sexta-feira, 23 de outubro de 2026

 

SOLILÓQUIOS BRASILEIROS - O HOMEM AMERICANO NÃO É ORIGINÁRIO DA AMÉRICA

Eduardo Simões

Ultimamente é moda chamar os descendentes de povos indígenas das Américas de “povos originários”. Um termo cheio de conotação política, mas vazio de significado semântico, uma vez que nenhum grupo humano jamais se originou na América. Tampouco eles são mais originários que europeus ou africanos na construção da cultura nacional de cada povo americano moderno. Nós, a humanidade, somos todos FILHOS DA ÁFRICA, quer isso agrade ou não, e nós, brasileiros, de um encontro às vezes fortuito, quase sempre tão imposto quanto inevitável, das culturas de três continentes, reunidas na América.

A América, mais que qualquer outro, é o continente da Nova Humanidade, cheio de oportunidades e desafios, desde que mantida em seu projeto original de local de fusão de povos.

Entrementes, já houve quem defendesse cientificamente a origem não só dos nativos americanos, mas de toda a humanidade, neste continente, mais especificamente no sul da Argentina, na Patagônia. O autor dessa hipótese foi o estudioso autodidata, ítalo-argentino, Florentino Ameghino (1853–1911), autor de uma bibliografia descomunal na área de antropologia, arqueologia e paleontologia, climatologia — umas 20 mil páginas —, tão vasta e profunda nas suas descrições quanto rasa e temerária nas suas conclusões, embora muitos tenham se afogado nessa rasura.

Ele foi um dos pioneiros do estudo de fósseis na Patagônia, uma das principais áreas de concentração de fósseis do mundo — rivalizando com o deserto de Gobi, na China —, e, no seu auge, foi muito respeitado na Europa e América do Norte pela abrangência dos seus estudos pioneiros, suas descrições cuidadosas e sua erudição. Mas perdeu-se quando, envolvido por ardor patriótico, precipitou-se na avaliação de estratos geológicos e dos fósseis aí encontrados. Queimando etapas importantes, ele aventurou-se a defender que a Patagônia argentina era o berço da humanidade, por meio do Homem da Patagônia (Homo pampeanus ou Homo pampeus).

O pesquisador tcheco-americano, Alech Hrdlichka, que nessa época defendia a tese da ocupação da América por ondas migratórias vindas da Ásia, a qual é aceita hoje, foi até a Argentina conferir. Hrdlichka chegou à conclusão de que os achados de Ameghino misturavam ossos de macacos e humanos de épocas muito mais recentes do que este imaginava. A datação estratigráfica do argentino fora muito superestimada, e o resultado foi assimilado como uma humilhação para ele e para o país. Uma cortina de esquecimento caiu sobre ele e os seus trabalhos. Poucos o citam hoje.

A história de Ameghino lembra-nos que uma boa formação escolar-científica dificilmente pode ser substituída por um autodidatismo espontâneo e modismos, como  fez Ameghino, que também era famoso pelo seu temperamento difícil, fruto do seu isolamento social. Isso se manifestava numa autossuficiência compulsiva que o fazia apegar-se radicalmente às suas ideias, fechando-se ao contraditório. Ele tomava as críticas ao seu trabalho como uma ofensa pessoal, envolvendo-se em longas, desrespeitosas e estressantes disputas acadêmicas, sem outro resultado que o agravamento do seu isolamento final.

Não existe, portanto, nenhuma espécie de ser humano que tenha sido originária da América. Todos os seres humanos que habitam este continente e todos os outros, exceto a África, são invasores, pois nenhum grupo humano jamais se instalou nesses continentes sem provocar a extinção ou mudanças em espécies animais, vegetais e formações rochosas, essas sim originárias desses continentes.

Portanto, não faz sentido uma pessoa dotada de formação científica falar em “povos originários”, referindo-se a descendentes de povos que habitavam a América à chegada dos europeus — a adoção desse dogma político, por si só, extingue a formação científica, por contradição incontornável. Esses povos poderiam, precariamente, ser chamados “primários” por chegarem antes dos europeus e africanos.


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