sexta-feira, 8 de maio de 2026

 


JUSTIÇA HISTÓRICA PARA O CORONEL ANTÔNIO MOREIRA CÉSAR

Eduardo Simões

            Em 2021, os habitantes de Niterói, em comum acordo com a Câmara Municipal, retiraram o nome do coronel Moreira César de uma das mais conhecidas ruas da cidade, mudando-o para Ator Paulo Gustavo, após o resultado quase unânime de uma votação. Um exemplo clássico do extremo a que pode nos levar o indiferentismo e o desprezo pela nossa história.

            Curioso, mas não admirável, é que a má fama do coronel Antônio Moreira César só começou após a sua morte, no malogro da 3ª Expedição a Canudos — mortos não se defendem —, primeiro, como uma tentativa de fazer a população crer no despautério de que em Canudos havia forças estrangeiras prontas para restabelecer a monarquia. Nessa linha se colocam o relatório do esquisito major Cunha Mattos e o massacrador de Canudos, o general Arthur Oscar; segundo, como uma tentativa de justificar a derrota da poderosa 3ª Expedição diante de uma comunidade de gente pobre e mal-armada. Nessa linha se esmerou a fantasia genial e o dote literário de Euclides da Cunha.

            Nesse ponto, a diferença entre Cunha Mattos e Euclides da Cunha é que o primeiro tenta passar a ideia de que César contraíra epilepsia na marcha, e que, por isso, não agia com discernimento nem conseguia ver o óbvio: um aparato de guerra internacional no sertão mais pobre da Bahia. Euclides da Cunha navega no novo 'óbvio': não havia conspiração internacional nenhuma, tudo não passou de um colossal e injustificado massacre, e como a epilepsia de última hora não funcionava mais, era preciso ir mais longe: Moreira César sempre foi problemático, um lunático de pavio curto, um assassino compulsivo, um ignorante dissimulado, abusador de menores, susceptível à bajulação, enfim uma vitrine de todos os vícios e deformações de caráter existentes, no entanto, com uma “carreira correta como poucas” e criador da “melhor unidade do Exército Brasileiro!”  Não é mais uma doença de última hora que turva o seu discernimento: é um demônio crudelíssimo. Ele é um homem possuído. E o povo brasileiro acreditou!

            A verdade é que o coronel Moreira César tinha dois grandes defeitos, tradicionalmente imperdoáveis na nossa sociedade: era um homem pobre, nascido de pais desconhecidos, que entrou jovem para o Exército, ao qual se dedicou de corpo e alma. Também não fazia concessões ao que ameaçasse seus valores pessoais e militares, o que o afastou de um grande e poderoso círculo de amizades. Faltava-lhe, portanto, o essencial para ser bem-sucedido numa sociedade aristocrática; e que essa sociedade existe até hoje, intacta, Daniel Vorcaro não me deixa mentir.

Nessas condições, o seu horrível fim era claramente previsível. Tão previsível que, semanas antes de acontecer, na madrugada do dia 4 de março de 1897, vários jornais do Rio e de Florianópolis — O Paiz, Cidade do Rio, República — noticiavam que ele seria morto e a expedição derrotada. Como essas pessoas sabiam? Estariam preparando o público para algo que já fora acertado, longe de Canudos, para reforçar a tese da conspiração internacional? Afinal, somos um país de profetas infalíveis ou de conspiradores linguarudos?

         Onde podemos achar o verdadeiro Moreira César?

         Em março e abril de 1897, como uma forma de necrológio, foi publicada uma pequena biografia dele em diversos jornais do Rio de Janeiro, como Gazeta de Notícias, O Paiz, Jornal do Comércio, O Jacobino, etc. A única desse improvável e ex-herói nacional, e nela se lê a história de um pobre órfão dando tudo de si para crescer na sua profissão, chamando desde cedo a atenção dos seus superiores pela sua dedicação às tarefas e amor ao estudo. Ele era um estudioso.

            Seu amor e dedicação à República criaram problemas com seus superiores imperiais, e por isso ele foi transferido para o Rio Grande do Sul, em 1886, onde se envolveu com a criação de um cordão sanitário, muitas vezes pondo em risco sua saúde, o que lhe mereceu mais uma das muitas menções honrosas que recebeu ao longo de sua carreira.

Antes disso, Euclides da Cunha, em seu livro muito posterior ao acontecimento, tenta envolvê-lo no assassinato de um jornalista famoso. Euclides foi tão abominável em seu relato original que dá a data errada, 1884, e não cita o nome da vítima — estaria se precavendo contra um processo judicial por algum parente vivo do coronel, afinal essa é uma das poucas coisas concretas de que ele acusa César, e que pode ser conferida? A última sentença saída nesse caso, em 22 de dezembro de 1885, inocenta completamente a Moreira César, que não foi reconhecido por nenhuma das testemunhas presentes, ao contrário dos outros acusados.

Alerta aos leitores: infelizmente, a seriedade é produto raro no país. Na edição (online) de Os Sertões, sob a responsabilidade da Fundação Darcy Ribeiro, 1ª edição, Rio de Janeiro, 2013 (coleção biblioteca básica brasileira; 24), na página 295, o revisor teve a audácia e o desplante de modificar a data constante no texto original de Euclides da Cunha, modificando-a para 1883 — a data do assassinato histórico é 25 de outubro de 1883. E assim vai-se deformando a história, ante a indiferença geral, para que novas injustiças sejam cometidas e as velhas permaneçam intocáveis.

Fala-se nos massacres de Anhatomirim. Euclides da Cunha, como lhe é próprio, não o afirma, apenas o sugere, “hábito” de que era mestre Floriano Peixoto. Mas se tomarmos todos os jornais disponíveis na Hemeroteca Catarinense, editados em Desterro/Florianópolis,  de abril de 1894 até novembro de 1896, e mesmo após sua morte, não encontraremos nenhuma menção a Anhatomirim, ou violências cometidas pelo coronel, seja como governador interino ou como um simples oficial do Exército.

Anhatomirim é um crime, um massacre, ou até um genocídio, como querem os anacrônicos, sem corpos, sem arma (não se sabe que unidade do Exército ou da polícia matou os prisioneiros), sem motivo (ele não ganhava nada com a morte daquela gente, apenas aumentaria a resistência da população contra o seu difícil governo), sem beneficiário (ele entrou coronel, saiu coronel, e nunca tentou fazer carreira política em Santa Catarina). Nunca, até a sua morte, foi acusado por alguém de Santa Catarina de algum crime ou a morte dessa gente, que aparece nas listas fraudulentas que de quando em quando vêm bestificar aqueles que não se salvarão desse tsunami de historietas, fantasias e mentiras deslavadas que sufocam a História do Brasil.

Mas não é só isso! Quem lê os jornais de Florianópolis, tanto o florianista República como o federalista O Estado, após o término do seu governo ou após a sua morte, tem a impressão de que Moreira César foi um dos homens mais beneméritos que já pisaram a terra catarinense, tal a profusão e intensidade dos elogios. É só ler!

As maluquices que ele supostamente fez durante a marcha para Canudos — que Euclides da Cunha e Cunha Mattos tanto carregam as tintas em sua descrição — não resistem nem um pouco à leitura dos jornais da época, que a descrevem como uma marcha pacífica, laboriosa, cheia de encontros positivos entre a tropa e o povo do lugar. Segundo o testemunho de jornalistas, moradores e oficiais do estado-maior da coluna, a tropa marchou tranquila, bem provisionada, e o assalto foi um sucesso — o tenente Francisco d’Ávila e Silva, que sobreviveu à retirada, disse que a tropa poderia ter dormido dentro de Canudos, tão dominada estava a situação, e que a derrota começou com a retirada. Essa impressão é reforçada pelo relatório do tenente Pradel de Azambuja, uma denúncia gravíssima contra o comando da tropa em retirada, e o testemunho de moradores sobreviventes. Mas quem vai querer ler isso?

As circunstâncias exatas da morte de Moreira César nunca foram elucidadas. A comissão de inquérito policial-militar feita para apurar o que acontecera, anunciada pelo general Argolo, ministro da Guerra, ninguém sabe o que concluiu ou se concluiu alguma coisa, ou se tudo se perdeu, de sorte que só sobrou o relato de Cunha Mattos, no qual Cunha se baseou, embora, neste caso, tenha prevalecido mais a sua fantasia.

Assim, o Moreira César histórico morre e, abandonado ao sol e aos urubus, desaparece da história, dando lugar ao Moreira César fantasmagórico, inventado pela mente de um oficial que causou uma péssima impressão no Acre, onde ocupou o cargo de prefeito de departamento. Posteriormente, foi coberto por uma armadura barroca de beleza inigualável, mas de qualidade maligna, criada por um dos escritores mais brilhantes da Literatura Brasileira Contemporânea, até se tornar completamente irreconhecível. Euclides criou um clássico para destruir a reputação de alguém que ele mal conhecia e encobrir os responsáveis por um crime hediondo.

Quanto ao demônio crudelíssimo, que ninguém conseguiu ver em Moreira César. No dia 15 de agosto de 1909, realizou uma 'espetacular' manifestação no bucólico e tranquilo bairro da Piedade, nos subúrbios do Rio de Janeiro.


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