JUSTIÇA HISTÓRICA PARA O CORONEL ANTÔNIO MOREIRA CÉSAR
Eduardo Simões
Em 2021, os
habitantes de Niterói, em comum acordo com a Câmara Municipal, retiraram o nome
do coronel Moreira César de uma das mais conhecidas ruas da cidade, mudando-o
para Ator Paulo Gustavo, após o resultado quase unânime de uma votação. Um
exemplo clássico do extremo a que pode nos levar o indiferentismo e o desprezo
pela nossa história.
Curioso,
mas não admirável, é que a má fama do coronel Antônio Moreira César só começou
após a sua morte, no malogro da 3ª Expedição a Canudos — mortos não se defendem
—, primeiro, como uma tentativa de fazer a população crer no despautério de que
em Canudos havia forças estrangeiras prontas para restabelecer a monarquia.
Nessa linha se colocam o relatório do esquisito major Cunha Mattos e o
massacrador de Canudos, o general Arthur Oscar; segundo, como uma tentativa de
justificar a derrota da poderosa 3ª Expedição diante de uma comunidade de gente
pobre e mal-armada. Nessa linha se esmerou a fantasia genial e o dote literário
de Euclides da Cunha.
Nesse
ponto, a diferença entre Cunha Mattos e Euclides da Cunha é que o primeiro
tenta passar a ideia de que César contraíra epilepsia na marcha, e que, por
isso, não agia com discernimento nem conseguia ver o óbvio: um aparato de
guerra internacional no sertão mais pobre da Bahia. Euclides da Cunha navega no
novo 'óbvio': não havia conspiração internacional nenhuma, tudo não passou de
um colossal e injustificado massacre, e como a epilepsia de última hora não
funcionava mais, era preciso ir mais longe: Moreira César sempre foi
problemático, um lunático de pavio curto, um assassino compulsivo, um ignorante
dissimulado, abusador de menores, susceptível à bajulação, enfim uma vitrine de
todos os vícios e deformações de caráter existentes, no entanto, com uma
“carreira correta como poucas” e criador da “melhor unidade do Exército
Brasileiro!” Não é mais uma doença de
última hora que turva o seu discernimento: é um demônio crudelíssimo. Ele é um
homem possuído. E o povo brasileiro acreditou!
A verdade é
que o coronel Moreira César tinha dois grandes defeitos, tradicionalmente
imperdoáveis na nossa sociedade: era um homem pobre, nascido de pais
desconhecidos, que entrou jovem para o Exército, ao qual se dedicou de corpo e
alma. Também não fazia concessões ao que ameaçasse seus valores pessoais e
militares, o que o afastou de um grande e poderoso círculo de amizades.
Faltava-lhe, portanto, o essencial para ser bem-sucedido numa sociedade
aristocrática; e que essa sociedade existe até hoje, intacta, Daniel Vorcaro
não me deixa mentir.
Nessas condições, o seu horrível fim era claramente
previsível. Tão previsível que, semanas antes de acontecer, na madrugada do dia
4 de março de 1897, vários jornais do Rio e de Florianópolis — O Paiz,
Cidade do Rio, República — noticiavam que ele seria morto e a
expedição derrotada. Como essas pessoas sabiam? Estariam preparando o público
para algo que já fora acertado, longe de Canudos, para reforçar a tese da conspiração
internacional? Afinal, somos um país de profetas infalíveis ou de conspiradores
linguarudos?
Onde podemos
achar o verdadeiro Moreira César?
Em março e
abril de 1897, como uma forma de necrológio, foi publicada uma pequena
biografia dele em diversos jornais do Rio de Janeiro, como Gazeta de Notícias,
O Paiz, Jornal do Comércio, O Jacobino, etc. A única desse improvável e
ex-herói nacional, e nela se lê a história de um pobre órfão dando tudo de si
para crescer na sua profissão, chamando desde cedo a atenção dos seus
superiores pela sua dedicação às tarefas e amor ao estudo. Ele era um
estudioso.
Seu amor e
dedicação à República criaram problemas com seus superiores imperiais, e por
isso ele foi transferido para o Rio Grande do Sul, em 1886, onde se envolveu
com a criação de um cordão sanitário, muitas vezes pondo em risco sua saúde, o
que lhe mereceu mais uma das muitas menções honrosas que recebeu ao longo de
sua carreira.
Antes disso, Euclides da Cunha, em seu livro muito posterior
ao acontecimento, tenta envolvê-lo no assassinato de um jornalista famoso.
Euclides foi tão abominável em seu relato original que dá a data errada, 1884,
e não cita o nome da vítima — estaria se precavendo contra um processo judicial
por algum parente vivo do coronel, afinal essa é uma das poucas coisas
concretas de que ele acusa César, e que pode ser conferida? A última sentença
saída nesse caso, em 22 de dezembro de 1885, inocenta completamente a Moreira
César, que não foi reconhecido por nenhuma das testemunhas presentes, ao
contrário dos outros acusados.
Alerta aos leitores: infelizmente, a seriedade é produto
raro no país. Na edição (online) de Os Sertões, sob a responsabilidade
da Fundação Darcy Ribeiro, 1ª edição, Rio de Janeiro, 2013 (coleção biblioteca
básica brasileira; 24), na página 295, o revisor teve a audácia e o desplante
de modificar a data constante no texto original de Euclides da Cunha, modificando-a
para 1883 — a data do assassinato histórico é 25 de outubro de 1883. E assim
vai-se deformando a história, ante a indiferença geral, para que novas
injustiças sejam cometidas e as velhas permaneçam intocáveis.
Fala-se nos massacres de Anhatomirim. Euclides da Cunha,
como lhe é próprio, não o afirma, apenas o sugere, “hábito” de que era mestre
Floriano Peixoto. Mas se tomarmos todos os jornais disponíveis na Hemeroteca
Catarinense, editados em Desterro/Florianópolis, de abril de 1894 até novembro de 1896, e
mesmo após sua morte, não encontraremos nenhuma menção a Anhatomirim, ou
violências cometidas pelo coronel, seja como governador interino ou como um
simples oficial do Exército.
Anhatomirim é um crime, um massacre, ou até um genocídio,
como querem os anacrônicos, sem corpos, sem arma (não se sabe que unidade do
Exército ou da polícia matou os prisioneiros), sem motivo (ele não ganhava nada
com a morte daquela gente, apenas aumentaria a resistência da população contra
o seu difícil governo), sem beneficiário (ele entrou coronel, saiu coronel, e
nunca tentou fazer carreira política em Santa Catarina). Nunca, até a sua
morte, foi acusado por alguém de Santa Catarina de algum crime ou a morte dessa
gente, que aparece nas listas fraudulentas que de quando em quando vêm
bestificar aqueles que não se salvarão desse tsunami de historietas, fantasias
e mentiras deslavadas que sufocam a História do Brasil.
Mas não é só isso! Quem lê os jornais de Florianópolis,
tanto o florianista República como o federalista O Estado, após o término do
seu governo ou após a sua morte, tem a impressão de que Moreira César foi um
dos homens mais beneméritos que já pisaram a terra catarinense, tal a profusão
e intensidade dos elogios. É só ler!
As maluquices que ele supostamente fez durante a marcha para
Canudos — que Euclides da Cunha e Cunha Mattos tanto carregam as tintas em sua
descrição — não resistem nem um pouco à leitura dos jornais da época, que a
descrevem como uma marcha pacífica, laboriosa, cheia de encontros positivos
entre a tropa e o povo do lugar. Segundo o testemunho de jornalistas, moradores
e oficiais do estado-maior da coluna, a tropa marchou tranquila, bem
provisionada, e o assalto foi um sucesso — o tenente Francisco d’Ávila e Silva,
que sobreviveu à retirada, disse que a tropa poderia ter dormido dentro de
Canudos, tão dominada estava a situação, e que a derrota começou com a
retirada. Essa impressão é reforçada pelo relatório do tenente Pradel de
Azambuja, uma denúncia gravíssima contra o comando da tropa em retirada, e o
testemunho de moradores sobreviventes. Mas quem vai querer ler isso?
As circunstâncias exatas da morte de
Moreira César nunca foram elucidadas. A comissão de inquérito policial-militar
feita para apurar o que acontecera, anunciada pelo general Argolo, ministro da
Guerra, ninguém sabe o que concluiu ou se concluiu alguma coisa, ou se tudo se
perdeu, de sorte que só sobrou o relato de Cunha Mattos, no qual Cunha se
baseou, embora, neste
caso, tenha prevalecido mais a sua fantasia.
Assim, o Moreira César histórico morre e, abandonado ao sol e aos urubus, desaparece da história, dando lugar ao Moreira César fantasmagórico, inventado pela mente de um oficial que causou uma péssima impressão no Acre, onde ocupou o cargo de prefeito de departamento. Posteriormente, foi coberto por uma armadura barroca de beleza inigualável, mas de qualidade maligna, criada por um dos escritores mais brilhantes da Literatura Brasileira Contemporânea, até se tornar completamente irreconhecível. Euclides criou um clássico para destruir a reputação de alguém que ele mal conhecia e encobrir os responsáveis por um crime hediondo.
Quanto ao demônio crudelíssimo, que ninguém conseguiu ver em Moreira César. No dia 15 de agosto de 1909, realizou uma 'espetacular' manifestação no bucólico e tranquilo bairro da Piedade, nos subúrbios do Rio de Janeiro.
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