A HORA DA COLHEITA
Eduardo Simões
Certa vez, em São Paulo, num dia de eleição, encontrei um colega, professor de física, num posto de gasolina. Eu estava indo votar e ele voltando da votação. Ele, após saber para onde eu estava indo, disse:
— Quando cheguei lá [na seção eleitoral], disse para mim mesmo: ‘essa política está uma palhaçada; aí votei no palhaço’.
“Não faça isso!”, disse eu, de uma forma tão convicta e sincera que ele, que estava agitado, talvez em dúvida sobre a merda que fez, estacou e me olhou arregalado. Disse-lhe, então, que aquilo só servia para piorar a situação, que nós precisávamos votar certo, pelo menos para não agravar... a palhaçada — e, naquela época, ainda tínhamos muita gente boa para votar.
Entretanto, o somatório das pessoas que pensavam como meu colega era muito grande, e o palhaço se elegeu com uma votação consagradora no maior e mais próspero colégio eleitoral do Brasil, para fazer absolutamente nada, pelo país, que mereça um registro, em 16 anos de mandato. Para não dizer que ele não fez nada de notável, ele pediu licença no momento em que a polícia estava pronta para pegar o seu suplente, por corrupção, que, na vaga do ‘palhaço’, entrou no paraíso incólume daquela excrecência do Antigo Regime, chamado foro privilegiado. Escapou!
Mais tarde veio um estilista sem estilo, um desbocado, que, embora culto, era emocionalmente um incapaz, só para protagonizar cenas deprimentes. Que dizer de Brasília, onde o povo negou um fim de carreira decente a um dos mais conceituados políticos da república, Cristovão Buarque, para eleger uma nulidade inexperiente, para um mandato absolutamente apagado? A multiplicação das bizarrices foi dando ao Poder Legislativo, a Casa do Povo, o mais importante Poder da República, um aspecto não de circo, não de mambembe, mas de circo fuleiro, de circo esculhambado, repleto de ‘idiotas’ fingindo-se de ‘palhaços’ e ratazanas infectas da pior espécie.
E assim, graças às iniciativas desastrosas de Ulysses Guimarães e daqueles que, no passado, se apresentavam como lutadores contra o arbítrio, mas que, ao final, ignorando as lições de sua longa vida, decerto por cabular as aulas mais importantes, nos entregaram, via Constituição, uma república completamente fantasiosa — lembro de uma capa da revista VEJA, de 1988, que mostrava os deputados, que elaboravam a Constituição, de pé, no plenário, e uma chamada em letras garrafais dizendo: “De Costas Para o Futuro”, sem falar do livro de Roberto Campos, o eterno profeta desprezado pelos brasileiros, cujo título é: “Uma constituição contra o Brasil”. ELE ESTAVA CERTO!
Essa Constituição maluca parte do princípio de que o maior inimigo da democracia e da prosperidade é o Estado, que essa mesma Constituição organiza! Trata o sistema que ela própria criou como o suspeito número um. É, enfim, um Estado fruto da paranoia e do oportunismo da esquerda e da idiotia dos centristas e liberais envergonhados. E o resultado aí está. Numa ordem em que ninguém tem autoridade, todos se arrogam autoridade, e o que se tem é o aumento da injustiça, da pobreza e, agora, da anarquia.
O mais bizarro dessa... eu não consigo não dizer a palavra 'esculhambação', gerada pelo STF, é que os seus membros passaram a última década arrogando poderes para si, enquanto os retiravam dos outros, constituindo-se em uma espécie de Olimpo do Poder. Um colegiado de autocratas ou divindades monocráticas, impermeáveis ao coletivo fora da ideologia que as impregna, encadeadas umas às outras por acordos e práticas obscuras e não exatamente lícitas ou inocentes. Pisotearam a lei que, supostamente, punha freios a possíveis desmandos de seus membros, perfeitamente previsível num universo de quatro dimensões e pouco mais de uma centena de elementos químicos constitutivos. O resultado é que o país encontra-se hoje, de fato, em flagrante anarquia, no sentido mais etimológico possível desse termo. A FALTA DE LEI VEM DA CASA DAS LEIS.
Depois da última decisão do ex-ministro do presidente Lula, Flávio Dino, atropelando desrespeitosamente o presidente do SUPREMO, a única pergunta, desesperada, que cabe fazer é: AFINAL, QUEM ESTÁ NO COMANDO?
Os brasileiros, como sempre, infelizmente, não quiseram levar seu país a sério. Foram atrás de circo, talvez por temerem ou se sentirem impotentes para construir uma potência, ou só pelo prazer infantil da desordem, como no recreio de uma pré-escola, sem pensar em mais nada nem ninguém. Eu gostaria de rever, hoje, o meu colega de física e perguntar-lhe:
— E aí, está satisfeito com a herança que você vai deixar para a sua filha?
O que deveria ser um circo de palhaços está se transformando em um salão de velório, com vocação para cemitério.
O que assistimos hoje no SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL são quadrilhas de garotos delinquentes disputando a posse, por uma mera questão de prestígio, de um terreno baldio.
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