terça-feira, 8 de setembro de 2026


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 39


O Passageiro da Agonia II

Tal como nas tratativas para encaminhar a administração e as eleições em Santa Catarina, Moreira César, longe de agir discricionariamente, busca a opinião de terceiros. Também se vê, pelo texto, sua predisposição moderada e absolutamente legal em relação aos canudenses: ele quer somente prendê-los.

Sem aguardar mais notícias de Salvador, vai se abastecendo regularmente das notícias locais e de sua habilidade em conseguir as informações de que precisava. Ele parte na manhã de 17 de fevereiro de Queimadas e chega no dia seguinte a Monte Santo, a última base de apoio para as operações, a 119 km de Canudos.

Ao longo de todo esse deslocamento, as notícias que chegaram ao público por meio da imprensa e das autoridades sobre a atuação de Moreira César foram de viva admiração e grandes elogios.

“As forças sob o seu comando respeitaram, em sua passagem, as pessoas e a propriedade; houve, é verdade, aqui em Queimadas, o pequeno estrago de uma cerca e de uma porta; mas, a pedido daquele bravo militar, o Dr. Félix Gaspar, Chefe de Segurança [polícia], indenizou os danos causados. Citado por Oleone Fontes.”

Um telegrama mandado da Bahia, por um jornalista do Gazeta de Notícias, no dia 15, e publicado no dia seguinte, informa como era saudável a relação de suas tropas com a população.

“Sabe-se que em Queimadas muitos cidadãos têm fornecido animais à força pública, fazendo tudo com a melhor vontade.”

Oleone Fontes, no Treme-terra, p. 71, diz que há em Santa Luzia uma história antiga de que Moreira César, em seu breve desembarque, perguntou pelo coronel José Martins Leitão, e como não o encontrou, disse em voz alta que, após acabar com Canudos, viria acertar as contas com ele. Por causa dessa ameaça, Leitão cercou-se de jagunços e ordenou que os habitantes do lugar fugissem. Vejam o que diz o restante do telegrama acima: “O coronel Leitão tem fornecido grande número de carroças e condutores, a força está em ótimas condições.”

Um telegrama de O Paiz, no dia 14 de fevereiro, diz que:

Em Queimadas continua a reinar a melhor ordem e disciplina entre as tropas que ali se acham. A população mostra-se confiante e satisfeita pela energia do bravo comandante da coluna. O coronel Moreira César está satisfeito com o pessoal da estrada [de ferro].

Outros telegramas e avisos do jornal O Paiz, de 16 de fevereiro, vão na mesma toada.

“Continuam a seguir diariamente [para Queimadas] víveres e munição” [mostrando o quanto a expedição estava bem organizada e abastecida].

Os tabaréus, confiantes, vêm por si procurar as cargas para conduzir [todos querem colaborar].

Telegrama de 16 de fevereiro, do governador ao presidente em exercício, Manuel Vitorino, publicado na Gazeta de Notícias de 17 de fevereiro de 1897.

“Coronel Moreira César partirá amanhã… tudo na melhor ordem. As autoridades por onde tem transitado força tem felicitado o governo do Estado, pedindo de transmitir a mesma felicitação ao governo da União pela ordem e disciplina com que se portam e respeito às propriedades e habitantes… Saudações. — Luiz Viana.”

O mesmo Luís Viana, em uma entrevista publicada em 7 de agosto de 1897, pelo Gazeta de Notícias, ao jornalista Favila Nunes, diz:

“A diferença entre os auxílios prestados ao Coronel Moreira César e ao Major Febrônio consistia… que, enquanto o Major Febrônio afastava de si os elementos que lhe podiam ser úteis naquela região, o Coronel Moreira César congregava-os em torno de si, tratando a todos os proprietários com cordura e atenções, deixando no espírito de todos o maior pesar pelo seu desastre e a maior simpatia pela sua pessoa.” (Walnice N. Galvão, No calor da hora: A Guerra de Canudos nos jornais (p. 192). Cepe Editora. Edição do Kindle).

Em Queimadas, foram deixadas “150 praças, das quais 80 eram muito crianças e outras enfermasque mal podiam suportar o peso da carabina e do equipamento,” disse o Major Rafael Augusto, em nota do livro de Manuel Benício, O rei dos jagunços, p. 153. Essa observação será aproveitada e distorcida em Os Sertões, abaixo citado pelo general Epaminondas Ferraz:

“Faz-se dono do batalhão que comandava; deu-lhe um pessoal que ultrapassava, de muito, o número regulamentar de praças, entre as quais — em manifesta violação da lei — dezenas de crianças que não podiam carregar armas; e, imperando incondicionalmente, organizou o melhor corpo do exército.” [Afinal, foi bom ou foi ruim? Vejam como o texto de Cunha é ambíguo, contraditório e enganador].

Uma história, contada pelo major Rafael Augusto, em Manuel Benício, diz que o marechal Costallat ia fazer uma visita ao 7º, e César diz a ele, Augusto, para manter os soldados-crianças trancados em uma sala, para que o marechal não as visse, posto ser ilegal engajar pessoas abaixo de 18 anos (8).

Ele, Augusto, por sua conta, passou a recomendação para o alferes Poli Coelho, que esqueceu de cumprir a ordem. Nesse relato, surgido após a morte de César, Augusto utilizava-se de terceiros para livrar a sua pele, enquanto apresentava o seu comandante como desonesto ou mentiroso. O marechal Costallat viu as crianças, mas, segundo Augusto, limitou-se a dizer “Ora!”

Se a reação foi essa, para que, então, todo esse cuidado? 

Mas vejamos.

1º — Não esqueçamos que o exército, nessa época, era ao mesmo tempo uma instituição militar, correcional, educativa e social. Esses jovens precocemente engajados eram pobres, e isso seria um bom modo de eles sobreviverem e auxiliarem a família, longe dos crimes. O Exército era o que a escola pública é hoje: tapa-buraco das deficiências do Estado.

2º — Ao dizer que Moreira Cesar fez isso, num episódio banal e fácil de ser inventado, Augusto reforça a imagem ruim do seu chefe, que o beneficiava, e o blindava de cobranças embaraçosas.

3º — Essa invenção é uma idiotice, pois o nome e a data de nascimento dos soldados constavam no livro de registro das ordens do dia do batalhão. Bastava o marechal conferir os registros. Para que todo esse cuidado, se estava tudo escrito em um livro público?

4º — Augusto, maliciosamente, transfere toda a responsabilidade para o alferes Poli Coelho, que morreu logo no início dos combates da 3ª expedição. Mortos não se defendem.

5º — Ao deixar os mais franzinos em Queimadas, o coronel mostra que é uma pessoa que cuida dos que estão sob sua responsabilidade. Engajou-os para que recebessem um salário e fizessem trabalhos de rotina necessários, enquanto os preparava para a vida, mas evitou envolver os mais fracos em uma situação de perigo real. Isso não é um ato de compaixão e generosidade? 

Discorrendo sobre essa questão, o general Ferraz diz:

“Não verificamos se o fato de haver voluntários com 16 anos [além de um sobrinho de César, Fernando, com menos de 16] — o que de fato constatamos nas páginas das ordens do dia do batalhão — era, na época, manifesta violação da lei. Damos como certa a afirmativa de Euclides.”

Que pena, general! Porque Euclides estava muito errado.

1º — Ferraz esclarece que era de conhecimento público a idade “ilegal” de alguns recrutas. Por que isso não dava ensejo a uma investigação ou um demérito no prontuário do coronel? Creio que a resposta a isso ameaçava as crenças já consolidadas do general.

2º — Euclides da Cunha às vezes abusa! Ele, decerto, sabia que a lei 2.556, de 26 de setembro de 1874, complementada pelo decreto 5.881, de 27 de fevereiro de 1875, que discorriam sobre as condições de alistamento no exército, determinavam que a idade mínima seria de 19 ou 18 anos — vi ambas em fontes diferentes. Mas ele também sabia que, em virtude da grande resistência que setores da sociedade opuseram a essa lei, gerando motins no Norte, os “Rasga-listas”, ela se tornou, desde a promulgação, letra morta. Foi substituída por uma nova ‘lei do sorteio’, em 1908, que só foi efetivada para valer em 1916. Euclides oscila entre a desinformação e a má-fé.

Outra fonte que mostra a forte impressão deixada por ele no povo baiano é o relato de um jornalista do Jornal do Comércio do Rio, que viajou para Queimadas com o marechal Bittencourt, na 4ª Expedição. Ele chegou em 8 de setembro, mas o artigo só foi publicado em 6 de outubro de 1897, onde ele faz uma comparação entre a  3ª e a 4ª Expedição.

Ele começa dizendo que já conhecia a fama de Queimadas como centro de um florescente comércio sertanejo, mas que ao vê-la, decepcionou-se. “Sente-se… a impressão de uma cidade morta… uma praça de guerra desorganizada.”

Há alguns meses, o general Arthur Oscar a transformara em um ponto de apoio, deixando-a sob o comando do controvertido coronel Campelo França, que desorganizou a retaguarda de tal maneira que a alguns pareceu proposital. No mínimo, facilitava a corrupção. 

O repórter reconhece que a guerra “tem suas inconveniências”, mas também lembra que as cidades que não estão diretamente no front tendem a experimentar uma certa prosperidade, pelo movimento das tropas, que estimula o comércio local. Mas não foi isso que aconteceu em Queimadas, com a chegada da 4ª Expedição. “Queimadas aniquilou-se; o comércio ficou reduzido a bibocas… as famílias fugiram.”

Os batalhões da 4ª expedição chegaram “cometendo despropósitos e desatinos”, tratando os moradores como se fossem “jagunços”, e até como responsáveis pelos “reveses das expedições anteriores”. Atemorizada, a população fugiu, e as famílias que ficaram foram obrigadas a ceder, patrioticamente [destacado no original], as suas modestas habitações aos militares — e quando Bittencourt chegou, teve que ficar uma semana, procurando barracas para abrigar o seu estado maior e as suas tropas, por conta da desorganização.

O mesmo não aconteceu com a expedição César, cuja tropa se mostrou muito disciplinada, como era o estilo do coronel.

“Sabe-se que aquele militar aqui esteve alguns dias… nada lhe faltou… não só nenhum habitante se retirara da cidade, mas também que os catingueiros a procuravam mais amiúde, concorrendo às feiras com maior frequência… Assim, a expedição César encontrou facilidades… homem inteligente e disciplinador, hábil e jeitoso, conseguira ele todos os fins… inspirando… a mais plena confiança no seio da família sertaneja.”

Exatamente do mesmo modo como os jornais de Desterro/Florianópolis e o general Ferraz disseram que ele aconteceu em Santa Catarina. A colossal recepção que ele experimentava sempre que saía em público com sua tropa no Rio de Janeiro, também apontam nessa direção.

“O seu primeiro cuidado foi este… procurava ele incutir no ânimo das populações… a confiança nas forças, tornando saliente o espírito de disciplina… o que mais tarde testemunharão os tabaréus, enchendo-se de simpatia pela tropa, a quem procuravam prestar serviços.”

O jornalista então comenta o expediente dos soldados da 4ª Expedição de retirar estacas das cercas dos sertanejos para fazer fogo para assar ou cozinhar algo para comer: “a estaca que se tira à cerca do pobre roceiro pode dar lugar à perda de uma safra inteira.” Devido à invasão do gado criado solto. Esses incidentes levaram vários sitiantes e agricultores a pegar em armas contra o exército.

No jornal Diário de Notícias, de Salvador, na sua edição de 21 de agosto de 1897, lê-se:

“Chega-me a notícia de que as forças que têm acampado nesta praça de guerra queimaram as cercas dos pastos com grande prejuízo para os animais de carga, e maior ainda para os proprietários dos mesmos pastos, os quais são todos concordes em dizer que as forças do pranteado Coronel Moreira César tudo respeitaram, não se sentindo a falta nem de uma galinha [meu destaque].” (Galvão, Walnice Nogueira. No calor da hora: A Guerra de Canudos nos jornais (p. 157). Cepe Editora, Kindle).

Como já acontecera com catarinenses e cariocas, os baianos também estavam encantados com Moreira César e o exemplar 7º Batalhão de Infantaria. Mas estava na hora de tomar a estrada para Canudos e cumprir a sua missão.

Enquanto avançava em seu cavalo, seguido pelo seu estado-maior e uma longa coluna de infantes, com o esquadrão de cavalaria nas laterais ou flancos, rumo a Monte Santo, sob o sol abrasador, ele deve ter pensado muito em tudo aquilo. Era um homem realista, que cultuava a Deus, os valores aprendidos no Exército Brasileiro e a realidade. Ele jamais permitiria que alguém morresse em seu lugar nem negociaria, por dinheiro ou pelo medo, os valores que considerava sagrados.

A sua angústia só aumentava…

Eduardo Simões

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