtude da interferência política, da
inexistência de uma economia de mercado e da especulação financeira, acaba no
desastre do Encilhamento — a moeda se desvalorizou (aumento de preços),
empresas fecharam (desemprego) e a economia se desorganizou (estagnação).
Em 24 de fevereiro de 1891, é
promulgada a primeira Constituição republicana. Uma adaptação da que vigorava
nos Estados Unidos.
Embora prestigiado na tropa,
Deodoro sofre, ao longo do Governo Provisório, cerrada oposição do forte grupo
republicano paulista, chefiado por Prudente de Morais, e de uma ala do
exército, aglutinada ao redor do Marechal Floriano Peixoto, que cresce a cada
dia.
Nas eleições de 25 de fevereiro de
1891, Deodoro é eleito presidente e Floriano Peixoto, vice. No parlamento, os
paulistas mantêm a sua oposição às iniciativas autoritárias e personalistas de
Deodoro, que quer dirigir o país como um quartel. Ignorando a Constituição,
ele nomeia os governadores dos estados.
No dia 3 de novembro de 1891,
inconformado com a oposição ao seu governo, Deodoro dissolve o Congresso
Nacional e estabelece uma ditadura de fato. A reação vem em 23, quando o
almirante Custódio de Melo levanta a Marinha e ameaça bombardear o Rio de Janeiro.
É a Primeira Revolta da Armada. Deodoro renuncia e dá posse a Floriano.
Floriano, também ignorando a
Constituição, depõe os governadores nomeados por Deodoro e impõe os seus, quase
todos jovens militares de carreira. O Exército começa a aparelhar as
instituições administrativas da República.
No dia 6 de setembro de 1893, a
oficialidade da Marinha, liderada por Custódio de Melo, que tinha ambições
presidenciais, exige eleições presidenciais; Floriano nega, e tem início a
Segunda Revolta da Armada.
No Rio Grande do Sul, há uma
divergência entre o governo positivista-ditatorial de Júlio de Castilhos e o
grupo liderado pelo ex-deputado liberal Gaspar Silveira Martins, chamado
“federalista”, porque defendia a descentralização política e uma democracia do
tipo liberal-parlamentarista.
Em 2 de fevereiro de 1893, tem
início a Revolta Federalista no Rio Grande do Sul. As forças
federalistas do poderoso pecuarista Gumercindo Saraiva, vindas do Uruguai,
invadem o estado, descontentes com a política centralizadora do governo de
Júlio de Castilhos. A ele se juntam outros chefes federalistas, dando início a
uma guerra civil. Castilhos recebe apoio explícito, e decisivo, de
Floriano Peixoto.
No início de março de 1892,
Floriano nomeou um homem de confiança, o tenente Manoel Joaquim Machado,
interventor em Santa Catarina. Contaminado pela revolta no estado vizinho,
Santa Catarina revolta-se. O tenente Machado adere à facção federalista, que se
apropria da máquina administrativa estatal. Os federalistas gaúchos atravessam
Santa Catarina e invadem o Paraná. Agora, sua meta é ampliar o movimento,
atravessar São Paulo e pressionar pela renúncia de Floriano.
Entre janeiro e fevereiro de 1894,
acontece o “cerco da Lapa”, cidadezinha paranaense defendida por
tropas federais. Apesar de sua queda, a tenacidade dos defensores esgotou os
federalistas e salvou São Paulo da invasão. Tropas paulistas, numerosas e bem
equipadas, invadem o Paraná e empurram os federalistas de volta para o Rio
Grande do Sul.
Enquanto o interior de Santa
Catarina estava dominado pelos federalistas gaúchos, que não se acertavam com
os revolucionários catarinenses, a esquadra comprada por Floriano derrota os
navios rebelados e ocupa os fortes da ilha de Santa Catarina, onde estava
a capital Desterro. Vários revolucionários do estado de Santa Catarina se
juntam aos marinheiros revoltosos e se evadem para a Argentina e Uruguai.
Alguns, entretanto, ficam sendo presos pelas forças federais.
Floriano, sem um aliado confiável
para nomear, nomeia o coronel paulista Antônio Moreira César como governador
interino de Santa Catarina, com a tarefa de reorganizar o estado e reprimir os
partidários do federalismo ainda atuantes. Ele chega em 21 de abril de 1894 e
assume no dia seguinte.
A partir da ação de seus
adversários e, principalmente, da obra de Euclides da Cunha, inicia-se uma
lenda que tenta associar o Coronel Moreira César a um evento que nunca
ocorreu: o Massacre de Anhatomirim, em 1894.
Nenhum comentário:
Postar um comentário