O ataque:
Antes de atravessar o
Vaza-Barris, Euclides da Cunha ‘fabrica’ um incidente ridículo:
“Toda uma companhia
do 7º, naquele momento, fez fogo, por alguns minutos, sobre um jagunço, que
vinha pela estrada de Uauá. E o sertanejo não apressava o andar. Parava às
vezes. Via-se o vulto impassível aprumar-se… e prosseguir depois,
tranquilamente… Surpreendidos, os soldados atiravam nervosamente sobre o ser
excepcional, que parecia comprazer-se em ser alvo de um exército. Em dado
momento, ele sentou-se à beira do caminho e pareceu bater o isqueiro, acendendo
o cachimbo. Os soldados riram. O vulto levantou-se e encobriu-se, lento e
lento, entre as primeiras casas” (idem, p. 328).
Segundo Euclides da
Cunha, o 7º era uma tropa de ridículos incompetentes, comandados por um
desequilibrado, condenado ao fracasso. Compare-se isso com o testemunho ocular
transcrito abaixo, do jornal Gazeta de Notícias de 24 de março de 1897:
"Organizando-se a
tropa para passar o rio Vaza-barris, um bandido ousado, do outro lado do rio, e
sozinho, olhava altivamente para as forças e placidamente deu um tiro contra as
mesmas, e logo depois, carregando a arma, foi ferido
de morte pelas tropas legais." Euclides adultera.
A pontaria dos
atiradores do 7º era famosa, e ninguém a desafiava impunemente.
Aqui a história sofre
uma inflexão e fica cada vez mais confusa.
Segundo Benício, os
soldados nem conseguiram atravessar direito o rio. Cunha e Benício dizem que a
manobra de pinças foi tão mal feita, que as tropas que vinham por um lado
tiroteavam nas que vinham do outro, como se estivessem disputando uma pracinha
em um pequeno subúrbio. Em Canudos, esse espaço era enorme. Eles ressaltam a
desorganização do ataque e realçam o colapso mental de Moreira Cesar. Só um
pequeno grupo, sob o comando do tenente Figueira, do 7º, atingiu o povoado e
pôs-se a queimar as casas mais próximas à margem. O resto foi um terrível
fracasso — coincidentemente, Figueiras apoia aparentemente o relato do major
Rafael Augusto.
Já o General Tristão de
Alencar Araripe, em Expedições militares a Canudos: seu aspecto marcial,
diz que o ataque teve, no seu início, “um certo sucesso”. Que o 7º, o 9º
e a polícia baiana conseguiram penetrar o arraial e incendiar várias casas.
Embora nada diga sobre o Vaza-barris.
Aristides Milton, em A
campanha de Canudos, assevera que não só o 7º atacou a Igreja Nova, assim
como avançou sobre as casas próximas e as incendiou. Também dá a entender que
uma manobra de cobertura, da qual participou o tenente Figueira, teve
dificuldades em atravessar o Vaza-barris cheio, para atacar os conselheiristas,
que não paravam de seguir para as igrejas.
Euclides fala da grande
dificuldade de atravessar o Vaza-barris e que, após tentar em vão ocupar a
igreja, partiram para o interior do casario ao redor, travando luta casa por
casa em Canudos, em total desvantagem para os soldados. Só Cunha também fala de
uma carga de cavalaria contra as casas, o que seria um completo desvario.
E outras bobagens.
O testemunho de Rafael
Algusto, impresso no jornal do Comércio do Rio de Janeiro de 8 de março de
1897, portanto feito logo após os acontecimentos, e transcrito tanto por
Aristides Milton quanto por Alencar Araripe, é completamente inverossímil.
Transcrevo, agora, a parte referente ao ferimento de César.
Chegamos à margem do
Vaza-barris às 11h30 do dia, estendendo-se logo a força em ordem de batalha…
“Após os tiros, deu o
coronel ordem para o assalto, ficando ele em uma eminência, do alto de cá, e próximo
da artilharia [esse detalhe é
importante]. Os conselheiristas, que atiravam maravilhosamente [como
se tivessem sido treinados por especialistas?] com carabina, vararam o
infeliz coronel com uma bala, acidente este que me foi imediatamente comunicado
e ao Tamarindo, mas que nós ocultamos.”
Vejam: logo após a
ordem de ataque, às 11h30, Moreira César é atingido e, portanto, não tem
participação na batalha. Ou seja, Moreira César não fez nada nesse dia além de
criar um problema para o comando e ainda insistir para o ataque prosseguir no
dia seguinte. Entretanto, todos os autores são unânimes em dizer que foi
Moreira César quem dirigiu os primeiros ataques, e que seu ferimento só
aconteceu lá pelo meio da tarde — Villela Júnior, que viu o coronel ser
baleado, diz que foi por volta das 15:00h, outros, em torno de 16:00h. Uma
coisa, no entanto, parece clara: Augusto e Tamarindo estavam associados, embora
em graus diferentes de comprometimento.
“Ficou então Tamarindo [segundo
Augusto] dirigindo o assalto e, após vararmos o rio, atravessamos do modo
seguinte: a polícia e o 16º pela esquerda, a ala esquerda do 7º e mais o 9º
batalhão pela direita, e eu com a ala direita [do 7º] pela frente.
Dado o sinal
previamente combinado, demos princípio ao assalto, havendo a ala direita do 7º
se apoderado logo de cerca de 12 casas que serviam de pequenos redutos. A força
policial e o 16º atacaram galhardamente pela esquerda, mas, havendo ficado sem
munição, foram obrigados a se retirar precipitadamente. Isso deu lugar a que o
inimigo dirigisse os seus fogos especialmente para a ala direita do 7º, e o
fazia com tanta certeza de tiro que pôs logo fora de combate grande número de
oficiais e praças.
Vendo que estava
sacrificando inutilmente o meu pessoal, visto que a polícia se retirava e a ala
esquerda com o 9º muito pouco podia fazer, fiz retirar a mesma ala e coloquei-a
na margem do rio, por trás de uma cerca. Tal era a
fuzilaria, porém, que o inimigo fazia, que os oficiais e praças caíam mortos e
feridos, inclusive eu, que fui ferido levemente na coxa e nádega direita
[Deu as costas para o inimigo?].
Sustentamos o combate
até às 6h30 da tarde sem conseguirmos tomar a cidade, sendo certo que logo
notei covardia por parte das praças, em geral. Afinal, pouco antes de vir a
noite, retiramo-nos para a margem de cá, onde fomos acampar.”
Pelo relato, parece
estar havendo uma hecatombe de baixas, mas os números finais de baixas nos
registros do Exército, para o 7º, nessa jornada e no dia seguinte, apontam para
7 oficiais e 20 praças mortos, em uma unidade que possuía 30 oficiais e 416 praças.
Dos 7 mortos, dois o foram longe do front: Poly e César, sem falar dos que
morreram depois tentando controlar a desordem e auxiliar os retardatários na
fuga.
Augusto é, na sua
versão, um chefe formidável, preocupado com seus homens, abandona a sua posição
por iniciativa própria, quando as baixas ainda eram pequenas! E os leva para
uma posição segura. Como ele também era dotado de 'dons especiais', começa a notar
um certo 'ar' de 'covardia' dominando os soldados, que ele nada fez para
dissipar, os mesmos homens que formavam uma das unidades mais admiradas e
citadas do Exército. Isso, porém, prepara maravilhosamente o leitor para a
debandada em seguida, com a tropa sob o seu comando, jogando nas costas de
Moreira César a pecha de ter treinado mal o 7º. Assim, fácil.
“Sustentamos o
combate até 6¹/² da tarde, sem conseguirmos tomar a cidade… logo notei covardia
por parte das praças, em geral (testemunho do Major Rafael Augusto em A
Campanha de Canudos, de Aristides Milton, Edições Senado Federal, Vol. 5,
Brasília, 2003, p. 81).”
Por alguma razão que só
Deus sabe, ele omite o toque de retirada, citado por outros autores, como o
Sargento Villela, que estava lá.
Augusto também tem
outra qualidade, que eu não diria rara: não hesita em jogar seus camaradas no
fogo para se destacar. Ele percebe e denuncia a superiores, no Rio, a
certeza da derrota, a 'loucura' e a 'epilepsia' de Moreira César e a ‘covardia’
dos soldados. Agora detecta o desalento do coronel Tamarindo e o expõe: “O
pobre Tamarindo ficou acabrunhado e sem ação.”
Ele ainda porá na boca
deste a mais desmoralizante frase da campanha: “É tempo de murici, cada
um cuide de si”, tão marcante em Os Sertões, talvez até para ocultar
o fato de ele, Rafael Augusto, ter cuidado tanto de si, quando começou a...
correria.
Segundo o Sargento
Villela Júnior, a marcha acelerada da coluna de César só foi contida no
Vaza-barris, quando a artilharia foi posicionada a 400 m do perímetro da
cidade, em frente às igrejas. Entre a cidade e a artilharia deslizava o
Vaza-barris com 18 a 20 m de largura. Mais ou menos nesse momento, segundo o
jornal República, a coluna sofre um forte ataque dos conselheiristas por
um dos flancos, repelido com grandes perdas para os atacantes.
Por volta das 11:00h,
tem início o bombardeio pesado da artilharia, em especial sobre a Igreja velha,
cujo teto desabou, matando muita gente, mas com poucos estragos na Igreja Nova.
As paredes desta eram de pedra e alvenaria maciças, e possuíam uma largura de
mais de um metro, fato confirmado pela 4ª Expedição.
Afinal, o que aconteceu
em Canudos?
Segundo Euclides da
Cunha, houve uma espécie de 'invasão bárbara' à cidade, com os soldados se
apossando de algumas casas no limite do arraial, preocupados somente em
saquear, sem perceber o contexto, sendo logo abatidos. Até serem salvos pelo
toque de retirada.
Euclides da Cunha, fiel
ao seu objetivo, afirma.
“Quase sempre, depois
de expugnar a casa, o soldado faminto não se forrava à ânsia de almoçar…
tinha, porém, às vezes, um pospasto crudelíssimo… uma carga de chumbo… Os
jagunços à porta assaltavam-no (p. 334–335)."
Isso é uma mentira
solerte. Se algum soldado ficou faminto, foi porque estava de regime, pois,
como vimos, a coluna foi acompanhada por um lote de reses, para servir carne
fresca aos soldados, e havia água à vontade no rio. Testemunhas garantem
que as casas dos maiorais foram de fato tomadas, com os soldados se abastecendo
do que encontraram.
Canudos tinha disso
sim.
O estranho recuo da
polícia baiana
Para dar mais eficiência ao avanço, era necessário que
ambas as alas, esquerda e direita, avançassem no mesmo ritmo, por isso o
coronel resolveu efetuar reparos no posicionamento de algumas unidades, em
função da resistência que encontravam, como o esquadrão da cavalaria e a tropa
da polícia. Euclides, deturpa e avacalha.
[Moreira César] "determinou
que aquela [a polícia] seguisse à extrema direita, atacando o bairro
ainda indene e completando a ação que se desdobrara toda na esquerda. A
cavalaria, secundando-a, teve ordem de atacar pelo centro, entre as igrejas.
Uma carga de cavalaria em Canudos… Era uma excentricidade."
Quando Euclides quer
destruir alguém, não economiza, mesmo não tendo fatos, ou os tendo poucos. E
quando os tem, os deturpa. O pior ficou para a cavalaria.
"O esquadrão —
cavalos abombados, rengueando sobre as pernas bambas — largou em meio galope
curto até à beira do rio, cujas águas respingavam chofradas de tiros; e não foi
adiante. Os animais assustadiços refugavam. Dilacerados à espora, chibateados à
espada, mal vadearam até o meio da corrente, e empinando e curveteando, freios
tomados nos dentes, em galões, cuspindo da sela os cavaleiros, volveram em
desordem à posição primitiva (p. 337)."
A ação da cavalaria de
Euclides da Cunha não passa de uma bufonaria, de um deboche com o
leitor. Vejamos o que o sargento Villela Júnior, testemunha ocular, disse
sobre a ação da cavalaria em suas memórias:
"Também já
estava agindo dentro da cidadela o esquadrão de cavalaria, comandado pelo
capitão Pereira Franco, queimando casebres de palha e liquidando jagunços à
espada (Canudos: memórias de um combatente, p. 22)."
O jornal República,
de 6 de abril, narra assim esse momento: "A cerca de 200 m de distância
da cidade, a cavalaria avançou… e a polícia, depois de avançar, fez movimento
de recuar."
É nessa hora que
Moreira César diz que vai “dar brios a essa gente”, o que, no relato de
Euclides e Rafael Augusto, o faz se aproximar perigosamente do front e levar o
tiro fatal. Isso induz o Dr. Afrânio Peixoto, cheio de amor à pátria e querendo
ajudar onde não podia, a afirmar categoricamente que Moreira César, confuso
pela epilepsia de última hora, agia movido pelo intuito inconsciente de se
matar.
Mas o fato relatado por
testemunhas é que Moreira César reposiciona a força de polícia, dirige-lhe
estímulos e... continua o relato do República: "A polícia
avançou, portando-se com heroísmo e conseguindo desalojar os jagunços casa por
casa, incendiando-as até que, por falta de munição, teve de abandonar a posição
conquistada com tanto valor."
Realmente, é estranho
essa falta de munição na polícia baiana, o que fez alguns autores
apressadamente concluírem que a força não estava abastecida. Quem mais
profundamente aborda esse assunto é Oleone Fontes, em Treme-terra,
p. 297, onde nos diz que, quando começou a faltar munição, o comandante da
tropa mandou soldados irem pegar mais.
Eles voltaram pouco
depois, dizendo que não havia munição para as armas utilizadas pela polícia
baiana — os fuzis Comblain. Mas Oleone ressalva: "Cunhetes
[caixotes de madeira com munição e alças de corda] havia. Não foram
enviados… por motivos que jamais se descobrirá jamais."
E Dantas Barreto, em Acidentes
da guerra, não só confirma esse incidente, mas acrescenta um reparo:
“A polícia da Bahia
esgotara a munição de bolsa [as patronas], seu
destemido comandante tomou providências rápidas para refazer-se desse elemento…
mas o quartel-mestre, sob cuja vigilância ficaram os cargueiros [com a
munição], despachou os homens mandados ao seu encontro… dizendo que já não
havia munição de Comblain, com que se achava armada a força baiana.
Verificou, entretanto,
o tenente Severo [que era da artilharia e ouviu essa
conversa], a quem não escapara semelhante informação traiçoeira; que
existiam ainda quatro cunhetes [cada qual com cerca de 1.500 cartuchos]
da munição pedida, mas por mais que se esforçasse o valente artilheiro para o
remuniciamento pedido, não conseguiu fazê-lo, por não haver quem se
encarregasse de tão arriscada empresa [ou seja, negaram aos que a vieram
pedir, e não tiveram coragem de levá-la, depois que a encontraram]. Em tal emergência…
a digna milícia estadual… viu-se na contingência de abandonar sua posição
vantajosa” (p. 131).
De outra forma: havia
munição, uma unidade na frente de combate precisava dela, mas, por alguma razão
misteriosa, a seção responsável pela sua guarda negou-a.
Das duas, uma:
1 – Houve incompetência
ou descuido, e a munição foi negada sem querer.
2 – Foi proposital, e
então estamos diante de um caso claro de sabotagem, de traição, que decerto
atende aos interesses daqueles que queriam Moreira César longe do Rio, mas sem
resolver o problema de Canudos.
Quando houve a
derrocada da Força Expedicionária, os canudenses encontraram essa munição e
mais dezenas de cunhetes, em torno de 60 mil cartuchos, e a mandaram de volta
para o Exército Brasileiro, nos corpos dos soldados mortos ou feridos na 4ª
Expedição.

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