A CARA DO BRASIL
Eduardo Simões
Dizem que Lao Tsé já nasceu velho. Que dizer de um povo que
nasce senil?
Quando eu era jovem escolar, me ensinaram, na escola, que
ainda não existia um brasileiro típico, exemplar, a partir do qual pudéssemos
entender o país ou nós mesmos. Éramos um povo ainda em gestação. Como ficamos
tão caducos, tão rápido?
De fato, a face do país espelha cada vez mais a face de seu
governante mais querido, aquele que os brasileiros, de livre e espontânea
vontade, escolheram para pregar todos os pregos na tampa de seu caixão. Os
últimos acontecimentos revelaram, mais do que tudo, o resultado de nossa
escolha.
Somos um povo velho, exaurido, sem nem termos alcançado a
maturidade, o nosso auge biológico ou político, já sem ânimo para procurar algo
novo para escapar da enrascada em que nos metemos, enquanto nos enganamos,
multiplicando declarações e rituais, como no próximo julgamento do STF, que não
mudarão a nossa infeliz realidade, mas nos darão a sensação, conforme o gosto
de uma célebre economista, de que algo substantivo está sendo feito e que, em
breve, teremos resultados.
Somos superficiais. Não nos preocupamos em aprofundar as
opiniões que nós, ou os outros, temos sobre nós mesmos, e muito menos em
procurar fatos que corroborem ou neguem nossas crenças. Todo superficial é um
displicente, e vice-versa.
Somos também profundamente oportunistas, no sentido ruim, e
mal agradecidos. Adoramos atribuir aos nossos antepassados, sem qualquer
conhecimento de causa — odiamos a HISTÓRIA, principalmente a nossa —, os crimes
que adoramos cometer, e contra eles voltamos nossa ira 'justiceira', por meio
de discursos raivosos e atos de vandalismo contra a sua memória ou os seus
sinais em nossos espaços públicos. Mas também adoramos usufruir da herança que
eles nos deixaram.
Não são esse presidente e sua turma aqueles que mais alçam
voz para condenar os “crimes” dos antigos, em especial aqueles que mais fizeram
para que o Brasil se tornasse o gigante que é hoje, com uma língua e uma
religião únicas, vindos de Portugal, integrado ao mais bem-sucedido sistema
econômico de todos os tempos: o capitalismo ocidental oriundo da Europa branca,
que eles tanto odeiam!
Como pode esse presidente e sua turma falarem com tanta
empáfia da reforma do Conselho de Segurança da ONU, para incluir o Brasil, ou
privar o povo do país de acordos benéficos a um povo tão pobre, a pretexto de
soberania ou reconhecimento de nossa força, de nosso tamanho e prosperidade
advinda de riquezas naturais? Riquezas naturais descobertas e integradas ao
mercado internacional por quem? Tirem os portugueses e seus descendentes de
nossa História e vejamos o que sobra.
Querer exibir-se como um governante poderoso para o mundo,
como o atual presidente faz, escorando-se em uma grandeza conquistada por
'escravocratas', 'genocidas', 'patriarcas misóginos', 'preconceituosos',
'intolerantes', etc., é, por acaso, diferente dos patifes e canalhas que saem
por aí exibindo riqueza e munificência, usando o dinheiro roubado de velhos
pobres no Brasil? Inclusive aquele que vive em um condomínio de luxo na
Espanha, familiar próximo desse 'ídolo nacional', o mesmo que, como a virgem
pura em um lupanar, permanece inocente, sem saber de nada e sem se contaminar
com o comportamento pornográfico dos que ele se faz cercar?
TIREM ESSE HOMEM DO PODER! AONDE ELE VAI ATRAI BANDIDOS!
Talvez haja outro pior ou igual para pôr no seu lugar.
Há muito tempo que desistimos de cuidar — dá trabalho! —
desse país, de nossa história, de nossa sociedade, de nossa justiça, de nossa
república, de nossas cidades, de nossos velhos, mulheres e crianças, de nosso
futuro, embora não nos falte quem queira nos mostrar como um modelo para o
mundo se cuidar melhor. Não por hipocrisia, embora isso não nos falte, mas por
completa incapacidade, ou preguiça (?), de se descolar do mundo de fantasia em
que vive, para encarar a realidade de si mesmo e do entorno, que essa fantasia
criou, à revelia da realidade.
Em vez do “SOU BRASILEIRO, NÃO DESISTO NUNCA”, melhor,
talvez, seria: "SOU BRASILEIRO, NEM TENTO".
O que faremos quando chegar a hora de prestar contas de
nossas ações delirantes, algumas inconscientes, e seus crimes bem reais?
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