O CORONEL MOREIRA CÉSAR E
CANUDOS DEVEM MORRER
A PROFECIA DO BARÃO DE COTEGIPE — 4
O maior dos crimes jamais
cometido.
Em Os Sertões, Cunha se
esmera, em cada parágrafo ou frase, para incinerar tudo que possa ser ou
parecer digno e nobre na reputação de Moreira César. Quanto à sua nomeação ao
governo de Santa Catarina, ele afirma: “Em 1893, já coronel, porque galgara
velozmente três postos em dois anos [mostrando que era muito competente], ao
declarar-se a Revolta da Armada, o Marechal Floriano Peixoto destacou-o, armado
de poderes discricionários, para Santa Catarina… Em ponto algum do nosso
território pesou tão firme e tão estrangulador o guante dos estados de sítio”.
“Os fuzilamentos que ali se
fizeram, com triste aparato de imperdoável maldade… Abalaram tanto a opinião
nacional que, ao terminar a revolta, o governo civil, recém-inaugurado, pediu
contas de tais sucessos ao principal responsável. A resposta, pelo telégrafo,
foi pronta. Um “não”, simples, seco, atrevido, cortante, um dardo batendo em
cheio à curiosidade imprudente dos poderes constituídos, sem o atavio, sem o
rodeio, sem a ressalva da explicação mais breve” (1).
Quando Moreira César chegou a
Desterro, estava à frente de uma tropa de cerca de 500 homens, divididos entre
soldados federais, policiais e membros das milícias semiprivadas florianistas,
que se apresentavam como 'batalhões patrióticos'. Aí encontrou as prisões
lotadas de prisioneiros, que já deviam ter sofrido nas mãos dos garotos
radicalizados do almirante Jerônimo. Será que ele foi tentado a se livrar logo
dos prisioneiros?
O censo de 1890 dizia que Desterro
possuía 30.687 habitantes, embora seja provável que, em 1894, esse número
estivesse diminuído, em virtude da guerra. Os desterrenses levavam uma vida
pacata e isolada, em que todos se conheciam e sabiam o que acontecia. Não era,
portanto, um local propício a ações clandestinas espetaculares, como massacrar
quase toda a elite social e política do estado e da cidade, sem que ninguém o
soubesse.
As acusações de numerosos crimes
graves, como desaparecimentos, fuzilamentos e outras formas de execução em
massa na escuridão da noite, temperadas com atos de uma crueldade brutal,
deixam-me atônito: como tudo ficou clandestino aos que moravam na cidade? Por
que ninguém escreveu nada naquele momento sobre isso? Como tantos detalhes
ficaram conhecidos por gente que nem morava na cidade?
As vítimas desses crimes eram de
todas as classes sociais; das mais humildes até um barão do Império, de civis
até a mais alta patente do Exército, como o marechal Lobo d’Eça. O local da
maioria esmagadora desses crimes seria a improvável fortaleza de Santa Cruz de
Anhatomirim, um nome que causa arrepios em quem não conhece a história e é
desnecessariamente impressionável.
A primeira vez que vi uma menção a
fuzilamentos em Anhatomirim foi em um jornal do Espírito Santo. O Comércio do
Espírito Santo, de 19 de dezembro de 1894. O texto estava um pouco apagado, mas
traz uma notícia em destaque na primeira página. Essa matéria foi copiada de um
jornal federalista chamado Canabarro, editado na cidade uruguaia de Rivera. O
título da matéria era “FUZILADOS”. Com o tempo, essa informação foi se tornando
uma verdade aceita na nossa história.
A matéria descreve a circunstância
dos fuzilamentos de vários personagens conhecidos, com uma riqueza de detalhes
impressionante… Para quem não estava lá (pisc!). Essa matéria foi também
copiada pelo jornal maranhense Pacotilha, em janeiro de 1895, e
provavelmente por outros.
E, assim, lentamente, essa fantasia
vai ganhando ares de verdade, com a garantia de seus inventores, e se espalha
pelo país, ajudada pelo torpor geral, pelas altas taxas de analfabetismo e pelo
fascínio do escandaloso (2).
A lenda dos massacres foi inventada
tão às pressas que não existem dois “especialistas” apontando para um mesmo
número de fuzilados. Cada um anexa o número que mais lhe agrada. Segundo Oleone
Fontes, num artigo da revista Canudos, de Salvador, nº 2, vol. 2, de 1997, o
federalista apaixonado Duarte Paranhos Schutell, que, com um olhar penetrante,
viu tudo do seu canto, listou 34 nomes; Lucas Alexandre Boiteux apostou no
reverso e listou 43. A ordem dos fatores não altera a pesquisa. Oswaldo
Rodrigues Cabral preferiu 185, sem citar fonte. Ele somente pensou grande. Os
desconhecidos da Wikipédia em português orbitaram 298 vítimas, no verbete “Fuzilados
em Anhatomirim (1894)”. Não se pode dizer que eles não se esforçam para
continuar desconhecidos.
Se tomarmos como cem o número de
vítimas, e supusermos que cada uma conhecia pelo menos cem pessoas, entre
familiares, amigos e desafetos, nós teríamos um total de dez mil pessoas dando
pela falta deles. Considerando a população de Desterro nessa época, como
explicar que nenhum dos jornais da cidade, como o governista República e o
federalista O Estado, faz qualquer menção a Anhatomirim ou liga o nome
do coronel Moreira César a qualquer ato de violência política nesse período?
Anhatomirim só aparece na coluna
social! Por duas vezes, o jornal República relatou que o governador
Moreira César, foi à fortaleza. De visita!
Em 1896, quando Moreira César não
era mais governador, ele mandou prender o editor do jornal O Estado, um
certo tenente Machado, da ativa — talvez o mesmo que traiu Floriano. A detenção
foi ocasionada pelo fato de Machado haver assinado um contundente editorial
direcionado a Floriano Peixoto, em 3 de julho de 1896, no marco de um ano do
seu falecimento. No entanto, essa detenção foi estritamente disciplinar e durou
somente um dia, impulsionada pela convicção fechada de Moreira César de que os
militares da ativa não deveriam se envolver na política partidária. Não é por
isso que lutamos hoje?
Ora, até os federalistas entenderam
a sua atitude, tanto que O Estado, na edição de 7 de julho, na matéria
FLORIANO PEIXOTO, na primeira página, diz: “Em todo o caso, a prisão do
tenente Machado só foi motivada por quebra de disciplina; nenhuma importância
tem, como se tem pretendido propalar.”
Quanto à forma como César respondeu
ao Governo Federal, Euclides da Cunha ou mente ou ignora, pois a resposta do
coronel foi escrita em ofício, na forma padrão, sendo publicada na Gazeta de
Notícias, um dos jornais mais importantes do Rio, em 11 de maio de 1895, p. 2:
“Cidadão General de Brigada
Manuel Eufrásio dos Santos Dias [em nome do Ministro da Guerra], muito
digno Comandante do 5º Distrito Militar [de Curitiba].”
“Em resposta ao ofício reservado
do comando interino desse Distrito, de 17 de janeiro último, relativamente à
portaria reservada do Ministério da Guerra, de 18 de dezembro de 1894, que diz:
“Informai com urgência a este Ministério se no distrito de vossa circunscrição
houve fuzilamentos de militares de mar e terra determinados por autoridades da
República,” cumpre-me dizer, em resposta, que não.”
Esse texto apareceu também no
Diário do Congresso de 27 de junho de 1896, segundo o general Epaminondas
Ferraz, Excertos da história de um batalhão de infantaria, sustentáculo da
República, revista Defesa Nacional, nº 639, p. 64; e integralmente no
Jornal do Comércio, que reproduziremos mais adiante.
Como Euclides o ignorava?
Eduardo Simões - como estou publicando o texto em pedaços, e é grande, não colocarei as notas para não ficar confuso. Complementem a pesquisa na Internet.
(Eduardo Simões)
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