quarta-feira, 6 de maio de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E 

CANUDOS DEVEM MORRER

A PROFECIA DO BARÃO DE COTEGIPE — 7


A fúria cega dos inimigos.

Uma testemunha ocular desses acontecimentos tem recebido cada vez mais atenção nos meios acadêmicos: o médico e escritor desterrense Duarte Paranhos Schutel, um homem inteligente, mas que, talvez, por um excesso de paixão política, dispersão mental, além de uma tragédia pessoal, fez uma crítica histórica bem precária ao analisar os acontecimentos na Desterro de sua época.

O quadro da chegada dos governistas a Santa Catarina, que ele pinta em seu texto, A República vista no meu canto, um diário pessoal, pinçado por Diego Lunardelli, em seu trabalho de bacharelado do curso de História (7), dá a impressão de uma 'invasão bárbara'. “[Desterro] ocupada sem resistência, nas violências das prisões, nas mais cruéis e angustiosas cenas de encarceramento e deportação — todos seriam feridos atrozmente, sem compaixão, sem dó, homens e mulheres, velhos e crianças. Não houve resistência, nem um sinal de despeito: abandono completo de tudo. Derramou-se a vingança à meia-noite sobre toda a cidade; foi medonho e, ao amanhecer, o sol iluminava cenas de prantos, de dores, aflições” (p. 49 e 50).

É bem possível que a atuação da tropa que ocupou Desterro em 17 de abril de 1894, da qual não temos notícia, tenha sido particularmente opressiva, pois era constituída por jovens cadetes, mais propensos ao radicalismo ideológico, e, por causa disso, podem ter cometido excessos condenáveis. Mas algo no texto de Schutell salta aos olhos. A forma preconceituosa como ele, filho de um suíço emigrado, trata os habitantes da terra, que lutaram para manter Santa Catarina fora da aventura federalista: 

“[Desterro é] entregue à vindita do estrangeiro vitorioso. Estrangeiros, com efeito, foram esses vencedores. Estrangeiro é este ditador elevado ao poder por uma sedição militar que derrubou outro ditador, erguido ele também por uma sedição militar. Estrangeiro, que não sente queimar-lhe as mãos o sangue brasileiro que derrama. Estrangeiro, que nunca viu o azul de nosso céu, que nunca sentiu afagar-lhe o peito a brisa suave de nossa terra. Mas esse estrangeiro… é o poder (25 de abril de 1894, edição online de A República vista do meu canto)”.

Esse recém-chegado acha que tem tais direitos às terras de Santa Catarina, que trata como “estrangeiros” os brasileiros que moravam em outros estados e agora estavam, em missão, no estado. Mas foram justo esses “estrangeiros” que, nos séculos anteriores, cuidaram de Santa Catarina a ponto de torná-la atraente a europeus sem perspectivas no seu continente. 

“As praças, praias e ruas cheias de soldados estranhos, despejados pelos vapores, armados e equipados em campanha, de punhal e revólver, sôfregos, arrogantes, desabridos e insultantes.”

Por que “estranhos”? Por que não eram tão loiros, brancos, nem tinham os olhos tão claros como Schutel e a sua gente, e falavam o português num ritmo aprendido com os inventores da língua? Quem se vê racialmente 'superior' deve sentir muita angústia ao se submeter aos “inferiores”. Schutel compensa a sua sensação de impotência alucinando em seus escritos, como no texto sobre a vitória federalista na Lapa (8), no Paraná, em que ele abusa do maniqueísmo.

Em que pese suas análises racistas, superficiais e partidaristas dos eventos, ele foi uma testemunha ocular de fatos pouco conhecidos e deixa escapar uma informação preciosa nesse trecho pinçado do trabalho de Lunardelli: “as prisões violentas, os arrombamentos e os varejos das casas… o aparato bélico, a fuga de quantos receavam sofrer, as notícias de multiplicidade de prisões, enchendo os cárceres de onde se levava a bordo dos navios os presos [meu destaque]… tudo incutiu rapidamente nos habitantes um tal medo que o comércio e as casas particulares se fecharam e ninguém mais ousou sair à rua.”

 Em outro trecho, datado de 24 de abril de 1894, chamado espalhafatosamente de MACABRA, Schutell diz: “têm sido presos militares e paisanos. Militares que serviram ativamente na Revolução e outros que nela não serviram; paisanos que tomaram armas como voluntários e... ainda outros que nada fizeram… Desses presos, quase todos têm sido embarcados com destino para o Rio de Janeiro”  [meu destaque].

 

 Em diversos trechos de Schutell, ele emprega o termo “deportados”, acentuando o tom preconceituoso e separatista do seu texto, como se a transferência de pessoas para outro estado do Brasil equivalesse a uma mudança de país. No entanto, ele também esclarece uma questão, confirmando o que Moreira César costumava dizer quando questionado sobre os prisioneiros desaparecidos: “enviei-os para o Rio de Janeiro”.

E Duarte Schutell é testemunha.

(Eduardo Simões)

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