A COMPANHIA DOS
MERCADORES AVENTUREIROS NO REINADO DE ELIZABETH I - 1
[Trechos de The
Merchant Adventurers’ Company in the Reign of Elizabeth de George Unwin, em STUDIES
IN ECONOMIC HISTORY: THE COLLECTED PAPERS OF GEORGE UNWIN, Frank Cass & Co. LTD. — Londres e Augustus M. Kelley
— Nova York, 1966, p. 133-221].
O Lugar dos Mercadores
Aventureiros na História Inglesa ao longo do reinado de Elizabeth.
A Companhia dos
Mercadores Aventureiros forneceu o único canal autorizado para a maior e mais
lucrativa parte do comércio exterior da Inglaterra. Ela detinha o monopólio
do comércio realizado por súditos ingleses com os Países Baixos e a Alemanha,
em virtude do qual controlava não apenas a importação da maioria dos artigos de
fabricação estrangeira usados na
Inglaterra, mas também
a exportação
da principal manufatura da Inglaterra — seus tecidos de lã. O exercício desse grande
privilégio
comercial acarretava um grau correspondente de influência sobre as
atividades econômicas do país. Determinava o fluxo de capital que
fertilizava os setores da indústria nacional. Com esses poderes e privilégios,
e, de fato, como a principal justificativa para a posse deles, a Companhia dos
Mercadores Aventureiros desempenhava funções fiscais da maior magnitude e
importância. Ela fornecia o principal órgão para a
tributação do comércio exterior.
Em certos períodos, a
Companhia adiantava dinheiro ao Governo com a garantia dessa tributação e
servia como mecanismo para o reembolso das grandes somas que o Governo havia
tomado emprestado de financistas internacionais. Em suma, a Companhia
desempenhou o papel — involuntariamente e, de fato, sob coação — que o Banco da
Inglaterra, um século depois, assumiu como sua atividade principal. Diante
desses fatos inegáveis, fica suficientemente claro que não podemos esperar
obter qualquer compreensão adequada da história econômica elizabetana, seja do
ponto de vista do comércio, da indústria ou das finanças, sem um estudo
cuidadoso da Companhia dos Mercadores Aventureiros.
A importância dos
Mercadores Aventureiros é discutida… Tem-se afirmado sobre eles (quase
inteiramente em bases teóricas) que foram os protagonistas de um grande
conflito internacional, os instrumentos de uma política visionária, por meio da
qual a supremacia comercial e industrial de seu país pelos séculos vindouros
foi estabelecida. “Ao auxílio efetivo dos Aventureiros”, diz o Dr.
Lingelbach, “deve-se em grande medida o sucesso da política comercial dos
primeiros Tudor. Eles conquistaram o comércio inglês dos estrangeiros e
lançaram para os ingleses as bases para sua posterior supremacia comercial… Foi
por meio da Sociedade dos Aventureiros que Gresham conseguiu restaurar o
crédito financeiro do reino e reverter a taxa de câmbio a favor da Inglaterra
em um período extremamente crítico.”
Mais tarde, ao falar
sobre a luta da Companhia dos Aventureiros contra a Liga Hanseática, o Dr.
Lingelbach afirma: “Os rivais [os Mercadores de Lã e a Liga Hanseática]
representavam não apenas os interesses de organizações comerciais; eram os
expoentes de grandes interesses nacionais e representantes de civilizações
rivais, tanto políticas quanto industriais. Foi uma luta entre os
representantes da organização medieval e do sistema federativo da Liga
Hanseática, por um lado, e os expoentes do crescente nacionalismo e da
monarquia centralizada, por outro. […] Mesmo antes do reinado de Elizabeth,
quando a luta finalmente terminou, os mercadores ingleses, apoiados pela
política firme dos primeiros Tudor, já haviam enfraquecido seriamente a posição
da Liga Hanseática na Inglaterra. Mas os Aventureiros não cessaram a guerra com
seu sucesso em casa. Eles invadiram o próprio território da Liga Hanseática, a
convite de uma das principais cidades hanseáticas. […] A recepção da Companhia
em Hamburgo tornou-se a cunha que contribuiu significativamente para a ruptura
da Liga das Cidades Hanseáticas.”
.....
De todos os Estados
europeus do século XVI, a Inglaterra, segundo ele, foi a que adotou a política
econômica mais consistente. Nesse aspecto, foi favorecida por suas condições
naturais e seu desenvolvimento político. Seu caráter insular e a unidade das
alfândegas tornaram viável um controle mais rigoroso do comércio exterior do
que era possível nos Estados continentais. A expansão da manufatura
têxtil, que o governo havia fomentado por todos os meios à sua disposição,
tornou a conquista de mercados estrangeiros uma necessidade primordial da
política inglesa, e na Companhia dos Mercadores Aventureiros encontrava-se um
instrumento quase perfeito para essa política. Os artesãos têxteis das cidades
alemãs eram impedidos, pelo alto custo de vida e pelas regulamentações de suas
guildas, de competir com a mão de obra rural inglesa. Os comerciantes e
financistas do sul da Alemanha preocupavam-se mais com seus lucros comerciais
do que com a prosperidade industrial de seu país. Não havia um Estado
poderoso na Alemanha para proteger os artesãos, para obrigar os interesses
mercantis conflitantes a se subordinarem ao bem maior da comunidade e para
manter os privilégios consagrados pelo tempo dos comerciantes alemães em países
estrangeiros. Se necessário, pelas armas.
Não é de admirar,
portanto, que a Inglaterra de Elizabeth, embora ainda muito inferior à
Alemanha em todas as artes industriais, na técnica do comércio e no poder do
capital acumulado, tenha sido capaz, pelo gênio de seus estadistas, de usar a
força irresistível de um povo unido para seguir uma política tão resoluta e
implacável quanto sutil e visionária, para romper as tímidas e vacilantes
defesas da Liga Hanseática e de lançar os alicerces de sua supremacia econômica
sobre as ruínas do comércio e da indústria alemãs… [A Companhia era] o
centro natural no qual as demais atividades econômicas — comerciais,
industriais, financeiras — se articulavam como uma espécie de órgão vivo,
através do qual essas atividades eram sintetizadas com sucesso.
Cabe a nós, como
estudiosos da história, examinar com espírito crítico as premissas em que essas
mudanças se baseiam. Em primeiro lugar, partimos do pressuposto da existência
de uma ligação, uma estreita interação, entre a administração financeira do
governo de Elizabeth, a organização e expansão do comércio
e o desenvolvimento da indústria nacional; e partimos ainda do
pressuposto de que essa tríplice ligação encontra seu foco natural na Companhia
dos Mercadores Aventureiros.
A segunda suposição
é muito mais ampla e questionável. Tem-se assumido como certo que as
interações entre finanças públicas, comércio e indústria eram dirigidas de cima
para baixo pelo governo, segundo uma política consciente, ponderada e
consistente, concebida e adotada no interesse do povo. E resta uma terceira
suposição, de longe a maior das três, que, pela sua própria amplitude,
deveria despertar o espírito crítico do historiador científico. É a de que esta
política de Elizabeth, ou de seus estadistas, não só foi bem-sucedida na época,
como também, pelos resultados permanentes que alcançou, tem sido um dos
principais fatores do progresso nacional desde então.
.....
Passando, então, à primeira parte da minha tarefa — estabelecer e ilustrar a posição dos Mercadores Aventureiros como um elo entre a administração financeira do Estado, por um lado, e o conjunto da indústria e do comércio nacional, por outro — não posso expressar melhor a natureza dessa relação do que dizendo que a Companhia dos Mercadores Aventureiros constituía um pilar da produção têxtil. Ou seja, em meados do século XVI, eles passaram a ocupar a mesma posição privilegiada e exclusiva, no que diz respeito à exportação de tecidos, que a Companhia dos Mercadores de Lã ocupara por quase exatamente dois séculos no que diz respeito ao monopólio da exportação de lã. Essa posição, aliás, os Mercadores de Lã ainda ocupavam. Mas a importância do comércio de exportação de lã vinha diminuindo constantemente há cerca de um século, enquanto, durante o mesmo período, a importância da exportação de tecidos havia aumentado proporcionalmente. O imposto de exportação sobre a lã foi, ao longo da Baixa Idade Média, um dos principais recursos fiscais do governo.
Nota do tradutor
A partir daqui, o autor, George Unwin,
trabalhará com o conceito muito conhecido na realidade inglesa da Idade Média e
Moderna de ‘staple’ e ‘stapler’, que, embora literalmente signifique ‘grampo’ e
‘grampeador’, referindo-se àqueles períodos, dependendo do contexto, pode ter
uma significação muito rica e diversificada comercialmente falando. Eis o que
diz sobre o conceito a Wikipedia em inglês:
“Nos documentos latinos medievais, a
expressão comum para 'staple' é 'stabile emporium', um mercado
fixo, onde tais mercadorias tinham que ser trazidas; daí a suposta derivação de
'staple' para 'stabile' [estável].”
Mas a palavra é corrente em
vários significados afins nas línguas germânicas, armazém; estação,
um ponto de parada, geralmente uma cidade ou mercado onde certas mercadorias
eram trazidas à venda, e daí chamadas de 'mercadorias básicas'. A ideia
original, portanto, parece ser mais um marco [sinal] ou plataforma
elevada acessada por degraus e preparada para uma venda conveniente
de mercadorias.
Segundo John Weever, um
antiquário do século XVI, a cidade staple
[staple town] é “um lugar para o qual, por autoridade e privilégio do
príncipe, lã, peles de animais, vinho, milho ou grãos e outras mercadorias
exóticas ou estrangeiras são transferidas, transportadas ou levadas para serem
vendidas”.
O Staple: “era um sistema estabelecido pelos governos para designar
cidades ou portos específicos onde determinadas mercadorias deviam ser
comercializadas ou exportadas, servindo como centros regulamentados de comércio
e tributação que facilitavam o controle sobre o comércio, a receita e os
padrões de qualidade. Era particularmente comum na Europa medieval” [Ou
seja, era um termo que designava ao mesmo tempo: a) um tipo de política
comercial externa baseada essencialmente no monopólio, b) cidades e portos específicos
onde essa política era efetivada, c) um escritório de representação comercial
estrangeira (= entreposto ou feitoria), d) um grupo de mercadorias cujo
comércio o estado tinha interesse em controlar, ‘produtos básicos’ — poderíamos
dizer produtos ou commodities estratégicas].
“Era uma instituição fundamental
na Inglaterra medieval que designava cidades para a exportação
ultramarina de produtos essenciais como a lã, permitindo à Coroa monitorar e
regular o comércio exterior e arrecadar taxas alfandegárias de forma eficiente.
Era parte de um sistema geral de Staples [entrepostos] utilizado no
comércio medieval.
Nas cidades designadas, muitas vezes
referidas como cidades de produtos básicos ou “ Portos de Produtos
Básicos”, os comerciantes credenciados eram obrigados a submeter as suas
mercadorias à inspeção e a pagar uma taxa, como o subsídio da lã, à Coroa,
sobre as mercadorias para exportação para o continente
europeu. Estes comerciantes viriam mais tarde a organizar-se
como Mercadores do Staple ou de Lã, o produto mais comercializado da
Inglaterra.
The Company of Merchants of
the Staple of England (Companhia dos Mercadores de Lã — ou Produtos Básicos — da
Inglaterra) é uma empresa incorporada por Carta Régia em
1319, talvez a corporação mercantil mais antiga da Inglaterra, que
negociava lã, peles, chumbo e estanho e controlava a
exportação de lã para o continente durante o final da Idade Média. A Companhia
dos Mercadores de Lã pode, talvez, traçar sua ancestralidade até
as Guildas de Mercadores, já em 1248, ou até mesmo antes (o seu
endereço atual é https://merchantstaplers.co.uk/).
O sistema inglês de staples,
surgido em 1314, permaneceu em vigor por quase dois séculos, embora sua
importância tenha diminuído à medida que as exportações de tecidos acabados
substituíram as exportações de lã bruta. Com a queda de Calais para os franceses,
em 1558, a produção de tecidos básicos voltou a ser concentrada em Bruges. A
partir de 1617, as exportações de lã foram completamente interrompidas, e
apenas os tecidos básicos para consumo interno permaneceram na Inglaterra.
Porto de staple ultramarinos
Sob o regime do Staple, o
porto designado era frequentemente ultramarino. Foi em Dordrecht em
1338 e em Bruges em 1343 [Holanda e
Bélgica respectivamente]. Por um período após 1353, portos do Staple foram
estabelecidos na Inglaterra, sob o Estatuto do Staple [assinado em
outubro de 1353].
No entanto, a partir de 1363 [durante a Guerra dos Cem Anos], Calais foi designada
o principal porto para exportação de lã e couro. Toda a lã vendida no exterior
era levada primeiro para Calais, sob controle inglês. Calais era chamada de “o
Porto Principal”. O comércio era dominado pelos Mercadores de Staples que,
a partir de 1363, haviam recebido o direito exclusivo de comercializar lã bruta
em Calais.” (Wikipedia em inglês).
Como vemos, ‘staple’ pode significar: a política de monopólio ou controle do comércio externo por parte do governo; o tablado de madeira sobre o qual ficavam as mercadorias amostra a serem negociadas; comércio de lã; a cidade onde se realizavam essas operações, também chamadas de entrepostos ou feitorias; monopólio comercial; matéria-prima ou produtos básicos, aqueles que eram economicamente significativos para o comércio externo inglês. Nessa tradução, vou utilizá-lo mais no sentido de monopólio comercial, entreposto ou produtos básicos — de certa forma, o termo ‘produto básico’ significaria hoje ‘produto estratégico’.
Em 1557, a taxa de exportação de tecidos foi revista
e consideravelmente aumentada, com o objetivo de torná-la uma fonte de receita
igualmente satisfatória. Foi nessa época, entre 1553 e 1564, que a Companhia
dos Mercadores Aventureiros alcançou uma posição oficial e exclusiva como
principal exportadora de tecidos. Informalmente, ela era reconhecida como o
principal exportador, e se essa fama não se tornou generalizada foi para evitar
confundir os Aventureiros com a Companhia dos Comerciantes de Lã, que ainda
exercia seus antigos direitos e privilégios, embora muitos de seus membros
tivessem considerado necessário transferir seus negócios de exportação para o
comércio de tecidos.
Na realidade, porém, a organização dos Aventureiros
adquiriu, na época da ascensão de Elizabeth, o monopólio dos produtos básicos.
Ela havia destronado os Mercadores de Lã de sua posição central de preeminência
fiscal e comercial, e suas relações com o governo e com a indústria nacional
eram, em essência, as mesmas que as relações anteriores dos Mercadores de Lã.
Pelo que foi dito, creio ser desejável abordarmos o estudo da Companhia dos
Mercadores Aventureiros por meio de uma breve análise da história anterior da
Companhia dos Mercadores de Lã, sobretudo porque os assuntos das duas
companhias sempre estiveram vitalmente relacionados, por cooperação ou
hostilidade, e porque parece provável que ambas tenham surgido, em princípio,
de uma raiz comum.
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