segunda-feira, 6 de julho de 2026

 


NEM VÁRZEA NEM LIGA. QUEM LIGA?

Eduardo Simões

“Brasil está vazio na tarde de domingo, né?

Olha o sambão, aqui é o país do futebol”

Era uma grande excitação, nos áureos e sombrios tempos da Ditadura Militar, quando inadvertidamente, talvez até por preguiça, jogávamos na lata do lixo o melhor de nós mesmos, idealizando, no silêncio e na morte de muitos, democracia e prosperidade para todos. 

Tínhamos um estilo musical tipicamente popular brasileiro, o samba, e outro para a classe média branca e intelectualizada, a bossa nova, que, como o ritmo anterior, conquistava o mundo e caía nas graças de americanos e europeus. Era a nossa vez.

Nada, porém, nos definia melhor do que a seleção de futebol, que disputava de igual para igual com seleções de países muito mais poderosos e vencia com sobras. Robert Kennedy, uma das personalidades mais importantes da época, premido pelos compromissos, fez questão de ir ao banheiro do Maracanã, para conhecer pessoalmente o nosso Pelé, saído às pressas do banho, ainda coberto de sabão. Se duvida, eis a foto no dia 21 de novembro de 1965.

Se a bossa nova era da classe média e o samba era do povo, o futebol era de todos, espelhado na face multiétnica de nossos craques. Já que éramos analfabetos (a taxa em 1960 era de 40%) e pouco dados à leitura, e, portanto, nunca consideramos a nossa história como uma marca de identidade, agora havia algo que aparentemente cobria essa lacuna e não dava muito trabalho, pelo contrário, que era o amor pelo futebol — mesmo sem considerar que são 22 suando em campo, e dezenas de milhares, assistindo dispersos nas arquibancadas, imaginando que se estivessem em campo fariam melhor.

Mas, tirando essas idiossincrasias, o futebol mostrava bem a idealização que fazíamos de nós mesmos: fisicamente vigorosos, colaborativos, unidos e igualitários (indiferentes a preconceitos de raça, fortuna, religião), respeitadores das regras, respeitosos, criativos, flexíveis, solidários, etc. Apesar de todas essas qualidades não aparecerem com muita frequência no dia a dia, elas bem que eram um esboço generoso do que poderíamos ser, se não desistíssemos tão fácil ou se vivêssemos um pouco mais atentos. Essa era realmente a nossa identidade.

O que nós não consideramos é que essa identidade não nascia com a gente, como muitos supuseram e insistiram, talvez por preguiça, mas de uma lenta e penosa vida de desafios que começava nas várzeas de riachos das periferias e terrenos baldios nas cidades brasileiras, onde se jogava futebol com qualquer coisa minimamente redonda. Faziam-se bolas com jornais, meias, bexiga de bichos diversos, etc.

A várzea era mágica! Vivíamos numa época de grande inocência e segurança, os meninos que se dirigiam para lá em grande número sabiam que iam se divertir. Ninguém pensava em sequestros, alguém puxando faca ou revólver para resolver uma pendência, adultos circulando para abusar das crianças etc. A impressão que tínhamos é que todos os adultos cuidavam de todas as crianças.

Ali havia um esboço de ‘democracia racial’ e ‘social’. Ninguém queria saber se o garoto era branco ou negro, rico ou pobre, feio ou bonito. O que importava era o quanto sabia jogar futebol. Uma meritocracia exigente, perfeita. E as histórias que se contavam, cada uma mais engraçada que a outra, sobre lances acontecidos no campo ou fora dele. As peladas em dia de chuva, quando as mães vinham nos catar com cabo de vassoura na mão, por causa do perigo dos raios. Uma coisa, porém, faltava ou era rara nessas peladas: as garotas, e à medida que sentimos a necessidade de estar mais perto delas, nos afastamos para os salões de danças e bailes, exceto os que estavam vocacionados a se tornarem craques, ou fracassarem tentando.

Pensando nas garotas, nessas peladas aprendíamos tanto a ganhar como a perder, aprendizado que levamos para a vida, como quando uma garota não queria mais continuar o namoro. Vida que segue, toca a bola para frente, que outra aparece. Hoje vemos jovens e adultos reagindo com violência, numa frequência absurda para alguém da minha geração, a um dos fatos mais corriqueiros da vida. E a jovem sofre um fim bárbaro!

A partir dos anos 70, o crescimento urbano acelerado e o desenvolvimento de projetos imobiliários nos subúrbios, com a redução acelerada de terrenos baldios nos bairros mais centrais. Enquanto isso, nos subúrbios, as áreas de várzea foram isoladas pela violência de facções do crime organizado e começavam a tornar perigosa a sua frequência. A resistência coletiva à agressão contra as crianças foi quebrada pelo reinado das drogas.

Nos jornais, muitos comentavam, eu os li, sobre o fim dos terrenos baldios e campos de várzea, e o prejuízo para o futebol brasileiro. Burocratas e tecnocratas responderam com a construção de quadras de futebol de salão, que não é a mesma coisa, em praças do subúrbio, com pouco efeito além de se tornarem pontos de venda de drogas. Jogar futebol tornou-se uma coisa imprópria para menores.

Paralelamente, à medida que aumentava a escolarização das crianças e a carga horária das escolas, sem a respectiva melhora da qualidade de ensino, as crianças ficaram com menos tempo livre. A escola se tornou uma prisão que as mantinha longe dos perigos do mundo real, que as autoridades não queriam ou não sabiam enfrentar. Sem falar que um campo de futebol association, pelo seu tamanho, ainda é um luxo indisponível para muitas escolas, embora o material usado tenha melhorado muito.

O espaço asséptico, obrigatório, autoritário, inclusive quando enseja, pelo paternalismo, a desmoralização dos professores para fins políticos, não é, pelos seus métodos, propício a estimular a convivência pacífica entre os alunos e a resolução racional e madura de seus conflitos. Estes, inclusive, se agudizaram pelo contato, em espaços densamente frequentados, com grupos de bairros diferentes dominados por diferentes facções, deixando meninos e meninas muito estressados. As brigas de torcidas nas competições escolares ficaram tão sérias que, em alguns municípios, as escolas se abstêm de competições interescolares ou fazem competições sem torcida.

No Estado de São Paulo, houve um grande investimento para criar quadras cobertas em todas as escolas, com um detalhe faltando: a arquibancada da torcida. Quem quisesse ver o jogo teria que ficar de pé fora da quadra, protegido por tela de arame, mas exposto ao sol. Quem fez esse projeto e quem o aprovou não teve infância e juventude. O que motiva, ou desmotiva, mais um atleta é a exaltação ou a hostilidade do público presente. E o quanto isso educa para a vida? Como os meninos e meninas vão aprender isso jogando em quadras à prova de torcidas?

Uma alternativa aos grandes campeonatos de futebol de várzea do passado seria, como nos Estados Unidos, além de outros detalhes, a criação de ligas de futebol e outros esportes nos diversos níveis de escolaridade: liga do ensino médio, liga universitária, até chegar aos clubes, aproveitando toda a força educadora do esporte, criando 'craques' que serão modelo dentro e fora do campo, e não esses que usam do sucesso que seu talento natural lhe deu para se envolverem em casos  escabrosos e até crimes. 

Para o menino ou menina de talento, restam as escolinhas dos clubes. Mas, sendo um clube uma empresa, e muitas vezes de sócios estrangeiros, se tornam cada vez mais uma fábrica de talentos para times europeus, criando jogadores que, apesar de nascidos no Brasil, nunca jogaram em um time aqui. É o caso do futebolista Paulo Vitor Barreto de Souza, que, levado para a Itália aos 13 anos, fez toda a sua carreira, até se aposentar em 2020 naquele país. 

Precisamos nos resignar ao fato de que não somos mais, e por responsabilidade nossa, o 'país do futebol'. Não será mais isso que nos identificará para o mundo e para nós mesmos, além do país, ou do povo, que adora alianças com ditaduras. Destruímos ou deixamos destruir as bases daquilo que nos unificava e distinguia. Daqui para frente seremos apenas uma potência mediana nesse esporte, com tendência a nos tornarmos menos ainda. 


Nenhum comentário:

Postar um comentário