A VERDADE DAS DEGOLAS EM CANUDOS
E AS MENTIRAS DE CÉSAR ZAMA
Eduardo Simões
Não se pode dizer que César Zama,
a nova estrela da ‘verdade oculta’ de Canudos nos meios acadêmicos, não foi
bem-sucedido em sua trama para manter essa verdade mais oculta ainda aos
brasileiros, se é que alguém ainda se importa com o que aconteceu lá, em meio a
tantos escândalos do presente e falta de perspectiva no futuro — quem sabe o
conhecimento melhor do passado nos prodigalize esperanças? — pois, assistindo a
um vídeo sobre Canudos, para saber as novidades nas pesquisas, deparei-me com
um mestre ou doutor, em história — esses títulos ainda importam? — fazendo
questão de afirmar a superioridade de César Zama como fonte privilegiada para o
conhecimento de Canudos. Logo Zama, que nunca pisou lá nem escreveu nada
minimamente circunstanciado, além do ridículo Libelo republicano, cheio
de distorções, mentiras e irracionalidades.
Segundo Zama, um florianista
fervoroso, a ordem para a degola dos prisioneiros partiu do marechal Carlos
Machado Bittencourt, mandado por Prudente de Morais, para acabar com a
desorganização do abastecimento das tropas em Canudos — toda ela organizada, segundo
o general Dantas Barreto, pela teimosia do general Oscar em entregar essa
responsabilidade ao coronel de engenharia Campelo França, contra a recomendação
de gente abalizada, dando na desordem que deu, sem que o general tomasse
qualquer providência!
Zama, e só ele, inventou uma
história de que, indagado por Arthur Oscar, tão florianista quanto Zama, sobre
o que fazer com os prisioneiros, o marechal Bittencourt teria dito que em
Queimadas, onde estava o centro do abastecimento da força, não havia lugar para
os prisioneiros, e que isso era uma ‘senha’ para o massacre, sem falar de
outras baboseiras que Zama inventou, ótimas para emocionar mentes fracas e
gente alucinada com teorias da conspiração, como a expressão utilizada no QG de
Bittencourt “é tempo de João Francisco”, um estancieiro gaúcho com fama de
sanguinário, um castilhista autônomo demais para permanecer castilhista muito
tempo, a quem Rui Barbosa chamou de ‘Fera do Cati’. Ajudou na mentira o fato de
Bittencourt ser gaúcho.
O curioso é que o próprio general
Oscar, e o seu irmão e biógrafo, general Carlos Eugênio, não citam nenhum
contato de Oscar com Bittencourt, nem se dão ao menor trabalho de explicar o
que aconteceu, mesmo quando já havia notórias suspeitas de que ele estivesse de
alguma forma envolvido, afinal, o morticínio aconteceu na área sob o seu
comando. Oscar, inclusive, falecerá dizendo que em Canudos havia uma poderosa
conspiração internacional em curso para remonarquizar o Brasil.
Ao jogar a responsabilidade sobre
Bittencourt, Zama a atinge por tabela a Prudente de Morais, que foi quem mandou
Bittencourt a Canudos, para dar um mínimo de ordem na esculhambação do
abastecimento, que estava alongando a campanha, aumentando as mortes e
estourando o Tesouro nacional, combalido pela incompetência e os desmandos de
Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto.
Graças à história da carochinha
de Zama, é praticamente consenso na academia e em todos os meios cultos, uma
unanimidade nacional, bem a propósito de Nelson Rodrigues, que os responsáveis
pela degola em Canudos são Carlos Bittencourt e Prudente de Morais, o que
praticamente justifica, e até heroifica, a tentativa de assassinato de Prudente
de Morais, por um florianista encarniçado, ignorante e manipulado por grandes
personalidades da República, todas de viés florianista. Esse atentado
monstruoso é vergonhosamente omitido no libelo de Zama. Para não expor os
colegas?
Entretanto, existiam também
pessoas sérias e honestas envolvidas no brutal massacre de Canudos que, graças
aos céus, deixaram algo escrito e isso foi milagrosamente preservado em
arquivos — considerada a nossa compunção em destruir arquivos e museus — que
agora tenho o prazer de mostrar a vocês, nesse pequeno blog, que só quer
estabelecer os limites corretos de cada acontecimento para podermos aquilatar
melhor as responsabilidades de cada um nesse lamentável episódio.
Não dá para desfazer o que foi
feito, mas dá para utilizar dos seus fundamentos, desde que honestamente
levantados, para impedir que isso volte a acontecer em situações análogas.
Em primeiro lugar, vou apresentar
trechos do livro do estudante de medicina baiano Alvim Martins Horcades, Descrição
de uma viagem a Canudos, escrito em 1899, disponível, por enquanto, na
Internet.
P 109 — Aqui Horcades comenta
sobre a promessa, que, segundo Beatinho, lhe foi feita pelos três generais em
comando: Arthur Oscar, Carlos Eugênio e João da Silva Barbosa, e que Beatinho,
depois da conversa com os generais, transmitiu a Horcades. Onde Bittencourt
entra nisso?
P 113 — Tudo indica que esse corresponsável seria um dos
generais citados ou no mínimo um oficial de alta patente. Horcades se precata,
pois sabe que o terreno é perigoso. Ele chega a citar ameaças que um estudante
de medicina teria sofrido, da parte de um soldado, por reclamar contra aquilo.
Havia uma omertá em curso?
P 114
O documento acima é uma página do livro organizado pelo
tenente-coronel reformado Orvácio Deolindo da Cunha Marrecas, que era tenente
em 1897, chamado Histórico da Polícia Militar do Pará, do seu início (1820)
até 31 de dezembro de 1939, editado em 1940, pelas Oficinas Gráficas do
Instituto Lauro Sodré (florianista encarniçado, acusado de envolvimento na
trama para matar Prudente, em 1897, e derrubar Rodrigues Alves por meio de um
golpe, durante a Revolta da Vacina, em 1904), em Belém.
Lendo Marrecas, vemos que o relato do policial paraense e do
acadêmico baiano batem extraordinariamente nos detalhes, já que o policial, por
razões tão compreensíveis quanto lamentáveis, foi muito lacônico no seu relato.
Um complementa o outro.
Em primeiríssimo lugar: AMBOS SÃO TESTEMUNHAS OCULARES.
ESTAVAM LÁ. VIRAM.
Tanto um quanto o outro: dizem que a ordem partiu dali mesmo
e nada tem a ver com Queimadas ou Bittencourt — HORCADES cita em outro
parágrafo 3 generais — os únicos presentes eram aqueles que citei acima.
Estranhamente, vários outros deram baixa para não ficar ali. MARRECAS fala de “um
dos ajudantes de ordens do comando em chefe das forças em operação”, que
remete aos três generais citados ou ao principal deles, Arthur Oscar, pois em
Queimadas, onde estava Bittencourt, não transcorriam operações.
Ambos falam EXPLICITAMENTE que havia uma 'chamada'. Os nomes
desses homens eram conhecidos, estavam em listas sob a guarda dos oficiais. Que
fim levaram essas listas? Como pode um general como Tristão de Alencar Araripe,
que escreveu sobre Canudos, dizer que se desconhece seu número, seu nome e seu
paradeiro?
Marrecas fala de uma ordem estranha: “fazer trincheiras”,
que ele até supôs ser “uma gíria local”, para designar degola, o que não existe
nem a rastro que um dia tenha existido tal expressão nesse sentido. Pode ser um
artifício para livrar a pele de alguém, caso houvesse uma investigação a
respeito. Ele se justificaria dizendo: "Não sei o que aconteceu, eu mandei
cavar trincheiras, estão aqui as ordens por escrito". Ninguém, é claro,
foi punido por esse desvio de 'entendimento'.
Ambos falam em degola como modo de execução.
Ambos falam na carbonização dos corpos após a execução e na
cena horripilante dos corpos queimando ao relento.
Ou se prova que o policial paraense, chegado já nos
estertores da refrega, e o jovem acadêmico baiano eram velhos conhecidos, ou
tinham motivos para se mancomunarem a fim de destruir a boa imagem do general
Arthur Oscar e do alto comando da tropa em operação, ou, na ausência de provas
e testemunhos bem consistentes, coerentes de fontes diversas, e não fofocas e
mentiras de cunho político-partidário, somos obrigados a assumir
peremptoriamente que a ordem para o massacre em Canudos surgiu inteiramente no comando
direto das tropas que ultimavam o cerco ao arraial, em especial o seu
comandante máximo: o general Arthur Oscar.
P 124 — Mais uma vez vemos a
‘mão’ de Arthur Oscar, o “general em chefe”. Por que essa meticulosidade
em destruir as igrejas até os alicerces? Para que eles serviriam no caso de uma
futura revolta internacional monarquista numa das regiões mais pobres do Brasil
(fazendo força para não rir)? Por que essa preocupação em apagar o rastro
daquilo tudo? Só consigo encontrar uma resposta lógica: dificultar qualquer
tentativa futura de saber o que realmente aconteceu ali.
Favilla Nunes, que viu os
destroços das igrejas, admirou-se de sua pequenez, de seu acanhamento. Ele
chega a dizer que, se a Igreja Nova era uma fortaleza, como diziam, ele não
saberia como qualificar a igreja da Candelária no Rio de Janeiro, mas até isso
ficou difícil de aquilatar depois que as duas foram dinamitadas até os
alicerces, algo completamente inexplicável, pois em Canudos não havia muralhas,
trincheiras complexas, túneis, etc. — todos os relatos falam em buracos e covas
feitas improvisadamente pelos seus pobres defensores. Há uma foto que mostra
bem o acanhamento da Igreja Velha, de Santo Antônio, mas a única que temos da
Nova não nos permite avaliar o seu tamanho. O ângulo da foto — de baixo para
cima — fa-la parecer maior do que é.
Ironicamente, as mentiras
verdadeiras e as falsas verdades propaladas pelos militares após a queda de
Canudos, para justificar ou ocultar um crime tão aberrante, só serviram
para enaltecê-la e aumentar indevidamente a sua fama, assim como a de seu
infeliz fundador. Um homem que, apesar de seus erros, não merecia, assim como
os seus, um final tão cruel, e que também está longe de ser um herói, um
protótipo dos novos tempos, quando é justo o contrário.
Resgatar a verdade dos
acontecimentos e a dimensão correta de Canudos é a melhor maneira de superar
tanto a irracionalidade com que aquela comunidade foi destruída e
posteriormente demonizada, assim como também é, agora, irracionalmente
apresentada como um modelo.
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