segunda-feira, 26 de outubro de 2026


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 44 


O ataque:

Antes de atravessar o Vaza-Barris, Euclides da Cunha ‘fabrica’ um incidente ridículo:

“Toda uma companhia do 7º, naquele momento, fez fogo, por alguns minutos, sobre um jagunço, que vinha pela estrada de Uauá. E o sertanejo não apressava o andar. Parava às vezes. Via-se o vulto impassível aprumar-se… e prosseguir depois, tranquilamente… Surpreendidos, os soldados atiravam nervosamente sobre o ser excepcional, que parecia comprazer-se em ser alvo de um exército. Em dado momento, ele sentou-se à beira do caminho e pareceu bater o isqueiro, acendendo o cachimbo. Os soldados riram. O vulto levantou-se e encobriu-se, lento e lento, entre as primeiras casas” (idem, p. 328).

Segundo Euclides da Cunha, o 7º era uma tropa de ridículos incompetentes, comandados por um desequilibrado, condenado ao fracasso. Compare-se isso com o testemunho ocular transcrito abaixo, do jornal Gazeta de Notícias de 24 de março de 1897:

"Organizando-se a tropa para passar o rio Vaza-barris, um bandido ousado, do outro lado do rio, e sozinho, olhava altivamente para as forças e placidamente deu um tiro contra as mesmas, e logo depois, carregando a arma, foi ferido de morte pelas tropas legais." Euclides adultera.

A pontaria dos atiradores do 7º era famosa, e ninguém a desafiava impunemente.

Aqui a história sofre uma inflexão e fica cada vez mais confusa.

Segundo Benício, os soldados nem conseguiram atravessar direito o rio. Cunha e Benício dizem que a manobra de pinças foi tão mal feita, que as tropas que vinham por um lado tiroteavam nas que vinham do outro, como se estivessem disputando uma pracinha em um pequeno subúrbio. Em Canudos, esse espaço era enorme. Eles ressaltam a desorganização do ataque e realçam o colapso mental de Moreira Cesar. Só um pequeno grupo, sob o comando do tenente Figueira, do 7º, atingiu o povoado e pôs-se a queimar as casas mais próximas à margem. O resto foi um terrível fracasso — coincidentemente, Figueiras apoia aparentemente o relato do major Rafael Augusto.

Já o General Tristão de Alencar Araripe, em Expedições militares a Canudos: seu aspecto marcial, diz que o ataque teve, no seu início, “um certo sucesso”. Que o 7º, o 9º e a polícia baiana conseguiram penetrar o arraial e incendiar várias casas. Embora nada diga sobre o Vaza-barris.

Aristides Milton, em A campanha de Canudos, assevera que não só o 7º atacou a Igreja Nova, assim como avançou sobre as casas próximas e as incendiou. Também dá a entender que uma manobra de cobertura, da qual participou o tenente Figueira, teve dificuldades em atravessar o Vaza-barris cheio, para atacar os conselheiristas, que não paravam de seguir para as igrejas. 

Euclides fala da grande dificuldade de atravessar o Vaza-barris e que, após tentar em vão ocupar a igreja, partiram para o interior do casario ao redor, travando luta casa por casa em Canudos, em total desvantagem para os soldados. Só Cunha também fala de uma carga de cavalaria contra as casas, o que seria um completo desvario.

E outras bobagens.

O testemunho de Rafael Algusto, impresso no jornal do Comércio do Rio de Janeiro de 8 de março de 1897, portanto feito logo após os acontecimentos, e transcrito tanto por Aristides Milton quanto por Alencar Araripe, é completamente inverossímil. Transcrevo, agora, a parte referente ao ferimento de César.

Chegamos à margem do Vaza-barris às 11h30 do dia, estendendo-se logo a força em ordem de batalha…

“Após os tiros, deu o coronel ordem para o assalto, ficando ele em uma eminência, do alto de cá, e próximo da artilharia [esse detalhe é importante]. Os conselheiristas, que atiravam maravilhosamente [como se tivessem sido treinados por especialistas?] com carabina, vararam o infeliz coronel com uma bala, acidente este que me foi imediatamente comunicado e ao Tamarindo, mas que nós ocultamos.”

Vejam: logo após a ordem de ataque, às 11h30, Moreira César é atingido e, portanto, não tem participação na batalha. Ou seja, Moreira César não fez nada nesse dia além de criar um problema para o comando e ainda insistir para o ataque prosseguir no dia seguinte. Entretanto, todos os autores são unânimes em dizer que foi Moreira César quem dirigiu os primeiros ataques, e que seu ferimento só aconteceu lá pelo meio da tarde — Villela Júnior, que viu o coronel ser baleado, diz que foi por volta das 15:00h, outros, em torno de 16:00h. Uma coisa, no entanto, parece clara: Augusto e Tamarindo estavam associados, embora em graus diferentes de comprometimento.

“Ficou então Tamarindo [segundo Augusto] dirigindo o assalto e, após vararmos o rio, atravessamos do modo seguinte: a polícia e o 16º pela esquerda, a ala esquerda do 7º e mais o 9º batalhão pela direita, e eu com a ala direita [do 7º] pela frente.

Dado o sinal previamente combinado, demos princípio ao assalto, havendo a ala direita do 7º se apoderado logo de cerca de 12 casas que serviam de pequenos redutos. A força policial e o 16º atacaram galhardamente pela esquerda, mas, havendo ficado sem munição, foram obrigados a se retirar precipitadamente. Isso deu lugar a que o inimigo dirigisse os seus fogos especialmente para a ala direita do 7º, e o fazia com tanta certeza de tiro que pôs logo fora de combate grande número de oficiais e praças.

Vendo que estava sacrificando inutilmente o meu pessoal, visto que a polícia se retirava e a ala esquerda com o 9º muito pouco podia fazer, fiz retirar a mesma ala e coloquei-a na margem do rio, por trás de uma cerca. Tal era a fuzilaria, porém, que o inimigo fazia, que os oficiais e praças caíam mortos e feridos, inclusive eu, que fui ferido levemente na coxa e nádega direita [Deu as costas para o inimigo?].

Sustentamos o combate até às 6h30 da tarde sem conseguirmos tomar a cidade, sendo certo que logo notei covardia por parte das praças, em geral. Afinal, pouco antes de vir a noite, retiramo-nos para a margem de cá, onde fomos acampar.”

Pelo relato, parece estar havendo uma hecatombe de baixas, mas os números finais de baixas nos registros do Exército, para o 7º, nessa jornada e no dia seguinte, apontam para 7 oficiais e 20 praças mortos, em uma unidade que possuía 30 oficiais e 416 praças. Dos 7 mortos, dois o foram longe do front: Poly e César, sem falar dos que morreram depois tentando controlar a desordem e auxiliar os retardatários na fuga.

Augusto é, na sua versão, um chefe formidável, preocupado com seus homens, abandona a sua posição por iniciativa própria, quando as baixas ainda eram pequenas! E os leva para uma posição segura. Como ele também era dotado de 'dons especiais', começa a notar um certo 'ar' de 'covardia' dominando os soldados, que ele nada fez para dissipar, os mesmos homens que formavam uma das unidades mais admiradas e citadas do Exército. Isso, porém, prepara maravilhosamente o leitor para a debandada em seguida, com a tropa sob o seu comando, jogando nas costas de Moreira César a pecha de ter treinado mal o 7º. Assim, fácil.

“Sustentamos o combate até 6¹/² da tarde, sem conseguirmos tomar a cidade… logo notei covardia por parte das praças, em geral (testemunho do Major Rafael Augusto em A Campanha de Canudos, de Aristides Milton, Edições Senado Federal, Vol. 5, Brasília, 2003, p. 81).”

Por alguma razão que só Deus sabe, ele omite o toque de retirada, citado por outros autores, como o Sargento Villela, que estava lá.

Augusto também tem outra qualidade, que eu não diria rara: não hesita em jogar seus camaradas no fogo para se destacar. Ele percebe e denuncia a superiores, no Rio, a certeza da derrota, a 'loucura' e a 'epilepsia' de Moreira César e a ‘covardia’ dos soldados. Agora detecta o desalento do coronel Tamarindo e o expõe: “O pobre Tamarindo ficou acabrunhado e sem ação.”

Ele ainda porá na boca deste a mais desmoralizante frase da campanha: “É tempo de murici, cada um cuide de si”, tão marcante em Os Sertões, talvez até para ocultar o fato de ele, Rafael Augusto, ter cuidado tanto de si, quando começou a... correria.

Segundo o Sargento Villela Júnior, a marcha acelerada da coluna de César só foi contida no Vaza-barris, quando a artilharia foi posicionada a 400 m do perímetro da cidade, em frente às igrejas. Entre a cidade e a artilharia deslizava o Vaza-barris com 18 a 20 m de largura. Mais ou menos nesse momento, segundo o jornal República, a coluna sofre um forte ataque dos conselheiristas por um dos flancos, repelido com grandes perdas para os atacantes.

Por volta das 11:00h, tem início o bombardeio pesado da artilharia, em especial sobre a Igreja velha, cujo teto desabou, matando muita gente, mas com poucos estragos na Igreja Nova. As paredes desta eram de pedra e alvenaria maciças, e possuíam uma largura de mais de um metro, fato confirmado pela 4ª Expedição.

 

Afinal, o que aconteceu em Canudos?

Segundo Euclides da Cunha, houve uma espécie de 'invasão bárbara' à cidade, com os soldados se apossando de algumas casas no limite do arraial, preocupados somente em saquear, sem perceber o contexto, sendo logo abatidos. Até serem salvos pelo toque de retirada.

Euclides da Cunha, fiel ao seu objetivo, afirma.

“Quase sempre, depois de expugnar a casa, o soldado faminto não se forrava à ânsia de almoçar… tinha, porém, às vezes, um pospasto crudelíssimo… uma carga de chumbo… Os jagunços à porta assaltavam-no (p. 334–335)."

Isso é uma mentira solerte. Se algum soldado ficou faminto, foi porque estava de regime, pois, como vimos, a coluna foi acompanhada por um lote de reses, para servir carne fresca aos soldados, e havia água à vontade no rio. Testemunhas garantem que as casas dos maiorais foram de fato tomadas, com os soldados se abastecendo do que encontraram.

Canudos tinha disso sim. 

 

O estranho recuo da polícia baiana

            Para dar mais eficiência ao avanço, era necessário que ambas as alas, esquerda e direita, avançassem no mesmo ritmo, por isso o coronel resolveu efetuar reparos no posicionamento de algumas unidades, em função da resistência que encontravam, como o esquadrão da cavalaria e a tropa da polícia. Euclides, deturpa e avacalha. 

[Moreira César] "determinou que aquela [a polícia] seguisse à extrema direita, atacando o bairro ainda indene e completando a ação que se desdobrara toda na esquerda. A cavalaria, secundando-a, teve ordem de atacar pelo centro, entre as igrejas. Uma carga de cavalaria em Canudos… Era uma excentricidade."

Quando Euclides quer destruir alguém, não economiza, mesmo não tendo fatos, ou os tendo poucos. E quando os tem, os deturpa. O pior ficou para a cavalaria.

"O esquadrão — cavalos abombados, rengueando sobre as pernas bambas — largou em meio galope curto até à beira do rio, cujas águas respingavam chofradas de tiros; e não foi adiante. Os animais assustadiços refugavam. Dilacerados à espora, chibateados à espada, mal vadearam até o meio da corrente, e empinando e curveteando, freios tomados nos dentes, em galões, cuspindo da sela os cavaleiros, volveram em desordem à posição primitiva (p. 337)."

A ação da cavalaria de Euclides da Cunha não passa de uma bufonaria, de um deboche com o leitor. Vejamos o que o sargento Villela Júnior, testemunha ocular, disse sobre a ação da cavalaria em suas memórias:

"Também já estava agindo dentro da cidadela o esquadrão de cavalaria, comandado pelo capitão Pereira Franco, queimando casebres de palha e liquidando jagunços à espada (Canudos: memórias de um combatente, p. 22)."

O jornal República, de 6 de abril, narra assim esse momento: "A cerca de 200 m de distância da cidade, a cavalaria avançou… e a polícia, depois de avançar, fez movimento de recuar."

É nessa hora que Moreira César diz que vai “dar brios a essa gente”, o que, no relato de Euclides e Rafael Augusto, o faz se aproximar perigosamente do front e levar o tiro fatal. Isso induz o Dr. Afrânio Peixoto, cheio de amor à pátria e querendo ajudar onde não podia, a afirmar categoricamente que Moreira César, confuso pela epilepsia de última hora, agia movido pelo intuito inconsciente de se matar.

Mas o fato relatado por testemunhas é que Moreira César reposiciona a força de polícia, dirige-lhe estímulos e... continua o relato do República: "A polícia avançou, portando-se com heroísmo e conseguindo desalojar os jagunços casa por casa, incendiando-as até que, por falta de munição, teve de abandonar a posição conquistada com tanto valor."

Realmente, é estranho essa falta de munição na polícia baiana, o que fez alguns autores apressadamente concluírem que a força não estava abastecida. Quem mais profundamente aborda esse assunto é Oleone Fontes, em Treme-terra, p. 297, onde nos diz que, quando começou a faltar munição, o comandante da tropa mandou soldados irem pegar mais.

Eles voltaram pouco depois, dizendo que não havia munição para as armas utilizadas pela polícia baiana — os fuzis Comblain. Mas Oleone ressalva: "Cunhetes [caixotes de madeira com munição e alças de corda] havia. Não foram enviados… por motivos que jamais se descobrirá jamais."

E Dantas Barreto, em Acidentes da guerra, não só confirma esse incidente, mas acrescenta um reparo:

“A polícia da Bahia esgotara a munição de bolsa [as patronas], seu destemido comandante tomou providências rápidas para refazer-se desse elemento… mas o quartel-mestre, sob cuja vigilância ficaram os cargueiros [com a munição], despachou os homens mandados ao seu encontro… dizendo que já não havia munição de Comblain, com que se achava armada a força baiana.

Verificou, entretanto, o tenente Severo [que era da artilharia e ouviu essa conversa], a quem não escapara semelhante informação traiçoeira; que existiam ainda quatro cunhetes [cada qual com cerca de 1.500 cartuchos] da munição pedida, mas por mais que se esforçasse o valente artilheiro para o remuniciamento pedido, não conseguiu fazê-lo, por não haver quem se encarregasse de tão arriscada empresa [ou seja, negaram aos que a vieram pedir, e não tiveram coragem de levá-la, depois que a encontraram]. Em tal emergência… a digna milícia estadual… viu-se na contingência de abandonar sua posição vantajosa” (p. 131).

De outra forma: havia munição, uma unidade na frente de combate precisava dela, mas, por alguma razão misteriosa, a seção responsável pela sua guarda negou-a.

Das duas, uma:

1 – Houve incompetência ou descuido, e a munição foi negada sem querer.

2 – Foi proposital, e então estamos diante de um caso claro de sabotagem, de traição, que decerto atende aos interesses daqueles que queriam Moreira César longe do Rio, mas sem resolver o problema de Canudos.

Quando houve a derrocada da Força Expedicionária, os canudenses encontraram essa munição e mais dezenas de cunhetes, em torno de 60 mil cartuchos, e a mandaram de volta para o Exército Brasileiro, nos corpos dos soldados mortos ou feridos na 4ª Expedição.

Eduardo Simões

domingo, 25 de outubro de 2026

 


SOLILÓQUIOS BRASILEIROS — OS PROBLEMAS SOBRE A ORIGEM DA POPULAÇÃO AMERICANA.

A teoria dominante sobre o povoamento da América está fortemente ligada ao período final da última glaciação — a Glaciação Wisconsin — terminada aproximadamente há 11.700 anos. Nesse período, devido ao acúmulo de água nas geleiras que cobriam o Canadá e o norte da Europa, o nível dos oceanos baixou uns 150 m, criando uma união terrestre entre a Ásia e a América, a Beríngia.

Acreditava-se que grupos de caçadores do Paleolítico do centro da Ásia e da Sibéria oriental tenham tomado esse caminho, seguindo manadas de animais, como os mamutes, bisões, caribus e até leões, que vieram dar no continente americano. A princípio, acreditava-se que esse movimento começou entre 11.500 e 13.000 anos atrás, conforme descobertas arqueológicas feitas numa localidade chamada Clóvis, nos Estados Unidos, que serviu como marco inicial do povoamento das Américas.

Essa datação, entretanto, apresentava problemas, pois ficava difícil explicar como caçadores a pé, com ferramentas tão simples, conseguiram, em tão pouco tempo, cobrir distâncias tão vastas. Na falta de uma explicação melhor, a teoria de Clóvis prevaleceu. Essa fortaleza cronológica começou a ruir quando novos sítios arqueológicos, até na América do Sul, começaram a apresentar datas mais antigas. O mapa abaixo apresenta as datas encontradas para algumas delas. (No inglês, utiliza-se a vírgula e não o ponto para separar os múltiplos de mil).


Porém, algo não batia. Se eles vieram pela Beríngia, entrando pelo Alasca, por que não se encontram sítios arqueológicos antigos e em profusão nesse estado americano? Os poucos encontrados eram recentes. Apareceram, então, teorias de povos navegantes, complementando a ocupação dos caçadores.

Embalado por essa nova abordagem, o etnologista francês Paul Rivet passou a defender a teoria da Origem Múltipla ou Transpacífica, em 1943, afirmando que, concomitantemente à corrente colonizadora siberiana, teria havido uma outra conduzida por navegantes polinésios, na direção da América do Sul. Isso explicaria as diferenças culturais observadas nas duas áreas: Norte e Sul. Essa teoria, que estava desprestigiada, revigorou-se com a descoberta do crânio de 'Luzia', em Minas Gerais, com características negroides. 

Para provar a possibilidade da teoria polinésia, o navegador norueguês Thor Heyerdahl, com mais cinco companheiros, foi da costa do Peru até Tuamotu, na Polinésia, numa embarcação primitiva, usando ferramentas primitivas, numa viagem que durou de abril a agosto de 1947. Uma das mais espetaculares aventuras, descrita no livro Expedição Kon-Tiki de Heyerdahl — Kon-Tiki, na língua inca, quer dizer filho do sol. Aproveitando o regime dos ventos e as correntes marinhas, Heyerdahl comprovou essa possibilidade.

Com o aprimoramento de exames genéticos, a teoria de Rivet e a negritude de Luzia foram definitivamente descartadas. Os povos primários da América descendem exclusivamente de colonizadores da Sibéria e do centro da Ásia.

A descoberta de novos sítios arqueológicos no leste dos EUA, como Meadowcroft e Cactus Hill, mais antigos que Clovis, com artefatos feitos com uma técnica muito aprimorada e diferente das outras, fez alguns especularem uma onda migratória vinda da Europa Ocidental! Esse mistério e a conclusão precipitada foram desfeitos parcialmente por meio de estudos comparativos entre esses achados e artefatos dessa época, encontrados em algumas ilhas japonesas — algumas sob domínio russo —, batizada como área PSHK (Paleo-Sacalinas-Hocaido-Kurilas).

Essa tese diz que grupos de migrantes, vindos da Ásia Central ou Sibéria, detiveram-se por um bom tempo nessa região. Da convivência com outros povos nela instalados, teriam assimilado ou desenvolvido novas tecnologias líticas e de navegação. Daí, partiram para o povoamento da América em barcos, o que explicaria tanto a inexistência de sítios arqueológicos muito antigos no Alasca quanto o rápido povoamento das Américas.

Mas, como nada é simples na arqueologia, em 1977–78, um arqueólogo canadense descobriu em 3 cavernas no norte do território de Yukon, as Bluefish Caves, uma grande quantidade de ossos e artefatos antigos. A primeira datação, em radiocarbono, deu 24.000 anos, confirmada, posteriormente, por métodos mais modernos em 2017.

Isso aparentemente volta a dar força ao argumento da travessia terrestre da Beríngia. Mas, como se trata de um único achado, há a possibilidade de ser o local final de um grupo que desembarcou bem mais ao sul. Isso ainda não é suficiente para resgatar a importância dessa rota.

No momento, a tese de povos navegantes oriundos da Ásia povoando o continente americano a partir do lado ocidental, começando pela América do Norte, é a que melhor se integra com os achados arqueológicos atuais, até que um novo achado ou uma teoria mais convincente modifique tudo.

https://www.mdzol.com/mundo/los-humanos-no-llegaron-america-el-estrecho-bering-que-dice-la-nueva-teoria-n1429269

https://www.science.org/doi/10.1126/sciadv.ady9545



sábado, 24 de outubro de 2026


MUNDO ANGLO-SAXÃO.


  
SERÁ QUE ELE AGUENTA?

Eu estava em um encontro duplo ontem à noite, mas, após uns drinks, voltei para casa. Havia gente demais para um encontro.

Estou fazendo a minha parte contra o aquecimento global. Tirei a porta da minha geladeira.

(Um juiz de futebol) Não sei se a minha esposa está chateada comigo porque sou cego ou porque não consigo levantar sequer uma bandeirinha.

Como se chama um esquerdista confuso? Uma pessoa errante. E um esquerdista convicto? Uma pessoa errando.

Recém-casado, muito nervoso, se abrindo para os amigos. “Acabei de me casar com uma garota que disse que não fazia sexo antes do casamento. Eu devia ter me certificado se ela faria depois.”

Meu sobrinho ganhou um piercing no lábio. Quem mandou ficar nas minhas costas durante uma pescaria.  

Quem tem a mente muito aberta, seu cérebro pode cair?

Mudei meu nome no Facebook para “Ninguém, na verdade”. Só para mexer com a cabeça das pessoas quando eu curtir os status delas.

O que é todo esse alvoroço com TV 3D de repente? Minha TV sempre foi tridimensional.

Dizem que a garota ideal é uma em milhão. Mas será que, após conhecer um milhão delas, ainda haverá tempo ou adiantará escolher?


sexta-feira, 23 de outubro de 2026

 

SOLILÓQUIOS BRASILEIROS - O HOMEM AMERICANO NÃO É ORIGINÁRIO DA AMÉRICA

Eduardo Simões

Ultimamente é moda chamar os descendentes de povos indígenas das Américas de “povos originários”. Um termo cheio de conotação política, mas vazio de significado semântico, uma vez que nenhum grupo humano jamais se originou na América. Tampouco eles são mais originários que europeus ou africanos na construção da cultura nacional de cada povo americano moderno. Nós, a humanidade, somos todos FILHOS DA ÁFRICA, quer isso agrade ou não, e nós, brasileiros, de um encontro às vezes fortuito, quase sempre tão imposto quanto inevitável, das culturas de três continentes, reunidas na América.

A América, mais que qualquer outro, é o continente da Nova Humanidade, cheio de oportunidades e desafios, desde que mantida em seu projeto original de local de fusão de povos.

Entrementes, já houve quem defendesse cientificamente a origem não só dos nativos americanos, mas de toda a humanidade, neste continente, mais especificamente no sul da Argentina, na Patagônia. O autor dessa hipótese foi o estudioso autodidata, ítalo-argentino, Florentino Ameghino (1853–1911), autor de uma bibliografia descomunal na área de antropologia, arqueologia e paleontologia, climatologia — umas 20 mil páginas —, tão vasta e profunda nas suas descrições quanto rasa e temerária nas suas conclusões, embora muitos tenham se afogado nessa rasura.

Ele foi um dos pioneiros do estudo de fósseis na Patagônia, uma das principais áreas de concentração de fósseis do mundo — rivalizando com o deserto de Gobi, na China —, e, no seu auge, foi muito respeitado na Europa e América do Norte pela abrangência dos seus estudos pioneiros, suas descrições cuidadosas e sua erudição. Mas perdeu-se quando, envolvido por ardor patriótico, precipitou-se na avaliação de estratos geológicos e dos fósseis aí encontrados. Queimando etapas importantes, ele aventurou-se a defender que a Patagônia argentina era o berço da humanidade, por meio do Homem da Patagônia (Homo pampeanus ou Homo pampeus).

O pesquisador tcheco-americano, Alech Hrdlichka, que nessa época defendia a tese da ocupação da América por ondas migratórias vindas da Ásia, a qual é aceita hoje, foi até a Argentina conferir. Hrdlichka chegou à conclusão de que os achados de Ameghino misturavam ossos de macacos e humanos de épocas muito mais recentes do que este imaginava. A datação estratigráfica do argentino fora muito superestimada, e o resultado foi assimilado como uma humilhação para ele e para o país. Uma cortina de esquecimento caiu sobre ele e os seus trabalhos. Poucos o citam hoje.

A história de Ameghino lembra-nos que uma boa formação escolar-científica dificilmente pode ser substituída por um autodidatismo espontâneo e modismos, como  fez Ameghino, que também era famoso pelo seu temperamento difícil, fruto do seu isolamento social. Isso se manifestava numa autossuficiência compulsiva que o fazia apegar-se radicalmente às suas ideias, fechando-se ao contraditório. Ele tomava as críticas ao seu trabalho como uma ofensa pessoal, envolvendo-se em longas, desrespeitosas e estressantes disputas acadêmicas, sem outro resultado que o agravamento do seu isolamento final.

Não existe, portanto, nenhuma espécie de ser humano que tenha sido originária da América. Todos os seres humanos que habitam este continente e todos os outros, exceto a África, são invasores, pois nenhum grupo humano jamais se instalou nesses continentes sem provocar a extinção ou mudanças em espécies animais, vegetais e formações rochosas, essas sim originárias desses continentes.

Portanto, não faz sentido uma pessoa dotada de formação científica falar em “povos originários”, referindo-se a descendentes de povos que habitavam a América à chegada dos europeus — a adoção desse dogma político, por si só, extingue a formação científica, por contradição incontornável. Esses povos poderiam, precariamente, ser chamados “primários” por chegarem antes dos europeus e africanos.


MUNDO ANGLO-SAXÃO
 


Um orador sacro inglês fez o seguinte comentário;

“Os sete pecados sociais são:

Riqueza sem trabalho.

Prazer sem consciência.

Conhecimento sem caráter.

Comércio sem moralidade.

Ciência sem humanidade.

Adoração sem sacrifício.

Política sem princípios.

  • O ponto de pontuação favorito do professor de inglês era a vírgula, porque ela estava sempre se separando dos outros.
  • Por que o verbo entrou para o curso de etiqueta? Para melhorar seus modos.
  • O que o substantivo disse para o adjetivo? Você fica só querendo me modificar e isso já está ficando chato.
  • A professora solicitou ao aluno que usasse “who” e “whom” corretamente em uma frase, e o aluno respondeu: “Eu sei quem (who) fez isso, mas não tenho certeza de quem (whom) culpar.”
  • A professora de inglês virou padeira para sovar a massa, assim como costumava “sovar” seus alunos por causa da gramática (antigamente, antigamente).
  • Por que o aluno trouxe uma escada para a aula de inglês? Ele queria levar sua escrita para o próximo nível.
  • Como você chama um grupo de vacas fazendo aula de inglês? Um rebanho de boas leitoras.
  • Por que o pronome foi ao debate? Porque era um encontro reflexivo e todos foram convidados a refletir sobre o assunto.
  • A professora disse aos alunos para conjugarem o verbo “to be” na frente de toda a classe, e um aluno se levantou e disse: “Isso sei: eu sou, tu és, ele/ela é, nós somos, vós sois eles são. Só não sei o quê'.
  • O que o dicionário disse para o dicionário de sinônimos (thesaurus)? “Você está sempre correto, mas é muito redundante.”.
  • Por que o livro estava triste? Porque ele teve um capítulo ruim em sua vida.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

 MUNDO ANGLO-SAXÃO


QUAL É A DIFERENÇA ENTRE WINSTON CHURCHILL E O PT DE DILMA ROUSSEFF?

Churchill se "aliaria ao diabo" para enfrentar Adolfo Hitler; Dilma e o PT "fariam o diabo" para ganhar a eleição. Lembram daquela comparação entre um estadista e um politiqueiro?

Eu era bem jovem quando aprendi matemática. Foi estranho no começo, mas depois piorou.

A invenção dos caixas de autoatendimento transformou o furto em “um mal-entendido”.

Meu colega de trabalho acabou de me dizer: “Se o chefe não retirar o que me disse, eu saio da empresa.” “O que ele te disse?” “Saia da empresa.”

Cheguei uma hora mais tarde para o trabalho esta manhã. Pedi desculpas ao chefe e prometi compensar saindo uma hora mais cedo.

O que um policial perguntou a um nêutron que dirigia um caminhão?…. Cadê a sua carga?

Dizem que o pássaro que acorda cedo pega a minhoca. Por outro lado, a minhoca que acorda cedo é comida.

O que um coelho mais odeia num boneco de neve? A cenoura acima do solo.

Pedra que rola não cria limo, mas se quebra.

Minha esposa me disse que eu era imaturo e precisava crescer… Logo eu, que me sentia tão grande em minha casa da árvore.

Dizem que as pessoas com muitos amigos têm dificuldade para dormir. Passei a noite toda imaginando quem poderia ser.


 

TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 30

FINANÇAS PÚBLICAS MAIS UMA VEZ

As finanças públicas, no sentido atual, e especialmente a tributação moderna, desenvolveram-se inicialmente no século XV nas cidades-repúblicas italianas, em particular Florença, e nas cidades livres alemãs. Mais importante para nós, porém, é o desenvolvimento dos sistemas fiscais dos estados nacionais, das cidades-repúblicas italianas e dos principados alemães.

Por uma questão de brevidade e concretude, pensaremos principalmente no caso deste último ou, mais precisamente, no desenvolvimento das finanças públicas em um típico principado da Alemanha. É claro que as pessoas sempre reconheceram a existência de alguns interesses comuns a todos os membros de uma unidade política — o reconhecimento da res publica foi fomentado, entre outros fatores, pelo ensino escolástico. No entanto, os assuntos públicos eram, numa perspectiva jurídica, assuntos do governante territorial. As guerras, em particular, eram suas disputas pessoais (compare-se com a expressão oficial inglesa que ainda persiste: “os inimigos do rei”). Portanto, na medida em que o serviço militar que seus vassalos lhe deviam se mostrava insuficiente — e esse recurso se esgotou ao longo do século XVI —, ele teve que financiá-lo com seus próprios recursos. [Com o aluguel de mercenários].

 Essas fontes de renda consistiam, em primeiro lugar, na renda feudal proveniente de suas próprias terras e, em segundo lugar, em uma série de direitos fiscais consuetudinários inerentes ao senhorio de um principado, como senhoriagem, pedágios e alfândegas, o direito de cobrar salvo-conduto de viajantes e caravanas de mercadores, o direito de arrecadar impostos das comunidades judaicas pela proteção a elas concedida e direitos a uma ampla variedade de taxas de todos os tipos (as regalias). A alta dos preços, o custo de mercenários e, posteriormente, de exércitos permanentes, os gastos exorbitantes com a nobreza da corte e a burocracia, e outras... tornaram essas fontes consuetudinárias de receita insuficientes e levaram a um rápido aumento do endividamento. Nas situações insustentáveis ​​que se seguiram, os príncipes recorreram aos seus Estados [o embrião do parlamento, constituído das outras classes sociais, inclusive não-nobres, como a burguesia], alegando que, por exemplo, uma invasão turca não era, afinal, apenas um assunto privado do príncipe.

Os Estados, então, concederam subsídios que, além das contribuições das cidades, incidiam sobre sua própria renda feudal, ou seja, sobre os tributos que seus camponeses lhes deviam — permanecendo as terras sob sua administração livres de impostos. Inicialmente, diziam ser uma concessão de subsídios por livre e espontânea vontade, em resposta a um humilde pedido e apenas para uma emergência específica; mas, na realidade, os contribuintes arcavam com o ônus de algo que, por vezes, não os interessava. Muito em breve, porém, a recorrência regular desses impostos diretos teve que ser reconhecida. 

Embora aceitassem esse fato, os Estados, [o parlamento], por um lado, criaram suas próprias administrações para cobrá-los e gastar a receita e, por outro, deixaram de arcar com eles diretamente, coletando-os de seus camponeses dependentes. Esse arranjo, além de inadequado, certamente não agradou aos príncipes e suas burocracias. Seguiu-se uma disputa entre eles e os Estados pelo controle desse novo aparato fiscal que havia surgido paralelamente ao seu. Como o leitor sabe, o parlamento inglês conseguiu manter o controle sobre essas verbas, o que acabou por sufocar o poder do rei no século XVII.

Na maioria dos outros países, porém, reis e príncipes, ou melhor, suas burocracias, prevaleceram ao longo do século XVIII, embora o Antigo Regime francês tenha entrado em colapso na tentativa de garantir a reforma fiscal. Enquanto isso, ou seja, até que as burocracias conquistassem o bastião fiscal dos Estados, o crescente Leviatã teve que se alimentar das antigas fontes de receita. Consequentemente, o desenvolvimento destas, especialmente de todos os direitos fiscais, tornou-se uma tarefa primordial dos governos e seus asseclas. Isso significou, eventualmente, o crescimento desproporcional da tributação indireta, especialmente sob a forma do imposto geral sobre o consumo, por um lado, e do imposto geral sobre o faturamento, por outro.

Embora a introdução ou o aumento de impostos indiretos também dependessem, em princípio, do consentimento dos Estados, provou-se, em quase todos os lugares, exceto na Inglaterra, mais fácil contornar essa exigência no caso dos impostos indiretos do que no caso dos impostos diretos. Príncipes e burocracias também tinham outro motivo para preferir os primeiros. Estamos acostumados a ver os impostos indiretos como contrários aos interesses dos relativamente pobres. Mas, nos séculos XVII e XVIII, o argumento "social" favorecia os impostos indiretos, pois estes eram suportados, pelo menos favorecidos e pela burguesia, enquanto a nobreza e o clero praticamente não contribuíam para a arrecadação dos impostos diretos.

Contudo, como também não era fácil introduzir ou reformar os impostos indiretos — o que, aliás, demonstra o quão longe essas monarquias estavam de serem "absolutas" —, a receita proveniente dessa fonte tinha que ser aumentada de acordo com a oportunidade, e não de qualquer plano racional. Além disso, como os governos raramente estavam em posição de abandonar a receita proveniente de antigos direitos fiscais, por mais irracionais, onerosos ou problemáticos que fossem, o resultado foi uma situação quase inacreditável — a melhor e única palavra é "bagunça" —, cuja simples resolução era uma tarefa extremamente difícil nos séculos XVII e XVIII, e exigiu a máxima engenhosidade de administradores e teóricos...

Em primeiro lugar, o cabo de guerra mencionado [entre os reis e os Estados] produziu inúmeros livros e panfletos sobre o direito de tributar, a "justiça" da tributação e as questões constitucionais pertinentes à tributação. Já comentamos sua introdução pelos escolásticos. A literatura laica deste tipo exibe uma diferença característica de tendência entre seu ramo inglês e seus ramos continentais: a maioria dos escritores continentais se alinhava com as burocracias e frequentemente via uma resistência ignorante e antissocial dos interesses de classe, enquanto a vasta maioria dos escritores ingleses — particularmente na luta pelo imposto naval de Carlos I — via uma defesa meritória da liberdade. 

Em segundo lugar, a descrição pura das fontes de receita pública e da prática administrativa remonta a tempos muito antigos. Há um exemplo inglês do século XII. Essa literatura também se desenvolveu muito no continente. 

Em terceiro lugar, a necessidade de aproveitar ao máximo os direitos fiscais existentes produziu, no serviço público, um tipo especial de advogado cuja tarefa era salvaguardar, ampliar e sistematizar esses direitos por meio de interpretação adequada e que, naturalmente, também lecionava e escrevia, criando o que se conhece como Jurisprudência Fiscal. Uma quarta categoria consistia nos planejadores fiscais — os numerosos escritores que defendiam esquemas de reforma fiscal: toda emergência ou controvérsia financeira desde o século XV produziu montes deles...

A maioria dos planejadores, no entanto, não realizou trabalho analítico. Isso é especialmente verdadeiro em relação a alguns dos mais eminentes entre eles, como o Cardeal de Cusa, que propôs um esquema que, de fato, teria resgatado o Império Alemão da decadência em que estava mergulhando nos séculos XV e XVI. Mas alguns analisaram a natureza da tributação — um exemplo inicial, a teoria de Mattheo Palmieri, que já foi mencionada; seus efeitos econômicos; a severidade da pressão exercida por diferentes sistemas; os efeitos dos gastos públicos; os méritos relativos da tributação direta e indireta e do financiamento de guerras por meio de impostos, empréstimos e inflação; e assim por diante. A discussão espanhola dos séculos XVII e XVIII seria particularmente interessante de acompanhar.

Nota de Schumpeter

Essa discussão se concentrava principalmente na solução a ser aplicada às queixas relativas à alcavala, aos cientios e aos millones [tributos]. Bautista Dávila (Resúmen de los medios prácticos para el general alivio de la monarquía, ver Biblioteca de Colmeiro) parece ter sido um dos primeiros economistas a considerar um imposto único como a varinha mágica para evocar os espíritos benevolentes da ordem fiscal... Seu Resúmen é um marco no caminho para as ideias de imposto único. No caso dele, seria um imposto per capita progressivo, evidentemente concebido como uma aproximação grosseira de um imposto de renda proporcional. Ideias semelhantes foram discutidas durante os cem anos subsequentes. O ministro Ensenada (A. Rodriguez Villa, Don Cenon de Somodevilla, Marqués de Ensenada, 1878) adotou uma versão desse programa e implementou um imposto sobre a renda e a propriedade em 1729 (para a Catalunha). Mas, em outros lugares, e particularmente na Alemanha, o debate do século XVII favorecia o imposto geral sobre o consumo em detrimento dos impostos diretos, precisamente com o argumento de que isso aliviaria a pressão tributária. Um sintoma interessante dessa tendência foi o livro de Christianus Teutophilus: ‘Uma mina de ouro no imposto de consumo, 1685. Entre os defensores ingleses do imposto sobre o consumo, Davenant era o mais proeminente. Mas ele acreditava que o ônus recairia sobre a terra. Por uma razão semelhante, F. Fauquier (Um Ensaio sobre os Meios e as Formas de Pagamento…1756) defendeu posteriormente um imposto sobre a propriedade, argumentando que, como os impostos indiretos, na medida em que são pagos pelos pobres, serão transferidos para os ricos por meio de um aumento nos salários, os impostos deveriam incidir sobre onde eles recairão, sem gerar as perdas inerentes ao processo de transferência. Observe que isso antecipa muito a A. Smith e Ricardo. Ao avaliar as atitudes em relação à tributação da terra, não se deve esquecer de que, antes do século XVIII, não havia métodos eficientes de levantamento topográfico. A tributação de terras agrícolas entrou em uma nova fase quando esse problema foi contornado.

Mas, dentre a vasta literatura existente, selecionaremos apenas duas obras de importância primordial... A primeira é uma das obras que surgiram em função da situação econômica da França durante os últimos vinte anos do reinado de Luís XIV. A Guerra da Sucessão Espanhola, que se seguiu à Guerra da Grande Aliança, estava transformando a pobreza em miséria nacional quando uma das grandes figuras do Estado e do exército, o engenheiro-soldado Vauban, cometeu a indiscrição de publicar uma antiga ideia sua, o Projeto de um dízimo real (1707), uma das obras mais notáveis ​​no campo das finanças públicas, insuperável pela clareza e coerência da argumentação... Essencialmente, tratava-se de abolir a complexa e irracional teia de impostos que se acumulou assistematicamente — com exceção do imposto sobre o sal, certos impostos especiais de consumo e taxas de exportação e importação — e substituí-la por um imposto de renda geral que se aplicaria a todos os tipos de renda, com alíquotas até 10%.

As características que realmente importam são as seguintes. Primeiro, Vauban alcançou o cume de tão poucos, de onde a política fiscal é vista como uma ferramenta de terapêutica econômica, o resultado final de um estudo abrangente do processo econômico. Com a visão de Gladstone, [primeiro-ministro inglês entre 1868–1894], ele percebeu que as medidas fiscais afetam o organismo econômico até suas células e que o método de arrecadação de uma determinada quantia de receita pode fazer toda a diferença entre a paralisia e a prosperidade. Segundo, ele baseou suas conclusões, nos mínimos detalhes, em fatos numéricos. Sua mente de engenheiro não fazia suposições. Ela calculava. Ninguém jamais compreendeu melhor a verdadeira relação entre fatos e argumentos. É isso que o torna um clássico, embora não tenha contribuído em nada para o aparato teórico da economia...

A segunda obra a ser mencionada, o tratado de Broggia (1743) sobre tributação, é de natureza completamente diferente, sendo selecionada por razões totalmente distintas. Ela também delineia um sistema tributário “ideal”. As principais ideias práticas, com exceção de uma, são aproximadamente semelhantes... Assim, a frescura — a originalidade “subjetiva” — que torna Vauban uma leitura tão agradável está ausente aqui. Tampouco há algo que corresponda ao principal mérito da obra de Vauban: fatos e números. Em vez disso, porém, encontramos uma abrangência sistemática e uma análise mais profunda: o resultado é um resumo de tudo o que havia de melhor, não apenas na literatura sobre finanças públicas do século XVIII, mas também na maior parte da do século XIX. 

Há a racionalização do século XV das taxas de pagamentos por segurança e serviços equivalentes prestados pelo governo. Há o princípio de que a tributação direta e indireta são complementares e necessárias uma à outra, as duas mãos das finanças. Um imposto proporcional (10%) sobre certas rendas (principalmente as provenientes de terras, casas, incluindo as habitadas pelos proprietários, e fundos públicos; compare-se à predileção de A. Smith por impostos sobre terras e casas) que não serão transferidas é combinado com um sistema de impostos indiretos (gabelle) que supostamente devem ser transferidos aos compradores, enquanto todas as rendas incertas (lucros, salários, etc.) devem permanecer isentas.

O interessante nisso é o diagnóstico subjacente da situação econômica: as finanças de Broggia visavam fomentar o aumento da riqueza por meio da atividade industrial e comercial; para esse fim, a riqueza adquirida deveria ser tributada para forçar as pessoas a se dedicarem a atividades comerciais, enquanto a riqueza em formação e o trabalho deveriam ser tratados com moderação. Por isso, ele recomendou que os empréstimos a empresas ou fundos monetários empresariais não fossem tributados, e por isso mesmo seus impostos diretos não incidiam sobre a renda pessoal, mas sobre os retornos “reais” ou “objetivos” — ele considerou aspectos de conveniência administrativa, como Bodin e Botero já haviam feito, mas o ponto essencial era evitar o cerceamento da atividade empresarial e a opressão da “pobreza extrema”.

Há três aspectos nisso: primeiro, um esquema de objetivos e valores com o qual não estamos mais preocupados do que com toda a sua conversa sobre “justiça”; segundo, uma visão das condições sociais e econômicas e suas possibilidades que ia muito além da superfície; e, terceiro, uma análise, embora não totalmente explícita, das causas e efeitos econômicos. É este terceiro ponto que constitui o mérito científico da obra.

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Os Econometristas e Turgot

ARITMÉTICA POLÍTICA

Repetidamente tivemos a oportunidade de observar, com economistas de todos os tipos, mas especialmente com os administradores-consultores, que a investigação factual era a principal tarefa que absorvia a maior parte da mão de obra disponível e progredia de forma mais satisfatória do que a ‘teoria’ existente. Isso ocorreu no princípio. Contudo, nos séculos XVII e XVIII, desenvolveu-se um tipo de ensino, especialmente nas universidades alemãs, especializado na apresentação puramente descritiva dos fatos relevantes para a administração pública. Um professor alemão, Hermann Conring (1606–1681), é geralmente considerado o pioneiro nesse tipo de aula. Outro, Gottfried Achenwall (1719–1772), que fez o mesmo, introduziu o termo Estatística. Essas "estatísticas" não apresentavam números em si, mas sim fatos não numéricos e, portanto, nas mãos desses professores, nada tinham a ver com o que hoje chamamos de método estatístico. Mas o propósito dessas informações era muito semelhante ao que nossos números, tratados por métodos um pouco mais refinados, visam cumprir. 

O impulso decisivo veio de um pequeno grupo inglês liderado por Sir William Petty. A natureza tanto do que ele chamou de Aritmética Política quanto de sua contribuição pessoal a ela foi formulada com insuperável imparcialidade por um de seus mais capazes seguidores, Davenant (Do Uso da Aritmética Política, Obras, I): ‘por Aritmética Política, entendemos a arte de raciocinar por meio de números sobre assuntos relacionados ao governo... A própria arte é, sem dúvida, muito antiga... [Mas Petty] foi o primeiro a dar-lhe esse nome e a transformar em regras e métodos.' Veremos que os 'métodos' — que, obviamente, ele também não inventou, mas, por assim dizer, ajudou a trazer à consciência — não consistem em substituir o raciocínio pela coleta de fatos. Petty não foi vítima do slogan: os fatos falam por si mesmos. Petty foi, antes de tudo, um teórico. Mas ele era um daqueles teóricos para quem a ciência é, de fato, medição; que forjam ferramentas analíticas que funcionam com dados numéricos; cujas generalizações são o produto conjunto de números e raciocínio que nunca podem se separar.

Ele simplesmente propôs: “em vez de usar apenas palavras comparativas e superlativas e argumentos intelectuais… expressar-se em termos de número, peso e medida”. Não menos óbvio é que ele estava agudamente ciente dos aspectos polêmicos de seu credo metodológico. Estava bastante disposto a lutar por ele e a iniciar o que teria sido a primeira controvérsia sobre “método”. Mas ninguém o atacou. Alguns o seguiram. E a vasta maioria se esqueceu muito rapidamente. 

Ou seja, os economistas não se esqueceram do nome; eles até se lembravam de opiniões individuais de Petty sobre várias questões práticas e de algumas de suas teorias — precisamente aquelas que eram expressas em slogans. Foi a mensagem inspiradora, o programa sugestivo, que murchou nas mãos de madeira do professor escocês [Smith] e foi praticamente perdido para a maioria dos economistas por 250 anos: A. Smith optou pelo caminho seguro que lhe era tão conveniente quando declarou que não depositava muita fé na Aritmética Política. Não se perdeu, contudo, o impulso à estatística em geral...

Nota da Wikipedia em inglês

John Graunt, [comerciante de armarinho, usou o seu conhecimento em matemática comercial em seus estudos e se tornou um dos fundadores da demografia e dos cálculos estatísticos modernos, além da epidemiologia quantitativa, morreu pobre, por causa do incêndio de Londres, e escorraçado, devido à sua conversão ao catolicismo], junto com Sir William Petty, desenvolveu os primeiros métodos estatísticos e censitários para a população humana, que forneceram uma estrutura para a demografia moderna. Ele é creditado pela criação e ampla distribuição da primeira tábua de vida, que fornece probabilidades de sobrevivência para cada idade. Isso foi notável, considerando que os Boletins de Mortalidade não incluíam a idade da morte; assim, Graunt usou seu conhecimento de matemática para criar tal tabela. Graunt também é considerado um dos primeiros especialistas em epidemiologia, visto que seu famoso livro tratava principalmente de estatísticas de saúde pública .

O livro de Graunt, Observações Naturais e Políticas Feitas com Base nos Registros de Mortalidade, compilou e analisou dados dos Registros de Mortalidade. Graunt, calculando com a Regra de Três e usando proporções obtidas pela comparação dos anos nos Registros de Mortalidade, conseguiu fazer estimativas sobre o tamanho da população de Londres e da Inglaterra, taxas de natalidade e mortalidade de homens e mulheres, e o surgimento e disseminação de certas doenças.


Mais adiante, abordaremos as controvérsias daquele período sobre o crescimento (ou declínio!) da população, que até o censo de 1801 era, pelo menos na Inglaterra, uma questão de conjectura. Este, porém, foi apenas um dos problemas que a obra de Graunt ou Petty colocou em uma forma mais promissora por meio dos "registros de mortalidade" extraídos dos registros paroquiais. Cálculos da probabilidade de sobrevivência com aplicação a seguros, da influência da vacinação na longevidade, da relação entre os sexos ao nascer e da duração média do casamento em relação às idades do marido e da esposa são exemplos retirados aleatoriamente de um amplo campo de pesquisa que estava por se abrir nos próximos cem anos graças ao livro de Graunt.

Seu mérito também não é adequadamente caracterizado por chamá-lo de "Colombo das estatísticas de mortalidade". Talvez seja ainda mais louvável o fato de ter demonstrado uma compreensão da natureza metodológica desses fenômenos de massa que podem ser descritos por "leis", embora seus elementos individuais sejam fortuitos. Basta mencionar os principais passos para o progresso subsequente. O primeiro a investigar com exatidão o problema das chances de sobrevivência foi E. Halley. Pode-se dizer que J.P. Süssmilch (A Ordem Divina nas Alterações do Estado Humano...) consolidou definitivamente a estatística vital ao desenvolver e sistematizar o trabalho de seus predecessores ingleses. A teoria da probabilidade, base do método estatístico, foi desenvolvida por Jacques Bernoulli (1654–1705) e posteriormente por seus sobrinhos Nicolas (1687–1759) e Daniel Bernoulli (1700–1782). Considerando a estreita relação entre a economia moderna... é lamentável que não possamos dar continuidade a essa linha de pesquisa.