quarta-feira, 10 de junho de 2026

 


O CORONEL MOREIRA CÉSAR E CANUDOS DEVEM MORRER
A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA - 24

Floriano, entre a traição e a oportunidade.

Em seu livro Advento da ditadura militar no Brasil, p. 46, o Visconde do Ouro Preto, o último Presidente do Conselho de Ministros do Império, narra um episódio em que ele recebeu uma correspondência do ministro da Justiça, às vésperas do golpe.

Gabinete do ministro da Justiça. Rio, 13 de novembro de 1889:

“Ex.mo chefe e amigo… Aí vai essa carta do ajudante-general [Floriano Peixoto], em que ele declara que se trama alguma coisa. Estou vigilante e é bom recomendar cuidado ao Maracaju [Visconde de Maracaju, ministro da guerra]. Se souber de alguma coisa avisarei. Colega e amigo — Cândido de Oliveira.

Eis a carta do ajudante-general:

Rio, 13 – 11 – 89. — Ex.mo amigo Sr. Conselheiro.

A esta hora, deve V. Ex.ª ter conhecimento de que tramam algo por aí além: — não dê importância, tanto quanto seria preciso, confie na lealdade dos chefes, que já estão alerta. Agradeço ainda uma vez os favores que se tem dignado dispensar-me. O meu afilhado, isto é, afilhado dos liberais do Rio Grande do Norte, Fonseca e Silva, esteve aqui em comissão percebendo vencimentos de comissão ativa; não é de justiça que vá para aquela província com prejuízo, razão por que peço despacho favorável à nota junta, que V. Ex.ª devolverá e com a data de 11.10. Sou de V.ª menor criado, AM.º e obgd.º. — Floriano Peixoto (8)”

Estava tudo em paz quando Floriano, displicentemente, diz ao ministro que "tramam algo por aí, mas que não dê importância, tanto quanto seria preciso.” Ou seja: ele, tipicamente, diz que 'há perigo' e que 'não há'. O resultado da mensagem foi, claro: pôs uma pulga atrás da orelha do Ministro da Justiça, mas, para a sorte dos conspiradores republicanos, o Visconde de Ouro Preto era um tanto 'devagarinho'.

Nesse momento, seus camaradas republicanos, esperando o seu engajamento, haviam-no informado de que o levante iria acontecer, possivelmente no dia 20. Como sempre, ele ia desconversando, enquanto alertava as autoridades imperiais. Uma traição? O Visconde marca um encontro com ele no dia 14, mas ele falta, e, no dia 15, apunhala a monarquia.

A linguagem de Floriano é ambígua e oportunista. Se a monarquia age com energia e consegue debelar o golpe, ele poderia dizer: “Eu avisei, fui leal, agora lembra aquele favorzinho que eu pedi?” Mas se os republicanos vencessem e o questionassem pelo bilhete, ele poderia dizer: “Eles já estavam desconfiados, tanto que eu até escrevi, no bilhete: 'A esta hora, V. Ex. deve ter conhecimento' — embora ninguém estivesse sabendo de nada, tanto que a carta causou espanto e interesse — e eu tentei acalmá-los para o golpe acontecer”. E assim, sem se comprometer com nenhum dos lados, e trair a um deles, ele vai se tornar personagem fundamental no 15 de novembro. Sem fazer nada!

No pedido de 'favor' de Floriano, em vez de invocar a lei, serviços e/ou méritos de seu afilhado, busca apenas ligá-lo ao Partido Liberal do Rio Grande do Norte (Fonseca e Silva era de Natal) e praticamente implora, por isso, o privilégio de receber algo por fora. Como era costumeiro em suas tramas, ele faz um pedido em aberto, para recebê-lo de onde menos se espera. Eis o que diz Ouro Preto, em uma nota do livro, sobre Fonseca e Silva.

“O afilhado do marechal… era um grande protegido seu… e foi esse mesmo oficial que, no dia 15 de novembro, por ordem do general Deodoro, apossou-se do comando do corpo policial do Rio de Janeiro quando este marchava em auxílio do governo [além de ficar no comando da polícia, ele se tornou o primeiro governador do Estado do Rio de Janeiro sob regime republicano].”

Fosse qual fosse o sistema, ele ganhava. Lembra o texto de um antigo comercial: “O importante é levar vantagem em tudo, certo?” Estará muito longe do tipo tradicional?

 

Respeitosamente ajoelhado, mas mandando bala!

Os dois apelidos mais famosos dados aos fundadores da Primeira República são: “Consolidador da República” e “Marechal de Ferro”, ambos dados a Floriano Peixoto, como se todos os outros não passassem de espectadores ou meros beneficiários do seu esforço. 

As guerras civis travadas por Floriano, longe de consolidar, quase destruíram a República, sem falar que ele, por meio de seu testamento político, tentou passar às futuras gerações a necessidade de continuarem o seu método. O uso intensivo da violência para encurralar qualquer oposição ao seu modelo de república, como com os federalistas e Canudos.

Um episódio, orgulhosamente repetido pelos antigos brasileiros, hoje esquecido, aconteceu durante a Revolta da Armada de 1893, quando um almirante inglês, em nome de uma esquadrilha de navios estrangeiros ancorados na Baía de Guanabara, foi perguntar a Floriano como o governo reagiria se eles desembarcassem tropas para proteger seus nacionais. 

— À bala! — disse o ferruginoso marechal.

Os antigos brasileiros suspendiam a respiração e os olhos até marejavam quando ouviam essa história. Mas parece que não foi bem assim que aconteceu.

Segundo o historiador e médico Hélio Silva, filho de um militar que participou do Primeiro Levante da Armada, em 1891, em seu livro 1889 (9), p. 160–162, diz que o que aconteceu foi o seguinte:

“Os entendimentos daqueles [comandantes estrangeiros] com o governo Floriano… não deixam dúvida de que Floriano solicitou imediatamente a intervenção [dos estrangeiros], vindo a obtê-la em outubro, mediante os bons ofícios da Inglaterra.”

É, portanto, Floriano Peixoto quem toma a iniciativa de solicitar ajuda aos comandantes de navios de guerra estrangeiros — ingleses, franceses, italianos, portugueses, americanos e alemães —, embora o faça no estilo floriano.

No dia 6 de setembro de 1893, primeiro dia da 2ª Revolta da Armada, o contra-almirante Francisco José Coelho Neto foi ao navio capitânia inglês e perguntou ao comandante se o governo podia contar com o 'apoio moral' dos ingleses, caso a cidade fosse bombardeada e os ingleses residentes sofressem prejuízos.

Florianamente, ele não solicita a intervenção estrangeira em favor do governo, mas apresenta a situação de uma tal maneira que a torna inevitável, fazendo parecer que o governo brasileiro não está solicitando a ajuda de estrangeiros para combater outros brasileiros, embora o esteja. Lembram-se da história das baterias no Paraguai, do dia 15 de novembro? (10)

Em 16 de setembro, os almirantes estrangeiros expressam o seu “desejo” a Custódio de Melo de que ele se abstenha de bombardear a cidade, deixando-o de mãos atadas. No dia 29 de setembro, ele avisa do próximo bombardeio à fortaleza de Santa Cruz da Barra, e que 'o bicho vai pegar!'. No dia seguinte, uma correspondência do Foreign Office, de Londres, cruzou o oceano, dizendo que a Inglaterra ordenava aos comandantes que se opusessem, até pela força, a qualquer iniciativa dos revoltosos de bombardeio da cidade.

Os estrangeiros não desembarcaram tropas porque tinham medo de Floriano, mas porque já estavam tão envolvidos, tão 'dentro', que não precisavam mais desse recurso. Eles intervinham num assunto interno nosso, em conluio com o nosso presidente, enquanto a nossa Marinha, amotinada, passou a ter o comando compartilhado entre os nossos oficiais e os oficiais das grandes potências. Foram elas, acima de tudo, que decidiram a derrota dos revoltosos.

Enquanto na alta esfera Floriano era salvo pelos estrangeiros, os florianistas, nas ruas, espalhavam a baboseira de que o Marechal os receberia à bala. Quando, anos depois, aconteceram conflitos territoriais com a França e a Inglaterra, no governo de Prudente de Morais, os florianistas foram às ruas exigir que o presidente fizesse como o marechal e mandasse bala, porque então ficava mais fácil derrubá-lo. A pendência foi resolvida pacificamente.

Heitor Lira, em seu minucioso livro História da queda do Império, 2º volume, col. Brasiliana, vol. 320-A, Editora Nacional, São Paulo, 1964, p. 232–292, conta detalhadamente os acontecimentos dos últimos dias do Império, e, embora nutra uma certa simpatia por Floriano, a impressão que fica é que este fez jogo duplo até o último momento, esperando em que direção a coisa ia para seguir atrás. Heitor Lira termina o capítulo sobre Floriano reproduzindo um pensador francês:

“Lacordaire dizia que alguém pode ter todas as qualidades e mesmo ser um homem de gênio — mas não ter caráter.”

Ou tê-lo mau…

Quando chegou o final de seu mandato, em 15 de novembro de 1894, Peixoto queria continuar no cargo, embora, florianamente, não deixasse transparecer, seus adeptos faziam uma desassombrada pressão para que ele continuasse, pois era preciso 'consolidar a república', ameaçada por 'restauradores monarquistas'. Floriano queria mais tempo para acabar com os problemas que ele mesmo criara ou agravara.

Tudo, porém, não passava de um teatro que impressionava, em especial, a juventude acadêmica civil e militar, tão emocionalmente excitada quanto intelectualmente acrítica. Os supostos 'monarquistas' eram, em sua maioria, republicanos que ousavam divergir do seu projeto de ditadura militar. Restou-lhe um recurso típico de sua personalidade: a protelação. A eleição presidencial que deveria ocorrer em 20 de outubro de 1893 foi adiada para 1º de março de 1894, e a eleição de deputados e senadores federais foi protelada duas vezes.

Quando Prudente chegou ao Rio, no dia 2 de novembro, para se preparar para a posse, os boatos de golpe militar iminente e a hostilidade geral contra eram notórios, e ainda havia um 'cavalo de Troia' no governo: o Vice-Presidente Manuel Vitorino, político e médico baiano conhecido e respeitado pela elite culta do país, com uma curta passagem no executivo estadual.

Será que Vitorino era um florianista moderado que, em virtude de 'más companhias', radicalizou-se ou era um radical, que sabia dissimular suas intenções? Era uma raposa? Sendo médico, percebeu a gravidade das doenças que rondavam Prudente e Floriano, posicionando-se para, nos seus desenlaces, ficar com o grande prêmio sem esforço, como fazia o seu ídolo?

Prudente, mesmo enfrentando uma enxurrada de acusações da oposição e o deboche quase unânime da imprensa carioca, consegue pacificar o Rio Grande do Sul (11), enquanto tenta equacionar o gravíssimo problema econômico herdado do encilhamento deodorista e das guerras de Floriano. Mas, por motivo de saúde (uma pedra nos rins), vê-se obrigado a licenciar-se e transmitir o cargo ao seu vice, que já vinha se afastando do projeto original de governo.

A possibilidade de a licença de Prudente abrir caminho para um golpe, liderado por Manuel Vitorino, com o apoio da maioria do Exército, era algo a não se desprezar. Era preciso tomar uma atitude preventiva séria para salvar a República desse desvio trágico. Prudente não pensou muito.

Mandou chamar o Coronel Moreira César!

Eduardo Simões


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