terça-feira, 3 de novembro de 2026

 


SOLILÓQUIOS BRASILEIROS — AS DUAS FACES DE LUZIA 

Eduardo Simões

Durante a década de 1970, uma expedição franco-brasileira, fazendo escavações no sítio arqueológico da Lapa Vermelha, Minas Gerais, descobriu um crânio e os outros ossos, que mostraram pertencer a um só indivíduo, uma mulher, com 12.500 a 13.000 anos. Eram os fósseis humanos mais antigos das Américas.

Após fazerem medições minuciosas nos ossos do crânio, o arqueólogo brasileiro Walter Neves, e outros, se convenceram de que o espécime, batizado aleatoriamente de “Luzia”, tinha características nitidamente negroides. Isso causou um furor nos meios acadêmicos, pois parecia confirmar a teoria de que navegadores negro-polinésios poderiam ter colonizado a América do Sul. Independentemente do grupo que chegou pelo estreito de Bering, de características nitidamente sino-asiáticas.

Luzia, porém, levantava questões grandes demais para serem ignoradas. Como uma pessoa negra, e o seu povo, chegaram ao centro do Brasil, sem deixar rastros semelhantes em outros lugares do continente por onde passaram? Onde estavam os outros?

Com o desenvolvimento da pesquisa genética, os ossos de Luzia foram levados para exames no Instituto Max-Planck, na Alemanha, e eles atestaram, sem sombra de dúvida, que a herança genética básica de Luzia era igual à do povo de Clóvis, nos EUA, ligado aos povoadores do estreito de Bering e ao resto dos povos indígenas do continente. Até alguma nova descoberta, todos os povos indígenas das Américas descendem de gente vinda da Ásia Central e Extremo Oriente.

A explicação atual é a de que Luzia, apesar de estruturalmente asiática, desenvolveu, por meio de pequenas mutações genéticas, algumas características ósseas típicas dos indivíduos de raça negra, por meio de um processo chamado de deriva genética, sem deixar de ser predominantemente sino-asiática. O rosto dela ganhou novas feições, compatíveis com seu substrato genético real, que aparece no lado esquerdo da ilustração que abre esse texto.

Um acontecimento trágico, porém, comum entre nós, atingiu esse achado. O fóssil de Luzia estava guardado no Museu Nacional e foi destruído pelo incêndio. Antes do incêndio de 2 de setembro de 2018, o crânio de Luiza tinha o aspecto abaixo:



Depois do incêndio, o fóssil ficou reduzido a isso, além de mais alguns fragmentos.



Entre 1835 e 1844, um naturalista dinamarquês, Peter Wilhelm Lund, fez um intenso trabalho de pesquisa arqueológica na região ao redor de Curvelo, Minas Gerais, onde havia vários painéis de pinturas rupestres, além de uma lagoa que, desde meados do século XVIII, era afamada por ter águas curativas.

Lund vasculhou muitas grutas ao redor, centenas delas, interessando-se principalmente pela chamada gruta do Sumidouro, onde conseguiu desenterrar vários restos de corpos humanos e de animais já extintos da megafauna americana, comprovando que, nas Américas, os seres humanos foram contemporâneos desses animais; o que evidencia a antiguidade do povoamento deste continente. Entre os animais encontram-se megatérios (preguiça gigante), mastodontes (um elefante), tigres-de-dente-de-sabre, gliptodontes (grandes tatus).   

Em 1844, Lund parou repentinamente com suas pesquisas, embalou todo o material coletado — umas 20 mil amostras, — e o mandou ao rei da Dinamarca, Cristiano VIII, deixando apenas um crânio. Peter Lund continuou morando no Brasil, em Lagoa Santa, onde faleceu em 1880.

Hoje, após muitas pesquisas feitas nas amostras coletadas por Lund e após ele, as conclusões sobre os chamados Homens da Lagoa Santa, segundo André Prous, se resumem mais ou menos ao seguinte:

a) Sua existência se situa entre 11 mil e 8 mil anos atrás.

b) Eram caçadores e coletores que viviam em bandos nômades e utilizavam instrumentos de pedra razoavelmente elaborados.

c) Estavam espalhados por uma grande área do território nacional.

d) Seus ossos cranianos demonstravam algumas características que são mais comuns nos similares de povos negros africanos, embora estudos genéticos recentes comprovem que eles são mais aparentados a povos asiáticos que africanos.

e) Uma explicação para essa diferença é apresentada por Prous: “Com efeito, a partir de 8.000 a 7.000 anos atrás, os esqueletos encontrados no Brasil apresentam morfologia mongolizada [diferente do Povo da Lagoa Santa], muito mais parecida com a dos modernos indígenas. Uma possível explicação é que os habitantes da Ásia Central sofreram uma evolução adaptativa que os tornou semelhantes às populações atuais. Uma nova migração teria levado parte desses povos mongolizados para a América, onde teriam rapidamente sobrepujado os primeiros ocupantes, seja por seu número, seja por serem portadores de caracteres geneticamente dominantes em caso de mestiçagem.”

Uma situação-problema:

Como disse, a maior parte do material descoberto por Peter Lund em Minas Gerais, numa época em que raros brasileiros se interessavam por eles e não havia sequer uma universidade ou centro de estudos nessa área — embora o nosso imperador se gaba-se muito de colaborar com instituições de pesquisa no exterior, em especial na Europa. Em 2012, o Museu Nacional de História Natural da Dinamarca, cedeu 82 peças de seu acervo brasileiro para a abertura de um museu em Lagoa Santa Minas Gerais. Segundo o contrato assinado com o museu da Dinamarca, as peças seriam devolvidas em três anos, mas essa questão se arrasta até hoje, 2026, porque o museu brasileiro se recusa a cumprir o contrato assinado, sob a alegação que as peças foram achadas aqui, e que, portanto, fazem parte de nosso patrimônio fóssil, "roubadas" pelos dinamarqueses. Para constar: as escavações de Lund foram financiadas pelo governo dinamarquês ou por seus familiares e os fósseis saíram legalmente do Brasil.

Quem você acha que tem razão nessa história?


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