sábado, 7 de novembro de 2026

 


A COMPANHIA DOS MERCADORES AVENTUREIROS NO REINADO DE ELIZABETH I - 9

(Texto traduzido de George Unwim)

Os Mercadores Aventureiros e a Indústria Têxtil

A defesa apresentada pelos Mercadores Aventureiros, quando foram acusados ​​em 1550 de pagar [aos fornecedores] um preço muito baixo pelos tecidos, de que havia demasiados comerciantes de tecidos, é algo que talvez não estejamos inclinados a levar muito a sério. Tendemos a considerar a expansão contínua das indústrias têxteis — primeiro a lã e depois o algodão — como um fato de importância primordial na história econômica inglesa, de modo que dificilmente conseguimos acreditar que a atitude daqueles autorizados a falar em nome do comércio e da indústria ingleses em meados do século XVI fosse de antagonismo mal disfarçado às formas que essa expansão estava assumindo. No entanto, na prática, era o que acontecia.

A queixa dos comerciantes de tecidos ligados aos Mercadores Aventureiros — de que havia muitos comerciantes de tecidos sem formação profissional [a velha mentalidade das corporações medievais ou o mero uso delas, numa realidade pré-capitalista, em benefício próprio?] — levou a uma ação imediata por parte do Governo. O depoimento de comerciantes de tecidos “honestos” — aqueles que apoiavam os Mercadores Aventureiros — e também de vendedores de tecidos, alfaiates, tecelões, tosquiadores e artesãos diversos (idem), foi ouvido por uma Comissão da Câmara dos Comuns. 

Essas testemunhas, que pertenciam às classes interessadas no acabamento e exportação de tecidos em Londres ou outras cidades, argumentaram que os males que afligiam o comércio de tecidos decorriam da extrema cobiça dos comerciantes de tecidos, que “cada vez mais se dedicam a ganhar dinheiro em vez de produzir bons tecidos” — evidentemente, todos os de fora da companhia —, e aconselharam que o comprimento, a largura e o peso de cada tipo de tecido então produzido na Inglaterra fossem fixados para sempre e aplicados por meio de penalidades. O código assim promulgado foi, de acordo com o preâmbulo da Lei que o incorporava, “para permanecerem firmes e perfeitos, não obstante quaisquer sugestões que feitas por qualquer fabricante de tecidos ou tecelão em contrário”…

Na mesma sessão [do Parlamento], o uso do tear mecânico, uma das primeiras aplicações de energia na indústria têxtil, foi proibido e o crescimento da nova classe de empregadores, que davam trabalho aos tecelões rurais, foi deliberadamente dificultado, exigindo-se que eles tivessem passado por um período de aprendizagem de sete anos em tecelagem antes de poderem iniciar sua ocupação e proibir o contato direto dos tecelões com o mercado. O espírito que anima essas Leis de Eduardo VI, [filho de Henrique VIII,] é ainda mais claramente revelado nas principais leis aprovadas para a regulamentação da indústria têxtil durante o reinado seguinte — as Leis dos Tecelões de 1555 e 1558. Nenhum comerciante de tecidos deveria se estabelecer, no futuro, em uma cidade ou em um local onde a confecção de roupas não fosse praticada já há dez anos [impedir a ida de artesãos e máquinas para o interior, longe da fiscalização do Estado]. Nenhum comerciante de tecidos rural poderia possuir mais de um tear ou alugar teares para terceiros. Nenhum tecelão rural podia ter mais de dois teares.

Finalmente, o grande código industrial de Elizabeth, o Estatuto dos Artífices de 1563, acrescentou o golpe final a esta série de restrições, proibindo que qualquer pessoa fosse aprendiz de tecelagem, exceto o filho de um proprietário de terras com £ 3,4; excluindo assim o acesso à indústria de três quartos da população rural. O Legislativo, que por vezes é considerado pelos estudiosos como tendo fomentado a prosperidade da indústria por meio dessas leis, tinha uma maneira tão peculiar de dissimular seu apreço... A verdade é que a opinião do típico cavalheiro rural inglês da época era contrária à expansão da indústria têxtil. No melhor tratado econômico da época, o Discurso sobre o Bem Comum, o Cavaleiro, que representa essa opinião, diz ao Doutor que muitos homens sábios “pensam ser melhor que toda a nossa lã fosse vendida por mar sem ser transformada em pano, para que nenhum fabricante de tecidos pudesse trabalhar dentro do Reino.”

“Eles acreditam”, acrescenta ele, “que todas essas insurreições são provocadas por causa de todos esses comerciantes de tecidos; pois, quando nossos comerciantes de tecidos não têm frete marítimo, há uma grande multidão deles ociosa; e, quando estão ociosos, reúnem-se em grupos e murmuram por falta de sustento, e assim arranjam uma ou outra briga para incitar o povo pobre, que está tão ocioso quanto eles, a uma comoção.”

Que essa não era uma objeção fantasiosa é demonstrado pela passagem de Henrique VIII de Shakespeare (baseada na Crônica de Hall) que descreve a revolta nos condados do leste em 1525. “Pois, por causa desses impostos, os comerciantes de tecidos, não podendo sustentar os muitos que a eles anseiam, demitiram as fiandeiras, cardadoras, pisoeiras e tecelãs, que, inaptas para outra vida, compelidas pela fome e pela falta de outros meios, de maneira desesperada... estão todas em alvoroço.”

Retomando o Discurso, o Doutor, que representa a opinião mais progressista de sua época, não nega a realidade desse problema social; mas insiste que o governo não deve se esquivar do aumento da responsabilidade inerente à expansão da indústria têxtil, se, como argumenta, esta é o principal meio de trazer dinheiro para o país. Não obstante, ele é claramente da opinião de que a expansão deve ocorrer nas cidades, visto que estas são os centros naturais da indústria. Essa era a visão universalmente compartilhada pelos teóricos da época...

Por essa razão, praticamente toda interferência, legislativa ou administrativa, das autoridades centrais ou locais nas indústrias têxteis no século XVI visava favorecer as cidades. Os únicos métodos então concebíveis para favorecer as cidades foram tais que restringiram o crescimento da indústria no campo ou, na melhor das hipóteses, tornaram-na totalmente subserviente aos interesses urbanos. E restringir o crescimento da indústria têxtil no campo significava privá-la do único setor em que (como percebemos agora) as condições da época favoreciam seu desenvolvimento próspero. 

Há, contudo, uma conexão muito marcante e significativa entre a legislação desse período e a subsequente expansão das indústrias têxteis na Inglaterra. Uma parte considerável do país, incluindo todo o País de Gales, os seis condados do norte, Cornualha, Suffolk, Kent e os distritos de confecção de Wiltshire, Somerset e Gloucester, foram isentos, inicialmente ou posteriormente, da aplicação das cláusulas restritivas das Leis dos Tecelões, e foi quase inteiramente nas regiões assim isentas que ocorreu a expansão posterior da indústria.

Se formos tirar alguma conclusão dessa conexão, ela não pode ser favorável à política industrial Tudor. As isenções representaram uma negação direta dessa política. Porém, se a isenção for considerada uma causa de progresso, o fato de os distritos em questão possuírem influência suficiente no Parlamento para garantir a isenção indicará um fator político positivo no desenvolvimento econômico. Podemos observar esse fator em ação no caso emblemático dos condados de vestuário do oeste da Inglaterra: Wiltshire, Somerset e Gloucester. Essa região, já no século XVI, estava suplantando os condados do leste de sua antiga primazia entre os distritos manufatureiros da Inglaterra, e era principalmente fora das cidades que a indústria se expandia...

Três quartos de século antes da promulgação das Leis [lei dos Tecelões de 1558], a intervenção do Parlamento foi invocada para conter o crescimento da indústria em dois pontos cruciais: proibindo ou restringindo a atividade de intermediários no fornecimento de lã aos tecelões e restringindo a exportação de tecidos não acabados. A partir do reinado de Eduardo IV, uma série de leis foi promulgada com cada um desses objetivos. Se as leis tivessem sido eficazes, o crescimento da indústria teria, sem dúvida, sido interrompido. Ambos os conjuntos de leis, no entanto, foram amplamente burlados, e novas leis foram promulgadas de tempos em tempos, concedendo isenções em casos especiais, com o resultado de que a Coroa impulsionou um comércio lucrativo de licenças tanto para a comercialização de lã quanto para a exportação de tecidos não acabados.

Assim, o comércio continuou a prosperar com base em um sistema de exceções ao que era considerado a regra de política sólida e ortodoxa. Quais eram, então, as forças por trás dessa política? A opinião genuína fornecia a justificativa formal; os interesses estabelecidos forneciam a força motriz. Tomemos primeiro o caso do comerciante de lã: a objeção ao intermediário, que domina toda a legislação do século XVI, baseava-se em parte numa queixa real do consumidor medieval — o monopólio frequentemente exercido por grupos de comerciantes de víveres na área restrita do mercado local — e em parte na ideia de que o artesão local tinha um direito prioritário sobre o comerciante externo em relação à matéria-prima do seu ofício. Mas, no século XVI, tanto o consumo quanto a produção haviam ultrapassado a capacidade do mercado local. Os condados do leste especializavam-se no cultivo de trigo e na produção de laticínios. As regiões centrais especializavam-se na criação de ovelhas e na alimentação animal. Os distritos com energia hidráulica, ferro, argila e carvão estavam se especializando em manufaturas. Cada distrito têxtil tinha seu próprio tipo de tecido, conhecido e valorizado em outros mercados.

Somente por meio da atividade onipresente do intermediário, essas novas potências produtivas podiam alcançar o seu ápice em valor de troca. Diante desses fatos óbvios, o mero conservadorismo da opinião genuína, embora este fosse um fator real, não explica a persistente oposição ao intermediário. E os registros do Conselho Privado mostram que foi o interesse do consumidor local que atuou como a causa eficiente da interferência administrativa. Tumultos surgiram quando o corretor de cereais começou a transportar suas compras; e os fabricantes de tecidos de alguns condados produtores de lã previram a ruína imediata se os comerciantes de lã, que abasteciam os condados não produtores de lã, fossem autorizados a realizar qualquer negócio em suas proximidades.

No caso do outro conjunto de leis, aquelas que proibiam a exportação de tecidos antes de serem acabados e tingidos, a influência de interesses particulares sobre a política pública foi ainda mais marcante. A justificativa teórica dessa forma de interferência residia em uma aplicação grosseira da doutrina mercantilista da Balança Comercial. Se a grande massa de tecidos geralmente exportada em estado branco e inacabado fosse tingida e acabada na Inglaterra, o valor de nossas exportações aumentaria consideravelmente, resultando em uma entrada correspondente de dinheiro ou, pelo menos, em um aumento correspondente de empregos para os trabalhadores ingleses. Esse argumento pressupunha que havia um mercado tão bom no exterior para tecidos ingleses acabados quanto para os inacabados, o que estava longe de ser verdade. O melhor mercado externo, o da Alemanha e da Europa Central, rejeitava terminantemente o acabamento e tingimento ingleses, enquanto oferecia vendas generosas para tecidos ingleses que haviam sido acabados e tingidos por artesãos continentais.

As leis do Parlamento podiam, em certa medida, conter a exportação de tecidos brancos. Elas não podiam, porém, impor um mercado para o tecido acabado. As leis foram aprovadas a pedido de grupos relativamente pequenos, mas poderosamente organizados, de acabadores e tintureiros de tecidos em Londres e nas principais cidades industriais, a maioria dos quais fortalecidos por cartas régias e privilégios especiais no século XVI, e em direta contradição com os desejos e interesses de grupos muito mais numerosos e importantes de trabalhadores têxteis rurais, que não estavam tão bem organizados.

A última e mais opressiva dessas leis foi promulgada em 1566. Ela proibia a exportação de qualquer tecido produzido em Suffolk e Kent, os dois grandes distritos têxteis mais próximos de Londres, antes de ser acabado e tingido; e exigia que os comerciantes que exportassem tecidos de outros distritos levassem um tecido acabado para cada nove tecidos inacabados.

Creio que compreenderemos melhor o efeito dessas restrições se compararmos as condições nas quais a indústria inglesa se desenvolvia no final do século XVI com as que prevaleciam no final do século XVIII. O caso da manufatura de algodão, durante os estágios iniciais da Revolução Industrial, apresenta certos paralelos instrutivos com o caso da manufatura de lã no reinado de Elizabeth. Mesmo o elemento de novas invenções técnicas não faltava no período anterior, embora, é claro, não haja nada que corresponda à máquina de fiar, à mula e à máquina a vapor. Mas certas condições essenciais para o desenvolvimento da indústria são comuns a ambos os casos — sobretudo, uma grande acumulação de novo capital e uma expansão simultânea da capacidade de organização.

Foi um fator vital em ambos os desenvolvimentos que o capital e a capacidade acumulados em um setor fluíssem para outros setores e os fertilizassem. Vejamos um ou dois exemplos do período posterior... Em primeiro lugar, o caso instrutivo de William Radcliffe, que começou a vida como tecelão manual em uma vila de Derbyshire, a cerca de dezesseis quilômetros de Manchester, e que se tornou um grande empregador. O capital acumulado em suas mãos permitiu-lhe oferecer trabalho, exatamente como um comerciante de tecidos do século XVI faria, a todas as vilas vizinhas. Em cerca de quinze anos, ele já encontrava emprego para mil teares manuais; ele investiu £ 11.000 no negócio; um banco lhe concedeu um crédito de £ 5.000. A maior parte desse capital e crédito foi empregada, não na própria produção, mas na sua comercialização.

Isso se refletia em grandes quantidades de tecidos a caminho do consumidor, mas ainda sem vender. O novo capitão da indústria não conseguia expandir seus negócios, a menos que usasse seu capital para encontrar um novo mercado. Para esse fim, Radcliffe aceitou como sócio um jovem escocês com mais instrução do que ele, que investiu 6.000 libras no negócio e visitou as cidades de Frankfurt e Leipzig para abrir um mercado para as musselinas da empresa.

Ou vejamos o caso de David Dale, sogro de Robert Owen e fundador da New Lanark Mills. Ele começou a vida, como Radcliffe, como tecelão manual, mas logo se tornou escriturário de um comerciante de tecidos... Depois, o encontramos importando fios estrangeiros por conta própria para empregar tecelões e aceitando um sócio para ajudá-lo. Com o capital assim adquirido, ele iniciou toda uma série de fiações, as primeiras na Escócia. A necessidade de encontrar um mercado para seus fios o levou a expandir suas operações para a tecelagem e o tingimento. Finalmente, à medida que envelhecia, vendeu seus interesses de manufatura para homens mais jovens e enérgicos, como seu genro, e transferiu seu próprio capital e capacidade organizacional para o campo da atividade bancária.

 Nos casos de Dale e Radcliffe, vemos o capital acumulado na indústria fluindo para o comércio e a atividade bancária... em muitos casos, observa-se o fluxo de capital e crédito na direção oposta. O comerciante que importava algodão possibilitou que o jovem fabricante se estabelecesse, concedendo-lhe crédito por três meses, enquanto o comerciante exportador prestava auxílio semelhante, pagando pela produção do fabricante semanalmente. Foi dessa forma, por meio de um fluxo de capital proveniente do comércio, que a maioria das primeiras empresas industriais de Lancashire teve início e a imensa expansão da indústria algodoeira se tornou possível. Mas outro exemplo é necessário para completar o relato e mostrar a importância internacional desse desenvolvimento. No momento em que Radcliffe estava enviando seu sócio a caminho da Alemanha, Nathan Meyer Rothschild comprava mercadorias de Manchester em Frankfurt para enviá-las a mercados mais a Leste.

Uma desavença com um comerciante de Manchester o levou a pensar que poderia fazer melhor uso de seu capital estabelecendo-se ele próprio em Manchester. Seu pai lhe forneceu 20.000 libras esterlinas, e ele chegou para participar de uma expansão quase febril da indústria. Ele descobriu que havia três fontes de lucro distintas na manufatura: uma no fornecimento da matéria-prima, uma na fiação e uma na fabricação e tingimento. Seu capital e capacidade de organização permitiram que ele combinasse as três. Em seis anos, ele transformou suas 20.000 libras em 60.000 libras e, então... retirou seu capital para o setor bancário e se tornou uma figura importante do mercado financeiro de Londres.

Nas indústrias têxteis do século XVI, o mesmo fluxo duplo de capital e crédito — de fora para dentro e de baixo para cima, da indústria para o comércio, e do comércio para a indústria — pode ser facilmente observado. Talvez o fluxo na direção de dentro, do comércio para a indústria, por ser o mais perceptível, deva ser considerado primeiro. O exemplo mais claro disso encontra-se na dependência da indústria de Manchester em relação ao crédito concedido por comerciantes de fios irlandeses e por outros que “costumavam confiar nos habitantes pobres que não tinham dinheiro disponível para pagar até que pudessem produzir tecidos e vendê-los para quitar suas dívidas”. A partir de leis aprovadas para legalizar a ocupação proibida dos intermediários que forneciam lã aos fabricantes de tecidos nos mercados de Norwich e Halifax, podemos inferir razoavelmente que, nesses importantes centros, a maioria da grande classe de fabricantes independentes devia seu início de vida ao crédito fornecido pelo comerciante de lã.

Assim também, frequentemente encontramos o pequeno comerciante de tecidos impossibilitado de esperar que suas mercadorias encontrem mercado, sendo obrigado a penhorá-las — a aceitar um adiantamento de metade do seu valor do que hoje chamaríamos de casa de comissão, que se comprometia a obter o melhor preço possível por elas [as casas comissárias foram muito ativas na comercialização do café brasileiro no final do século XIX e início do XX]. O fluxo de capital e crédito na direção oposta — da indústria para o comércio — pode ser claramente comprovado, e é mais significativo na expansão da indústria. Os testamentos do distrito de Halifax mostram que não era incomum que os fabricantes de tecidos, mesmo a essa distância de Londres, possuíssem barracas na Feira de São Bartolomeu [Bartholomew Fair, na cidade de Londres].

Em 1568, um fabricante de tecidos de Rochdale envia um pacote de seu próprio tecido de lã, juntamente com um pacote pertencente a um vizinho, para um corretor londrino, com o mesmo nome que ele. O corretor vende o pacote a um comerciante por £ 20, com pagamento a ser efetuado em dois meses. Antes do prazo de dois meses, o comerciante declara falência, e o comerciante se envolve em uma disputa com seu vizinho, que o responsabiliza pela dívida. Os fabricantes de tecidos de Londres atuavam como corretores ou agentes, aconselhando os comerciantes de tecidos do interior sobre a suficiência do crédito do comerciante. E as perdas ocasionais dos fabricantes de tecidos, devido à desonestidade dos comerciantes, indicam a extensão do capital que fluía da fabricação de tecidos para o comércio de exportação. Em 1590, um mandado do Conselho Privado processa um comerciante inadimplente que havia fugido para a Irlanda, devendo £ 5.000 a fabricantes de tecidos em Suffolk e Kent...

Esses exemplos mostram que o fluxo de capital, tanto para cima quanto para baixo — para a indústria e para fora dela —, que era a principal condição para sua prosperidade no século XVIII, tendia a se concretizar no século XVI. Contudo, como vimos, esse fluxo foi dificultado por forças contrárias, na forma de interesses particulares que se valeram do Parlamento ou do Conselho Privado, e entre essas forças, figurava certamente o interesse dos Mercadores Aventureiros. Em todas as crises de sua história, encontramos sua influência atuando como uma restrição à exportação de tecidos. Foi o que aconteceu na crise inicial de 1497, quando os mercadores provinciais forçaram, por meio da lei, a sua entrada na Companhia.

A consequência da sua exclusão anterior, de acordo com a Lei daquela data, foi “que o tecido de lã deste reino... cuja confecção... garante o sustento da maioria dos pobres... não é vendido nem comercializado como antigamente, mas, por falta de comercialização em diversas regiões onde tais tecidos são produzidos, são transportados para Londres, onde são vendidos por um preço muito inferior ao que valem... e, por vezes, são emprestados a pessoas de má índole, e o dinheiro correspondente nunca é pago.” Em outras palavras: os London Adventurers, na posição de únicos exportadores, impunham os termos que bem entendessem com os fabricantes de tecidos.

Assim também, na crise de 1553, quando Gresham interveio contra a admissão de mais membros da Nova Liga Hanseática, sua principal objeção era que eles eram, ou poderiam ser, artesãos. Além disso, as cartas régias das Companhias de Mercadores Aventureiros locais desse período baseiam-se na exclusão do fabricante e buscam impedir que seu capital transborde para o comércio de exportação. Isso é comprovado pelos desdobramentos posteriores em Bristol, onde, em 1566, os Mercadores Aventureiros de Bristol obtiveram uma Lei do Parlamento que excluía varejistas e artesãos [os ‘industriais’] do comércio de exportação. “Mas o que aconteceu com os artesãos de Bristol com essa medida?... Opressão, opressão e miséria... Vários ocupantes honestos foram impedidos de exportar suas mercadorias, enquanto os pobres artesãos deixaram de ganhar, por ano, mais de 200 ou 300 libras do que ganham agora... Alguns comerciantes exploram os fabricantes de tecidos do interior de forma tão desonesta [forçando o preço para baixo] que ouvimos alguns deles jurarem que venderão seus tecidos em Londres ou outros lugares.” A força da opinião pública era muito grande para permitir a continuação dessa restrição aos direitos comuns. A Lei de Bristol foi revogada em 1571, e os fabricantes de tecidos retomaram sua liberdade de exportação.

No que diz respeito aos estrangeiros, porém, a opinião pública... permitiu aos Aventureiros suprimir a concorrência no comércio de exportação. O comércio hanseático com a Inglaterra não sucumbiu ao golpe desferido, por sugestão de Gresham, em 1552. Embora os alemães nunca tenham recuperado todos os seus antigos privilégios, continuaram, durante a primeira metade do reinado de Elizabeth, a manter um comércio considerável de tecidos ingleses; e o canal extra de exportação por eles proporcionado foi de extrema importância durante as diversas interrupções do comércio entre a Inglaterra e os Países Baixos.

Nessas ocasiões, as licenças reais para o comércio de tecidos brancos, que os Aventureiros consideravam seu monopólio, foram em grande parte concedidas aos mercadores hanseáticos. Os alemães conseguiram, apesar dos intensos esforços dos Aventureiros para desalojá-los, manter seu direito de comprar tecidos diretamente do comerciante de tecidos do interior em Blackwell Hall, o mercado de tecidos de Londres. Dessa forma, eles atuaram como um segundo braço no arco do comerciante de tecidos, aliviando-o da completa dependência dos Aventureiros. Ao conceder ou receber crédito, de acordo com as circunstâncias do comerciante, eles mantiveram um fluxo adicional de capital e crédito entrando e saindo do reino, contribuindo amplamente para a expansão da indústria. Mas, durante a segunda década do reinado de Elizabeth, novas hostilidades surgiram entre a Liga e a Inglaterra, que resultaram na proibição de os mercadores alemães comerciarem em Blackwell Hall, até que, em 1580, perderam todos os seus privilégios.

No momento em que os canais estrangeiros para o comércio de exportação estavam sendo fechados, os canais internos estavam sendo seriamente restringidos. O estabelecimento de uma série de novas companhias monopolistas, a Companhia Espanhola, a Companhia do Oriente e a Companhia do Levante, ocorreu nos mesmos anos e foi, de fato, em grande parte motivado pela supressão do comércio hanseático na Inglaterra. Mas essas companhias, como já mencionei, não abriram novos canais de exportação ou importação. Elas restringiram os canais existentes e os submeteram às mesmas influências que prevaleciam até então na Companhia dos Mercadores Aventureiros. Podem ser consideradas ramificações da antiga Companhia dos Aventureiros.

A formação das novas companhias reforçou o monopólio da antiga companhia de duas maneiras. Aliviou-a da pressão de seu próprio número crescente de membros, oferecendo a alguns deles novos monopólios comerciais para investir; e, ao mesmo tempo, ajudou a conter a pressão pelo livre comércio externo. Antes do estabelecimento da Companhia das Terras Altas, por exemplo, os numerosos comerciantes independentes das regiões orientais da Inglaterra, que negociavam com o Báltico, podiam competir com os Mercadores Aventureiros como exportadores para a Alemanha e a Europa Oriental. A Companhia das Terras Altas iniciou sua trajetória com uma partilha amigável de território com os Mercadores Aventureiros e estava igualmente empenhada em suprimir o comércio independente.

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