sábado, 4 de julho de 2026

 


Um escravo chinês em 1900. Aos seus pés, a carga que deve carregar.

O QUESTIONAMENTO MAIS ABSURDO E TONTO QUE EU JÁ VI.

Eduardo Simões

 A jornalista Vilma Gryzinski, da Veja, fez um artigo muito interessante sobre o impacto, em alguns, da chamada “remada viking” no mundial de futebol chamado: “Está a Noruega moralmente certa ao celebrar, com seleção, herança viking?” na qual comenta a reação que está causando em alguns setores, como o representado pelo jornalista inglês Gavin Mortimer, da revista inglesa The Espectator, criada em 1828.

Para Mortimer, segundo Grysinski, essa escolha norueguesa, que está para a copa de 2026 o que a ola mexicana está para a de 1986, deveria ser repudiada por causa das desgraças que os navegadores vikings trouxeram aos povos europeus de seu tempo: roubos, saques, destruição, genocídio (?), escravização, etc. Ele inclusive aponta, como um dado comprometedor, o fato de 1 milhão de ingleses ter genes escandinavos — é nisso que dá a pessoa 'matar' aulas de matemática, estatística e lógica.

Primeiro: 1 milhão em 60 milhões corresponde a pouco mais de 1% da população. Considerando que levas e mais levas de nórdicos vieram à Inglaterra em 250 anos, isso é muito pouco e pode nos apontar noutra direção: ingleses ‘puros’ massacraram muitos nórdicos, logo os atuais descendem de genocidas.

Segundo: como desvincular essa abordagem de Mortimer daquelas que são típicas dos piores racistas?

Terceiro: o número bruto aponta tanto para violência sexual como para trocas consensuais, a não ser que o sr. Mortimer tenha descoberto um modo científico de determinar pelo mapa genético de uma população ou um indivíduo, se os emparelhamentos sexuais foram consensuais ou não. Se não for esse o caso, ele estará apenas expressando receios neuróticos sobre a sua origem, e somos obrigados a tranquilizá-lo dizendo que não é porque alguém imagina ter uma origem suspeita, que os outros o são.

Quarto: ele apresenta, como modelo, os hispânicos nos EUA, por não fazerem a 'remada de Colombo', como que envergonhados pelo que os europeus fizeram na América. Nós, entretanto, respondemos: os hispânicos não fazem a ‘remada de Colombo' porque os navios de Colombo não tinham remos, como os dos vikings. São de OUTRA ÉPOCA. E essa expressão quase diz tudo, pois não abarca o  complexo de inferioridade dos latino-americanos, que se deixam influenciar facilmente por qualquer idiotice que dizem sobre suas origens. Por isso são pobres e dominados, e continuarão sendo, se não mudarem.

Há algum tempo, um completo energúmeno pôs fogo numa estátua de Borba Gato, na entrada de São Bernardo do Campo, em São Paulo. Muitos intelectuais e jornalistas levantaram-se aplaudindo, uma vez que, para eles, os bandeirantes eram gente má que roubava, matava e escravizava nativos. Uma jornalista, com muito sentimento, chamou o personagem representado na estátua vandalizada de ‘escravagista’, enquanto outros o apodaram de ‘genocida’. Mas nesse sentido ele é exatamente igual aos sobas africanos que capturavam gente do seu 'continente' ou da sua 'raça' — os dois conceitos não existiam para os africanos daquela época — para vender aos europeus, sem falar dos muitos que eles matavam, por não quererem se submeter. Havia ainda os que pereciam na marcha até o fortim onde seriam vendidos. E assim eram os cristãos em relação aos islâmicos e vice-versa, eslavos em relação aos povos asiáticos e vice-versa, chineses hans em relação aos não-hans. 

Mas se todos praticavam escravidão, violência, estupro, genocídio legalmente naquela ÉPOCA, eles não podem ser condenados agora por um crime que não cometeram no tempo em que eram vivos, e que, mortos, já não o podem cometer. Querer julgá-los a partir de critérios morais ou legais contemporâneos é o cúmulo da insensatez. O que temos de fazer é combater essas práticas hoje, que são, com justiça, declaradas ilegais, a partir de uma compreensão contemporânea das relações humanas, que podem mudar e coisas que hoje são comuns, naturais, talvez se tornem escandalosas no futuro. Como dizia um poeta (Cazuza): “O tempo não para, não para não, não para!”

O nosso caso é realmente excepcional, pois enquanto aplaudimos a destruição de monumentos a nossos ‘cruéis’ antepassados, aplaudimos entusiastas a aliança com países que até recentemente admitiam e praticavam a escravidão, como a China. Vejam o que diz a Wikipedia em inglês no verbete SLAVERY IN CHINA:

“O sistema Laogai na China, abreviação de Laodong Gaizao (ou "Reeducação pelo Trabalho"), foi estabelecido sob a liderança de Mao Tsé-Tung, intitulado “Instruções para a Eliminação Completa de Contrarrevolucionários Ocultos”, na década de 1950, e continua a funcionar de várias formas até hoje. Ele serve como um mecanismo para o Partido Comunista Chinês suprimir a dissidência e impor a conformidade ideológica. Prisioneiros políticos, incluindo aqueles que se opõem às políticas governamentais ou praticam religiões proibidas, são submetidos a trabalhos forçados, muitas vezes sem julgamento ou acusações formais. Esses indivíduos suportam condições de trabalho extenuantes, coerção psicológica e abuso físico, tudo com o objetivo de quebrar sua resistência e incutir lealdade ao partido. Apesar das alegações oficiais de reforma, o sistema Laogai persiste sob nomes diferentes, continuando a explorar prisioneiros para ganho econômico."

A diferença é que não é escravidão privada, mas estatal, tão cruel ou talvez pior do que aquela, pois não conhece a piedade eventual de um senhor mais humano. Dizer que ela é melhor ou justificada por ser, TEORICAMENTE, feita em benefício da sociedade é um imenso aleijão moral, um absurdo, uma idiotice.

Tudo o que temos devemos aos nossos antepassados, e um dia seremos também antepassados para outras pessoas. Mas existem, infelizmente, pessoas fracassadas ou desnaturadas o bastante para condenar em bloco todos os seus antepassados e os de outros. 

Os povos que são gratos aos seus antepassados e à sua história, como os noruegueses, alcançam os píncaros do progresso e da democracia, enquanto os outros acabam como a União Soviética, Cuba, Camboja, Albânia, etc. A China de Mao não existe mais, a moderna ainda não se consolidou e ainda preserva sementes do passado. 

Quem amaldiçoa e repudia seus antepassados é por eles amaldiçoado e repudiado, e da mesma forma que um testador pode excluir alguém de uma herança, doando-a em vida, nossos antepassados podem tirar-nos a nossa, que por acaso é o próprio Brasil. Todos falam mal dos bandeirantes, mas ninguém quer abrir mão da herança que eles deixaram, apesar de supostamente baseada numa infinidade de crimes graves, imprescritíveis, porque ela nos faz poderosos diante de outros povos. Até quando?

Dois pontos de reflexão:

Um ditado antigo: Deus começa por tirar o juízo daqueles que querem se perder. Não será por isso que vamos pela terceira vez disputar entre Lula e Bolsonaro? 

Uma verdade: devemos aos nossos antepassados, independentemente de seu caráter, de seus crimes ou méritos, o que há de mais sublime e superior em nós mesmos: a nossa humanidade.


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