segunda-feira, 6 de julho de 2026

 

O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA - 30

Uma hipótese diferente

Conhecemos o isolamento e o descaso a que foram entregues as populações do interior do Brasil ao longo do Período Colonial. Havia leis e decretos severos restringindo a ida de colonos portugueses para o interior, e a causa disso estava originalmente ligada ao projeto de garantir as rotas marítimas para o Extremo Oriente, contando somente com os colonos portugueses e seus aliados indígenas.

Era, portanto, fundamental mantê-los próximos ao litoral, para o reabastecimento dos navios e como força de dissuasão a invasores. Posteriormente, com a perda do Oriente, as proibições de internamento das populações foram mantidas, mas com menos severidade, pois agora se tratava de impedir o desvio das riquezas da colônia, por uma questão fiscal. Era preciso um controle estrito do fluxo de gente e mercadorias, afinal, o Estado português já estava gastando por conta do que ia encontrar.

No semiárido, porém, a fusão da cultura portuguesa com a indígena, turbinada pela chegada de africanos e seus descendentes, fugidos da escravidão dos engenhos em busca de locais culturalmente protegidos. Esse movimento, e outros, criaram uma 'civilização do semiárido', com suas peculiaridades, graças ao esquecimento a que foi relegada, ante a aparente falta de recursos naturais que atendessem ao extrativismo argentário luso, ou outra atividade rentável, que compensasse os custos de montar uma estrutura estatal na região.

Semifeudal e semicapitalista, o semiárido aprendeu a viver à revelia do Estado, recorrendo a ele supletivamente. Mas, sem este para mediar os conflitos da vida em comunidade, impor um direito, o que sobra é o poder do chefe de família, que pouco difere do dos chefes nativos, que era também o da memória dos afrodescendentes. As três culturas se entrelaçaram e, abandonadas pelos agentes do Estado, voltaram-se para os desafios da sobrevivência e os símbolos culturais dela decorrentes, num meio climático muito desafiador para os recursos da época. Uma sociedade de ritmo mais 'lento' tentando se adaptar aos lampejos de mudanças que, de tempos em tempos, a atingiam.

Isso, aparentemente, explica algumas características da antiga sociedade sertaneja, na qual as relações familiares, de matiz patriarcal, são fortemente cercadas de símbolos socialmente impostos, porque cumprem uma função ideológica, explicativa sobre o sentido do mundo, fortemente hierarquizada e belicosa. O conceito abstrato de honra, subjetivamente definido, era causa de conflitos tão inesperados quanto sangrentos, até que o ofendido sentisse a sua honra plenamente 'lavada'. Nesses conflitos, quem definia se o objetivo fora alcançado, em geral, era o que sobrevivia — há até um dito de Gustavo Barroso que expressa bem a mentalidade reinante: No semiárido, o homem que não se vinga está moralmente morto.

Esse foi, em parte, o caso de Vicente Mendes Maciel, o pai, e de Antônio Vicente Mendes Maciel, enquanto este não fugirá ao embate como na sua versão anterior de humilde negociante, advogado ou professor, mas perecerá matando a quem se lhe opõe, ainda que pelas mãos de outros.

As grandes famílias, como nas tribos e nos feudos, eram centros de poder, criando suas próprias leis, obrigando tanto o Estado português como o imperial a se submeterem a elas — o livro de Billy Jaines Chandler, Os Feitosas e o sertão dos Inhamuns, faz observações interessantes a esse respeito. Como nos feudos, essas famílias viviam brigando por territórios que as protegeriam economicamente: terras agricultáveis e fontes d'água perenes — o termo feudo, aqui, é utilizado somente no sentido analógico e não conceitual.

A vida tendia a ser curta, violenta, repetitiva, com baixo consumo — sem qualquer sentido pejorativo ou negativo —, mas, para uma grande maioria, isso era natural, fruto do pecado de Adão e Eva. Os de fora viam isso como fruto de uma mentalidade 'fatalista', 'retrógrada', mas era justamente ela que ajudava a manter a estabilidade mental de muita gente ante os impactos da dureza das relações humanas e com a natureza. A mortalidade e a natalidade eram altas e a expectativa de vida, baixa.

O grande problema no sertão era a chegada de uma seca, que, de tempos em tempos, em um ritmo quase previsível, revolucionava a vida de todos e interrompia a estagnação na qual as mentes se vissem, porventura, tentadas a permanecer.

Mas até ela tinha o seu lado positivo, pois eliminava o excedente de vivos, que o homem nordestino fazia com tanto gosto, às custas da saúde e até da vida de suas companheiras, o que ele também atribuía à Vontade Divina. O excesso de nascimentos também compensava os que pereciam por causas diversas, inclusive as secas anteriores. A seca também desorganizava, momentaneamente, o espaço social, ou impunha uma reacomodação das estruturas vigentes ao nível dos médios e pequenos proprietários. Mas, tudo bem, a seca já estava incorporada ao pecado do homem e à onipotência divina.

A sensação de autonomia duramente conquistada nos períodos de abandono foi fortemente chacoalhada pela imposição da República e de uma nova política econômica, conduzida por uma elite mais dinâmica, interessada em explorar o potencial econômico das áreas mais letárgicas do país. Desenvolveu-se um sistema mais abrangente de impostos em moeda, para financiar uma estrutura de serviços públicos mais ampla e profissional e investimentos na produção, que a desordem e a corrupção transformaram em carestia e conflitos sociais.

Pegas de surpresa, as elites sertanejas, que tinham um pé no mundo moderno e outro no sertão, procuraram se adaptar, aumentando as exigências sobre a mão de obra. No tempo do Império, a voracidade dos barões era em parte mitigada pelo poder da Igreja Católica, incrustada na estrutura de Estado ou nas casas senhoriais, mas, com a separação da Igreja do Estado, a tendência foi de uma piora das relações. Uma sensação de que no passado era melhor, quando havia mais 'liberdade' ou menos Estado, o que, nesse caso, quer dizer menos impostos e obrigações políticas, enraíza-se no imaginário de muitas pessoas. Os sertanejos mais pobres estão tão isolados quanto antes, mas agora sofrem exigências por parte dos coronéis e agentes públicos, que precisam arrecadar mais impostos e mais votos nas eleições.

Essa desorientação existencial vai encontrar uma válvula de escape na pessoa do estranho pregador, que, por meio do discurso religioso apocalíptico e da vida despojada, se tornará o porta-voz daquela população, um sinal maravilhoso de que o modo de vida tradicional é o certo. Isso os fará sustentar e fortalecer as iniciativas do pregador, num processo de retroalimentação mútua. O sertão dos mais pobres e dos mais ‘conservadores’ — no sentido etimológico do termo — reencontrava, no Conselheiro, a sua identidade mais profunda e a sua força para exigir das autoridades republicanas e dos coronéis a sua cota de respeito e até independência.

Enquanto o sertão da Bahia pegava fogo, a temperatura política no Rio de Janeiro estourava os termômetros.

Um ninho estranho

Pouco depois que assumiu o governo, em 11 de novembro de 1896, Manuel Vitorino convoca uma reunião com o ministério de Prudente, acompanhado de alguns de seus apoiadores florianistas, entre os quais Francisco Glicério. Pretextando a necessidade de dar uma nova dinâmica ao governo, que estava “muito paralisado”, eles chegaram à conclusão de que era hora de cobrar do presidente, pelo bem da república e de sua saúde, a sua patriótica renúncia do cargo” — o autor dessa sugestão teria sido o deputado gaúcho florianista Ramiro Barcellos.

Que felicidade para o nosso país ter sempre tantos políticos pensando nele! 

Bernardino de Campos, amigo de Prudente e seu olheiro no Itamarati, propõe, para evitar a deposição do presidente, uma reforma ministerial completa, para o ministério ficar com a cara da nova administração. Ele manobrou com tanta habilidade que conseguiu até se tornar ministro de Vitorino, na pasta da Fazenda, sempre levando a Prudente as últimas sobre as tramas daquele.

O florianismo passa a ter uma forte presença no Governo Federal, em especial na ala militar, na qual o general Francisco de Paula Argolo, homem de confiança de Floriano, substituiu o general Dionísio Cerqueira, da ala profissional, no Ministério da Guerra. Isso feito, Argolo, como era a regra, nomeia o também florianista marechal Bibiano Costallat Ajudante-General do Exército. Os dois postos mais importantes do Exército estão nas mãos deles.

Vitorino se deslumbra e adquire o Palácio do Catete, que, dado como garantia de um empréstimo, fora incorporado ao patrimônio do Banco da República, comprando-o por 3 mil contos de réis — algo em torno de 200 milhões de reais. Em seguida, faz-lhe uma reforma suntuosa e o inaugura com uma festa monumental.

Ele também fez grandes promessas à população e aos financistas estrangeiros, e segue confiando que Prudente, embora ainda vivo,  não escape de uma longa convalescença. Os fatos lhe dão esperanças. Iria repetir as mesmas manobras do velho marechal.

Mas ninguém deve menosprezar um caipira de Piracicaba, que conhece o segredo da jabuticaba!

Segundo o historiador Antonio Barreto do Amaral, em seu livro Prudente de Moraes — uma vida marcada, IHGSP, São Paulo, 1971, Prudente era tão ligado a essa fruta que isolou uma área do seu quintal para plantar jabuticaba, com muro e portão de cadeado, cuja chave só ele tinha, e não deixava ninguém entrar. Crianças só entravam acompanhadas por um adulto, e só ele determinava quando as jabuticabas podiam ser colhidas. Ele não só escapou da operação como começou a se recuperar a olhos vistos.

Cuide das suas jabuticabas, que elas cuidarão de você.

A percepção de que Prudente se recuperava deixava um certo “fino cavalheiro”, como o jornal O Jacobino qualificava Manuel Vitorino, temeroso de seu futuro. Talvez fosse necessário apelar para recursos mais drásticos, mas como fazê-lo com o coronel Moreira César e o 7º B.I. vigilantes no morro de Santo Antônio? Em meio a essa preocupação, ele recebeu a notícia do fracasso da expedição Febrônio de Brito, que causou impacto e chamou a atenção até nos jornais do Rio. Canudos agora era visível.

De repente, Vitorino viu uma oportunidade! Chamou o ajudante de ordens e escreveu rapidamente um bilhete. Pôs num envelope, lacrou-o e disse:

— Rápido, entregue isso ao Ministro da Guerra!

Começou então a rascunhar um longo telegrama para Luís Viana, na Bahia.

Vitorino teve a clareza de que Canudos seria um ótimo pretexto para tirar Moreira César do Rio de Janeiro, mandando-o em missão oficial ao interior da Bahia, para enfrentar uma misteriosa comunidade sertaneja, e isso o deleitava profundamente.

Mas retirar uma tropa de elite famosa do Rio de Janeiro para mandá-la ao interior da Bahia, por causa de um pequeno arraial, precisava de uma boa justificativa; e a tradicional tática florianista calhava: transformar uma paupérrima comunidade agropastoril em um perigoso núcleo internacional de “conspiração restauradora-monarquista”. O 'esquisitão' que a dominava não era monarquista confesso? Jornais para espalhar boatos não faltavam! Nunca faltaram.

Começa uma rumorosa troca de telegramas entre Vitorino e Luiz Viana, para informar a este da decisão do governo federal e fazer com que ele engolisse o fato consumado, pois, segundo o seu filho, não agradava a Luís Viana o nome de Moreira César.

Só nos resta especular a causa disso, partindo do princípio de que a Luís Viana interessava, acima de tudo, ficar no controle da expedição, para poder utilizá-la politicamente como quisesse, retardando a solução definitiva do caso, para angústia dos gonçalvistas.

1º — Ele sabia que Moreira César, um homem que ele conhecia, dificilmente se deixaria conduzir. Seria difícil enrolá-lo, enquanto o tempo passava, sem falar que ele já havia sido governador em Santa Catarina. E se ele resolvesse ser governador de um estado maior?

2º — Havia um clube militar na Bahia, florianista e hostil a Viana, e que fatalmente tentaria se aproximar de César para conquistá-lo, pois nem todos sabiam que ele, embora tivesse apoiado Floriano em 91, não era simpático aos objetivos e métodos do florianismo. Nessa época, correu em Salvador um boato de que ele, após destruir Canudos, destituiria Viana e se tornaria governador do estado. Talvez o objetivo desse boato fosse criar problemas tanto para Viana quanto para César, pois reforçava a ideia de que ele era um desequilibrado, ou talvez fosse ainda uma tentativa de cooptá-lo, oferecendo-lhe a governadoria do estado, mantendo-o longe do Rio de Janeiro.

3º — Moreira César ajudara indiretamente Luís Viana a chegar ao poder, ao auxiliar na derrubada de Gonçalves, e muita mágoa ficou do lado contrário, que se pôs a trabalhar ativamente para desmerecer César, espalhando que ele vinha promover um 'banho de sangue' na Bahia, e é possível que tenham sido eles que espalharam entre os canudenses o apelido de 'corta-pescoço'.

4º — A presença de tropas do Rio de Janeiro e Minas, o 16º B.I., para resolver um problema baiano não deixava de ferir os brios locais, já atingidos na passagem da monarquia para a república. Ia sobrar para a popularidade de Viana.

Vitorino não lhe deixou alternativas…

Deixo agora uma opinião pessoal sobre Luís Viana, com base no que aprendi em minhas leituras. Ele surge no ambiente republicano secundando o golpe de Floriano contra os governadores impostos por Deodoro, formando, gradualmente, uma poderosa corrente política.

Isso, porém, não quer dizer que ele estivesse fechado com as manobras e os interesses da corrente florianista, como César Zama. Viana tinha um projeto próprio, não hesitando em aproveitar-se das vantagens ora de um lado, ora do outro. Nesse sentido, era um político típico. Sem qualquer demérito nisso, a princípio.

Sua autonomia diante dos florianistas vai aparecer no seu empenho em favor da eleição ao Senado Federal de Rui Barbosa, inimigo de Floriano. Quando Viana fez esse movimento, provocou a inimizade de Zama, que também disputava o cargo. Zama passará, agora, a atacar desabridamente os dois.

A minha impressão é que ele utilizou o fenômeno de Canudos para atingir os seus desafetos políticos, deixando a coisa se arrastar e crescer. Canudos ameaçava Gonçalves; logo servia aos seus interesses.

Ele, certamente, não queria o massacre daquela gente, seja por razões pessoais, seja porque, politicamente falando, pegaria mal, como de fato pegou, mas ele também não ponderou as  consequências de seus atos. Longe disso. Tudo não passou de um cálculo político, e desde o início muito arriscado. Ele não percebeu a profundidade da força psicossocial que Canudos acumulava, e que a solução para o desafio que representava ficava mais difícil a cada dia em que se postergava uma solução institucional. E ele continuou empurrando com a barriga, até a situação sair de controle.

Depois de tudo, diante do fim brutal da comunidade, quando nada se encontrou que confirmasse a teoria de um levante monarquista, restou-lhe o silêncio sobre o assunto. Silêncio que se observa nos principais envolvidos nessa monstruosidade. Nada ficou de seus documentos nem na sua memória, e assim ele se furtou de mentir, ou revelar verdades incômodas, deixando a nação no vácuo. Mas ele também tem responsabilidade, uma responsabilidade com dolo eventual, por essa horrível mortandade.

Canudos, após ser tratada durante mais de um século como um episódio de combustão espontânea, tornou-se um centro alucinante de novas teorias anti-históricas, derivadas da preguiça ou da incapacidade de entender o seu significado, causada por uma especialização precoce, uma queda na cultura geral, no reducionismo de ocasião ou na mera reversão de símbolos, criando novas gerações de campeões morais, sem méritos ou sem coerência, fabricados em ritmo de aventura, como se isso, por si só, magicamente, resolvesse os enormes questionamentos que surgem desse trágico acontecimento.

Isso pode ser fruto também de um movimento instintivo de defesa e proteção, de nossa permanente imaturidade, porque olhar em profundidade para Canudos significa olhar em profundidade para aquilo que nós já fizemos e que ainda podemos fazer, e que não nos orgulha nem um pouco. Porém, só não erra quem permanece bebê, deitado em um berço que já nem é tão esplêndido assim.

No final, o tumor social gerado pela indiferença e oportunismo político de muitos estourou nas suas mãos. Luís Viana pagou o preço. Quase nada, se comparado ao pago por aquela gente, utilizada como peão num jogo de xadrez sem regras… A comunidade, por ter menos recursos, pagou mais caro.

Aumentar a grandiosidade da festa não deterá o afundamento já iniciado do Titanic dos sertões. Por falar em navio, Viana falecerá glamourosamente a bordo de um, a caminho da Europa, em julho de 1920.

Eduardo Simões.


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