Enquanto isso, no
coração das trevas...
Dois homens conversavam
em uma saleta de um imponente edifício público, quando outro chega e pergunta:
— Viram o jornal hoje?
— Já, e até mais do que
isso, temos um telegrama dele anunciando a partida de Queimadas, com a maioria
das munições e víveres já transportados em segurança para Monte Santo.
— A que distância está
Monte Santo de Canudos?
— Cerca de 119 km, em
menos de uma semana, ele estará dentro de Canudos.
— No último telegrama,
ele dispensou o concurso de 300 soldados do 16º para ficar só com 100, para não
atrasar a marcha.
— Mas o que ele quer
com essa pressa toda?
— Diz que teme que os
conselheiristas fujam, ao saberem de seu avanço, e que o Conselheiro fugiu de
Canudos.
— Minhas fontes
garantem que não é esse o caso e acham difícil que ele não saiba disso.
— Isso tudo é lorota! O
que ele quer está bem à vista: terminar rapidamente com Canudos, tornar-se
herói nacional e vir nos criar problemas, como sempre tem feito, desde que se
opôs à continuidade do ínclito Marechal. Se não for algo maior!
— Ele sempre se
comportou como um traidor de sua classe. Não pensa como nós.
É um Zé-ninguém que alcançou uma certa fama e agora se acha dono do mundo. E
agora quer se interpor entre nós e os mais altos interesses nacionais.
— Vocês não lhe
recomendaram uma missão somente prospectiva, de vigilância e contenção, para
garantir o isolamento de Canudos, e só atacar quando ordenado?
— Sim, nós o fizemos,
longa, continuada e encarecidamente. A missão dele era somente se certificar,
por meio de batidas pela região do São Francisco, de que Canudos não receberia
ajuda de agentes traidores da restauração.
— Fizemos de tudo, os
nossos interesses são comuns, mas, você sabe, ele sempre foi indisciplinado e
cheio de iniciativas. Ele só escuta o seu instinto. E o pior é que obtém bons
resultados com isso.
— Nesse caso, nós
estamos com um sério problema.
— Canudos é tão frágil
como Viana o pinta.
— Comparada com a força
de César, sim.
Todos se calam por um
instante.
— Você falou antes de
“algo maior”. Como assim?
— Vocês não veem,
Canudos se tornou um assunto nacional, está nas primeiras páginas dos jornais.
Agora, imaginem se ele consegue levar a pobre Canudos de roldão e voltar.
— Vira presidente!
— Até ditador, se
quiser, corrige outro, justo o que ele impediu o marechal de se tornar, para a
desgraça do Brasil.
— Ele nunca mostrou
interesse em política.
— Poder e dinheiro: é
isso que todos querem, inclusive os que posam de desinteressados. Quando ele
vir as multidões delirando mais uma vez ao seu redor, talvez reflita se não
está na hora de tentar voos mais altos. Ele não rejeita desafios.
— Tudo pelo qual
lutamos está ameaçado. O próprio legado do Marechal está em perigo.
Pausa:
— Moreira César não
deve atacar Canudos, até que ordenemos; se atacar, não poderá vencer; se
vencer, não deve sobreviver.
Silêncio.
— Avisem ao nosso
contato na Bahia.
Ao longo de fevereiro,
enquanto Moreira César avança pelo sertão, começa a ganhar corpo na imprensa
carioca, em especial no O Paiz, a notícia de que forças estrangeiras,
comandadas pelo Conde D'Eu, estariam abastecendo Canudos com homens, armas e
treinamento. Essas notícias absurdas, em espíritos ignorantes, tiveram dois
efeitos: primeiro, criaram um clima de histeria contra Canudos e qualquer
simpatizante da monarquia; segundo, preparavam a população para ser ainda mais
manipulada quando chegasse a notícia do fracasso da 3ª Expedição e a morte do
coronel. Preparou também a brutal violência da 4ª Expedição, ampliada pela
forte resistência dos canudenses.
Começaram a surgir
boatos, fortalecidos pelos exageros de Febrônio de Brito, com seus milhares de
jagunços-canibais atacando numa fúria cega. Isso tudo ajudou, posteriormente, a
turbinar outro delírio: o Conselheiro não era um 'fanático bronco', mas um gênio
do mal a serviço de estrangeiros e, mais tarde ainda, um revolucionário
socialista.
A 'grande imprensa'
exultava, reproduzindo tais absurdos. Quanto mais inverossímil era o boato,
maiores eram as vendas. As pessoas estavam, como hoje, sedentas por escândalos
e absurdos.
O principal foco da
trama era o Vale do Jequitinhonha mineiro, onde os supostos monarquistas
embarcam armas e munições pelo São Francisco, tudo minuciosamente relatado na
primeira página, como no artigo O CASO DO CONSELHEIRO, em destaque no O Paiz,
de 20 de fevereiro de 1897. Quem, naquela época, conhecesse as distâncias
envolvidas no trajeto ali descrito, que atravessava metade de Minas e quase
toda a Bahia, nas condições da época, diria logo: “Isso é um embuste!” As
notícias eram seguidas por chamadas urgentes e espalhafatosas:
“O caso de Antônio
Conselheiro é uma nova forma de reação monárquica, e o governo da República
precisa, desde já, libertar-se de condescendências perigosas e reprimir com
pujança [severidade].”
A edição de 24 de
fevereiro de 1897 do Gazeta de Notícias diz que o Chefe de Polícia de Minas
Gerais, Dr. Aureliano Magalhães, teria recebido um telegrama do seu colega do
Rio, alertando-o de um carregamento de munições para Canudos, em Sete Lagoas. E
daí segue outra trama rocambolesca, com correrias, tiros e prisões… e posterior
desmentido.
A impressão que passa é
que havia gente infiltrada nas redações e entre as fontes dos jornais,
inventando toda sorte de notícias falsas e maluquices. Mas com que objetivo?
1º — Isso criaria uma
cortina de fumaça para ofuscar os problemas econômicos advindos da péssima
administração de Vitorino e até os preparativos para um golpe.
2º — Criando um pânico,
deixaria as pessoas mais propensas a aceitar o golpe em favor de um presidente
mais “enérgico”, em substituição ao “Taciturno do Itamarati”. Ficou confuso?
Quem, além de Rui Barbosa, criaria um apelido desses para Prudente de Morais?
3º — Eles,
estranhamente, 'profetizaram' a derrocada da 3ª Expedição, pois nessa época
apareceram nos grandes jornais do Rio de Janeiro avisos misteriosos,
alertando que a vida de Moreira César corria perigo. Quem seriam esses
profetas?
Vejam essa notícia.
“Consta que o
comandante do Distrito Militar [em Salvador] telegrafou ao ministro da
Guerra desmentindo o perverso boato que aí [no Rio] circulou de ter sido
o coronel Moreira César vítima de uma cilada dos conselheiristas”. (Gazeta de Notícias, 20 de fevereiro
de 1897, p. 1).
No dia 23 de fevereiro,
o jornal federalista catarinense, O Estado, p.1, traz notícia análoga:
“VINDO DA BAHIA — Conferenciou com o
ministro da Guerra o tenente-coronel Tarcílio da Fonseca, chegado da Bahia.
Disse ele ao ministro achar insuficientes as forças comandadas pelo coronel
Moreira César para bater os fanáticos.”
Vejam esses trechos de
matérias de O Paiz, de 9 de março de 1897.
“No dia 2… era enviado
ao nosso mestre Quintino Bocaiuva um despacho
telegráfico de Barra do Itapemirim, avisando-o de que os empreiteiros da
restauração [os monarquistas] tinham feito seguir com o bravo soldado o
assassino que devia suprimi-lo.”
Segundo Bocaiúva, esse
telegrama era de um tal Joaquim Câncio, um correligionário, e o teor do
telegrama era o seguinte:
Barra do Itapemirim, 2
de março — Quintino Bocaiúva — Ouvidor 63 — Rio — Mestre, parece que tramou-se
aí o assassinato de Moreira César e seguiu com ele para a Bahia encarregado da
infame empreitada, pago pelos restauradores, isso apreendi de viajantes do
comércio do Rio.
A impressão que passa
na publicação desse telegrama, logo que chegou ao Rio a notícia da morte de
Moreira César, é que O Paiz de Quintino Bocaiuva, um florianista
impenitente, está querendo encobrir alguém, em função das circunstâncias
misteriosas da morte de César. O Paiz, ao mesmo tempo em que explica o fracasso
da 3ª Expedição, tenta jogar a culpa em cima do fantasma da “restauração”, inclusive para estimular a
fúria das manifestações de rua na Capital Federal. Contra os monarquistas e o
presidente da república.
Será possível que a
derrota e a morte de Moreira César foram decididas antecipadamente no Rio de
Janeiro? Vejam essa última notícia do jornal Cidade do Rio de 11 de março de
1897.
“SERVIÇO ESPECIAL
Bahia 8
Fala-se que se mandou
para Canudos gente que o conhecia [a Moreira César, pois
os conselheiristas não o conheciam] com arma de grande alcance, para o ferir
durante o combate.
No dia 2 do corrente
[março], pessoa qualificada afirmava que a expedição seria mal-sucedida e
Moreira Cesar morto”.
Muita gente sabia e
noticiava, antecipadamente, o que ia acontecer com Moreira César. Um país de
profetas infalíveis ou de conspiradores linguarudos?
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