Floriano, entre a
traição e a oportunidade.
Em seu livro Advento
da ditadura militar no Brasil, p. 46, o Visconde do Ouro Preto, o último
Presidente do Conselho de Ministros do Império, narra um episódio em que ele
recebeu uma correspondência do ministro da Justiça, às vésperas do golpe.
Gabinete do ministro da
Justiça. Rio, 13 de novembro de 1889:
“Ex.mo chefe e amigo… Aí
vai essa carta do ajudante-general [Floriano Peixoto],
em que ele declara que se trama alguma coisa. Estou vigilante e é bom
recomendar cuidado ao Maracaju [Visconde de Maracaju, ministro da guerra].
Se souber de alguma coisa avisarei. Colega e amigo — Cândido de Oliveira.
Eis a carta do
ajudante-general:
Rio, 13 – 11 – 89. —
Ex.mo amigo Sr. Conselheiro.
A esta hora,
deve V. Ex.ª ter conhecimento de que tramam algo por aí além: — não dê
importância, tanto quanto seria preciso, confie na lealdade dos chefes, que já
estão alerta. Agradeço ainda uma vez os favores que
se tem dignado dispensar-me. O meu afilhado, isto é, afilhado dos liberais do
Rio Grande do Norte, Fonseca e Silva, esteve aqui em comissão percebendo
vencimentos de comissão ativa; não é de justiça que vá para aquela província
com prejuízo, razão por que peço despacho favorável à nota junta, que V. Ex.ª
devolverá e com a data de 11.10. Sou de V.ª menor criado, AM.º e obgd.º. —
Floriano Peixoto (8)”
Estava tudo em paz
quando Floriano, displicentemente, diz ao ministro que "tramam algo por
aí, mas que não dê importância, tanto quanto seria preciso.” Ou
seja: ele, tipicamente, diz que 'há perigo' e que 'não há'. O resultado da
mensagem foi, claro: pôs uma pulga atrás da orelha do Ministro da Justiça, mas,
para a sorte dos conspiradores republicanos, o Visconde de Ouro Preto era um
tanto 'devagarinho'.
Nesse momento, seus
camaradas republicanos, esperando o seu engajamento, haviam-no informado de que
o levante iria acontecer, possivelmente no dia 20. Como sempre, ele ia
desconversando, enquanto alertava as autoridades imperiais. Uma traição? O
Visconde marca um encontro com ele no dia 14, mas ele falta, e, no dia 15,
apunhala a monarquia.
A linguagem de Floriano
é ambígua e oportunista. Se a monarquia age com energia e consegue debelar o
golpe, ele poderia dizer: “Eu avisei, fui leal, agora lembra aquele favorzinho
que eu pedi?” Mas se os republicanos vencessem e o questionassem pelo bilhete,
ele poderia dizer: “Eles já estavam desconfiados, tanto que eu até escrevi, no
bilhete: 'A esta hora, V. Ex.ᵃ
deve ter conhecimento' — embora ninguém estivesse
sabendo de nada, tanto que a carta causou espanto e interesse — e eu tentei
acalmá-los para o golpe acontecer”. E assim, sem se comprometer com nenhum dos
lados, e trair a um deles, ele vai se tornar personagem fundamental no 15 de
novembro. Sem fazer nada!
No pedido de 'favor' de
Floriano, em vez de invocar a lei, serviços e/ou méritos de seu afilhado, busca
apenas ligá-lo ao Partido Liberal do Rio Grande do Norte (Fonseca e Silva era
de Natal) e praticamente implora, por isso, o privilégio de receber algo por
fora. Como era costumeiro em suas tramas, ele faz um pedido em aberto, para
recebê-lo de onde menos se espera. Eis o que diz Ouro Preto, em uma nota do
livro, sobre Fonseca e Silva.
“O afilhado do marechal…
era um grande protegido seu… e foi esse mesmo oficial que, no dia 15 de
novembro, por ordem do general Deodoro, apossou-se do comando do corpo policial
do Rio de Janeiro quando este marchava em auxílio do governo
[além de ficar no comando da polícia, ele se tornou o primeiro governador do
Estado do Rio de Janeiro sob regime republicano].”
Fosse qual fosse o
sistema, ele ganhava. Lembra o texto de um antigo comercial: “O importante é
levar vantagem em tudo, certo?” Estará muito longe do tipo tradicional?
Respeitosamente
ajoelhado, mas mandando bala!
Os dois apelidos mais
famosos dados aos fundadores da Primeira República são: “Consolidador da
República” e “Marechal de Ferro”, ambos dados a Floriano Peixoto, como se todos
os outros não passassem de espectadores ou meros beneficiários do seu
esforço.
As guerras civis
travadas por Floriano, longe de consolidar, quase destruíram a República, sem
falar que ele, por meio de seu testamento político, tentou passar às futuras
gerações a necessidade de continuarem o seu método. O uso intensivo da
violência para encurralar qualquer oposição ao seu modelo de república, como
com os federalistas e Canudos.
Um episódio,
orgulhosamente repetido pelos antigos brasileiros, hoje esquecido, aconteceu
durante a Revolta da Armada de 1893, quando um almirante inglês, em nome de uma
esquadrilha de navios estrangeiros ancorados na Baía de Guanabara, foi
perguntar a Floriano como o governo reagiria se eles desembarcassem tropas para
proteger seus nacionais.
— À bala! — disse o
ferruginoso marechal.
Os antigos brasileiros
suspendiam a respiração e os olhos até marejavam quando ouviam essa história.
Mas parece que não foi bem assim que aconteceu.
Segundo o historiador e
médico Hélio Silva, filho de um militar que participou do Primeiro Levante da
Armada, em 1891, em seu livro 1889 (9), p. 160–162, diz que o que
aconteceu foi o seguinte:
“Os entendimentos
daqueles [comandantes estrangeiros] com o governo
Floriano… não deixam dúvida de que Floriano solicitou imediatamente a
intervenção [dos estrangeiros], vindo a obtê-la em outubro, mediante
os bons ofícios da Inglaterra.”
É, portanto, Floriano
Peixoto quem toma a iniciativa de solicitar ajuda aos comandantes de navios de
guerra estrangeiros — ingleses, franceses, italianos, portugueses, americanos e
alemães —, embora o faça no estilo floriano.
No dia 6 de setembro de
1893, primeiro dia da 2ª Revolta da Armada, o contra-almirante Francisco José
Coelho Neto foi ao navio capitânia inglês e perguntou ao comandante se o
governo podia contar com o 'apoio moral' dos ingleses, caso a cidade fosse bombardeada
e os ingleses residentes sofressem prejuízos.
Florianamente, ele não
solicita a intervenção estrangeira em favor do governo, mas apresenta a
situação de uma tal maneira que a torna inevitável, fazendo parecer que o
governo brasileiro não está solicitando a ajuda de estrangeiros para combater
outros brasileiros, embora o esteja. Lembram-se da história das baterias no
Paraguai, do dia 15 de novembro? (10)
Em 16 de setembro, os
almirantes estrangeiros expressam o seu “desejo” a Custódio de Melo de que ele
se abstenha de bombardear a cidade, deixando-o de mãos atadas. No dia 29 de
setembro, ele avisa do próximo bombardeio à fortaleza de Santa Cruz da Barra, e
que 'o bicho vai pegar!'. No dia seguinte, uma correspondência do Foreign
Office, de Londres, cruzou o oceano, dizendo que a Inglaterra ordenava aos
comandantes que se opusessem, até pela força, a qualquer iniciativa dos
revoltosos de bombardeio da cidade.
Os estrangeiros não
desembarcaram tropas porque tinham medo de Floriano, mas porque já estavam tão
envolvidos, tão 'dentro', que não precisavam mais desse recurso. Eles
intervinham num assunto interno nosso, em conluio com o nosso presidente,
enquanto a nossa Marinha, amotinada, passou a ter o comando compartilhado entre
os nossos oficiais e os oficiais das grandes potências. Foram elas, acima de
tudo, que decidiram a derrota dos revoltosos.
Enquanto na alta esfera
Floriano era salvo pelos estrangeiros, os florianistas, nas ruas, espalhavam a
baboseira de que o Marechal os receberia à bala. Quando, anos depois,
aconteceram conflitos territoriais com a França e a Inglaterra, no governo de
Prudente de Morais, os florianistas foram às ruas exigir que o presidente
fizesse como o marechal e mandasse bala, porque então ficava mais fácil
derrubá-lo. A pendência foi resolvida pacificamente.
Heitor Lira, em seu
minucioso livro História da queda do Império, 2º volume, col. Brasiliana, vol.
320-A, Editora Nacional, São Paulo, 1964, p. 232–292, conta detalhadamente os
acontecimentos dos últimos dias do Império, e, embora nutra uma certa simpatia
por Floriano, a impressão que fica é que este fez jogo duplo até o último
momento, esperando em que direção a coisa ia para seguir atrás. Heitor Lira
termina o capítulo sobre Floriano reproduzindo um pensador francês:
“Lacordaire dizia
que alguém pode ter todas as qualidades e mesmo ser um homem de gênio — mas não
ter caráter.”
Ou tê-lo mau…
Quando chegou o final
de seu mandato, em 15 de novembro de 1894, Peixoto queria continuar no cargo,
embora, florianamente, não deixasse transparecer, seus adeptos faziam uma
desassombrada pressão para que ele continuasse, pois era preciso 'consolidar a
república', ameaçada por 'restauradores monarquistas'. Floriano queria mais
tempo para acabar com os problemas que ele mesmo criara ou agravara.
Tudo, porém, não
passava de um teatro que impressionava, em especial, a juventude acadêmica
civil e militar, tão emocionalmente excitada quanto intelectualmente acrítica.
Os supostos 'monarquistas' eram, em sua maioria, republicanos que ousavam
divergir do seu projeto de ditadura militar. Restou-lhe um recurso típico de
sua personalidade: a protelação. A eleição presidencial que deveria ocorrer em
20 de outubro de 1893 foi adiada para 1º de março de 1894, e a eleição de
deputados e senadores federais foi protelada duas vezes.
Quando Prudente chegou
ao Rio, no dia 2 de novembro, para se preparar para a posse, os boatos de golpe
militar iminente e a hostilidade geral contra eram notórios, e ainda havia um
'cavalo de Troia' no governo: o Vice-Presidente Manuel Vitorino, político e
médico baiano conhecido e respeitado pela elite culta do país, com uma curta
passagem no executivo estadual.
Será que Vitorino era
um florianista moderado que, em virtude de 'más companhias', radicalizou-se ou
era um radical, que sabia dissimular suas intenções? Era uma raposa? Sendo
médico, percebeu a gravidade das doenças que rondavam Prudente e Floriano, posicionando-se
para, nos seus desenlaces, ficar com o grande prêmio sem esforço, como fazia o
seu ídolo?
Prudente, mesmo
enfrentando uma enxurrada de acusações da oposição e o deboche quase unânime da
imprensa carioca, consegue pacificar o Rio Grande do Sul (11), enquanto
tenta equacionar o gravíssimo problema econômico herdado do encilhamento
deodorista e das guerras de Floriano. Mas, por motivo de saúde (uma pedra nos
rins), vê-se obrigado a licenciar-se e transmitir o cargo ao seu vice, que já
vinha se afastando do projeto original de governo.
A possibilidade de a
licença de Prudente abrir caminho para um golpe, liderado por Manuel Vitorino,
com o apoio da maioria do Exército, era algo a não se desprezar. Era preciso
tomar uma atitude preventiva séria para salvar a República desse desvio trágico.
Prudente não pensou muito.
Mandou chamar o Coronel
Moreira César!
Eduardo Simões
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