O Passageiro da Agonia II
Tal como nas tratativas
para encaminhar a administração e as eleições em Santa Catarina, Moreira César,
longe de agir discricionariamente, busca a opinião de terceiros. Também se vê,
pelo texto, sua predisposição moderada e absolutamente legal em relação aos
canudenses: ele quer somente prendê-los.
Sem aguardar mais
notícias de Salvador, vai se abastecendo regularmente das notícias locais e de
sua habilidade em conseguir as informações de que precisava. Ele parte na manhã
de 17 de fevereiro de Queimadas e chega no dia seguinte a Monte Santo, a última
base de apoio para as operações, a 119 km de Canudos.
Ao longo de todo esse
deslocamento, as notícias que chegaram ao público por meio da imprensa e das
autoridades sobre a atuação de Moreira César foram de viva admiração e grandes
elogios.
“As forças sob o seu
comando respeitaram, em sua passagem, as pessoas e a propriedade; houve, é
verdade, aqui em Queimadas, o pequeno estrago de uma cerca e de uma porta; mas,
a pedido daquele bravo militar, o Dr. Félix Gaspar, Chefe de Segurança
[polícia], indenizou os danos causados. Citado por Oleone Fontes.”
Um telegrama mandado da
Bahia, por um jornalista do Gazeta de Notícias, no dia 15, e publicado
no dia seguinte, informa como era saudável a relação de suas tropas com a
população.
“Sabe-se que em
Queimadas muitos cidadãos têm fornecido animais à força pública, fazendo tudo
com a melhor vontade.”
Oleone Fontes, no Treme-terra,
p. 71, diz que há em Santa Luzia uma história antiga de que Moreira César, em
seu breve desembarque, perguntou pelo coronel José Martins Leitão, e como não o
encontrou, disse em voz alta que, após acabar com Canudos, viria acertar as
contas com ele. Por causa dessa ameaça, Leitão cercou-se de jagunços e ordenou
que os habitantes do lugar fugissem. Vejam o que diz o restante do telegrama
acima: “O coronel Leitão tem fornecido grande número de carroças e
condutores, a força está em ótimas condições.”
Um telegrama de O Paiz,
no dia 14 de fevereiro, diz que:
Em Queimadas continua a
reinar a melhor ordem e disciplina entre as tropas que ali se acham. A
população mostra-se confiante e satisfeita pela energia do bravo comandante da
coluna. O coronel Moreira César está satisfeito com o pessoal da estrada
[de ferro].
Outros telegramas e
avisos do jornal O Paiz, de 16 de fevereiro, vão na mesma toada.
“Continuam a seguir
diariamente [para Queimadas] víveres e munição”
[mostrando o quanto a expedição estava bem organizada e abastecida].
Os tabaréus,
confiantes, vêm por si procurar as cargas para conduzir [todos
querem colaborar].
Telegrama de 16 de
fevereiro, do governador ao presidente em exercício, Manuel Vitorino, publicado
na Gazeta de Notícias de 17 de fevereiro de 1897.
“Coronel Moreira César
partirá amanhã… tudo na melhor ordem. As autoridades por onde tem transitado
força tem felicitado o governo do Estado, pedindo de transmitir a mesma
felicitação ao governo da União pela ordem e disciplina com que se portam e
respeito às propriedades e habitantes… Saudações. — Luiz Viana.”
O mesmo Luís Viana, em
uma entrevista publicada em 7 de agosto de 1897, pelo Gazeta de Notícias, ao
jornalista Favila Nunes, diz:
“A diferença entre os
auxílios prestados ao Coronel Moreira César e ao Major Febrônio consistia… que,
enquanto o Major Febrônio afastava de si os elementos que lhe podiam ser úteis
naquela região, o Coronel Moreira César congregava-os em torno de si, tratando
a todos os proprietários com cordura e atenções, deixando no espírito de
todos o maior pesar pelo seu desastre e a maior simpatia pela sua pessoa.”
(Walnice N. Galvão, No calor da hora: A Guerra de Canudos nos jornais
(p. 192). Cepe Editora. Edição do Kindle).
Em Queimadas, foram
deixadas “150 praças, das quais 80 eram muito crianças e outras enfermas…
que mal podiam suportar o peso da carabina e do equipamento,” disse
o Major Rafael Augusto, em nota do livro de Manuel Benício, O rei dos
jagunços, p. 153. Essa observação será aproveitada e distorcida em Os
Sertões, abaixo citado pelo general Epaminondas Ferraz:
“Faz-se dono do
batalhão que comandava; deu-lhe um pessoal que ultrapassava, de muito, o número
regulamentar de praças, entre as quais — em manifesta violação da lei — dezenas
de crianças que não podiam carregar armas; e, imperando incondicionalmente, organizou
o melhor corpo do exército.” [Afinal, foi bom ou foi
ruim? Vejam como o texto de Cunha é ambíguo, contraditório e enganador].
Uma história, contada
pelo major Rafael Augusto, em Manuel Benício, diz que o marechal Costallat ia
fazer uma visita ao 7º, e César diz a ele, Augusto, para manter os
soldados-crianças trancados em uma sala, para que o marechal não as visse,
posto ser ilegal engajar pessoas abaixo de 18 anos (8).
Ele, Augusto, por sua
conta, passou a recomendação para o alferes Poli Coelho, que esqueceu de
cumprir a ordem. Nesse relato, surgido após a morte de César, Augusto
utilizava-se de terceiros para livrar a sua pele, enquanto apresentava o seu
comandante como desonesto ou mentiroso. O marechal Costallat viu as crianças,
mas, segundo Augusto, limitou-se a dizer “Ora!”
Se a reação foi essa,
para que, então, todo esse cuidado?
Mas vejamos.
1º — Não esqueçamos que
o exército, nessa época, era ao mesmo tempo uma instituição militar,
correcional, educativa e social. Esses jovens precocemente engajados eram
pobres, e isso seria um bom modo de eles sobreviverem e auxiliarem a família,
longe dos crimes. O Exército era o que a escola pública é hoje: tapa-buraco das
deficiências do Estado.
2º — Ao dizer que
Moreira Cesar fez isso, num episódio banal e fácil de ser inventado, Augusto
reforça a imagem ruim do seu chefe, que o beneficiava, e o blindava de
cobranças embaraçosas.
3º — Essa invenção é
uma idiotice, pois o nome e a data de nascimento dos soldados constavam no
livro de registro das ordens do dia do batalhão. Bastava o marechal conferir os
registros. Para que todo esse cuidado, se estava tudo escrito em um livro público?
4º — Augusto,
maliciosamente, transfere toda a responsabilidade para o alferes Poli Coelho,
que morreu logo no início dos combates da 3ª expedição. Mortos não se defendem.
5º — Ao deixar os mais
franzinos em Queimadas, o coronel mostra que é uma pessoa que cuida dos que
estão sob sua responsabilidade. Engajou-os para que recebessem um salário e
fizessem trabalhos de rotina necessários, enquanto os preparava para a vida, mas
evitou envolver os mais fracos em uma situação de perigo real. Isso não é um
ato de compaixão e generosidade?
Discorrendo sobre essa
questão, o general Ferraz diz:
“Não verificamos se o
fato de haver voluntários com 16 anos [além de um sobrinho
de César, Fernando, com menos de 16] — o que de fato constatamos nas
páginas das ordens do dia do batalhão — era, na época, manifesta violação da
lei. Damos como certa a afirmativa de Euclides.”
Que pena, general!
Porque Euclides estava muito errado.
1º — Ferraz esclarece
que era de conhecimento público a idade “ilegal” de alguns recrutas. Por que
isso não dava ensejo a uma investigação ou um demérito no prontuário do
coronel? Creio que a resposta a isso ameaçava as crenças já consolidadas do
general.
2º — Euclides da Cunha
às vezes abusa! Ele, decerto, sabia que a lei 2.556, de 26 de setembro de 1874,
complementada pelo decreto 5.881, de 27 de fevereiro de 1875, que discorriam
sobre as condições de alistamento no exército, determinavam que a idade mínima
seria de 19 ou 18 anos — vi ambas em fontes diferentes. Mas ele também sabia
que, em virtude da grande resistência que setores da sociedade opuseram a essa
lei, gerando motins no Norte, os “Rasga-listas”, ela se tornou, desde a
promulgação, letra morta. Foi substituída por uma nova ‘lei do sorteio’, em
1908, que só foi efetivada para valer em 1916. Euclides oscila entre a
desinformação e a má-fé.
Outra fonte que mostra
a forte impressão deixada por ele no povo baiano é o relato de um jornalista do
Jornal do Comércio do Rio, que viajou para Queimadas com o marechal
Bittencourt, na 4ª Expedição. Ele chegou em 8 de setembro, mas o artigo só foi
publicado em 6 de outubro de 1897, onde ele faz uma comparação entre a 3ª
e a 4ª Expedição.
Ele começa dizendo que
já conhecia a fama de Queimadas como centro de um florescente comércio
sertanejo, mas que ao vê-la, decepcionou-se. “Sente-se… a impressão de uma
cidade morta… uma praça de guerra desorganizada.”
Há alguns meses, o
general Arthur Oscar a transformara em um ponto de apoio, deixando-a sob o
comando do controvertido coronel Campelo França, que desorganizou a retaguarda
de tal maneira que a alguns pareceu proposital. No mínimo, facilitava a
corrupção.
O repórter reconhece
que a guerra “tem suas inconveniências”, mas também lembra que as
cidades que não estão diretamente no front tendem a experimentar uma certa
prosperidade, pelo movimento das tropas, que estimula o comércio local. Mas não
foi isso que aconteceu em Queimadas, com a chegada da 4ª Expedição. “Queimadas
aniquilou-se; o comércio ficou reduzido a bibocas… as famílias fugiram.”
Os batalhões da 4ª
expedição chegaram “cometendo despropósitos e desatinos”, tratando os
moradores como se fossem “jagunços”, e até como responsáveis pelos “reveses
das expedições anteriores”. Atemorizada, a população fugiu, e as famílias
que ficaram foram obrigadas a ceder, patrioticamente [destacado
no original], as suas modestas habitações aos militares — e quando
Bittencourt chegou, teve que ficar uma semana, procurando barracas para abrigar
o seu estado maior e as suas tropas, por conta da desorganização.
O mesmo não aconteceu
com a expedição César, cuja tropa se mostrou muito
disciplinada, como era o estilo do coronel.
“Sabe-se que aquele
militar aqui esteve alguns dias… nada lhe faltou… não só nenhum habitante se
retirara da cidade, mas também que os catingueiros a procuravam mais amiúde,
concorrendo às feiras com maior frequência… Assim, a expedição César encontrou
facilidades… homem inteligente e disciplinador, hábil e jeitoso, conseguira ele
todos os fins… inspirando… a mais plena confiança no seio da família
sertaneja.”
Exatamente do mesmo
modo como os jornais de Desterro/Florianópolis e o general Ferraz disseram que ele
aconteceu em Santa Catarina. A colossal recepção que ele experimentava sempre
que saía em público com sua tropa no Rio de Janeiro, também apontam nessa
direção.
“O seu primeiro cuidado
foi este… procurava ele incutir no ânimo das populações… a confiança nas
forças, tornando saliente o espírito de disciplina… o que mais tarde
testemunharão os tabaréus, enchendo-se de simpatia pela tropa, a quem
procuravam prestar serviços.”
O jornalista então
comenta o expediente dos soldados da 4ª Expedição de retirar estacas das cercas
dos sertanejos para fazer fogo para assar ou cozinhar algo para comer: “a
estaca que se tira à cerca do pobre roceiro pode dar lugar à perda de uma safra
inteira.” Devido à invasão do gado criado solto. Esses incidentes levaram
vários sitiantes e agricultores a pegar em armas contra o exército.
No jornal Diário de
Notícias, de Salvador, na sua edição de 21 de agosto de 1897, lê-se:
“Chega-me a notícia de
que as forças que têm acampado nesta praça de guerra queimaram as cercas dos
pastos com grande prejuízo para os animais de carga, e maior ainda para os
proprietários dos mesmos pastos, os quais são todos concordes em dizer que as forças
do pranteado Coronel Moreira César tudo respeitaram, não se sentindo a falta
nem de uma galinha [meu destaque].” (Galvão, Walnice Nogueira. No calor da
hora: A Guerra de Canudos nos jornais (p. 157). Cepe Editora, Kindle).
Como já acontecera com
catarinenses e cariocas, os baianos também estavam encantados com Moreira César
e o exemplar 7º Batalhão de Infantaria. Mas estava na hora de tomar a estrada
para Canudos e cumprir a sua missão.
Enquanto avançava em
seu cavalo, seguido pelo seu estado-maior e uma longa coluna de infantes, com o
esquadrão de cavalaria nas laterais ou flancos, rumo a Monte Santo, sob o sol
abrasador, ele deve ter pensado muito em tudo aquilo. Era um homem realista,
que cultuava a Deus, os valores aprendidos no Exército Brasileiro e a
realidade. Ele jamais permitiria que alguém morresse em seu lugar nem
negociaria, por dinheiro ou pelo medo, os valores que considerava sagrados.
A sua angústia só
aumentava…
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