segunda-feira, 26 de outubro de 2026


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 44 


O ataque:

Antes de atravessar o Vaza-Barris, Euclides da Cunha ‘fabrica’ um incidente ridículo:

“Toda uma companhia do 7º, naquele momento, fez fogo, por alguns minutos, sobre um jagunço, que vinha pela estrada de Uauá. E o sertanejo não apressava o andar. Parava às vezes. Via-se o vulto impassível aprumar-se… e prosseguir depois, tranquilamente… Surpreendidos, os soldados atiravam nervosamente sobre o ser excepcional, que parecia comprazer-se em ser alvo de um exército. Em dado momento, ele sentou-se à beira do caminho e pareceu bater o isqueiro, acendendo o cachimbo. Os soldados riram. O vulto levantou-se e encobriu-se, lento e lento, entre as primeiras casas” (idem, p. 328).

Segundo Euclides da Cunha, o 7º era uma tropa de ridículos incompetentes, comandados por um desequilibrado, condenado ao fracasso. Compare-se isso com o testemunho ocular transcrito abaixo, do jornal Gazeta de Notícias de 24 de março de 1897:

"Organizando-se a tropa para passar o rio Vaza-barris, um bandido ousado, do outro lado do rio, e sozinho, olhava altivamente para as forças e placidamente deu um tiro contra as mesmas, e logo depois, carregando a arma, foi ferido de morte pelas tropas legais." Euclides adultera.

A pontaria dos atiradores do 7º era famosa, e ninguém a desafiava impunemente.

Aqui a história sofre uma inflexão e fica cada vez mais confusa.

Segundo Benício, os soldados nem conseguiram atravessar direito o rio. Cunha e Benício dizem que a manobra de pinças foi tão mal feita, que as tropas que vinham por um lado tiroteavam nas que vinham do outro, como se estivessem disputando uma pracinha em um pequeno subúrbio. Em Canudos, esse espaço era enorme. Eles ressaltam a desorganização do ataque e realçam o colapso mental de Moreira Cesar. Só um pequeno grupo, sob o comando do tenente Figueira, do 7º, atingiu o povoado e pôs-se a queimar as casas mais próximas à margem. O resto foi um terrível fracasso — coincidentemente, Figueiras apoia aparentemente o relato do major Rafael Augusto.

Já o General Tristão de Alencar Araripe, em Expedições militares a Canudos: seu aspecto marcial, diz que o ataque teve, no seu início, “um certo sucesso”. Que o 7º, o 9º e a polícia baiana conseguiram penetrar o arraial e incendiar várias casas. Embora nada diga sobre o Vaza-barris.

Aristides Milton, em A campanha de Canudos, assevera que não só o 7º atacou a Igreja Nova, assim como avançou sobre as casas próximas e as incendiou. Também dá a entender que uma manobra de cobertura, da qual participou o tenente Figueira, teve dificuldades em atravessar o Vaza-barris cheio, para atacar os conselheiristas, que não paravam de seguir para as igrejas. 

Euclides fala da grande dificuldade de atravessar o Vaza-barris e que, após tentar em vão ocupar a igreja, partiram para o interior do casario ao redor, travando luta casa por casa em Canudos, em total desvantagem para os soldados. Só Cunha também fala de uma carga de cavalaria contra as casas, o que seria um completo desvario.

E outras bobagens.

O testemunho de Rafael Algusto, impresso no jornal do Comércio do Rio de Janeiro de 8 de março de 1897, portanto feito logo após os acontecimentos, e transcrito tanto por Aristides Milton quanto por Alencar Araripe, é completamente inverossímil. Transcrevo, agora, a parte referente ao ferimento de César.

Chegamos à margem do Vaza-barris às 11h30 do dia, estendendo-se logo a força em ordem de batalha…

“Após os tiros, deu o coronel ordem para o assalto, ficando ele em uma eminência, do alto de cá, e próximo da artilharia [esse detalhe é importante]. Os conselheiristas, que atiravam maravilhosamente [como se tivessem sido treinados por especialistas?] com carabina, vararam o infeliz coronel com uma bala, acidente este que me foi imediatamente comunicado e ao Tamarindo, mas que nós ocultamos.”

Vejam: logo após a ordem de ataque, às 11h30, Moreira César é atingido e, portanto, não tem participação na batalha. Ou seja, Moreira César não fez nada nesse dia além de criar um problema para o comando e ainda insistir para o ataque prosseguir no dia seguinte. Entretanto, todos os autores são unânimes em dizer que foi Moreira César quem dirigiu os primeiros ataques, e que seu ferimento só aconteceu lá pelo meio da tarde — Villela Júnior, que viu o coronel ser baleado, diz que foi por volta das 15:00h, outros, em torno de 16:00h. Uma coisa, no entanto, parece clara: Augusto e Tamarindo estavam associados, embora em graus diferentes de comprometimento.

“Ficou então Tamarindo [segundo Augusto] dirigindo o assalto e, após vararmos o rio, atravessamos do modo seguinte: a polícia e o 16º pela esquerda, a ala esquerda do 7º e mais o 9º batalhão pela direita, e eu com a ala direita [do 7º] pela frente.

Dado o sinal previamente combinado, demos princípio ao assalto, havendo a ala direita do 7º se apoderado logo de cerca de 12 casas que serviam de pequenos redutos. A força policial e o 16º atacaram galhardamente pela esquerda, mas, havendo ficado sem munição, foram obrigados a se retirar precipitadamente. Isso deu lugar a que o inimigo dirigisse os seus fogos especialmente para a ala direita do 7º, e o fazia com tanta certeza de tiro que pôs logo fora de combate grande número de oficiais e praças.

Vendo que estava sacrificando inutilmente o meu pessoal, visto que a polícia se retirava e a ala esquerda com o 9º muito pouco podia fazer, fiz retirar a mesma ala e coloquei-a na margem do rio, por trás de uma cerca. Tal era a fuzilaria, porém, que o inimigo fazia, que os oficiais e praças caíam mortos e feridos, inclusive eu, que fui ferido levemente na coxa e nádega direita [Deu as costas para o inimigo?].

Sustentamos o combate até às 6h30 da tarde sem conseguirmos tomar a cidade, sendo certo que logo notei covardia por parte das praças, em geral. Afinal, pouco antes de vir a noite, retiramo-nos para a margem de cá, onde fomos acampar.”

Pelo relato, parece estar havendo uma hecatombe de baixas, mas os números finais de baixas nos registros do Exército, para o 7º, nessa jornada e no dia seguinte, apontam para 7 oficiais e 20 praças mortos, em uma unidade que possuía 30 oficiais e 416 praças. Dos 7 mortos, dois o foram longe do front: Poly e César, sem falar dos que morreram depois tentando controlar a desordem e auxiliar os retardatários na fuga.

Augusto é, na sua versão, um chefe formidável, preocupado com seus homens, abandona a sua posição por iniciativa própria, quando as baixas ainda eram pequenas! E os leva para uma posição segura. Como ele também era dotado de 'dons especiais', começa a notar um certo 'ar' de 'covardia' dominando os soldados, que ele nada fez para dissipar, os mesmos homens que formavam uma das unidades mais admiradas e citadas do Exército. Isso, porém, prepara maravilhosamente o leitor para a debandada em seguida, com a tropa sob o seu comando, jogando nas costas de Moreira César a pecha de ter treinado mal o 7º. Assim, fácil.

“Sustentamos o combate até 6¹/² da tarde, sem conseguirmos tomar a cidade… logo notei covardia por parte das praças, em geral (testemunho do Major Rafael Augusto em A Campanha de Canudos, de Aristides Milton, Edições Senado Federal, Vol. 5, Brasília, 2003, p. 81).”

Por alguma razão que só Deus sabe, ele omite o toque de retirada, citado por outros autores, como o Sargento Villela, que estava lá.

Augusto também tem outra qualidade, que eu não diria rara: não hesita em jogar seus camaradas no fogo para se destacar. Ele percebe e denuncia a superiores, no Rio, a certeza da derrota, a 'loucura' e a 'epilepsia' de Moreira César e a ‘covardia’ dos soldados. Agora detecta o desalento do coronel Tamarindo e o expõe: “O pobre Tamarindo ficou acabrunhado e sem ação.”

Ele ainda porá na boca deste a mais desmoralizante frase da campanha: “É tempo de murici, cada um cuide de si”, tão marcante em Os Sertões, talvez até para ocultar o fato de ele, Rafael Augusto, ter cuidado tanto de si, quando começou a... correria.

Segundo o Sargento Villela Júnior, a marcha acelerada da coluna de César só foi contida no Vaza-barris, quando a artilharia foi posicionada a 400 m do perímetro da cidade, em frente às igrejas. Entre a cidade e a artilharia deslizava o Vaza-barris com 18 a 20 m de largura. Mais ou menos nesse momento, segundo o jornal República, a coluna sofre um forte ataque dos conselheiristas por um dos flancos, repelido com grandes perdas para os atacantes.

Por volta das 11:00h, tem início o bombardeio pesado da artilharia, em especial sobre a Igreja velha, cujo teto desabou, matando muita gente, mas com poucos estragos na Igreja Nova. As paredes desta eram de pedra e alvenaria maciças, e possuíam uma largura de mais de um metro, fato confirmado pela 4ª Expedição.

 

Afinal, o que aconteceu em Canudos?

Segundo Euclides da Cunha, houve uma espécie de 'invasão bárbara' à cidade, com os soldados se apossando de algumas casas no limite do arraial, preocupados somente em saquear, sem perceber o contexto, sendo logo abatidos. Até serem salvos pelo toque de retirada.

Euclides da Cunha, fiel ao seu objetivo, afirma.

“Quase sempre, depois de expugnar a casa, o soldado faminto não se forrava à ânsia de almoçar… tinha, porém, às vezes, um pospasto crudelíssimo… uma carga de chumbo… Os jagunços à porta assaltavam-no (p. 334–335)."

Isso é uma mentira solerte. Se algum soldado ficou faminto, foi porque estava de regime, pois, como vimos, a coluna foi acompanhada por um lote de reses, para servir carne fresca aos soldados, e havia água à vontade no rio. Testemunhas garantem que as casas dos maiorais foram de fato tomadas, com os soldados se abastecendo do que encontraram.

Canudos tinha disso sim. 

 

O estranho recuo da polícia baiana

            Para dar mais eficiência ao avanço, era necessário que ambas as alas, esquerda e direita, avançassem no mesmo ritmo, por isso o coronel resolveu efetuar reparos no posicionamento de algumas unidades, em função da resistência que encontravam, como o esquadrão da cavalaria e a tropa da polícia. Euclides, deturpa e avacalha. 

[Moreira César] "determinou que aquela [a polícia] seguisse à extrema direita, atacando o bairro ainda indene e completando a ação que se desdobrara toda na esquerda. A cavalaria, secundando-a, teve ordem de atacar pelo centro, entre as igrejas. Uma carga de cavalaria em Canudos… Era uma excentricidade."

Quando Euclides quer destruir alguém, não economiza, mesmo não tendo fatos, ou os tendo poucos. E quando os tem, os deturpa. O pior ficou para a cavalaria.

"O esquadrão — cavalos abombados, rengueando sobre as pernas bambas — largou em meio galope curto até à beira do rio, cujas águas respingavam chofradas de tiros; e não foi adiante. Os animais assustadiços refugavam. Dilacerados à espora, chibateados à espada, mal vadearam até o meio da corrente, e empinando e curveteando, freios tomados nos dentes, em galões, cuspindo da sela os cavaleiros, volveram em desordem à posição primitiva (p. 337)."

A ação da cavalaria de Euclides da Cunha não passa de uma bufonaria, de um deboche com o leitor. Vejamos o que o sargento Villela Júnior, testemunha ocular, disse sobre a ação da cavalaria em suas memórias:

"Também já estava agindo dentro da cidadela o esquadrão de cavalaria, comandado pelo capitão Pereira Franco, queimando casebres de palha e liquidando jagunços à espada (Canudos: memórias de um combatente, p. 22)."

O jornal República, de 6 de abril, narra assim esse momento: "A cerca de 200 m de distância da cidade, a cavalaria avançou… e a polícia, depois de avançar, fez movimento de recuar."

É nessa hora que Moreira César diz que vai “dar brios a essa gente”, o que, no relato de Euclides e Rafael Augusto, o faz se aproximar perigosamente do front e levar o tiro fatal. Isso induz o Dr. Afrânio Peixoto, cheio de amor à pátria e querendo ajudar onde não podia, a afirmar categoricamente que Moreira César, confuso pela epilepsia de última hora, agia movido pelo intuito inconsciente de se matar.

Mas o fato relatado por testemunhas é que Moreira César reposiciona a força de polícia, dirige-lhe estímulos e... continua o relato do República: "A polícia avançou, portando-se com heroísmo e conseguindo desalojar os jagunços casa por casa, incendiando-as até que, por falta de munição, teve de abandonar a posição conquistada com tanto valor."

Realmente, é estranho essa falta de munição na polícia baiana, o que fez alguns autores apressadamente concluírem que a força não estava abastecida. Quem mais profundamente aborda esse assunto é Oleone Fontes, em Treme-terra, p. 297, onde nos diz que, quando começou a faltar munição, o comandante da tropa mandou soldados irem pegar mais.

Eles voltaram pouco depois, dizendo que não havia munição para as armas utilizadas pela polícia baiana — os fuzis Comblain. Mas Oleone ressalva: "Cunhetes [caixotes de madeira com munição e alças de corda] havia. Não foram enviados… por motivos que jamais se descobrirá jamais."

E Dantas Barreto, em Acidentes da guerra, não só confirma esse incidente, mas acrescenta um reparo:

“A polícia da Bahia esgotara a munição de bolsa [as patronas], seu destemido comandante tomou providências rápidas para refazer-se desse elemento… mas o quartel-mestre, sob cuja vigilância ficaram os cargueiros [com a munição], despachou os homens mandados ao seu encontro… dizendo que já não havia munição de Comblain, com que se achava armada a força baiana.

Verificou, entretanto, o tenente Severo [que era da artilharia e ouviu essa conversa], a quem não escapara semelhante informação traiçoeira; que existiam ainda quatro cunhetes [cada qual com cerca de 1.500 cartuchos] da munição pedida, mas por mais que se esforçasse o valente artilheiro para o remuniciamento pedido, não conseguiu fazê-lo, por não haver quem se encarregasse de tão arriscada empresa [ou seja, negaram aos que a vieram pedir, e não tiveram coragem de levá-la, depois que a encontraram]. Em tal emergência… a digna milícia estadual… viu-se na contingência de abandonar sua posição vantajosa” (p. 131).

De outra forma: havia munição, uma unidade na frente de combate precisava dela, mas, por alguma razão misteriosa, a seção responsável pela sua guarda negou-a.

Das duas, uma:

1 – Houve incompetência ou descuido, e a munição foi negada sem querer.

2 – Foi proposital, e então estamos diante de um caso claro de sabotagem, de traição, que decerto atende aos interesses daqueles que queriam Moreira César longe do Rio, mas sem resolver o problema de Canudos.

Quando houve a derrocada da Força Expedicionária, os canudenses encontraram essa munição e mais dezenas de cunhetes, em torno de 60 mil cartuchos, e a mandaram de volta para o Exército Brasileiro, nos corpos dos soldados mortos ou feridos na 4ª Expedição.

Eduardo Simões

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