segunda-feira, 10 de agosto de 2026

  


 O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA - 35


Na ilustração acima, o Papa Pio IX, com o seu secretário, assiste à impressionante chuva de meteoros ocorrida em 27 de novembro de 1872, de uma varanda do Vaticano, dois anos após a fatídica queda de Roma para a República Italiana. O fenômeno foi consequência da entrada da Terra, em seu movimento orbital, nos fragmentos do cometa 3D/Biela, colapsado entre 1842 e 1843, quando milhares de asteroides riscavam o céu. Muitos viram nisso um aviso do fim do mundo como castigo pelos sofrimentos impostos ao Papa.

Uma igreja em transe

No dia 17 de junho de 1794, 16 freiras carmelitas descalças do mosteiro de Compiègne, no interior da França, foram condenadas à morte por não quererem renunciar à sua vida religiosa, tornando-se rés dos crimes de 'fanatismo' e conspiração contra a República.

Sobre esse evento, contam-se duas histórias, que os católicos reputam como edificantes:

a) Quando as freiras chegaram numa charrete à mais famosa prisão de Paris, a Conciergerie, uma das freiras, octogenária, manca e com as mãos amarradas, foi chutada para fora, arrebentando-se na calçada, ferindo a cabeça. Ela se levanta, o agradece: "obrigado por não me matar, assim vou poder morrer por Cristo depois."

b) As freiras chegam ao cadafalso cantando um hino do século IX, Veni Creator Spiritus, e, à medida que iam para a guilhotina, ajoelhavam-se diante da superiora, pediam a sua bênção e licença para morrer, sempre cantando. Por fim, foi a vez da madre superiora, ante o silêncio da multidão presente.

Em seu combate contra o 'fanatismo', as autoridades revolucionárias francesas frequentemente se comportaram como fanáticas: a) Em alguns crimes, como o das freiras, se negava advogado aos réus; b) não davam nenhum prazo para recurso — as freiras foram condenadas pela manhã e decapitadas à tarde; c) não guardavam registro do que foi dito no julgamento, mas somente as peças acusatórias e a sentença, o que dificultava as tentativas de revisão dos casos; d) a rapidez com que os promotores aceitavam as acusações mais levianas transformou os tribunais em fábricas de sentenças de morte.

Calcula-se que em toda a França foram proferidas em torno de 40 mil sentenças de morte, no curto espaço de cerca de 10 anos, algumas muito desumanas. Em Nantes, onde a autoridade revolucionária optou pela técnica do afogamento em massa no rio Loire. O comissário Fouché, de Lyon, um homem de origem humilde, mas que sabia cuidar de seus interesses (morreu muito rico), preferia juntar os prisioneiros numa aglomeração e disparar contra eles a metralha de um canhão.

Mas podemos ver também fanatismo na postura das freiras, afinal, elas estavam renunciando a um instinto básico por uma abstração religiosa, na esperança de uma vida nova, em um lugar impossível de ser descrito. Um estado que trata supostos fanáticos da maneira acima pode ser classificado como esclarecido? Em alguns afogamentos em Nantes, pessoas foram presas em porões de navios que seriam afundados. Numa dessas ocasiões, havia um velho cego de 78 anos, doze meninas, quinze crianças: dez com idade entre 6 e 10 anos e cinco bebês em fase de amamentação (5).

A impressão é que o termo fanático se refere a alguém que luta até a morte por aquilo em que acredita. Mas não é dessa mesma argila com que se moldam os heróis nacionais? Esse termo, 'fanático', jamais deveria aparecer como categoria de análise em um estudo de história científica, exceto em citações de documentos antigos.

Os habitantes de Canudos não eram fanáticos, mas pessoas que tinham uma estima enorme pelo seu modo de vida e queriam preservá-lo o mais intacto possível, à revelia das determinações do governo e da Constituição do Brasil. E, embora houvesse coisas nesse modo de vida que, mesmo naquela época, seriam condenáveis, como a intolerância religiosa, o personalismo autoritário, etc., isso não os torna réus de pena de morte em lugar nenhum.

A atuação dos revolucionários franceses foi traumática para a Igreja Católica, que frequentara até ali os palácios reais do país. Calcula-se que cerca de 3 mil padres, bispos e religiosos foram executados nesse período. Mas, como a Igreja recebeu o apoio de quase todos os países da Europa, inclusive os protestantes, a dor do impacto arrefeceu logo, diferente da perda de Roma, em 1870.



Nesse ano, em 20 de setembro, o exército do reino do Piemonte, que encabeçava a luta pela unificação da Itália, irrompeu pela Porta Pia e, após um breve combate, assenhorou-se da cidade, para transformá-la na capital do Reino da Itália, tomando-a da Igreja Católica, dando início à Questão Romana. Dessa vez, nem os estados católicos apoiaram a Igreja.


O jovem major Giacomo Pagliari (48 anos) da tropa de elite dos 'bersaglieri', conhecidos pelos penachos no chapéu, cai mortalmente ferido no momento em que as tropas italianas irrompem pelas muralhas de Roma. Pio IX, desastradamente, recomendou às suas tropas uma defesa apenas simbólica àquela agressão, que causou 49 mortes entre os italianos e 19 entre seus soldados, e que gerou um profundo ressentimento nos italianos contra o Papa e a Igreja que ele personificava. 

O Papa, na ocasião, era Pio IX, uma personalidade complexa e contraditória, que assumiu a função, em 1846, como um campeão do liberalismo e da modernização da Igreja. Ele era um homem de boa vontade que queria dialogar com o seu tempo, mas, até por questões de saúde não estava bem preparado. Não suportava a grande pressão típica do jogo diplomático, às vezes reagia com um movimento excessivo na direção oposta. Ele se desequilibrava quando se sentia encurralado.

Na Questão Romana, ele se fechou em copas. Toda vez que os representantes do rei Vitor-Emanuel II vinham negociar o status de Roma e as condições para o Papa continuar exercendo o seu ministério na capital da Itália, ele dizia: "não estou autorizado a tratar desse assunto." Como os italianos e os romanos não abriam mão da cidade, Pio IX foi deixado de lado.

Isolado, Pio IX declarou-se prisioneiro do estado italiano e nunca mais participou de qualquer cerimônia pública como chefe de estado, sequer da bênção ao povo na janela de seu palácio, que ficou trancada no seu pontificado, no de Leão XIII, Pio X, Bento XV, Pio XI, até a concordata de 1929.

Em uma área, porém, Pio IX deixou uma marca poderosa: no zelo pela formação moral e intelectual dos padres, aumentando as exigências sobre o comportamento destes e a correta exposição da doutrina, para melhor enfrentar um mundo em fuga acelerada dos antigos valores cristãos. Noutras palavras: em termos de moralidade e penitência, o espírito de Pio IX se aproximava do de Conselheiro, mas, no que diz respeito à fidelidade filosófico-teológica do discurso, eles se distanciavam.

A situação, no final dos anos 1800, para os católicos na Europa, era preocupante, devido ao avanço de doutrinas secularistas e anticlericais, e o esbulho, pela violência, de bens do patrimônio da Igreja, sem que ninguém se importasse. O velhinho Pio IX, amofinado, vagando na escuridão das salas do Vaticano, levava muitos às lágrimas. "Esse mundo está perdido” era o discurso reinante entre padres e fiéis.

Para evitar a contaminação, em um mundo tão hostil, uma mensagem pesadamente emocional, moralista e penitencial começou a ser propagada ao redor do mundo e chegou ao Brasil, embora a nossa realidade, a esse respeito, não fosse tão grave. Havia um grande desânimo em relação ao futuro entre os católicos.

 

Essa situação repercutiu em Portugal, onde um clero muito  apegado à sua aliança com os reis absolutistas começou a sofrer os efeitos do esvaziamento da monarquia. Enquanto isso, o ideário liberal avançava no país sob a influência dos ingleses e entusiastas da Revolução Francesa. Essas ideias floresceram muito nos 13 anos em que a família real ficou no Brasil. Até a família real sofreu influência.

Uma marca do liberalismo ibérico é o acentuado anticlericalismo, a ideia de que o atraso econômico, político e social de Portugal e Espanha deriva tanto de reis autoritários e incapazes como do suporte que lhes vinha da Igreja Católica. Talvez ela, mais do que os reis, fosse responsável por aquele atraso, como a principal fonte de justificação ideológica do regime junto ao povo. A sua influência precisava ser combatida prioritariamente. 

Após as guerras contra os invasores franceses, houve uma guerra civil: a Guerra Civil Portuguesa, que se arrastou de 1828 a 1834, envolvendo os seguidores do príncipe arquiconservador, D. Miguel, contra o rei Pedro IV (o nosso Pedro I, rei por 22 dias) e sua filha Maria II, ao lado dos liberais, que venceram a guerra e, no espírito do Marquês de Pombal, criaram uma legislação fortemente anticlerical (6).

O esvaziamento do catolicismo em Portugal afetou as populações rurais pelo declínio rápido do número de padres. Isso levou um deles, piedoso, mas intelectualmente simplório, Manuel José Gonçalves do Couto, a escrever um livro para auxiliar seus colegas em suas missões, que eram a forma como a Igreja Católica compensava a falta de padres em regiões remotas. Esse livro, chamado Missão Abreviada, lançado em 1859, se tornará o maior sucesso editorial do país do século XIX. Coerente com sua proposta, o padre Couto abriu mão dos direitos autorais e morreu pobre.

Nesse livro, embora esteja presente a Misericórdia Divina e a certeza de que Deus é um ser bondoso, a imagem dele como um juiz severíssimo, a pedir conta até dos pensamentos, sejam eles maus ou somente ociosos, se destaca. A ênfase dada à descrição das consequências do pecado e o estado final dos pecadores impressionava; e era tão severa e obsessiva que punha em perigo aqueles de personalidade mais impressionável — há relatos de gente enlouquecendo ou entrando em profunda crise após sua leitura (7).

Essa espiritualidade do terror, com viés apocalíptico, combinava com a sensação de encurralamento que a Igreja Católica sentia na Europa Ocidental, e acabou aqui no Brasil. As elites locais acompanhavam esse fenômeno com pouco interesse, já o povo nada sabia, mas o tumulto gerado por aqui acabou sendo assimilado no imaginário popular como um perigo difuso, que ameaçava a todos. Essa impressão ficou mais forte com as mudanças de fim de século, inclusive de coisas que,  no entendimento geral, foram determinadas por Deus, como a monarquia, que pecadores escandalosos estavam destruindo.

Os sertanejos mais esclarecidos percebiam o perigo desse livro; um deles, o major Eufrásio Feitosa, na década de 1960, disse:

Conheço muito a Missão Abreviada. Eu tinha até um parente que costumava dizer que esse livro fechava completamente ‘as portas da salvação’ (citado por Nertan Macedo, Memorial de Vilanova, p. 17).

Honório Vilanova havia notado o apego do Conselheiro pelo livro.

"O livro do Peregrino era a Missão Abreviada… Os frades pregadores daquele tempo conduziam sempre esse livro, que, de tão cru nas palavras, fechava sem piedade as portas do céu… O Peregrino amava esse livro e varava o dia e a noite lendo ou copiando as meditações ou os exemplos dos santos. Quando a mão do Peregrino estava cansada, escrevia por ele Leão de Natuba (idem, p. 49)."

Por que essa predileção por um livro que atiça tanto o sentimento de culpa? Como ele se sentia ao lê-lo, considerando que não havia perdoado a ex-esposa, que abandonara os filhos e a amante, se envolvendo tanto com um livro que exigia pureza e virtude num grau absoluto? Em nenhum momento ele procurou acordo com a República ou com o Exército que destruía a sua comunidade. Será que ele via nessa implacabilidade uma compensação para seus erros? No final, tornou-se um juiz, um senhor implacável, um supercoronel, como tantos outros no sertão.  

Honório Vilanova, mais sensível, confessa que fugia das pregações do Conselheiro, talvez com medo de sentir-se muito questionado, enquanto seu irmão, Antônio, mais pragmático, sempre o acompanhou nas terríveis pregações. Na hora ‘H’, porém, agiu de acordo com os seus interesses pessoais e fugiu de Canudos, enquanto podia.

Há um episódio que mostra o quanto Canudos estava longe de uma sociedade democrática, igualitária e justa.

Quando o Conselheiro chegou a Canudos, várias famílias moravam no lugar, como a do comerciante Antônio da Mota Coelho. A família Mota também tinha algumas fazendas, mas a atividade em que mais se destacava era o comércio de couro de caprinos, a criação mais viável naquele solo pobre. Ora, a chegada de mais gente fez esse comércio prosperar, e em pouco tempo os Motas, os Macambira e outros passaram a constituir uma espécie de “burguesia” em Canudos.

Segundo alguns, os irmãos Vilanova, que eram cearenses e conhecidos de Antônio Maciel, foram atraídos para Canudos, talvez até por convite do próprio Conselheiro. Os irmãos Vilanova, porém, queriam trabalhar no ramo de comércio mais próspero, dominado pelos Mota.

Antônio Vilanova aproximou-se do chefe da Santa Companhia, João Abade, e, aproveitando-se do combate em Uauá, em novembro de 1896, prendeu e denunciou os homens da família Mota de conluio com os militares, e os levou ao Conselheiro para um arremedo de julgamento — nunca foi apresentado qualquer fato concreto ou testemunho independente que sustentasse a acusação.

Segundo Calasans (Quase biografias de jagunços — o séquito de Antônio Conselheiro, Universidade Federal da Bahia — Centro de Estudos Baianos, 1986, p. 55–67), os Mota, que eram compadres do Conselheiro, negaram a acusação e imploraram a sua ajuda, e ele estaria propenso a dá-la, quando Vilanova e João Abade, percebendo a sua hesitação, apressaram a execução dos prisioneiros, provavelmente por degola — segundo Frederico Pernambucano de Mello (A guerra total de Canudos, 3ª edição revista e ampliada, Escrituras, Recife, 2014, Cap. 2, nota nº 2), um parente de Antônio da Mota testemunhou, a um jornal no Recife, que nesse momento morreram cinco membros da sua família, e, posteriormente, mais dois que realizavam negócios nos arredores. As crianças e as mulheres dos mortos foram acolhidas pelos Macambira, enquanto a loja dos Mota era saqueada pela multidão embrutecida e transferida de mão-beijada para os Vilanova.

A morte dos Mota teve duas consequências: deu aos Vilanova o monopólio do comércio de couro local, mas também acirrou a vingança de um pernambucano brigador: o comerciante Jesuíno Lima, amigo dos Motas, que se unirá às tropas e participará das três expedições seguintes. Ele será um dos que reconhecerão o cadáver do Conselheiro e passará para a história com o nome de “Capitão Jagunço”, dado por Euclides da Cunha, que, estranhamente, não faz referência ao massacre dos Mota. 


Um jornal chileno de 1877 zomba da exacerbação crenças de fim do mundo havida nesse período e a associa à ignorância e à Igreja Católica, na figura de frade.


É um mundo novo que começa. Ele está cheio de avanços tecnológicos, mas também de hábitos novos, estranhos e até contrários ao que era até então considerado virtude. Verdadeiras armadilhas. É necessário caminhar nele, crescer nele, mas como fazê-lo sem se contaminar com as suas 'sujeiras', com a sua 'lama'? Como agir nele sem excessos, inclusive saudosistas, mas com prudência e sabedoria, e passar essa disposição para os outros? 

Eduardo Simões


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