O CORONEL MOREIRA CÉSAR E
CANUDOS DEVEM MORRER
A PROFECIA DO BARÃO DE COTEGIPE — 6
O onipresente Caetano Nicolau
O caso do fuzilado e depois “desfuzilado”, Caetano Nicolau de Moura, nº 16, é insólito, pois o seu nome aparece em quase todas as listas, das antigas às mais recentes. Entretanto, o jornal O Apóstolo, da Arquidiocese do Rio de Janeiro, na edição de 1º de fevereiro de 1895, traz, numa matéria de 1ª página, chamada UM APELO AO EXÉRCITO BRASILEIRO, uma carta da esposa de Caetano a Prudente de Morais. Datada de 18 de janeiro de 1895.
Nessa carta, a senhora Maria Luiza Valgas apela ao presidente da República para achar o paradeiro de seu esposo, Caetano Nicolau de Moura, “preso nesta capital [Desterro] por ordem do coronel Moreira Cesar, na noite de 20 de abril do ano passado”. Essa data é controversa, pois as boas fontes garantem que César só chegou no dia 21. Pode ser erro de ortografia.
Segundo a carta, recolhido à cadeia pública de Desterro, ele e outros presos foram embarcados ao meio-dia de “23… para o cruzador Santos”. Atenção para essa classe do navio, cruzador, com destino à fortaleza de Santa Cruz, “confirmado em carta que ele mesmo escreveu de bordo do vapor Itapemirim, para o qual foi removido, em viagem para a aludida praça de guerra.”
Atenção! A fortaleza na ilha de Anhatomirim chama-se Santa Cruz, mas, em Niterói, Estado do Rio, tem também uma fortaleza, muito mais poderosa, utilizada tradicionalmente como prisão política, chamada Santa Cruz da Barra, ou só Santa Cruz. É para essa que Nicolau, segundo a carta, foi enviado.
Sem notícias, ela procurou Moreira César, que garantiu que seu marido estava no Rio. Mas, como a situação persistisse, “a impetrante e suas duas filhinhas tornaram, novamente, à presença do governador… suplicando-lhe que revelasse a verdade… respondendo-lhe essa autoridade… que garantia ter o referido preso seguido para o Rio de Janeiro, e animando-lhe com a alegação de que a sua soltura seria questão de tempo”.
Daí nasceu uma lenda repugnante, que afirma que Moreira César teria pegado uma das crianças no colo e, numa janela que dava para o mar, teria prometido que seu pai voltaria em breve, embora ele já o tivesse mandado 'fuzilar' — mas, como já vimos, ele reapareceu ou “ressuscitou” para ser oficialmente inquirido em fevereiro de 1895.
Na carta, a mãe revela uma faceta do coronel: ele tenta consolá-la e dar-lhe esperanças, como faz alguém preocupado com o sofrimento de outrem. Mas outra coisa também fica evidente: pessoas estavam sendo enviadas para o Rio de Janeiro, e em nenhum momento a carta cita Anhatomirim.
Outra coisa a notar é que a carta foi escrita em janeiro de 1895, quando Moreira César já não era mais governador, enquanto ela era uma mulher de recursos e não corria nenhum perigo se o denunciasse ao presidente. Por que não o fez e ainda se deu ao trabalho de inventar toda essa história?
Ela prossegue dizendo que o seu advogado, no Rio de Janeiro, impetrou um habeas corpus em favor de Nicolau e recebeu a estranha notícia de que ele “achava-se já em liberdade” [destacado no original]. Desiludida, ela acusa, na carta, o jornal O Paiz de forjar a morte de seu marido em um combate fictício em Santa Catarina.
Há ainda um relato no jornal A Notícia, do Rio de Janeiro, edição de 24–25 de novembro de 1894, na coluna NOTÍCIAS DO RIO GRANDE DO SUL, informando que Caetano Nicolau e o engenheiro francês Buette — Pierre-Louis Buette, nº 70, da lista dos 'fuzilados' — teriam perecido em um combate em Curitibanos. Buette e outros dois franceses desaparecidos também foram postos na conta de Moreira César (5). Essas listas são como Paris: uma festa!
A viúva, enfim, solicita a devolução do cadáver do seu marido ou que se lhe dê um documento oficial de sua morte, pois, sendo comerciante, ele acumulou patrimônio, dívidas e sócios, com os quais é preciso acertar, o que só será possível por meio de um testamento.
Mas, aqui, há um desencontro: o Caetano Nicolau, nº 16, que aparece em “Federalismo — a revolução que abalou Santa Catarina”, tem seu último sobrenome “Demoro”, e sua profissão é engenheiro, embora isso não o impeça de ser também negociante. De fato, há um Caetano Nicolao Demoro, também grafado de Moura, em Florianópolis nessa época, nascido em 1856 e morto, após 1934 (6). Esse Demoro, ou de Moura, é casado com Carolina da Costa Vinhas e tem duas filhas: Maria da Costa Vinhas e Perpétua Maria Demoro. Mas Carolina falece jovem, aos 21 anos, em 1884, quiçá de parto.
A senhora Valgas, portanto, seria a madrasta das meninas, e a mais nova teria entre 9 e 10 anos. Tento me conter, imaginando o pequeno e frágil coronel Moreira César, bufando e se tremendo todo, para levantar e pegar no colo uma adolescente de 9 ou 10 anos, só para pregar-lhe uma mentira.
Como dizem no meu estado: “É bem a cara dele!”
Se ele tivesse feito uma maldade dessas com a criança, não seria de esperar que a madrasta explodisse de indignação na carta? O que é que ela estava fazendo, gastando dinheiro para procurá-lo no Rio, quando “todo mundo”, que vivia longe de Desterro, sabia que ele fora fuzilado em Anhatomirim, em 1894?
Há ainda uma possibilidade não de todo irrazoável a ser considerada:
1º — No Rio de Janeiro, ninguém conhecia a família de Caetano Nicolau.
2º — Em Desterro, pouquíssimas pessoas, ou nenhuma, liam regularmente o jornal O Apóstolo.
3º — Publicando a carta num jornal do Rio, ela pode estar querendo cumprir uma etapa num processo jurídico-comercial, compreensível pela atividade do marido.
4º — A carta é mandada a um jornal de pequena circulação, inclusive no Rio de Janeiro. E se ele estivesse vivo e escondido em Santa Catarina, com o conhecimento da esposa?
5º — Se ele fosse dado oficialmente como morto, isso o livraria de credores e de problemas com a justiça. O que poderia causar até um interesse da família para que seu nome constasse das listas de desaparecidos ou fuzilados.
Entretanto, isso não deu certo, e ele é localizado, investigado e denunciado pelo juiz federal Cândido Valeriano da Silva Freire como incurso no crime de sedição, em 3 de julho de 1895, numa extensa sentença reproduzida nas páginas 1 e 2 do jornal República, de Florianópolis, de 5 de julho. Daí para frente é com você, leitor.
(Eduardo Simões)
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