SOLILÓQUIOS BRASILEIROS — OS PROBLEMAS SOBRE A ORIGEM DA POPULAÇÃO AMERICANA.
A teoria dominante sobre o povoamento da América está
fortemente ligada ao período final da última glaciação — a Glaciação Wisconsin
— terminada aproximadamente há 11.700 anos. Nesse período, devido ao acúmulo de
água nas geleiras que cobriam o Canadá e o norte da Europa, o nível dos oceanos
baixou uns 150 m, criando uma união terrestre entre a Ásia e a América, a
Beríngia.
Acreditava-se que grupos de caçadores do Paleolítico do
centro da Ásia e da Sibéria oriental tenham tomado esse caminho, seguindo
manadas de animais, como os mamutes, bisões, caribus e até leões, que vieram
dar no continente americano. A princípio, acreditava-se que esse movimento
começou entre 11.500 e 13.000 anos atrás, conforme descobertas arqueológicas
feitas numa localidade chamada Clóvis, nos Estados Unidos, que serviu como
marco inicial do povoamento das Américas.
Essa datação, entretanto, apresentava problemas, pois ficava
difícil explicar como caçadores a pé, com ferramentas tão simples, conseguiram,
em tão pouco tempo, cobrir distâncias tão vastas. Na falta de uma explicação
melhor, a teoria de Clóvis prevaleceu. Essa fortaleza cronológica começou a
ruir quando novos sítios arqueológicos, até na América do Sul, começaram a
apresentar datas mais antigas. O mapa abaixo apresenta as datas encontradas
para algumas delas. (No inglês, utiliza-se a vírgula e não o ponto para separar os
múltiplos de mil).
Porém, algo não batia. Se eles vieram pela Beríngia, entrando
pelo Alasca, por que não se encontram sítios arqueológicos antigos e em
profusão nesse estado americano? Os poucos encontrados eram recentes. Apareceram,
então, teorias de povos navegantes, complementando a ocupação dos caçadores.
Embalado por essa nova abordagem, o etnologista francês Paul
Rivet passou a defender a teoria da Origem Múltipla ou Transpacífica, em 1943,
afirmando que, concomitantemente à corrente colonizadora siberiana, teria
havido uma outra conduzida por navegantes polinésios, na direção da América do
Sul. Isso explicaria as diferenças culturais observadas nas duas áreas: Norte e
Sul. Essa teoria, que estava desprestigiada, revigorou-se com a descoberta do
crânio de 'Luzia', em Minas Gerais, com características negroides.
Para provar a possibilidade da teoria polinésia, o navegador
norueguês Thor Heyerdahl, com mais cinco companheiros, foi da costa do Peru até
Tuamotu, na Polinésia, numa embarcação primitiva, usando ferramentas
primitivas, numa viagem que durou de abril a agosto de 1947. Uma das mais
espetaculares aventuras, descrita no livro Expedição Kon-Tiki de
Heyerdahl — Kon-Tiki, na língua inca, quer dizer filho do sol. Aproveitando o
regime dos ventos e as correntes marinhas, Heyerdahl comprovou essa
possibilidade.
Com o aprimoramento de exames genéticos, a teoria de Rivet e
a negritude de Luzia foram definitivamente descartadas. Os povos primários da
América descendem exclusivamente de colonizadores da Sibéria e do centro da
Ásia.
A descoberta de novos sítios arqueológicos no leste dos EUA,
como Meadowcroft e Cactus Hill, mais antigos que Clovis, com artefatos feitos
com uma técnica muito aprimorada e diferente das outras, fez alguns especularem
uma onda migratória vinda da Europa Ocidental! Esse mistério e a conclusão
precipitada foram desfeitos parcialmente por meio de estudos comparativos entre
esses achados e artefatos dessa época, encontrados em algumas ilhas japonesas —
algumas sob domínio russo —, batizada como área PSHK (Paleo-Sacalinas-Hocaido-Kurilas).
Essa tese diz que grupos de migrantes, vindos da Ásia Central
ou Sibéria, detiveram-se por um bom tempo nessa região. Da convivência com
outros povos nela instalados, teriam assimilado ou desenvolvido novas
tecnologias líticas e de navegação. Daí, partiram para o povoamento da América
em barcos, o que explicaria tanto a inexistência de sítios arqueológicos muito
antigos no Alasca quanto o rápido povoamento das Américas.
Mas, como nada é simples na arqueologia, em 1977–78, um
arqueólogo canadense descobriu em 3 cavernas no norte do território de Yukon,
as Bluefish Caves, uma grande quantidade de ossos e artefatos antigos. A
primeira datação, em radiocarbono, deu 24.000 anos, confirmada, posteriormente,
por métodos mais modernos em 2017.
Isso aparentemente volta a dar força ao argumento da
travessia terrestre da Beríngia. Mas, como se trata de um único achado, há a
possibilidade de ser o local final de um grupo que desembarcou bem mais ao sul.
Isso ainda não é suficiente para resgatar a importância dessa rota.
No momento, a tese de povos navegantes oriundos da Ásia
povoando o continente americano a partir do lado ocidental, começando pela
América do Norte, é a que melhor se integra com os achados arqueológicos
atuais, até que um novo achado ou uma teoria mais convincente modifique tudo.


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