quarta-feira, 8 de julho de 2026



DANE-SE, DONALD TRUMP!

Eduardo Simões

Causou-me admiração a derrota dos Estados Unidos para a Bélgica na Copa do Mundo, uma vez que até aquele momento a Bélgica se mostrava um time apático e burocrático, uma sombra da grande geração de Courtois e De Bruyne. Os Estados Unidos, por seu lado, vinham numa pegada vigorosa, com um time de chegada, perigoso, diante do qual seria bom não facilitar.

Não que a Bélgica não pudesse vencer os Estados Unidos, mas goleá-lo, como o fez, é de fato estranho, para dizer o mínimo, e creio que para isso contribuiu, e muito, a intervenção desastrada de Donald Trump.

Trump é um líder populista, nascido em berço de ouro, longe do povo de seu país, e como todo líder populista, ele quer se apresentar como salvador da pátria para a sua gente. Só que a base psicológica para se alimentar o mito do salvador da pátria é a crença, não só, de que o líder é uma pessoa especial, como os liderados são uns idiotas, ou na melhor das hipóteses, criancinhas precisando da mão firme de um 'papai'.

É verdade que em alguns continentes, nos países mais pobres invariavelmente dominados por governantes autoritários, muita gente, talvez até a maioria, se sinta confortável nessa condição, mas não sei se com os americanos a coisa funcione assim.

Velho leitor que sou da civilização americana, desde os célebres enlatados da minha infância como Rintintin, Caravana, O homem do rifle, etc., vi os americanos ao longo de 7 décadas passar a imagem de um povo forte, vigoroso, autossuficiente, cheio de iniciativa, cioso de suas liberdades, etc. Mas, de uma maneira muito especial, eles procuravam deixar a marca de que eram um povo que respeitava as regras… exceto quando se tratava dos nativos locais — mas até isso eles reviram, de sorte que hoje somos nós que temos confrontos violentos com os nossos nativos, enquanto lá reina, aparentemente, a paz e o respeito mútuo.

O fundamento moral inarredável, que sustenta o sistema capitalista, é o respeito das partes ao que foi acertado no contrato. Ora, quando Trump intervém de fora para mudar as regras em favor de sua seleção, ele comete dois erros imperdoáveis na cultura americana:

a) Ele rompe o contrato acertado entre todas as seleções, cumprido com mais ou menos acertos nos últimos 96 anos.

b) Ele passa para o conjunto da nação e para o mundo a seguinte mensagem: vejam como nossa seleção é fraquinha. Eu tenho que intervir para eles não passarem vexame.

É verdade que existem muitas seleções por aí onde o importante é ganhar, seja como for, onde os jogadores se sujeitam aos mais abjetos papelões e fingimentos, dramatizando bizarras bufonarias ao simular faltas. Todos conhecem o passado do Neymar, inclusive naquele célebre jogo com a Sérvia, onde ele, após levar um esbarrão de um jogador adversário, rolou tanto que por pouco não foi parar no vestiário. Teu passado te condena. Que dizer da goleada argentina contra o Peru, na Copa de 78?

Com a sua atitude, Trump envergonhou profundamente a seleção de seu país. E se há uma coisa que o americano médio, ao contrário de outros, O-DEI-A profundamente é ser tratado como um coitadinho. Ele prefere ser tratado como inimigo. Não suportariam avançar na Copa e ler, sabendo ser correto, em todos os jornais, que, se o seu presidente não tivesse dado uma “mãozinha” aos ‘coitadinhos’, eles não teriam seguido em frente.

A apatia da defesa americana nos gols, o erro grotesco do goleiro no terceiro gol, reforçado pelo erro do zagueiro no quarto, que jogou a bola nos pés do atacante e ficou, com os outros, vendo o belga avançar, se posicionar para o chute e fazer o gol. Isso, para mim, é inexplicável! Não diria para um time que quer ganhar, mas pelo menos competir. Para mim, está claro que eles entregaram o jogo.

E a humilhação? A humilhação já acontecera na intervenção de seu anômalo presidente. De um jeito ou de outro, eles sairiam humilhados, mas não foram cúmplices de um desrespeito tão grosseiro às regras do jogo. Não seriam campeões em 2026 como os argentinos o foram em 1978, e se esse foi realmente o caso, então temos razão para acalentar grandes esperanças, para os Estados Unidos da América e para o mundo.

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