Um escravo chinês em 1900. Aos seus pés, a carga que deve
carregar.
O QUESTIONAMENTO MAIS ABSURDO E TONTO QUE EU JÁ VI.
Eduardo Simões
A jornalista Vilma Gryzinski, da Veja, fez um artigo
muito interessante sobre o impacto, em alguns, da chamada “remada viking” no
mundial de futebol chamado: “Está a Noruega moralmente certa ao celebrar,
com seleção, herança viking?” na qual comenta a reação que está causando em alguns
setores, como o representado pelo jornalista inglês Gavin Mortimer, da revista inglesa The Espectator, criada em 1828.
Para Mortimer, segundo Grysinski, essa escolha
norueguesa, que está para a copa de 2026 o que a ola mexicana está para a de
1986, deveria ser repudiada por causa das desgraças que
os navegadores vikings trouxeram aos povos europeus de seu tempo: roubos,
saques, destruição, genocídio (?), escravização, etc. Ele inclusive aponta, como
um dado comprometedor, o fato de 1 milhão de ingleses ter genes escandinavos — é nisso que dá a pessoa 'matar' aulas de matemática, estatística
e lógica.
Primeiro: 1 milhão em 60 milhões corresponde a pouco mais de
1% da população. Considerando que levas e mais levas de nórdicos vieram à
Inglaterra em 250 anos, isso é muito pouco e pode nos apontar noutra direção:
ingleses ‘puros’ massacraram muitos nórdicos, logo os atuais descendem
de genocidas.
Segundo: como desvincular essa abordagem de Mortimer
daquelas que são típicas dos piores racistas?
Terceiro: o número bruto aponta tanto para violência sexual
como para trocas consensuais, a não ser que o sr. Mortimer tenha descoberto
um modo científico de determinar pelo mapa genético de uma população ou um
indivíduo, se os emparelhamentos sexuais foram consensuais ou não. Se não for esse o caso, ele estará apenas expressando
receios neuróticos sobre a sua origem, e somos obrigados a tranquilizá-lo dizendo
que não é porque alguém imagina ter uma origem suspeita, que os outros o são.
Quarto: ele apresenta, como modelo, os hispânicos nos EUA,
por não fazerem a 'remada de Colombo', como que envergonhados pelo que os
europeus fizeram na América. Nós, entretanto, respondemos: os hispânicos não fazem a ‘remada
de Colombo' porque os navios de Colombo não tinham remos, como os dos vikings.
São de OUTRA ÉPOCA. E essa expressão quase diz tudo, pois não abarca o
complexo de inferioridade dos latino-americanos, que se deixam influenciar
facilmente por qualquer idiotice que dizem sobre suas origens. Por isso são pobres
e dominados, e continuarão sendo, se não mudarem.
Há algum tempo, um completo energúmeno pôs fogo numa estátua
de Borba Gato, na entrada de São Bernardo do Campo, em São Paulo. Muitos
intelectuais e jornalistas levantaram-se aplaudindo, uma vez que, para eles, os
bandeirantes eram gente má que roubava, matava e escravizava nativos. Uma jornalista, com muito sentimento, chamou o personagem
representado na estátua vandalizada de ‘escravagista’, enquanto outros o
apodaram de ‘genocida’. Mas nesse sentido ele é exatamente igual aos sobas
africanos que capturavam gente do seu 'continente' ou da sua 'raça' — os dois conceitos não existiam para os africanos daquela época — para vender aos
europeus, sem falar dos muitos que eles matavam, por não quererem se submeter.
Havia ainda os que pereciam na marcha até o fortim onde seriam vendidos. E
assim eram os cristãos em relação aos islâmicos e vice-versa, eslavos em
relação aos povos asiáticos e vice-versa, chineses hans em relação aos
não-hans.
Mas se todos praticavam escravidão, violência, estupro,
genocídio legalmente naquela ÉPOCA, eles não podem ser condenados agora por um
crime que não cometeram no tempo em que eram vivos, e que, mortos, já não o
podem cometer. Querer julgá-los a partir de critérios morais ou legais
contemporâneos é o cúmulo da insensatez. O que temos de fazer é combater essas
práticas hoje, que são, com justiça, declaradas ilegais, a partir de uma
compreensão contemporânea das relações humanas, que podem mudar e
coisas que hoje são comuns, naturais, talvez se tornem escandalosas no futuro. Como
dizia um poeta (Cazuza): “O tempo não para, não para não, não para!”
O nosso caso é realmente excepcional, pois enquanto
aplaudimos a destruição de monumentos a nossos ‘cruéis’ antepassados,
aplaudimos entusiastas a aliança com países que até recentemente admitiam e
praticavam a escravidão, como a China. Vejam o que diz a Wikipedia em inglês no
verbete SLAVERY IN CHINA:
“O sistema Laogai na China, abreviação de Laodong Gaizao (ou
"Reeducação pelo Trabalho"), foi estabelecido sob a liderança
de Mao Tsé-Tung, intitulado “Instruções para a Eliminação
Completa de Contrarrevolucionários Ocultos”, na década de 1950, e continua
a funcionar de várias formas até hoje. Ele serve como um mecanismo para o
Partido Comunista Chinês suprimir a dissidência e impor a conformidade
ideológica. Prisioneiros políticos, incluindo aqueles que se opõem às
políticas governamentais ou praticam religiões proibidas, são submetidos a
trabalhos forçados, muitas vezes sem julgamento ou acusações formais. Esses
indivíduos suportam condições de trabalho extenuantes, coerção psicológica e
abuso físico, tudo com o objetivo de quebrar sua resistência e incutir lealdade
ao partido. Apesar das alegações oficiais de reforma, o sistema Laogai
persiste sob nomes diferentes, continuando a explorar prisioneiros para ganho
econômico."
A diferença é que não é escravidão privada, mas estatal, tão cruel ou
talvez pior do que aquela, pois não conhece a piedade eventual de um senhor
mais humano. Dizer que ela é melhor ou justificada por ser, TEORICAMENTE, feita
em benefício da sociedade é um imenso aleijão moral, um absurdo, uma idiotice.
Tudo o que temos devemos aos nossos antepassados, e um dia
seremos também antepassados para outras pessoas. Mas existem, infelizmente,
pessoas fracassadas ou desnaturadas o bastante para condenar em bloco todos os
seus antepassados e os de outros.
Os povos que são gratos aos seus antepassados e à sua
história, como os noruegueses, alcançam os píncaros do progresso e da
democracia, enquanto os outros acabam como a União Soviética, Cuba, Camboja,
Albânia, etc. A China de Mao não existe mais, a moderna ainda não se consolidou
e ainda preserva sementes do passado.
Quem amaldiçoa e repudia seus antepassados é por eles
amaldiçoado e repudiado, e da mesma forma que um testador pode excluir alguém
de uma herança, doando-a em vida, nossos antepassados podem tirar-nos a nossa,
que por acaso é o próprio Brasil. Todos falam mal dos bandeirantes, mas ninguém
quer abrir mão da herança que eles deixaram, apesar de supostamente baseada numa infinidade de crimes graves, imprescritíveis,
porque ela nos faz poderosos diante de outros povos. Até quando?
Dois pontos de reflexão:
Um ditado antigo: Deus começa por tirar o juízo daqueles que
querem se perder. Não será por isso que vamos pela terceira vez disputar entre
Lula e Bolsonaro?
Uma verdade: devemos aos nossos antepassados,
independentemente de seu caráter, de seus crimes ou méritos, o que há de mais
sublime e superior em nós mesmos: a nossa humanidade.
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