A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM.
Eduardo Simões.
A conversa de separatismo sulista no Brasil, por razões políticas óbvias, voltou à ordem do dia, colocando questões que não podem ser ignoradas; uma delas é: quantos séculos a mais, já se passaram 2, desde a independência, teremos que esperar para termos um país economicamente viável, socialmente equilibrado, juridicamente estável e politicamente sério?
Não digo nem uma potência de primeira ordem ou superpotência, que temos sobejas condições materiais de sê-lo, menos o principal: vontade para isso e disposição para conquistá-lo. Esqueçamos isso definitivamente. Simplesmente não é um objetivo razoável para o temperamento do brasileiro mediano. O desejo de fazer parte do Conselho de Segurança da ONU só se explica por excesso de sol ou álcool na cabeça.
Mas eu não estranharia, por exemplo, se o presidente Trump, que tanto suspiro arranca dos bolsonaristas e de uma direita indisposta ao pensamento, ficasse neutro nesse cabo de guerra e até estimulasse, por ‘baixo dos panos’, esse movimento. Existe uma simpatia racial derivada da forte presença de descendentes de europeus no sul, sem falar no fator estratégico de enfraquecer qualquer movimento para criar uma potência na América do Sul que possa contrastar os interesses americanos. Sem falar da necessidade de conter o avanço chinês no continente.
É melhor lidar com isso com uma récua de países concorrentes entre si, facilmente cooptáveis para uma aliança ou ameaçáveis em caso de recalcitrância, do que ver uma grande potência, politicamente instável, dividida, vicejando aqui embaixo.
O ambiente global está hostil como nunca àqueles países que perderam o passo da história, por desconhecer a sua própria história, e não souberam conservar e ampliar as suas conquistas políticas, econômicas e sociais, quando era fácil fazê-lo. Quando a América do Sul era vista apenas como um terreno baldio, um local de despejo dos EUA, e não como uma zona estratégica para a sua própria segurança, como agora — devíamos ter aproveitado o seu menosprezo para crescermos sem ser notados, sem ficar berrando por respeito e posições de honra que não podemos sustentar. Eles nos perceberam e estão se prevenindo contra nós.
Mas, tranquilizemo-nos, afinal, isso não é nada que um milagre não resolva.

Nenhum comentário:
Postar um comentário