sábado, 6 de junho de 2026


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E 

               CANUDOS DEVEM MORRER

A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 21


 O sertanejo de Pindamonhangaba

Qual é a origem do coronel Moreira César? Pergunta difícil de responder, pois, ao longo de mais de cem anos, repetindo mecanicamente as acusações forjadas contra ele, os brasileiros jamais tiveram interesse em saber se a sua história pessoal sustenta tão graves acusações. Com o tempo, perderam-se muitos elementos que poderiam nos ajudar a reconstituir os fatos de sua vida. Mas nem todos se perderam.

Vamos nos virar com algumas migalhas e muita dedução lógica.

Segundo a declaração de fé de ofício que ele fez ao ingressar no exército em 29 de dezembro de 1869, ele era natural de um distrito de Pindamonhangaba, mas filho de pais desconhecidos. Há, entretanto, uma informação que liga o seu nascimento ao 'deslize' do padre Antônio Moreira César de Almeida (1814–1860) e de uma devota solteirona, Francisca Correia de Toledo (1818–1895).

Algumas questões parecem desautorizar um esquema tão simples e socialmente constrangedor como esse:

a) Tanto o sobrenome 'Almeida' quanto 'Toledo' eram muito prestigiados em São Paulo. Moreira César não herdará nenhum dos dois.

b) Li numa edição do Gazeta de Notícias que um suposto sobrinho do coronel, de nome Fernando, de 15 anos, logo filho de um irmão ou irmã de Moreira César, estava na expedição a Canudos e sobreviveu ao combate que vitimou o tio. Que um padre tenha feito um filho numa devota solteira de uma família conhecida é possível, mas constituir uma prole com ela é mais complicado, sem falar que um sobrinho tão jovem já engajado no exército é indício de que o irmão ou a irmã do coronel também era pobre.

c) Segundo a Wikipédia em português. Uma fonte suspeita. O cunhado da suposta mãe de Moreira César era o capitão Bento Moreira Cesar de Almeida, que, por sua vez, era irmão do padre, embora na fonte citada pela Wikipédia (https://archive.is/HewJ3), o capitão não era cunhado de Francisca Toledo, mas marido de uma prima dela. Que confusão!

Foi talvez por meio desse capitão, irmão do padre, que ele adquiriu gosto pela carreira militar, de sorte que a procurou não só para fugir de uma condição precária, mas também por uma identificação com os ideais da farda.

Mas há ainda uma outra possibilidade que talvez explique melhor o que se passou.

Ele e seu irmão ou irmã não eram filhos do padre, mas sim de um casal pobre que morreu cedo. Então, o padre e a devota decidiram adotar as crianças por caridade. Isso era comum na antiga sociedade patriarcal, onde essas crianças moravam na 'casa grande', brincavam com outras crianças, mas nunca eram tratadas como iguais. Eram os moleques de recados. A sua compleição física, muito franzina, pode ser indício de que ele não teve uma alimentação boa por muito tempo na infância.

Outro indício era a grande preocupação que ele sempre mostrou para com sua família, seu irmão ou irmã, a ponto de fugir da caserna para ajudá-la(o) — segundo um relato do general Ferraz. Sinal de que ele ou ela não tinha mais ninguém que o(a) ajudasse.

Reforça ainda a nossa convicção o fato de Francisca Toledo, a suposta mãe, ter falecido em 1895, depois que ele já se tornara oficial superior e uma pessoa famosa, e até governador de Estado. Ele nunca faz menção a ela, nem a família dela ou a do padre jamais interveio em seu favor.

 

Soldado exemplar, quando necessário.

            Se tomarmos a sua pequena e única biografia disponível, que eu saiba, que circulou nos jornais do Rio de Janeiro, logo após a sua morte — guiei-me pela que saiu no jornal ultraflorianista O Jacobino, de 13 de março de 1897, onde se tem um panorama de uma carreira impecável, como diria Euclides da Cunha: correta como poucas (3). O que vemos é um jovem pobre, sem patronos, galgando passo a passo, num esforço pessoal pungente, os degraus da carreira militar. Em 1874, era designado alferes, o equivalente hoje a segundo tenente — o cargo de alferes era o distintivo de um profissional diferenciado: um título de honra.

Sua dedicação aos estudos fez-lhe merecer mais um galão na sua farda, em 1877. Aliás, o cultivo do conhecimento e o desejo permanente de atualização vão ser a marca distintiva de sua formação profissional.

Como Euclides da Cunha pode descrevê-lo como um apedeuta de pavio curto, produto superficial do tumulto ignorante das multidões, turbinado pelo contexto político, quando toda a sua trajetória profissional está profundamente arraigada na tranquilidade institucional do IIº Império? Em uma sociedade onde tudo conspirava contra ele, seja pela sua condição financeira ou pela ausência de 'sobrenome'?

Mas nem tudo são flores. Segundo Epaminondas Ferraz, em seu Excertos da história de um batalhão de infantaria que foi o sustentáculo da república (4), nos primeiros tempos ele apresentava uma grande preocupação com a família, assim como não era muito “obediente”, pois certa vez saiu sem autorização do quartel, para atender a um assunto familiar, e acabou amargando uma prisão. Sintoma, talvez, de uma personalidade inteligente, com iniciativa, inquieta, mas, para Ferraz, isso apenas indica desobediência, e parece que, para este, quem é desobediente pode cometer qualquer crime, pois ele completa:

“Seu verdadeiro temperamento [o descrito por Euclides da Cunha] aflorara, afinal, sobrepondo-se ao exercício da disciplina, disciplina que tanto exigirá, na maturidade, de seus comandados (p. 48).”

Não podemos deixar de notar a pressa com que alguns companheiros de arma, de Moreira César, forçam para encontrar um pretexto para desmerecê-lo. Isso não me parece muito adequado à natureza do espírito de companheirismo que deve nortear as relações entre militares.

Ferraz esquece que Moreira César era uma vocação integral para o exército, que sempre se empenhava e entregava mais do que os seus superiores, as regras comuns e os condicionamentos da caserna exigiam dele. Não percebe que só os medíocres se apegam à literalidade das regras, que o soldado brasileiro do século XIX era, antes de tudo, um homem contrariado, mobilizado à força por meio de injusta violência. Logo, exigia um tipo de liderança muito mais afirmativa e até autoritária que a de uma tropa hoje.

Parece que Ferraz quer nos fazer crer que Moreira César era um hipócrita, que exigia dos comandados a disciplina que não praticava, mas isso é uma ilação absurda, negada profusamente pela forma organizada e pessoal com que dirigia as missões que assumiu. Ninguém conseguiria o que ele conseguiu de seus soldados, se não fosse antes o primeiro e o mais arrebatador exemplo. O comportamento do 7º, inclusive no colapso após a sua morte, desmente frontalmente a insinuação de Ferraz.

As iniciativas e desobediências de César denotam independência mental e honestidade moral, pois tudo era feito às claras, devidamente anotado e assinado. Inclusive quando ele começou a se assumir como republicano, enfrentando resoluto, mas lealmente, os seus superiores.

Em 1881, torna-se ajudante de ordens do ministro da guerra, sendo logo promovido a capitão por estudos. Nesse mesmo ano, ao que parece, torna-se instrutor de tiro na Fortaleza de São João. A sua competência é tamanha que, quando o ministro resolve transferi-lo, o comandante da Fortaleza intercede para que ele fique, como escreve Ferraz.

“Diz o comandante geral da artilharia ser difícil ter-se “um professor tão dedicado… tão hábil, que tanto gosto tenha pela arma da infantaria como o oficial de que se trata [meu destaque] (Ferraz, idem, p. 48).

Ele amava profundamente a sua carreira e o meio no qual vivia. Ele era isso.

Em 1883, afasta-se por 3 meses por um problema de saúde, que Ferraz não diz qual é; tampouco encontrei qualquer anotação médica que atestasse epilepsia. Não há relato de crises epilépticas ao longo de sua carreira, mesmo no desgastante período em que ele passou à frente do governo de Santa Catarina.

Nesse ano, porém, aconteceu um episódio violento e nebuloso que o envolveu em um assassinato ocorrido no Rio de Janeiro, na descrição do qual Euclides da Cunha excede-se em fantasias e calúnias, fosse por motivos pessoais, fosse para auxiliar na estratégia do grupo político ao qual estava ligado.

Eduardo Simões

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