segunda-feira, 8 de junho de 2026

 

 
O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER
A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA - 23

Sem leme ou carta de navegação, mas com muitos comandantes.

A Proclamação da República, em 1889, foi fruto de um golpe militar improvisado para atender a interesses classistas e uma disputa de prestígio por egos inflados, em que o interesse nacional, muito citado, não era prioridade.

O Governo Provisório que lhe seguiu foi uma patética demonstração do quanto a nação e as suas elites políticas estavam distantes do ideal de uma república moderna, mesmo para aquela época, quando já havia uma longa experiência republicana entre os nossos vizinhos. Para não falar do desinteresse popular pelo assunto.

Cada grupo, principalmente aqueles com poder de intervenção no funcionamento da estrutura imperial, como o exército e os republicanos paulistas, articula projeto próprio, excludente, não necessariamente coerente, enquanto se manifesta uma multidão de 'imperadores' — gente pouco propensa às negociações, adepta de soluções de força e saídas extralegais. 

Esses grupos, aproveitando a oportunidade e o poder já acumulados, criam um clima de desconfiança e conspiração permanente que, transbordando de palácios, mansões e repartições públicas, inunda as ruas por meio de alucinadas palavras de ordem e boatos absurdos, como num rastilho de pólvora numa atmosfera saturada.

Ninguém sabia muito bem o que estava acontecendo, o que fazer ou para onde ir, afinal, durante quase 400 anos sempre houve um rei apontando a única direção 'aceitável'. Mostrar a 'força do braço' era mais importante que a força do argumento ou a discussão de projetos de longo prazo, num país em que quase 90% da população era analfabeta. Quando havia algum, ninguém conseguia ler ou suportar, como os textos enormes e eruditos do nosso brilhante, mas inacessível, Rui Barbosa.

Cada grupo político que se formava, deformava ou se conformava ao sabor dos últimos acontecimentos — dizia-se “sucessos” — julgava-se dono da verdade, capaz de só ele trazer algum tipo de estabilidade ao país, com isso gerando mais instabilidade.

O que se seguiu ao catastrófico Governo Provisório foi o acirramento da polarização política e da pobreza generalizada, por causa do Encilhamento. Ainda assim, conseguimos a promulgação da primeira constituição republicana, em 1891, e acertou-se encaminhar a primeira eleição para presidente do Brasil, feita pelos membros do Congresso Constituinte, em um ambiente com grande expectativa de golpe (6). Não havia um projeto dominante, coerente, para o novo regime, e o único que se aproximava disso, o dos paulistas, estava isolado por falta de amparo militar.

Era consenso entre os republicanos, históricos ou não, que a manutenção de Deodoro no poder seria um desastre, mas, nos quartéis, em especial entre os oficiais, deslumbrados com o poder recém-adquirido, a eleição de Deodoro era imperativa. A crença era de que, como foi o exército quem fez a república, ela como que lhe pertencia ou, no mínimo, deveria a ele se submeter. Para eles, os militares correram o risco e agora os civis, de seus camarotes, queriam aproveitar-se. O contexto de crise econômica aguda, pelo Encilhamento, só fazia piorar as coisas.

A maioria achava que, se Deodoro não vencesse as eleições, haveria um golpe. Havia, no recinto de votação, vários militares fardados e policiais à paisana, armados. A intimidação era visível. Entre os presentes, alguns haviam assinado pactos prometendo dar a própria vida pela lisura do processo, entre estes, o tenente-coronel Moreira César, conforme o testemunho do jornalista José do Patrocínio, no jornal Cidade do Rio, de 8 de março de 1897:

Quem escreve estas linhas pode dar testemunho da sinceridade republicana de Moreira César. Nos tempos da propaganda [abolicionista], eram um só os corações. Amavam-se como irmãos.

Durante a campanha abolicionista, era Moreira César um dos supremos apelos para levar larga esperança ao cativo. Com ele garantíamos a vida do propagandista, porque os nossos adversários estavam convencidos de que ele não sabia tergiversar e fazia da sua espada uma tara para que a lei pesasse ouro no direito da propaganda abolicionista [ele protegia a integridade física dos abolicionistas]…

Proclamada a república… o militar e o jornalista encontravam-se… num pensamento comum: é que a república não podia ser de uma individualidade [ditadura pessoal] por mais gloriosa que ela fosse…

O senhor Prudente de Moraes deve lembrar-se de que, no dia da eleição… quem escreve estas linhas saudou-o e ao então general Floriano… o que ninguém sabia… era que um punhado de brasileiros tinha entrado no Congresso depois de haver celebrado um pacto: ou dali sairia presidente da República o Dr. Prudente de Morais, se conseguisse maioria, ou então ficariam mortos lá dentro… Um deles era Moreira César.”

Prudente conduziu calmamente a eleição, no dia 25 de fevereiro de 1891, abrindo mão da presidência dos trabalhos, como presidente do Senado Federal, quando o seu nome começou a sair das urnas. Quem não ficou esperto, como o velho Saldanha Marinho, eleitor de Prudente, teve o seu voto roubado e trocado pelo de Deodoro — os livros de Hélio Silva (A República não esperou o amanhecer), Edgar Carone (A República Velha II: evolução política 1889–1930) e de R. Magalhães Junior (Deodoro a espada contra o Império), etc., são muito esclarecedores a esse respeito.

Um episódio mostra bem a disposição de Floriano.

Em 24 de fevereiro de 1891, estavam Campos Sales e Prudente de Morais na sala da presidência do Congresso, quando o tenente-coronel Carlos Soares entra e informa os preparativos da tropa para impor a vitória de Deodoro. Segundo Soares, Floriano, para a surpresa de ninguém, estava se dizendo simpático a Deodoro. Nesse momento, ele é deodorista.

Campos Sales, estranhando aquilo, sai e o encontra em um canto, isolado, mas visível ou “encontrável”, para o caso de alguma proposta. Sales solicita o seu posicionamento.

— “Reafirmo o que já afirmei [Além de outras afirmações em contrário]. Sustentarei a candidatura do doutor Prudente (Hélio Silva, 1889).”

Agora ele é prudentista, mas no momento de sua sucessão negará qualquer apoio a Prudente, embora este e a bancada paulista tenham sido fundamentais para sustentar o seu governo. Floriano ainda lançou algumas candidaturas visivelmente inviáveis, enquanto articulava a sua vitaliciedade no cargo — nesse momento final ele é o que sempre foi: florianista.

Nas eleições, aconteceu o previsível: ameaçados pelos militares e rumores de tropas, os deputados elegeram Deodoro da Fonseca, enquanto o 'versátil' Floriano Peixoto ganha a vice-presidência, saindo diretamente dos píncaros do Exército Imperial para ser o segundo homem da República. O que ele fez para merecer isso?

Não há um único documento que comprove que ele um dia moveu um grão de areia pela República, tampouco ter escrito ou emitido publicamente uma opinião que desafiasse o Império. Sua ideia de República ele liberou numa carta a um amigo, na qual elogiava o autoritarismo do ditador paraguaio Francisco Solano Lopez. E só!

Deodoro foi eleito presidente, sem aptidão para o cargo e sem um projeto, portanto não é de admirar que, em 3 de novembro de 1891, incapaz de lidar com os movimentos legislativos de uma democracia, dissolve o Congresso e impõe a ditadura. Um tiro no pé! No dia 23 de novembro, ao deparar-se com uma rebelião na Marinha, a Primeira Revolta da Armada, renuncia. Sai do poder, que ele criara com um golpe, para, por meio de outro, deixá-lo como estava. E ainda ficar muito magoado!

Num determinado momento de seu mandato, já muito isolado, ele recebeu de seu ministro, o Barão de Lucena, o conselho para procurar o apoio de Floriano Peixoto. A resposta de Deodoro mostra que ele conhecia bem o caráter de Floriano:

— “Fique certo de que, se ele tiver certeza da necessidade que temos de seu apoio, se atirará abertamente nos braços da oposição (Helio Silva, O poder militar, 3ª edição, LePM, São Paulo, 1987, p. 53).”

Deodoro renuncia e solicita reforma do exército, vivendo seus últimos dias como um civil ou um ‘casaca’, como ele dizia antes, cheio de desprezo, fazendo aquilo que mais prezava: “pular cerca”, se me entendem.

Na renúncia, Deodoro chamou Floriano, que durante os últimos meses transformara sua casa num ninho de conspiradores (7). Nas reuniões, ele frequentemente simulava desinteresse; recebia as visitas com um roupão, falava de sua saúde precária, fingindo teatralmente surpresa diante dos temas subversivos que apareciam. Se fosse pego, ele certamente diria: “Que eu podia fazer, se eles queriam conversar disso justo na minha casa?”

A impressão que passa é a de um psicótico manipulador, em um nível raro.

Eduardo Simões

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