sábado, 31 de outubro de 2026

 

O MELHOR DOS INIMIGOS — LULA INTERESSA A TRUMP

Eduardo Simões

Uma coisa podemos definir como pacífica e assentada: não dá para acreditar nas palavras de Trump nem nas promessas eleitorais de Lula. Ambos partilham da mesma visão sobre a forma de fazer política: nesta seara só existe um pecado, perder!

Antes de abordar esse ponto, eu gostaria de lembrar aos petistas uma coisa: se vocês tivessem um pingo de gratidão, levantariam um monumento gigantesco aos bolsonaros. Jair não sossegou enquanto não desmontou a Lava-jato — livrar o Flávio e esvaziar o prestígio ameaçador do juiz Sérgio Moro, cujo desdobramento natural acabou por tirar Lula e muitos bandidos da cadeia.  

É vívida, na minha mente, a imagem do Jair insistindo em disputar a eleição com Lula, sendo nisso bem-sucedido, só para sacramentar a sua humilhante derrocada e sua condição atual de prisioneiro em sua casa, por uma questão de caridade. Não era aquele que chamava o tal juiz de canalha? Quem disse que não obedeceria mais às suas ordens? Que ninguém tomaria seu telefone? Disso tudo só sobrou o ridículo e o hit viral da Banda Estragona: “Tomaram meu telefone.”

Que dizer de Flávio, que teve o descalabro e a indecência de fazer galhofa com o dedo amputado de Lula! Aquilo foi infame. Ele certamente se alimenta dessas fraudes nas redes sociais que dizem que Lula cortou o dedo de propósito para se aposentar por invalidez e viver de política sindical. Ora, o acidente foi em 1964, quando ele tinha de 17 para 18 anos. Nunca, até hoje no Brasil, alguém se aposentou com essa idade. Esse acidente é uma demonstração das péssimas condições de trabalho que havia no Brasil, da nossa pouca produtividade, dos baixos salários e dos empresários oportunistas, sempre dispostos a investir em políticos populistas, de direita ou de esquerda, para obter vantagens.

Flávio, apresentado como o bolsonaro moderado, mostrou, nesse episódio e em outros, como no seu discurso vazio, catatônico, sem propostas, e a declaração no exterior de que era o verdadeiro ganhador das eleições, de que era exatamente igual a quem o gerou, embora, suspeita-se, menos inteligente. O que não é pouca coisa!

Graças às suas vitórias sobre os bolsonaros, o Lula, irritadiço, intolerante, com incontinência verbal crônica e impermeável a qualquer mudança na economia, se cacifa como o maior político do Brasil de todos os tempos e vê abrir para si uma carreira como consultor internacional em eleições, justo quando estava desprestigiado entre os grandes líderes. Lula foi ao mesmo tempo o Lázaro e o Herodes de Flávio, o seu maior feito e o seu maior carrasco, o qual, nessa história, está mais para personagem dos Trapalhões, indo fazer piruetas e mocó nos Estados Unidos. Nunca, na história desse país, tantos desmiolados deveram tanto a tão poucos oportunistas e aventureiros. Tirem suas conclusões.

E por que Trump não age, apesar das garantias dadas toda semana de que ele agora vai agir e acabar com o circo mambembe do Lula?

Simplesmente porque não interessa. Aliás, lhe interessa justo o contrário.

A grande meta de Trump é transformar os Estados Unidos na potência dominante, incontrastável, dessa parte do Hemisfério, e ele deixou isso muito claro na pressão que fez sobre o Canadá, cuja reação lhe surpreendeu. Não cometeria esse erro de novo: avançar diretamente contra o alvo. O Irã também deve estar sendo uma fonte de dor de cabeça e aprendizagem sobre a inconveniência do caminho mais curto. É óbvio que também tem o espectro tático-ideológico, expresso por Marco Rubio, mas não por ele, Trump, embora, em caso de dúvida, prevaleça a questão estratégica de não deixar ninguém se aproximar do poderio americano. A todo momento, Trump sinaliza que a ideologia não é nada comparada aos interesses econômicos de seu país. É uma pena que Lula não tenha aprendido isso.

Ora, nesse lado do continente, se examinarmos bem, o Brasil é o único país que, se começar a fazer as coisas direito, pela primeira vez, pode alcançar os Estados Unidos. O Canadá, embora territorialmente gigantesco, tem uma população pequena e um clima adverso. Neste caso, um pouco pior que o dos Estados Unidos. Mesmo sendo um país economicamente bem-sucedido, o Canadá não é páreo, no curto e médio prazo, e talvez até no longo, contra os Estados Unidos.

Já o Brasil… Nós temos um grande território e uma população gigantesca, como a americana. Porém, num quesito, o Brasil supera grandemente os Estados Unidos e todos os países do norte capitalista: o clima. A natureza impõe aos países da Europa e América do Norte um custo gigantesco para continuarem funcionando no inverno, o que não é o nosso caso. É simplesmente inacreditável, estonteante, o fato de o Brasil, com as suas possibilidades, não estar nem próximo da qualidade de vida desses grandes países.

Será que o Trump não sabe disso? Será que ele não sabe que os dados da economia brasileira do governo Lula são absolutamente insustentáveis? Não é isso uma vantagem para ele e a sua ideia de exclusividade made in USA? Ajudar uma pessoa capaz ou mais viável para assumir o poder no Brasil, conduzido por um projeto econômico sustentável, não seria criar um concorrente gigantesco no hemisfério sul, em condições reais de disputar a hegemonia do continente? A forma como ele trata a Europa não é um indicativo de até onde ele está disposto a ir para sacrificar aliados que possam de alguma forma ameaçar ou equiparar-se ao poderio americano?

O Brasil de Lula: absurdo, corrupto, estagnado, pré-capitalista é a certeza de que, por mais que os nacionalistas locais esperneiem, o país jamais será uma ameaça séria ao America First. Trump é o pior dos aliados que a direita brasileira pode ter e o melhor inimigo que a esquerda brasileira pode ter. A esquerda sai ganhando com vantagem. Essa eleição o provou.

Por isso, seria bom para a direita parar de fazer apelos patéticos ao líder americano ou ir às redes anunciar sanções americanas a Alexandre de Moraes e sua gangue, porque nada disso acontecerá. 

O que temos visto e ouvido é uma saraivada de declarações confusas e gestos contraditórios, informando aos meninos e meninas do lado de baixo do Equador, onde não se peca, que está na hora de se tornarem adultos, se não quiserem servir de espetáculo para o resto do mundo de tudo aquilo que uma nação não deve nunca ser ou fazer.

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