O CORONEL MOREIRA CÉSAR E
CANUDOS DEVEM MORRER
A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 22
Um homem que não era
pulcro
Houve, no último
quartel do século XIX, um assassinato, ou melhor, um linchamento, famoso no Rio
de Janeiro, no qual Moreira César se viu envolvido, embora até hoje não
saibamos por que ele foi arrolado no inquérito.
Esse crime, perpetrado
por militares em via pública, à luz do dia, com a vítima sob proteção de uma
importante autoridade militar, envolveu o mais prestigioso grupamento militar
do Império e o próprio imperador. Euclides da Cunha apelou para todo tipo de
contorcionismo linguístico e deturpação de fatos para ligar Moreira César a
ele.
O relato euclidiano foi
engolido pelo público com tanta pressa e acriticidade que o nome da vítima foi
mudado, em detrimento dela mesma, tornando-se o único pelo qual ela é conhecida
hoje. Modernamente, tem-se ressaltado a cor da pele da vítima, preta, para
poder acrescentar um epíteto infame contra César: “racista”.
Segundo o Dicionário
Priberam da Língua Portuguesa, em sua edição online, “pulcro” significa algo ou
alguém: “Que possui grande beleza… belo, formoso. Que possui delicadeza,
graciosidade, delicado, gracioso, mimoso.”
Logo, A-pulcro, com o
prefixo de negação “A”, é justamente alguém desprovido de beleza, graciosidade,
formosura, etc. Procurando nos jornais da época e documentos antigos, inclusive
no seu jornal, O Corsário, o nome verdadeiro dele, conforme a ortografia
da época, é Apulcho de Castro, pronuncia-se “apulco”.
Facilita essa confusão
o fato de Cunha não citar o nome do jornalista supostamente vitimado por
Moreira Cesar, além de errar a data do crime, que ele diz ter ocorrido em 1884,
quando na verdade aconteceu em 25 de outubro de 1883. Em algumas edições modernas
de Os Sertões, estão alterando criminosamente essa data, para fazê-las
coincidir com o fato histórico, o que é, no mínimo, desonestidade.
Estaria Euclides se
prevenindo contra a possibilidade de um processo por difamação e calúnia? Todos
os elementos que ele apresenta, no único parágrafo em que dedica a esse
assunto, apontam deveras para Apulco, mas, quando comparado com as notícias
colhidas em jornais da época, ele se torna um dos trechos mais demeritórios de
seu grande livro. Diz Euclides:
“Um jornalista, ou
melhor, um alucinado, criara, agindo libérrimo graças à frouxidão das leis
repressivas, escândalo permanente de insultos intoleráveis na corte do antigo
Império.”
Euclides injustamente
acusa Apulco de criar escândalos, quando ele somente repercutia os escândalos
da elite e que, à boca miúda, corriam pela cidade, desmentindo a fachada de
honradez e civilidade que envolvia as principais figuras, às quais todos prestavam
homenagem e que, por vezes, prejudicavam os pobres. Apulco podia até errar na
dose, mas não errava no diagnóstico invariável: falta de vergonha na cara.
Fora isso, ele
era bocudo, debochado — chamava D. Pedro II de ‘Vovô’ — e muito criativo nas
suas brincadeiras, mas nunca inventava escândalos ou calúnias, como Euclides
fez. Aliás, nesse trecho, Euclides aproveita para dar uma pitada de sua visão
autoritária, referindo-se às “leis frouxas” que regiam a imprensa no tempo do
Império. Diferente do Marechal de Ferro, que fechou vários jornais
oposicionistas para consolidar-se no poder — a única consolidação que ele
tentou de fato e não conseguiu.
Eis uma série de
trocadilhos da seção de humorismo, de 9 de outubro de 1883:
“Vou dar-te por
conta uma seção de humorismo e, se não alcançar esse objetivo, o leitor que
faça de conta que a teve.
Agora não há motivo
para zangar-se, por essa história de dar uma por conta ou de fazer de conta. O
leitor, se nunca deu uma por conta, pelo menos já fez de conta, conquanto isso
não seja de minha conta, parece-me ouvir o leitor dizer: “Isso não é coisa que
se conta” [fiz algumas poucas alterações ortográficas para o
texto ficar mais compreensível].”
O seu jornal
chamava-se O Corsário e tinha como texto de abertura, em todas as
edições, a seguinte chamada:
ÓRGÃO DE MORALIZAÇÃO
SOCIAL
ATACADO, SAQUEADO E
INCENDIADO PELO GOVERNO LIBERAL, SENDO MINISTRO DA JUSTIÇA M. P. DE SOUZA
DANTA, SENDO CHEFE DE POLÍCIA O. F. TRIGO DE LOUREIRO
Tinhoso estava sempre
dando uma boiada para começar uma briga e duas para não sair dela! Mas as
causas em que se metia, em geral, eram justas, embora, talvez por isso,
inevitavelmente perdidas. Prossigamos com Euclides: “E tendo
respingado sobre o exército parte das alusões indecorosas, que por igual
abrangiam todas as classes.”
Será? Eu chamaria antes
de indecorosa a questão que gerou a morte de Apulco, e a forma como
ela se deu. Tudo começou na edição de 9 de outubro, na seção A PEDIDOS, na
página 3 do jornal.
“1º Regimento de
Cavalaria Ligeira: O safardana do oficial desse corpo ainda não se moveu a
fim de pagar ao taverneiro da Rua da Quitanda.
Nem o senhor
comandante, para quem apelou o credor, dignou-se a dar qualquer providência…
O Sr. ajudante-general
[o comandante do exército] também não procurou saber qual o oficial do 1º
regimento de cavalaria ligeira que caloteia os taverneiros e cinicamente lhes
passa documentos para não cumprirem” [vales, ou algo do tipo].
Após perceber que os
colegas do ‘caloteiro’ também ficaram indiferentes, Apulco resolve partir para
a ameaça e, para não perder a oportunidade, enfiou todos no mesmo saco e
‘baixou a lenha’.
“À vista de tanto
indiferentismo, o que deverá fazer o roubado?
O único partido é
gastar mais dinheiro, porém tornar conhecido o oficialzinho do primeiro
regimento de cavalaria ligeira, como caloteiro que é.
Taverneiros!
Açougueiros! Padeiros! Alerta!
Quando virem um
indivíduo que tenha galões e que seja oficial do 1º Regimento de Cavalaria
Ligeira, sentido com ele! Se não for o tal, poderá ser outro de igual
jaez.”
O que há de indecoroso
nisso, fora a dívida do oficial? O que há de indecoroso em solicitar a alguém,
com condições de pagar uma dívida, que o faça, ainda que de uma forma acintosa,
após esgotarem-se os meios de diálogo e conversa particular? Para mim, Euclides
parece interessado em comprometer a vítima.
Ao dizer que Apulco foi
“indecoroso” com o exército, mas sem citar o que aconteceu, Euclides deixa o
leitor no ar. Mas isso pode ter um motivo: se ele o revelasse, muitos
desconfiariam, afinal, como alguém com uma “carreira correta como poucas” se
deixaria tomar por tanta fúria por causa da justa cobrança de uma dívida, que
nem é dele nem de alguém de sua unidade militar? A verdadeira história deste
assassinato e o seu desenlace estão ocultos em Os Sertões.
Se Euclides citasse
dados como o nome da vítima e a data correta do evento, um caso famoso na
cidade, pessoas que acompanharam o inquérito pelos jornais e lhe tinham memória
diriam: “Mas ele já foi absolvido por isso!”, e a sua criação ficaria
desmoralizada. Ao não citar a vítima e dar a data errada, ele punha uma dúvida
no ar. Será que foi outro caso? Tudo, enfim, soa estranho nesse relato.
O 1º Regimento de
Cavalaria Ligeira, a que se refere o jornalista, é o mesmo 1º Regimento de
Cavalaria de Guarda, chamado hoje Dragões da Independência. Constituía, e ainda
constitui, uma unidade militar de elite, responsável pela segurança do primeiro
mandatário da nação. Nessa época, ele era formado por gente do topo da
sociedade. Os filhos de grandes fazendeiros, que tinham recursos suficientes
para bancar as despesas do curso de cavalaria e pagar por apetrechos
cerimoniais próprios da arma. Moreira César era da infantaria, lotado em outra
unidade.
Que camaradagem é essa,
ligando o pobre capitão da infantaria ao oficial nobre do 1º regimento, ao
ponto de aquele arriscar o imenso esforço que já fizera para evoluir na
profissão, defendendo um suposto 'amigo' ou 'colega', numa causa tão indigna?
Com a ameaça de
divulgação do nome do caloteiro, a sociedade carioca ferveu. Era o assunto do
dia. Então, alguns homens invadem a sede de O Corsário e promovem um
quebra-quebra. Apulco passa a imprimir o jornal em outra oficina. No dia 23 de
outubro, ele volta à carga: em um extenso editorial, cheio de denúncias e
desafios.
“O 1º Regimento de
Cavalaria Ligeira diz para quem queira ouvir que Apulco de Castro há de ser
assassinado… se continuar a publicar O Corsário.
Ora, Apulco não teme as
ameaças do 1º Regimento, e O Corsário continuará a ser publicado. A sua oficina
tipográfica está ameaçada de ser quebrada tantas vezes for montada… Sim, porque
havemos de vingar-nos do 1º Regimento…”
A ira de Apulco é toda
dirigida ao 1º Regimento de Cavalaria Ligeira, não se referindo ao exército na
totalidade. Apulco prossegue:
“Já depositamos a
nossa família em lugar seguro… Bebam, embora,
como prometem, o sangue do negro, mas ficarão sabendo que o negro é homem que
não teme a multidão... Assassinem-nos que dos vermes saídos de nosso corpo
brotarão fantasmas que vos hão de perseguir eternamente.
O remorso.”
E, para não perder a
viagem, entregou o nome do caloteiro com todas as letras: “Alferes Firmino
Garges Bellegarde.”
Espatifou! Essa briga
era justa, mas também era desigual.
Gente com esse
sobrenome veio ao Brasil na frota do príncipe D. João, em 1808, no mesmo navio
que este! O jovem príncipe Pedro, o nosso Pedro I, foi padrinho de batismo de
um Pedro Bellegarde no Rio de Janeiro. Embora não dê para dizer que o alferes
seja descendente direto deles, o sobrenome e a unidade militar nos dizem,
porém, que não se trata de um homem pobre, sem recursos para pagar uma dívida
dessas.
Dois dias depois, à
tardinha, Apulco procura o chefe de polícia, por causa de um grupo de homens
que rondava a sua casa, utilizando roupas civis e barba postiça. O chefe de
polícia achou melhor Apulco haver-se diretamente com o comandante do exército,
o Visconde da Gávea, mas, assim que saiu da delegacia, viu que o grupo suspeito
o esperava e retornou.
Pouco depois, chega o
capitão João Antônio d’Ávila, ajudante de ordens do Visconde da Gávea, que,
após falar com os suspeitos, volta dizendo que estes queriam apenas dar uma
sova em Apulco, mas se ele ficasse ao seu lado, nada lhe aconteceria. Relato de
Hermeto Lima na Revista da Semana (ano XXV, Nº 38, Companhia Editora Americana,
13 de setembro de 1924, Rio de Janeiro, p. 30). Essa conversa do capitão com os
facínoras é indício certo de que ele e os assassinos se conheciam; logo, eram
militares.
É possível que a surra
fosse a ideia original, como a lembrar o jornalista da condição em que viviam
muitos daqueles que tinham a pele como a sua. Afinal, era um negro cobrando
coerência moral (HONRA) de homens da elite branca, em favor, provavelmente, de
um branco pobre, talvez português, como o eram muitos donos de pousadas no
antigo Rio. Mas a coisa saiu do controle, e mal a carruagem com Apulco dobrou a
primeira esquina, esse grupo se atirou contra o jornalista, apunhalando-o
selvagemente: 7 punhaladas nas costas, uma na boca e uma na ilharga. Segundo
Hermeto Lima. Noutros relatos, fala-se também de um tiro.
No momento do ataque, o
capitão Ávila, que dera a sua palavra de que Apulco estava seguro ao seu lado,
limitou-se a empurrar os agressores, ficando com um braço contuso. Para mim,
ele fez o pior papel de todos. Se sabia da armadilha ou participou da trama,
foi um grande canalha, mas se não o sabia, tinha a obrigação de defender aquele
a quem pôs sob a sua guarda, ao preço da própria vida. Saiu completamente
desonrado do episódio.
Outro indício de que os
atacantes eram militares e/ou gente de importância foi o cuidado e a lentidão
com que os policiais e espectadores, que estavam nas imediações, se aproximaram
da carruagem e o depoimento confuso que deram no inquérito. Para piorar as
coisas, o Senhor Imperador, dois ou três dias depois do crime, numa atitude
escandalosa, fez uma visita de cortesia, que poderíamos considerar até de
agradecimento, ao 1º Regimento de Cavalaria.
É horrível também a
forma como Euclides da Cunha falseia os dados. Ele não teve a hombridade de
deixar claro a que episódio se reportava. Acusou gravemente Moreira César ao
mesmo tempo que ocultava o nome da vítima e a real história por trás daquela
tragédia. Diz ele em Os Sertões:
“Entre os
subalternos… figurava, mais graduado, o capitão Moreira César, ainda moço, à
volta dos seus trinta anos, e tendo já, em seus assentamentos averbados,
merecidos elogios por várias comissões exemplarmente cumpridas [meu
destaque]. E foi o mais afoito, o mais impiedoso, o primeiro talvez [meu
destaque] no esfaquear pelas costas a vítima, exatamente na ocasião em
que ela, num carro, sentada ao lado de autoridade superior do próprio exército…
O crime acarretou-lhe a
transferência para Mato Grosso, e dessa Sibéria canicular do nosso exército
tornou somente após a proclamação da República”
(Os sertões, idem, p. 296).
Um texto infame… para
dizer o mínimo.
1º — Ele coloca Moreira
Cesar no centro da ação criminosa, mas se exime de responsabilidade sobre o que
diz, pois a palavra 'talvez', posta estrategicamente, o isenta da afirmação de
que foi realmente Moreira Cesar quem iniciou o ataque, e até se ele estava
presente.
2º — Não é verdade que
Moreira César tenha ido para o Mato Grosso em virtude desse crime. O general
Epaminondas Ferraz nos informa que a ordem de transferência dele para o 19º
B.I., de São Luís de Cáceres, MT (p. 49), se deu no dia 1º de setembro, e o crime
contra Apulco foi em 25 de outubro. Só no dia 10 de abril de 1884, 5 meses e
meio após o crime, ele parte para o Mato Grosso.
3º — Estando já com
transferência marcada para o Mato Grosso, por que ele iria se envolver de uma
forma tão extremada numa questão tão mesquinha?
Segundo Ferraz, em
agosto ele retorna ao Rio para prestar contas à Justiça. Com ele se apresentam
o tenente Bento Thomaz Gonçalves, seu grande amigo do 1º B.I., o alferes Isnard
(?) Caetano Pereira do Lago e Antônio Manuel de Aguiar e Silva, do 1º de Cavalaria
Ligeira, que se notabilizou em Canudos.
Foto
de Flávio Barros do sepultamento de Aguiar e Silva, em Canudos, quase ao final
da guerra, cujo título é Sepultura do Capitão Silva 02.21, hospedada na
Brasiliana Fotográfica. Um ar de tristeza e desalento impregna a foto.
Embora não haja notícia
de algum feito singular desse oficial, parece que era muito querido pela tropa,
pois vários autores se referem à sua morte. Vejamos primeiramente o testemunho
do jornalista Favilla Nunes, no Gazeta de Notícias, de 17 de outubro de
1897 — rememorando episódios da guerra.
Às 3 horas, morreu em meus braços o capitão do
1º regimento de cavalaria Antônio Manuel de Aguiar e Silva, que havia sido
baleado na linha, falecendo logo que chegou na barraca, sendo sepultado às 6
horas da tarde; era assistente do General Carlos Eugênio...” (citado por
Walnice Galvão, No calor da hora… p. 267) (5).
Lelis Piedade também noticiou a morte do capitão Aguiar. Disse ele em 21 de
outubro de 97, no Jornal de Notícias. “Num dos últimos combates, morreu
o ajudante de ordem Aguiar, da coluna do General Carlos Eugênio, vítima de uma
bala. O seu corpo foi conduzido solenemente para o cemitério, carregado pelo
Coronel Dantas Barreto, Alferes Mangabeira, Enaut e outros. No ato da inumação
foram tiradas fotografias. Muito sentida essa morte” (idem, p. 540).
Alvim Horcades também o cita no seu Descrição de uma
viagem a Canudos, p. 78. Nesse trabalho [dinamitar as casas onde os
canudenses ainda resistiam, no dia 1º de outubro] morreu o bravo Capitão
Aguiar, pertencente ao estado-maior do General Carlos Eugênio.
Sabemos que Euclides
mentiu, mas não sabemos por que César foi arrolado no inquérito. Ele estava
entre os instigadores? Entre os que agiram? Era próximo de alguns deles? Foi
vítima de uma calúnia por ser republicano e abolicionista?
O jornal Gazeta de
Notícias, de 24 de dezembro de 1884, informa que, até essa data, a apuração
ficou a cargo do desembargador Serafim Moniz Barreto, sendo denunciados pelo
promotor os seguintes oficiais: 1º capitão Antônio Moreira Cesar, 2º alferes
Manuel de Aguiar e Silva, 3º tenente Bento Thomaz Gonçalves e o 4º alferes
Ismael Caetano Pereira do Lago (Ferraz o chama “Isnard”!).
Como a Justiça do
Império era rápida!
Como testemunhas se
apresentaram: 1ª Américo Cardoso, 2ª tenente Manuel Moreira Lyrio, 3ª major
Nolthenio Tolentino Alvares, 4ª Pedro José da Cunha, 5ª Antônio José Ferreira
de Sampaio, 6ª José Ferreira do Nascimento, 7ª Jorge do Nascimento Rocha e 8ª
Alfredo Leopoldo de Moura Ribeiro. Depois das averiguações, inquirições e
interrogatórios feitos, o juiz dispensa previamente dois dos acusados,
declarando o seguinte:
“O que tudo visto e bem
examinado, e considerando que todas as testemunhas,
inclusive as referidas, nenhuma carga fazem [meu destaque] contra
o 1º e 2º denunciados [Antônio Moreira Cesar e Antônio Manuel de Aguiar e
Silva], contra os quais não há indício algum de participação no crime de
que se trata [idem].”
E ponto final! A
compleição física mirrada de Moreira César o destacaria no meio dos outros
oficiais, em especial os da cavalaria, mas ele não foi reconhecido por ninguém.
Outra questão é: como é
que Euclides da Cunha não conhecia esse veredito, se o Gazeta de Notícias era
um dos jornais mais importantes no Rio de Janeiro?
Contra os outros dois,
a coisa se complicava: Bento Thomaz teria invadido a pista de tráfego e
segurado os arreios dos cavalos para parar a carruagem. Ismael Caetano foi
supostamente visto subindo no estribo traseiro e projetando-se por uma janela,
que ficava atrás da lona que cobria o carro, atingindo, pelas costas, o
jornalista, sendo, provavelmente, o primeiro a atacá-lo. Mas, como as
testemunhas se contradisseram ou, pressionadas, não sustentaram adequadamente o
seu testemunho, o desembargador acabou por liberá-las.
Ao final, o infame
testemunho do capitão João Antônio d'Ávila, inocentando a tudo e a todos,
transformou toda aquela investigação em um circo hediondo. Resta datar e
assinar:
“Rio de
Janeiro, 22 de dezembro de 1884, Serafim Moniz Barreto.”
A participação de
Moreira Cesar na Questão Militar e a defesa escancarada do regime republicano o
tornaram uma figura incômoda no Rio. Despacharam-no para a fronteira do Rio
Grande do Sul com o Uruguai, onde participou da montagem do bem-sucedido cordão
sanitário de 1886.
Eduardo Simões
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