NEM VÁRZEA NEM LIGA. QUEM LIGA?
Eduardo Simões
“Brasil está vazio na tarde de
domingo, né?
Olha o sambão, aqui é o país do
futebol”
Era uma grande excitação, nos
áureos e sombrios tempos da Ditadura Militar, quando inadvertidamente, talvez
até por preguiça, jogávamos na lata do lixo o melhor de nós mesmos,
idealizando, no silêncio e na morte de muitos, democracia e prosperidade para todos.
Tínhamos um estilo musical tipicamente popular brasileiro, o samba, e outro para a classe média branca e intelectualizada, a bossa nova, que, como o ritmo anterior, conquistava o mundo e caía nas graças de americanos e europeus. Era a nossa vez.
Nada, porém, nos definia melhor
do que a seleção de futebol, que disputava de igual para igual com seleções de
países muito mais poderosos e vencia com sobras. Robert Kennedy, uma das
personalidades mais importantes da época, premido pelos compromissos, fez
questão de ir ao banheiro do Maracanã, para conhecer pessoalmente o nosso Pelé,
saído às pressas do banho, ainda coberto de sabão. Se duvida, eis a foto no dia
21 de novembro de 1965.
Se a bossa nova era da classe
média e o samba era do povo, o futebol era de todos, espelhado na face
multiétnica de nossos craques. Já que éramos analfabetos (a taxa em 1960 era de
40%) e pouco dados à leitura, e, portanto, nunca consideramos a nossa história
como uma marca de identidade, agora havia algo que aparentemente cobria essa
lacuna e não dava muito trabalho, pelo contrário, que era o amor pelo futebol —
mesmo sem considerar que são 22 suando em campo, e dezenas de milhares,
assistindo dispersos nas arquibancadas, imaginando que se estivessem em campo
fariam melhor.
Mas, tirando essas
idiossincrasias, o futebol mostrava bem a idealização que fazíamos de nós
mesmos: fisicamente vigorosos, colaborativos, unidos e igualitários
(indiferentes a preconceitos de raça, fortuna, religião), respeitadores das
regras, respeitosos, criativos, flexíveis, solidários, etc. Apesar de todas
essas qualidades não aparecerem com muita frequência no dia a dia, elas bem que
eram um esboço generoso do que poderíamos ser, se não desistíssemos tão
fácil ou se vivêssemos um pouco mais atentos. Essa era realmente a nossa
identidade.
O que nós não consideramos é que
essa identidade não nascia com a gente, como muitos supuseram e insistiram,
talvez por preguiça, mas de uma lenta e penosa vida de desafios que começava
nas várzeas de riachos das periferias e terrenos baldios nas cidades
brasileiras, onde se jogava futebol com qualquer coisa minimamente redonda.
Faziam-se bolas com jornais, meias, bexiga de bichos diversos, etc.
A várzea era mágica! Vivíamos
numa época de grande inocência e segurança, os meninos que se dirigiam para lá
em grande número sabiam que iam se divertir. Ninguém pensava em sequestros,
alguém puxando faca ou revólver para resolver uma pendência, adultos circulando
para abusar das crianças etc. A impressão que tínhamos é que todos os adultos
cuidavam de todas as crianças.
Ali havia um esboço de
‘democracia racial’ e ‘social’. Ninguém queria saber se o garoto era branco ou
negro, rico ou pobre, feio ou bonito. O que importava era o quanto sabia jogar
futebol. Uma meritocracia exigente, perfeita. E as histórias que se contavam,
cada uma mais engraçada que a outra, sobre lances acontecidos no campo ou fora
dele. As peladas em dia de chuva, quando as mães vinham nos catar com cabo de
vassoura na mão, por causa do perigo dos raios. Uma coisa, porém, faltava ou
era rara nessas peladas: as garotas, e à medida que sentimos a necessidade de
estar mais perto delas, nos afastamos para os salões de danças e bailes, exceto
os que estavam vocacionados a se tornarem craques, ou fracassarem tentando.
Pensando nas garotas, nessas
peladas aprendíamos tanto a ganhar como a perder, aprendizado que levamos para
a vida, como quando uma garota não queria mais continuar o namoro. Vida que
segue, toca a bola para frente, que outra aparece. Hoje vemos jovens e adultos
reagindo com violência, numa frequência absurda para alguém da minha geração, a
um dos fatos mais corriqueiros da vida. E a jovem sofre um fim bárbaro!
A partir dos anos 70, o
crescimento urbano acelerado e o desenvolvimento de projetos imobiliários nos
subúrbios, com a redução acelerada de terrenos baldios nos bairros mais
centrais. Enquanto isso, nos subúrbios, as áreas de várzea foram isoladas pela
violência de facções do crime organizado e começavam a tornar perigosa a sua
frequência. A resistência coletiva à agressão contra as crianças foi quebrada
pelo reinado das drogas.
Nos jornais, muitos comentavam,
eu os li, sobre o fim dos terrenos baldios e campos de várzea, e o prejuízo
para o futebol brasileiro. Burocratas e tecnocratas responderam com a
construção de quadras de futebol de salão, que não é a mesma coisa, em praças
do subúrbio, com pouco efeito além de se tornarem pontos de venda de drogas.
Jogar futebol tornou-se uma coisa imprópria para menores.
Paralelamente, à medida que
aumentava a escolarização das crianças e a carga horária das escolas, sem a
respectiva melhora da qualidade de ensino, as crianças ficaram com menos tempo
livre. A escola se tornou uma prisão que as mantinha longe dos perigos do mundo
real, que as autoridades não queriam ou não sabiam enfrentar. Sem falar que um
campo de futebol association, pelo seu tamanho, ainda é um luxo indisponível
para muitas escolas, embora o material usado tenha melhorado muito.
O espaço asséptico, obrigatório,
autoritário, inclusive quando enseja, pelo paternalismo, a desmoralização dos
professores para fins políticos, não é, pelos seus métodos, propício a
estimular a convivência pacífica entre os alunos e a resolução racional e
madura de seus conflitos. Estes, inclusive, se agudizaram pelo contato, em
espaços densamente frequentados, com grupos de bairros diferentes dominados por
diferentes facções, deixando meninos e meninas muito estressados. As brigas de
torcidas nas competições escolares ficaram tão sérias que, em alguns
municípios, as escolas se abstêm de competições interescolares ou fazem
competições sem torcida.
No Estado de São Paulo, houve um
grande investimento para criar quadras cobertas em todas as escolas, com um
detalhe faltando: a arquibancada da torcida. Quem quisesse ver o jogo teria que
ficar de pé fora da quadra, protegido por tela de arame, mas exposto ao sol.
Quem fez esse projeto e quem o aprovou não teve infância e juventude. O que
motiva, ou desmotiva, mais um atleta é a exaltação ou a hostilidade do público
presente. E o quanto isso educa para a vida? Como os meninos e meninas vão
aprender isso jogando em quadras à prova de torcidas?
Uma alternativa aos grandes
campeonatos de futebol de várzea do passado seria, como nos Estados Unidos,
além de outros detalhes, a criação de ligas de futebol e outros esportes nos
diversos níveis de escolaridade: liga do ensino médio, liga universitária, até
chegar aos clubes, aproveitando toda a força educadora do esporte, criando
'craques' que serão modelo dentro e fora do campo, e não esses que usam do
sucesso que seu talento natural lhe deu para se envolverem em casos
escabrosos e até crimes.
Para o menino ou menina de
talento, restam as escolinhas dos clubes. Mas, sendo um clube uma empresa, e
muitas vezes de sócios estrangeiros, se tornam cada vez mais uma fábrica de
talentos para times europeus, criando jogadores que, apesar de nascidos no
Brasil, nunca jogaram em um time aqui. É o caso do futebolista Paulo Vitor
Barreto de Souza, que, levado para a Itália aos 13 anos, fez toda a sua
carreira, até se aposentar em 2020 naquele país.
Precisamos nos resignar ao fato
de que não somos mais, e por responsabilidade nossa, o 'país do futebol'. Não
será mais isso que nos identificará para o mundo e para nós mesmos, além do
país, ou do povo, que adora alianças com ditaduras. Destruímos ou deixamos
destruir as bases daquilo que nos unificava e distinguia. Daqui para frente
seremos apenas uma potência mediana nesse esporte, com tendência a nos
tornarmos menos ainda.
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