CANUDOS: UM DILÚVIO DE DELÍRIOS E FANTASIA
Eduardo Simões
“Sob pressão, os números confessam qualquer coisa!” Imaginem
quando deturpados!
Tem sido um lugar comum na nossa historiografia defender a
balela de que em Canudos viviam 25 mil pessoas — alguns, mais desvairados,
chegam ao montante de 35 mil habitantes. Para esses nada tenho a dizer. Essa
aberração, dos 25 mil habitantes, parece que fez a sua estreia no texto bem
menos do que ‘não sério’, de César Zama, Libelo republicano, e foi ainda
nesse não insuspeito documento que surgiu a garatuja estrombótica de que
Canudos era a segunda mais populosa cidade da Bahia.
Como foi então que se espalhou, a guisa de ‘verdade de fé’,
semelhantes espalhafatos
A primeira coisa a considerar é que o solo ao redor de
Canudos era um dos mais pobres da região em que estava circunscrita. Veja a
resposta da IA do Google à pergunta sobre a qualidade do solo de Canudos:
“O solo ao redor de Canudos, na Bahia, é
predominantemente raso, pedregoso e arenoso. Sua fertilidade química
natural varia de média a baixa e possui baixa capacidade de reter
água. Além disso, a região é muito sensível à erosão e ao processo de
desertificação.
A qualidade geral do solo na região apresenta
características bem específicas:
Características Físicas: São solos
geralmente mais secos, com presença de muitas pedras e areia. Isso dificulta o
crescimento de raízes mais profundas e a absorção de água durante as raras
chuvas.
Fertilidade: Em algumas áreas do entorno de
rios (como no vale do rio Vaza-Barris) ou áreas irrigadas, a fertilidade pode
ser melhorada. No entanto, no geral, o solo carece de nutrientes.
Degradação e Erosão: Por causa das altas
temperaturas e da falta de vegetação em algumas áreas, o solo fica exposto.
Isso facilita a erosão. O avanço de áreas degradadas é uma grande preocupação
para a conservação da região.”
Para aqueles que acham que a IA é “suspeita”, recomendo o
artigo Índice de vegetação e dinâmica ambiental das caatingas: a
susceptibilidade ambiental à desertificação em Canudos-BA, de Israel de
Oliveira (UFBA) e Anderson de Jesus (UNESP), na revista Geografia Ensino e
Pesquisa, da UFSM, no endereço (https://periodicos.ufsm.br/geografia/article/view/87806),
do qual retirei o mapa abaixo. Nele se vê que apenas a área em bege claro tem um solo seguro para a prática de agricultura. Canudos está no centro
da pior área. Aliás, se não fosse assim, a fazenda não estaria abandonada quando
o Conselheiro chegou lá entre abril e maio de 1893.
Tipos de solo mais comuns em Canudos:
“Em Canudos, no semiárido baiano, predominam solos rasos,
pedregosos e com grande variação de fertilidade. Os principais tipos descritos
pela Embrapa Solos na região são os Neossolos (rasos e arenosos), os Argissolos
(com acúmulo de argila) e os Vertissolos (muito férteis, porém
pesados).
A região do vale do rio Vaza-Barris apresenta as seguintes
características em seus solos:
Neossolos Litólicos: são solos muito rasos, jovens e
cheios de pedras. Ficam logo acima da rocha matriz. Eles têm baixa capacidade
de guardar água.
Neossolos Quartzarênicos: são solos formados quase só
por areia. Eles deixam a água passar muito rápido e são pobres em nutrientes.
Argissolos: têm uma camada superficial mais arenosa e
uma camada mais funda rica em argila. Costumam sofrer com erosão quando a
vegetação nativa da Caatinga é retirada.
Vertissolos: são solos escuros, muito pesados e ricos
em argila. Eles têm alta fertilidade natural, mas formam grandes rachaduras
quando secam — os vertissolos são solos compostos por muita argila
que reage fortemente à água. Quando chove, eles viram uma lama pegajosa. Quando
seca, a terra encolhe e fica tão dura quanto cimento.
Solos de Várzea: Nas margens dos rios, como o
Vaza-Barris, formam-se solos mais planos e férteis. Eles são muito utilizados para
agricultura irrigada e plantio de hortaliças” (IA idem).
Nessa época, final do século XIX, o melhor solo, o de várzea, não funcionava muito,
pois o rio permanecia seco a maior parte do ano. Noutras palavras: de onde se tiraria comida para alimentar 25 mil pessoas, a maioria crianças, sem
gigantescas obras de engenharia hidráulica — tão grandes em Canudos que ninguém
conseguiu vê-las — e sem um programa grandioso de fertilização do solo com matéria
orgânica, estrume, mesmo porque o gado dominante era o caprino, de pouca
produtividade. Só por milagre do Conselheiro.
Essa história começa no fim da 4ª Expedição, com o general
Arthur Oscar precisando explicar à nação o uso de tanta gente e recursos
para dobrar uma pobre comunidade rural em uma das zonas mais pobres da Bahia. A
única saída para evitar a humilhação em larga e, quem sabe, um Conselho de Guerra,
era exagerar escandalosamente nos números e sustentá-los a ferro e fogo —
Canudos tinha 5.200 casas, contadas uma a uma, e 25 mil habitantes,
considerando 2 adultos e 3 crianças em cada casa. A
ele seguiram os que lhe eram próximos, politicamente falando, como Euclides da
Cunha, e a grande maioria dos autores militares.
Oscar e seu irmão faleceram sustentando esse número absurdo e
a balela de um levante monárquico internacional em Canudos, sem nunca
apresentarem uma única prova ou evidência que fosse.
Zama, que era da mesma cor política de Oscar, correu
pressuroso atrás disso, e atrás dele toda a academia, até os dias de hoje. Cabe a
Zama também, como não podia ser diferente, a afirmação escalafobética de que
Canudos, com seus 25 mil habitantes, era a segunda maior cidade da Bahia na
época (1897), tresloucamente repetido por quase todos os livros que falam sobre
o assunto.
Devo dizer que a cifra de 5.200 casas foi cabalmente negada
por um general do Exército Brasileiro, de grande renome na época, que esteve em
Canudos: o general Carlos Maria da Silva Teles, considerado um herói no Cerco
de Bagé, irmão de outro militar conceituado, o general-de-divisão João Batista
da Silva Telles, que disse resolutamente que não viu mais que uma mil e poucas casas em
Canudos, “talvez umas mil e duzentas” — num dos meus artigos, O coronel
Moreira César e Canudos devem morrer, falo mais sobre isso.
Manuel Benício, um repórter do jornal A Notícia,
enquanto esteve em Canudos, na 4ª Expedição, contou minuciosamente o casario do
arraial e só conseguiu umas mil e duzentas casas, que ele topou arredondar bem para
1.500, o que daria uma população de no máximo umas 7.500 pessoas, deixando boa folga.
Sabemos que Jesus Cristo se celebrizou pela multiplicação
dos pães e dos peixes, que dizer da multiplicação, por três e meio, de casas e pessoas
em Canudos, em meio a uma guerra devastadora, inclusive bombardeio de
artilharia! Ou a Bíblia precisa ser reescrita ou estamos diante de uma das mais
fragorosas fraudes ou delírios de nossa história.
Mas Canudos era de fato a segunda cidade mais populosa da
Bahia? Para chegar a esse estranho resultado, Zama serviu-se tanto dos absurdos
de Oscar como de outro estratagema típico de quem não é lá muito amigo da
precisão ou da verdade. Como o recenseamento de 1890 ficou muito incompleto,
dando apenas, e de forma precária, a população geral dos municípios, sem
distinguir a área urbana, ou a população habitante na sede do município, inviabilizando uma comparação minimamente honesta.
Para resolver esse problema, Zama utiliza um artifício extraordinariamente gracioso: pega como parâmetro a população absurdamente inchada e nunca contada (recenseada) — mesmo porque o Conselheiro não o permitiria — e comparou-a com os dados de 25 anos atrás — do censo de 1872 — de todas as outras cidades da Bahia, como se sua população tivesse ficado estacionária por todo esse período, enquanto a população geral do Estado da Bahia cresceu 39% nesse período.
Por conseguinte, Zama e os neoconselheiristas, para sustentar a sua fantasia,
refugam os dados do censo de 1890 por sua imprecisão, mas aceitam piamente os números
aleatórios da população de Canudos que nunca foi recenseada, contada ou algo
que o valha.
Nesse caso, como em outros, os números são apenas detalhes
ou incômodos que cada um utiliza como melhor lhe convir, como os enfeites em uma
fantasia.
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