DANE-SE, DONALD TRUMP!
Eduardo Simões
Causou-me admiração a
derrota dos Estados Unidos para a Bélgica na Copa do Mundo, uma vez que até
aquele momento a Bélgica se mostrava um time apático e burocrático, uma sombra
da grande geração de Courtois e De Bruyne. Os Estados Unidos, por seu lado, vinham
numa pegada vigorosa, com um time de chegada, perigoso, diante do qual seria
bom não facilitar.
Não que a Bélgica não
pudesse vencer os Estados Unidos, mas goleá-lo, como o fez, é de fato estranho,
para dizer o mínimo, e creio que para isso contribuiu, e muito, a intervenção
desastrada de Donald Trump.
Trump é um líder
populista, nascido em berço de ouro, longe do povo de seu país, e como todo
líder populista, ele quer se apresentar como salvador da pátria para a sua
gente. Só que a base psicológica para se alimentar o mito do salvador da pátria
é a crença, não só, de que o líder é uma pessoa especial, como os liderados são
uns idiotas, ou na melhor das hipóteses, criancinhas precisando da mão firme de
um 'papai'.
É verdade que em alguns
continentes, nos países mais pobres invariavelmente dominados por governantes
autoritários, muita gente, talvez até a maioria, se sinta confortável nessa
condição, mas não sei se com os americanos a coisa funcione assim.
Velho leitor que sou da
civilização americana, desde os célebres enlatados da minha infância como
Rintintin, Caravana, O homem do rifle, etc., vi os americanos ao longo de 7
décadas passar a imagem de um povo forte, vigoroso, autossuficiente, cheio de
iniciativa, cioso de suas liberdades, etc. Mas, de uma maneira muito especial,
eles procuravam deixar a marca de que eram um povo que respeitava as regras…
exceto quando se tratava dos nativos locais — mas até isso eles reviram, de
sorte que hoje somos nós que temos confrontos violentos com os nossos nativos,
enquanto lá reina, aparentemente, a paz e o respeito mútuo.
O fundamento moral
inarredável, que sustenta o sistema capitalista, é o respeito das partes ao que
foi acertado no contrato. Ora, quando Trump intervém de fora para mudar as
regras em favor de sua seleção, ele comete dois erros imperdoáveis na cultura
americana:
a) Ele rompe o contrato
acertado entre todas as seleções, cumprido com mais ou menos acertos nos
últimos 96 anos.
b) Ele passa para o
conjunto da nação e para o mundo a seguinte mensagem: vejam como nossa seleção
é fraquinha. Eu tenho que intervir para eles não passarem vexame.
É verdade que existem
muitas seleções por aí onde o importante é ganhar, seja como for, onde os
jogadores se sujeitam aos mais abjetos papelões e fingimentos, dramatizando
bizarras bufonarias ao simular faltas. Todos conhecem o passado do Neymar,
inclusive naquele célebre jogo com a Sérvia, onde ele, após levar um esbarrão
de um jogador adversário, rolou tanto que por pouco não foi parar no vestiário.
Teu passado te condena. Que dizer da goleada argentina contra o Peru, na Copa
de 78?
Com a sua atitude,
Trump envergonhou profundamente a seleção de seu país. E se há uma coisa que o
americano médio, ao contrário de outros, O-DEI-A profundamente é ser
tratado como um coitadinho. Ele prefere ser tratado como inimigo. Não
suportariam avançar na Copa e ler, sabendo ser correto, em todos os jornais,
que, se o seu presidente não tivesse dado uma “mãozinha” aos ‘coitadinhos’,
eles não teriam seguido em frente.
A apatia da defesa
americana nos gols, o erro grotesco do goleiro no terceiro gol, reforçado pelo
erro do zagueiro no quarto, que jogou a bola nos pés do atacante e ficou, com
os outros, vendo o belga avançar, se posicionar para o chute e fazer o gol. Isso,
para mim, é inexplicável! Não diria para um time que quer ganhar, mas pelo
menos competir. Para mim, está claro que eles entregaram o jogo.
E a humilhação? A
humilhação já acontecera na intervenção de seu anômalo presidente. De um jeito
ou de outro, eles sairiam humilhados, mas não foram cúmplices de um desrespeito
tão grosseiro às regras do jogo. Não seriam campeões em 2026 como os argentinos
o foram em 1978, e se esse foi realmente o caso, então temos razão para
acalentar grandes esperanças, para os Estados Unidos da América e para o mundo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário