O CORONEL MOREIRA CÉSAR E
CANUDOS DEVEM MORRER
A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 20
RIO
DE JANEIRO
Rumo ao Vaza-barris
João Maurício Wanderley, o Barão de Cotegipe, da Bahia,
se notabilizou, no tempo do Império, de duas maneiras: a primeira, por lutar
contra a Lei Áurea, imaginando o prejuízo que esta causaria à economia e a
imprevisão sobre as dificuldades que os ex-escravos teriam em se integrar à
sociedade; a segunda, por suas profecias sobre o final do Império e início da
República.
Em setembro de 1884,
numa reunião em sua casa, na presença de dois amigos, ele falou:
— “A Princesa não há
de subir ao trono e, se subir, terá chegado a vez da República, que deverá ser
feita por nós, conservadores; porque, se o for pelos liberais, desunidos e
desorientados como estão, não serão capazes de manter a integridade deste
colosso, a qual vale mais que a sua forma de governo… As constituições não se
fazem olhando para o exterior do país” [como o fez Rui Barbosa, em 1891].
Um dos amigos falou que
talvez a República não esperasse a filha do imperador.
— “É possível, mas será
um desastre; porque, se a República esperar o
romper do dia e sair à rua ao cair da noite [talvez no sentido de
“após o fim da noite”, como de fato aconteceu], depois de tatear algum
tempo nas trevas, dará com tudo isto em Vaza-Barris…” (1)
(p. 36)
O processo de
republicanização do Brasil, entretanto, ao contrário do que queria Cotegipe,
foi dominado por liberais como Rui Barbosa, Floriano Peixoto, Silveira Martins,
chefes dos federalistas gaúchos, etc. Rui fez-nos uma Constituição, no molde da
americana. No Rio Grande do Sul, Floriano afiançou a ditadura do republicano
histórico Júlio de Castilhos, contra o seu ex-colega liberal Gaspar Silveira
Martins, desencadeando uma das mais selvagens guerras civis da nossa história.
Na Bahia não foi
diferente, pois Rui, aproveitando-se de sua influência no governo Deodoro,
mexeu os pauzinhos para garantir as melhores colocações para seus antigos
correligionários liberais. A Bahia, como o Rio
Grande, virou um caos! E, no final, veio Canudos. Luiz Viana e seu preposto:
Joaquim José Rodrigues Lima, sem falar de César Zama, eram todos liberais!
Por que será que era
tão importante aos republicanos aplicar o golpe ao anoitecer, e não esperar o
amanhecer? Tenho uma teoria a esse respeito, mas só vou falar no final.
Cotegipe, pelo visto,
conhecia profundamente o Brasil e os brasileiros, uma habilidade perdida pelos
nossos políticos, e mais uma vez profetizou, dessa vez na companhia de Antônio
da Silva Jardim, o Silva Jardim, o republicano mais 'socialista' da época,
ainda assim capaz de dialogar com quem pensava diferente. Encontraram-se num
dia frio e cinzento no Hotel das Paineiras, no Rio de Janeiro, onde Cotegipe
convalescia, em 13 de fevereiro de 1889. Disse Cotegipe, quando Jardim lhe
provocou, perguntando sobre a chegada da República:
— “Não se apresse a
correr para ela, que ela está correndo para nós.
O meu Ministério caiu por uma conspiração de Palácio [a Princesa Isabel
e o Conde D’Eu queriam a abolição já]; o meu sucessor há de cair na lama das
ruas, e o sucessor do meu sucessor cairá na ponta das baionetas e, talvez, com
ele, a Monarquia. Os nossos ministérios duram pouco e, portanto, V. não terá
muito que esperar (idem, p. 37).
O gabinete
Cotegipe, conservador, foi sucedido pelo gabinete conservador-moderado de João
Alfredo Correia de Oliveira, que promoveu a Abolição e foi embora sem deixar
rastro. Acabou na poeira do esquecimento. Depois veio o gabinete liberal de
Afonso Celso de Assis Figueiredo, o Visconde de Ouro Preto, durante o qual se
deu o golpe de 15 de novembro. Como previsto.
A República começou,
portanto, cercada pelos liberais, como ele tanto temia, e o único conservador
que teve papel predominante, o marechal Deodoro, já não estava funcionando
muito bem. Dizem que ele nunca funcionou.
Na sessão de 12 de maio
de 1888, a última em que se discutiu sobre a Lei Áurea, Cotegipe tomou a
palavra e pôs-se a profetizar: “A verdade é que há de haver uma
perturbação enorme no país durante muitos anos, o que não verei, talvez, mas
aqueles a quem Deus conceder mais vida, ou que forem mais moços, a
presenciarão” (2) (Anais do Senado, p. 36).
Em 1889 houve a queda
do império; em 1890 houve a maior crise financeira da história do Brasil, o
Encilhamento; em 1893 houve o início da Revolta Federalista e da Armada, que
durou dois anos; em 1896 estourou a guerra em Canudos, que durou quase um ano. Foram
de sete a oito anos de conflitos e confusão, com muito sangue derramado.
No dia 12 de maio ele
fez uma impressionante profecia durante os debates finais para a aprovação da
Lei Áurea, onde voltou a lembrar a necessidade de formação de sociedades
beneficentes, como era a compreensão da época, para preparar os ex-escravizados
paras prosperarem na sociedade nacional, e desfiou a sibila que havia nele.
— “Senhores, a grande
transformação se aproxima; a cerração negra [a estagnação
econômica, política e social do Império] desaparece, rejeitada pela força
irresistível dos acontecimentos que operam as mutações do tempo no seio da
história, e por esses espaços imensos… entrarão os fachos deslumbrantes de um
novo sol, e o oxigênio poderoso da civilização americana purifica essa
atmosfera saturada de emanações cadavéricas; é uma ressurreição; é um passado
de volta ao abismo de onde caiu [há erros ortográficos nesse texto, talvez
o certo seja “saiu”]; é uma … era nova que começa; de todos os pontos de
nossas fronteiras… os ventos nos trazem ideias vivificadoras… a liberdade
religiosa; a regularização da legislação em todos os seus ramos; a difusão do
ensino e universidade do voto a desenfeudação da propriedade; a federação dos
Estados-Unidos Brasileiros…” (Estrepitosos aplausos prolongados).
— “Tudo isto
precisamos, e o faremos, apesar da Coroa e contra a Coroa, se ela se opuser,
porque já nos devemos convencer de que não é possível amalgamar a liberdade com
o absolutismo: são duas coisas que se excluem. (Aplausos prolongados). Isto que
era impossível antes da abolição, hoje torna-se inevitável. Estas são as nossas
reformas… que hão de modelar os novos partidos políticos, de cujas evoluções
dependem as nossas futuras instituições, que não podem ter outro princípio
senão o da mais ampla liberdade no estilo americano. (Aplausos e vivas.)”
— “Entendo que grandes
males vão surgir desta medida; convém que sejam quanto antes tomadas
providências em benefício não só da lavoura, como dos que vão ser libertados.
Chamo também a atenção do país e do governo para as tendências, que já
aparecem, e, ao final, pedirei a Deus, do mais íntimo do meu coração, que
afaste de nós todos os males que eu prevejo [E que,
infelizmente, aconteceram].”
(Idem, p. 36–37).
Quem conhece a barbárie
que tomou conta do país na década de 1890 sente um arrepio ao ler essas
palavras e se pergunta: “Como ele sabia?”
Eduardo Simões
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