quarta-feira, 15 de julho de 2026


A VERDADE DAS DEGOLAS EM CANUDOS E AS MENTIRAS DE CÉSAR ZAMA

Eduardo Simões

Não se pode dizer que César Zama, a nova estrela da ‘verdade oculta’ de Canudos nos meios acadêmicos, não foi bem-sucedido em sua trama para manter essa verdade mais oculta ainda aos brasileiros, se é que alguém ainda se importa com o que aconteceu lá, em meio a tantos escândalos do presente e falta de perspectiva no futuro — quem sabe o conhecimento melhor do passado nos prodigalize esperanças? — pois, assistindo a um vídeo sobre Canudos, para saber as novidades nas pesquisas, deparei-me com um mestre ou doutor, em história — esses títulos ainda importam? — fazendo questão de afirmar a superioridade de César Zama como fonte privilegiada para o conhecimento de Canudos. Logo Zama, que nunca pisou lá nem escreveu nada minimamente circunstanciado, além do ridículo Libelo republicano, cheio de distorções, mentiras e irracionalidades.

Segundo Zama, um florianista fervoroso, a ordem para a degola dos prisioneiros partiu do marechal Carlos Machado Bittencourt, mandado por Prudente de Morais, para acabar com a desorganização do abastecimento das tropas em Canudos — toda ela organizada, segundo o general Dantas Barreto, pela teimosia do general Oscar em entregar essa responsabilidade ao coronel de engenharia Campelo França, contra a recomendação de gente abalizada, dando na desordem que deu, sem que o general tomasse qualquer providência!

Zama, e só ele, inventou uma história de que, indagado por Arthur Oscar, tão florianista quanto Zama, sobre o que fazer com os prisioneiros, o marechal Bittencourt teria dito que em Queimadas, onde estava o centro do abastecimento da força, não havia lugar para os prisioneiros, e que isso era uma ‘senha’ para o massacre, sem falar de outras baboseiras que Zama inventou, ótimas para emocionar mentes fracas e gente alucinada com teorias da conspiração, como a expressão utilizada no QG de Bittencourt “é tempo de João Francisco”, um estancieiro gaúcho com fama de sanguinário, um castilhista autônomo demais para permanecer castilhista muito tempo, a quem Rui Barbosa chamou de ‘Fera do Cati’. Ajudou na mentira o fato de Bittencourt ser gaúcho.

O curioso é que o próprio general Oscar, e o seu irmão e biógrafo, general Carlos Eugênio, não citam nenhum contato de Oscar com Bittencourt, nem se dão ao menor trabalho de explicar o que aconteceu, mesmo quando já havia notórias suspeitas de que ele estivesse de alguma forma envolvido, afinal, o morticínio aconteceu na área sob o seu comando. Oscar, inclusive, falecerá dizendo que em Canudos havia uma poderosa conspiração internacional em curso para remonarquizar o Brasil.

Ao jogar a responsabilidade sobre Bittencourt, Zama a atinge por tabela a Prudente de Morais, que foi quem mandou Bittencourt a Canudos, para dar um mínimo de ordem na esculhambação do abastecimento, que estava alongando a campanha, aumentando as mortes e estourando o Tesouro nacional, combalido pela incompetência e os desmandos de Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto.

Graças à história da carochinha de Zama, é praticamente consenso na academia e em todos os meios cultos, uma unanimidade nacional, bem a propósito de Nelson Rodrigues, que os responsáveis pela degola em Canudos são Carlos Bittencourt e Prudente de Morais, o que praticamente justifica, e até heroifica, a tentativa de assassinato de Prudente de Morais, por um florianista encarniçado, ignorante e manipulado por grandes personalidades da República, todas de viés florianista. Esse atentado monstruoso é vergonhosamente omitido no libelo de Zama. Para não expor os colegas?

Entretanto, existiam também pessoas sérias e honestas envolvidas no brutal massacre de Canudos que, graças aos céus, deixaram algo escrito e isso foi milagrosamente preservado em arquivos — considerada a nossa compunção em destruir arquivos e museus — que agora tenho o prazer de mostrar a vocês, nesse pequeno blog, que só quer estabelecer os limites corretos de cada acontecimento para podermos aquilatar melhor as responsabilidades de cada um nesse lamentável episódio.

Não dá para desfazer o que foi feito, mas dá para utilizar dos seus fundamentos, desde que honestamente levantados, para impedir que isso volte a acontecer em situações análogas.

Em primeiro lugar, vou apresentar trechos do livro do estudante de medicina baiano Alvim Martins Horcades, Descrição de uma viagem a Canudos, escrito em 1899, disponível, por enquanto, na Internet.


P 109 — Aqui Horcades comenta sobre a promessa, que, segundo Beatinho, lhe foi feita pelos três generais em comando: Arthur Oscar, Carlos Eugênio e João da Silva Barbosa, e que Beatinho, depois da conversa com os generais, transmitiu a Horcades. Onde Bittencourt entra nisso?



P 110


morte, à semelhança da que se faz do estudante para o exame.

P 113 — Tudo indica que esse corresponsável seria um dos generais citados ou no mínimo um oficial de alta patente. Horcades se precata, pois sabe que o terreno é perigoso. Ele chega a citar ameaças que um estudante de medicina teria sofrido, da parte de um soldado, por reclamar contra aquilo. Havia uma omertá em curso?


P 114
P 115


P 116 (Fim do livro de Horcades)


O documento acima é uma página do livro organizado pelo tenente-coronel reformado Orvácio Deolindo da Cunha Marrecas, que era tenente em 1897, chamado Histórico da Polícia Militar do Pará, do seu início (1820) até 31 de dezembro de 1939, editado em 1940, pelas Oficinas Gráficas do Instituto Lauro Sodré (florianista encarniçado, acusado de envolvimento na trama para matar Prudente, em 1897, e derrubar Rodrigues Alves por meio de um golpe, durante a Revolta da Vacina, em 1904), em Belém.

Lendo Marrecas, vemos que o relato do policial paraense e do acadêmico baiano batem extraordinariamente nos detalhes, já que o policial, por razões tão compreensíveis quanto lamentáveis, foi muito lacônico no seu relato. Um complementa o outro.

Em primeiríssimo lugar: AMBOS SÃO TESTEMUNHAS OCULARES. ESTAVAM LÁ. VIRAM.

Tanto um quanto o outro: dizem que a ordem partiu dali mesmo e nada tem a ver com Queimadas ou Bittencourt — HORCADES cita em outro parágrafo 3 generais — os únicos presentes eram aqueles que citei acima. Estranhamente, vários outros deram baixa para não ficar ali. MARRECAS fala de “um dos ajudantes de ordens do comando em chefe das forças em operação”, que remete aos três generais citados ou ao principal deles, Arthur Oscar, pois em Queimadas, onde estava Bittencourt, não transcorriam operações.

Ambos falam EXPLICITAMENTE que havia uma 'chamada'. Os nomes desses homens eram conhecidos, estavam em listas sob a guarda dos oficiais. Que fim levaram essas listas? Como pode um general como Tristão de Alencar Araripe, que escreveu sobre Canudos, dizer que se desconhece seu número, seu nome e seu paradeiro?

Marrecas fala de uma ordem estranha: “fazer trincheiras”, que ele até supôs ser “uma gíria local”, para designar degola, o que não existe nem a rastro que um dia tenha existido tal expressão nesse sentido. Pode ser um artifício para livrar a pele de alguém, caso houvesse uma investigação a respeito. Ele se justificaria dizendo: "Não sei o que aconteceu, eu mandei cavar trincheiras, estão aqui as ordens por escrito". Ninguém, é claro, foi punido por esse desvio de 'entendimento'.

Ambos falam em degola como modo de execução.

Ambos falam na carbonização dos corpos após a execução e na cena horripilante dos corpos queimando ao relento.

Ou se prova que o policial paraense, chegado já nos estertores da refrega, e o jovem acadêmico baiano eram velhos conhecidos, ou tinham motivos para se mancomunarem a fim de destruir a boa imagem do general Arthur Oscar e do alto comando da tropa em operação, ou, na ausência de provas e testemunhos bem consistentes, coerentes de fontes diversas, e não fofocas e mentiras de cunho político-partidário, somos obrigados a assumir peremptoriamente que a ordem para o massacre em Canudos surgiu inteiramente no comando direto das tropas que ultimavam o cerco ao arraial, em especial o seu comandante máximo: o general Arthur Oscar.

 


P 124 — Mais uma vez vemos a ‘mão’ de Arthur Oscar, o “general em chefe”. Por que essa meticulosidade em destruir as igrejas até os alicerces? Para que eles serviriam no caso de uma futura revolta internacional monarquista numa das regiões mais pobres do Brasil (fazendo força para não rir)? Por que essa preocupação em apagar o rastro daquilo tudo? Só consigo encontrar uma resposta lógica: dificultar qualquer tentativa futura de saber o que realmente aconteceu ali.

Favilla Nunes, que viu os destroços das igrejas, admirou-se de sua pequenez, de seu acanhamento. Ele chega a dizer que, se a Igreja Nova era uma fortaleza, como diziam, ele não saberia como qualificar a igreja da Candelária no Rio de Janeiro, mas até isso ficou difícil de aquilatar depois que as duas foram dinamitadas até os alicerces, algo completamente inexplicável, pois em Canudos não havia muralhas, trincheiras complexas, túneis, etc. — todos os relatos falam em buracos e covas feitas improvisadamente pelos seus pobres defensores. Há uma foto que mostra bem o acanhamento da Igreja Velha, de Santo Antônio, mas a única que temos da Nova não nos permite avaliar o seu tamanho. O ângulo da foto — de baixo para cima — fa-la parecer maior do que é.

Ironicamente, as mentiras verdadeiras e as falsas verdades propaladas pelos militares após a queda de Canudos, para justificar ou ocultar um crime tão aberrante, só serviram para enaltecê-la e aumentar indevidamente a sua fama, assim como a de seu infeliz fundador. Um homem que, apesar de seus erros, não merecia, assim como os seus, um final tão cruel, e que também está longe de ser um herói, um protótipo dos novos tempos, quando é justo o contrário.

Resgatar a verdade dos acontecimentos e a dimensão correta de Canudos é a melhor maneira de superar tanto a irracionalidade com que aquela comunidade foi destruída e posteriormente demonizada, assim como também é, agora, irracionalmente apresentada como um modelo.








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