SOLILÓQUIOS BRASILEIROS — AS DUAS FACES
DE LUZIA
Eduardo Simões
Durante a década de
1970, uma expedição franco-brasileira, fazendo escavações no sítio arqueológico
da Lapa Vermelha, Minas Gerais, descobriu um crânio e os outros ossos,
que mostraram pertencer a um só indivíduo, uma mulher, com 12.500 a 13.000
anos. Eram os fósseis humanos mais antigos das Américas.
Após fazerem medições
minuciosas nos ossos do crânio, o arqueólogo brasileiro Walter Neves, e outros,
se convenceram de que o espécime, batizado aleatoriamente de “Luzia”, tinha
características nitidamente negroides. Isso causou um furor nos meios acadêmicos,
pois parecia confirmar a teoria de que navegadores negro-polinésios poderiam
ter colonizado a América do Sul. Independentemente do grupo que chegou pelo estreito
de Bering, de características nitidamente sino-asiáticas.
Luzia, porém, levantava
questões grandes demais para serem ignoradas. Como uma pessoa negra, e o seu
povo, chegaram ao centro do Brasil, sem deixar rastros semelhantes em outros
lugares do continente por onde passaram? Onde estavam os outros?
Com o desenvolvimento
da pesquisa genética, os ossos de Luzia foram levados para exames no Instituto
Max-Planck, na Alemanha, e eles atestaram, sem sombra de dúvida, que a herança
genética básica de Luzia era igual à do povo de Clóvis, nos EUA, ligado aos
povoadores do estreito de Bering e ao resto dos povos indígenas do continente.
Até alguma nova descoberta, todos os povos indígenas das Américas descendem de
gente vinda da Ásia Central e Extremo Oriente.
A explicação atual é a
de que Luzia, apesar de estruturalmente asiática, desenvolveu, por meio de
pequenas mutações genéticas, algumas características ósseas típicas dos
indivíduos de raça negra, por meio de um processo chamado de deriva genética,
sem deixar de ser predominantemente sino-asiática. O rosto dela ganhou
novas feições, compatíveis com seu substrato genético real, que aparece no lado
esquerdo da ilustração que abre esse texto.
Um acontecimento
trágico, porém, comum entre nós, atingiu esse achado. O
fóssil de Luzia estava guardado no Museu Nacional e foi destruído pelo
incêndio. Antes do incêndio de 2 de setembro de 2018, o crânio de Luiza
tinha o aspecto abaixo:
Depois do incêndio, o
fóssil ficou reduzido a isso, além de mais alguns fragmentos.
Entre 1835 e 1844, um
naturalista dinamarquês, Peter Wilhelm Lund, fez um intenso trabalho de
pesquisa arqueológica na região ao redor de Curvelo, Minas Gerais, onde havia
vários painéis de pinturas rupestres, além de uma lagoa que, desde meados do
século XVIII, era afamada por ter águas curativas.
Lund vasculhou muitas
grutas ao redor, centenas delas, interessando-se principalmente pela chamada
gruta do Sumidouro, onde conseguiu desenterrar vários restos de corpos humanos
e de animais já extintos da megafauna americana, comprovando que, nas Américas,
os seres humanos foram contemporâneos desses animais; o que evidencia a
antiguidade do povoamento deste continente. Entre os animais encontram-se
megatérios (preguiça gigante), mastodontes (um elefante),
tigres-de-dente-de-sabre, gliptodontes (grandes tatus).
Em 1844, Lund parou
repentinamente com suas pesquisas, embalou todo o material coletado — umas 20
mil amostras, — e o mandou ao rei da Dinamarca, Cristiano VIII, deixando apenas
um crânio. Peter Lund continuou morando no Brasil, em Lagoa Santa, onde faleceu
em 1880.
Hoje, após muitas
pesquisas feitas nas amostras coletadas por Lund e após ele, as conclusões
sobre os chamados Homens da Lagoa Santa, segundo André Prous, se resumem mais
ou menos ao seguinte:
a) Sua existência se
situa entre 11 mil e 8 mil anos atrás.
b) Eram caçadores e
coletores que viviam em bandos nômades e utilizavam instrumentos de pedra
razoavelmente elaborados.
c) Estavam espalhados
por uma grande área do território nacional.
d) Seus ossos cranianos
demonstravam algumas características que são mais comuns nos similares de povos
negros africanos, embora estudos genéticos recentes comprovem que eles são mais
aparentados a povos asiáticos que africanos.
e) Uma explicação para
essa diferença é apresentada por Prous: “Com efeito, a partir de 8.000 a
7.000 anos atrás, os esqueletos encontrados no Brasil apresentam morfologia
mongolizada [diferente do Povo da Lagoa Santa], muito mais parecida com
a dos modernos indígenas. Uma possível explicação é que os habitantes da Ásia
Central sofreram uma evolução adaptativa que os tornou semelhantes às
populações atuais. Uma nova migração teria levado parte desses povos
mongolizados para a América, onde teriam rapidamente sobrepujado os primeiros
ocupantes, seja por seu número, seja por serem portadores de caracteres
geneticamente dominantes em caso de mestiçagem.”
Uma situação-problema:
Como disse, a maior
parte do material descoberto por Peter Lund em Minas Gerais, numa época em que
raros brasileiros se interessavam por eles e não havia sequer uma universidade
ou centro de estudos nessa área — embora o nosso imperador se gaba-se muito de
colaborar com instituições de pesquisa no exterior, em especial na Europa. Em
2012, o Museu Nacional de História Natural da Dinamarca, cedeu 82 peças de seu
acervo brasileiro para a abertura de um museu em Lagoa Santa Minas Gerais.
Segundo o contrato assinado com o museu da Dinamarca, as peças seriam
devolvidas em três anos, mas essa questão se arrasta até hoje, 2026, porque o
museu brasileiro se recusa a cumprir o contrato assinado, sob a alegação que as
peças foram achadas aqui, e que, portanto, fazem parte de nosso patrimônio fóssil, "roubadas" pelos dinamarqueses. Para constar: as escavações de Lund foram
financiadas pelo governo dinamarquês ou por seus familiares e os fósseis saíram
legalmente do Brasil.
Quem você acha que tem
razão nessa história?



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