sexta-feira, 7 de agosto de 2026

 

GUERRA DO PARAGUAI: DE QUEM É A CULPA?

[Na foto, o terceiro em pé da esquerda para a direita é o cabo 'Chico Diabo', o homem que lanceou e matou Solano López. O terceiro sentado, no mesmo sentido, é o fazendeiro gaúcho Joca Tavares, que ganhará renome na Revolução Federalista de 1893–95].

Eduardo Simões

Não existe pergunta mais inadequada para ser feita a um historiador, digo a um historiador científico, não um escritor de galantes fantasias, nem tampouco um motivo para iniciar uma pesquisa científica na área, do que esse.

Um historiador não é um hagiógrafo, não busca a ‘verdade’, mesmo porque a única verdade que ele pode encontrar é a sua própria, e nenhuma outra, mas antes levantar os fatos que aconteceram e hipotetizar relações entre eles, de tal sorte que o significado daquilo que os antecedeu e os sucedeu fique mais claro, para as pessoas poderem, por meio de uma nova compreensão da história, aprimorar suas decisões e o seu comportamento na sociedade, além de aprimorar as futuras abordagens dessa ciência.

Mas o que fazer quando lidamos com gente imatura, despreparada ou condicionada a procurar na história, e em outras manifestações das ciências sociais, fórmulas prontas, ditos morais, condenações explícitas ou absolvição prévia, como aqueles ‘historiadores’ que classificam os grupos sociais como ‘oprimidos’ e ‘opressores’, negando, com esses conceitos, a própria história. O que sobra é mitologia, na qual a ciência entra como uma etiqueta ou um engano.

Entre os elementos que precisamos considerar, o mais precioso é o contexto geral da época, e considerar os objetivos gerais conflitantes, no qual podemos discernir:

a) O Brasil, a única monarquia e o único país estável e democrático da região, que precisava preservar a liberdade de navegação na bacia do Prata, por razões políticas e econômicas, enquanto outras questões menores, pois ele...

a.1. tem um contencioso territorial com o Paraguai, por causa de áreas adjacentes à fronteira paraguaia, já ocupadas por populações brasileiras.

a.2. teme a instabilidade na Argentina e o aparecimento de caudilhos nesse país que sonham, como Rosas, em anexar o Uruguai. O Brasil precisa negociar com dois centros políticos no país, com políticas diferentes em relação à região: um em Buenos Aires e outro na cidade de Paraná, onde o caudilho Urquiza manda. Tem também um contencioso fronteiriço com esse país.

a.3. teme a instabilidade e as guerras civis no Uruguai que tendem a atrair estancieiros gaúchos ou expandir tropelias para dentro do território nacional.

a.4. busca, de uma maneira geral, ajudar o Paraguai para que se torne um tampão contra possíveis pretensões argentinas, mas também teme que este adquira um peso importante no delicado equilíbrio geopolítico regional.            

b) A Argentina tem um ‘espinho atravessado’ no fato de o Paraguai se recusar a submeter-se e tornar-se mais uma província do país, revivendo o antigo Vice-Reino do Prata, dando-lhe mais musculatura para enfrentar a influência do Brasil na região, inclusive com o poder de fechar e abrir a navegação na bacia do Prata de acordo com seus interesses. O Paraguai, no passado recente,  derrotou uma força argentina que vinha anexá-lo; portanto, o contencioso entre ambos é mais grave que o contencioso do Paraguai com o Brasil.

b.1. tem problemas internos gravíssimos, duas províncias, Entre-Rios e Corrientes, têm pretensões autonomistas e se recusam a obedecer ao governo de Buenos Aires. Essas províncias são governadas por Urquiza, mais favorável ao pleito brasileiro de livre navegação na bacia.

b.2. nesse período, as duas províncias entram em guerra civil com o governo de Buenos Aires e são vencidas. O país se une sobre Mitre, mas intranquiliza o Império devido à política intervencionista daquele.

b.3. teme a influência brasileira na região; por isso, defende, mas sem convicção, a autonomia do Uruguai. Nesse período, Mitre apoia e incentiva o grupo de oposição armada uruguaio, liderado por Venâncio Flores, contra o governo central eleito de Bernardo Berro, dando início a uma guerra civil no Uruguai, aparentemente por não tolerar o aumento da influência paraguaia no país.

b.4. o país quer, com muito cuidado, evitar que o Brasil fique poderoso demais na região, em especial no estuário do rio da Prata, que considera sua área de influência incontestável.

c) O Uruguai foi uma criação da diplomacia inglesa para evitar a perpetuação da instabilidade e da guerra numa zona comercialmente muito importante para suas empresas. Ele deve ser um estado tampão entre as pretensões hegemônicas-territoriais do Brasil e da Argentina.

c.1. o país vive às turras com o Brasil devido aos incidentes de fronteiras derivados do belicismo personalista dos gaúchos de um lado e de outro da fronteira.

c.2. Tentando evitar sua anexação pela Argentina, o Brasil invade o Uruguai para defender o governo legal do país contra o caudilho Uribe e o grupo de Buenos Aires. Apesar da vitória da legalidade, ficaram mágoas pela intervenção e pelo tratado de aliança de 12 de outubro de 1851. Em 1860, sobe ao poder Bernardo Berro, com uma plataforma radical antibrasileira.

c.3. para enfrentar o Brasil, Berro e seu sucessor colocam-se sob a proteção do guarda-chuva paraguaio, alimentando o ditador paraguaio com toda sorte de notícia falsa contra o Brasil. A colocação do Paraguai, a chamado do Uruguai, no centro das questões platinas deixa o Império de sobreaviso.

c.4. escorado pelo Paraguai, o governo do Uruguai escala contra o Brasil, ignorando apelos de negociação, queimando os tratados de 1851, promovendo o arrasto da bandeira do Brasil pelas ruas de Montevidéu.

d) O Paraguai, que até ali se mantivera isolado do mundo, governado por uma ditadura totalitária, sentindo a necessidade de quebrar o isolamento, para promover o seu progresso, resolve tornar-se um agente de primeiro plano na região platina — fala-se de um plano de incorporação, ou uma aliança muito bem amarrada, com as províncias argentinas e o Uruguai garantindo ao país portos no Atlântico.

d.1. a sua maior preocupação é com a Argentina, por isso ele procura, num primeiro momento, uma aliança com as duas províncias de Urquiza, que a princípio concordam. As tentativas do Paraguai em desestabilizar a Argentina preocupavam o Brasil. Essa aliança, porém, se desfará na batalha de Pavón, quando Mitre derrota Urquiza e unifica o país sob seu comando, basicamente hostil a López.

d.2. contra o Brasil, López prevê, no seu avanço para o Uruguai, o controle da bacia platina e o seu fechamento e o asfixiamento da região central do Brasil,  até conseguir um acordo favorável sobre as fronteiras com o Mato Grosso (do Sul).

d.3. a aproximação com o Uruguai chegou às raias do ridículo. Lopez, que não tinha corpo diplomático, fez dos representantes comerciais do Uruguai no seu país, seus informantes sobre o que se passava do lado de lá da fronteira. Eles saturaram os ouvidos do ditador com as mais absurdas fantasias; tanto que ele ficou muito surpreso com a chegada em Assunção do navio de passageiros Marquês de Olinda, em 12 de novembro de 1864, e mais ainda por ele não ter as armas que o seu informante uruguaio lhe dissera.

Como vemos, o quadro, na sua imagem visível, beirava o caos, e se a isso acrescentarmos a instabilidade psicológica-emocional dos agentes envolvidos, as suas fragilidades pessoais, preconceitos e expectativas futuras, com certeza temos o caos e, com o caos, quem pode agir adequadamente para prevenir um desastre? Só se pode precatar-se contra seus efeitos terríveis que virão mais cedo ou mais tarde e que, neste caso, foram quase 5 anos de matanças onerosas e inúteis.

Esse quadro, portanto, não se explica só pelas iniciativas de um e de outro isoladamente, mas de todos os principais atores envolvidos: nesse caso, governantes e diplomatas, e até comerciantes avulsos, no caso paraguaio. Qualquer um, apesar de seus parcos recursos individuais, poderia iniciar a deflagração do evento, que começa justamente no Uruguai. Esse contexto explosivo também não se explicava somente pelos acontecimentos do presente, mas pelo conjunto das experiências passadas por cada uma dessas nações e das medidas que, ao longo do tempo, seus governantes tomaram a respeito de como deveria ser compartilhado o controle da bacia do rio da Prata, que as levaram a um impasse no qual a guerra era, de longe, a saída mais próxima.

Essa guerra, portanto, foi o resultado natural, espontâneo, das vicissitudes vividas por cada um dos beligerantes ao longo de sua história. Medidas prévias poderiam tê-la evitado. Mas quais?

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