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GUERRA DO PARAGUAI: O PAPEL DA BACIA PLATINA
Eduardo Simões
A bacia do Rio da Prata corresponde a uma área de 1,4 milhão de quilômetros quadrados, para onde confluem as águas de alguns dos principais rios do continente — Paraná, Paraguai e Uruguai — antes de desaguarem no estuário do Prata. A importância desses rios deve-se, principalmente, ao seu papel no transporte das riquezas produzidas nessa região pelo Paraguai, Argentina, Uruguai e Brasil, assim como rota de chegada das mercadorias que vinham do exterior.
Para o Brasil do século XIX, a liberdade de navegação era vital, pois era a única rota de comunicação viável com as províncias do centro-oeste, em especial o Mato Grosso, que nesse período não estava unido aos portos do litoral brasileiro por outro meio de transporte. Estradas ou ferrovias. Voltados para a Europa, econômica e tecnologicamente estagnados, ficamos à mercê dos rios dessa bacia, para viabilizar nossa posse de vastas regiões no centro da América do Sul.
Ao contrário do Brasil, porém, os países hispânicos da região viam no controle da navegação do rio uma importante fonte de arrecadação e de controle estratégico, seja pela cobrança de pedágios, seja pelo fechamento do rio a um país que o detentor dos direitos sobre o rio quisesse prejudicar. Para complicar a situação, após a independência, os países da região entraram numa profunda crise de identidade, à medida que as elites tentavam impor reformas liberais em sociedades predominantemente autoritárias e acostumadas ao Antigo Regime dos monarcas absolutos, agora travestidos de ditadores ou na exótica figura dos caudilhos sul-americanos.
A luta caudilhesca pelo poder não conhecia medidas. Logo, esses países viviam mergulhados em crises econômicas crônicas, fruto de guerras civis e de conquistas intermináveis, tudo para ampliar o prestígio do caudilho ou do grupo que lhe dava suporte, sem falar de questões de fronteiras que se arrastavam desde o tempo dos impérios ibéricos. Era o caos. Desse caos, o Brasil se livrou mais rápido, graças à herança portuguesa deixada após a independência: uma estrutura de estado ‘moderno’ já montada, com o seu mandatário já sentado no trono, com um projeto dinástico já definido. Ganhamos no curto prazo.
Ciente de sua fragilidade e sem recursos para atender, ao mesmo tempo, os custos da burocracia imperial, a fragilidade do sistema econômico — dependente dos mercados externos e da mão de obra escravizada — e construir uma infraestrutura de estradas com as áreas centrais do país, o Brasil aferrou-se ao império de manter livre a navegação na bacia do Prata, para não perder completamente contato com o centro do país. Todas as intervenções brasileiras tinham isso como meta.
A última coisa que interessava ao Brasil era a criação de uma grande potência no centro do continente, dominando o curso médio e final dos rios que desaguavam no rio da Prata, e essa meta estratégica chocava-se com a do Paraguai de Solano López, que desejava uma aliança com caudilhos no Uruguai, e assim obter o controle do curso médio dos principais rios, e, de quebra, portos no Atlântico, fosse pela fusão com o Uruguai, fosse por acordos comerciais privilegiados. Entre 1825 e 1828, o Brasil guerreou com a Argentina justamente para que isso não acontecesse. Com o domínio do Uruguai, a Argentina controlaria as duas margens do estuário; logo, a substituição dela pelo Paraguai não seria aceita, ainda mais porque Brasil e Paraguai tinham divergências territoriais lá nas áreas centrais.
Havia também, na fronteira do Rio Grande com o Uruguai, constantes escaramuças devido às características da cultura gaúcha que aí se desenvolveu, muito personalista e belicista, ocasionando confrontos intermináveis entre criadores brasileiros e uruguaios. Nessa ocasião, as lideranças políticas gaúcho-brasileiras faziam muita pressão contra os políticos na corte, ameaçando elas próprias armarem suas forças e invadirem o país vizinho para deterem os ataques. Seja porque temesse outra farroupilha, seja porque fossem fracos ou cheios de prevenção contra os vizinhos — que também tinham muita prevenção, inclusive racial, contra os brasileiros — ou um pouco de tudo isso, o gabinete do Império resolveu assumir a causa dos gaúchos. Foi enviado um ultimato ao governo do Uruguai, exigindo proteção dos brasileiros no Uruguai e indenização pelos ataques na fronteira. Naquele momento, porém, o governo local estava nas mãos de um grupo hostil ao Brasil, que não só rejeitou o ultimato como queimou, em praça pública, acordos antes firmados com o Brasil.
No dia 10 de agosto de 1864, o presidente Atanasio Aguirre, do Uruguai, recebe do representante brasileiro o informe de que as forças brasileiras, em virtude do fracasso das negociações, vão intervir no Uruguai; no dia 11 de agosto o almirante Tamandaré recebe ordem para entrar em operações; em 24 de agosto os navios da esquadra brasileira fazem fogo sobre a canhoneira uruguaia Villa del Salto, que foge para a Argentina; no dia 30 de agosto o Uruguai corta relações diplomáticas com o Brasil; no dia 12 de outubro uma brigada do exército brasileiro invade o Uruguai, tomam a cidade de Melo e a entregam ao grupo uruguaio de oposição a Montivideo, voltando ao Rio Grande do Sul; em 1º de dezembro, devido a dificuldades de mobilização e recursos, o exército brasileiro conseguiu juntar força suficiente para iniciar a invasão do Uruguai.
A guerra começara.
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