SOBRE OS MERCADORES AVENTUREIROS DE ELISABETH I
Eduardo Simões
Estou traduzindo, com a ajuda da IA do Google, o artigo do
professor e economista liberal inglês George Unwin, The Merchant
Adventurers’ Company in the Reign of Elisabeth I, publicado em 1927, após a
morte do autor, em 1925.
O estudo minucioso de Unwin sobre a atuação da Companhia dos
Mercadores Aventureiros no reinado de Elisabeth, com todas as suas iniciativas
e dificuldades para monopolizar o grande comércio inglês, em benefício de seus
sócios, mas também para sobreviver às selvagens práticas concorrenciais da
época, mostram que longe de uma suposta classe burguesa emergir do mundo
estagnado do final da Idade Média, conforme imaginário marxista, com um projeto
acabado, e, em função deste, agir como uma ‘classe’ minimamente estruturada,
com objetivos claros, os diversos grupos de burgueses, coligados em torno de
interesses só vagamente comuns, que só se definiam em função de seus sócios ou
familiares mais próximos, lutavam para conseguir proeminência junto do centro
de poder, o monarca, muitas vezes tendo como maior inimigo outros grupos de
burgueses, muito mais que a nobreza ao redor, o seu suposto inimigo de classe,
com a qual muitas vezes se aliavam.
Entre esses grupos se destacaram os Mercadores Aventureiros,
cuja maior meta era adquirir uma posição privilegiada no estado aristocrático,
longe da ideia de qualquer ordem burguesa, se organizando em guildas de
comerciantes, com capelas e santos patronos, como até hoje os têm, procurando
adaptar suas aspirações de lucros à ordem medieval vigente. Nada de luta de
classes.
A leitura de Unwin, assim como a de Schumpeter, acentua a
superficialidade pueril do conceito de luta de classes — que só se mostra
eficaz como ferramenta para confrontos eleitorais, em colégios de votantes
pouco esclarecidos — além do de ‘ruptura’, como um momento-chave quando uma
‘velha ordem’ cai para dar lugar a uma ‘nova’, como se o ‘novo’ dependesse
dessa ruptura para aflorar plenamente.
Não é assim, e Schumpeter e Unwin o mostram com uma
abundância estonteante de fatos, o que não seria possível em visitas
aleatórias, impostas pelo limiar da necessidade de sobrevivência, à biblioteca
do Museu Imperial.
O cerne, e eu diria até o martelo, a bigorna e a foice das
mudanças estruturais nas sociedades humanas, são o acúmulo e o refinamento de
micromudanças, perceptíveis somente muito depois, em pesquisas judiciosas de
microacontecimentos que vão gradualmente, quase imperceptivelmente, mudando a
cabeça e as disposições afetivas das pessoas, deixando-as propensas a
assimilarem novos valores, que antes seriam combatidos ou recebidos com
reservas.
Ao invés de rupturas, há, por conseguinte, um lento processo
de transformação cuja direção ou produto final é ignorado pelos agentes
sociais, que seguem como que num jogo de tateio, com muito mais enganos que
acertos, do tipo ensaio e erro, às vezes tomando o caminho errado, às vezes
acertando. Alguns, aqueles que têm uma noção mais clara do que são os seus
valores permanentes, conseguem mais facilmente assumir uma nova construção
social e transformar essas mudanças em vantagens para um maior número possível
dos seus.
Outros enfrentam formidáveis forças de oposição, que acabam
levando o movimento de evolução histórica a um impasse, de onde surge a
necessidade de uma ruptura violenta, seja nos setores onde o processo de
transformação histórica é obstaculizado — como foi o caso da Revolução
Americana e da Inglesa — seja no conjunto da sociedade, quando o estado, por
meio do governo vigente, se opõe terminantemente ao seu processo — como na
Revolução Francesa e Russa.
Olhando para trás, sem o apelo romântico à revolução, criado
mais pela propaganda facciosa do que pelos resultados observados, vemos que
essas duas últimas revoluções foram muito mais sintoma da grandeza das forças
que se opunham às mudanças do que prenúncios de avanços sociais mais
consistentes. O fato de elas terem ocorrido mostra muito mais o atraso das
sociedades onde elas aconteceram do que a predisposição ao novo de seus
habitantes. Os franceses tiveram tempo, graças, entre outras coisas, à força bruta
das potências europeias, de refazer os seus caminhos e realinhá-los com o que
seria posteriormente o mundo moderno, que, pelo menos, não passava pela
glorificação da violência e de um projeto de ‘salvação mundial’, ao contrário
dos russos.
Enlinhados num projeto delirante de reforma mundial, como
disfarce, muito tosco, para a retomada pretensamente mais estruturada e
dissimulada de um império russo mundial, à semelhança do inglês, sem a vantagem
de um vigoroso feedback como a França teve em 1815, os russos, para a sua
desgraça, venceram toda a oposição externa no seu processo de formação, e
avançaram até se exaurir a irracionalidade absurda de seu projeto, mergulhando
num saudosismo estéril, com quase toda a esquerda mundial, sonhando com a volta
do antigo Império Soviético, enquanto mergulham numa espiral de violência e
guerras compatível com a Europa de 80 anos atrás.
O mundo está sempre mudando, e não sabemos nunca para onde
ele vai. Eventualmente, algumas mudanças aceleram conquistas, enquanto outras
fazem milhões mergulhar no colapso ou numa lenta recuperação. Nesse meio tempo,
inúmeros analistas avaliam os eventos que foram ou são contemporâneos. Por
acaso, alguns acertam e se tornam profetas para as gerações futuras, enquanto a
maioria erra, embora muito poucos vivam o bastante para saber se a sociedade
realmente evoluiu da forma como ele imaginou.
Não é o caso evidente de Schumpeter e Unwin, mas os dois
autores, com a sua erudição e o levantamento excepcional de dados, nos ajudam
muito a conhecer melhor o passado, para além dos mitos e fantasias surrados
surgidos nos séculos XIX e XX, permitindo-nos avaliar melhor o que nos espera
nesse século que se nos abre.
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