SOLILÓQUIOS BRASILEIROS - O HOMEM AMERICANO NÃO É ORIGINÁRIO DA AMÉRICA
Eduardo Simões
Ultimamente é moda chamar os descendentes de povos indígenas
das Américas de “povos originários”. Um termo cheio de conotação política, mas
vazio de significado semântico, uma vez que nenhum grupo humano jamais se
originou na América. Tampouco eles são mais originários que europeus
ou africanos na construção da cultura nacional de cada povo americano moderno.
Nós, a humanidade, somos todos FILHOS DA ÁFRICA, quer isso agrade ou
não, e nós, brasileiros, de um encontro às vezes fortuito, quase sempre tão
imposto quanto inevitável, das culturas de três continentes, reunidas na
América.
A América, mais que qualquer outro, é o continente da Nova
Humanidade, cheio de oportunidades e desafios, desde que mantida em seu projeto
original de local de fusão de povos.
Entrementes, já houve quem defendesse cientificamente a
origem não só dos nativos americanos, mas de toda a humanidade, neste
continente, mais especificamente no sul da Argentina, na Patagônia. O autor
dessa hipótese foi o estudioso autodidata, ítalo-argentino, Florentino Ameghino
(1853–1911), autor de uma bibliografia descomunal na área de antropologia,
arqueologia e paleontologia, climatologia — umas 20 mil páginas —, tão vasta e
profunda nas suas descrições quanto rasa e temerária nas suas conclusões, embora
muitos tenham se afogado nessa rasura.
Ele foi um dos pioneiros do estudo de fósseis na Patagônia,
uma das principais áreas de concentração de fósseis do mundo — rivalizando com
o deserto de Gobi, na China —, e, no seu auge, foi muito respeitado na Europa e
América do Norte pela abrangência dos seus estudos pioneiros, suas descrições
cuidadosas e sua erudição. Mas perdeu-se quando, envolvido por ardor
patriótico, precipitou-se na avaliação de estratos geológicos e dos fósseis aí
encontrados. Queimando etapas importantes, ele aventurou-se a defender que a
Patagônia argentina era o berço da humanidade, por meio do Homem da Patagônia
(Homo pampeanus ou Homo pampeus).
O pesquisador tcheco-americano, Alech Hrdlichka, que nessa
época defendia a tese da ocupação da América por ondas migratórias vindas da
Ásia, a qual é aceita hoje, foi até a Argentina conferir. Hrdlichka chegou à
conclusão de que os achados de Ameghino misturavam ossos de macacos e humanos
de épocas muito mais recentes do que este imaginava. A datação estratigráfica
do argentino fora muito superestimada, e o resultado foi assimilado como uma
humilhação para ele e para o país. Uma cortina de esquecimento caiu sobre ele e
os seus trabalhos. Poucos o citam hoje.
A história de Ameghino lembra-nos que uma boa formação
escolar-científica dificilmente pode ser substituída por um autodidatismo
espontâneo e modismos, como fez Ameghino, que também era famoso pelo seu
temperamento difícil, fruto do seu isolamento social. Isso se manifestava numa
autossuficiência compulsiva que o fazia apegar-se radicalmente às suas ideias,
fechando-se ao contraditório. Ele tomava as críticas ao seu trabalho como uma
ofensa pessoal, envolvendo-se em longas, desrespeitosas e estressantes disputas
acadêmicas, sem outro resultado que o agravamento do seu isolamento final.
Não existe, portanto, nenhuma espécie de ser humano que tenha
sido originária da América. Todos os seres humanos que habitam este continente
e todos os outros, exceto a África, são invasores, pois nenhum grupo humano
jamais se instalou nesses continentes sem provocar a extinção ou mudanças em
espécies animais, vegetais e formações rochosas, essas sim originárias desses
continentes.
Portanto, não faz sentido uma pessoa dotada de formação
científica falar em “povos originários”, referindo-se a descendentes de
povos que habitavam a América à chegada dos europeus — a adoção desse dogma
político, por si só, extingue a formação científica, por contradição
incontornável. Esses povos poderiam, precariamente, ser chamados “primários”
por chegarem antes dos europeus e africanos.

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