segunda-feira, 13 de julho de 2026


SOBRE OS MERCADORES AVENTUREIROS DE ELISABETH I

Eduardo Simões

Estou traduzindo, com a ajuda da IA do Google, o artigo do professor e economista liberal inglês George Unwin, The Merchant Adventurers’ Company in the Reign of Elisabeth I, publicado em 1927, após a morte do autor, em 1925.

O estudo minucioso de Unwin sobre a atuação da Companhia dos Mercadores Aventureiros no reinado de Elisabeth, com todas as suas iniciativas e dificuldades para monopolizar o grande comércio inglês, em benefício de seus sócios, mas também para sobreviver às selvagens práticas concorrenciais da época, mostram que longe de uma suposta classe burguesa emergir do mundo estagnado do final da Idade Média, conforme imaginário marxista, com um projeto acabado, e, em função deste, agir como uma ‘classe’  minimamente estruturada, com objetivos claros, os diversos grupos de burgueses, coligados em torno de interesses só vagamente comuns, que só se definiam em função de seus sócios ou familiares mais próximos, lutavam para conseguir proeminência junto do centro de poder, o monarca, muitas vezes tendo como maior inimigo outros grupos de burgueses, muito mais que a nobreza ao redor, o seu suposto inimigo de classe, com a qual muitas vezes se aliavam.

Entre esses grupos se destacaram os Mercadores Aventureiros, cuja maior meta era adquirir uma posição privilegiada no estado aristocrático, longe da ideia de qualquer ordem burguesa, se organizando em guildas de comerciantes, com capelas e santos patronos, como até hoje os têm, procurando adaptar suas aspirações de lucros à ordem medieval vigente. Nada de luta de classes.

A leitura de Unwin, assim como a de Schumpeter, acentua a superficialidade pueril do conceito de luta de classes — que só se mostra eficaz como ferramenta para confrontos eleitorais, em colégios de votantes pouco esclarecidos — além do de ‘ruptura’, como um momento-chave quando uma ‘velha ordem’ cai para dar lugar a uma ‘nova’, como se o ‘novo’ dependesse dessa ruptura para aflorar plenamente.

Não é assim, e Schumpeter e Unwin o mostram com uma abundância estonteante de fatos, o que não seria possível em visitas aleatórias, impostas pelo limiar da necessidade de sobrevivência, à biblioteca do Museu Imperial.

O cerne, e eu diria até o martelo, a bigorna e a foice das mudanças estruturais nas sociedades humanas, são o acúmulo e o refinamento de micromudanças, perceptíveis somente muito depois, em pesquisas judiciosas de microacontecimentos que vão gradualmente, quase imperceptivelmente, mudando a cabeça e as disposições afetivas das pessoas, deixando-as propensas a assimilarem novos valores, que antes seriam combatidos ou recebidos com reservas.

Ao invés de rupturas, há, por conseguinte, um lento processo de transformação cuja direção ou produto final é ignorado pelos agentes sociais, que seguem como que num jogo de tateio, com muito mais enganos que acertos, do tipo ensaio e erro, às vezes tomando o caminho errado, às vezes acertando. Alguns, aqueles que têm uma noção mais clara do que são os seus valores permanentes, conseguem mais facilmente assumir uma nova construção social e transformar essas mudanças em vantagens para um maior número possível dos seus.

Outros enfrentam formidáveis forças de oposição, que acabam levando o movimento de evolução histórica a um impasse, de onde surge a necessidade de uma ruptura violenta, seja nos setores onde o processo de transformação histórica é obstaculizado — como foi o caso da Revolução Americana e da Inglesa — seja no conjunto da sociedade, quando o estado, por meio do governo vigente, se opõe terminantemente ao seu processo — como na Revolução Francesa e Russa.

Olhando para trás, sem o apelo romântico à revolução, criado mais pela propaganda facciosa do que pelos resultados observados, vemos que essas duas últimas revoluções foram muito mais sintoma da grandeza das forças que se opunham às mudanças do que prenúncios de avanços sociais mais consistentes. O fato de elas terem ocorrido mostra muito mais o atraso das sociedades onde elas aconteceram do que a predisposição ao novo de seus habitantes. Os franceses tiveram tempo, graças, entre outras coisas, à força bruta das potências europeias, de refazer os seus caminhos e realinhá-los com o que seria posteriormente o mundo moderno, que, pelo menos, não passava pela glorificação da violência e de um projeto de ‘salvação mundial’, ao contrário dos russos.

Enlinhados num projeto delirante de reforma mundial, como disfarce, muito tosco, para a retomada pretensamente mais estruturada e dissimulada de um império russo mundial, à semelhança do inglês, sem a vantagem de um vigoroso feedback como a França teve em 1815, os russos, para a sua desgraça, venceram toda a oposição externa no seu processo de formação,  e avançaram até se exaurir a irracionalidade absurda de seu projeto, mergulhando num saudosismo estéril, com quase toda a esquerda mundial, sonhando com a volta do antigo Império Soviético, enquanto mergulham numa espiral de violência e guerras compatível com a Europa de 80 anos atrás. 

O mundo está sempre mudando, e não sabemos nunca para onde ele vai. Eventualmente, algumas mudanças aceleram conquistas, enquanto outras fazem milhões mergulhar no colapso ou numa lenta recuperação. Nesse meio tempo, inúmeros analistas avaliam os eventos que foram ou são contemporâneos. Por acaso, alguns acertam e se tornam profetas para as gerações futuras, enquanto a maioria erra, embora muito poucos vivam o bastante para saber se a sociedade realmente evoluiu da forma como ele imaginou.

Não é o caso evidente de Schumpeter e Unwin, mas os dois autores, com a sua erudição e o levantamento excepcional de dados, nos ajudam muito a conhecer melhor o passado, para além dos mitos e fantasias surrados surgidos nos séculos XIX e XX, permitindo-nos avaliar melhor o que nos espera nesse século que se nos abre.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário