sexta-feira, 22 de abril de 2016

APONTAMENTOS DE HISTÓRIA PARA O ENSINO FUNDAMENTAL-1 (6º ANO)

EGITO ANTIGO

Prof Eduardo Simões

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O rio Nilo
         O Egito está situado no norte da África, dentro do deserto do Saara. Portanto, o Egito é uma área de deserto, onde quase nunca chove, atravessada por um rio famoso: o Nilo. Enquanto atravessa o Egito, o rio Nilo não recebe água nem de chuva nem de nenhum afluente.
         O Nilo não nasce no Egito, mas muito distante, no centro do continente africano, numa região coberta de florestas, onde chove muito. Além dessas chuvas, o rio recebe as águas de muitos afluentes, antes de chegar ao deserto. Como a água é fundamental para a vida podemos dizer que o Egito só existe por causa do Nilo, e um autor antigo, chamado Heródoto, falou: “o Egito é uma dádiva do Nilo”.
         Nos meses de agosto e setembro as águas do rio Nilo, por causa das chuvas intensas nas suas cabeceiras, começavam a subir e inundavam as suas margens, alargando o comprimento do rio. Passado esse período, as águas começavam a baixar, mas deixavam depositada na terra uma quantidade imensa de matéria orgânica, chamada húmus (folhas, cascas de árvores, restos de plantas e animais mortos, etc.), que era um excelente adubo para a agricultura.

As primeiras comunidades
         Há muito tempo, uns 9 mil anos, algumas comunidades humanas isoladas começaram a fixar moradia próximo ao rio, para tirar vantagem da enorme quantidade de peixes, répteis, como o crocodilo do Nilo e mamíferos, como os enormes hipopótamos, que nele viviam, além de animais selvagens do deserto, como leões, chacais, etc., que se aproximavam para matar a sede, e inúmeras aves nidificavam nas suas margens ou nelas descansavam na sua migração.
         Essas comunidades, que a princípio se dedicavam à caça, à pesca e à coleta, com o passar do tempo começaram a praticar a agricultura de subsistência, plantando, apenas para consumo próprio, o trigo, a cevada, além de frutas e leguminosas, formando núcleos independentes, cada um comandado por um chefe local. A essas comunidades independentes foram chamadas de nomos.
         Os nomos do norte se uniram e formaram um reino, o Baixo Egito, enquanto os nomos do sul formavam o Alto Egito. Há uns 5 mil anos atrás, um rei do Alto Egito, chamado Menes, dominou o Baixo Egito e unificou os dois reinos, tornando-se o primeiro faraó do Egito.

O reinado dos faraós
         Para ter um maior controle sobre áreas tão distantes, ao longo do Vale do Nilo, o faraó, com a ajuda de um corpo de sacerdotes, conseguiu espalhar a crença sua origem divina, de tal sorte que as pessoas acreditavam que ele era uma espécie de deus aqui na terra, devendo-lhe obediência absoluta.
         Essa união em torno do faraó facilitou a que este, com a ajuda de funcionários bem preparados, organizasse o povo para trabalhar em grandes obras de engenharia, para tirar mais proveito das cheias do Nilo, por meio da construção de diques de canais, aumentando a área de cultivo.
         Para aumentar a veneração à sua pessoa, os faraós, além de viverem em luxuosos palácios, mandavam construir para si enormes sepulturas: as pirâmides, construções que exigiam o trabalho de milhares de camponeses, por anos a fio. A pirâmide mais antiga tem 4.700 anos, e a pirâmide maior e mais famosa é a do faraó Quéops, com 146 m de altura (um prédio de 48 andares).
         Os faraós eram tão zelosos de sua origem divina que ele e a sua família constituíam, sozinhos, uma classe especial na sociedade egípcia, e para evitar que estranhos entrassem na família, manchando a sua fama de divina, era comum o casamento entre parentes próximos – hoje nós sabemos que isso não convém, e pode ocasionar doenças ou defeitos graves nas crianças.
         O excesso de trabalho nas grandes construções acabou sobrecarregando os camponeses, que em diversas ocasiões se levantaram contra esse abuso, provocando uma crise geral no país. Os faraós seguintes entenderam o recado, e passaram a se conformar com tumbas mais modestas, algumas, inclusive não passavam de cavernas e túneis escavados nos montes ao redor.

A força dos sacerdotes
         Os sacerdotes, como compensação pelo apoio dado aos faraós, controlavam grandes extensões de terras dos templos dos quais eles eram guardiões. Oficialmente as terras pertenciam ao faraó. Eles também recebiam recursos e autorização para usar da força de trabalho dos camponeses para erguer imensos templos, além de cobrar, daqueles que trabalhavam nas suas terras, uma parte da produção. Desta maneira os sacerdotes se tornaram também uma classe muito rica e poderosa.
         Os sacerdotes faziam parte do conselho que orientava o faraó nas decisões mais importantes, e, dentro do palácio tentavam interferir na sucessão do faraó. Às vezes os sacerdotes, aliados aos nobres e chefes militares, tentavam se tornar independentes do faraó, e, se este era fraco, a anarquia tomava conta do país.

Nobres e militares
         Embora a civilização egípcia seja reconhecida pela sua índole pacífica, sempre houve povos interessados em roubar suas riquezas ou tomar as suas terras. Por isso os faraós mantinham exércitos bem organizados para combater os invasores. Para comandar esses exércitos os faraós precisavam de gente próxima e confiável, e assim, alguns jovens de famílias importantes eram treinados para comandar tropas e governar as regiões conquistadas. Esse grupo era a nobreza, e dela o faraó tirava governadores e ministros, dos quais o mais importante era o vizir, que fiscalizava o Egito em nome do soberano.
         O crescimento máximo do Egito se deu após 1575 a.C., quando eles conseguirem expulsar um povo asiático, chamado hicsos, que dominou o Egito por 200 anos. Comandados por alguns faraós agressivos, os egípcios invadiram a Palestina, guerreando contra os povos da região. Um faraó que ficou famoso pelas guerras que travou na região foi Ramsés II, o mais poderoso que o Egito já teve, muito ligado à história de Moisés da Bíblia. Essas guerras fizeram crescer o prestígio dos militares, também ansiosos por tomar o poder dos faraós.
        
Comerciantes e Escribas
         O rio Nilo foi uma via de comunicação vital para as pessoas que viviam no Egito, não para os camponeses, que não podiam sair de suas terras, mas para os comerciantes que o utilizavam para transportar e vender mercadorias, em geral alimentos e artesanato, de uma região para outra do país.
         Com o passar do tempo o comércio foi se ampliando e o Egito aumentou seus laços comerciais com os povos que viviam nas ilhas do Mediterrâneo, na Europa e na Ásia. O Egito exportava ouro, trigo, tecidos de linho, cerâmica fina, e o seu artesanato era famoso, enquanto importava prata, marfim e madeira. Havia comerciantes muito ricos, mas sua classe não tinha poder ou influência na sociedade egípcia. A indústria de extração de pedras, construção de navios, cerâmica, vidros e tecido se destacavam.
         Muita influência, porém, tinha o grupo dos escribas, especialistas nos três tipos de escrita que havia no Egito: a hieroglífica, a hierática e a demótica, além da matemática. Os escribas eram escolhidos em algumas famílias, pois era uma profissão que passava de pai para filho. A formação do escriba era longa e rigorosa, mas o habilitava como um administrador, escrivão e contabilista, algo muito necessário, quando se tratava de calcular o imposto que o camponês devia ao faraó, aos sacerdotes ou aos nobres. Os textos que temos hoje sobre o Egito nós devemos aos escribas.

Camponeses e escravos
         Quem realmente sustentava a sociedade egípcia era o camponês, livre, mas preso à terra onde trabalhava, e sujeito a muitos trabalhos gratuitos para o estado, como as grandes construções da engenharia civil e militar, que geralmente ocorriam depois da colheita, enquanto o camponês esperava a enchente do ano seguinte. Não havia tempo para o lazer.
         As colheitas eram abundantes e quase sempre havia fartura de alimentos, inclusive com sobras, que eram vendidas a outros povos, mas algumas vezes as chuvas, na África Central, podiam falhar, e aí a inundação do Nilo não seria tão grande, o que provocaria aperto e até fome, ou as chuvas podiam ser tão abundantes, que a inundação avançava sobre as casas dos camponeses e as destruíam. Mas, em comparação com outras regiões, a vida do camponês egípcio era tranquila, simples e farta.
         Abaixo do camponês estavam os cativos, homens e mulheres aprisionados em guerras ou que se submetiam a um trabalho obrigatório para saldar uma dívida. Essas pessoas, quer estivessem a serviço de uma família quer estivessem a serviço do estado, eram bem tratados e acabavam fazendo parte da família. Os estrangeiros capturados em guerras eram submetidos a um processo de egipcianização, e, após esse treinamento, eram considerados egípcios. Em geral eles eram incorporados ao exército, pois os egípcios não gostavam do serviço militar, e se tornaram as tropas preferidas dos faraós. O número desses cativos sempre foi muito reduzido
         Os egípcios não praticavam a compra e a venda de seres humanos em mercados.

A religião egípcia
         A religião egípcia era politeísta, ou seja, servia a uma grande quantidade de deuses, cada um responsável por um determinado aspecto da vida, nesse mundo e no mundo dos mortos. Uma das formas mais curiosas desses deuses era o seu aspecto: meio homem, da cintura para baixo, e meio bicho da cintura para cima.
         Esses deuses, apesar do seu aspecto, exigiam de seus fieis uma conduta elevada, que valorizava a justiça feita aos pobres, aos parentes próximos, aos abandonados, além do respeito à propriedade e às leis do país. Mas esse comportamento não se estendia aos outros povos, por quem os egípcios alimentavam desprezo e queriam distância. A bondade só era entre eles.
         Num determinado momento, um faraó chamado Akhenáton tentou implantar no Egito a crença em um deus único chamado Áton, representado pelo disco solar, um século antes de Moisés fundar o monoteísmo hebreu. Porém, os sacerdotes, que viviam e prosperavam da crença do povo em muitos deuses, ficaram inconformados, por isso, depois da morte do faraó, aplicaram um golpe com a ajuda do exército, restaurando o politeísmo.
         Os três deuses mais importantes, entre centenas de outros, foram: Osíris, o deus da vegetação e da vida, muito ligado ao Nilo, que casou-se com Ísis, deusa da maternidade, e com ela teve um filho: Hórus, o deus do céu, representado pelo falcão, que combate e vence seu tio Seth, o deus das trevas e da traição. Essa luta aconteceu, porque o malvado Seth havia morto o seu pai, Osíris, para assumir o poder supremo na terra, e espalhado os seus restos pelo mundo. A sua mãe, Ísis, entretanto, juntou os pedaços e conseguiu fazê-lo ressuscitar. Hórus, após crescer e tornar-se forte, derrota o assassino de seu pai e assume o poder.
         Uma técnica muito desenvolvida entre os egípcios é a da mumificação, pois para eles o paraíso só é pleno se o corpo permanecer intacto. Entretanto, essa técnica, que era praticada pelos sacerdotes, era caríssima, de sorte que só os muito ricos poderiam esperar a vida plena após a morte. Agora se alguém invadisse a sepultura e destruísse a múmia, tudo estaria perdido. Essa é uma razão para as armadilhas mortais que os egípcios colocavam nas sepulturas mais ricas.

O fim do Egito Antigo
         Após uma longa história, uma das mais longas que se conhece, a sociedade egípcia se esgotou e foi se tornando incapaz de defender as suas riquezas materiais e a sua cultura, frente a outros povos mais poderosos e mais adaptados aos novos tempos, a começar pelos grandes impérios asiáticos. Os assírios invadiram e causaram grande destruição em suas cidades. Mais tarde vieram os persas, em 341 a.C., e deram fim ao Egito independente.

         Posteriormente o Egito foi ocupado por gregos e romanos. O Egito que existe hoje é fruto da união dos antigos egípcios com os conquistadores árabes, e é, culturalmente, muito diferente do Antigo Egito.     

quinta-feira, 21 de abril de 2016

MAROCAS NA CASA DE IRENE

Prof Eduardo Simões

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Hipocrisia estrutural
__ A esquerda brasileira é tão encarniçada na acusação dos corruptos alheios quanto no acobertamento de seus próprios. Mesmo que a presidenta Dilma não tenha, ela própria, cometido qualquer ato direto com má intenção, algo difícil de sustentar após a delação de Delcídio do Amaral, como negar a sua incomparável capacidade de se cercar com gente “corrupta”, “ladra”, “traidora”, inclusive seu outrora dileto ex-presidente, conforme o dizem os fatos, a justiça... e os petistas? O objetivo de qualquer pessoa séria é combater a corrupção, venha de onde vier. Aqueles que votaram sim ao impedimento estão livres para aprovar, quando chegar a vez, a cassação de Eduardo Cunha, mas aqueles que votaram não, se votarem pela cassação de Cunha, mudarão a área de concentração da hipocrisia no Congresso, de acordo com a geografia da Professora Marcivânia do PC do B.

O que é que os vizinhos irão dizer?
__ Excessivamente preocupados com o açodamento das manobras no processo de impedimento, engendradas por Eduardo Cunha, na Câmara, os magistrados do STF, ao redefinir o rito, ignoraram um paquiderme na sala: a realidade atual do país, cuja situação política e econômica é muito mais grave que a do tempo de Collor de Mello.
__ Talvez os magistrados pensassem no caso paraguaio, quando a nossa distinta presidenta comandou um boicote internacional contra um aliado e parceiro histórico, por causa da celeridade, embora legal, do processo de impedimento de Fernando Lugo. Foi estranho! Entretanto, não dá para negar que foi excelente para o país, uma vez que a crise não se arrastou e os problemas internos puderam ser imediatamente equacionados. Digamos assim: os paraguaios, e, de uma maneira menos legítima, mas eficaz, os hondurenhos, em 2009, agiram pensando mais nos problemas de seus países. E nós, o que fazemos? 
__ Desconfiados de nós mesmos, o velho complexo de inferioridade ou de “vira latas”, de Nelson Rodrigues, olhando apenas para a política do Congresso, ignorando a falência do país e a polarização das ruas, de olho mais no rito, que no conteúdo das acusações, prolongamos indefinidamente a nossa agonia. Cada dia parece um ano, tantos são os acontecimentos!
__ Mas é apenas o início das dores, pois, se o Senado acatar, por maioria simples, a indicação de impedimento da Câmara, daqui há um mês, a presidenta se afastará e o vice assume, até que um julgamento, daqui sete oito meses, definirá, por maioria de dois terços, se a presidenta sai ou se retorna ao poder, desfazendo tudo que o vice fizer nesse período, o que é o mais provável. Ou seja, o país ficará de sete a oito meses com uma dupla presidência, a de fato e a possível, chefiadas por dois inimigos inconciliáveis. O que não sairá de golpe baixo e manobras escusas? Que sustos que nós não tomaremos? O país aguentará? Qual é o estrangeiro, com um pingo de juízo, que vai por um único centavo neste país?
__ Por imposição do STF, a pacificação do Brasil depende hoje única e exclusivamente da boa vontade, ou gesto de grandeza, da senhora presidenta. O país que se exploda – é mais fácil tirar um soberano inepto de uma monarquia absoluta do que um presidente inepto da república democrática do Brasil. O rito do processo de impedimento foi feito a partir de uma noção abstrata e moralmente suspeita de justiça, a mesma que favorece a absolvição de culpados pela prescrição do crime – Maluf e Calheiros sabem disso – e na judiciarização do Congresso Nacional, ignorando-se o mais elementar bom senso e as necessidades do povo.
__ Susto n° 1... da semana: o presidente do Senado acusa o presidente da Câmara de atrapalhar o processo, dando munição para os partidários da presidenta alegarem perseguição.
__ Susto n° 2... da semana: a chefa de governo já avisou que irá à ONU defender o seu governo. Eu espero, pelo amor de Deus, que ela, pela primeira vez, meça cuidadosamente as suas palavras, pois o seu vice, e substituto, já mandou um recado: o que ela disser lá terá resposta aqui. É Luís XVI, indo outra vez se abrigar no colo dos estrangeiros, com uma promessa prévia de guilhotina. Onde ficará a nossa Varennes (vila onde Luis XVI foi detido)? Estamos protagonizando o Cândido, às avessas.
__ Enquanto isso, o processo de impedimento prosseguirá com toda cautela possível, para que ninguém acuse de nada aos nobres senadores, nem de eficiência, e, principalmente, não dê motivo para falatório entre os vizinhos ou a outro rompante bombástico da “Professora” Marocas do PC do B.


__ Quem quiser saber o que é a casa de Irene acesse https://www.youtube.com/watch?v=riG1RQzzy6g

quarta-feira, 20 de abril de 2016

A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE RENAN CALHEIROS

Prof Eduardo Simões

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Revista VEJA, 5 de agosto de 2007

         O presidente do Senado foi categórico: não será um novo Auro de Moura Andrade, que, atropelando todos os ritos e a decência, declarou vaga, em abril de 1964, a Presidência da República, estando o Presidente João Goulart, sabidamente, em território brasileiro. Ele será “um magistrado”. Resta saber se será um magistrado como Sérgio Moro, da nova REPÚBLICA DE CURITIBA, ou será mais um do velho Brasil, tão preocupado em esquadrinhar ritos e vírgulas mal postas, que o crime prescreve antes do julgamento. Ele próprio já escapou de uma condenação séria na justiça graças a esse recurso, sem falar de sua renúncia, em 2003, para não ser cassado. Chegou mesmo ameaçar de entregar os trabalhos para o presidente do STF, que significaria praticamente parar os trabalhos.
         Na sessão de abertura dos trabalhos do impedimento no Senado, ontem, dos que eu vi, o senador Caiado foi um dos poucos que percebeu a gravidade da questão e a exigência de celeridade dos trabalhos, alegando o agravamento das tensões sociais, por conta do descalabro econômico que tomou conta do país, antes atribuído, pelo governo, à crise internacional, e agora, pelo Senador Humberto Costa, do PT, a ação da oposição. Ou seja: o vale tudo vai continuar.
         O grande problema a meu ver, que não foi citado na hora, é o fato de que a aprovação da admissibilidade do impedimento pela Câmara tornou público o fato de que mais de dois terços da principal casa legislativa disseram de maneira categórica à presidente: “não queremos mais a senhora no Executivo”, criando, na prática, um vazio de poder, um Presidente sem autoridade real, de consequências perigosíssimas, em um país economicamente fragilizado e politicamente polarizado. Tudo pode acontecer, desde ataques especulativos dirigidos do exterior até a quebradeira generalizada dos Estados, além de um rombo extraordinário nas contas do Governo Federal. Um dia que se perca pode ser fatal, mas o Presidente do Senado já sentenciou magistralmente que não haverá sessões extras. Os brasileiros poderão passar o seu fim de semana como se nada estivesse acontecendo.
         Calheiros tem interesse que os holofotes continuem na direção de Dilma, Cunha e Temer, e destes não mude, pelo equacionamento da crise, em sua direção, ele que está tão comprometido com os mal feitos da vez como os outros atores, ao mesmo tempo em que o PT, sonhado com o retorno ao poder, pretende, como os russos diante de Napoleão, deixar uma terra arrasada para o sucessor de Dilma, de sorte a fazer recair sobre ele a responsabilidade da crise, da mesma forma que os apertos passados por Fernando Henrique, que deixaram um país viável a Lula, foram usados pelo PT como matéria de acusação por desinteresse pela questão social, enquanto, hoje, à medida que protela a solução do problema que esmaga a classe trabalhadora, segue afirmando que a oposição prega o “quanto pior melhor”. Coitado do povo que ignora a sua história...
         Para não ser Auro de Moura Andrade Renan Calheiros corre o risco de ser outro Poncio Pilatos, que após muita protelação acabou oPTando por um desastre, que só não aconteceu porque a vítima era Deus, e deu a volta por cima, com vantagem para todos. Mas não é sempre que Deus está à disposição das fraquezas humanas, ainda mais com gente tão disposta a repeti-las.

Para quem tem memória curta: https://forarenancalheiros.wordpress.com/category/noticias/page/2/ 

terça-feira, 19 de abril de 2016

OCEANO DE HIPOCRISIA

Prof Eduardo Simões

Obrigado aos amigos de Brasil, Estados Unidos e Índia. Que esse blog vos seja útil e Deus os abençoe.

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__ A deputada federal do PC do B do Amapá, professora Marcivânia, promoveu um dos momentos mais bizarros da votação do impedimento na Câmara dos Deputados. Disse ela: “... nunca vi tanta hipocrisia junta por metro quadrado. Dizer que vai votar contra a corrupção, colocando Michel Temer e Eduardo Cunha como presidente e vice, é de uma hipocrisia sem tamanho... pela democracia, contra o golpe de Estado e institucional...” Institucional?! Será que a senhora “professora” está chamando de “golpe” a um movimento feito por uma instituição, a Câmara, dentro de um rito legal, previsto pelo STF! Então estamos diante de um “golpe” legal, e aí é necessário reinventar a língua portuguesa.
__ Com relação a Cunha e Temer, a única coisa, aparentemente, que de fato causa desconforto a essa gente, seria bom meditar uma coisa: a esquerda brasileira sempre foi muito encarniçada na hora de criticar os corruptos do outro lado, e, de fato, tanto Temer como Cunha, em especial esse último, têm certamente dívida alta no “cartório”. Mas, e do seu lado, não tem?
__ Qual é a diferença real do Lula dizendo que o sítio e o tríplex do Guarujá não são seus, porque não estão exatamente em seu nome, da desculpa de Cunha que as contas na Suíça não são suas, porque não estão, exatamente, em seu nome. De resto só Deus sabe, além dos áudios gravíssimos já expostos, o que já existe no repertório de conversas do Lula em mãos da Justiça.  E assim a senhora “professora” expõe, de uma maneira até cruel, a dupla moral da esquerda brasileira: o bandido dos outros é sempre bandido e deve ser punido ferozmente de todas as formas, já o ‘nosso’ bandido deve ser protegido, inclusive com o manto do foro privilegiado, uma excrescência do “ancien regime” em terras americanas. E isso, senhora professora, se o português ensinado no Amapá é o mesmo que no resto do Brasil, só tem um nome: hipocrisia... e da grossa.
__ De outra forma como explicar, que uma pessoa de moral pessoal tão séria e elevada, e tão preocupada com a moral republicana, a ponto de denunciar pública e espalhafatosamente mais de dois terços de seus colegas como corruptos, tenha se esquecido de anexar ao rol dos seus “corruptos” o eminente senador Renan Calheiros, também envolvido em escândalos financeiros, análogos aos de Cunha, e também na linha de tiro sucessória, caso a crise se aprofunde ou Cunha seja cassado? Ah! Mas Renan Calheiros faz o jogo do Palácio do Planalto, logo... Se essa gente é assim tão corrupta, o que a senhora faz no meio dela? Certamente que não é por causa do salário e das mordomias. Desculpe-me a pergunta professora, mas quem é que manda mesmo na sua consciência?  
__ O dinheiro da nação e propriedade do povo, e não da presidenta, para ela usar como bem quiser, distribuindo-o como quem dá presentes. Pois ela fez isso, assumindo despesas, a revelia do congresso, descumprindo o que estava previsto em lei, um precedente ilegal e perigoso. Ela atentou, sem autorização, contra uma propriedade do povo brasileiro e isso, desde o tempo do filósofo John Locke, há mais de trezentos anos, é motivo sim para a derrubada de um governo.

__ Nessa questão não falta hipocrisia, a nenhum dos lados, e criticar apenas um é dobrar a hipocrisia do seu ou mergulhar numa fantasia inócua ou delirante, a mesma que fez a esquerda ficar tanto tempo longe do poder na sociedade brasileira, e perde-lo justamente quando mais firmemente o tinha em mãos. 

quarta-feira, 13 de abril de 2016

A VIAGEM DO BEAGLE (1831-1836)

Prof Eduardo Simões

Obrigado aos amigos de Estados Unidos, Brasil e Suécia, que o blog vos seja útil e Deus os abençoe.

Caros amigos, não consigo mais postar os verbetes de história nas abas específicas, creio que acabou o espaço, portanto vou publicá-los entre as postagens, o que dificultará a vida daqueles que quiserem usar do blog como fonte de pesquisa. Lamento!

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http://www.admiralfitzroy.co.uk/

__ A viagem do Beagle foi um acontecimento político-militar, literário e científico, que marcou indelevelmente a história da ciência. Como um acontecimento político-militar, ele fazia parte de um ambicioso projeto da Marinha Real de cartografar ilhas e costas continentais remotas do Hemisfério Sul, com finalidade de melhorar as aprimorar rotas de navegação para navios mercantes e de guerra. Esse projeto, iniciado em 1825, foi inicialmente comandado pelo Capitão Phillip Parker King, do HMS Adventure, acompanhado pelo HMS Beagle, comandado pelo Capitão Pringle Stoke. Mas Stoke, deprimido pela inatividade e as terríveis condições climáticas no Estreito de Magalhães, cometeu suicídio em agosto de 1828, num lugar sugestivamente chamado Porto da Fome, e o navio foi conduzido por um oficial inferior à Montevidéu, para reparos. No ano seguinte o comando do navio foi entregue ao aristocrata de alto ranking: Robert FitzRoy (ilustração acima; leitor brasileiro, não escrevi errado o sobrenome), enquanto o Capitão Parker King, após conduzir o Adventure e o Beagle à Inglaterra, pediu reforma e abandonou o projeto. O almirantado resolveu continuar apenas com o Beagle do Capitão Robert FitzRoy.
__ Robert Fitzroy era um jovem oficial da marinha, com 26 anos, que conhecia bem os perigos da solidão em longas viagens como aquela (1), e por isso iniciou tratativas, junto a alguns amigos, para conseguir alguém com boa educação e conhecimento suficiente que pudesse ser um seu companheiro de conversação e até confidente. Esse companheiro também deveria ter uma excelente condição financeira, já que as despesas pessoais da viagem correriam todas por sua conta. Várias pessoas foram contactadas, mas recusaram, até que a notícia do interesse de FitzRoy chegou a John Stevens Henslow, professor universitário e mentor de Charles Darwin que, imediatamente, conectou o capitão ao seu discípulo.
__ O jovem Charles Darwin, então com 21 anos, tinha tudo o que Fitzroy precisava para ser um bom companheiro de viagem, inclusive o fato de ser “pooodre” de rico, mas por ainda não ter renda própria, teve que pedir um empréstimo ao melhor dos bancos: o papai, um médico famoso e um gênio das finanças, que, entretanto, fez jogo duro, uma vez que não via muito “futuro” nas “manias” de naturalista do filho – foi necessário a intervenção de um tio de Darwin, por parte de mãe, até dobrar o inflexível Robert Darwin. Mas o Capitão ainda hesitava, pois havia ainda uma dificuldade, na verdade duas, para serem vencidas:
a) Fitzroy era aristocrata, militante do partido tory, de cunho mais “conservador”, no sentido mais pejorativo do termo, ligado à nobreza agrária e aos velhos costumes, mentalmente cristalizada, enquanto os Darwin pertencia à facção wigh, formada pela pequena nobreza e pela burguesia empreendedora, mentalmente mais flexível. Charles mesmo era fruto da união dos Darwin, profissionais liberais e financistas, com os Wedgwood, da alta burguesia industrial, gente de cidade, com ideias bem originais sobre os costumes, políticos, sociais e econômicos que deveriam vigir na Inglaterra.
b) Fitzroy invocou-se também com o nariz, razoavelmente chato, de Darwin, que, na sua opinião, denotava certa fraqueza de caráter. Porém, após conviver uma semana com o pretendente, Fitzroy o aceita, e a viagem, após vários contratempos, começa, com a partida do navio do porto de Plymouth, sudoeste da Inglaterra, em 27 de dezembro de 1831.
__ No início da viagem Darwin leu o primeiro volume, de três, do livro do geólogo, e seu amigo, Charles Lyell, chamado Princípios de geologia, onde Lyell, influenciado por outro naturalista famoso, James Hutton, o fundador da geologia moderna, aprofunda os fundamentos da abordagem de fenômenos geológicos iniciada por seu mestre, e também conhecida como unitarianismo, que muito impressionaram ao jovem viajante (2).

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/9e/Charles_Lyell_-_Pillars_of_Pozzuoli.jpg
Por Charles Lyell - Charles Lyell, 1832. Principles of Geology, Vol.1; frontispice, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=7991418

A capa do primeiro livro, da primeira edição, do livro de Lyell, que Darwin leu, mostrando as três colunas do suposto Templo de Serápis, na cidade italiana de Puzzuoli – mais tarde se descobriu que as ruínas não eram de um templo, mas de um mercado, um macellum, um tipo de mercado coberto, semelhante aos nossos shopping-center, especializado, no caso, em produtos do mar. O que chama a atenção é a presença das colunas dentro da água, uma vez que o macellum, obviamente, não foi construído numa área alagada. A inundação do mercado aconteceu posteriormente, e foi muito mais profunda do que aparece na ilustração, uma vez que no primeiro terço das colunas aparecem pequenos furos, bem visíveis, feitos por espécimes marinhos. Essa imagem mostra, em uma estrutura de alvenaria, o fenômeno, por vezes imperceptível, do levantamento ou do rebaixamento do solo, por movimentos na crosta.

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/5/52/Serapeum_%28Pozzuoli%29_-2.jpg/800px-Serapeum_%28Pozzuoli%29_-2.jpg
Por Ferdinando Marfella - originally posted to Flickr as Macellum, tempio di Serapide, CC BY-SA 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=4877333

Foto atualizada das colunas do macellum de Puzzuoli, mostrando as três colunas da capa de Lyell, onde se podem ver as perfurações no primeiro terço das colunas, chamadas de gastroquenolitas, feitas por moluscos bivalves marinhos. A estrutura circular no meio do pátio é o que sobrou de um tholos, um pequeno templo circular de origem grega. O chão do pátio, ao redor do tholos, vive molhado pela água que exsuda do solo. O mar, hoje, está a menos de uns cem metros do local, mas pode vir a cobri-lo outra vez.

__ Não podendo desembarcar na ilha de Tenerife, em virtude de uma quarentena imposta aos navios ingleses, eles foram dar na ilha Salvador, no arquipélago de Cabo Verde, onde Darwin pode observar camadas de conchas, num corte do solo, bem acima do nível atual do mar, o que corroboraria a tese de Lyell.
__ Em 29 de fevereiro de 1832, o navio chegou a Salvador, na Bahia, onde Darwin teve o primeiro contato com a floresta tropical, que o deixou extasiado. Mas daqui também e le saiu muito chocado com uma característica onipresente em nossa realidade social: a escravidão. Darwin cometeu a ingenuidade de falar sobre seus sentimentos a respeito com o capitão Fitzroy, que a justificou de forma peremptória. Houve uma dissenção entre os dois, e Darwin foi expulso da expedição.
__ Fitzroy era muito conservador, no sentido mais pejorativo, mas não era empedernido, e talvez tenha evoluído, pois, mais tarde, quando foi governador na Nova Zelândia, tomou medidas protetoras a favor dos aborígenes, contra a exploração dos colonos. Também era um homem emocionalmente instável, seus oficiais o chamavam de “café quente”, e foram estes que, intercedendo junto ao Capitão, conseguiram que o naturalista fosse aceito de volta. Outra coisa que chocou a Darwin em sua estada na Bahia foi o excesso de familiaridade nas brincadeiras dos brasileiros, durante o carnaval da época: o entrudo.
__ Em abril de 1832 o navio chega ao Rio de Janeiro, e explode mais um contratempo: o médico cirurgião da expedição, Robert McCormick, que também fazia as vezes de naturalista, como era comum nos navios da época, sentindo-se  preterido por Fitzroy, preferiu, com autorização do Almirantado, abandonar a expedição. Darwin esteve vasculhando as matas no entorno do Rio de Janeiro, Niteroi, Cabo Frio, Saquarema, Maricá, etc. Em 5 de julho de 1832 o navio parte em direção a Montevideu, após perder um de seus tripulantes: um garoto, ainda aspirante, que contraiu uma febre após uma ida ao rio Macacu.
__ Em 26 de julho o navio chegou a Montevidéu e, após algumas medições feitas na foz do rio da Prata, partiu para o sul. Em 22 de setembro Darwin e FitzRoy fazem um passeio numa majestosa baia chamada Blanca. Onde ele se depara pela primeira vez com ossos de animais gigantescos, já extintos, e os descreve com grande fidelidade. Como explicar a extinção desses animais?

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By Conrad Martens (1801 - 21 August 1878) - English Wikipedia (13:42, 15 October 2005. User:Dave souza 1235x821 (73563 bytes) (HMS Beagle in the seaways of Tierra del Fuego, painting by Conrad Martens, from The Illustrated Origin of Species by Charles Darwin, abridged and illustrated by Richard Leakey ), Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1082238
  
__ Em 18 de dezembro chegam à Terra do Fogo, onde tem contato com os, agora extintos, habitantes humanos naturais da região: os povos fueguinos. Ao ver aqueles homens tão primitivos, nus ou seminus, cobrindo-se quando muito com peles de animais precariamente curtidas, sem falar da peculiaridades de seus costumes e modos sociais, Darwin teve um profundo choque, e as suas observações sobre essa gente não são muito lisonjeiras:

“Os fueguinos encontravam-se no mais miserável estado de barbárie, como eu nunca tinha imaginado ver em um ser humano” (http://www.ibamendes.com/2010/04/darwin-e-os-fueguinos.html).
“... a diferença existente entre o homem selvagem e o homem civilizado; é muito maior do que a que se observa ente um animal silvestre e outro domesticado” (idem).
“A linguagem destes fueguinos... apenas merece ser considerado algo articulado. O capitão Cook (?) [acho que o autor quis dizer “FitRoy”], a tem comparado ao pigarro, como quando alguém faz cócegas, porém posso garantir nunca ter ouvido um europeu limpar a garganta com sons tão roucos, tão guturais e tão estalados” (idem).
“Jamais esquecerei o espanto que tive, quando pela primeira vez vi uma reunião de fueguinos numa praia... Esses homens estavam completamente nus e tinham o corpo pintado... longos cabelos emaranhados, as bocas espumavam de excitação e tinham uma expressão selvagem, apavorada e cheia de suspeita. Malmente tinham alguma arte e vivam... daquilo que pudessem capturar, e eram impiedosos com quem não fosse da sua tribo... Quanto a mim quisera antes ter descendido daquela pequena macaquinha que desafiou seu terrível inimigo para salvar a vida do próprio guarda [episódio que eu não conheço]... ao invés de descender de um selvagem que sente prazer em torturar os inimigos, e encara as mulheres como escravas, que não conhece o pudor e que é atormentado por enormes superstições” (idem).

__ As opiniões de Darwin, em especial no que se refere à linguagem dos fueguinos, seriam, mais tarde, desmentidas pelo missionário inglês Thomas Bridges. Nessa expedição, porém, havia uma missão especial e ser desempenhada junto aos índios.

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__ No ano anterior o Capitão Fitzroy, em passagem pela Terra do Fogo, teve um de seus botes roubado pelos índios, e, como represália, resolveu tomar – sequestrados ou comprados? – quatro jovens fueguinos, um dos quais morreria mais tarde de varíola, e leva-los à Inglaterra, para educa-los e trazê-los de volta, a fim de que eles, se tornassem agentes da civilização entre o seu povo. Chegara a hora de devolvê-los à sua gente. Em 23 de janeiro de 1833, os três índios, chamados em inglês, York Minster (27 anos), Jeremy ou Jemmy Button (15 anos) e Fuegia Basket (10 anos), foram devolvidos para a sua gente, dando início à epopeia de seu infeliz retorno.
__ Logo depois o navio parte para as Malvinas, que tinham acabado de se tornar britânicas, com o nome de Falklands. Aí Darwin, com o consentimento de FitzRoy contratou o jovem grumete, de apenas 16 anos, Syms Covington, para ser seu ajudante. Covington mostrou-se um ajudante muito aplicado e competente, tendo feito muitas anotações que complementam e enriquecem as de Darwin.
__ Em 8 de agosto de 1833 os navios aportaram na foz do rio Negro, na Argentina, onde Darwin desembarcou, com Covington, e quatro dias depois teve uma entrevista pessoal com o caudilho Juan Manuel Rosas, que estava nessa região promovendo uma expedição punitiva aos índios patagões sublevados. Rosas dá-lhe uma autorização para se enfronhar no interior da Argentina, inclusive cruzar as regiões dos Pampas, onde ele tem um contato mais próximo com o consagrado tipo local: o gaúcho, no meio dos quais viveu por um tempo, observando muitos de seus hábitos curiosos, com a caça com boleadeiras, além da fauna e as características do relevo local. Revisitou baia Blanca, mas quando tentou ir para Buenos Aires, encontrou-a cercada pelas forças de aliadas a Rosas, nas intermináveis guerras civis que se seguiram à independência do país, sendo o brigado a tomar um barco de refugiados e seguir para Montevidéu, para se encontrar com o Beagle, que havia retornado do sul, conferindo suas medições cartográficas.

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http://xstor.deviantart.com/

Reconstituição de um Scelidotherium, uma espécie de preguiça terrestre extinta há uns 11 mil anos. Esse animal tinha 2,5 m de comprimento e 1,1 m de altura, pesando de 600 a 800 kg

__ Darwin desceu novamente, a cavalo, na direção do rio Negro, onde, em 25 de novembro, viu os enormes ossos de uma preguiça extinta, além de outros animais, que ele supôs ser um mastodonte e um gliptodonte, e diversos outros. Ele retornou a Montevidéu e de lá o Beagle navegou para o sul da Argentina, chegando em 23 de dezembro a Puerto Deseado, onde ele caçou um guanaco, cuja carne serviria para a refeição de Natal da tripulação.
__ Em 9 de janeiro de 1834 o navio chegou a Puerto Julian, ao sul de Puerto Deseado, e em 26 de janeiro eles entram pelo Estreito de Magalhães, no extremo sul do continente. Em 5 de março eles chegaram à ilha onde haviam deixados os três fueguinos meses antes, e encontraram suas moradias, construídas à moda europeia, abandonadas. Jemmy Button reapareceu, mas estava nu, vestindo apenas um gorro de peles, já casado e dizendo querer voltar ao estilo de vida de seu povo. Aquilo foi um choque para Darwin, afinal parecia a evolução às avessas, pois no início da viagem, Jemmy mostrara uma capacidade de adaptação tão notável ao modo de vida inglês, que o entusiasmara. Por que o abandonara tão rápido, e parecia estar realmente feliz com a mudança? Em 16 de março voltaram para as Falklands, em meio a um conflito entre gaúchos e índios, que haviam acabado de massacrar uma missão cristã.
__ Ao terminar a expedição à Patagônia argentina Darwin escreveu um pequeno ensaio chamado Elevação da Patagônia, onde “ainda hesitante, ele desafiou a abordagem de Lyell, baseado nas medições oficias da expedição do Beagle e nas que ele próprio fez, ao propor que as planícies [da Patagônia] havia se erguido no seu conjunto, em etapas sucessivas, em vez de erguimentos contínuos, em menor escala [como seria na tese de Lyell], ao mesmo tempo em que descartava a ideia de um dilúvio catastrófico... supondo um único movimento repentino” (Wikipedia em inglês – Second Voyage of HMS Beagle). Ele estava certo nas duas conclusões.
__ A seguir o Beagle, acompanhado por uma pequena chalupa chamada Adventure, comprado por FitzRoy, atravessa o Estreito de Magalhães, e chega à ilha de Chiloé, na costa chilena, no Oceano Pacífico, em 28 de junho de 1834. Chegam ao porto de Valparaíso, em 23 de julho, e ele, após comprar uns cavalos, partiu para uma expedição exploratória numa montanha ali perto. Esteve também visitando uma mina de exploração de cobre, de onde voltou com sintomas de doença de chagas.

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__ Enquanto Darwin convalescia, FitzRoy entrou em conflito com o Almirantado, por causa da compra, feita por aquele, do Adventure, e ameaçou entregar o comando da expedição, sendo detido a custo pelos oficiais. A susceptibilidade de FitzRoy era preocupante. Em 11 de novembro o Beagle parte para o arquipélago de Chonos, quando a tripulação assiste à erupção do vulcão Osorno, em janeiro de 1835. Esquadrinhando a área Darwin encontrou novos fósseis de animais pré-históricos, mas não encontrou nenhuma evidência geológica do dilúvio.
__ Em 8 de fevereiro de 1835, o Beagle chegou a Valdivia, onde, 12 dias depois, Darwin sentiu um forte terremoto que deixou o porto bastante danificado. Daí o navio partiu Concepción, 320 km a norte, e encontraram a cidade devastada. Observando uma camada de mexilhões, comparada com o nível do mar, o Capitão constatou que o terreno da cidade se elevara uns 2,7 metros, com esse terremoto, o que foi confirmado mais tarde por medições mais apuradas. Estava, para Darwin, confirmada a teoria de Lyel quanto aos movimentos da crosta terrestre, em especial o levantamento dos continentes.
__ Mais uma vez foram a Valparaíso, em março. Novamente fez proveitosas cavalgadas pelo interior do país, e anotações valiosas para a sua teoria sobre a formação da Terra. Mais tarde o Beagle embicou para Lima, no Peru, onde ele pensou em desembarcar, mas uma guerra civil em curso (Guerra Civil Peruana de 1835-36 ou Guerra entre Slaverry e Santa Cruz), com sangrentos combates de rua, fê-lo mudar de ideia.

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__ em 15 de setembro o Beagle chegou a Puerto Barquerizo Moreno, no arquipélago das Galápagos, no Equador. Nesse arquipélago ele permanecerá até 20 de outubro fazendo observações preciosas da geologia, e principalmente da fauna local, que, por suas características únicas, o ajudaram, posteriormente, a embasar as conclusões mais impactantes de sua teoria evolutiva. Depois ele partiu, com a expedição, para a Polinésia Francesa, alcançando-a no dia 9 de novembro. Em 15 de novembro eles chegaram ao Thaiti, onde a recepção amistosa dos nativos deixou-o muito bem impressionado, e desfez, nele, um preconceito vigente entre intelectuais europeus da época, de que o cristianismo corrompia irremediavelmente os costumes desses povos.
__ Essa boa impressão, entretanto, se desfez quando ele chegou à Nova Zelândia, em 19 de dezembro, onde, apesar da assistência dos missionários, desta vez anglicanos, os tatuados maoris viviam em casa que Darwin definiu como “de uma sujeira e imundice ofensiva”. Não lhe causou impressão diferente os colonos brancos do lugar, na maioria fugitivos e apenados de presídios de Nova Gales do Sul, Austrália, de sorte que ele ficou satisfeito em ir embora dali.

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__ Em 12 de janeiro de 1836 eles chegaram à Austrália que, à primeira vista, lembrou-lhes a Patagônia, embora Darwin tenha ficado muito impressionado com a agitação urbana de Sidney. No seu primeiro contato com os aborígines locais, ele os descreveu como “agradáveis, alegres, bem diferente da crença dominante de seres totalmente degradados”, e lamentou o acelerado decréscimo populacional que sofriam. Conheceu a estranha fauna local. Chamou-lhe a atenção o ornitorrinco, com o seu bico macio. A maioria dos europeus de então eram descrentes do relato dos nativos de que eles punham ovos.
__ Em fevereiro o navio chegou a Hobart, capital da Tasmânia, onde Darwin ficou muito bem impressionado com a elegância e costumes da elite colonial, mas constatou que: “todos os aborígenes haviam sido trasladados a uma ilha do Estreito de Bass, de modo que a Terra de Van Diemen [antigo nome da Tasmânia] desfruta da grande vantagem de estar livre de uma população nativa. Mas essa medida cruel parece ter sido inevitável, como o único meio de deter uma terrível sucessão de roubos e assassinatos cometidos pelos negros, o que, cedo ou tarde, redundaria em sua completa extinção [o que acabou acontecendo]. Temo não haver dúvidas, que esse conjunto de males, e suas consequências, se originou da infame conduta de alguns de nossos compatriotas. Trinta anos é um período muito curto para se desterrar, até o último, todos os aborígenes de uma ilha quase do tamanho da Irlanda...” (traduzido da Wikipedia em espanhol – Guerra Negra) (2).
__ Sobre os aborígenes que viu, ele deixou a seguinte impressão: “a boa disposição dos negros aborígenes... Embora verdadeiros selvagens, é impossível não sentir uma simpatia por esses homens de índole tão pacífica e boa” (Wikipedia em inglês – Second Voyage of HMS Beagle). Seus compatriotas não pensavam assim, e os exterminaram, da forma mais brutal possível. Mais tarde ele assistiu a uma festa com performance de danças feitas por homens de duas tribos, na companhia de mulheres e crianças, que descreveu como uma ““cena muito rude e bárbara”, como se um espírito ébrio se apossasse deles, “movendo-os em hedionda harmonia” e “perfeitamente à vontade”” (traduzido Wikipedia em inglês). Era a dança de um povo deprimido pela sua sorte, talvez pedindo o extermínio daqueles que os assistiam. Ao partir de Hobart um contratempo: o Beagle encalhou, e perderam algum tempo.
__ Em 1º de abril ele chegaram à ilha Keeling, atual Cocos, para fazer um estudo mais detalhado, conforme as instruções do Almirantado, onde examinaram minuciosamente a estrutura dessas ilhas feitas de atóis de coral. Em 29 de abril chegaram às ilhas Maurício, onde ele se admirou da qualidade de vida daquela colônia francesa.
__ O Beagle cruza o Cabo da Boa Esperança, em 31 de abril de 1836, aporta na cidade do Cabo. Lá Darwin recebe uma carta de sua irmã, Caroline, datada de 29 de dezembro!, informando-lhe que a sua fama se espalhava pelo país. A situação é a seguinte: à medida que a viagem transcorre e Darwin vai desembarcando nos lugares, ele junta e embala caprichosamente milhares de espécimes e amostras, que, na primeira oportunidade, despacha para a Inglaterra aos cuidados do professor Henslow, que, certamente, não cessa de tecer elogios ao pupilo nos meios acadêmicos, além de publicar as suas observações parciais, mas já bem acuradas, que Darwin fizera dos lugares que passou e de suas descobertas – alguns desses relatos já haviam sido lidos, em novembro de 1835, pelo renomado geólogo Adam Sedgwick, seu amigo, embora opositor, mais tarde, de sua teoria evolutiva, na Sociedade Geológica de Londres. Uma brochura, com um apanhado de seus relatos, foi publicada e, dizem, seu pai, que o apoiara  a contragosto, sentou-se em uma cadeira e dela só se levantou após ler a última palavra do livreto.
__ Entre os dias 8 e 15 de junho, enquanto o navio esteve ancorado no porto da Cidade do Cabo, ele e FitzRoy visitaram um dos mais conhecidos e populares estudiosos de seu tempo, o polímata, John Herschel que fez estudos profundos em diversas áreas como astronomia, filosofia da ciência e fotografia, entre outras – ele disputa com o franco-brasileiro Hercule Florence a paternidade da palavra “fotografia”. Herschel era amigo de Lyell e, assim como Darwin, admirador de sua teoria geológica. Aliás, Darwin exultou muito com aquele encontro e, na introdução de seu Origem das espécies, dirá que boa parte de seu direcionamento de pesquisa e de suas conclusões seria influenciada por Herschel.
__ Em 8 de julho eles chegam à ilhota vulcânica de Santa Helena, onde Darwin fica alojado próximo ao túmulo de Napoleão Bonaparte. Andando pelos arredores ele observa a curiosa estrutura geológica da ilha e constata um desastre ecológico: toda a vegetação original da ilha, uma densa floresta tropical, desaparecera, devorada por animais trazidas pelos europeus.

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__ Em 19 de julho chegam a Ilha de Ascensão, onde Darwin recebe mais notícias animadoras da Inglaterra, e já se imagina voltando para casa, mas FitzRoy, desejando conferir algumas medições, leva o Beagle de volta para a Salvador, onde ele tem o prazer de rever, pela última vez, a floresta tropical, passando ainda por Pernambuco, onde ele constata uma elevação do litoral, e daí para a Inglaterra, onde chegam, em 2 de outubro de 1836, no porto de Fallmouth, na Cornualha.
__ Assim que desembarcou, Darwin foi diretamente para a casa paterna, chegando a Mount House (as mansões das famílias mais importantes da Inglaterra tinham nomes próprios), em Shrewsbury, onde chegou altas horas da noite, do dia 4 de outubro, indo direto para a cama. Os abraços e cumprimentos formais se deram no café da manhã do dia seguinte. Ele passou ainda uns dez dias matando a saudade e curtindo a família, antes de ir a Cambridge e visitar seus mestre e benfeitor, Henslow. Tocado pelo sucesso do filho o velho Robert Darwin resolve premiá-lo com uma renda que lhe permitirá, daqui por diante, viver só para os seus estudos e pesquisas. Eles, os capitalistas ingleses, pelo menos, sabem usar bem o dinheiro que acumulam... Acima de tudo, agora, Darwin sabia qual era a sua vocação e a sua missão nesse mundo, e a desempenhou com louvores.
__ O resto é essa revolução científica que vem até os dias de hoje, e que só Deus sabe o quanto ainda vai frutificar, para o bem dos homens.

(nesse artigo eu segui o roteiro do verbete The Second Voyage of the HMS Beagle, na Wikipedia em inglês, francês e espanhol)

Notas
(1) Fitzroy tinha muito boas razões para “temer” as duras condições daquela viagem tanto por conta do suicídio do capitão anterior, como por haver em sua família um caso análogo, de um tio seu, o Visconde de Castlereagh, que, impopular e deprimido, isolou-se em uma grande propriedade, e se suicidou em agosto de 1822. FitzRoy terá o mesmo fim de seu tio, produzido pelo mesmo instrumento de morte: uma lâmina de barbear.
(2) O unitarianismo de Lyell advoga que os mesmos eventos geológicos hoje em curso, que alteram, moldam, a superfície da Terra, são os mesmos desde a formação do planeta. Essa crença é sintetizada no adágio: “o presente é a chave do passado”. Outras coisas ainda estão ligadas a essa escola:
a) O longo intervalo de tempo necessário a esses fenômenos apontam para uma idade incrivelmente antiga para a terra – na época de Lyell acreditava-se que a Terra possuía uns 6 mil anos.
b) O unitarianismo colocava em cheque a doutrina dominante do catastrofismo, extinção em massa de espécies e transformações abruptas da surperfície, que era usado, por exemplo, para justificar as teorias criacionistas: Deus criou o mundo moderno (com suas espécies vivas), após uma grande catástrofe que liquidou o mundo dos dinossauros, que começavam a ser descobertos.
c) Os fenômenos geológicos do passado podem ser explicados pelas mesmas causas que operam transformações análogas no presente; é o atualismo.
d) Esses fenômenos são uniformes, não abruptos; é o uniformismo.
e) Fenômenos de destruição e de criação compensam-se mutuamente; é o equilíbrio dinâmico. Esse equilíbrio se observa na ação compensatória de dois procesos básicos de morfogênese geológica: os fenômenos aquosos (erosão e sedimentação) e os fenômenos ígneos (vulcânicos e sísmicos).
Embora Lyell se opusesse às extinções em massa, ele advogava a extinção localizada de algumas espécies, que sucumbiam às mudanças morfogenéticas ou climáticas, devido á seleção natural, denunciando a influência posterior de Darwin, seu amigo, que ele, Lyell, sempre negou peremptoriamente, da mesma foma que Darwin sempre negou a influência de Lamarck no seu trabalho, embora essa influência esteja lá.

(2) Darwin se refere aqui a um dos mais sangrentos, imorais e brutais acontecimentos da história: a guerra bem sucedida de extermínio aos povos da Tasmânia, levada a cabo com uma crueldade incomum, raras vezes vistas em povos que atingiram o grau de civilização, ainda mais os ingleses que, naquela, gostavam de ensinar lições de moral ao mundo – veja-se a campanha contra o comércio de escravos, principalmente os do Brasil – feita pelos bandidos psicopatas que eles “exportaram” para a Austrália e Tasmânia. Os últimos sobreviventes foram isolados na ilha Flinders, e lá abandonados até a completa extinção. Darwin, a esse respeito estava muito mal informado. 

segunda-feira, 11 de abril de 2016

FANTASMAS DO PASSADO

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Todos compadres e comadre.

Prof Eduardo Simões

__ Os acontecimentos do presente, me trazem de volta, e de uma forma insistente, lembranças de um passado que eu pensei estarem encerradas, e que dizem repeito à campanha presidencial de 1989.
__ Na campanha do candidato à presidência Guilherme Afif Domingos, uma das figuras mais exóticas que se lhe anexou foi o da vidente Neila Alckmin, que, segundo a crença geral, havia tido uma visão com o ex-presidente Juscelino Kubitschek, onde este lhe indicara as iniciais do melhor homem para vencer as eleições daquele ano: GAD; mas havia mais...
__ Certa vez, já no final da campanha quando vimos a chance de nosso candidato ir pelo ralo, graças á sua inexperiência em debates e as “cascas de banana” postas pelo candidato do PSDB, que, o quanto pode, sustentou um discurso de esquerda, meio socialista meio socialdemocrata, como é do feitio dessa gente, enquanto, no poder, implementava medidas tipicamente de direita ou do mais rasteiro e sanhudo capitalismo. Pois bem, no meio da sondagem sobre que candidato apoiar, um dos próceres do comitê, que tinha muito acesso ao grupo que privava com dona Neila, nos alertou do seguinte:
__ “O único candidato que não pode vencer de maneira nenhuma é Fernando Collor, pois, numa visão, foi-lhe revelado, a dona Neila, que se Fernando Collor vencesse o Brasil iria acabar numa crise sem precedentes, uma espécie de fim do mundo”; as palavras foram mais ou menos essas. Houve ainda o relato de que a vidente saíra do transe absolutamente aterrada com o que vira...
__ “E sobre o PT, perguntou alguém, o que ela disse?”
__ “O PT vai se autodestruir”. Como a ordem era combater a vitória de Collor, a regra disposição do comitê foi apoiar Lula contra Collor. Eu não me convenci e não votei em nenhum, pois achava que os dois só poderiam trazer desgraças a esse país. O povo pensou o contrário, e foram os dois para o segundo turno.
__ Fernando Collor foi eleito. O país começou a ser arrastado para o colapso, mas a sociedade reagiu em tempo e a ameaça foi debelada. Eu, que ainda me lembrava daquela profecia, respirei aliviado, assim como todo o Brasil. E nós vimos, mais tarde, o governo equilibrado de Fernando Henrique, e mesmo Lula, em grande estilo, surpreendendo a muitos, inclusive a mim. O discurso incendiário se transformara numa prática reformista lógica, pragmática, elogiada por todos os especialistas. As visões de dona Neila foram definitivamente sepultadas, afinal as coisas que existiam entre o céu e a terra do Brasil, não pareciam assim tão numerosas e graves a ponto de gerar memória compulsiva e maiores preocupações.
__ Entretanto, tudo mudou. Collor, esse persistente enamorado dos cofres da nação, retorna à vida pública ainda com mais poder: poder de ficar longe dos holofotes, enquanto faz o que mais sabe e aprecia, e dessa vez de mãos dadas com seu desafeto nas eleições de 89: Luis Inácio Lula da Silva e o seu PT. Lula, por sua vez, resolveu aproveitar a aposentadoria presidencial para se recompensar por tudo que fizera pela nação, e deixou uma sombra em seu lugar. E por falar em sombra, Lula também foi se aninhar com uma antiga assombração do Regime Militar: Paulo Maluf, o que ninguém jamais esperava nem podia conceber.
__ Depois vieram dois anos de escândalos grandes, contínuos e infames, que só Deus sabe quando e aonde vai parar, onde os maiores criminosos e principais acusadores é gente do próprio PT ou gente a ele muito ligado (empreiteiros): Jose Dirceu, Vaccari Neto, Delúbio Soares, Helio Bicudo, Marta Suplicy, Delcídio do Amaral... Frei Betto, numa entrevista ao site do UOL, é taxativo: “o PT só busca os movimento socais, quando está em apuros”. Nesse mesmo site uma notícia quente: 26 deputados federais, entre eles um dos mais respeitáveis, Arlindo Chinaglia, estariam preparando a sua saída do partido após as eleições deste ano. No Rio Grande Tarso Genro prepara a criação de um novo partido.... Mais um! Ufa!
__ O PT, sem dúvida, está se autodestruindo, como previu dona Neila, será esse o prenúncio do nosso fim do mundo?


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http://noticias.uol.com.br/

Mas já foi assim