GUERRA DO PARAGUAI: OS PARAGUAIOS QUEREM O SEU CANHÃO DE VOLTA
Eduardo Simões
Os paraguaios, agora, fazendo-se de vítimas, se manifestam cheios de razão, quase exigindo que o Brasil lhes devolva o famoso canhão El Cristiano, que se encontra em um museu do Rio e fazia parte da bateria London, na fortaleza de Humaitá, forjado com os sinos de várias igrejas de Assunção — mostrando a balela da prosperidade do Paraguai sob López.
Eles esquecem-se, convenientemente, do vil, que foi um infame, vil e criminoso ato de pirataria, DELES, que deu início a essa guerra: a captura do navio de passageiros Marquês de Olinda, em 12 de novembro de 1864, em ASSUNCIÓN, retendo sete oficiais militares brasileiros a bordo, entre os quais o coronel Frederico Carneiro de Campos, recém-nomeado governador do Mato Grosso, e, mais tarde, o cônsul do Brasil em Assunción, Amaro José dos Santos Barbosa, que quis ficar para acudir os brasileiros aprisionados.
O canhão em si não é nada e não vai mais ser utilizado. Mas agora ele é um símbolo a nos lembrar que milhares de nossos antepassados morreram ao redor da fortaleza que ele guarnecia, para preservar a integridade do território e da honra nacional, assim como libertar os passageiros do Marquês de Olinda que sofriam tortura e padeciam fome e péssimas condições sanitárias no paraíso lopista. Só dois sobreviveram.
O nosso cônsul. Um civil inofensivo. Foi espancado impunemente nas ruas de Assunción, assim como um funcionário da embaixada, Juan Barbosa, que ao dar queixa na polícia foi qualificado como ‘castigado’ e não como vítima (Doradioto, Maldita guerra, 2ª edição, p. 69). O final desses prisioneiros foi tétrico:
“Na batalha de Curupaiti, Amaro Barbosa e outros prisioneiros foram colocados em lugar de alcance das balas dos canhões da esquadra brasileira… [que f... !] No final, Santos Barbosa acabou não resistindo à exaustão física e morreu prisioneiro em Humaitá, em fevereiro de 1868, agonizando sobre um pedaço de couro, exposto ao relento [como se fosse um animal selvagem!] (idem p. 69).”
Como devolver El Cristiano depois de tudo isso? Mas parece que podemos chegar a um acordo. Eles devolvem os ossos desses homens, que sofreram uma brutalidade desumana pelo simples fato de serem brasileiros, pois sequer foram usados como moeda de troca, a fim de que lhes construamos um monumento gigantesco, digno do seu sacrifício, e, conferida a autenticidade dos ossos, devolveríamos o canhão.
Uma lata velha de uma ditadura fracassada pelos ossos de vários mártires da pátria brasileira. Creio ser justo.
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