O sertanejo de Pindamonhangaba
Qual é a origem do
coronel Moreira César? Pergunta difícil de responder, pois, ao longo de mais de
cem anos, repetindo mecanicamente as acusações forjadas contra ele, os
brasileiros jamais tiveram interesse em saber se a sua história pessoal
sustenta tão graves acusações. Com o tempo, perderam-se muitos elementos que
poderiam nos ajudar a reconstituir os fatos de sua vida. Mas nem todos se
perderam.
Vamos nos virar com
algumas migalhas e muita dedução lógica.
Segundo a declaração de
fé de ofício que ele fez ao ingressar no exército em 29 de dezembro de 1869,
ele era natural de um distrito de Pindamonhangaba, mas filho de pais
desconhecidos. Há, entretanto, uma informação que liga o seu nascimento ao
'deslize' do padre Antônio Moreira César de Almeida (1814–1860) e de uma devota
solteirona, Francisca Correia de Toledo (1818–1895).
Algumas questões
parecem desautorizar um esquema tão simples e socialmente constrangedor como
esse:
a) Tanto o sobrenome
'Almeida' quanto 'Toledo' eram muito prestigiados em São Paulo. Moreira César
não herdará nenhum dos dois.
b) Li numa edição do Gazeta
de Notícias que um suposto sobrinho do coronel, de nome Fernando, de 15
anos, logo filho de um irmão ou irmã de Moreira César, estava na expedição a
Canudos e sobreviveu ao combate que vitimou o tio. Que um padre tenha feito um
filho numa devota solteira de uma família conhecida é possível, mas constituir
uma prole com ela é mais complicado, sem falar que um sobrinho tão jovem já
engajado no exército é indício de que o irmão ou a irmã do coronel também era
pobre.
c) Segundo a Wikipédia
em português. Uma fonte suspeita. O cunhado da suposta mãe de Moreira César era
o capitão Bento Moreira Cesar de Almeida, que, por sua vez, era irmão do padre,
embora na fonte citada pela Wikipédia (https://archive.is/HewJ3), o capitão não
era cunhado de Francisca Toledo, mas marido de uma prima dela. Que confusão!
Foi talvez por meio
desse capitão, irmão do padre, que ele adquiriu gosto pela carreira militar, de
sorte que a procurou não só para fugir de uma condição precária, mas também por
uma identificação com os ideais da farda.
Mas há ainda uma outra
possibilidade que talvez explique melhor o que se passou.
Ele e seu irmão ou irmã
não eram filhos do padre, mas sim de um casal pobre que morreu cedo. Então, o
padre e a devota decidiram adotar as crianças por caridade. Isso era comum na
antiga sociedade patriarcal, onde essas crianças moravam na 'casa grande',
brincavam com outras crianças, mas nunca eram tratadas como iguais. Eram os
moleques de recados. A sua compleição física, muito franzina, pode ser indício
de que ele não teve uma alimentação boa por muito tempo na infância.
Outro indício era a
grande preocupação que ele sempre mostrou para com sua família, seu irmão ou
irmã, a ponto de fugir da caserna para ajudá-la(o) — segundo um relato do
general Ferraz. Sinal de que ele ou ela não tinha mais ninguém que o(a)
ajudasse.
Reforça ainda a nossa
convicção o fato de Francisca Toledo, a suposta mãe, ter falecido em 1895,
depois que ele já se tornara oficial superior e uma pessoa famosa, e até
governador de Estado. Ele nunca faz menção a ela, nem a família dela ou a do
padre jamais interveio em seu favor.
Soldado exemplar,
quando necessário.
Se tomarmos a sua pequena e única biografia disponível,
que eu saiba, que circulou nos jornais do Rio de Janeiro, logo após a sua morte
— guiei-me pela que saiu no jornal ultraflorianista O Jacobino, de 13 de
março de 1897, onde se tem um panorama de uma carreira impecável, como diria
Euclides da Cunha: correta como poucas (3). O que vemos é um
jovem pobre, sem patronos, galgando passo a passo, num esforço pessoal
pungente, os degraus da carreira militar. Em 1874, era designado alferes, o
equivalente hoje a segundo tenente — o cargo de alferes era o distintivo de um
profissional diferenciado: um título de honra.
Sua dedicação aos
estudos fez-lhe merecer mais um galão na sua farda, em 1877. Aliás, o cultivo
do conhecimento e o desejo permanente de atualização vão ser a marca distintiva
de sua formação profissional.
Como Euclides da Cunha
pode descrevê-lo como um apedeuta de pavio curto, produto superficial do
tumulto ignorante das multidões, turbinado pelo contexto político, quando toda
a sua trajetória profissional está profundamente arraigada na tranquilidade institucional
do IIº Império? Em uma sociedade onde tudo conspirava contra ele, seja pela sua
condição financeira ou pela ausência de 'sobrenome'?
Mas nem tudo são
flores. Segundo Epaminondas Ferraz, em seu Excertos da história de um
batalhão de infantaria que foi o sustentáculo da república (4), nos
primeiros tempos ele apresentava uma grande preocupação com a família, assim
como não era muito “obediente”, pois certa vez saiu sem autorização do quartel,
para atender a um assunto familiar, e acabou amargando uma prisão. Sintoma,
talvez, de uma personalidade inteligente, com iniciativa, inquieta, mas, para
Ferraz, isso apenas indica desobediência, e parece que, para este, quem é
desobediente pode cometer qualquer crime, pois ele completa:
“Seu verdadeiro
temperamento [o descrito por Euclides da Cunha] aflorara,
afinal, sobrepondo-se ao exercício da disciplina, disciplina que tanto exigirá,
na maturidade, de seus comandados (p. 48).”
Não podemos deixar de
notar a pressa com que alguns companheiros de arma, de Moreira César, forçam
para encontrar um pretexto para desmerecê-lo. Isso não me parece muito adequado
à natureza do espírito de companheirismo que deve nortear as relações entre
militares.
Ferraz esquece que
Moreira César era uma vocação integral para o exército, que sempre se empenhava
e entregava mais do que os seus superiores, as regras comuns e os
condicionamentos da caserna exigiam dele. Não percebe que só os medíocres se
apegam à literalidade das regras, que o soldado brasileiro do século XIX era,
antes de tudo, um homem contrariado, mobilizado à força por meio de injusta
violência. Logo, exigia um tipo de liderança muito mais afirmativa e até
autoritária que a de uma tropa hoje.
Parece que Ferraz quer
nos fazer crer que Moreira César era um hipócrita, que exigia dos comandados a
disciplina que não praticava, mas isso é uma ilação absurda, negada
profusamente pela forma organizada e pessoal com que dirigia as missões que
assumiu. Ninguém conseguiria o que ele conseguiu de seus soldados, se não fosse
antes o primeiro e o mais arrebatador exemplo. O comportamento do 7º, inclusive
no colapso após a sua morte, desmente frontalmente a insinuação de Ferraz.
As iniciativas e
desobediências de César denotam independência mental e honestidade moral, pois
tudo era feito às claras, devidamente anotado e assinado. Inclusive quando ele
começou a se assumir como republicano, enfrentando resoluto, mas lealmente, os seus
superiores.
Em 1881, torna-se
ajudante de ordens do ministro da guerra, sendo logo promovido a capitão por
estudos. Nesse mesmo ano, ao que parece, torna-se instrutor de tiro na
Fortaleza de São João. A sua competência é tamanha que, quando o ministro
resolve transferi-lo, o comandante da Fortaleza intercede para que ele fique,
como escreve Ferraz.
“Diz o comandante geral
da artilharia ser difícil ter-se “um professor tão dedicado… tão hábil, que
tanto gosto tenha pela arma da infantaria como o oficial de que se trata”
[meu destaque] (Ferraz, idem, p. 48).
Ele amava profundamente
a sua carreira e o meio no qual vivia. Ele era isso.
Em 1883, afasta-se por
3 meses por um problema de saúde, que Ferraz não diz qual é; tampouco encontrei
qualquer anotação médica que atestasse epilepsia. Não há relato de crises
epilépticas ao longo de sua carreira, mesmo no desgastante período em que ele
passou à frente do governo de Santa Catarina.
Nesse ano, porém,
aconteceu um episódio violento e nebuloso que o envolveu em um assassinato
ocorrido no Rio de Janeiro, na descrição do qual Euclides da Cunha excede-se em
fantasias e calúnias, fosse por motivos pessoais, fosse para auxiliar na
estratégia do grupo político ao qual estava ligado.
Eduardo Simões
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