O CORONEL MOREIRA CÉSAR E
CANUDOS DEVEM MORRER
A PROFECIA DO BARÃO DE COTEGIPE — 5
Repita e aumente muitas vezes uma mentira, até ela ficar completamente ridícula.
Assim, a lista dos fuzilados de Anhatomirim permaneceu por mais de um século como uma questão em aberto, povoando a imaginação e as simpatias ideológicas de muitos. Afinal, quantos foram os fuzilados? Quais eram os seus nomes? Dito de outro modo: se não há vítima bem caracterizada e identificada, como poderemos afirmar que houve um crime?
Em 2024, um consórcio de autoridades políticas, culturais e econômicas em Santa Catarina tentou pôr um pouco de ordem nessa história, esclarecendo esse ponto a partir de um belo material gráfico chamado Exposição Federalismo — A revolução que abalou Santa Catarina. Infelizmente, longe de afastar as dúvidas, agravou-as ao apresentar mais uma lista de supostos assassinados. Ao todo, setenta e oito vítimas, enumeradas uma a uma, parcialmente identificadas pelas suas profissões, e até fotografias, entre as páginas 55 e 61.
Agora podemos, graças à internet, conferir a fiabilidade dessa lista, embora em alguns casos, como o da vítima nº 3, o Sr. Agostinho Picapau, um quitandeiro, seja uma missão impossível saber como ele acabou em Anhatomirim. Feita a conferência, porém, a situação piorou, e muito, como quem vai ao médico só para saber que contraiu a única doença que fazia questão de não contrair.
Os senhores Caetano Nicolau de Moura, nº 16; Carlos Guimarães Passos, nº 17; Elesbão Pinto da Luz, nº 23; Felix Lourenço de Siqueira, nº 27; Francisco Antônio Vieira Caldas, nº 31; e Laurentino Pinto Filho, nº 54, aparecem na primeira e na segunda página do jornal República, respectivamente dos dias 23 e 24 de fevereiro de 1895, numa lista de pessoas denunciadas pelo procurador da República em Santa Catarina, o Sr. José Joaquim de Morais Sarmento, acusadas de participação nos eventos da revolta de 1893–94. Essa matéria aparece sob a rubrica DENÚNCIA, e o resultado do inquérito saiu na edição de 5 de julho neste mesmo jornal.
Por que eles seriam citados, e três deles indiciados, se já estavam mortos? Uma pesquisadora de Santa Catarina, em seu trabalho de mestrado, encontrou uma solução que é muito simples e original: essas pessoas foram denunciadas apesar de sabidamente mortas! Não sei de nenhum outro caso, na história do Brasil, em que mortos foram alvos de inquérito e julgamento na justiça, e aqui foram três de uma só vez. E ninguém notou!
Que eu saiba, no Ocidente, desde a vulgarização da doutrina do jurista italiano Cesare Beccaria, no início do século XIX, ninguém mais utilizava o recurso de investigar, julgar e condenar mortos.
Querer transformar a História em mera narrativa ou mitologia a serviço de interesses políticos e/ou carências emocionais, independentemente do que aconteceu, é tão danoso para a História, enquanto ciência, como a presença de militares da ativa na política partidária é danosa para a democracia.
O jornal The Rio News, do Rio de Janeiro, na coluna PROVINCIAL NOTES, de 23 de abril de 1895, traz a notícia de que Joaquim Vicente Lopes de Oliveira, nº 45, desapareceu após ser aprisionado pelo Almirante Jerônimo Gonçalves (3). Por que foi posto na conta de Moreira César?
A trágica morte do tenente sergipano e federalista Brasiliano Alves do Nascimento, nº 15, é contada de modo bem diverso pelo jornal federalista O Estado, na edição do dia 28 de abril de 1896. Segundo o jornal, ele foi preso em casa e assassinado pela escolta a caminho da prisão. Os homens dessa escolta são tratados pelo jornal somente como seus inimigos: “infelizmente, foi encontrado em casa e assassinado pela escolta, arrastado e metido num saco de estopa, depois cosido numa lona, para ser enterrado à noite”.
O jornal não cita Moreira César, que, na época dessa matéria, era um militar comum sem foro especial, e nem cita Anhatomirim!
Sobre o capitão Romualdo Carvalho Barros, nº 74, o mesmo jornal, na sua edição de 25 de abril de 1896, fala de seu papel na revolta e em sua morte, mas sem citar data, local ou circunstância. Por que ele apareceu entre os assassinados de Anhatomirim?
Sobre o alferes João Evangelista da Silva Nery, nº 42, lê-se uma mensagem sobre a sua morte na primeira página do jornal O Estado, dando a entender claramente que ele teria falecido de doença (4). E esse não é nem o detalhe mais escandaloso que escapou aos 'especialistas', mas o fato de o jornal estar datado de 3 de fevereiro de 1893, mais de um ano antes de Moreira Cesar chegar a Santa Catarina!
Na primeira página de outra edição desse jornal, está registrada a morte do tenente Firmino Ayres de Moraes Âncora, nº 29, e, embora o jornal não diga como ele faleceu, o trecho dá a entender que não foi de fuzilamento. O parágrafo que fala sobre sua morte está semiapagado, mas, como a data da edição é de 15 de março de 1894 — outra fonte data sua morte em 13 de março —, podemos cravar que ele faleceu quatro semanas antes da chegada de Moreira César a Desterro.
O caso do médico português Manuel José Lavrador, nº 62, não tem explicação. Fuzilado em Anhatomirim entre abril e outubro de 1894, ele aparece vivo ao lado de Gumercindo Saraiva, na edição de 24 de dezembro de 1894 do jornal Diário de Notícias, do Rio, na coluna A REVOLTA — EFEMÉRIDES, como ajudante de ordem de Gumercindo Saraiva.
Há uma notícia de um filho dele, dizendo-se correspondente de guerra e membro da Guarda Nacional, preso a caminho de Canudos, no Jornal do Comércio do Rio de 22 de julho de 1897. Um site de genealogia diz que o Dr. Manuel Lavrador faleceu em 1918. Vinte e quatro anos após o seu fuzilamento. Viveu, literalmente, “agoniado”.
Espetacular é, também, a situação de Manuel Rodrigues de Macedo, o Folião, nº 63, pois ele aparece em fotos — sozinho e ao lado dos filhos — extraordinariamente bem conservado, para os seus 10 anos de morto, na revista de atualidades argentina Caras y Caretas, de 7 de maio de 1904; a legenda da foto o chama de Manuel J. Macedo — em castelhano, o ‘J’ tem o som do nosso ‘R’ inicial.
O general federalista Laurentino Pinto Filho, gaúcho de São Sepé, é o nº 54. Em fevereiro de 94, ele é detectado entre os federalistas que venceram no cerco da Lapa, quando se meteu numa rixa com seus companheiros. Sabemos que os federalistas gaúchos, no Paraná, desceram em massa para o seu estado natal quando houve o contra-ataque paulista. Como ele foi acabar fuzilado em Anhatomirim?
O jornal A Federação, dos castilhistas gaúchos, cita, no dia 7 de maio de 1894, o seu nome na lista dos passageiros federalistas do navio Isis, atracado em Buenos Aires, repleto de federalistas em condições lamentáveis. Ele aparece ainda na lista de pessoas que foram desejar um feliz aniversário ao senador Pinheiro Machado, na edição de 18 de maio do mesmo jornal, mas no ano de 1910.
A pesquisadora Cristiane Debus Pistoia fez um trabalho de mestrado na PUC-RS. O orientador foi o Dr. Moacyr Flores. O título do trabalho é “Violência física, material e moral no Rio Grande do Sul (1889–1920)”, página 163. Nele, a pesquisadora conta que o coronel Franklin Cunha, de São Sepé, incomodado com as afirmações de um historiador em relação aos maragatos, solicitou auxílio a seus antigos companheiros para responder às acusações. Um dos que lhe respondeu foi o general Laurentino Pinto Filho. Naquela época, o general morava no Rio de Janeiro e enviou uma carta de apoio a Franklin, datada de 27 de outubro de 1920. Uma carta do além?
Mais um que sobreviveu ao seu executor.
O nome de Laurentino Pinto Filho não aparece na lista divulgada pelos jornais, no ano de 1934, quando houve o traslado das urnas funerárias dos supostos fuzilados em Anhatomirim, de Florianópolis para o Rio de Janeiro, mas aparece agora na lista de Exposição federalismo…
Afinal, que critério se utilizou para a finalização dessas listas de fuzilados? Arrisco: foi visto pelas redondezas, não é muito conhecido ou, se foi, não é mais, e, certamente, já está morto! Então vai para a lista…
Nenhum comentário:
Postar um comentário